Tonny Romano
"O sangue é a única assinatura que não precisa de testemunhas."
O noivo de Angelina Rossi ainda sorria quando puxei o gatilho. O disparo engoliu a música da orquestra.
A bala atravessou o peito dele com a precisão que eu esperava, interrompendo o movimento da mão que vinha na minha direção. O sorriso desapareceu. Os olhos se arregalaram. O corpo permaneceu de pé por um segundo, talvez dois, como se ainda não tivesse entendido que já estava morto.
Então desabou sobre o mármore branco.
O sangue se espalhou sob ele, lento e escuro, alcançando a ponta dos sapatos de Angelina.
Durante um breve instante, ninguém se moveu.
A primeira taça caiu no chão.
O cristal se despedaçou.
Depois, o inferno começou.
E então, o inferno se abriu.
- ELE MATOU O NOIVO!
- MEU DEUS, ALGUÉM FAÇA ALGUMA COISA!
- ABAIXEM-SE!
- CHAMEM OS GUARDAS!
Pratos se espatifaram. Cadeiras viraram. Mulheres gritavam. Algumas tentavam proteger os filhos, outras desmaiavam. Homens sacavam armas, mas hesitavam ao me ver. Ninguém queria ser o segundo.
A orquestra parou abruptamente. O maestro abandonou a batuta.
Pânico e caos ao redor e no meio de tudo, ela.
Angelina.
Ela estava imóvel, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. O sangue do noivo escorrendo até tocar a barra do vestido. E, mesmo assim, ela se manteve em pé.
As mãos dela estavam cerradas ao lado do corpo. O peito arfava sob o tecido justo. Os olhos estavam arregalados. Mas havia algo contido ali, feroz e silencioso. Orgulho ferido. Raiva crua. Afinal ela me conhecia, era minha inimiga, eu era um Romano e ela uma Rossi.
Me aproximei ainda mais e a multidão se abriu, como se minha simples presença empurrasse o ar. Ninguém ousava me impedir.
Ela me encarou.
- Seu noivo está morto. - murmurei, a voz baixa, firme. - E agora, você é minha.
Os olhos dela se arregalaram por um instante. A mandíbula se tensionou. Vi o momento exato em que ela reprimiu o impulso de me atacar.
- Você é um monstro. - a voz dela saiu falha, mas ainda assim cheia de veneno. -Vá para o inferno.
- Já estive lá. - retruquei com um meio sorriso. - E voltei por você.
Ela deu um passo para trás, esbarrando em uma mulher que corria. As costas encostaram contra a parede, mas ela se manteve firme.
- Isso não te faz forte. - cuspiu. - Te faz doente. Um animal.
- Isso me faz necessário. - respondi. - E quanto ao noivo ele era só um peão e morreu como tal.
Ela oscilava entre a fúria e a incredulidade. O queixo trêmulo, os olhos marejados, mas sem chorar. Angelina não era o tipo de mulher que se curvava, mas logo ela mudaria.
- Vai me arrastar agora? - disse com desdém. - Vai me exibir como troféu, como se isso provasse algo?
- Não. Ainda não. - aproximei meu rosto do dela. - Mas vai lembrar desse momento. Porque é aqui que sua liberdade morre. E o que nasce é a minha esposa.
Ela ergueu a mão, tomada pela raiva, pronta para me acertar. Mas não chegou a me tocar. Em um segundo, seu pulso já estava preso na minha mão. O golpe morreu no ar.
- Você não me conhece. - sussurrou. - E nunca vai me dominar.
- Estou curioso para ver até onde sua resistência vai. E o que sobra depois dela. - Soltei seu pulso, vendo o tremor de seu corpo.
Um som de bengala ecoou pelo salão silencioso.
Mario Rossi.
O velho vinha mancando, pálido, olhos injetados de desespero.
- Isso é guerra, Romano?! - a voz dele cortou o ar, tensa. - Você enlouqueceu?!
Me aproximei devagar. Peguei o envelope no bolso interno do paletó, contendo o que precisava e deixei cair aos pés dele, como um aviso escrito em sangue.
- É o fim dela. Todos aqui sabem que para cessar uma Faida é necessário sangue. O último a cair foi um Romano. Pelas mãos de um Rossi. Reivindico sua filha, Angelina Rossi, para cessarmos a guerra.
O salão ficou mudo.
- Angelina Rossi no altar em sete dias. - completei, olhando nos olhos do velho. - Ou o próximo a cair será você.
Mario empalideceu como se o chão lhe faltasse. Atrás dele, capos recuaram instintivamente. Sabiam que eu não estava sozinho. Que o meu ato não era impulso, era estratégia.
Ele assentiu, lentamente. Os ombros curvados. A boca contraída em derrota.
Virei-me lentamente, ignorando os murmúrios abafados e os olhares incrédulos que ainda queimavam nas minhas costas.
Angelina continuava onde eu a deixei. A postura ereta, o vestido respingado de sangue, o queixo teimosamente erguido como se isso pudesse protegê-la. Mas não havia proteção possível agora.
A respiração dela estava rápida. O rosto, pálido sob o rubor forçado. As mãos ainda cerradas, mas trêmulas e não mais por raiva apenas, e sim por saber que acabara de se tornar peça de um jogo cujas regras não havia escolhido.
E mesmo assim, ela me olhava. Não com submissão. Não com desespero. Com algo que queimava mais fundo: desafio.
Desafio e algo que não deveria estar ali, sentia a sua curiosidade.
Ela queria entender o que viria depois. Queria saber se eu era só brutalidade e minhas reais intenções em fazer dela minha esposa. Queria descobrir até onde eu estava disposto a ir.
E a resposta estava escrita nos meus olhos quando parei diante dela:
- Eu irei até o fim, bambina.
Dei um passo à frente, obrigando-a a inclinar levemente o rosto para cima.
- Mesmo que o fim... seja você.
Angelina era bonita, desejada por homens demais para que isso ainda fosse novidade. Mas nada me preparara para vê-la tão perto, com o rosto corado pela fúria e lágrimas silenciosas deslizando pelas bochechas. Havia nela uma beleza feroz,parecia fragilidade mas sabia que aquela pequena criatura poderia me matar.
Quando ela ergueu o braço, a mão aberta no impulso desesperado de me atingir novamente, eu a segurei no ar com firmeza. Meus dedos fecharam ao redor de seu pulso com a mesma precisão de antes, arrancando-lhe um gemido rouco. Puxei ela com força, colando nossos corpos, fazendo seu vestido ranger entre nós como se protestasse pelo que se tornava inevitável.
Seu rosto ficou a poucos centímetros do meu. A respiração vinha entrecortada, instável. O olhar que ela lançou sobre mim era assassino, carregado de um ódio feroz, mas ainda assim belo. Para todos ali, ela ainda era a rainha do gelo, intacta, intocável, inquebrável. Mas para mim, ela não passava de uma peça no tabuleiro, uma refém das minhas decisões, da minha vingança, da minha vontade.
- Não ouse, princesa. Não cometa o mesmo erro. - Murmurei rente à sua pele, a voz baixa. - Ou eu vou profanar esse lugar sagrado e te foder ali mesmo, naquele altar, na frente de todos, só para mostrar que você já me pertence.
Ela não respondeu, mas o tremor que percorreu seu corpo confirmou tudo que as palavras tentavam esconder. Estava assustada, envergonhada, humilhada, mas ainda assim se recusava a baixar a cabeça. E isso apenas atiçava o prazer sombrio de tê-la exatamente onde eu queria.
Inclinei-me para ela e, com lentidão depositei um beijo no canto de sua boca, sentindo o sabor de sua pele misturado às lágrimas que escorriam em silêncio. Deslizei o polegar pela trilha úmida que marcava sua bochecha e levei aquela gota solitária aos meus lábios, saboreando. Então, sem pressa soltei seu pulso e a deixei recuperar o espaço que lhe restava.
Ela cambaleou um passo para trás, respirando com dificuldade, os olhos ainda cravados em mim. Por mais frágil que estivesse, ela resistia. Ardente, furiosa. Uma mulher despedaçada por dentro, mas ainda de pé diante do inimigo.
Virei-me sem olhar para trás, atravessando o salão que ainda ecoava em gritos e passos apressados, deixando o caos atrás de mim. Os convidados se afastavam, os capos cochichavam entre si com expressões tomadas pelo pavor e pela incredulidade.
Era hora de partir e esperar pelas consequências. Porque elas viriam e eu sabia. Mas nenhuma delas seria capaz de mudar o que já estava feito.
A minha vitória, naquela noite, estava selada. E Angelina Rossi, querendo ou não, já era minha.
ANGELINA ROSSI
"Alguns chamam de desgraça. Eu chamo de oportunidade."
Amanhã, Tonny Romano seria meu marido.
Naquela noite, porém, minha virgindade ainda me pertencia.
Sentei-me diante do espelho e deslizei o batom vermelho sobre os lábios, ignorando o silêncio fúnebre que tomava a mansão. Os corredores estavam vazios. As portas, fechadas. Ninguém falava acima de um sussurro, como se os Rossi já velassem a minha morte.
Para a minha família, casar-se com um Romano não era muito diferente de ser enterrada viva.
O quarto permanecia igual ao de quando eu era criança. Os retratos nas paredes, as flores secas que minha mãe gostava de colocar sobre o criado-mudo, a janela voltada para o jardim de inverno. Cada objeto parecia querer me recordar quem eu fora antes de me tornar o pagamento de uma dívida de sangue.
Mas eu já não era aquela garota.
O homem com quem meu pai pretendia me casar estava dentro de um caixão fechado. Tonny Romano o executara diante de dezenas de testemunhas, interrompendo meu noivado com uma bala no coração e reivindicando a minha mão como compensação pela guerra entre nossas famílias.
Uma cena brutal.
Uma humilhação pública.
Exatamente o que eu precisava.
Contive o sorriso enquanto fechava o batom.
Todos acreditavam que Tonny havia destruído meu futuro. Não sabiam que ele apenas eliminara o homem de quem eu precisava me livrar.
Meu falecido noivo era arrogante, controlador e convencido de que receberia uma esposa tão obediente quanto os cavalos que colecionava. Quando falava comigo, não enxergava uma mulher. Via um sobrenome, um ventre e uma aliança conveniente.
Tonny Romano havia me libertado dele.
O preço seria me casar com um homem muito mais perigoso.
E eu estava disposta a pagá-lo.
Tonny era o nome que fazia os homens do meu pai fecharem as portas antes de conversar. O inimigo mencionado em voz baixa, como se pudesse atravessar paredes e arrancar a língua de quem o desafiasse. Um homem capaz de desestabilizar alianças apenas entrando em uma sala.
Em menos de vinte e quatro horas, eu carregaria o sobrenome dele.
Romano acreditava que havia me escolhido.
A verdade era outra.
Eu o escolhera primeiro.
A porta se abriu com tanta força que bateu contra a parede.
Chiara entrou no quarto bufando, os cabelos loiros soltos sobre os ombros e os olhos acesos de indignação.
- Você está se maquiando?
Olhei para a imagem dela pelo espelho.
- Como pode ver.
- Seu noivo foi assassinado diante de você, nosso pai praticamente a entregou ao responsável e amanhã você vai se casar com um Romano. Mas está passando batom como se fosse sair para jantar.
- Não vou sair para jantar.
- Isso não melhora a situação.
Voltei a atenção para meu reflexo e corrigi o contorno dos lábios.
- Também não adianta chorar.
Chiara atravessou o quarto e parou atrás de mim.
- Não entendo como consegue ficar tão calma.
- A calma assusta mais do que o desespero.
- Angelina...
- Amanhã, todos esperarão encontrar uma vítima no altar. Não pretendo satisfazê-los.
Ela soltou o ar e caminhou até a cama.
- Você aceitou rápido demais.
Fechei o estojo de maquiagem.
- Não aceitei. Nosso pai aceitou por mim.
- Você poderia ter gritado. Poderia ter se recusado. Poderia ter feito qualquer coisa além de ficar parada diante daquele homem como se...
- Como se eu não estivesse com medo?
Chiara não respondeu.
Girei o banco e a encarei.
- Eu estava com medo.
- Não pareceu.
- Era essa a intenção.
Ela se sentou na beira da cama, apertando os próprios dedos.
- Ele matou um homem na sua frente.
- Um homem que você mesma considerava desprezível.
- Isso não torna o assassinato menos horrível.
- Não. Apenas torna o luto menos convincente.
Chiara ergueu os olhos para mim, chocada.
Eu me levantei e caminhei até o armário.
- Não precisa fingir comigo - acrescentei. - Você sabia que aquele casamento me tornaria miserável.
- Sabia. Mas existe uma diferença entre desejar que um casamento seja cancelado e ver o noivo levar um tiro no peito.
- Para Tonny Romano, a diferença é apenas o método.
Retirei o vestido preto do cabide e o coloquei sobre a cama.
Chiara acompanhou o movimento.
- Por que você está se arrumando?
- Porque vou sair.
- Sair para onde?
- Para uma festa.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio, como se esperasse que eu começasse a rir.
Não comecei.
- Você enlouqueceu.
- Talvez.
- Angelina, você vai se casar amanhã.
- Estou perfeitamente informada sobre a data.
- Com Tonny Romano.
- Também não esqueci o nome do noivo.
Ela se levantou.
- Então me explique por que está agindo como se tudo isso fosse parte de um plano.
Parei diante dela.
Chiara sempre fora a luz da família. A filha que ainda acreditava que o amor poderia existir dentro daquelas paredes. Que escondia encontros com Vincenzo e imaginava que nosso pai acabaria cedendo quando percebesse que os sentimentos dos dois eram verdadeiros.
Eu não tinha coragem de arrancar essa esperança dela. Meus planos eram maiores, mas ao menos por um momento a mais, eu pretendia deixar Chiara longe do que estava por vir. O casamento era o meu destino e eu precisava fazê-la entender por que eu não fugiria.
- Se eu recusasse Tonny, ele exigiria outra forma de compensação.
- Os Rossi podem dar mais território, dinheiro....
- Sangue. Isto seria exigido!
O rosto dela perdeu a cor.
- Não.
- A última vítima da Faida foi um Romano. Segundo as antigas regras, a família responsável precisa entregar alguém de sua linhagem para selar o acordo. Tonny pediu uma filha solteira de Mario Rossi.
- Ele pediu você.
- Porque sou a mais velha. Mas, se eu desaparecesse, restaria você.
Chiara negou com a cabeça.
- Papai jamais permitiria.
- Nosso pai me entregou diante de um cadáver sem sequer olhar nos meus olhos.
Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Aproximei-me e segurei suas mãos.
- Você ama Vincenzo e o preço seria alto ...
- Isso não tem nada a ver com ele.
- Tem tudo a ver com ele. Tonny não aceitaria que você continuasse encontrando outro homem depois de ser prometida a um Romano. E Vincenzo morreria antes do amanhecer.
Os dedos dela ficaram gelados entre os meus.
- Então está fazendo isso por mim?
A pergunta veio tão baixa que quase desapareceu.
Soltei suas mãos.
- Estou fazendo porque é a decisão mais inteligente.
- Angelina.
- Não romantize meu sacrifício. Você sabe que detesto esse tipo de coisa.
Ela me abraçou antes que eu pudesse recuar.
Por alguns segundos, permaneci rígida. Depois envolvi sua cintura e fechei os olhos.
Chiara era a única pessoa naquela casa por quem eu pisaria voluntariamente no inferno.
- Ele pode machucar você - sussurrou contra meu ombro.
- Pode tentar. - sabia que o objetivo dele era me ferir além do físico, a raiva entre nossas famílias era antiga.
- Isso não é brincadeira, Angel.
- Eu sei.
Ela se afastou e segurou meu rosto.
- Tonny Romano não é como os homens que papai recebe nesta casa.
- É exatamente por isso que ele me interessa.
Chiara franziu a testa.
Afastei suas mãos e voltei para a cama. Era o bastante, minha irmã não precisava saber mais do que eu ocultava dentro de mim.
- Você parece aliviada, parece pronta para ser um sacrifício.
- Estou pronta para o que me foi destinado. - Sorri.
- É disso que estou falando. - Ela passou as mãos pelos cabelos. - Essa forma fria como você olha para tudo me assusta.
- E a forma como você acredita que o amor salvará Vincenzo também me assusta. Mesmo assim, não tento impedi-la.
- Tenta o tempo inteiro.
- Porque alguém nesta família precisa pensar.
Ela lançou-me um olhar irritado.
- Você é insuportável. Um problema ambulante!
- Amanhã, esse problema será de Tonny.
Apesar da tensão, Chiara soltou uma risada curta. O som morreu quando me viu retirar o robe e começar a aplicar hidratante nas pernas.
- Por que realmente vai a essa festa?
Espalhei o creme lentamente sobre uma das coxas.
- Porque é minha última noite livre.
- Você não deveria permanecer em casa? Há homens armados em todos os portões.
- Eles estão aqui para impedir que os Romano me levem antes da cerimônia. Não para controlar aonde vou.
- Papai não permitirá.
- Papai está trancado no escritório tentando calcular quanto de seu império ainda existirá depois do casamento. Não prestará atenção em mim.
Chiara olhou para o vestido preto sobre a cama e depois para o meu rosto.
- O que pretende fazer?
- Dançar. Beber. Encontrar alguém interessante...
- Alguém?
Mantive os olhos nela enquanto terminava de espalhar o hidratante.
- Não vou chegar virgem ao altar.
Chiara ficou imóvel.
- O quê?
- Você ouviu.
- Não. Acho que meu cérebro se recusou a compreender.
Peguei o vestido e abri o zíper.
- Tonny quer uma Rossi intocada. Quer o sangue nos lençóis, o símbolo de que foi o primeiro homem a me possuir e a confirmação de que nossa família lhe entregou algo que jamais poderá recuperar.
- Angelina, isso não é apenas sobre ele. As regras da máfia são severas. Se descobrirem...
- O conselho pode aceitar tradições arcaicas. Não significa que eu precise me ajoelhar diante delas.
- Você pode ser repudiada.
- Melhor ser repudiada do que marcada como propriedade.
- E se Tonny matar o homem?
Parei por um instante. Era uma possibilidade, uma bastante provável. Mas ele estava seguro demais para me vigiar.
- Ele precisaria descobri-lo primeiro.
- E quem será?
- Ainda não sei.
O horror no rosto dela quase me fez sorrir.
- Você pretende entregar sua virgindade a um desconhecido na noite anterior ao casamento?
- Não a qualquer desconhecido.
- Que alívio. Por um momento, pensei que seu plano fosse irresponsável.
- Ao primeiro homem que me fizer desejá-lo.
Chiara soltou uma risada sem humor.
- Isso é loucura.
- Isso é escolha.
- Você nem sequer sabe quem estará nessa festa.
- Esse é o objetivo.
A festa aconteceria em uma propriedade afastada da cidade, organizada por homens que não faziam perguntas e frequentada por convidados protegidos por máscaras. Nomes, alianças e rostos permaneciam do lado de fora.
Durante algumas horas, ninguém ali carregava sobrenomes. Era uma festa frequentada pela alta sociedade italiana. Apenas pecadores anônimos em busca de prazer, bebidas e adrenalina.
Chiara percebeu pela minha expressão que não conseguiria me convencer.
- Está mesmo decidida?
- Sim.
- E se se arrepender?
Subi o vestido pelas pernas.
O tecido preto abraçou meu corpo, ajustando-se à cintura e aos quadris. Virei-me de costas para ela.
- Feche o zíper.
Chiara hesitou, mas obedeceu.
- Angelina...
- Tenho vinte e três anos e nunca decidi quem podia me beijar, com quem poderia sair ou qual homem dividiria minha cama. Amanhã, meu corpo passará a ser tratado como parte de um acordo entre duas famílias. Esta noite, ainda sou a única pessoa com direito de escolher o que fazer com ele.
Ela fechou o zíper até o alto.
Encarei nosso reflexo no espelho.
Chiara parecia prestes a chorar. Eu vestia preto para uma noite que todos acreditavam ser meu funeral.
Talvez fosse. Mas era a minha escolha de como correria o risco.
Peguei a máscara sobre a penteadeira. Negra, delicada, com detalhes dourados ao redor dos olhos.
- Prometa que terá cuidado - pediu minha irmã.
Coloquei a máscara diante do rosto. Abaixei a máscara e me virei para ela.
- Fique longe do escritório do papai. Não tente ouvir as reuniões. Não procure Vincenzo esta noite e, acima de tudo, não conte a ninguém para onde fui.
- Está me pedindo para mentir.
- Estou pedindo que me dê algumas horas de liberdade antes de eu me tornar uma Romano.
Chiara fechou os olhos por um instante.
- Eu odeio isso.
Beijei sua testa.
- Eu sei.
- E odeio ainda mais o fato de parecer que você está gostando.
Um sorriso discreto tocou meus lábios.
- Eles acham que fui reivindicada pelo inimigo. Deixe que continuem acreditando nisso.
- O que significa?
Caminhei até a porta e coloquei a máscara.
- Significa que Tonny Romano pode ter escolhido a esposa errada.
Saí do quarto antes que ela fizesse outra pergunta.
Naquela noite, eu não seria a filha de Mario Rossi, a noiva de um morto ou a mulher prometida ao inimigo. Não carregaria o peso da Faida nem obedeceria às regras escritas por homens que negociavam mulheres como objetos.
Naquela noite, eu escolheria quem tocaria meu corpo. Quem receberia aquilo que Tonny Romano acreditava já lhe pertencer.
Ele exigira meu sangue para encerrar uma guerra. Eu pretendia chegar ao altar sem nada intacto para lhe oferecer.
Nada além de uma mentira e uma lâmina escondida sob o vestido.
ANGELINA ROSSI
Horas depois...
A boate funcionava no subsolo de um palácio particular. Máscaras eram obrigatórias, os celulares ficavam na entrada e ninguém perguntava nomes. Era exatamente por isso que eu estava ali.
A música fazia o chão vibrar sob meus saltos, enquanto luzes vermelhas atravessavam a penumbra e revelavam apenas fragmentos de rostos e corpos. Empresários, herdeiros e homens ligados à máfia misturavam-se na pista, protegidos por um anonimato que todos fingiam respeitar.
Meu vestido preto marcava minhas curvas e deixava as costas expostas. A máscara escondia parte do meu rosto, mas não a razão que me levara àquela festa.
Na manhã seguinte, eu me casaria com Tonny Romano. Naquela noite, meu corpo ainda era meu.
- Ainda podemos ir embora - Chiara disse ao meu lado.
Lancei um olhar irritado para ela e para Giacomo, o segurança que consegui subornar para proteger Chiara quando ela me seguira até a villa.
Peguei uma taça de champanhe da bandeja de um garçom.
- Eu não vou. Mas Giacomo pode te levar para casa.
Ela segurou meu braço, inquieta.
- Tenha cuidado.
- Vá dançar, Chiara.
Sustentei seu olhar até que ela entendesse que não me faria mudar de ideia. Minha irmã soltou meu braço e se afastou em direção à pista, embora continuasse olhando para trás.
Eu não precisava de uma testemunha. Mas agora ela estava ali, ao menos Giacomo a protegeria e eu seguiria com a minha noite.
Passei os olhos pelo salão mais uma vez. Havia recusado três homens desde que chegara. Um falara demais, outro mal conseguia permanecer em pé, e o terceiro colocara a mão em minha cintura sem permissão.
Não entregaria minha primeira vez a qualquer idiota apenas para afrontar Tonny. Queria desejar o homem que escolheria.
Foi então que o vi.
Ele estava sozinho junto ao bar, com uma taça na mão e o corpo voltado em minha direção. Era alto, tinha os ombros largos e vestia um terno preto impecável. A máscara cobria seus olhos e parte do rosto, deixando visíveis apenas a mandíbula firme e a boca séria.
Não tentou se aproximar. Apenas sustentou meu olhar com a segurança de quem não precisava disputar minha atenção.
Ergui discretamente a taça.
Ele veio até mim.
As pessoas se afastaram de seu caminho antes mesmo que pedisse passagem. Não havia pressa em seus passos, apenas a tranquilidade de um homem acostumado a obter o que desejava.
Meu corpo reagiu antes que ele chegasse.
Talvez fosse o champanhe, a urgência daquela noite ou apenas a forma como ele me olhava. Não importava. Era o primeiro homem que despertava algo além de impaciência.
Ele parou diante de mim e deixou o olhar percorrer meu vestido antes de voltar ao meu rosto.
- Está esperando alguém?
- Não mais.
Ele pegou minha mão e levou meus dedos aos lábios. O beijo foi lento, sem qualquer inocência.
Em seguida, conduziu-me até o bar e pediu duas taças de vinho tinto. Não perguntou meu nome, e eu também não quis saber o dele. Bebemos em silêncio, observando um ao outro por trás das máscaras.
Quando ele se aproximou, sua boca quase tocou minha orelha.
- O que você quer?
Virei o rosto na direção dele.
- Sexo.
Seu olhar escureceu.
Não fez outra pergunta. Retirou a taça de minha mão, colocou-a sobre o balcão e tocou minha cintura. Não me puxou; apenas esperou.
Fui eu quem eliminou a distância entre nós.
- Não tire minha máscara.
Ele segurou minha mão e me conduziu até a área reservada.
Ele sorriu e segurando a minha mão me fez segui-lo entre as pessoas. No fundo da sala ele afastou a cortina e me conduziu pelo corredor reservado. A música perdeu parte da força, mas o grave continuava atravessando as paredes e vibrando sob meus pés. A sala era pequena, iluminada por luzes vermelhas refletidas em um espelho escuro, com um sofá largo e um bar encostado ao fundo.
Assim que a porta se fechou, ele segurou minha cintura e minha nuca, puxando-me contra o corpo rígido sob o terno. Sua boca encontrou a minha com força. Segurei a gravata dele e correspondi sem hesitar. Eu não chegara até ali para ser convencida.
Minhas costas bateram contra a porta. A coxa dele encaixou-se entre as minhas, pressionando o tecido fino da calcinha, enquanto sua mão subia pela fenda do vestido e apertava minha coxa.
Nenhum nome, nenhuma pergunta. Era exatamente o que eu queria.
Abri os botões de sua camisa enquanto sua boca descia pelo meu pescoço. Passei as mãos pelo peito musculoso e senti as linhas de algumas tatuagens sob meus dedos, mas a penumbra não permitia distinguir os desenhos.
Ele encontrou o zíper do vestido e o baixou. O tecido afrouxou sobre meu corpo, mas, antes que caísse, ele me virou de costas e prendeu meus pulsos acima da cabeça com uma das mãos. Afastou meus cabelos e percorreu meu pescoço com a boca, primeiro devagar, depois mordendo minha pele.
Arqueei o corpo contra ele ao sentir sua ereção pressionar minhas costas. Sua mão livre deslizou pelo meu ventre e entrou sob a calcinha, encontrando meu clitóris sem qualquer aviso.
Fechei os olhos quando começou a me tocar. Os movimentos eram lentos, precisos, mas aceleraram assim que movi os quadris contra sua mão. A música abafou meu gemido, mas não a respiração dele junto ao meu ouvido.
Tentei libertar os pulsos para tocá-lo, porém ele apertou os dedos e me manteve presa. Em qualquer outra situação, a falta de controle teria me irritado. Naquela, só aumentou o calor entre minhas pernas.
Ele continuou acariciando meu clitóris enquanto me penetrava, abrindo-me com paciência, como se já soubesse que eu precisaria daquilo depois.
O prazer cresceu depressa. Mordi o lábio para conter o gemido quando gozei contra sua mão. Minhas pernas fraquejaram, mas ele sustentou meu corpo e continuou me tocando até os últimos espasmos passarem.
Assim que soltou meus pulsos, virei-me e empurrei sua camisa pelos ombros. Abri o cinto sem diminuir a distância entre nós, precisando vê-lo e tocá-lo antes que começasse a pensar demais.
Ele deixou que eu afastasse sua calça. Quando envolvi sua ereção com a mão, seu corpo enrijeceu sob o meu toque.
Era maior do que eu esperava.
Ele percebeu minha pausa, segurou meu queixo e ergueu meu rosto.
- Mudou de ideia?
- Não.
Puxei-o pela nuca e voltei a beijá-lo, encerrando qualquer possibilidade de discussão.
Ele retomou o controle no mesmo instante. Arrancou o vestido de meus quadris, mas o tecido ficou preso em um dos saltos. Um puxão forte rompeu a costura e fez a peça cair no chão.
Ele me ergueu pela cintura e me levou até o sofá. Deitou-me sobre o veludo, abriu minhas pernas e se posicionou entre elas. Seu olhar percorreu meu corpo nu com uma intensidade que fez minha pele queimar.
Por um instante, tive a impressão de que havia reconhecimento em seus olhos, mas a sensação desapareceu quando ele alcançou um preservativo na mesa ao lado.
A facilidade com que encontrou a embalagem deveria ter chamado minha atenção. Não chamou. Eu só conseguia olhar para o corpo musculoso acima do meu e para o membro grosso que pressionou minha entrada.
Segurei seus ombros quando ele avançou um pouco. Meu corpo se contraiu imediatamente, e a ardência fez minha respiração falhar.
Ele parou.
- Primeira vez?
Assenti.
A mandíbula dele se contraiu. Por um momento, pensei que fosse se afastar, mas suas mãos seguraram minhas coxas e as abriram mais.
Pressionou-se contra mim e avançou devagar até encontrar a resistência do meu corpo. A dor aumentou, e cravei as unhas em seus ombros quando ele parou mais uma vez.
Ergui os quadris.
Não precisava que me protegesse de uma decisão que eu mesma tomara.
Meu movimento foi o bastante. Ele entrou com uma estocada firme, rompendo a barreira e preenchendo-me por completo. O ardor me atravessou, arrancando um gemido enquanto meu corpo tentava se ajustar ao tamanho dele.
Ele permaneceu imóvel dentro de mim, segurou meu rosto e me obrigou a encará-lo. Não havia pena em seus olhos, apenas controle e a certeza de que esperaria até que eu estivesse pronta.
Respirei fundo e movi os quadris, exigindo que continuasse.
Ele recuou devagar e voltou a entrar. A dor permaneceu nas primeiras estocadas, misturada à pressão intensa de senti-lo dentro de mim, mas diminuiu à medida que meu corpo começou a ceder.
O prazer tomou seu lugar.
Passei as pernas ao redor da cintura dele e o puxei mais fundo. Seu ritmo aumentou, enchendo a sala com o som de nossas respirações, da pele se encontrando e do grave distante da música.
Nenhuma palavra era necessária.
Ele prestava atenção ao meu corpo, acelerando quando eu o puxava e diminuindo quando meus músculos se contraíam. Mudou o ângulo de minhas pernas até encontrar um ponto que fez o prazer subir por meu ventre.
A habilidade dele me irritou tanto quanto me excitou.
Empurrei seu peito e o fiz sentar. Montei sobre seus quadris antes que tentasse me impedir e desci lentamente, sentindo cada centímetro entrar de novo.
Apoiei as mãos em seu peito e comecei a me mover. Por alguns instantes, fui eu quem determinou o ritmo, subindo e descendo sobre ele até encontrar a velocidade que queria.
As mãos dele se fecharam em minha cintura e passaram a conduzir meus movimentos, fazendo-me descer com mais força.
Inclinei-me e mordi seu lábio. Ele soltou um som rouco contra minha boca, mas não permitiu que eu mantivesse o comando por muito tempo.
Em um movimento rápido, virou-me e me colocou de joelhos sobre o sofá. Segurou meus quadris e voltou a entrar por trás, arrancando de mim um gemido alto.
As estocadas vieram mais profundas e firmes. Apoiei as mãos no encosto e o recebi sem pedir que diminuísse. Eu queria a força, a ausência de delicadeza fingida e a sensação de ter escolhido um homem capaz de me fazer esquecer que, na manhã seguinte, outro acreditaria ter direitos sobre meu corpo.
Uma das mãos dele deslizou por minha barriga e encontrou meu clitóris. O prazer aumentou rápido, apertando meu corpo ao redor dele enquanto seus movimentos se tornavam mais intensos.
Gozei arqueada contra o sofá, com uma de suas mãos entre minhas pernas e a outra presa em minha cintura. Ele continuou até meu corpo parar de responder e gozou logo depois, permanecendo imóvel dentro de mim por alguns segundos, com a respiração quente contra minhas costas.
Quando se afastou, minhas pernas quase cederam.
Sentei-me no sofá, ainda tentando recuperar o fôlego, enquanto ele retirava o preservativo e vestia a calça. O ardor entre minhas coxas era intenso, mas não havia arrependimento.
Eu fizera a minha escolha.
Ele pegou o paletó jogado no chão e o lançou sobre mim.
- Vista. Rasguei seu vestido.
Cobri o corpo ainda trêmulo e o observei erguer as mãos até a máscara.
Meu coração acelerou.
- O que está fazendo?
Ele não respondeu.
Apenas retirou a máscara.
O ar desapareceu dos meus pulmões.
Os mesmos olhos que haviam me encarado ao lado do cadáver do meu noivo. A mesma mandíbula firme. A mesma boca arrogante que anunciara diante de todos que eu seria sua esposa.
- Tonny Romano - sussurrei.
Ele deixou a máscara sobre a mesa e sorriu lentamente.
- Lamento decepcioná-la. Você queria entregar a outro o que me pertencia, mas eu jamais permitiria.
A raiva me atingiu de uma vez.
- Você é um doente.
- E você é tola. - Ele ajeitou a camisa. - Mas amanhã será minha esposa. Considere esta a nossa lua de mel antecipada.
Levantei-me, apertando o paletó contra o corpo.
- Vai se arrepender amargamente de se casar comigo.
Tonny sustentou meu olhar.
- Posso dizer o mesmo.
Virou-se e abriu a porta.
Dois homens vestidos de preto aguardavam do lado de fora. Chiara estava entre eles, pálida e inquieta.
- Levem as duas para casa. Em segurança - ordenou, sem olhar para trás.
Passei por ele sem dizer mais nada.
Eu planejara aquela noite para afrontar Tonny Romano.
Imaginara a raiva dele ao descobrir que chegaria ao altar tarde demais.
Mas ele me seguira. Esperara. E tomara para si exatamente aquilo que eu pretendia negar-lhe.
Tonny havia vencido aquela noite.
Apenas aquela.