Era noite em Pedesina. O céu, tingido de um azul profundo, era pontilhado por estrelas que pairavam sobre as montanhas silenciosas. O ronco suave de um Maserati Levante cortava o ar tranquilo da cidade, serpenteando pelas estradas sinuosas até atingir o topo, onde uma imponente mansão dominava a paisagem. Suas paredes de pedra refletiam a luz amarelada dos lampiões do jardim, e as janelas elegantes eram sombras reluzentes contra a escuridão.
Os jardins ao redor da mansão eram meticulosamente cuidados, exibindo uma variedade de flores vibrantes e arbustos podados com precisão. Mas, além da beleza, havia um sinal inconfundível de que ali habitava um homem poderoso: os homens armados. Postados em pontos estratégicos, vigilantes, eles mantinham a casa sob proteção constante.
O Maserati estacionou suavemente diante da entrada principal. Dois homens de terno preto saíram primeiro, assumindo posições em lados opostos do carro. Um deles abriu a porta traseira com precisão militar, e, de dentro, emergiu um homem de presença imponente. Seus cabelos negros já ostentavam traços grisalhos, mas a idade não lhe roubara a postura rígida nem a intensidade no olhar. O terno cinza assentava-se perfeitamente em sua silhueta, exalando autoridade.
- Don Vittorio - murmurou um dos capangas em tom de reverência.
Vittorio fez um leve aceno com a cabeça e subiu os degraus de mármore branco da mansão. A porta dupla se abriu suavemente, revelando um interior luxuoso, onde o brilho dos lustres de cristal contrastava com a madeira escura das paredes. Um tapete persa adornava o corredor principal, conduzindo-o à sala de estar decorada com móveis clássicos e obras de arte valiosas.
O chefe da casa lançou um olhar atento ao seu capanga mais próximo.
- Onde estão todos? - perguntou, com a voz firme, porém contida.
- Já se recolheram, Don Vittorio - respondeu o homem, mantendo a cabeça levemente abaixada em respeito.
Vittorio suspirou profundamente, sentindo o peso da noite sobre os ombros. Estava cansado. A reunião em Milão havia sido exaustiva, mas, acima de tudo, reforçara a necessidade de manter seus filhos longe daquele mundo. Sem mais palavras, ele começou a subir as escadas com passos deliberadamente lentos.
Ao chegar ao andar superior, moveu-se pelo corredor silencioso, detendo-se diante da primeira porta. Ao abri-la, encontrou Jake, seu primogênito, dormindo profundamente. O garoto de oito anos nem se mexeu quando o pai se aproximou e depositou um beijo suave em sua testa. Vittorio permitiu-se um pequeno sorriso antes de sair do quarto.
No cômodo seguinte, os gêmeos Marco e Jason dormiam em seus berços, sob o olhar atento da babá, que se levantou rapidamente ao vê-lo.
- Precisa de algo, Don Vittorio? - perguntou ela, com a voz baixa para não acordar os bebês.
- Não. Vá descansar - disse ele, saindo sem mais delongas.
Ao continuar sua caminhada pelo corredor, um barulho repentino o fez parar. O som abafado de tiros. Seu corpo reagiu no mesmo instante, e sua mão foi direto ao coldre, puxando a pistola dourada que sempre carregava. Os capangas que o seguiam se armaram automaticamente. Ele avançou até a porta de sua filha, Donna, e, sem hesitação, entrou de rompante.
O quarto estava escuro, a única luz vinha da tela de uma televisão que, assim que perceberam sua presença, foi desligada. Sob as cobertas, uma pequena silhueta se moveu rapidamente.
Vittorio abaixou a arma, soltando um suspiro aliviado.
- Donna, eu vi você - disse, seu tom carregando um misto de exasperação e ternura.
- Não viu não! Eu estava dormindo! - a voz infantil protestou, abafada pelo tecido das cobertas.
Vittorio caminhou até a cama e sentou-se ao lado da filha. Com um gesto calmo, puxou as cobertas para baixo, revelando um rostinho determinado a manter os olhos fechados com força.
- Donna, abra os olhos - ordenou, seu tom levemente divertido.
A menina abriu os olhos de forma dramática e arregalou-os como se estivesse surpresa.
- Papai! Você chegou! - exclamou, fingindo entusiasmo.
Vittorio arqueou uma sobrancelha.
- O que você fazia acordada a essa hora?
- Perdi o sono - respondeu rapidamente.
- Sei... E o que estava assistindo? - perguntou, lançando um olhar para a televisão.
- Nada! - Donna respondeu, erguendo os ombros com inocência ensaiada.
Vittorio pegou o controle remoto e ligou a TV novamente. A tela iluminou-se, revelando a cena icônica de O Poderoso Chefão. Ele olhou para a filha, que imediatamente abaixou a cabeça.
- Nada, né? - Vittorio repetiu, cruzando os braços.
- Não tenho culpa se é meu filme favorito... - murmurou Donna.
Vittorio riu baixinho e passou a mão nos cabelos da filha.
- Sua mãe já disse que você não pode assistir esse tipo de filme.
- Desculpa. Mas você não vai contar pra ela, né? - Donna fez um biquinho esperançoso.
Ele a observou por um momento, então suspirou.
- Está bem. Mas com uma condição: você precisa dormir agora.
Donna fez uma careta.
- Não consigo...
- E por quê?
Ela hesitou antes de responder:
- Estou com fome.
Vittorio franziu o cenho.
- Você não jantou?
- Jantei... mas estou com fome de outra comida. - Donna se ergueu na cama, inclinando-se para sussurrar algo no ouvido do pai.
Vittorio escutou, e um sorriso apareceu em seus lábios.
- Vou ver o que posso fazer - disse ele, levantando-se.
***
Donna entrou na cozinha em silêncio, movendo-se com a leveza de quem não queria interromper um momento quase sagrado. O aroma suave de temperos e o calor acolhedor do forno pré-aquecido a envolveram, criando uma sensação de conforto instantâneo. Do outro lado do balcão, seu pai, Vittorio, ajustava a temperatura do forno para 180°C com a precisão de alguém habituado a controlar todos os aspectos ao seu redor.
Ela se sentou em uma das banquetas altas, observando cada um de seus movimentos. Ele pegou um pedaço de manteiga com os dedos e começou a untar uma assadeira retangular de metal, espalhando a gordura de maneira uniforme, como se estivesse preparando uma tela para uma obra de arte culinária. Quando se virou para ela, segurando uma tigela grande, seus olhos brilhavam com algo que poderia ser diversão ou um amor silencioso.
- Está pronta? - Ele perguntou, sua voz grave e baixa.
Donna balançou a cabeça rapidamente, empolgada, sentindo a energia do momento. Vittorio começou a colocar os ingredientes na tigela: carne moída, cebola picada, alho amassado, um ovo e farinha de rosca. Com um gesto sutil, ele indicou que Donna deveria misturar tudo com as mãos. Sem hesitar, ela mergulhou os dedos na mistura fria e pegajosa, sentindo a textura da carne se moldando entre seus dedos.
Enquanto ela misturava, Vittorio abriu um armário e pegou um pote de pasta de amendoim e uma colher de metal. Ele colocou o frasco diante dela com um olhar significativo. Donna sorriu, pegou uma colher cheia e a despejou na tigela. Enquanto isso, seu pai adicionava molho de soja, ketchup, mostarda, páprica, sal e pimenta, criando um aroma forte e inconfundível.
Um sorriso conspirador surgiu nos lábios dos dois antes que voltassem à tarefa de misturar tudo, suas mãos trabalhando juntas até que a massa ficasse homogênea. Quando o ponto ideal foi alcançado, Vittorio transferiu a mistura para a assadeira untada, pressionando-a cuidadosamente para formar um bolo compacto. Por fim, alisou a superfície com uma espátula e espalhou uma camada fina de ketchup sobre o topo, garantindo que a crosta clássica do meatloaf ficasse perfeita.
Ele colocou a assadeira no forno e ajustou o timer para quarenta minutos. O tempo exato para que pai e filha compartilhassem uma conversa tranquila, enquanto roubavam colheradas de pasta de amendoim diretamente do pote.
- Como foi a escola hoje? - Vittorio perguntou, encostando-se no balcão.
Donna suspirou, lambendo o resto da pasta de amendoim dos dedos antes de responder:
- Bem... Mas vocês provavelmente vão ser chamados pela diretora.
Vittorio ergueu uma sobrancelha, interessado.
- O que foi que você aprontou dessa vez?
- Em minha defesa, o problema foram os garotos. Eles estavam perturbando o Jake. - Ela cruzou os braços, sua expressão endurecendo. - E eu não tenho sangue frio para isso.
Vittorio parou por um segundo, surpreso com a escolha das palavras da filha.
- "Sangue frio", hein? Um termo interessante para uma menina de oito anos.
- Fazer o quê? Eu leio bastante. - disse ela, como se isso explicasse tudo.
Vittorio assentiu, um brilho divertido nos olhos.
- Sei.
- E o seu dia, papà? - Donna perguntou, inclinando-se sobre o balcão.
- Normal. Reuniões com homens chatos de terno que querem poder.
Donna franziu o cenho.
- Se são chatos, por que você não bate neles?
Vittorio riu outra vez.
- Porque nem tudo se resolve com violência.
Ela estreitou os olhos.
- Mas você é mafioso. Claro que tudo se resolve com violência.
O sorriso de Vittorio diminuiu um pouco, mas seu olhar permaneceu carinhoso.
- Quem te disse isso?
- Eu assisto O Poderoso Chefão - ela respondeu, casualmente.
Ele riu mais uma vez, balançando a cabeça.
- Donna...
- Mas é verdade! Nossa família é igualzinha à do filme. Você é o Don Vito Corleone.
Vittorio sorriu.
- É mesmo?
- Sim. Jake é o Sonny. Marco e Jason são o Fredo e o Tom.
- Interessante... E você seria quem, então?
- O Michael, é claro! - ela disse com convicção.
Vittorio arqueou uma sobrancelha.
- Achei que você fosse a Connie.
- O quê?! - Donna fez uma careta indignada. - Connie é chata e tem um casamento arranjado! Eu definitivamente sou o Michael!
Vittorio sorriu, orgulhoso e intrigado. Ele se inclinou sobre a bancada, os olhos escuros fixos nela.
- Sabe, Donna... Sem dúvida você faria um Michael Corleone inesquecível. Mas o melhor é que você não precisa ser ele.
- Não? - ela perguntou, franzindo a testa.
- Não - Vittorio disse, pousando a mão sobre a dela. - Porque você pode ser quem quiser.
Antes que ela pudesse responder, o forno apitou. Vittorio se levantou, retirou o bolo de carne e colocou a assadeira sobre o balcão. O topo estava dourado, crocante e perfeito. Com precisão, ele cortou uma fatia e a entregou para Donna, que pegou um pouco de pasta de amendoim e colocou sobre o pedaço antes de levar à boca.
Ela mastigou devagar, saboreando, e então sorriu amplamente.
- O melhor meatloaf com pasta de amendoim que já comi na vida!
Vittorio sorriu satisfeito e provou sua própria fatia. O silêncio confortável se instalou entre eles até que foram interrompidos por um som sonolento vindo da porta.
Ellis apareceu na cozinha, ajustando o roupão e piscando contra a luz.
- O que vocês dois estão fazendo na cozinha às duas da manhã? - Ela perguntou, a voz rouca de sono.
Donna engoliu rápido, mas Vittorio apenas ergueu a fatia que segurava.
- Donna quis bolo de carne com pasta de amendoim - Vittorio respondeu.
Ellis olhou para a filha, incrédula.
- Às duas da manhã?
Donna encolheu os ombros.
- Quando o estômago quer, o estômago quer.
Ellis suspirou e passou as mãos no rosto.
- Já para a cama, mocinha. Agora.
- Mas, mãe...
- Agora, Donna.
Com um último olhar para o pai, Donna desceu da banqueta e beijou sua bochecha.
- Boa noite, Papà.
- Boa noite, piccola.
Ao passar pela mãe, Ellis deu um leve tapa em seu traseiro, incentivando-a a se apressar:
- Anda, anda.
Assim que Donna desapareceu escada acima, Ellis se sentou onde a filha estivera e pegou um pedaço de bolo do prato de Vittorio.
- Você mima muito essa menina - disse, mastigando.
Vittorio sorriu, encostando-se ao balcão.
- Só estou compensando o tempo que não terei com ela quando crescer.
Ellis baixou os olhos. Ela sabia que, um dia, Donna teria responsabilidades dentro do mundo que o pai comandava. Assim como Marco, ela também seria preparada para um casamento arranjado, como sempre acontecia com os filhos das grandes famílias da máfia. Ellis odiava isso, mas era a realidade. Ellis olhou para Vittorio e suspirou.
- Se preocupe com o futuro quando o futuro chegar.
Vittorio sorriu e segurou a mão dela sobre a mesa.
- Eu gostaria. Mas a verdade é que não me importo em gastar esses minutos cozinhando para Donna.
Ellis suspirou, mordendo outro pedaço do bolo.
- Sim, mas você a mima, e eu sou quem pago o preço quando você não está.
- Donna brigou na escola, não foi?
Ellis assentiu.
- Precisamos fazer algo.
Vittorio ponderou por um instante.
- Artes marciais.
Ellis o olhou, confusa.
- O quê?
- Podemos colocá-la para treinar.
Ellis quase engasgou.
- Ela brigou na escola e sua solução é ensiná-la a lutar melhor?
Vittorio sorriu.
- Será uma forma de canalizar sua energia.
- Ou transformá-la em uma máquina de matar!
Vittorio pegou a mão dela.
- Querida...
- Ela é igual a você, em tudo. E eu não quero esse caminho pra ela.
Vittorio segurou seu rosto entre as mãos, olhando-a nos olhos.
- Donna não seguirá esse caminho. Confie em mim.
Ellis suspirou.
- Confio. Mas me preocupo com o futuro dela.
Vittorio sorriu.
- Preocupe-se com o futuro quando ele chegar.
Contrariada, Ellis comeu mais um pedaço de bolo.
- Tudo bem.
Vittorio sorriu, puxando-a para seus braços.
- E agora, senhora Amorielle, me acompanha até os aposentos?
Ellis envolveu os braços ao redor de seu pescoço.
- Sem dúvida, Vitinho.
E se beijaram, sem perceber os pequenos olhos negros que espreitavam da escada. Donna sorriu. Ela não sabia o que o futuro lhe reservava, mas uma coisa era certa: queria um amor como o de seus pais.
O céu sobre o deserto de Gorafe tingia-se de âmbar e carmim conforme o sol mergulhava no horizonte seco. A paisagem árida reverberava o calor acumulado do dia, mesmo com a brisa noturna já se insinuando sobre as rochas. Ali, isolada de tudo, uma casa envidraçada parecia brotar da terra como uma miragem - moderna, fria, feita de ângulos agudos e promessas silenciosas. Cada parede de vidro refletia a vastidão do deserto e escondia seus segredos atrás do brilho.
Dentro da casa, Pietro Ferrara agitava a coqueteleira com precisão. Seus olhos, escuros como vinho envelhecido, estavam fixos na pista de pouso ao lado da piscina - uma faixa circular de concreto marcada por luzes embutidas no chão. Ele usava uma camisa branca com os botões abertos até o peito, e as mangas enroladas deixavam à mostra os antebraços definidos. As pedras de gelo tilintaram contra o copo, e ele sorriu.
Era o tipo de lugar onde ninguém vinha por acaso. Ali não se faziam perguntas - se enterravam respostas.
O som das hélices começou a vibrar na atmosfera como um trovão contido. Pietro finalizou os dois drinques com raspas de limão e saiu, atravessando a porta deslizante para a área externa, onde o vento jogava areia dourada contra os vidros. O helicóptero desceu num rugido abafado, o ar girando em redemoinhos quentes. Quando o piloto abriu a porta de trás, Pietro viu a silhueta da mulher que esperava.
Ela desceu com leveza, como se o salto fino não tocasse o chão. O vestido preto fluía ao redor de suas coxas bronzeadas, marcando com perfeição o desenho da cintura e abrindo-se e terminava estrategicamente, revelando a curva generosa de suas nádegas. Seus cabelos loiros caíam em ondas largas até o meio das costas. Ela ajeitou a bolsa no ombro, os olhos escondidos por óculos escuros, e desceu com uma elegância felina. Não precisava tentar. Ela já sabia o efeito que causava.
Pietro estendeu o drinque.
- Bem-vinda ao refúgio - disse com um meio sorriso.
Ela tirou os óculos, revelando olhos verdes que brilhavam com malícia, e pegou o copo, roçando os dedos nos dele.
- Obrigada - respondeu, o sorriso insinuante.
Pietro deu um passo mais perto, o calor do deserto subindo pelo seu corpo.
- Tenho certeza de que vamos aproveitar muito este lugar.
O piloto pigarreou.
- Que horas devo retornar?
Pietro olhou para a loira, um canto da boca se erguendo.
- E então?
Ela deu um passo à frente, fitando o helicóptero com desdém e depois voltando os olhos para Pietro, cheios de provocação.
- O quanto você puder pagar.
Pietro riu, um som baixo e predatório, e virou-se para o piloto.
- Quatro horas.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Audacioso - murmurou, tomando um gole do drinque.
O piloto assentiu e retornou à aeronave. Quando o helicóptero decolou novamente, o vento soprou contra os dois, fazendo o vestido da loira ondular e revelar ainda mais. Pietro passou o braço pela cintura dela e a puxou, beijando-a com uma fome latente, mais exigente do que carinhoso.
Ela aceitou o beijo com olhos fechados, entregando-se ao jogo, e não se moveu quando a mão dele deslizou para dentro do vestido, traçando a pele macia, e ele sentiu o corpo dela ceder sob seu toque. Cego de desejo, agarrou sua bunda com força, um aperto bruto que fez a loira soltar um gemido abafado. Ela fechou os olhos, inclinando-se contra ele, enquanto ele explorava, as mãos rudes, como se quisesse marcá-la.
Então o celular vibrou em seu bolso. Pietro suspirou, encostando os lábios no ouvido da mulher.
- Espera por mim lá dentro.
Ela o beijou, mordendo seu lábio inferior com força o suficiente para deixar um aviso, e caminhou em direção à casa, o quadril balançando em um convite silencioso. Ele a observou até ela desaparecer por trás do vidro. Só então olhou o visor do telefone.
"Giulia"
A última pessoa em que pensava. A última pessoa que deveria estar na sua cabeça.
Atendeu.
- Já chegou? - perguntou a voz da mulher do outro lado, com um tom doce demais para aquele lugar.
Pietro limpou a garganta.
- Já. Estou no ponto de encontro. Só esperando os outros.
- Você não avisou nada... - a voz carregava uma ponta de mágoa. - Eu já estou com saudades.
Pietro respirou fundo.
- Vai ser rápido. Logo estarei aí, com uma surpresa.
- Mesmo assim... estou com saudades.
- Devem ser os hormônios - murmurou, tentando manter o tom leve. - E o nosso meninão?
- Se mexendo - respondeu Giulia com um sorriso audível. - Acho que está sentindo falta do pai.
Pietro fechou os olhos por um segundo. A imagem da barriga dela piscou como uma lâmpada fraca na sua consciência. Depois, sumiu.
- Eu volto segunda. Fica tranquila.
- Estou tentando.
Ele olhou em direção à casa de vidro. Sua pele já ardia de tesão.
- Preciso desligar.
Desligou antes de ouvir o adeus.
Dentro da casa, a loira explorava os ambientes como uma pantera solta no meio de um museu. Cada passo deixava um rastro de perfume e tensão. A cozinha aberta brilhava em aço e mármore. Sofás brancos como ossos, uma TV tão grande quanto uma parede. Ela observou as câmeras, discretas mas presentes, como olhos silenciosos.
Deixou a bolsa e o drinque sobre a mesa de vidro e seguiu adiante, passando pelos quartos - todos modernos, frios, impessoais. Quando chegou à suíte master, parou. Uma única câmera ali dentro, voltada diretamente para a cama com lençóis cinza escuro. Sorriu de canto e se deitou lentamente, os olhos fixos no ponto onde sabia que a lente a observava.
Quando Pietro entrou, parou na porta.
- Pensei que tivesse perdido minha acompanhante - disse, com um tom de falsa surpresa.
Ela deu dois tapinhas na cama.
- Ainda não, mas você está atrasado.
Pietro aproximou-se, deslizando o corpo sobre o dela, o cheiro da bebida ainda fresco em sua respiração. Beijou-a de novo, e então a puxou da cama num movimento firme, guiando-a até a parede de vidro. Lá fora, o deserto parecia assistir em silêncio.
Ela apoiou as mãos contra o vidro frio. Pietro a forçou a se curvar, a bunda empinada em uma oferta que o deixou sem ar. Suas mãos esmagavam a carne alva, memorizando cada curva, cada pedaço dela. Ele se ajoelhou, a cabeça entre suas pernas, a língua explorando seu sexo com uma fome voraz, chupando e lambendo até que os gemidos dela encheram o quarto. Ela estava molhada, pronta, e Pietro se levantou, o pênis pulsando, pronto para possuí-la ali, contra o vidro. Ele se aproximou por trás, as mãos deslizando com avidez, como se mapeasse território. Um sussurro, um gemido contido, e então - o barulho.
Uma batida seca.
Vinda da frente da casa.
Os dois congelaram. Ela virou o rosto, os olhos perguntando o que ele não soube responder.
- Você convidou mais alguém?
Pietro franziu o cenho, recobrando o autocontrole.
- Não... que eu me lembre.
Vestiu a camisa, ainda desabotoada, e saiu com passos rápidos, os sentidos em alerta. O som era real. Não era o vento. Não era o helicóptero. Era alguém. Ou algo.
Ele caminhou para a sala, enquanto ela se recompunha, o vestido caindo de volta no lugar. Ao chegar à sala, Pietro parou, o coração disparando. Dois homens estavam lá, vestidos com roupas de caçador, rifles nas mãos, o olhar frio e profissional.
- O que estão fazendo aqui? - perguntou, a voz tensa.
A loira apareceu atrás dele, o nervosismo evidente em sua postura.
- Quem são eles? - perguntou, a voz tremendo.
Um dos homens, o mais encorpado, deu um passo à frente, o rifle ainda apontado para o chão, mas a ameaça era clara.
- Surpresa... - disse, a voz calma, quase amigável.
Pietro Ferrara, os ombros rígidos, encarava os dois homens na sala: Matteo Ricci, baixinho, com um nariz proeminente que parecia farejar problemas, e Alessandro Belluschi, corpulento, os olhos estreitos brilhando com algo entre curiosidade e perigo. Ambos seguravam rifles, vestidos com roupas de caçador, o olhar frio de quem já enfrentou o deserto - e coisas piores. Eram amigos de Pietro, sócios em negócios que ele preferia não discutir ali no momento, mas agora estavam ali, inesperados, quebrando o roteiro que ele havia traçado com cuidado.
Pietro, ao vê-los, deixou o cenho franzido suavizar-se. Tentou sorrir, embora seus músculos estivessem tensos.
- Matteo, Alessandro... Que surpresa.
Alessandro, o gordo, desviou o olhar para a loira parada atrás de Pietro, os cabelos dourados caindo sobre os ombros, o vestido preto curto revelando mais do que escondendo. Seus olhos se estreitaram, um brilho predatório neles.
- Surpresa foi a nossa - disse o gordo, a voz arrastada, baixa, quase acusatória. - Ver você... acompanhado.
Pietro deu de ombros, mantendo a voz leve, como se o coração não estivesse acelerado.
- Pensei que vocês só fossem chegar amanhã.
Matteo, confuso, franziu a testa, o nariz proeminente projetando uma sombra na parede de vidro.
- Esse era o plano, mas o piloto ligou. Disse que você pediu pra gente vir antes por causa do mau tempo.
- Deve ser algum engano. - Pietro coçou a nuca, tentando parecer relaxado. - O piloto... ele deve ter entendido errado. Eu não pedi pra vocês virem hoje. Talvez tenha sido algum engano.
Matteo não respondeu. Limitou-se a lançar um olhar que deixava claro: ele não acreditava. A loira, por sua vez, caminhou até o sofá de couro branco com uma graça felina. Sentou-se, cruzando as pernas de forma que o vestido subiu um pouco mais, revelando a pele macia das coxas. Ela deslizou os dedos pelo copo de vidro que repousava na mesa baixa, pegando o drinque com uma lentidão quase performática. Quando levou o copo aos lábios, o leve inclinar do corpo fez o decote de seu vestido preto ceder ainda mais. Alessandro e Matteo acompanharam o movimento como predadores observando um cervo se abaixar para beber água.ietro pigarreou, tentando recuperar o controle da situação.
- Já que chegaram, é melhor se acomodarem.
Alessandro desviou o olhar da loira, fixando-o em Pietro com um meio sorriso.
- Não vai apresentar sua amiga?
Pietro olhou para a loira, que agora brincava com o copo, os olhos verdes brilhando com uma mistura de diversão e desafio.
- Uma amiga. Convidei para conhecer o refúgio. Vai embora ainda hoje.
Matteo soltou um grunhido.
- Amiga de quem? Sua... ou da Giulia?
O nome da esposa pairou como uma faca afiada na sala. Pietro não respondeu de imediato.
- Vamos lá, vou mostrar os quartos pra vocês se acomodarem.
A loira terminou o drinque, os lábios úmidos brilhando sob a luz suave da sala. Ela lançou um sorriso provocador para os três homens antes de se recostar no sofá, como se fosse a dona do lugar. Pietro gesticulou para Matteo e Alessandro, conduzindo-os pelo corredor de paredes envidraçadas, o deserto lá fora parecendo engolir o mundo. O silêncio entre eles era pesado, quebrado apenas pelo som dos passos no piso polido.
- Essa loira - disse Alessandro em voz baixa - é problema.
- Está tudo sob controle - retrucou Pietro, tentando manter a calma. - Eu não esperava vocês hoje, por isso chamei alguém para me fazer companhia.
- E se nossas mulheres descobrirem? - resmungou Matteo.
- Só vão descobrir se alguém contar. - Pietro lançou um olhar firme aos dois.
Alessandro levantou as mãos como se dissesse "tudo bem".
- Eu não conto nada.
Entraram no quarto de hóspedes, ainda intocado, com duas camas de solteiro e janelas panorâmicas dando vista para o horizonte ondulante de areia e rochas.
- Afinal... - Matteo puxou a cadeira da penteadeira e sentou-se - quem é ela?
Pietro fechou a porta com cuidado antes de responder:
- Na agência chamam ela de Allegra.
Alessandro, que estava tirando o casaco, parou, os olhos arregalados.
- Agência? Você quer dizer... agência de acompanhantes?
Pietro deu um leve sorriso, como se fosse óbvio.
- Claro. De onde mais seria?
Matteo esfregou o rosto com as mãos.
- Isso ainda pode dar problema.
- Relaxa - disse Pietro, tentando manter o tom leve. - Vai dar tudo certo. Ela vai embora hoje à noite, e ninguém vai descobrir. Eu paguei muito bem ao piloto para apagá-la dos registros.
- Ainda assim temos um problema - disse Alessandro, agora com um tom mais direto.
- Que problema? - Pietro revirou os olhos, a paciência começando a se esgotar.
Alessandro lançou um olhar enviesado para Matteo, depois voltou-se para Pietro com um sorriso ladino.
- Você só contratou uma. E nós somos três.
Matteo ergueu a sobrancelha, apoiando o queixo no punho.
- É. Como vai ser isso?
Pietro os encarou, parando por um momento. O silêncio foi preenchido pelo distante barulho do vento batendo nas vidraças.
- Espera... - ele disse, lentamente, a voz baixa, quase incrédula. - Vocês também querem... participar?
Os dois sorriram como hienas famintas.
- Porra, Pietro - disse Alessandro - você viu aquela mulher? Só de vê-la tomando o drinque, com aquele jeitinho...
- Uma deusa - completou Matteo. - E você queria ficar com tudo sozinho?
Pietro passou a mão pelos cabelos, frustrado.
- Eu não esperava ninguém hoje. A ideia era ela vir, a gente passar umas horas e depois ela ia embora.
- Mas agora estamos aqui - disse Alessandro, dando dois tapinhas nas coxas. - E se você quiser que a gente fique de boca fechada, vai ter que compartilhar.
Pietro franziu a testa, a mente acelerada. Ele não esperava isso, não agora. O plano era simples: uma noite com Allegra, longe dos olhos de Giulia, longe das responsabilidades de casa. Mas agora, com Matteo e Alessandro ali, o jogo havia mudado.
- Vou falar com ela - disse, tentando manter o controle. - Mas, acreditem, Allegra não é barata.
- A gente paga - Matteo respondeu na hora. - Quanto ela cobra?
Pietro fez uma careta.
- Cinco mil euros a hora.
Alessandro soltou um assobio.
- Caramba... Mas vale cada centavo, ou melhor, a gente faz valer.
- Beleza então - disse Pietro - Mas não esperem que ela tope sem que tudo esteja claro.
- Claro - disse Matteo.
- Óbvio - repetiu Alessandro, já se levantando. - Vamos falar com ela.
Pietro assentiu, respirando fundo. Sabia que estava entrando em terreno perigoso. Não apenas por estar ali, com uma acompanhante de luxo no meio do deserto, traindo sua esposa grávida, mas também porque agora havia duas testemunhas. E testemunhas podiam ser compradas, mas nunca apagadas completamente da memória do perigo.
Quando voltaram à sala, a loira - Allegra - não estava mais no sofá. A taça de cristal ainda repousava na mesinha baixa, com os vestígios carmesins do drinque que ela bebera, mas a loira estava de pé - os dedos longos e perfeitamente esmaltados deslizavam com lentidão por um dos rifles deixados sobre a bancada de carvalho escuro.
Ela se movia com uma lentidão estudada, quase felina, deixando que a seda do vestido negro escorregasse com sensualidade ao longo das curvas. Seus olhos não estavam mais nos homens. Estavam no rifle. Como se aquela arma fosse uma extensão de sua própria presença. Como se ela mesma fosse uma ameaça camuflada de luxúria.
Matteo estacou, engolindo seco. Alessandro ficou com os olhos presos no modo como Allegra apoiava o cabo do rifle contra a coxa e passava os dedos pelo cano polido com uma carícia que beirava o indecente.
- Que porra... - murmurou Alessandro, baixo.
- Está brincando com fogo - sussurrou Matteo, mas não tirou os olhos dela.
Pietro, por outro lado, franziu o cenho. Seu maxilar ficou rígido enquanto caminhava até ela com passos firmes, controlados. Allegra sorriu ao vê-lo se aproximar, mas seus olhos continuavam dançando com um brilho enigmático.
- Allegra... - ele murmurou ao chegar perto. Sua mão agarrou o rifle com firmeza, tomando-o das mãos dela. - Cuidado com isso.
- Com o quê? - ela perguntou, fingindo inocência, mas o tom era provocador. Quase um desafio.
- Com armas - Pietro respondeu, o olhar duro. - Você deve sempre conferir se estão carregadas antes de tocar.
Para ilustrar, ele abriu o compartimento do rifle com um movimento seco. Estava, de fato, carregado. Uma bala brilhante reluziu sob a luz da lareira, como uma verdade exposta tarde demais.
- Viu? - ele disse. - Podia ter se machucado.
- Ou machucado alguém - murmurou Matteo, ainda olhando para ela, hipnotizado.
- Não brinque tanto com armas, ragazza. - Falou Alessandro - Um dia alguém pode apertar o gatilho só pra ver se você geme ou grita.
Allegra deu de ombros com elegância e voltou ao sofá. Sentou-se como se fosse a dona do lugar, cruzando as pernas com lentidão, revelando mais da pele clara sob a fenda generosa do vestido. Ela estendeu o braço, pegou novamente a taça vazia e virou-a para os rapazes.
- Alguém me serve outro drinque? - perguntou com um sorriso preguiçoso, como uma rainha entediada com os plebeus.
Pietro entregou o rifle a Alessandro sem dizer nada e atravessou a sala em direção ao bar. O gelo tilintou no copo enquanto ele preparava outro drinque para Allegra, sentindo os olhos dela queimando em suas costas. Ele sabia que ela estava testando os limites. E sabia também que Matteo e Alessandro estavam cada vez mais enfeitiçados.
Enquanto Pietro voltava, Alessandro se aproximou do sofá e sentou-se na poltrona ao lado, o olhar descaradamente cravado nas pernas dela. Ela levantou os olhos para os três homens e arqueou uma sobrancelha.
- Acomodados?
Matteo fez que sim, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Alessandro tomou a frente.
- Allegra, não é? - disse ele, com a voz aveludada, o charme do velho tarado polido. - Pietro nos falou maravilhas de você.
- Só maravilhas, espero - ela respondeu, deslizando o olhar dos olhos dele para o corpo de Matteo, depois para Pietro.
- Allegra... - repetiu Matteo, agora apoiado no batente da porta, os olhos semicerrados. - Isso combina com você. Leve, bonita... mas perigosa.
- Perigosa? - ela ergueu uma sobrancelha, divertida. - Isso parece um elogio ou um aviso?
- Pode ser os dois - Matteo respondeu, o tom mais escuro agora. - A maioria dos acidentes acontece quando alguém subestima o que tem nas mãos.
- Ou quando pensa que está no controle - disse Allegra, olhando diretamente para Pietro.
Por um instante, o silêncio se instalou. A tensão na sala era quase palpável. Pietro apoiou o copo na mesa e ajeitou a gravata com um gesto rápido. Ele conhecia aquele olhar.
- Alessandro, Matteo - Pietro disse, tentando retomar o controle. - Por que não tomam um banho quente? vocês devem estar cansados do voo.
- Estamos, sim - disse Alessandro, mas não se mexeu. Continuou com os olhos presos em Allegra. - Mas não tenho certeza se quero perder o que está acontecendo aqui.
- Vocês parecem... animados.
- Estamos. - Matteo respondeu, dando um passo à frente. - Mas queríamos conversar sobre... uma possível extensão dos seus serviços.
Ela sorriu, dessa vez com ironia, mas não com desdém.
- Uma extensão?
Pietro pigarreou.
- Eles estão dispostos a pagar. Alegra, eu sei que não foi isso que combinamos, mas a situação mudou.
Allegra colocou o copo na mesa, cruzou as pernas e se recostou no sofá como uma rainha no trono.
- E quanto valeria essa extensão?
Alessandro e Matteo trocaram um olhar cúmplice. Pietro respondeu:
- Eles pagam o mesmo valor. Cinco mil por hora. Cada um.
Ela inclinou a cabeça.
- Três homens. Quinze mil por hora?
- Isso mesmo - respondeu Alessandro.
- E quantas horas?
Matteo sorriu.
- Isso a gente pode discutir.
Allegra se levantou com elegância. Caminhou até Pietro, parando a poucos centímetros dele. Passou os dedos pelo colarinho de sua camisa.
- Você devia ter me avisado, Pietro.
Ele engoliu em seco.
- Eu sei. Não achei que eles viriam hoje.
Ela virou-se para os outros dois.
- Tudo bem. Mas com uma condição: nada sem proteção.
- Óbvio - disseram os dois quase ao mesmo tempo.
Allegra sorriu, um brilho predador no olhar.
- Então vamos começar.