Lilian observava o anel em seu dedo anelar direito. Uma aliança. Uma nova aliança. Era verdade que estava a pouco tempo com o agora noivo Arthur. 5 meses pra ser mais exato.
Arthur era másculo, sexy, empresário bem sucedido, chamava atenção onde passava. Ele era tudo o que Lilian achava que precisava. Tudo o que seu ex marido nunca foi.
Ahhh seu ex marido. Pensar nele ainda lhe dava borboletas no estômago. Faziam 3 anos que ela tinha largado a pequena cidade do interior de São Paulo pra seguir seu sonho como estilista em uma renomada revista na capital. Seu amigo, Vinícius, tinha sido finalmente descoberto como modelo para uma companhia grande e estava se mudando, foi a desculpa que ela arranjou para dar adeus à velha cidade, aos parentes, aos costumes, a simplicidade, e ao seu marido Miguel.
Ela tinha vivido dias solitários até encontrar Arthur em um tutorial de moda. Arthur era um dos acionistas da revista e por acaso estava passando no prédio no dia da sessão de fotos.
Uns amassos nos camarins e pronto, estavam namorando.
Tudo muito rápido e assustador.
Lilian nunca se imaginou casando de novo, mas com Arthur não havia tempo para pensar. O noiva era afoito e ansioso e queria tudo pra ontem, se não, enjoava e mudava de ideia.
Ela sabia que isso não era uma característica boa em uma personalidade, mas o que poderia fazer? Estava apaixonado, ou achava que estava.
Mas ainda havia um problema.
Lilian ainda era casado com Miguel.
Nesses 3 anos longe, Lilian não foi atrás do divórcio. Parte porque achava que uma hora Miguel ia despertar e ir atrás dele em São Paulo. Parte porque achava que eles ainda tinham chance.
Quando começou a namorar Arthur se sentiu culpada por muito tempo.
Nesse tempo, foi a primeira tentativa do divórcio.
Lilian mandou seu advogado até sua cidade natal afim de coletar a assinatura de Miguel em seus documentos. Mas Miguel negou veementemente.
Um mês depois, outra tentativa.
- Você vai precisar fazer um litigioso. - seu advogado havia falado.
Mas ela não queria encontrar Miguel em um tribunal. Ia contra tudo o que viveram.
Na terceira tentativa, Miguel foi enfático. " Só assinarei se Lilian vier pessoalmente colher a assinatura."
E era onde ela estava agora. No aeroporto, observando sua aliança no dedo anelar direito se perguntando como outra vez estava passando por isso.
A tirou do dedo e guardou no bolso do paletó de linho que usava.
Eles não precisavam saber disso agora.
Na outra mão jazia alguns anéis, para despistar a falta da aliança de casamento que ficou 5 anos no dedo anelar esquerdo de Lilian.
Assim como a falta da aliança foi substituída por um anel qualquer, ela achava que estava fazendo o mesmo com seu coração.
Ela só saberia quando chegasse.
Lilian não fechou os olhos por nenhum segundo durante o vôo de 3 horas para sua cidade natal. Estava nervosa, ansiosa, receosa. Não sabia o que encontraria lá. Além de ter que ver seu pai, a quem não via desde que saiu de lá também.
Eram muitas memórias juntas num só lugar que a faziam tremer por dentro e julgar se realmente tinha sido uma boa opção voltar por uma singela assinatura.
Afinal, quem descobriria que ela já era casada? Valia a pena ser uma fora da lei pra não passar por aquela situação? Ser uma bigama? Quem descobriria?
Ele quase ligou para seu advogado pra saber. Quase.
Começou a ver a cidade pela janela do avião, sentindo um arrepio na espinha.
Quando desceu, indo pegar sua mala no aeroporto, sentiu o cheiro característico de lá, e uma nostalgia bateu em seu peito. Foi como se nunca tivesse saido.
Alugou um carro, e começou a cruzar a cidade, vendo as memórias passando pela janela do carro, sua vida inteira ali.
Passaria primeiro na casa de seu pai. Seria uma surpresa e tanto ao velho que não tinha nem idéia de que a filha estava vindo.
Tudo parecia exatamente igual: a lanchonete que sempre tomava café, o restaurante da esquina onde ela e Miguel jantavam quando o mais velho tinha preguiça de cozinhar...
Lilian sentia falta da comida de Miguel. Nunca havia comido uma comida melhor que a dele. Sem falar nos dias que ele ficava animado para testar uma nova receita, e ia de minuto em minuto levar uma colherada para ela provar em seu escritório.
Parou na esquina de sua casa, tentando controlar as mãos que tremiam e a respiração descompassada.
Mas tudo só piorou quando levantou a cabeça.
Na varanda de sua casa, seu pai, um senhor já com certa idade, se despedia de um jovem magro, com uma touca na cabeça, calças pretas e moletom também preto. Este, esperou o senhor fechar a porta e se virou para descer os 4 degraus que davam para rua. Ajeitou o óculos no rosto antes de colocar as mãos dentro dos bolsos do moleton.
Era Miguel. Mais magro, com o rosto mas amadurecido. Mas ainda era Miguel. Seu Miguel.
De dentro do carro, Lilian começou a chorar. Não esperava ter que ve-lo tão cedo, ainda não tinha se preparada.
E começava a questionar o que ela realmente tinha ido fazer ali.
Era uma droga que ele já tivesse visto Miguel nas primeiras horas que havia chegado na cidade. Era como se o passado estivesse querendo esfregar na sua cara tudo aquilo que perdeu, ou melhor, que abandonou.
Miguel continuou andando para o lado oposto de onde Lilian estava, e ela só pode observar as costas do ex marido se afastando, com certeza indo para a sua antiga casa, já que era naquela direção.
Ver Miguel saindo da casa de seu pai ativou coisas que ela deixara adormecidas por muito tempo. Ela se lembrou da primeira vez que Miguel a buscou para saírem, encostando seu carro na frente da casa.
Eles tinham se conhecido na escola, Miguel estava no segundo ano do ensino médio e Lilian estava no último ano do fundamental.
Ficaram uns dois anos como amigos, e foi só quando Miguel voltou de férias do primeiro semestre de faculdade, que teve coragem de chamar a mais nova pra sair.
Lilian se lembrava de estar eufórica. Já estava apaixonada por Miguel ha alguns anos, mas nunca tentou nada.
Miguel sempre fora muito reservado, não se abria com facilidade, era muito difícil ler suas emoções e vontades, coisa que depois de casados, Jimin percebeu que não era tão difícil decifrar.
Lembrou também da vez que apresentou Miguel a seu pai, que se apaixonou pelo rapaz a primeira vista, deixando Lilian completamente aliviada e surpresa. Seu pai até tinha aceitado bem que ele era mais velho, mas ele nunca tinha aparecido, então ela nunca soube qual seria a verdadeira reação dele, por isso, respirou fundo soltando risos nervosos enquanto Miguel e seu pai conversavam alegremente na sala, enquanto ela estava sentado de mãos dadas com ele.
Se Lilian fechasse os olhos ainda conseguia sentir o aperto firme e macio dos dedos de Miguel em sua mão. Sentia saudade daquelas mãos, que a mimava, dava carinho e a levava a loucura.
As lágrimas ainda escorriam quando se lembrou da primeira briga real que tiveram ainda namorados, Lilian saiu da casa batendo a porta com força, mas Miguel saiu logo atrás, indo em direção a garota no gramado, pedindo perdão. Lilian não lembrava do motivo da briga mas sabia que a culpa real não era de Miguem, nunca era. Mas ele sempre estava pronto para abrir mão da razão e fazer as pazes. Por muitas vezes o orgulho de Lilian não deixou que ela voltasse atrás em algumas atitudes, mas Miguel sempre soube como levar as situções.
Miguel era um anjo. E o melhor amigo e marido que ela teve.
Ela não se iludia achando que Arthur um dia ocuparia o lugar de Miguel em sua vida, sabia que estava bem guardado o espaço enorme que ele ainda ocupava em seu coração.
Queria saber como o mais velho estava. Queria se enfiar em seus pensamentos pra saber se ele estava bem, se também sentia saudades, se tinha seguido em frente.
Lilian apertou os olhos com força ao pensar que talvez Miguel estivesse com alguém, afinal, já se passara quase 3 anos. Ela sabia que era egoísta da parte dela querer que ele não tivesse encontrado alguém quando o motivo dela estar ali era justamente porque ela tinha encontrado e iria se casar de novo.
Era por isso que ela estava ali.
Não era?