Olá, para todos que estão lendo uma obra minha pela primeira vez, já declaro: É a primeira vez em que trabalho com um enredo voltado para o mundo do crime... Embora meu livro Cattleya aborde um tema um pouco parecido de forma completamente diferente. Vocês já devem ter notado que tenho um gosto peculiar para nomes de livros com nomes de flores, pois é, não foi o primeiro e não será o último, fiquem atentos! Muito obrigada por se dispor a ler uma obra minha, sou grata a vocês por fazerem meus devaneios mais malucos se tornarem tão reais...
Vivo dizendo para o meu esposo – inclusive, obrigada amor por me suportar tão bem com o meu mundo paralelo – que vivo em muitos mundos ao mesmo tempo e as vezes se torna insuportável. Mas preciso dizer; foi foda conviver com a Jass e o Ary, amo esta mulher com todas as minhas forças, e embora minhas personagens femininas com nome de flor sejam sempre fodas, essa foi bastante especial. Foi enlouquecedor, e incrível ao mesmo tempo conviver com cada um que morou neste livro por todo o processo de criação, foi bom conhecer um pouco mais da dona Marília. E assim como você irá reagir, tenha em mente que comigo foi igual. Eu vibrei, chorei, e me surpreendi com cada virada. Igual a vocês, eu nunca sei qual o desfecho que meus livros irão tomar... Eles se apresentam para mim e me obrigam a escrevê-los por noites a fio, por horas e mais horas, até que sejam concluídos e eu possa viver em paz. Então; obrigada de coração por me darem o privilegio de poder mostrar a vocês um pouco dos meus universos tão loucos.
Obs: Ao longo da leitura vocês irão se deparar com muitas frases ou palavras em idioma alemão, para que vocês possam entender o que está sendo falado. Aconselho que visita a página do dicionário alemão contendo todas as palavras e frases incluídas no texto, caso não tenho como abrir o Google tradutor, essa página os salvará.
Espero de coração que amem esse livro, como eu amei escrevê-lo, e que se amarem, busquem mais obras minhas... Estarei ansiosa pelo feedback de vocês! Boa leitura!
Atenciosamente, Nay Lisboa.
*- Seja bem vinda de volta, meu amor. - Minha mãe falou ao me ver passar pela porta carregando uma mala.
- Obrigada, minha vida. Estava com tanta saudade! - Falei a abraçando de lado e passando para dentro.
- Sei que você vai se acostumar com as coisas, o restaurante está lindo! Eu sonhei com o dia em que você passaria por essa porta novamente. - Minha mãe disse com os olhos marejados.
- Eu também minha mãe, eu também! - Falei sorrindo.
- Vamos, vamos até o seu quarto. Está do jeito que você deixou! - Ela disse fungando e me guiando até o andar de cima. - Minha doce Jasmim, meu raio de Sol. Seu pai ficaria orgulhoso de você.
- Ele ficaria... - Falei ao entrar em meu quarto e vê-lo literalmente da mesma forma que deixei. Há sete anos. Eu estava feliz em voltar para casa.*
Eu tinha tudo para ser feliz, tudo e mais um pouco... Mas aos cinco anos deixei de ser como essas garotas que acreditam em meros contos de fadas. Eu acreditava nos livros e nessa coisa de ter um amor da sua vida, mas não acreditava que pudesse acontecer comigo. Com vinte e três anos, prestes a ingressar na faculdade de artes visuais para viver o meu sonho de fotografar belezas nos meros detalhes pelo mundo a fora, nascida na cidade de São Paulo e filha de Militar que serviu no exercito, eu estava finalmente no lugar que eu desejava. Todo o meu mundo virou de cabeça para baixo quando meu pai morreu em serviço quando eu tinha apenas cinco anos, minha mãe nunca deixou de ter os olhos brilhando ao falar o quanto ele era um ótimo esposo, carinhoso, gentil, um príncipe. Eles foram casados por oito anos. Apenas oito anos para fazer a mulher que ama, a pessoa mais feliz do mundo. Dona Marília – minha mãe – sempre foi uma mulher guerreira, dona de seu restaurante no centro de Holambra, cidade onde moramos. Eu amava meu pai com todas as minhas forças, e amava mais ainda vê-los cozinhando juntos quando ele estava em casa, mesmo que eu consiga me lembrar de apenas um ou dois momentos como este. Lembro-me como se fosse hoje desta história de amor contada por minha mãe com um olhar apaixonado e sofrido ao lembrar-se do seu falecido marido...
*- Eu conheci seu pai quando minha mãe resolveu fazer uma faxina na casa de uma Senhora riquíssima que tinha um enorme jardim, na época morávamos na rocinha e pegávamos ônibus lotado para chegar até lá, era divertido ouvir as fofocas as cinco da manhã, era divertido pra mim... - Dona Marilia riu sentada no sofá perdida em pensamentos. - Para minha mãe era sempre um estresse, afinal, era exaustivo. Eu tinha dezesseis anos, e na madrugada anterior havia rolado tiroteio... Como a Senhora da casa sairia naquele dia e ela ficaria sozinha, resolveu que me levaria por medo de que rolasse tiroteio novamente e eu ficasse só em casa. Enquanto minha mãe fazia faxina eu resolvi andar um pouco pelo jardim e conhecer as belas flores que ali habitavam. Foi onde vi seu pai pela primeira vez, ele tinha dezoito anos na época. Lindo. - Ela abriu um sorriso... - Ele me perguntou meu nome e ficamos conversando, Pedro me apresentou cada espécie de planta que havia naquele lugar, eu perdi completamente a noção das horas ao lado dele, e quando nos despedimos, ele retirou uma flor Jasmim e me deu. Aquilo me fez ter borboletas no estomago. Entrei e fui ajudar minha mãe nas tarefas. Depois daquele dia a convenci de que poderia ser útil a ajudando nos finais de semana com a faxina. Ela deixou, e eu o Pedro conseqüentemente nos aproximamos mais, trocamos contato e começamos a namorar escondido, algumas vezes o Pedro ia me ver no colégio e saíamos para comer alguma coisa, ele foi meu primeiro homem. Só que nossos mundos eram completamente diferentes né! Eu fiz Enem e ingressei na faculdade de administração e o Pedro passou no concurso militar, ficamos dois anos sem nos ver e perdemos contato, foi uma partida dolorida demais e eu foquei somente na faculdade... Até que um dia está eu na faculdade completamente distraída, quando entra o Pedro que estava ali para um seminário sobre a importância do exercito brasileiro, na época por conta de toda a guerra que estava acontecendo entre facções e etc., esse seminário era útil em várias escolas e faculdades. Eu o reconheci na hora, ele veio até a mim após o seminário e conversamos. A partir disso ele passou a colocar crédito em meu celular para que pudéssemos voltar a trocar sms, conversávamos por chamada, já que naquela época não tinha redes sociais. E um dia como quem não quer nada, ele me pediu em casamento. O namoro naquela época não era tão simples, principalmente porque nossos mundos eram diferentes e nosso relacionamento não seria aceito, já havíamos tirado a prova no começo. Do dia pra noite ele me apresentou essa nossa casa aqui em Holambra e nos mudamos para cá dois meses depois, nos casamos no civil um dia antes de nos mudar, dinheiro compra certidão de casamento, simples assim, fugimos. - Ela riu.
- E minha vó? - Perguntei curiosa.
- Sua vó só ficou sabendo que eu iria embora quando apareci com a aliança no dedo. Avisando que havia casado com o Pedro e que de nada adiantaria mais ela dizer que não daria certo. Ela riu da minha cara, me abraçou e me desejou felicidades. Eu sabia que ela se comportaria daquela maneira, quem não aceitou foi a mãe do Pedro que como sabíamos que ela faria um inferno escolhemos essa casa longe dela.
- Que lindo, mãe! - Falei sorrindo.
- A aventura não para por ai, você havia me perguntado por que Jasmim, não foi? - Ela sorriu, eu assenti. - Escolhemos Holambra por ser a cidade das flores... E um detalhe muito importante é que quando engravidei de você meu desejo era sempre cheirar Jasmim. E então soubemos que seria uma menina. Deixamos para escolher seu nome no parto e quando seu pai colocou os olhos em você, ele disse: Doce como uma flor de jasmin e de alma livre como a Jasmine. Minha linda Jasmim. Assim você escolheu seu nome. - Minha mãe falou rindo.*
Mas nem sempre todas as histórias têm finais felizes, últimamente eu me importava apenas em ser e ver a felicidade da minha mãe. Ela era meu coração. Fotografar, cuidar de dona Marilia e trabalhar no restaurante dela, eram as únicas coisas que me importavam.
O alarme do meu celular tocou me mostrando que já eram seis e meia. Ainda de olhos fechados enfiei a mão debaixo do travesseiro pegando-o. Mais cinco minutos. Apertei em dispensar umas três vezes até não ter mais a opção de cinco minutos e eu ser obrigada a levantar. Eram seis e quarenta e cinco. Me sentei na cama ainda de olhos fechados e bocejei. Minha mãe costuma abrir o restaurante as oito e como ainda falta um mês para eu iniciar a faculdade, estou a ajudando. Abri os olhos me acostumando com a claridade; observei todo o quarto esperando minha alma voltar para o corpo e me levantei. Fui até o banheiro, mesmo sabendo que minha mente continuava na cama e me olhei no espelho. Eu parecia uma selvagem, minha juba cacheada deixava claro que eu precisava lavar e finalizar o cabelo. Sim. Eu tinha que acordar cedo para dar tempo de finalizar a juba cacheada que pendia sobre minhas costas, e isso já me deixava exausta só de pensar. Respirei fundo pronta para iniciar minhas obrigações matinais, afinal, eu não tinha muita escolha quanto a isso. E não, eu não gosto de tomar banho as sete de manhã, mas é algo obrigatório. Dona Marilia sempre me dizia que eu tinha o estomago de Magali, o humor da Monica, e a Higiene do cascão. Abri um sorriso ao lembrar da descrição perfeita da minha pessoa. Eu não posso mentir.
Depois das minhas obrigações matinais feitas, saí do banheiro como um gato escamado depois do banho de toalha e morta de frio, ainda enrolada fui até a varanda do meu quarto pegar uma blusa, notei que havia uma movimentação estranha na casa de frente para minha. A casa que ninguém nunca havia morado desde que me conheço por gente, sempre a chamei de casa assombrada e brinquei no quintal dela que fica nos fundos com minhas amigas quando era criança, a casa que me rendeu muitas fotos e um lugar seguro para onde eu sempre corria quando queria ficar sozinha. Parei para analisar a cena como uma linda espiã demais, por trás da janela, claro! Havia um caminhão de mudança na frente... Por que raios alguém se muda às sete da manhã? Me obriguei a sair dos meus devaneios malucos e fui me vestir. Saí do quarto ainda com a toalha na cabeça e fui até a cozinha, dona Marilia já estava acordada aprontando nosso café da manhã. É lei de toda mãe raiz acordar com o canto dos galos, nem que seja só pra bater panela e acordar o restante da casa!
- Bom dia, dona Marilia! - Falei me aproximando e beijando sua testa.
- Bom dia. - Ela falou empolgada em preparar seu café quentinho. A gente tinha uma cafeteira de enfeite, mas minha mãe diz que no coador sempre sai mais gostoso e insiste em continuar fazendo assim.
- Será que vai ter um único dia em que a Senhora vai se permitir acordar um pouco mais tarde? - Perguntei sorrindo com a idéia de minha mãe dormindo até as dez da manhã.
- Nunca. Quando a gente acorda tarde é como se perdesse o dia! - Ela falou. - Sem falar que a gente tem muita coisa pra fazer no restaurante.
-Tá bom, entendi. - Falei assentindo porque mãe sempre tem razão e nem adianta tentar argumentar.
- Ahhhh filha, coloca o lixo lá fora pra mim, por favor? O caminhão vai passar daqui a cinco minutos e falta pegar o do banheiro. - Ela falou alarmada.
- Pode deixar! - Falei.
Corri para o banheiro para pegar o lixo e juntar com todos da casa, o caminhão do lixo passa todos os dias as sete e vinte na vizinhança, esse é o momento de jogar tudo fora, pois dona Marilia tem toque de juntar lixo na varanda. Peguei os quatro sacos e fui até o lado de fora da casa com minha lindíssima toalha na cabeça. Eu estava ali me sentindo faminta quando um carro preto de gente milionária entrou na rua e parou na casa da frente. Dele desceu o motorista - coisa de gente chique - e abriu a porta traseira. Um jovem que aparentava ter seus vinte e quatro anos, de pele branca e cabelos morenos penteados para trás não tão curtos, mas não tão longos... Seus olhos estavam escondidos por um óculo escuro e ele vestia uma calça com um sobretudo por cima embora fosse notável sua camisa de gola alta. Quem se veste assim em pleno sol de São Paulo? Eu percebi que estava o encarando como uma louca quando o carro do lixo buzinou tomando a frente da minha vista.
- Bom dia, dona Jasmim. - Um dos garis me cumprimentou.
- Bom dia Marcos. Tá bem? - Falei sorrindo.
-Tô bem e aí? - Ele falou pegando os sacos de lixo da minha mão.
- Estamos bem. - Falei ainda sorrindo. - Bom trabalho ai para vocês! - Falei acenando para os outros.
Quando o carro do lixo saiu da minha frente o garoto já não estava mais lá, apenas o carro estacionado e o caminhão de mudança. Olhei aos arredores disfarçando, claro, e entrei.
- Oh mãe... - Gritei quando já estava chegando à cozinha.
- Que é menina? - Minha mãe veio ao meu encontro.
- A senhora já viu que temos vizinho novo? - Falei deixando meu lado fofoqueira tomar conta.
-Tu me gritou pra falar isso? Uma hora dessas, você vai me matar do coração. - Ela falou colocando a mão no coração dramaticamente.
- Deixe de drama, Dona Marilia. A senhora viu ou não viu? - Perguntei agora indo até a cozinha atrás dela.
- Vi, vi. É a dona da casa. Chegou com os galos. - Minha mãe falou colocando as torradas na mesa.
- E essa casa tinha dono? - Falei agora pegando as xícaras e colocando na mesa.
- Claro que tem. - Minha mãe fez uma careta. - Giovanna. Veio morar ai logo quando eu me casei com seu pai. Mas foi embora quando você era pequenina ainda. Nem deve se lembrar. Você chegou a brincar com o filho dela e tudo. Mas quando ele fez um ano, ela foi embora com o pai do menino, um gringo lindo viu. - A fofoqueira que habita em minha mãe contou empolgada.
- Hum. - Esbocei sem abrir a boca. - O que faz uma pessoa voltar pra São Paulo depois de mais de vinte anos morando na gringa? - Ironizei.
- Deixe de besteira, ta achando que lá fora é conto de fadas? - Minha mãe riu.
- São Paulo é que não é. - Falei quando sentamo-nos à mesa.
Tomamos nosso café da manhã enquanto eu ficava pensando naquele jovem que vi sair do carro, será que ele era o garoto que eu havia brincado quando pequena? Eu poderia ir lá dar um Oi com essa desculpa, ou não.
- Oh linda, eu não gostaria de atrapalhar sua cachola fértil, mas temos que correr e você ainda está de toalha na cabeça. - Minha mãe falou balançando a mão na minha frente.
- Aff, já tinha esquecido. - Bufei. Engoli meu café e corri para o quarto pra finalizar a juba.
Meu cabelo sempre foi tão independente quanto eu, quando liso chega a bater na cintura, mas quando enrolado dá nas costas, amo ele todo definidinho, mas haja paciência pra finalizar. Peguei o creme nas carreiras, abri o pote sobre a pia do banheiro e tome-lhe fitar cabelo.
- Boraaaa Jasmim! - Minha mãe já estava gritando na porta do quarto.
- Tô indo, mainha! - Gritei de volta. Fechei o creme, lavei as mãos e saí quarto a fora. Coloquei correndo meu vestido de recepcionista, passei um batom nude rápido e calcei minha sapatilha.
Quando saí do quarto minha mãe já estava do lado de fora tirando o carro da garagem, peguei a chave no chaveiro e saí fechando as portas com tudo ao ouvir minha mãe buzinando impaciente.
- São oito da manhã, dona Marilia, pelo amor de Deus. - Falei correndo até o carro.
Entrei e coloquei o cinto, quando ela já estava dando a ré eu me lembrei que havia esquecido o celular.
- Pare, pare, pare. - Falei batendo a mão na testa.
- O que foi dessa vez, filha de Deus? - Minha mãe me encarou retada.
- Meu celular, esqueci meu celular. - Falei bufando.
Desci do carro novamente.
- Filha, já são sete e cinqüenta e cinco. - Minha mãe falou me encarando pela janela.
- Faz assim, vá na frente. - Falei fazendo sinal com a mão pra ela ir e virando as costas.
- E tu coisa linda? - Ela gritou do carro.
- Vou andando, Dona Marilia. É ali. Daqui a dez minutos chego lá, vá logo! - Apontei pra rua. - Vá linda, vá! - Falei sabendo que as oito a gente já deveria estar com tudo pronto para abrir. Minha mãe é bem pontual e o restaurante não é longe, moramos a uma rua do centro. Chegaria tranqüila em dez minutos, inclusive várias vezes eu vinha andando pra casa só pra gastar perna.
- Tá, ta. - Ela falou dando a ré. - Te amo. - Gritou do carro e foi embora.
Eu peguei a chave e abri a casa tudo de novo, entrei e fui até meu quarto pegar meu celular e fones de ouvido, eu não era ninguém sem esses dois apetrechos. Aproveitei e peguei o kindle também, adoro ler um pouco no meu horário de almoço. Peguei uma bolsa de lado e saí da casa trancando tudo novamente. Já do lado de fora, enfiei o kindle e as chaves dentro da bolsa, coloquei os fones blueetoth no ouvido e joguei os cabelos por cima para disfarçar. Nunca se sabe quando os donos vão aparecer né! A honra de morar no Brasil é saber que você compra e tem a possibilidade de dar de presente pros donos. Eu estava entretida escolhendo a musica que iria escutar – A Thousand Miles – quando o garoto apareceu ao lado de fora conversando com o motorista do caminhão de mudança. Nossa. O encarei de soslaio sem tirar completamente os olhos do celular, ele pareceu ter me notado por alguns instantes, mas logo voltou a prestar atenção na conversa do motorista. Eu coloquei o celular no peito, o esconderijo do Brasileiro, e segui meu caminho. Como costumo acreditar que sou uma artista quando estou andando e escutando musica, iniciei meu show particular.
"Eu sou Estefani, em meu crosfox, eu vou sair, vou viajar, me divertir, não vou ficar mais te esperando porque agora eu sou demaissss..." A musica na versão brasileira é muito melhor.
Segui perdida em meus pensamentos até o centro de Holambra, uma caminhada de apenas dez minutos. Cheguei à frente do restaurante encarando as portas de vidro com a grande placa escrita: Doce Jasmim. Sim, o restaurante tem o meu nome, é ser importante demais, né? Entrei indo diretamente para a cozinha.
- Cheguei. - Avisei a minha mãe.
- Tá, vai pra recepção. - Ela falou.
Minha mãe tem o restaurante dela desde que se casou com meu pai! Era o sonho dela fazer gastronomia, mas na época de minha vó isso não dava dinheiro, então a pedido da mãe ela fez administração, o que hoje se tornou muito útil com o restaurante, mas logo após o casamento ela fez o curso de gastronomia que tanto queria por incentivo do papai. Minha mãe é incrível na cozinha, os melhores pratos vêm dela, aqui servimos de tudo, mas o sucesso mesmo é sempre as sobremesas doces. O ambiente é acolhedor e sofisticado ao mesmo tempo, com toda a mobília e decoração em marrom amadeirado; armário de amostras de bebidas com todo tipo de bebida possível, embora o que saia mais por aqui seja o famoso café da dona Marilia, com gosto de casa. Sem falar no cheiro de Jasmim que impera o ambiente, minha mãe costuma passar sempre a essência de Jasmim antes de abrir, e logo na recepção e em alguns pontos específicos, pequenos jarros com Jasmim decoram o ambiente. Temos um publico considerável pelo fato de servirmos para todos os públicos abrindo as oito e fechando às nove da noite. Tendo no cardápio: Café da manhã, almoço, sobremesa e janta. Minha mãe é a cozinheira chefe, mas conta com a ajuda da Marileide – ela detesta este nome, por isso sempre chamamos de Mari. – Eu trabalho na recepção sempre recepcionando a todos que chegam e quando está um pouco devagar também atendo os pedidos, mas temos os garçons que são o Mario e a Solange – que gosta de ser chamada de Sol.
Logo os três chegaram e iniciamos nosso trabalho tranquilamente. Eu amo trabalhar no doce Jasmim, sinto um pouco do meu pai neste lugar. Ele amava cozinhar junto com minha mãe, e sempre foi a favor que ela abrisse este restaurante e por isso ela abriu, para tê-lo um pouco mais. O cheiro desse lugar me remete a minha casa, e eu nunca fui tão feliz como sou quando estou aqui dentro, me lembro de correr com meu pai por este lugar e de cozinharmos juntos quando eu nem sabia fazer nada, apenas comer. Com o inicio da faculdade ficou acordado que eu faria as aulas a noite e trabalharia com ela durante o dia. Para o turno da noite podemos contratar uma aprendiz já que é só das seis as nove. Como minha faculdade é a Unicamp e fica em Campinas, eu posso ir e voltar de carro. Tudo programadinho até os últimos detalhes.
O dia foi bastante produtivo e correu até mais rápido do que esperado, inclusive para mim que tinha tempo para ouvir todas as fofocas do bairro. A melhor parte de trabalhar em restaurante é que você escuta todo tipo de fofoca, embora hoje em dia eu veja mais pessoas no celular do que conversando, mas ainda há aqueles que vão até lá para fofocar durante o horário do almoço, ou para falar mal do trabalho, é o que eu mais escuto. Na hora do almoço peguei meu prato e resolvi comer na porta dos fundos, porta essa que dava para um beco que inclusive também dava para a porta dos fundos do galpão aqui do lado e para o tonel onde colocamos os lixos ao final do expediente. Eu amava ficar deste lado nos tempos livres porque aqui a calmaria reina e não fica ninguém.
- Já ouviu a última? - Mari veio até a mim.
- O que? - Perguntei já ansiosa pela fofoca.
- Vai abrir uma casa noturna nesse galpão aqui do lado. - Ela falou em tom baixo tentando esconder a empolgação.
- Era realmente só o que me faltava! - Falei revirando os olhos.
- Isso é demais! - Ela falou agora mostrando sua animação.
- Exato. Zoada demais, incômodo demais! - Falei a encarando com uma careta.
- E você é chata demais! - Ela riu. - Finalmente um lugar pra se divertir quando a gente sair daqui.
- É, quando você sair daqui porque eu estarei na faculdade, neném! - Falei.
- Aff, verdade. Mas tem os finais de semana. - Ela falou piscando.
- Vai trabalhar vai, dona Marileide. - Falei dando língua pra ela.
- Jasmim! - Ela bufou. - Se me chamar assim na frente de alguém, juro que mato você.
- Ai não terá ninguém pra ir à casa noturna no final de semana. - Ri.
- Ahhh! Então você vai. - Ela bateu palminhas.
- Eu não disse isso. Só espero que não seja essas revoadas brabas.
-Que seja um baile funk, amém. - Ela disse, piscou e se retirou.
- Essa garota não presta. -Resmunguei ainda rindo.
Voltei para o meu mundinho com meu fone de ouvido, terminei meu almoço e li um pouco no kindle para aproveitar minha hora de descanso. Geralmente temos duas horas e dá tempo de eu ir até em casa, tomar banho, fazer algo e voltar. Mas eu sempre deixo que minha mãe vá e descanse um pouco e fico tomando conta de tudo, raramente decido ir. Depois do almoço voltei para o expediente e continuei seguindo pelo restante do dia. No final da noite o movimento tinha sido bom e eu estava extremamente cansada. Ao fecharmos, limpamos tudo, jogamos o lixo fora e seguimos para casa. Quando chegamos, eu desci na frente da porta e minha mãe foi colocar o carro na garagem, abri a casa e entrei. Tomei um banho, tomei café enquanto dona Marilia assistia a novela das onze e depois fui direto para o meu quarto. Coloquei meu fone de ouvido e peguei meu kindle... Eu estava lendo um livro chamado: Um desconhecido em minha vida onde uma garota de programa estava prestes a perder sua vida e era salva por um atraente desconhecido, o livro me pegou de uma forma surpreendente e a leitora sabia como abordar o tema sem pesar o enredo. Me sentei em minha poltrona e comecei a ler ao som de Clau...
Já estava empolgada na metade da leitura quando notei que já estava prestes a dar meia noite e eu precisava dormir se quisesse acordar cedo no outro dia. Desliguei meu kindle e resolvi olhar um pouco a lua, o céu estava lindíssimo e suas estrelas brilhavam ao máximo, o que me pareceu ser uma boa idéia para uma ótima foto. Entrei, peguei minha câmera e voltei para a minha varanda. Liguei a câmera e mirei a minha frente para ajustar o foco quando o notei através das lentes, ele estava sentado na janela com seus fones enormes e rosto virado para a lua com um caderno na mão, parecia estar pensando em desenhar ou escrever alguma coisa. Seu ângulo era perfeito. E antes que eu pudesse me controlar, capturei uma foto sua, ele parecia uma miragem com camiseta e bermuda de pano. Estava completamente perdido em pensamentos. Mirei na lua e tirei uma foto daquela noite estrelada, agora eu tinha mais duas fotos para admirar e completar meu álbum físico, eu amo imprimir as fotos e guardar, um dia quero fazer uma exposição de pequenos detalhes... Quando estava desligando a câmera vi que ele me notou, me encarou, meu olhar encontrou o seu e de lá não saiu por alguns segundos. Olhos escondidos pela escuridão da noite e pela minha miopia. Eu senti que queria morar naquele olhar, era questionador, misterioso, ao mesmo tempo carente. Ele estava triste. Eu sabia decifrar as expressões faciais e corporais pelos mínimos detalhes. E ele estava realmente triste. Senti vontade de abraçá-lo, ele desviou o olhar do meu e encarou seu caderno voltando a se perder em seu mundo. Eu voltei a encarar minha câmera, liguei de volta, e quando vi já estava tirando outra foto sua. Na tela, seu sentimento transbordava. Era como um segredo, pedindo que alguém o revelasse, era essa a sensação que a sua foto me passava. A sensação de uma tela em branco que pedia para ser desenhada, ou um desenho abstrato que pedia para ser entendido. Voltei para dentro do quarto e me joguei na cama, mexi em meu celular por alguns minutos e logo apaguei de cansaço. Alguns dias eu era agraciada pela insônia, mas nesse em especial, eu estava tão cansada que a insônia passou longe me deixando o paraíso dos lençóis macios.
O celular alarmou mais uma vez me trazendo de volta para a minha realidade, já fazia duas semanas que o bendito e atraente vizinho havia se mudado para a casa da frente. Casa essa que eu costumava entrar algumas vezes quando queria ficar sozinha e que por muitas vezes quando pequena eu tinha brincado com meus amigos, essa casa tinha história até demais para contar! Me levantei da cama ainda sonolenta, andei no automático até o banheiro e ainda bocejando fui tirando a roupa. Hoje iríamos fazer o mercado do mês para o restaurante.
Coloquei um short jeans desfiado, um blusão, um sapatenis, finalizei minha juba e pronto. Quem se arruma pra ir ao mercado? Pois é. Passei só um batonzinho e um rímel porque ninguém quer ver assombração de manhã cedo, mas se bem que ao nível das adolescentes brasileiras que acostumam ir ao lê cirque de manhã cedo, eu não assustaria muita gente. Saí do quarto ainda no automático, eu havia ido dormir quase duas da manhã encarando a bendita foto do desconhecido em minha câmera, o que isso quer dizer? Que tenho traços piscopatas. Isso mesmo. PISCOPATAS.
- Bom dia, dona Marilia. - Falei me encostando-se a pia e bocejando.
-Já ta pronta? - Minha mãe me encarou. - Que bom porque tem que dar tempo de passar na feira e pegar as melhores hortaliças.
-Hum. - Falei me espreguiçando e sentando-se à mesa.
- Tu foi dormir tarde, num foi? - Minha mãe falou colocando meu café. - Tu sabia que a gente ia ao mercado, Jasmim. Pois trate de acordar que hoje o dia vai ser rapidex.
- Tá mainha, tá. - Falei revirando os olhos. - Fala muito não que eu durmo.
-Tome. - Dona Marilia colocou o café em minha frente.
Tomei um gole e depois outro, checando o mito da cafeína, continuei com sono. Peguei meu celular e meus fones de ouvidos de lei, coloquei em minha bolsa de lado e segui minha mãe até o lado de fora. Quando vamos fazer mercado eu costumo não tomar café sólido, me sinto agoniada. Minha mãe tirou o carro da garagem e seguimos rumo ao mercado central. Quando chegamos ao mercado, coloquei minha musica, peguei a listinha do que eu preciso comprar e fui-me embora. Sim, eu e minha mãe temos listas separadas e nos dividimos no mercado pra ficar mais rápido. Sempre terminamos na mesma fileira. Peguei um carrinho e fui para minha missão com os fones no máximo. Estava na sessão de massas pensando em que espaguete escolher quando notei que o que minha mãe usa estava no alto. Isso é sempre absurdo porque com 1,54 eu sempre preciso pedir ajuda, olhei para a frente e não vi ninguém que pudesse me ajudar. Fiquei na ponta dos pés e tentei pegar, não consegui. Tentei novamente pulando, mas não consegui da mesma forma. Bufei. Respirei fundo e estava pensando em ir pedir ajuda a algum repositor quando um braço masculino passou diante de mim e pegou a massa.
- É essa? - O desconhecido falou atrás de mim, sua voz tinha um sotaque diferente capaz de fazer cócegas em meu estomago. Era um som grosso, porem rouco, e ao mesmo tempo suave.
-Oi... - Falei gesticulando o fone em meu ouvido e me virando para o desconhecido. - Eu acabei de gritar, eu sei. - Fechei os olhos assentindo para mim mesma.
-É essa? - Ele perguntou novamente.
- É... Obrigada. - Falei sem graça ao notar que era o meu novo vizinho. Seus olhos eram azuis da cor do oceano. Azuis questionadores, incisivos, misteriosos. A claridade de seus olhos refletia a escuridão de sua expressão fechada. Todo o seu rosto o dava um ar autoritário, questionador.
- Disponha. - Ele assentiu me encarou por alguns segundos e seguiu para os produtos da prateleira contrária.
Continuei analisando, comparando e escolhendo meus produtos com um esforço máximo para não encará-lo, mas era meio impossível. Que gato! Ele estava com uma calça e camisa social de botão. Quem em São Paulo vai ao mercado às sete da manhã vestido como se fosse para uma festa social? Uau. Notei que o molho que eu queria comprar estava ao lado dele, eu não queria me aproximar, mas, era necessário. Eu estava começando a me odiar, ele é meu vizinho! Me aproximei e analisei algumas marcas de molho, encarando de soslaio sua cara confusa a minha frente.
- Posso te ajudar? - Falei o encarando. Falando mais baixo já que agora eu só estava com um fone.
-Han? - Ele me encarou, ainda com uma expressão confusa no rosto.
- Dá pra ver que precisa de ajuda. - Falei gesticulando para sua expressão.
- Ahh. Sim. - Ele assentiu desviando o olhar e chegou um pouco mais perto como se fosse contar um segredo. - Qual a diferença disso aqui, para isso aqui? - Perguntou apontando para um molho de tomate e um extrato a nossa frente.
- Ahh... - Eu sorri. - Eu também achava bem confuso. O molho - Falei apontando - já vem com alguns realçadores de sabor e algumas ervas, para um prato já preparado. Já esse aqui - Apontei para o extrato - É só o tomate diluído, caso você queira preparar algo mais sofisticado e tenha os temperos certos.
- Wie verruckt! - Ele resmungou.
- Hum? - Falei confusa. Que sotaque mais fofo!
-Ah não... - Ele umedeceu os lábios. - Ham... Que loucura. - Falou desviando o olhar.
- Quem? O que? - Falei não entendendo.
-Foi o que eu disse. - Pude ver um sorriso quase invisível tomar a linha de seus lábios. - Eu disse que loucura em alemão, força do habito. Mil desculpas.
- Ah sim, claro. Mas é loucura mesmo porque os dois podem ser usados para o mesmo propósito. Enfim, se precisar de mais alguma coisa é só me chamar. - Falei assentindo e desviando o olhar. Que idiota. - Claro que se preferir pode chamar alguém que trabalhe aqui. - Falei fazendo careta. - É... Xau.
- Ok. - Ele falou com uma expressão de quem estava se divertindo em me ver passando vergonha.
Eu peguei o meu carrinho e segui corredor à frente querendo enfiar minha cara no primeiro buraco que aparecesse. Não que buracos fossem comuns em mercados. Segui fileiras e mais fileiras pegando tudo que eu precisava. Estava andando por um dos corredores checando minha lista quando me bati nele. Coincidência dos infernos. O mundo no mercado e eu me bati especificamente nele!
- Aff. Me desculpe! - Falei, eu podia apostar que estava da cor de um pimentão. Segunda vergonha do dia.
- Tudo bem, eu quem não prestei atenção. - Ele falou apontando para o celular.
- Não, eu quem me perdi na lista. - Falei apontando para a lista.
- Eu te conheço. - Ele falou arqueando uma das sobrancelhas.
- De algumas fileiras atrás. - Falei apontando para trás.
- Não, da minha janela. A menina da câmera. - Ele falou estalando o dedo.
- Ah sim, somos vizinhos. - Falei assentindo.
- É. - Ele assentiu.
- Jasmim... - Minha mãe falou vindo atrás de mim. - Menina, tu me esqueceu foi? - Ela falou se aproximando.
- Claro que não, dona Marilia. - Falei revirando os olhos e ficando de lado para encará-la.
- Ah Oi. - Minha mãe falou para o vizinho novo. - Você é o filho da Giovanna, né?
- Mãe... - Sussurrei abaixando o olhar.
- Eu carreguei você no colo, continua lindo! - Minha mãe falou sorrindo agora ficando ao meu lado.
- Sim. - Ele assentiu com um sorriso educado. Que sorriso! - Obrigado!
- Como é seu nome mesmo? Faz tanto tempo! Aron, Are... - Minha mãe falou tentando se lembrar.
- Meyer. - Ele sorriu.
- Sei que não se lembra de mim, Meyer. Dona Marilia. Fale com sua mãe para ir almoçar no meu restaurante, por conta da casa pela volta dela. - Minha mãe falou animada.
- Restaurante? - Ele falou confuso.
- Ah sim, ela sabe onde é. Inclusive ela chegou a trabalhar lá por um tempo, fomos muito amigas. Você e a minha Jasmim corriam juntos na frente daquela casa, uma picula que só Deus. - Minha mãe falou rindo.
- Picula... - Ele sussurrou me encarando por alguns segundos. - Jasmim...
- Ham... Mãe, ele está com pressa. E a gente também. - Falei baixo a encarando.
- Ah claro, não vou te atrapalhar. Mas fico feliz de ver você enorme e saudável viu. - Minha mãe abriu um sorriso gentil que só dona Marilia sabe dar para conquistar as pessoas.
- Obrigado pela gentileza. Pode deixar que convencerei minha senhora a ir até seu restaurante. - Ele falou sorrindo.
- Minha senhora? - Repeti confusa, achei que não dava para ouvir.
- Mom... - Ele explicou. - Mãe. É que chamamos assim. Tenho que me acostumar com o termo mãe. - Outro sorriso discreto. Ele tem que parar de sorrir, se não meu coração pode acabar parando de bater.
- Entendi. - Assenti. - Enfim, desculpe mais uma vez, se vemos por ai. - Falei sem jeito.
- Se vemos por ai, Jasmim. - Ele assentiu me encarando. Definitivamente meu coração parou, como simplesmente falar meu nome poderia ser tão sexy?
- Ok Meyer. - Falei retribuindo seu olhar.
Nos encaramos por alguns segundos e logo fui despertada com minha mãe já lá na frente empurrando o carrinho. Saí do caminho dele e segui o meu. Uau. Uau. Uau. Estava bastante calor no mercado pela primeira vez na vida. Terminei o restante das compras junto com minha mãe e seguimos para o caixa, pagamos e fomos diretamente para o restaurante.
Tudo seguiu o mais normal possível, pela parte da manhã o movimento foi bastante tranqüilo então arrumamos tudo. Infelizmente a Mari acabou tendo que ir para casa porque não estava muito bem e eu fiquei como ajudante de cozinha. Preparei os temperos pra corte vendo que hoje eu almoçaria tarde. Estávamos a todo vapor quando os pedidos começaram a chegar. Minha mãe continuou fazendo a comida e eu terminei o tempero e fui montar os pratos para o Mario levar quando ele veio meio atordoado.
- Dona Marilia. É... Estão chamando a Senhora lá fora! - Mario falou sem jeito. Medo de ser despedido, talvez!
- O que houve, menino? - Minha mãe perguntou confusa.
- Eu não sei. Só pediram pra ver a dona do lugar. - Ele deu de ombros, também confuso.
- Se assuste não, meu filho. Mexa aqui que eu vou lá. - Ela falou apontando pra a panela do cozido.
Continuei montando os pratos imaginando ser mais um ou uma cliente dramática questionando alguma coisa. Coisa normal quando se trata de restaurantes.
- Filha, vem aqui. - Minha mãe entrou cinco minutos depois me chamando.
- Que foi, minha mãe? - Falei confusa.
- Só venha logo aqui, menina. - Ela falou fazendo gesto pra que eu a acompanhasse e saiu.
Eu a segui confusa. Quando cheguei ao salão, a vontade foi de querer voltar para dentro da cozinha. Imagine só: Eu estava com o vestido de recepcionista, com um avental por cima, toca num cabelo que quase não cabe dentro da toca, e toda desgrenhada. Na mesa estava Meyer e a mãe dele.
- Essa é aquela pequena sapeca? - A moça - acho que Giovanna - logo se levantou sorridente. - Mein Goott! Você está tão linda.
- Ah, obrigada. - Abri um sorriso gentil.
- Te carreguei no colo, você e o Meyer eram melhores amigos. Tu vivia fugindo pra minha casa. - Ela abriu um sorriso largo.
- Ah... - Falei sem jeito.
- Nós estamos imensamente felizes de ver vocês novamente. - Minha mãe falou. - Vamos marcar algo lá em casa.
- Deixe disso, eu te devo um jantar. Vamos jantar lá em casa hoje! - Dona Giovanna falou encarando minha mãe.
Eu fiquei ali de guarda, Meyer estava me encarando e eu senti que poderia realmente ficar mais vermelha do que já estava.
- Hoje? - Minha mãe falou pensativa. - Menina... - Não escutei o que minha mãe falou porque a Sol estava resolvendo alguma coisa na mesa próxima da nossa e eu parei pra prestar atenção.
- Por que não se senta e almoça conosco.? - Dona Giovanna disse.
- Ah, não posso. - Minha mãe falou pesarosa.
- ...Não Senhor, peço mil desculpas... - Sol dizia.
-Claro que pode. - Encarei minha mãe. - Mãe, é seu horário de almoço. Retire a touca e sente-se para almoçar. Eu tomo conta de tudo.
- Não, filha... - Minha mãe falou ainda pensativa.
- Não é um pedido, dona Marilia. - A encarei. Minha mãe vivia enterrada no restaurante e era horário de almoço, custava nada. - Me dê aqui seu avental e sua touca. Vamos.
- Vamos Marilia, escute sua filha. - Giovanna abriu um sorriso largo.
- Tá, ta bom. - Minha mãe falou sorridente. Tirou a toca e o avental e me entregou.
-...Sim, Senhora. Eu realmente não prestei atenção... - Sol falou na mesa ainda próxima.
- Com sua licença... - Falei para dona Giovanna. - Foi um prazer te conhecer, novamente.
- Sim, claro. - Ela sorriu pra mim e assentiu permitindo que eu saísse.
Fui até o canto, tirei a touca e o avental, guardei rapidamente e voltei para a mesa em que Sol estava com problema.
- Posso ajudar em alguma coisa? - Perguntei me aproximando.
- A garçonete trouxe o pedido errado. Eu pedi que não colocasse pimenta e ela adicionou pimenta. - A mulher falou furiosa.
-Sim, realmente foi culpa minha. - Sol falou agora me encarando..
- Ah não, eu quem peço desculpas, Senhora. Ela assumiu um posto que não era dela por alguns segundos e vejo que isso gerou um impacto negativo para ambas as partes. Te peço mil perdões. Me passe o pedido. - Pedi a Sol a cadernetinha e dei uma olhadinha. - Pronto. Eu mesma irei até a cozinha e pedirei que refaçam este pedido e trarei uma sobremesa especial por conta da casa. Sei que não irá reparar o dano, mas é o mínimo. - Abri meu sorriso carismático de cliente sempre tem razão.
- Ah sim, muito obrigada. Sei que acontece, é normal. - A cliente falou com um sorriso no rosto. - Irei aguardar.
- Ok. Iremos só recolher este pedido e trazer outro em no máximo dez minutos. Muito obrigada pela compreensão. - Falei.
Sol recolheu o pedido e voltamos para a cozinha. Mario até que estava dando conta do recado do lado de dentro.
- Cadê dona Marilia? - Ele perguntou.
- No horário de almoço. - Falei encarando o relógio. - Falando nisso, pode ir almoçar.
- Tem certeza? - Ele me encarou.
- Claro, eu dou conta.
Ele assentiu, tirou o avental e foi. Eu fui até o lado de fora e chamei a Sol.
- Você monta os pratos e eu vou atender, quando o Mario voltar pode ir almoçar. - Falei pra ela em tom baixo e discreto. - Toma cuidado com a pimenta ta. - Falei rindo.
- Ok. - Ela assentiu. - Mas ela pediu com pimenta. - Resmungou.
- Eu sei. Ignora. - Falei rindo.
Ela riu e entrou na cozinha. Eu saí. Fui até a mesa onde minha mãe estava sentada com o Meyer e a Giovanna. Ela parecia estar se divertindo, me deu gosto de vê-la assim.
- Desculpe-me pela intromissão. - Falei ao chegar perto da mesa com o caderninho. - Já decidiram o que vão pedir?
- Ah, vou deixar que a recomendação venha da parte da chefe. - Dona Giovanna falou encarando minha mãe.
- Ah, como eu poderia lhe recomendar? Não posso! Fico envergonhada. - Minha mãe falou sorridente.
- Então deixe-me ajudá-la, dona Marilia. A gente está com o prato do dia que é um cozido espetacular feito agorinha por uma chefe espetacular! - Falei abrindo um sorriso amistoso.
- Uau. Faz tanto tempo que eu não como um cozido, ótimo, vou querer! - Ela falou empolgada.
- E a Senhorita? - Encarei minha mãe.
- Eu não acredito que você está me atendendo. - Minha mãe falou fazendo uma careta.
- Ué, mas o maior prazer que os filhos têm no mundo é um dia poder servir aos pais. É o meu maior prazer, Dona Marilia. - Falei abrindo um sorriso amoroso.
- Tá bom, vou querer o mesmo. - Ela falou sorrindo pra mim. Minha mãe tem o sorriso mais lindo que eu já vi na vida. É o sorriso de uma mãe feliz.
- E para você? - Encarei Meyer que tirou sua atenção de algo do outro lado do restaurante e me encarou.
- Ah não, eu não costumo almoçar. Só vim mesmo para acompanhar minha Senhora. - Ele falou umedecendo os lábios. - Mas obrigado.
- Você bebe? - Perguntei o encarando.
- Hum... Sim, sim. - Ele deu uma olhada no cardápio novamente.
- O que é isso? - Ele apontou para algo no cardápio, eu me aproximei para ver o que era. Próxima até demais.
- Sangria. - Falei o encarando, me afastei ajeitando a postura.
- Sangria... É bom? - Ele perguntou.
- Eu amo. - Falei sorrindo. - Tem que experimentar nem que seja uma vez na vida. A bebida contém uma mistura de vinhos com algumas frutas. É um sabor excêntrico e único.
- Vou querer. - Ele assentiu.
- Ok. Anotado. - Falei anotando o pedido. - Já volto.
Andei um pouco entre as mesas cumprimentando clientes rotineiros, verificando se estava tudo certinho e voltei para a cozinha. Peguei os pratos já montados para entrega e voltei para o lado de fora. Fui entregando um a um, sorrindo carismaticamente e desejando boa refeição. Amo o sorriso de satisfação dos clientes. Amo os elogios e reconhecimento. Minha mãe sempre trabalhou duro no restaurante e saber que os clientes reconhecem nosso esforço me deixa muito satisfeita com o meu trabalho. Fui indo e voltando da cozinha para o salão algumas vezes com pratos e outras com o caderninho pronta para servir ou atender. Vi que o Meyer me encarava algumas vezes e eu não consegui desviar o olhar. Ele era bastante enigmático, nas vezes em que notei seu sorriso para a conversa das duas mulheres empolgadas era sempre educado, mas sua expressão estava sempre fechada, misteriosa, isso me deixava com mais vontade de descobrir o que tanto ele queria esconder. E como diz nosso filosofo Matheuzinho: O golpe ta ai, cai quem quer! E que golpe viu. Peguei os pratos montados de minha mãe e de Giovanna e levei até a mesa.
- Aqui está. Já trago sua bebida. Vocês, belas damas, querem beber algo? - Perguntei.
- Água com gás com limão e gelo. - Minha mãe falou.
- Vou querer o mesmo. - Dona Giovanna apoiou.
- É para já. - Falei sorrindo.
Fui até a cozinha preparar a bebida juntamente com o Mario. Agora era a vez da Sol almoçar. Terminei e voltei para o salão com os três copos na bandeja.
- Aqui está. Sintam-se á vontade para me chamar, caso precisem de mais alguma coisa. - Falei colocando os copos na mesa.
- Obrigado. - Meyer falou.
- Não deixe de me dizer o que achou. - Falei sorrindo. - Espero que goste!
-Ok. - Ele assentiu
- Jasmim! - Dona Sandra me chamou na outra mesa. Cliente da casa.
- Com sua licença. - Assenti e me retirei.
Fechei a conta da dona Sandra, me despedi com um sorriso e volte sempre e aproveitei para encerrar outras contas no local. O tempo foi passando rápido e logo o Meyer e dona Giovanna foram embora e minha mãe voltou para o expediente. Eu fui almoçar ás quatro da tarde, mas estava me sentindo muito bem por ver minha mãe parada conversando como uma adolescente empolgada.
Já eram nove e meia quando finalmente conseguimos encerrar o expediente e se despedir do último cliente, aproveitando o feche do sorriso que minha mãe deu o dia todo, pedi que ela fosse descansar que eu mesma terminaria de limpar e fecharia o restaurante. Ela relutou, mas acabou cedendo. Eu estava carregando todo o lixo até o tonel quando notei uma movimentação ao lado de fora da porta dos fundos da suposta casa noturna. Aquele beco estava movimentado pela primeira vez. Nenhum dos lados do beco tinha saída, apenas uma grade do lado do meu restaurante que ficava sempre de cadeado e só era aberto por nós quando os garis vinham buscar o lixo.
- Jasmim. - Mario me achou do lado de fora. - Posso falar com você um minutinho?
- O que você ainda tá fazendo aqui? É hora de ir pra casa, descansar. - Falei sorrindo.
- Eu sei, eu sei. - Ele sorriu.
- O que houve? Precisa de alguma coisa? - Falei o encarando se aproximar.
- Queria conversar contigo. Esse final de semana, no sábado é minha folga. Você sabe. - Ele falou sem jeito. - Eu pensei, sei lá, se a gente não poderia fazer alguma coisa junto.
- Mario... - Falei desviando o olhar. - Não vai rolar.
- Ah Jasmim, é só uma saída. - Ele falou colocando a mão no bolso.
- Você sabe. - Falei pausando para encarar os riquinhos que haviam saído da porta do fundo. Ele. O Meyer e mais dois homens vistoriando o beco. Ele me encarou por alguns segundos.
- O que eu sei? - Mario falou se aproximando um pouco mais.
- Sabe que não vai rolar. - Falei dando um passo pra trás agora voltando minha atenção pra ele.
- Por quê? - Ele me encarou.
- Porque não, Mario. Peço desculpas mais uma vez se acabou soando algo com aquele beijo. Mas eu estava bêbada.
- Eu sei, eu sei, Jass. - Ele falou assentindo. - Eu só estou te chamando pra sair e não pra me beijar de novo. Somos amigos. - Ele falou revirando os olhos.
- Mesmo? Você só quer minha amizade? - Perguntei arqueando uma das sobrancelhas.
- Eu quero o que você quiser me oferecer. Você só está disposta a oferecer amizade, então não tenho muita escolha quando não quero te perder. - Ele deu de ombros. - Sem falar que as meninas também vão. Meu amigo vai dar uma festa, vai ser legal.
- Tá, ta. - Falei sorrindo. - Prometo que vou pensar. Agora me deixe terminar aqui e vá pra casa, não pagamos adicional ou hora extra. - Falei gesticulando pra que ele fosse embora.
- Quer ajuda? - Ele perguntou apontando pros lixos.
- Não. Desvio de função. - Falei fazendo careta.
- Besta. - Ele riu.
- Vai logo menino, vai ficar tarde e tua baixada é perigosa. - Falei.
- Tá, até amanhã. - Ele falou. Virou-se e foi embora.
Notei que os caras conversavam alguma coisa com o Meyer, eles falavam em outra língua então não dava para entender muita coisa. Apertei play em minha música e continuei jogando meu lixo fora. Como era resto de comida, eu fazia questão de sempre separar os sacos para no final da noite saber o que colocaria para os cachorros que sempre vinham buscar do outro lado da grade. Verifiquei o saco e deixei por último. Quando terminei de jogar tudo, peguei o saco me aproximando da grade.
- Psi.Psi.Psi. - Fui chamando os gatinhos daquela região e também os cachorros. Os caras que estavam conversando pararam pra me encarar por um momento e voltaram a falar algo entre si. Eles precisavam se esforçar mais para me fazer ter medo de algum ali, e o Meyer estava na roda então continuei o que estava fazendo. Logo os bichinhos foram aparecendo com seus rabinhos abanando, passei o saco pela grade e abri jogando o resto de comida no chão em dois pontos diferentes para que todos pudessem comer. Me levantei e fiquei um pouco olhando aquela cena, depois me virei para voltar pra dentro. Meyer me encarava de soslaio e eu percebi. Continuei meu caminho e logo entrei.
Fechei o restaurante e aumentei meu fone de ouvido no máximo ao som de Hit do Ano – Jorge & Mateus – e segui meu caminho imaginando meu filme de romance. Estava tão entretida que nem vi quando um carro preto parou diante de mim. Eu já estava analisando minhas possibilidades de fuga quando vi o vidro de trás abaixar me revelando alguém conhecido.
- Quer uma carona? - Meyer falou me encarando quando parei retirando um dos fones.
- Você quase me matou de susto. - Falei. - Sabe que são apenas dez minutos, né? - Falei.
- Sei. Mas dez minutos pra quem trabalhou duro o dia todo pode ser muito. - Ele deu de ombros.
- Obrigada pela iniciativa. Mas eu gosto de caminhar, ajuda a pensar na vida. - Eu disse sorrindo.
- Entendi. Posso andar com você? - Ele perguntou me encarando.
- Sério? - Falei arqueando uma das sobrancelhas.
- Sério. - Ele disse agora abrindo a porta do carro.
- Tudo bem. - Dei de ombros.
- Lass mich wissen, dass ich einem Jasmim folge. - Ele falou para o motorista.
A porta do carona se abriu e um segurança desceu do carro. Ele suspirou.
- Es ist nicht erforderlich. - Ele falou na direção do segurança.
- wisse, dass ich verpflichtet bin, dich zu begleiten. - O segurança respondeu o encarando. Eu daria tudo para entender a conversa.
- Zehn Schritte entfernt. Privatsphäre. - Meyer falou apontando para o chão. - Ok. Vamos. - Ele falou me encarando.
- Ok. - Falei.
- O que você está escutando? - Ele apontou para o meu fone.
- Ah. Quer escutar? - Tirei do bolso o outro fone e o ofereci.
- Obrigado. - Ele aceitou e colocou no ouvido.
Para o meu azar eu estava escutando Arranhão de Henrique Juliano. Ele colocou as mãos nos bolsos e seguimos andando calados. Na verdade, ELE seguiu calado porque é impossível ouvir essa musica e não cantar.
Alguns momentos eu o flagrei me olhando de canto com um sorrisinho quase imperceptível, aquilo me fez sorrir. Quando chegamos em frente á minha casa ele retirou o fone que estava usando e me entregou.
- Bom, muito obrigada por me acompanhar até aqui. - Falei pegando o fone em sua mão.
- Eu quem agradeço pela companhia. - Ele falou olhando agora além de mim e voltando a me encarar. - Raramente consigo fazer algo que não seja dentro daquele carro.
- Hum, sempre que quiser pode me usar como desculpa. - Eu sorri. - Para caminhar, claro. - Falei desviando o olhar. Me usar? Oi?
- Ok então. - Ele sorriu. Um sorriso gentil. Educado. Atraente. MEU DEUS. - Mach's gut!
- Vou acabar fazendo aula de alemão uma hora dessas. - Resmunguei brincando.
- A gente se vê. - Ele riu, um riso rouco e gostoso de ouvir. Assenti. Ele se virou pronto para atravessar a rua. - Seria uma boa idéia, se precisar de um professor... - Ele se virou novamente sorrindo e voltou a caminhar para sua casa.
Levei alguns segundos para me recompor e entrei em casa. UAU. UAU. UAU. Eu precisava respirar, ele havia levado todo ar dos meus pulmões com aquele último sorriso.
- Demorou! - Dona Marilia gritou da cozinha. - Eu já estava ficando preocupada.
- A senhora e seus dramas. - Revirei os olhos como se ela pudesse me ver.
- Estava conversando com o Meyer? - Minha mãe falou agora aparecendo em meu campo de visão.
- Quantos olhos a Senhora têm? - Eu falei não conseguindo esconder o sorriso.
- Hum. Eu conheço essa cara. - Minha mãe abriu um sorriso mais largo que o meu! - Lindo ele né? Gentil, educado. Um príncipe perfeito. - Ela cantarolou a última frase.
- Não, dona Marilia. Não comece! - Falei agora indo diretamente para o meu quarto.
- Eu estou mentindo? - Ela parou na porta do meu quarto e perguntou. - Vai dizer que você também não notou essa beleza gringa na casa vizinha? Tão perto! E aqueles olhos que carregam um oceano inteiro de perfeição? - Ela falou a última frase dramaticamente
Aquilo me fez rir, eu amava o jeito como minha mãe me tratava, ela era sempre minha melhor amiga. Talvez a distância nos fizesse se reconhecermos mais como amigas do que como mãe e filha.
- Não, não vi. - Gritei indo para o banheiro. Sorri quando finalmente fechei a porta ficando comigo mesma. QUE BELEZA GRINGA. QUE OLHOS. PUTA MERDA!