– VOCÊ TEM duas escolhas, Scarlett. – Os olhos gananciosos do seu ex-chefe viajaram da barriga
grávida até os seios cheios que esgarçavam o tecido do vestido preto. – Ou você assina estes papéis para
desistir de seu bebê assim que ele nascer e se casa comigo imediatamente, ou...
– Ou o quê? – Scarlett Ravenwood tentou se afastar dos papéis que ele empurrava em sua direção.
Mas o homem supermusculoso ocupava a maior parte do banco traseiro da limusine.
– Ou eu vou pedir ao dr. Marston que declare sua insanidade. E vou interná-la. – Os lábios carnudos
curvaram-se em um sorriso agradável. – Para sua própria segurança, é claro. Porque qualquer mulher
em sã consciência obviamente se casaria comigo. E então você perde o bebê do mesmo jeito, não?
Scarlett encarou-o, mal enxergando os prédios brilhantes de Manhattan passando por trás dele
enquanto desciam a Quinta Avenida. Blaise Falkner era bonito, rico. E um monstro.
– Você está brincando, não é? – Ela deu uma risada estranha. – Vamos lá, Blaise. Em que século você
acha que estamos vivendo?
– O século em que um homem rico pode fazer o que quiser, a quem quiser. – Inclinando-se, ele
enrolou uma mecha do longo cabelo ruivo dela em volta de um dedo grosso. – Quem vai me impedir?
Você?
A boca de Scarlett ficou seca. Pelos últimos dois anos, tinha vivido na mansão dele no Upper East
Side como assistente de enfermagem para sua mãe moribunda, e, durante aquele tempo, Blaise a
assediou constantemente. Apenas sua mãe arrogante, apavorada com a possibilidade de seu precioso
herdeiro se envolver com a criadagem, mantinha-o distante.
Mas agora a sra. Falkner estava morta, e Blaise estava mais rico do que se podia imaginar. Enquanto
isso, Scarlett era nada mais que uma órfã que tinha se mudado para Nova York desesperada por um
emprego. Desde sua chegada, vivia quase isolada no quarto da paciente, obedecendo a ordens ríspidas
das enfermeiras, cumprindo as piores tarefas e lidando com uma inválida má e irritante. Não tinha
amigos na cidade. Ninguém para tomar seu partido contra ele.
Exceto...
Não, disse a si mesma desesperadamente. Ele não.
Ela não podia. Não iria.
Mas, e se Blaise estivesse certo? E se ela fugisse e fosse à polícia, e não acreditassem nela? Ele e seu
psiquiatra de estimação encontrariam uma maneira de dar cabo da ameaça?
Quando ele a pediu em casamento durante o funeral, de forma absurda, literalmente sobre o túmulo
de sua mãe, Scarlett tentou rir, dizendo a ele que estava deixando Nova York. Para sua surpresa, ele
ofereceu uma carona até a rodoviária. Ignorando o radar de sua intuição, ela aceitou.
Scarlett deveria saber que Blaise não desistiria tão fácil, mas nunca imaginou que ele iria tão longe.
Ameaçá-la para casar-se? Tentar forçá-la a dar o bebê?
Ela cometeu um erro achando que Blaise era só um playboy petulante e egoísta, que a queria como
uma criança mimada quer um brinquedo que não pode ter. Ele, na verdade, era louco.
– Então? – exigiu Blaise. – Qual a sua resposta?
– Por que você iria querer se casar comigo? – disse Scarlett, baixinho. Com um suspiro profundo,
tentou apelar para a vaidade dele. – Você é bonito, charmoso, rico. Qualquer mulher seria feliz casada
com você. – Qualquer mulher que não o conheça, completou silenciosamente.
– Mas eu quero você. – Blaise a agarrou pelo pulso. – Todo esse tempo você me recusou. Então
engravidou de outro homem e não me diz quem ele é. – Ele trincou os dentes. – Assim que nos
casarmos, eu serei o único que poderá tocá-la. E assim que o moleque nascer e for embora, você será
minha. Para sempre.
Scarlett tentou sufocar seu pânico crescente. Enquanto a limusine descia a Quinta Avenida, viu a
famosa catedral no fim do quarteirão. Uma ideia desesperada formou-se em sua mente. Será...?
Sim. Podia e faria.
Não era seu plano. Queria comprar uma passagem de ônibus para o Sul e usar sua pequena
poupança para começar uma vida nova em um lugar ensolarado, onde houvesse flores o ano todo. Ia
criar sozinha seu bebê. Mas, como seu próprio pai dizia frequentemente quando era criança, novos
desafios exigiam novos planos.
Seu novo plano a assustava, no entanto, porque, se Blaise Falkner era a cruz, Vincenzo Borgia era a
caldeirinha.
Vin Borgia. Pensou nos olhos escuros do pai do seu filho, tão quentes uma hora, tão frios em outra.
Pensou em seu queixo imponente, a força de seu corpo, a força de sua vontade.
Um arrepio percorreu seu corpo. E se ele...
Não pense nisso, disse a si mesma. Uma coisa impossível de cada vez. Outro ditado que havia
aprendido com o pai.
Quando o motorista diminuiu a velocidade no sinal vermelho, ela soube que era agora ou nunca.
Respirou fundo e abriu os olhos com um sorriso frágil.
– Blaise... – Scarlett inclinou-se, enquanto fechava com força o punho esquerdo. – Sabe o que eu
sempre quis fazer...?
– O quê? – Ele respirou fundo, lambendo os lábios enquanto olhava para os seios dela.
– Isso! – Ela acertou um soco direto na mandíbula dele. Os dentes estalaram quando sua cabeça
voou para trás.
Sem esperar a limusine parar completamente, ela agarrou a maçaneta e pulou para a calçada.
Chutando seus saltos número 5, protegeu a barriga com as mãos e correu o mais rápido que pôde na
direção da catedral.
Resfolegando enquanto corria, Scarlett olhou rapidamente para o relógio dourado descascado que
havia pertencido à sua mãe. Rezou para que não fosse tarde demais.
Um suntuoso carro branco antigo enfeitado com flores e laços estava parado no recuo. Ao lado, um
motorista uniformizado aguardava. Guarda-costas de óculos escuros e comunicadores guardavam as
escadarias e o perímetro da catedral com expressões ameaçadoras.
Então o casamento já havia começado. Scarlett tentou não pensar nisso nos últimos quatro meses,
desde que tinha visto o anúncio no New York Times. Mas os detalhes ficaram gravado em sua memória,
e agora ela estava feliz, porque só Vin Borgia poderia ajudá-la.
Um guarda-costas bloqueou-a com um olhar.
– Senhorita, afaste-se...
Agarrando teatralmente a barriga, Scarlett avançou pela calçada.
– Socorro! Um homem está me perseguindo! Ele quer sequestrar meu bebê!
Os olhos do guarda-costas se arregalaram por trás dos óculos escuros.
– O quê?
Ela passou por ele, gritando:
– Chame a polícia!
– Ei! Você não pode simplesmente...
Scarlett subiu correndo os degraus da catedral, buscando ar.
– Pare bem aí! – Um segundo guarda-costas veio em direção a ela, com uma expressão de ódio.
Virou-se ao ouvir o grito de seu colega, enquanto dois dos guarda-costas de Blaise começaram a socá-lo
na calçada logo abaixo.
– Mas que...
Aproveitando-se da distração dele, Scarlett empurrou as portas da catedral e entrou.
Por um minuto, piscou na sombra.
Então, seus olhos se acostumaram, e ela viu um casamento saído de um conto de fadas. Dois mil
convidados acomodados e, no altar, sob uma profusão de rosas brancas, lírios e orquídeas, estava a mais
bela noiva, de pé ao lado do homem mais desesperadoramente lindo do mundo.
Só de ver Vin pela primeira vez desde a noite mágica em que haviam feito um bebê, Scarlett
recuperou o fôlego.
– Se alguém aqui souber de algum motivo – disse o celebrando –, que impeça esses dois de se unirem
pelos sagrados laços do matrimônio...
Scarlett ouviu um ruído metálico atrás de si, e então ouviu o suspiro triunfante e ríspido de Blaise,
que entrava pelas portas da catedral.
– Fale agora ou cale-se para sempre.
Desesperada, avançou para o centro da nave. Levantando a mão, gritou:
– Por favor, pare!
O som de duas mil pessoas engasgando de susto e virando a cabeça ao mesmo tempo para olhar para
ela, inclusive a noiva e o noivo, igualou-se ao de um estrondo.
Scarlett pôs as mãos na cabeça, sentindo tontura. Era muito difícil falar quando mal podia respirar.
Ela se concentrou na única pessoa que importava.
– Por favor, Vin, você precisa me ajudar... – Sua voz embargou, e então se fortaleceu com a
lembrança da criança não nascida que dependia dela. – Meu chefe está tentando roubar nosso bebê!
DIFERENTE DE muitos noivos, na noite anterior ao casamento, Vincenzo Borgia, Vin para os amigos,
tinha dormido muito bem.
Tinha plena certeza do que faria no dia seguinte. Estava se casando com a mulher perfeita. Sua corte
a Anne Dumaine tinha sido bem fácil, assim como seu noivado. Sem discórdia, sem confusões
emocionais. Até mesmo sem sexo, pelo menos por enquanto.
Mas ali suas vidas seriam unidas, bem como suas famílias... E, mais que isso, suas empresas. Quando
a SkyWorld Airways de Vin se fundissem com a Air Transatlantique do pai dela, Vin ganharia 30 novas
rotas de transatlântico de uma tacada, incluindo as lucrativas travessias Nova York-Londres e Boston-
Paris. A empresa de Vin praticamente dobraria de tamanho, de forma muito vantajosa. Por que Jacques
Dumaine não seria generoso com seu futuro genro?
Não haveria mais surpresas na vida de Vin. Nenhuma incerteza, nenhum questionamento sobre o
futuro. Ele gostava disso.
Sim, Vin havia dormido bem na noite anterior, e naquela noite, quando finalmente fizesse amor com
sua esposa tradicional, que insistira em permanecer virgem até o casamento, esperava dormir melhor
ainda. Assim como todas as noites pelo resto de sua vida bem organizada, boa e controlável.
Importava que não estivesse nem um pouco atraído por sua noiva? Haviam dito a ele que a paixão
morre logo após o casamento, então talvez fosse até bom. Você não sente saudades do que nunca teve.
Que diferença faria se ele e Anne tivessem muito pouco em comum fora o casamento e a fusão?
Homens e mulheres têm interesses diferentes. Ele superaria as fraquezas dela, e ela toleraria as dele.
E Vin sabia que tinha fraquezas. Falta de paciência, de empatia. No mundo dos negócios, isso era
uma vantagem, mas, assim que tivesse filhos, ele sabia que tanto paciência quanto empatia seriam
necessárias.
Vin estava pronto para se aquietar. Queria uma família. Fora a construção de seu império, essa era
sua principal razão para se casar, mas não a única. Após sua última aventura sexual, uma noite
explosiva em que havia feito o melhor sexo de sua vida com uma linda ruiva que desapareceu na
manhã seguinte, decidiu que estava farto de casos imprevisíveis.
Então, alguns meses depois, delicadamente pediu Anne Dumaine em casamento.
Nascida em Montreal, Anne era linda, tinha antecedentes familiares impecáveis, e certamente seria
boa mãe e uma ótima esposa de executivo. Falava diversas línguas, incluindo francês e italiano, e tinha
formação em Negócios Internacionais. Mais que isso, vinha com um dote irresistível... a Air
Transatlantique.
Vin sorriu para Anne, de pé em frente a ele, enquanto aguardavam para fazer seus votos. Ela parecia
a princesa Grace, pensou, loura e séria, com um vestido branco discreto e um longo véu de renda feito a
mão por freiras belgas. Impecável. Uma noiva de revista.
– Se alguém aqui souber de algum motivo – disse solenemente o arcebispo que presidia o casamento
– que impeça esses dois de se unirem pelos sagrados laços do matrimônio...
Houve certa comoção entre os presentes, som de vozes, um estrondo. Passos. Pelo canto dos olhos
viu cabeças se virando. Ele se recusou a olhar, seria rude, mas seu sorriso diminuiu um pouco.
– Fale agora – terminou o celebrante – ou cale-se para sempre.
– Por favor, pare!
Uma voz de mulher. Vin rangeu os dentes. Quem ousava interromper seu casamento? Uma de suas
ex-amantes desesperadas? Como havia passado pelos guarda-costas? Furioso, ele se virou.
Vin congelou ao ver olhos verdes emoldurados por cílios negros em um belo rosto em formato de
coração, o cabelo ruivo vibrante, brilhante como sangue arterial descendo sobre os ombros. Ela estava
de pé sobre o chão de pedras cinzentas da catedral, seu sonho realizado.
Scarlett. A mulher que assombrava seus sonhos pelos últimos oito meses. A virgem de cabelo ruivo
com quem tinha passado uma noite, e que desapareceu na manhã seguinte, antes que ele pudesse pegar
seu telefone... ou mesmo seu sobrenome! Nenhuma mulher nunca o havia tratado tão mal. Ela
inflamou seu sangue para depois desaparecer como Cinderela, sem ao menos deixar um sapatinho de
cristal.
Ela estava toda de preto. E descalça?
Seus seios saltavam pelo decote do vestido. O olhar de Vin voltou-se rapidamente para sua barriga.
Ela não podia estar...
– Por favor, Vin, você precisa me ajudar – arfou, sua voz ecoando na fria pedra cinzenta. – Meu
chefe está tentando roubar nosso bebê.
Por um momento, Vin a olhou em choque, incapaz de compreender suas palavras.
Nosso bebê?
Nosso?
O som de duas mil pessoas engasgando de susto e virando a cabeça ao mesmo tempo para olhar para
ele, esperando sua reação, igualou-se ao de um estrondo.
O corpo de Vin aqueceu-se para em seguida esfriar quando ele sentiu todo o controle sobre o
casamento, sobre sua privacidade, sua vida, arrancado de suas mãos. Próximo a ele, viu o rosto
vermelho do sogro e os olhos chocados da sogra. Por sorte, ele não tinha sua própria família para
decepcionar.
Virou-se para sua noiva, esperando ver lágrimas, ou ao menos dor lancinante, esperando ter de
explicar que não a havia traído, claro que não, que tudo havia acontecido meses antes de conhecê-la.
Mas o lindo rosto de Anne estava cuidadosamente neutro.
– Com licença – disse. – Preciso de um minuto.
– O tempo que quiser.
Vin desceu lentamente do altar em direção a Scarlett. As pessoas que assistiam nos bancos pareceram
desaparecer, seus rostos desfazendo-se em meros borrões coloridos.
Seu coração batia forte quando ele parou em frente à mulher que quase havia convencido a si mesmo
que não existia. Olhando para sua barriga, disse em voz grave:
– Você está grávida?
Ela olhou em seus olhos.
– Sim.
– O bebê é meu?
O queixo dela ergueu-se:
– Você acha que eu mentiria?
Vin lembrou-se de seu leve gemido de dor quando a tomou pela primeira vez, abraçando seu corpo
virgem, tão quente, duro e tenso contra o seu, na escuridão de seu quarto. Lembrou-se de como secou
suas lágrimas com beijos, até que sua dor transformou-se em algo bem diferente...
– Você não podia ter me avisado antes? – murmurou.
– Desculpe-me – sussurrou ela. – Eu não... – Então olhou para trás, e sua expressão tingiu-se de
medo.
Três homens corriam pela nave, o rosto do líder era uma máscara de fúria cega.
– Achei você, sua... – disse ele e agarrou grosseiramente o pulso de Scarlett. – Isso é assunto
particular. Volte ao seu casamento.
Vin quase o fez. Seria mais fácil deixá-los ir. Ele sentiu a pressão de sua noiva, que aguardava, da
fusão pendente, da família dela, da catedral, do arcebispo, dos convidados, alguns vindos de outras
partes do mundo. Poderia dizer a si mesmo que Scarlett estava mentindo, e virado as costas. Poderia ter
caminhado de volta ao altar e recitado seus votos calmamente, unindo sua vida à de Anne.
Mas algo o impediu.
Talvez o punho de ferro do homem sobre o pulso fino de Scarlett. Ou a forma como seus dois
brutamontes a estavam arrastando para fora da catedral, apesar de seus esforços em vão. Talvez fosse a
expressão de pânico e nojo em seu adorável rosto, enquanto todos aqueles convidados ricos e poderosos
assistiam em silêncio, sem intervir.
Ou talvez fosse o fantasma de sua própria memória, reprimida há muito, de como ele já havia se
sentido desprotegido e desprezado, arrastado de sua própria casa contra a vontade.
O que quer que fosse, Vin viu-se fazendo algo que não fizera desde muito, muito tempo.
Envolvendo-se.
– Pode parar aí – ordenou.
O rosto do outro homem virou-se para ele.
– Fique fora disso.
Vin foi em direção a ele.
– A moça não quer ir com você.
– Ela está estressada, para não dizer maluca. – O homem escorregadio e gordo como um gato persa
agarrou-se a seu pulso. – Eu a estou levando ao meu psiquiatra. Ela ficará internada por um bom
tempo.
– Não! – gemeu Scarlett. Olhou para Vin, com os olhos cheios de lágrimas. – Eu não sou louca. Ele
era meu chefe. E está tentando me forçar a casar-me com ele e entregar nosso bebê.
Entregar o nosso bebê.
Essas quatro palavras cortaram o coração de Vin como uma faca. Todo o seu corpo endureceu.
E ele sabia que não iria deixar aquele homem levá-la de jeito nenhum.
Sua voz soou fria.
– Deixe-a ir.
– Você vai me obrigar?
– Você sabe quem sou eu? – perguntou Vin calmamente.
O homem olhou-o desafiadoramente.
– Não faço nem... – A voz sumiu, e ele engoliu em seco. – Borgia – disse as duas sílabas entredentes.
Vin viu o medo nos olhos do homem. Era uma reação à qual já estava acostumado. – Eu... Eu não
percebi...
Vin olhou para seus próprios guarda-costas, que entraram na catedral e rodearam os outros homens
com precisão cirúrgica, prontos para agir. Acenou para seu chefe de segurança, dizendo para manterem
distância. Então olhou para o homem que segurava Scarlett.
– Saia. Agora.
Ele obedeceu, soltando-a abruptamente. Virou-se e saiu, seguido por dois guarda-costas.
O barulho surgiu de repente, por todos os lados. Scarlett caiu nos braços de Vin, o rosto enfiado no
peito de seu smoking, com um soluço.
E um jovem pulou de um dos bancos do meio.
– Anne, eu lhe disse! Não se case com ele! Quem se importa se você for deserdada? – Olhando em
volta, o estranho declarou em alto e bom som: – Eu estou dormindo com a noiva há seis meses!
Instalou-se o caos. O pai da noiva começou a gritar, a mãe chorava alto, e, diante de toda aquela
confusão, a noiva, silenciosa e cuidadosamente, desmaiou sobre uma montanha fofa de tule branco.
Vin nem reparou. Seu mundo reduziu-se a duas coisas: as lágrimas de Scarlett, que chorava de alívio
contra seu peito, e o tremor de seu corpo grávido, abrigado entre seus braços
DA CRUZ para a caldeirinha.
Scarlett havia escapado de Blaise, mas a que preço?
Pela última hora, tinha tentado acalmar seus batimentos cardíacos descontrolados de medo, sentada
em uma poltrona coberta com padrão floral esmaecido próxima a uma janela que dava para um jardim
interno. Vin a havia levado para uma sala particular na sacristia, atrás da catedral, pedindo que
esperasse enquanto ele resolvia a situação. Uma senhora gentil, talvez uma espécie de governanta, havia
colocado uma xícara de chá em suas mãos trêmulas.
Mas o chá esfriou. Scarlett pousou a xícara no aparador, com um ruído.
Não sabia o que a amedrontava mais. A lembrança da carranca de Blaise ou o medo do que Vin
Borgia faria agora, tomando posse de seu futuro, e do futuro de seu bebê.
Devia fugir.
Devia fugir agora.
Fugir seria a única forma de garantir sua liberdade.
Durante sua vida, Scarlett tinha vivido em mais de 20 lugares diferentes, cidadezinhas escondidas em
florestas e montanhas, às vezes em cabanas sem eletricidade ou água corrente. Raramente podia ir à
escola, e, quando podia, tinha de pintar o cabelo ruivo de castanho e usar outro nome. Coisas que são
comuns para crianças normais, como ter uma casa de verdade, amigos, ir à mesma escola o ano inteiro,
eram luxos que Scarlett apenas sonhava em ter. Ela nunca tinha praticado esportes, cantado no coral da
escola, e nem ido ao baile de formatura. Ela não havia sequer saído de verdade com alguém.
Até os 24 anos. No dia em que conheceu Vin Borgia, estava fraca, emotiva e vulnerável. E ele a
apanhou como quem pega uma borboleta em uma rede.
Olhou pela janela, para o jardim na parte de trás, cheio de rosas e hera. Um jardim secreto, rodeado
pelos arranha-céus de Nova York. Um lugar estranhamente calmo, verde, que parecia estar a
quilômetros do tráfego barulhento e da buzina dos táxis da Quinta Avenida. Levantou-se e começou a
caminhar.
Em uma tarde cinzenta e gelada do último mês de fevereiro, tinha ido buscar uma medicação para a
sra. Falkner, quando recebeu uma mensagem de um velho amigo de seu pai em Boston, com notícias
que a abalaram.
Alan Berry acabava de morrer em uma briga de facas inconsequente, em um bar sulista. O homem
que traiu seu pai 17 anos atrás, que fez um acordo para sua liberdade e forçou Harry Ravenwood a
fugir com a esposa doente e a filha pequena, teve uma morte idiota, depois de uma vida idiota.
De pé na farmácia, Scarlett sentiu os joelhos enfraquecerem. Ela se sentiu mal.
Cinco minutos depois, estava junto ao balcão de um bar do outro lado da rua, pedindo sua primeira
bebida. O gosto forte e ardido a fez tossir.
– Deixe-me adivinhar. – Uma voz grave e com um toque de humor vinda da banqueta de couro
vermelho no canto a alcançou. – É a sua primeira vez.
Virou-se. O homem saiu devagar das sombras. Olhos e cabelo negros. Ombros largos
impressionantes. Rosto anguloso. Terno preto. A noite nem havia caído e já havia uma sombra de barba
no rosto dele. Parecia um herói, ou um vilão bonitão, de um filme, tão masculino, imponente e bonito,
que a balançou mais que a dose de vodca.
– Foi um dia... difícil. – Sua voz tremeu.
Um sorriso irônico ergueu os cantos da boca dele, cruel e sensual.
– Por que outro motivo você estaria bebendo à tarde?
Scarlett enxugou os olhos com uma risada.
– Diversão?
– Diversão. Essa é a ideia. – O homem tinha se aproximado o suficiente para ver seus olhos
avermelhados e o rosto marcado de lágrimas no bar escuro. Tinha se preparado para perguntas, mas ele
apenas sentou-se na banqueta ao lado dela e chamou o garçom.
– Vamos ver se a segunda dose desce mais fácil.
Apesar do que sabia sobre ele agora, Vin Borgia ainda tinha esse efeito sobre ela. Quando Scarlett
viu-o no altar com sua noiva, todas as lembranças de sua noite juntos retornaram, quando ele a levou à
sua cobertura elegante caríssima, decorada em estilo minimalista. Ele a seduziu facilmente, tomando
sua virgindade como se fosse dele. Ele fez sua vida explodir em cores e alegria.
Scarlett sabia o nome de Vin, já que o porteiro o cumprimentou com o maior respeito, chamando-o
de "sr. Borgia". Mas nunca disse a ele seu sobrenome. Alguns hábitos não são facilmente esquecidos.
Um telefonema da enfermeira da sra. Falkner acordou Scarlett enquanto Vin ainda dormia. Só o seu
senso de dever a forçou a sair do calor de sua cama. Retornou à mansão dos Falkner, entregou a
medicação e procurou por informações de seu único amante na internet enquanto sonhava acordada.
Mas acordou rapidamente. Ficou horrorizada com o que encontrou.
Vincenzo Borgia era um cruel bilionário da aviação, surgido do nada, e que não dava a mínima para
quem machucasse em sua busca pela dominação mundial. Não conseguia imaginar como um homem
daqueles a havia seduzido, já que era sempre visto ao lado de socialites e supermodelos. Mas ficou grata
por não ter lhe dito seu sobrenome. Não o deixaria machucá-la.
Mais tarde, quando descobriu que estava grávida, imaginou se havia tomado a decisão correta. Mas
ver o anúncio do noivado de Vin no jornal selou o acordo.
Scarlett não esperava rever Vin. Planejava criar sozinha o bebê.
Não tinha medo da solidão. Havia crescido em meio a fugas, e seu pai lhe ensinou algumas coisas
quando sua mãe ficou doente demais para perceber. Coisas como bater carteiras, abrir fechaduras, e
principalmente, como ser invisível e sobreviver com quase nada.
Comparado com o que já tinha vivido, criar uma criança sozinha seria fácil. Não era uma fugitiva,
nunca havia cometido crimes, e sempre poderia trabalhar como assistente de enfermagem. Tinha até
algum dinheiro guardado. Não precisava mais se esconder.
Ou precisava?
Iria realmente arriscar-se a descobrir se Vin Borgia, o homem sobre quem leu tantas coisas horríveis,
poderia ser um bom pai? Ousaria arriscar só porque amava tanto seu próprio pai?
Podia ver o brilho leve dos grãos de poeira através de um raio dourado e fraco de sol da janela.
Pousou as mãos delicadamente sobre a barriga.
Vin a salvou de Blaise, mas homens ricos e poderosos têm algo em comum: querem estar no
controle. E Vin Borgia era mais rico e mais poderoso do que a maioria.
Ela devia ir embora antes que ele voltasse.
Agora.
Scarlett deu um passo e parou, lembrando-se de que suas mala e bolsa ainda estavam na limusine de
Blaise, com seu dinheiro, identidade, cartão de crédito, telefone. Como iria fugir sem dinheiro e
passaporte?
Desolada, baixou os olhos, seus dedos nus enfiados no tapete felpudo. Não tinha nem sapatos!
– Qual é o seu nome?
Virou-se para a porta. Vin havia entrado na sala, com sua mandíbula de granito, enquanto afrouxava
a gravata. Só olhar para seu corpo musculoso já lhe causava uma reação física, fazia-a tremer com uma
mistura de medo e desejo. Nem o smoking conseguia dar a Vin uma aparência completamente
civilizada. Não quando ele tinha aquele olhar duro e quase selvagem.
Engoliu em seco.
– Você sabe meu nome. Scarlett.
Ele olhou-a com raiva.
– Seu sobrenome.
– Smith – tentou.
Vin trincou os dentes. Virou-se. Pegou uma garrafa de água que estava em uma bandeja, em uma
mesa próxima. Encheu um copo.
– Seu nome é Ravenwood.
Abriu a boca em choque.
– Como você...
Colocando a mão no bolso do paletó, ele segurou a carteira dela, seu rosto bonito impassível.
– Como você conseguiu isso?
– Falkner mandou sua bolsa para mim. E a sua mala.
– Mandou? Você quer dizer jogou na rua?
– Quero dizer que os guarda-costas dele as trouxeram pessoalmente para mim, empilhadas, e com os
cumprimentos dele.
Oh, era bem pior do que ela temia. Scarlett suspirou:
– O pior homem que eu conheço tem medo de você?
Ele sorriu com arrogância.
– Não é incomum. – Estendeu a carteira para ela. – Aqui está. Dezessete dólares em dinheiro e um
cartão de crédito. Com limite de 800 dólares.
– Ei! – Scarlett agarrou a carteira. Seu rosto queimava. – Como você sabe o limite do meu cartão de
crédito?
Levantando o copo, Vin girou a água límpida cuidadosamente.
– Eu queria saber com o que estava lidando. Uma órfã que nunca morou por muito tempo em um
mesmo lugar, veio para Nova York para um trabalho humilde, guardou todo o dinheiro que ganhou
nos últimos dois anos, não fez novos amigos, trabalhou o tempo todo e não saiu nem uma vez. –
Inclinou a cabeça, olhando-a com olhos negros fechados enquanto murmurava: – Com uma rara
exceção.
Uma onda de calor atravessou-a, e então uma de frio. Não podia pensar naquela noite. Não agora.
– É muita audácia sua...
– Os Falkner mal pagavam salário-mínimo, mas você economizou cada centavo que pôde. Ética de
trabalho impressionante, considerando o seu pai fora da lei...
– Não ouse chamá-lo assim! – disse Scarlett perdendo a calma. – Meu pai era o melhor e mais gentil
homem que já viveu!
– É sério? – Os lábios de Vin curvaram-se. – Ele foi um ladrão de banco que se tornou fugitivo,
arrastou você e sua mãe para uma vida de fugas. Você não tinha dinheiro, mal foi à escola, sua mãe
morreu de uma doença à qual poderia ter sobrevivido com os cuidados adequados. Eu perdi alguma
coisa?
– Pare de julgá-lo – disse enraivecida. – Meu pai largou essa vida quando eu era bebê, mas um amigo
o convenceu a tentar uma última vez. Quando minha mãe descobriu, deu a ele um ultimato. Ele
devolveu o dinheiro ao banco de forma anônima!
– Por que ele não se entregou?
– Porque não queria deixar minha mãe. Nem a mim. Teríamos ficado bem, mas Alan Berry foi pego
gastando sua metade do dinheiro seis meses depois, e denunciou meu pai como suposto mentor do
crime! Depois que ele tentou fazer a coisa certa...
– A coisa certa seria seu pai se entregar logo no início – disse Vin de forma cruel –, em vez de esperar
dez anos para tomar coragem e arrastar você e sua mãe em uma vida miserável em fuga. A única
atitude realmente decente que seu pai já tomou foi morrer em um acidente de avião quando saiu da
prisão, deixando para você um acordo multimilionário oferecido pela companhia aérea. – Vin olhou-a
com curiosidade. – Você doou aquele dinheiro todo. Por quê?
– Eu não queria dinheiro sujo de sangue – sussurrou. – Doei tudo para caridade.
– Sim, eu sei. Pesquisa do câncer, defensoria pública para os pobres e ajuda a crianças de pais
encarcerados. Todas ótimas causas. Mas não entendo por que escolheu doar todo o dinheiro.
– Algumas coisas importam mais que dinheiro.
– Como, por exemplo, um bebê? Você me deixou seduzi-la e tirar sua virgindade, e fugiu enquanto
eu dormia. Nunca se incomodou em me procurar. Esperou até o dia do meu casamento para me contar
a novidade de que estava grávida.
– Eu não tive escolha.
– Havia muitas escolhas, Scarlett. Diga-me a verdade. Se Falkner não a tivesse ameaçado hoje, você
nunca teria me contado sobre o bebê, não é?
Ela o encarou por um longo momento e, por fim, sacudiu a cabeça.
– Por quê? – perguntou ele. – Você até se recusou a me dizer seu sobrenome naquela noite. Por quê?
Foi porque você também estava encorajando a atenção de Falkner?
– Nunca! Eu sabia que ele me queria, mas nunca pensei que fosse me atacar enquanto me dava uma
carona após o enterro de sua mãe!
– Ah. Isso explica o vestido preto. Mas por que você está descalça?
– Arranquei meus sapatos enquanto corria na Quinta Avenida. Eu sabia que seu casamento era aqui,
hoje. – Scarlett suspirou. – Desculpe-me por tê-lo estragado.
– Sim. Bem... Acho que eu é que devia agradecê-la.
– Você não sabia que sua noiva o estava traindo?
– Ela me convenceu de que era virgem e queria esperar o casamento.
Uma risada saiu de seus lábios.
– Você achou que ela era virgem? A essa altura do campeonato?
– Por que não? – disse friamente. – Você era.
Seus olhos encontraram-se, e o corpo de Scarlett aqueceu-se. Contra a sua vontade, lembranças
daquela noite a invadiram, estar nos braços dele, em sua cama, sentindo seu corpo forte, quente e cheio
de desejo contra o dela. Tentou sorrir.
– Sim, mas eu não sou normal.
– Verdade. – Seu olhar escuro prendeu o dela. – Eu sou realmente o pai do seu bebê, Scarlett? Ou
você mentiu porque precisava da minha ajuda?
– Claro que o filho é seu!
– Vou descobrir se não for verdade.
– Você é o único homem com quem dormi, então tenho bastante certeza!
– Então, o que você quer de mim agora? Dinheiro?
– Mostre-me onde está minha mala e eu vou embora – disse ela.
– Você não vai a lugar algum enquanto isso não for resolvido.
– Veja, estou extremamente agradecida por sua ajuda com Blaise, e perdoe-me por ter arruinado seu
grande casamento, mas não gostei de você investigar a minha vida e depois assumir que eu sou uma
estelionatária ou uma alpinista social. Não sou nenhum dos dois. Só quero criar meu bebê em paz.
– Vou pedir um exame de DNA – ameaçou ele. – E chamar meus advogados.
Ela o encarou com horror.
– Advogados? Para quê?
– Para definirmos as regras.
Scarlett sentiu uma onda de pânico que a fez perder o equilíbrio. Sua voz tremeu.
– Você quer dizer que vai pedir a guarda?
– Isso não será necessário. – Scarlett expirou aliviada, antes que ele concluísse: – Porque, assim que
eu tiver provas de que o filho é meu, Scarlett, você vai se casar comigo.
COM AQUELAS palavras, Vin tomou as rédeas do caos daquele dia.
Ele estava enganado quanto a Anne Dumaine. Havia se convencido de que ela era discreta e tímida
quando, no fim das contas, ela o estava traindo.
– Perdão – sussurrou Anne na última vez que a viu, quando lhe devolveu a aliança de noivado de
dez quilates. Mas não pareceu arrependida quando se virou alegremente para seu amante, um garoto
de uns 23 anos, com quem deixou a catedral de mãos dadas.
E ainda teve de ouvir do pai dela, obviamente muito irritado:
– Se você tivesse se incomodado de dar a atenção à minha filha, ela não teria se apaixonado por
aquele zé-ninguém!
A fusão com a Transatlantique estava obviamente cancelada.
Erro de Vin. Ele nunca pensou em olhar além do exterior louro e lindo de Anne. Deveria ter feito
seus investigadores checarem sua noiva com mais cuidado. Não confie em ninguém era seu mantra
desde jovem. Não confie em ninguém, e controle tudo.
Scarlett Ravenwood era diferente. Ela não tinha a educação ou o pedigree de Anne, seus modos
eram lamentáveis e ela não sabia se vestir. Seu único dote seria a criança que carregava.
Um bebê. Seu bebê. Depois de sua própria infância terrível, havia decidido há muito tempo que
qualquer filho seu conheceria o pai, teria um lar estável, segurança e amor. Vin jamais abandonaria seu
filho. Preferiria morreria antes.
Vin olhou para Scarlett, que parecia luminosa com sua pele branca e o cabelo vermelho.
Os cílios escuros sobre seus olhos verdes, da cor de todas as primaveras e verões de sua infância
italiana, pareciam tremer. Quando a viu pela primeira vez naquele bar, há quase oito meses, logo antes
do dia dos namorados, engasgando com seu primeiro gole de vodca, foi como ser atingido por um raio
de sol depois de uma longa noite fria, um amanhecer tão brilhante e vermelho como seu cabelo,
enchendo-o de calor... e fogo.
Pensou rápido. Ela não tinha dinheiro, mas talvez isso fosse uma vantagem. Não haveria um sogro
gritando em sua orelha. Scarlett não tinha nada a oferecer, fora o bebê. E seu corpo sexy. E o melhor
sexo de sua vida.
Tremeu só de lembrar-se daquela noite...
Não era, pensou ele, a pior forma de começar um casamento. Poderia fazer dela o que quisesse.
Scarlett poderia ser a esposa perfeita, sob encomenda. Não tinha dinheiro, era grata por ele tê-la salvo
do imbecil do Falkner. Ele já tinha total controle.
Agora, faltava ela perceber isso também.
– Você quer se casar comigo?
– Sim. – Vin esperou que ela ficasse feliz. Em vez disso, ela caiu na risada.
– Você bebeu? Jamais me casarei com você!
– Se o bebê é meu, esta é nossa única atitude razoável.
– Espere, casamento é um item na sua agenda, uma tarefa que precisa ser cumprida de sua lista,
antes de pegar a roupa na lavanderia e pagar a conta de luz?
– Scarlett, acho que você não está levando isso a sério.
– Lógico que não! Por que diabos eu me casaria com você? Eu nem o conheço!
Vin irritou-se com aquela resposta absurda, mas lembrou-se de que Scarlett estava grávida e deveria
ser tratada com gentileza.
– Você teve um dia cansativo – disse ele com a voz mais calma que conseguiu. – Devíamos ir ao meu
médico.
– Por quê?
– Só para ver se está tudo bem com você. E para fazemos o teste de paternidade.
– Você não pode acreditar na minha palavra de que o bebê é seu?
– Você obviamente pode estar mentindo.
Por alguma razão, ela pareceu se chatear. Olhou para ele.
– Não vou fazer um teste idiota de paternidade se for colocar o bebê em risco...
– O médico só tira um pouquinho de sangue do seu braço e do meu. Não há qualquer risco para o
bebê.
– Como você sabe?
Vin nem se preocupou em contar a história sórdida de uma garota que há pouco tempo tentou dizer
que esperava um filho dele, apesar de Vin ter usado camisinha e ela ter dito que usava pílula. O teste
de DNA não foi necessário, porque a moça sequer estava grávida. Aquela experiência o traumatizou.
Por uma ironia do destino, após se livrar da golpista, Vin tinha entrado no bar onde conheceu
Scarlett e acabou fazendo um bebê com ela.
Olhando agora para Scarlett, sentiu seu corpo enrijecer.
Ela não tinha o direito de estar tão bonita: cachos ruivos caindo sobre os ombros, olhos tão vivos e
luminosos, lábios tão naturalmente cheios e rosados. Os seios dela forçando o decote discreto do
vestido preto simples, e sua barriga grávida a fazendo parecer mais voluptuosa e sexy.
Grávida. Dele.
Se fosse verdade, Vin devotaria sua vida para dar a esse bebê uma infância bem diferente da que
teve. Seu filho sempre estaria seguro, e seria amado. Seu filho sempre saberia quem era o pai.
Se essa criança fosse realmente dele, lembrou-se. Ela podia estar mentindo. Ele precisava de provas.
Estendeu sua mão.
– Vamos.
Com visível relutância, Scarlett aceitou a mão que ele oferecia.
– Se eu for com você ao médico, e você tiver a prova de que é o pai, fazemos o quê?
– Vou pedir aos meus advogados para minutar um acordo pré-nupcial.
– Um acordo pré-nupcial? Por quê?
– Eu não posso me casar com você sem ter controle.
– Controle de quê?
– De tudo – disse ele com honestidade.
Percorreram a nave da catedral agora vazia, enquanto as flores murchavam e a equipe de limpeza
colocava tudo em ordem. Scarlett hesitou antes de perguntar:
– O que especificamente vai constar nesse acordo?
– O de sempre. – Vin deu de ombros. – A decisão final sobre educação, religião e onde moraremos
será minha. Coisas assim. Minha base é Nova York, mas tenho casas em todos os lugares. Com
frequência, preciso viajar para gerir a SkyWorld, às vezes por meses. Eu não quero ficar longe de meus
filhos.
– Filhos? Eu não estou grávida de gêmeos.
– Obviamente, nosso filho precisará de irmãos. – O barulho que Scarlett fez parecia um guincho, mas
ele a ignorou e continuou – Espero que você viaje comigo, quando e para onde eu quiser.
– Mas como vou manter um emprego?
– Dinheiro não será mais um problema. Como minha esposa, sua única tarefa será me apoiar. Vamos
frequentar a sociedade. Você vai aprender a receber pessoas poderosas adequadamente para promover
os melhores interesses da empresa. Você vai precisar de lições de etiqueta.
– O quê?
– E, claro, em caso de divórcio, o acordo simplifica o processo. Vai explicitar o que acontece se você
me trair ou se um de nós decidir se separar. Você saberá quanto receberá baseado nos anos...
– De trabalho?
Ele sorriu.
– De casamento, eu ia dizer. Obviamente eu ficaria com a guarda automática dos nossos filhos.
– O quê?
– Não se preocupe. Você ainda poderá visitá-los.
– Quanta gentileza – murmurou ela. – Antes de ir ao seu médico e fazer o teste de paternidade, você
me faria um favor? Podemos parar em uma loja de sapatos?
Ora, ela era como Cinderela, pensou Vin, surpreso com a tranquilidade que, de repente, Scarlett
parecia abraçar. A forma como olhava para ele, indefesa, tão bonita. Ela seria fácil de ser moldada como
a esposa perfeita.
– Claro. Perdão. Eu deveria ter pensado nisso antes. – Ele a pegou nos braços e a carregou. Apesar de
a gravidez estar avançada, Scarlett parecia não pesar nada. Gentilmente, Vin a colocou no carro, ainda
enfeitado com flores. – Alguma preferência de loja?
– Qualquer uma, desde que tenha sapatos bons para correr.
– Você ouviu – disse ele ao motorista.
Dez minutos depois, Scarlett experimentava tênis em uma loja esportiva gigante. Ela escolheu seu par
favorito, juntamente com meias, agradecendo a generosidade de Vin durante todo o tempo.
– Obrigada – sussurrou ela, abraçando-o repentinamente. Por um momento, ele fechou os olhos.
Sentiu o cheiro de menta de seu hálito, e respirou o perfume de flor de cerejeira de seu cabelo. Ela
soltou-o abruptamente. Mirando-o de olhos arregalados, mordeu o lábio. Vin imaginou a carícia
sensual daqueles lábios cheios e suculentos.
Então ela sorriu e cerrou os olhos.
– Vou calçar meus tênis novos. Com licença.
Vin assistiu-a caminhar em direção ao banheiro feminino, passando pelas vitrines de tênis e
equipamentos caros. Seus olhos pousaram contemplativamente sobre a curva das nádegas, o balanço
dos quadris. Scarlett fazia até um vestidinho preto de enterro cair bem.
Que esposa ela seria. E quanto à lua de mel... Ele estremeceu.
Determinado a voltar logo para o carro, foi até o caixa.
Logo haveria mais compras, pensou. Sapatinhos de bebê. Um berço. Faria com que suas casas fossem
seguras. Aumentaria a equipe de segurança.
Seria o pai que nunca teve. Seu filho jamais saberia o que é ser abandonado. Usado. Negligenciado e
solitário.
Levou a mão ao bolso do paletó e procurou sua carteira. Enrugando a testa, tateou nos
compartimentos. Vazios. Pediu que um de seus guarda-costas pagasse a conta, e disse ao outro para
procurar a carteira. Sentado em um banco próximo, Vin ligou para seu médico para agendar uma
consulta. E então, impacientou-se.
Scarlett estava demorando.
– Vá ver se está tudo bem – ordenou a um dos guarda-costas.
Vince andou para lá e para cá. Checou novamente o celular. Parou.
E então se deu conta.
Ela não podia. Não iria.
Ela fez.
– A srta. Ravenwood não está em lugar algum, chefe – disse Larson quando voltou. – Verifiquei o
banheiro. Vazio – hesitou. – Há uma porta ao lado dele, que leva a um depósito, e daí para um beco.
Praguejando baixo, Vin correu pela loja seguido de seus dois guarda-costas. Nos fundos, próximo ao
banheiro feminino, achou o depósito. Funcionários da loja encolheram-se sob seu olhar enquanto ele
escancarava a porta dos fundos com uma batida raivosa.
Do lado de fora havia um beco de paredes de tijolo grafitadas. Vin caminhou lentamente, passando
pelas latas de lixo até alcançar a movimentada Avenida Madison, cheia de gente e carros presos no
engarrafamento. Olhou em volta, chocado.
Scarlett Ravenwood não só tinha fugido dele, mas também, provavelmente, havia roubado sua
carteira. E ela o havia avisado antes! "Sapatos bons para correr", de fato!
Correndo as mãos pelo cabelo escuro, deu uma risada incrédula. Ele havia sido enganado duas vezes
em um só dia. Duas mulheres diferentes mentiram para ele.
A perda de Anne era aceitável. Só envolvia dinheiro.
Scarlett era diferente. Ele nunca deixou de desejá-la. E agora ela estava grávida dele.
Será que estava? Talvez tenha mentido. Esfregou a testa. Por que qualquer mulher fugiria depois de
um pedido de casamento, com a promessa de uma vida luxuosa? A menos que estivesse com medo do
teste de paternidade. Era a única explicação racional: o bebê não era dele. Essa ideia enjoou-o.
Então se lembrou do olhar raivoso nos olhos verdes de Scarlett.
Não gostei de você investigar a minha vida e depois assumir que eu sou uma estelionatária ou uma
alpinista social. Não sou nenhum dos dois. Só quero criar meu bebê em paz.
Parado ali enquanto pedestres passavam correndo por ele, Vin cerrou seus olhos.
De qualquer maneira, precisava saber.
De qualquer maneira, iria achá-la.
E, dessa vez, Scarlett não o enganaria tão facilmente. Nada o impediria de conseguir o que queria.
Não ouviria suas desculpas. Da próxima vez, faria com que ela se curvasse aos seus desejos.
Descalça, se necessário.
HAVIA APENAS uma coisa que importava na vida, era o que o pai de Scarlett lhe dizia quando ela era
criança. Liberdade.
Liberdade. Era o grito de incentivo de Harry Ravenwood cada vez que sua família precisava fugir
durante a noite, jogando seus pertences em sacos de lixo pretos e dirigindo cegamente em direção a
uma nova cidade. Aos 7 anos, quando Scarlett acidentalmente deixou seu ursinho de pelúcia, seu único
amigo, para trás, tinha chorado até que seu pai a confortou com histórias de Teddy andando pelo
mundo, escalando as pirâmides e os Pirineus. Suas histórias engraçadas sobre as aventuras de seu urso
finalmente a fizeram sorrir através das lágrimas. Nas noites frias de inverno ao Norte de Nova York,
enquanto sua família tremia em quartos não aquecidos e o vento gelado fazia o vidro das janelas
estremecer as janelas, Harry cantava canções sobre a liberdade.
Liberdade. Mesmo naquela noite sombria em que Scarlett, aos 12 anos, perdeu sua mãe na sala de
emergência de um hospital em uma insignificante cidade industrial na Pensilvânia, o pai beijou Scarlett
enquanto as lágrimas escorriam abaixo seu rosto resistido.
– Pelo menos agora sua linda mãe está livre de dor.
Scarlett estava livre agora. De Blaise Falkner. De Vin Borgia. Ela e o bebê que carregava estavam
livres.
Mas havia um preço a pagar por aquela liberdade.
Para começar, seu voo de Boston para Londres, duas semanas atrás, teve um pequeno problema
quando sobrevoava o Atlântico.
Um princípio de incêndio no compartimento de bagagem obrigou o avião a desviar sua rota para um
pequeno aeroporto na Costa Oeste da Irlanda. Enquanto o avião finalmente fazia sua descida, ela viu
bandos escuros de pássaros através da janela de seu assento, passando pelo avião.
– Ataque de pássaros! – gritou um passageiro, e enquanto uma das comissárias de bordo corria para a
cabine de pilotagem, outra murmurava palavras tranquilizadoras e pouco convincentes aos passageiros.
De olhos arregalados, Scarlett agarrou-se aos braços de sua poltrona, apavorada, sentindo o avião vibrar
e estalar no ar.
Scarlett só conseguia pensar que não deveria estar naquele avião. mulheres grávidas não deviam voar
depois do sétimo mês de gravidez. Ela estava quase no oitavo. Tinha fugido de Nova York, com uma
breve parada em Boston, porque achava que essa era a única maneira de escapar de Vin. Mas agora o
risco que corria parecia pequeno frente à possibilidade de ela e seu filho morrerem em um acidente
aéreo. Assim como seu pai tinha morrido naquele acidente de avião no inverno, há um ano e meio
atrás. Ela nunca deveria ter entrado ali.
– Preparem-se para a colisão – anunciou a voz do piloto vinda do intercomunicador. – Protejam-se
como puderem do impacto.
As comissárias de bordo, correndo para se acomodar e afivelar os cintos de segurança, repetiram as
palavras do piloto:
– Mantenham a cabeça abaixada! Prepararem-se para o impacto! Protejam-se!
Scarlett se preparou para o pior abraçando sua barriga e pensando, por favor, não deixe meu bebê
morrer.
Miraculosamente, o avião afinal recuperou um dos motores e conseguiu alguma estabilidade,
aterrissando com um estrondo quase no limite da pista de pouso. Ninguém se machucou e os
passageiros e a tripulação aplaudiram e deram vivas, abraçando e beijando uns aos outros.
Deslizando para fora do avião pelo escorregador inflável, Scarlett caiu de joelhos na pista, deixando
escapar soluços altos.
Nunca deveria ter entrado em um avião. Qualquer avião. Depois da morte de seu pai, ela deveria
saber.
Mas, da mesma forma que havia aceitado a carona na limusine de Blaise Falkner, havia ignorado sua
intuição e se convencido de que seus medos eram bobos. E tanto ela quanto seu bebê quase tinham
morrido como resultado.
Scarlett decidiu jamais ignorar sua intuição de novo.
E, acima de tudo: ela nunca, jamais entraria novamente em um avião.
Mas por que Scarlett precisaria fazer isso? Não tinha família em Nova York. Nenhuma razão para
voltar. Vin Borgia havia lhe prestado um enorme favor avisando-a antecipadamente que pretendia
controlar sua vida e a do filho com punho de ferro e separá-la de seu bebê se algum dia fizesse objeção
a isso ou se tentasse deixá-lo. Não se sentia culpada em deixá-lo, de modo algum.
Mas realmente se sentia culpada por ter roubado a carteira dele. Roubar nunca era certo, e sua mãe
devia estar se revirando no túmulo. Scarlett disse a si mesma que não teve escolha. precisava cobrir seu
rastro. Vin não só era um bilionário implacável, mas também possuía uma companhia aérea e tinha
conexões em toda parte. Se ela entrasse a bordo de qualquer avião no mundo com seu próprio nome,
ele ficaria sabendo.
Então tinha entrado em contato com um dos velhos conhecidos de seu pai em Boston para comprar
um passaporte falso. Isso custava dinheiro.
Por isso tinha pegado, emprestado, algum dinheiro de Vin. E, logo após chegar à Suíça, assim que
recebeu seu primeiro pagamento no novo emprego, tinha enviado de volta a carteira de Vin pelo
correio, devolvendo tudo como ele havia deixado, até mesmo acrescentando alguns euros como
compensação pelo dinheiro que havia emprestado.
Pagou tudo que lhe devia. Ela e o bebê estavam livres.
E tinha esperança de que Vin acabaria por se esquecer de ambos.
Era o meio de outubro, e o ar da manhã já estava gelado nas montanhas que cercavam a elegante
estação de esqui suíça de Gstaad. A primeira nevasca era esperada diariamente.
Scarlett também tinha um evento próprio para aguardar. Acariciou sua barriga, que atualmente não
permitia que ela abotoasse o casaco. Só faltavam duas semanas e meia para a data prevista para o parto.
Seu corpo parecia mais pesado e lento. Mas, por sorte, seu novo emprego lhe dava muitas
oportunidades para caminhadas suaves pela manhã.
Teve sorte em conseguir o emprego. A melhor amiga de sua mãe, Wilhelmina Stone, tinha
trabalhado como governanta de um milionário na Suíça. Scarlett não a via desde o funeral da mãe, mas
nunca se esqueceu do abraço e das palavras de Wilhelmina:
– Sua mãe era minha melhor amiga. Se um dia precisar de alguma coisa, venha até mim, ouviu bem?
Quando Scarlett apareceu, sem convite e trêmula junto ao portão da enorme villa nos arredores de
Gstaad, a mulher rechonchuda e gentil provou ser fiel à sua palavra.
– Meu chefe acaba de me pedir para contratar um bom cozinheiro para a temporada de esqui. Ele
ama a comida do Sul dos Estados Unidos. Você consegue fazer mingau de milho e frango frito?
Jambalaya? Arroz com miúdos?
De olhos arregalados, Scarlett balançou a cabeça. Wilhelmina suspirou.
– Certo, normalmente ele vem em de dezembro, depois do começo da temporada. Então você tem
seis semanas, talvez mais, para aprender a fazer um frango frito incrível e todo o resto.
Nas últimas duas semanas, Scarlett vinha tentando aprender a cozinhar usando livros de culinária e
vídeos da internet. Ainda não havia aprendido tudo, mas...
Mas aprenderia. Ser cozinheira na casa de férias um milionário que aparecia poucas semanas por ano
era o trabalho perfeito para qualquer mãe solteira com um recém-nascido. Poderia descansar depois do
parto, e trabalhar com o bebê por perto, quase como se estivessem em sua própria casa.
Por um breve momento, ela fechou os olhos, virando o rosto para o sol. Seu coração estava cheio de
gratidão.
Então ouviu algo estalar na floresta à sua frente.
Abriu os olhos e o sorriso sumiu do seu rosto.
– Scarlett – saudou-a Vin.
Ele estava bem ali, na frente dela, acompanhado de três guarda-costas, uma muralha impenetrável
de dinheiro e poder.
Scarlett tropeçou e quase caiu. Em segundos ele estava a seu lado, agarrando seu punho.
– Não me toque! – gritou Scarlett.
O aperto se intensificou, os olhos dele como fogo negro.
– Você me roubou.
– Paguei tudo o que peguei!
– Não estava falando apenas sobre o dinheiro.
Ela colocou a mão livre sobre a barriga, protegendo-a.
– Você não é o pai do meu bebê. Eu... eu menti!
– Acho que você está mentindo agora.
Scarlett tentou soltar o punho da mão dele.
– Deixe-me em paz!
– Não entendo seu comportamento, Scarlett. – Ele a puxou para mais perto. – A maioria das
mulheres acharia uma sorte estar grávida de um bilionário.
– Um bilionário que destrói as pessoas? – Ela balançou a cabeça. – Você não só compra empresas,
mas também esmaga e aniquila seus rivais sem pena. O casamento deles, suas famílias, até suas vidas.
O silêncio caiu na floresta suíça. O único som era o cantar dos pássaros.
Então ele falou, a voz baixa e inexpressiva.
– Então você pesquisou um pouco sobre mim, não é?
– Por que você acha que eu nunca tentei entrar em contato com você depois de nossa noite juntos? –
Ela inspirou profundamente. – Tive uma boa razão para deixá-lo naquela manhã. Uma enfermeira
ligou e precisavam de mim na mansão dos Falkner. Esperava vê-lo de novo. Até que busquei você na
internet. – Ela o olhou com raiva. – Se acha que vou deixar meu precioso bebê ser criado por um
homem que se compraz com o sofrimento de outras pessoas...
– Se acha que sou um bastardo, por que me pediu ajuda?
– Estava aterrorizada com Blaise.
– E agora está aterrorizada comigo?
– Depois que interrompi seu casamento, pensei que talvez devesse lhe dar uma chance. Meu próprio
pai não era perfeito, mas eu o amava. – Ela estreitou os olhos. – Então você deixou suas intenções
claras.
– Do que você está falando? Minha intenção de assumir a responsabilidade, de me casar com você e
de ser um bom pai?
– Se eu honestamente acreditasse que poderíamos ser uma família, eu me casaria com você em um
segundo. Mas prefiro criar meu filho sozinha a fazê-lo com um homem que pode me machucar!
– Machucar você? – perguntou Vin, incrédulo. – Nunca machuquei uma mulher na minha vida!
– Com seu coração frio? Aposto que machucou muitas.
– Oh. Você quer dizer emocionalmente.
– Sim, emocionalmente. Acha que isso não conta?
– Não, realmente não.
– E é por isso que eu não quero me casar com você.
Vin soltou o punho dela abruptamente, os olhos estranhamente iluminados.
– Nunca matei ninguém, não importa o que digam os rumores. Nunca envenenei ninguém ou
sabotei um motor. Nem contratei ninguém para isso. Um repórter simplesmente percebeu que, em
alguns pontos da minha carreira nos negócios, coincidentemente houve problemas com alguns homens.
– Espera que eu acredite nisso? Foi pura coincidência?
– É a verdade. Um homem teve um caso descoberto enquanto fazia negócios comigo. É difícil que
seja minha culpa se a esposa se magoou e colocou veneno no uísque matutino dele. Outro homem teve
um ataque cardíaco por estresse durante uma abordagem hostil que fiz. Ele poderia ter saído de cena
em qualquer momento, mas escolheu lutar e assumir o risco. Outro homem escolheu começar uma
disputa com a irmã quando ela vendeu suas ações para mim. A família se separou, sim... Mas, de novo,
não foi minha culpa.
– Então por que Blaise tinha tanto medo de você? E por que você esperava que ele tivesse?
– Sei dos rumores sobre mim. Não são verdadeiros, mas as pessoas acreditam neles. Eu seria um
idiota se não tirasse vantagem disso.
– E você não é nenhum idiota.
– Não. E não gostei que você tenha me feito parecer um. Duas vezes. E ainda quero um teste de
paternidade. Você tem uma consulta hoje com um médico em Genebra.
– Já tenho meu médico no vilarejo, obrigada.
– A dra. Schauss tem uma clínica mundialmente renomada. Foi obstetra de uma princesa da Suécia e
fez o parto de metade dos bebês das casas reais do Golfo Pérsico. Ela é bem qualificada.
– Eu não vou viajar até Genebra só porque você quer que eu me consulte cm uma médica da realeza.
– A escolha não é sua.
– E se eu me recusar?
– Sou conhecido de Kassius Black, o dono desse chalé. O que ele diria ao saber que sua governanta
contratou uma ladra fugitiva e ambas conspiraram para roubar de seus convidados na próxima
temporada de esqui?
– Você não faria isso! Não é verdade!
Vin deu de ombros.
– Você é uma ladra e mentirosa convicta. Poderia ser verdade. Mas o ponto é: você deseja pagar a
delicadeza de sua amiga provocando a demissão dela?
– Você é desprezível.
O rosto dele endureceu.
– Não, cara. Você é desprezível. Não fiz nada além de tentar corresponder à minha responsabilidade.
Estou tentando fazer a coisa certa, a coisa nobre. Você que é a ladra.
– Eu paguei cada centavo!
– Sim, com uma taxa de correção anual de 30 por cento. O dinheiro que você pagou rendeu mais do
que muitos dos meus outros investimentos. Então foi lucrativo. – Ele fez uma saudação leve e irônica. –
Obrigado por roubar minha carteira.
– Ah? – disse ela, esperançosa. – Então você não vai...
– Roubar meu filho é algo diferente.
A breve esperança de Scarlett desapareceu. O que ela poderia fazer? Não podia deixar Wilhelmina se
ferir por sua lealdade e gentileza.
A clínica em Genebra. Aquela podia ser sua rota de fuga. As clínicas tinham saídas nos fundos. Ela
poderia se esgueirar antes mesmo que tirassem seu sangue.
Scarlett deixou os ombros caírem, esfregando os pés no cascalho, esperando parecer adequadamente
desanimada. Seu coração batia acelerado.
– Você venceu.
– Sempre venço. A viagem até Genebra levará duas horas de carro, e em seu estado de gravidez
avançada, estou preocupado que isso possa ser desconfortável para você. Posso chamar um helicóptero
em dez minutos...
– Não! – disse ela, um pouco rápido demais. Quando ele franziu a testa, ela falou em uma voz mais
calma, tentando sorrir – De carro teremos a chance de conversar. É tão bonito perto do Lago Genebra
nessa época do ano.
Vin a encarou por um longo momento, depois deu de ombros.
– Como quiser.
Cinco minutos depois, quando um guarda-costas subiu para arrumar seus escassos pertences, Scarlett
foi à cozinha dizer adeus a Wilhelmina.
– Vai desistir do emprego, Scarlett? Dessa maneira?
– Sinto muito, Wilhelmina. Você me ajudou e me sinto mal em partir, mas...
– Por mim, está bem. Honestamente, seu frango frito é horroroso. O sr. Black pensaria que estava
maluca ao contratá-la. É com você que estou preocupada. – Ela olhou para Vin, em dúvida. – Então
esse homem é o pai do seu bebê, mas você realmente quer ir com ele? Ou ele a está forçando?
ESTAVA CLARO que Wilhelmina tinha experiência suficiente com os ricos para saber que a feiura podia se
esconder sob um estilo de vida glamoroso.
– Vou tomar conta de Scarlett e do bebê – disse ele a ela. – Prometo.
A governanta o encarou, depois seu sorriso irônico lentamente desapareceu.
– Acredito em você.
– Bom. – Vin lhe deu seu sorriso mais charmoso. – Pretendemos nos casar logo.
Ela olhou Scarlett acusadoramente.
– Vocês estão noivos?
Scarlett parecia um pouco confusa.
– Não decidimos nada ainda...
– Sra. Stone – interrompeu Vin. – Aprecio sua lealdade e gentileza com Scarlett. Quando quiser
trocar de emprego, por favor, nos informe.
Vin entregou um cartão à governanta e pegou Scarlett pela mão. Conduziu-a para fora do chalé,
enquanto um segurança os seguia com a escassa bagagem de Scarlett, que consistia em uma bolsa e uma
mala de mão. Vin observou enquanto o funcionário colocava tudo no porta-malas de um dos carros
que alugara. Ele se lembrou de seus próprios poucos pertences quando partiu da Itália aos 15 anos,
depois da revelação devastadora de sua mãe e da morte dela, para viver em Nova York com um tio que
mal conhecia. Ele se sentia tão sozinho. Tão vazio.
Afastou a lembrança, com raiva. Não era mais aquele garoto. Nunca mais se sentiria tão vulnerável, e
seu filho também não.
Vin abriu a porta do passageiro do carro esporte vermelho, depois se virou para Scarlett.
– Entre.
– Você vai dirigir? Você mesmo?
– Os guarda-costas vão nos seguir no outro carro. Está um lindo dia para um passeio.
Já a caminho, Vin olhou de soslaio para Scarlett. Ela estava vestida bem casualmente: um casaco
desabotoado sobre uma camiseta enorme, calça cáqui folgada e botas forradas de pele. Mas, ainda
assim, os olhos dele se encantaram com ela. Seu cabelo vermelho caía em cachos grossos por seus
ombros. Seus olhos luminosos eram verdes como uma floresta alpina. Ele se lembrava como era ter
aqueles lábios cheios e rosados se movendo sobre sua pele, sufocando-se de êxtase...
Vin estremeceu.
Por que Scarlett tinha tanto poder sobre ele?
Nas últimas duas semanas, desde que ela o deixou parado na Avenida Madison com um olhar
espantado no rosto, Vin não conseguia pensar em qualquer outra coisa. Todos os seus consideráveis
recursos tinham sido dedicados a uma tarefa: encontrá-la.
Scarlett estava em seu sangue. Ele não tinha sido capaz de esquecê-la. Não desde o primeiro
momento em que a viu naquele bar. Do momento em que a teve nos braços pela primeira vez. Do
momento em que ela desapareceu de sua cama, depois do melhor sexo de sua vida.
Do momento em que ela invadiu seu casamento e lhe disse que estava grávida de seu filho.
Scarlett Ravenwood era meio anjo, meio demônio. Havia uma razão pela qual não havia seduzido
nenhuma outra mulher por mais de oito meses, eternidade para um homem como Vin. Estava
assombrado por Scarlett, assustado de corpo e alma, e tinha sido levado quase à loucura pelas
lembranças dela nua em seus braços.
Scarlett era a mulher para ele. Aquela que ele queria. E Vin pretendia tê-la.
– Como você me encontrou na Suíça? – perguntou Scarlett baixinho.
Erguendo uma sobrancelha, Vin concentrou-se na estrada à sua frente.
– Foi um erro seu enviar minha carteira pelo correio de um vilarejo italiano. Ainda tenho contatos
naquele país. Foi fácil rastreá-la através do postino que a ajudou. Ele se lembrou de ver seu carro com
placas suíças, um carro antigo, muito raro.
– Escolhi aquele carro da garagem do chalé porque pensei que fosse o mais velho – disse ela,
parecendo zonza. – Então, deduzi que fosse o mais barato. Se eu tivesse apanhado o sedã novinho...
– Eu não a teria encontrado. – Vin agarrou o volante e a olhou. – Você ainda se pergunta se sou
digno de confiança. Posso me perguntar o mesmo sobre você, exceto que já tive a resposta. Você mentiu
descaradamente, roubou minha carteira. Sequestrou meu filho...
– Sequestrei!
– De que mais você chamaria isso? Como saberei que nosso bebê vai estar seguro com você? A filha
de mente criminosa de um marginal?
– Marginal! Meu pai nunca deveria ter ido para a cadeia. Se o cúmplice não o tivesse traído...
– Poupe-me das desculpas. Ele era um ladrão de banco.
– Ele devolveu todo o dinheiro. Você pode dizer o mesmo?
– Do que você está falando?
– Estou falando sobre você e Blaise Falkner e de todos os outros bilionários. São vocês quem
realmente deveriam estar...
Ela se interrompeu abruptamente.
– Continue – disse Vin, no mesmo tom. – Você estava prestes a me acusar de alguma coisa?
Scarlett o olhou diretamente nos olhos.
– Nenhum dos homens ricos que eu já conheci tinha coração. Meu pai, em seu pior momento, era
menos bandido que todos os jogadores de Wall Street, com seus desvios corporativos, seus esquemas
que destroem quem tem fundos de pensão, as economias e a esperança das pessoas!
– Você está me comparando a eles?
– Você não sacrificaria uma das suas abotoaduras de platina... – Ela olhou pensativamente para o
punho dele –, que dirá arriscar sua vida ou sua felicidade, para salvar alguém.
– Você não sabe disso.
– Ora, você mesmo me disse. Você não pensa duas vezes antes de causar dores emocionais. Aposto
que nunca amou ninguém em sua vida. E ainda me pede para casar com você!
– O amor não é fundamental em uma relação.
– Esse é um modo distorcido de olhar as coisas. É como dizer que não há sentido em provar comidas
que têm gosto bom. Casamento sem amor não seria como comer mingau pelo resto da vida? Por que
comer mingau quando se pode comer bolo?
– Bolo é uma ilusão. No fim, descobrimos que tudo era mingau.
– Essa é a coisa mais triste que já ouvi e me sinto mal por você. Um bilionário que se contenta em
comer mingau pelo resto da vida.
Vin mal podia acreditar que essa garota pobre, que não tinha nada e que um dia roubou sua carteira,
sentia muito por ele.
– Melhor uma verdade dura do que o doce conforto das mentiras.
– Não, é pior que isso. Você é um cínico que alega não acreditar na existência do amor. Alguma
mulher deve tê-lo magoado demais.
Sim. Uma mulher o havia magoado. Mas não era o que Scarlett pensava.
– Então ela me fez um favor. Ensinou-me a verdade sobre a vida.
– Ensinou errado. – Ela acariciou a barriga, olhando pela janela enquanto se aproximavam de
Genebra.
– Certo ou errado, uma vez que o teste de paternidade comprovar que sou o pai de seu bebê, vamos
celebrar nosso casamento.
– Não, obrigada. Não sou fã de mingau.
Vin trincou os dentes.
– Você está tentando me dizer que seus sonhos infantis e idiotas sobre amor são mais importantes
que o bem-estar de nosso filho? Um bebê merece um lar estável.
– Você não acha que eu sei disso? Tudo o que sempre quis em toda a minha infância era ter um lar
de verdade, fincar raízes, ter amigos, ser parte de uma comunidade. Mas sabe de uma coisa? Ainda
éramos felizes, mesmo em fuga. Porque meus pais se amavam. E eles me amavam.
Ele não saberia como era aquilo, pensou Vin. Tinha crescido em uma villa degradada, negligenciado
e ignorado por uma mãe que só estava interessada em seus casos românticos. Seu filho era valioso por
apenas uma razão: extorquir dinheiro de seu pai.
Seu suposto pai.
Os ombros de Vin ficaram tensos.
Qualquer um que amasse, ele perdia. A mãe o havia usado friamente como uma moeda de barganha
para financiar seu estilo de vida, antes de morrer violentamente. Babás contratadas partiam ou eram
demitidas. Seu avô gentil teve um derrame quando Vin estava com 8 anos. Ele fora afastado de seu pai
e da madrasta aos 15. Às vezes, Vin se sentia como se estivesse sozinho a vida toda. Tão sozinho quanto
naquela véspera de Natal, quando só tinha 8 anos e foi deixado completamente só na villa, esquecido,
no escuro...
Afastou a lembrança. A vida de seu filho seria bem diferente. E ele garantiria que a mãe de seu filho
fosse uma influência amorosa, estável, estimulante... ou não seria influência alguma.
– Por que você fugiu de Nova York, Scarlett? Foi por tudo o que descobriu sobre mim?
– Você está brincando? Foi aquele acordo pré-nupcial.
– Você queria evitar o acordo pré-nupcial?
– Você realmente pensou que eu assinaria papéis para lhe dar poder total, não só sobre mim, mas
também sobre nosso filho? Achou que eu ficaria tão feliz de ser sua esposa-troféu, que jogaria fora
minha liberdade pelo resto da vida?
– O acordo foi aprovado por meus advogados, por ser completamente justo...
– Justo? Com você tomando todas as decisões sobre nossas vidas? E se decidíssemos nos divorciar,
por qualquer razão, você teria automaticamente a custódia total de nosso filho?
– O divórcio não está nos meus planos – disse ele, bruscamente. – Mas sei que não poderia evitar que
você quisesse partir. O que quer que você possa pensar, não há calabouços na minha cobertura. O
acordo pré-nupcial é meramente um instrumento para minimizar o impacto de todas as suas decisões
potencialmente ruins sobre nossos filhos inocentes.
– Minhas decisões ruins? E essa é só o que há no acordo sobre o que você me contou. Quem sabe o
que estaria escondido nas letrinhas pequenas. Uma exigência para que eu faça sexo oral em você cinco
vezes por semana?
Foi um comentário bruto. Não havia nada sensual ou sugestivo em seu tom. Quando muito, Scarlett
quis insultá-lo, afastá-lo.
Mas a reação do corpo de Vin foi instantânea. Ele passou de frio e furioso para incendiado de paixão
em um segundo, o sangue correndo para seu membro enquanto imagens daquela boca cheia e rosada,
quente e molhada em torno de sua ereção invadiam sua mente... Ele tentou limpar a cabeça daquela
imagem excitante enquanto mudava de posição desconfortavelmente no assento de couro do carro.
– Não era essa a minha intenção. – Embora agora fosse, tão certo quanto o inferno. Vin imaginou
qual seria expressão de seu advogado se lhe dissesse para acrescentar uma exigência de sexo oral.
– Você me acusa de ser infantil e idiota. Mas, ao recusar me casar com você, estou protegendo nosso
bebê.
– Como pode dizer isso? Posso oferecer tanto a você quanto ao bebê. Um estilo de vida com o qual
você nunca poderia sonhar. Seis casas ao redor do mundo, escolas particulares, joias, carros. Jatinhos
particulares...
Scarlett estremeceu ao ouvir a menção dele sobre jatos, o que Vin estranhou.
– Estou protegendo nosso bebê de um homem que só ia querer nos controlar – disse ela
mansamente. – Não nos amar.
Aquilo fez Vin se calar.
Quando chegaram à clínica, ele saiu e abriu a porta para ajudar Scarlett a descer.
Com relutância visível, ela ofereceu a mão para ele segurar.
Vin sentiu um choque com o contato. Enquanto caminhavam juntos em direção à porta da frente da
clínica, ele não ia, e não poderia, largar a mão dela. Ele parou, levantando-a até os lábios, e gentilmente
beijou as costas da mão dela. Sentiu-a tremer.
– Você nunca poderia amar alguém – disse ela –, porque nunca confia em alguém. Só o fato de me
obrigar a fazer esse teste...
– Acredito em você, Scarlett – disse ele, delicadamente. – Só estou insistindo em um teste de
paternidade porque já mentiram para mim a esse respeito.
– O quê?
– Uma mulher, há algum tempo, alegou que eu era o pai de seu bebê inexistente, tentando me
obrigar a me casar com ela. Mas, dessa vez, em meu coração, já sei a verdade. Você está carregando
meu bebê.
– Vin...
Esticando a mão, ele enfiou uma mecha do cabelo vermelho dela atrás de sua orelha. Seus olhos
verdes estavam arregalados.
– Gosto quando você me olha assim – murmurou ele. – Você é tão linda, cara. Seus olhos são de um
tom profundo de esmeralda. Como uma floresta. – Ele gentilmente acariciou o rosto dela. – Seus lábios
– sussurrou ele – são vermelhos, e cheios, e maduros como uma fruta. Eu nunca vou me esquecer... –
Ele correu a ponta do dedo por toda a extensão de seu lábio inferior – de como foi prová-los...
Scarlett estremeceu parecendo tão vulnerável, tão assolada, tão envolvida... Ela, que poderia ter tido
qualquer homem que quisesse com sua beleza! Vin percebeu que também tremia.
O sangue dele estava acelerado com a necessidade de tomá-la.
Então ele se lembrou dos guarda-costas que os observavam do estacionamento, e da consulta.
Logo, ele jurou a si mesmo. Logo ia se saciar completamente com ela.
– Você está certa sobre uma coisa. – Ele envolveu o rosto dela. – Não acredito no amor. Ao menos
não do tipo romântico. Mas eu acredito de verdade – sussurrou – no desejo. Nunca parei de desejá-la.
Desde o momento em que nos encontramos pela primeira vez.
– Mas você ia se casar com outra...
– Porque pensei que você estava perdida para mim. Pensei que não podia ter você. Agora... sei que a
terei. – Vin passou as pontas dos dedos de leve ao longo da borda do maxilar dela, até os lóbulos de
suas orelhas, até as ondas vermelhas cascateantes de seu cabelo. – Eu a terei, Scarlett – rosnou ele. – A
qualquer custo.