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Dono do Meu Inferno

Dono do Meu Inferno

Autor:: Julie Lion
Gênero: Romance
Nicklaus é um homem sem escrupulos nascido dentro da máfia e criado para ser o pior pesadelo de seus inimigos, nada é capaz de deter o ódio que o corrompe ou ameniza suas decisões . Por isso quando a jovem Carolina aparece em sua vida como uma boa garota nada mais justo do que quebrar a sua alma e corrompe-la em todos os sentidos. O que nenhum dos dois esperava era descobrir que o quanto o inferno é prazeroso para aqueles que desfrutam dos próprios pecados e para Carolina seu maior pecado é desejar o homem que a jogou do precipicio. Dono do Meu Inferno é um dark romance com gatilhos +18

Capítulo 1 Insanos

Carolina

A fúria latente queimando qualquer resquício da minha consciência comandando todos os meus passos em direção a sandice obscura em mal tratar-lhe a carne, preciso ver com os próprios olhos sua imoralidade se tornando uma culpa apesar de duvidar que o demônio possa sentir algo diante do próprio pecado. Orei, a todos os deuses, implorei a cada um dos arcanjos ditos divinos pela bíblia para que esses sentimentos fossem expurgados da minha alma, excomungados do meu coração e repudiados pela minha moral.

Descobri de maneira tardia que sou prisioneira dos meus pecados, cada passo nesse corredor escuro é como um passo no caminho para luz, apesar de estar indo na direção do inferno em busca do gerador dos meus tormentos. A madeira que reveste a lâmina pesada da faca chef, transforma a garota em uma mulher vingativa, rancorosa e ciumenta.

Observo a inabitual luz escapando pelo espaço da porta aberta, atraindo-me para o lar da besta, o silêncio da mansão em nada se compara as vozes enlouquecidas da minha mente gritando, brigando, disputando um lugar sem saber como falar ou como agir, deixando apenas o imoral tomar conta e guiar os meus passos. Meus pés descalços tocam o carpete, atravesso o beiral da porta sem quebrar o silêncio, a pouca luz que ilumina vem do closet e da lua que invade pela varanda aberta, as pesadas cortinas nem ao menos se movem com o vento frio.

Já o alvo do meu desassossego respira profundamente deitado no meio da cama entre os lençóis de seda no tom marfim, o painel combinando com o estrado de madeira rústica trabalhados formando ondas que levam ao brasão esculpido no painel logo acima da cabeça dele. Seu corpo divino desnudo, exposto, coberto apenas pela calça de moletom deixando as tatuagens traçadas em cada uma das curvas do peitoral os piercings nos mamilos brilhando e a barriga plana, os pelos escuros abaixo do umbigo levando ao cós da calça. As mãos enfeitadas pelos anéis de prata o maxilar marcado e o brinco de diamante na orelha direita.

Sim, o epitome da minha fraqueza, destruidor de cada um dos meus sonhos de princesa, aquele que derrubou o castelo do que imaginei ser o mundo ou a esperança em viver dias melhores. Ao seu lado, sou apenas mais uma, apenas uma mortal desgarrada do rebanho corrompida diante da beleza ilusória que reveste a maldade crua desse homem.

Outra onda de vento enche o quarto, acordando-me das minhas lamurias, trazendo de volta a fúria, o ódio, a insanidade, em passos rápidos corto a distância e estou em cima do seu quadril na cama imobilizando parte de seu corpo com a ponta da faca contra o lado direito do peito dele, pois até nisso o diabo foi amaldiçoado nascendo com o coração no lado contrário. Os orbes verdes analisam a minha face, talvez a surpresa mas não, nada é capaz de surpreende-lo.

- Faça o que veio fazer Carolina. - Não é um pedido mas uma ordem e isso me revolta de uma maneira incontrolável.

Com a ponta da faca cravo fundo em seu peito, rasgando a carne de uma maneira desleixada, fazendo o formato que desejo, seus grunhidos contidos por entre os dentes não passam despercebido pela maníaca que deseja ver sua agonia. Sinto os batimentos contra os meus ouvidos completamente perdida para o sangue que verte da pele tatuada, deixando uma marca minha da única maneira com a qual ele pode se lembrar de mim, em uma cicatriz cheia de ódio e ciúmes. A letra do meu nome sob seu maldito coração de pedra, quando finalmente termino de esculpir ergo o olhar para os seus orbes, o olhar de um demônio sua mão enorme recobre meu pulso apertando com força fazendo a faca cair em cima dos lençóis.

- Não deseja me matar Carol? - Sua pergunta é um teste a minha sanidade, mas acima de tudo uma questão sobre a quão perdida estou.

- Não.

-Então veio aqui para fazer um C no meu peito. - Ergue a sobrancelha- Tsc tsc achei que seria mais criativa amore mio.

- E fui... - Abro um sorriso que provavelmente causará a minha morte. - Enquanto estava conversando com o seu irmão.

No mesmo instante seu semblante se transforma, de um belo anjo questionador para o verdadeiro demônio que consome cada uma das minhas energias, aquele que quebrou a minha inocência. Em um movimento rápido os fios dos meus cabelos ficam envolvidos nos seus dedos deixando meu pescoço exposto para a língua traiçoeira que percorre a artéria com maestria atiçando a devassidão para brincar.

Envolvida pelos lábios quentes e fogosos tomando tudo da minha boca incendiando meu corpo com prazer, o sangue se tornando seco entre nós fazendo parecer que nada tão grave havia acontecido, um lapso meu pensar isso, pois o clique metálico foi alto o suficiente para cortar a onda de luxuria.

Separamos nossas bocas sem fôlego ao mesmo tempo que tentei puxar ele de volta ficou presa, percebendo o metal em volta do meu pescoço. Incrédula tentei outra vez, seu olhar em nenhum momento desviou do meu, frio, quente, punitivo, raivoso. Estava tão ocupada em senti-lo envolvida no seu manto de pecado que não percebi seus movimentos calculados.

-Te avisei para não falar com nenhum homem, essa é a sua punição. - A declaração da voz firme e fria.

O lugar nem é mais desconhecido de tantas vezes que acabei vindo parar aqui nos últimos meses, mas não é o suficiente para aplacar a fúria.

-Eu sou a porra da sua esposa e não um cão - Grito completamente irritada por seguirmos nesse ciclo vicioso.

O homem se movimenta como um animal prestes a atacar a presa e no caso, sou a porra da presa que se sente doente de desejo por ele. Necessitando novamente dos seus toques, querendo continuar de onde paramos, mas magoada demais para demonstrar algum arrependimento contra as suas ordens.

-Você é minha, sua voz tem que soar para os meus ouvidos e não para qualquer merda.

-Nicklaus... - suspirei - Não me deixe presa aqui.

Senti as lágrimas se formando para implorar as engoli ciente de que tudo entre nós sempre se dará entre pagamentos infelizes de mesma proporção, nosso amor é doentio, nosso ódio é vicioso. Por isso deixei que se fosse saindo pelas escadas provavelmente em busca de descontar sua fúria em um inocente que pagara pelos meus pecados, assim, aceitei a sua punição sem relutar. O sangue seco nas minhas mãos manchando a minha pele não é apenas dele, desde que percebi o quanto estava presa sob essa escuridão passei a compartilhar do sangue derramado pelas mãos daquele diabo. Infelizes são os que cruzam o seu caminho, pois não saíram vivos ou intactos, sou a prova viva da condenação.

Trinquei os dentes porque a realidade é que a enorme letra traçada em seu peitoral antes imaculado e agora manchado pelo sangue com um formato distorcido é a mais clara evidência de que sim... sou tão doente quanto ele. E o pior de tudo é que dentro desse inferno que vivo sou completamente apaixonada pelo dono dele.

Capítulo 2 Inesperado

Nicklaus Mikhail

Existe uma lei dentro da máfia que impera sobre todas as outras, um certo clichê sobre manter os inimigos por perto e deixar claro para os amigos que suas traições não serão perdoadas, o motivo? Quando demonstramos ao outro clemência um terceiro vê esse gesto como fraqueza e incita aos demais a traição.

Por isso gosto de pensar que sigo o lema de Maquiavel ao ser aquele que elege os inimigos, observo com certa necessidade o rosto pálido e incapaz de um desses tolos embaixo do meu mocassim, o sangue escorrendo pelo nariz, hematomas marcando cada pedaço da sua pele enquanto falta oxigênio em seus pulmões. Trago o cigarro bebendo da nicotina a calma que preciso para as duvidas que enchem a minha mente.

- Sabe Carlo, sempre imaginei que fosse mais inteligente. - Falo cortando o silêncio, abaixando-me sobre o homem e apagando o cigarro em sua bochecha.

O gemido de dor é tudo o que me excita, ademais o espetáculo em mostrar a todos como um traidor morre nunca deixa de ser prazeroso, por mais macabro que possa parecer a roda do poder se movimenta dessa maneira.

- Dom Mikhail ... - Sua voz sai arrastada. - Poupe a minha família.

Bufo uma risada contida, o homem de cinquenta e poucos anos já deveria saber que não existe nenhum tipo de misericórdia que possa dar a alguém não foi algo do qual destinei nem mesmo ao meu pai.

- Deveria ter pensado melhor antes de trair a organização. - Respondo puxando o punhal da bainha que carrego preso a minha cintura. - Mas não se preocupe a putinha da sua filha irá lhe fazer companhia no inferno.

- Ela é sua esposa.

O homem se debate gritando, entretanto já estou cansado dessa conversa besta usando a lâmina para cortar a garganta de uma ponta a outra fazendo o sangue jorrar pelo chão enquanto se afoga nos próprios fluidos sem folego.

- Hugo. - Chamo pelo soldado enquanto limpo o punhal na roupa do defunto.

- Senhor?

- Resolva o problema que é a minha sogra e chame o motorista, faço questão de lidar com Mikaela.

Abro um sorriso satisfeito, pois apesar dos problemas que tenho para resolver com as cargas de munição desviadas pelo idiota do meu sogro, ganhei apenas mais um motivo para livrar-me da mulher irritante que pensa estar em algum tipo de pedestal.

Existe algo muito profano sobre os casamentos que pessoas comuns não costumam admitir : o desejo de se livrar da esposa e da sogra, principalmente quando as duas, são duas víboras vestidas na mais pura beleza rodeadas por joias caras. As mentiras que escorrem como veneno pelos lábios de Mikaela não eram um incomodo até ela se imaginar mais do que inteligente quando na realidade não passa de mais uma na lista.

Caminho para fora do galpão pegando a terceira peça do terno com Dimitri, o conselheiro sabe que apesar do movimento ser arriscado nada será capaz de impedir a morte daquela mulher, as famílias mais conservadoras dentro do conselho esperam que ela receba o meu perdão. São tolos demais para entender. Nasci dentro desse mundo corrupto, criado para destruir e comandar.

Em nenhum momento conheci o significado de perdão, então por qual motivo daria a alguém?

- Já sei como te livrar da ira do conselho. - Dimitri quebra o silêncio quando estamos dentro do carro e o motorista dá a partida.

Bufo, pois não iria buscar por um perdão deles entretanto tê-los ao meu lado sempre é bom, continuo em silêncio até o idiota do meu irmão resolver continuar falando.

- É irmão o par de chifres lhe convém. - Sua risada dentro do carro me irrita, lhe direciono um olhar. - O bebê que Mikaela está esperando é de Yago.

Travo maxilar com fúria, mas não o respondo deixo que se aproveite quando menos esperar vou estar observando com um sorriso imenso o seu casamento. As ruas da cidade movimentada entre pessoas que fingem desconhecer o submundo seguem indo e vindo num fluxo constante. Quando o escalade para em frente ao spa de luxo ao qual minha adorada esposa gosta de frequentar os soldados do entorno logo trocam olhares desconfiados, em cinco anos de casamento em nenhuma circunstância dediquei algum tempo para a mulher que carrega meu sobrenome.

Casamentos não acontecem por sentimentos, na realidade são contratos de convivência e no meu caso, além de precisar do status para subir na hierarquia necessitava do poder que a família Dobriev trazia consigo. Agora, são apenas ratos que infestam as ruas que comando e para infelicidade deles sou como um veneno para o extermínio de pragas.

Desço do carro abotoando o segundo botão do terno, acenando para os soldados que logo abrem a porta do salão de cores claras, com equipamentos de luxo, os cochichos rapidamente cessam, percebo os olhares de medo, outros de cobiça pessoas que frequentam as mais altas rodas da sociedade e todos sem exceção sabem que a cidade é minha.

Encontro a minha esposa sentada em uma cadeira com os fios loiros curtos sendo penteados por um rapaz de pele escura.

- Você é mesmo uma cadela incompetente não serve nem mesmo para fazer um café. - Sua voz irritante é a única a ser ouvida no lugar.

Ela ergue a mão e joga o liquido em uma garota que mantém os olhos baixos no chão, aparentando ser jovem, os fios escuros cobrindo o rosto enquanto se abaixa para limpar a sujeira, tão conivente... Meus pensamentos saem da garota quando o pigarro de Yago atrai a atenção de Mikaela que rapidamente disfarça a surpresa nas suas feições e leva a mão a barriga pouco saliente.

Já sabia que ela não estava gravida de um filho meu, não tenho relações sem camisinha desde que comecei a praticar além de conferir todas que uso, por isso não tenho a menor hesitação ao puxar a arma das costas e atirar no meio da testa de Yago antes que possa reagir. O coro de grito e choro é até excitante devido ao show que proporciono, nenhuma dessas pessoas vai sair daqui antes de confirmar o obvio, o demônio cobra suas dívidas.

A face pálida e assustada da minha esposa, se contorce se enchendo de lágrimas pelo amante morto.

- Mikhail ... meu amor... eu....

- Shiuuuuu... não fale algo que aumente a minha raiva Mikaela.

- Eu estou grávida do nosso filho Mikhail - Sua voz chorosa apenas me irrita ainda mais.

- Você pode criar essa criança junto com o pai dele no inferno. - Respondo adoraria tirar algum tempo para tortura-los se não tivesse que organizar as coisas que o pai dela fez questão de bagunçar dentro da minha organização.

Ergo outra vez a arma disparando entre seus olhos, fazendo o cabeleireiro que já estava em estado de choque cair no chão desesperado aos gritos pelo sangue que agora mancha seu rosto, a garota que estava sendo humilhada observa o rosto sem vida com uma expressão plácida.

Posso ver sua face sem expressões, o olhar castanho sem vida o formado arredondado do rosto e o nariz bem desenhado, talvez tenha no máximo uns vinte anos, usando uma roupa cinza de faxineira. Caminho até ela interessado pela falta de reação.

- Qual seu nome? - Questiono sem nem mesmo notão o quão próximo estou.

Posso notar a mancha verde na íris do seu olho esquerdo, o cabelo que de longe se aparenta com preto na verdade é de um tom escuríssimo de castanho, a forma lisa que sai da raiz chega as pontas num formato ondulado e nem mesmo sua carótida demonstra se está ou não nervosa.

- Carolina - Sua voz não soa com medo e isso só intensifica o desejo da besta em faze-la temer.

- Você vem comigo. - Declaro convencido.

Sua boca se abre duas vezes, mas parece não encontrar voz, segurando seu braço a ergo do chão antes que as poças de sangue comecem a sujar suas calças, a arrastando comigo para o carro, dou um olhar para Dimitri que acena em concordância.

Finalmente estou livre de Mikaela e pronto para fazer uma limpeza dentro da Bratva, jogo a garota no banco de trás do escalade, para melhorar tudo ganhei um novo brinquedo inesperado.

Capítulo 3 Insensatez

Carolina

Certos dias deveria ter a noção de que sair de casa não é uma opção, entretanto, para uma órfã isso é impossível, principalmente quando depende de dois empregos para conseguir se manter sem precisar recorrer a venda de drogas ou prostituição, algo do qual vi muitas colegas durante o ensino médio buscarem. Hoje, mais uma vez precisei aguentar os desaforos da madame Mikhail, todos sabem com o que seu marido trabalha e mesmo que minha vontade fosse puxar seus fios um a um jamais faria algo assim.

Entretanto quando o primeiro disparo soou, fui incapaz de manter o olhar no chão, no meio da testa do soldado havia uma marca de bala fazendo o sangue escorrer para a ponte do nariz, seu corpo grande e pesado caindo no chão com um baque pesado. Soltei o ar com força pensando em sobreviver a mais um dia de trabalho para poder ir a universidade pela noite, nenhuma das minhas dividas estudantis vai se pagar por milagre.

Juntei forças e orei, acredito que orei pela primeira vez nos últimos dez anos, uma oração curta pedindo a Deus para que permitisse sobreviver a mais um dia, para que esse momento se tornasse apenas mais um pesadelo na cota das noites mal dormidas. Foi quando a voz esganiçada da cliente que me maltratava com requintes de crueldade ao jogar o café quente nas minhas roupas atraiu toda a minha atenção. O ardor do liquido quente foi esquecido pelo olhar desesperado no rosto pálido dela, sua boca pintada de vermelho falava algo que para mim era inaudível e mais uma vez tive a certeza de que Deus não viria ao meu auxilio, por desejar não precisar aguentar suas humilhações.

Aparentemente tenho uma certa afinidade com o demônio, já que no momento seguinte observei a bala atravessar o espaço entre seus olhos, fazendo o grito de Nuno repercutir finalmente trazendo a minha audição de volta para o presente. Quando sai do torpor encontrei os olhos mais verdes que já vi na vida, brilhantes como duas esferas, o rosto angelical esculpido pela barba bem cortada e os fios desgrenhados dando um charme ainda maior as suas feições.

Um único momento de insensatez e jamais poderia imaginar ser condenada um dia, na realidade nem ao menos percebi estar respondendo até agora ao estar dentro de um carro com o desconhecido que atirou em duas pessoas a menos de uma hora atrás. Observo as minhas mãos contra os joelhos e sinto o coração subindo para a boca em batidas descompassadas, as ruas se passam rápido demais, perco o controle da minha respiração, sinto como se estivesse caindo ou quebrando em pedaços outra vez.

Aquela velha sensação, o mesmo tormento, a face avermelhada volta a minha mente enquanto os olhos azuis cheios de malicia analisam cada parte do meu corpo, uso os braços para abraçar-me tentando proteger de algo que não sei, não entendo, mas logo iria entender. Os pontos pretos começam a aparecer finalmente fazendo com que a imagem daquele verme desapareça da minha memória, escuto uma voz do lado de fora mas estou perdida demais dentro de mim mesma.

É quando estou prestes a quebrar que sinto o calor envolvendo meu corpo de uma maneira completamente estranha e ao mesmo tempo acolhedora, quero gritar e implorar para que solte-me mas apenas me sinto mais acolhida, o toque nos fios do meu cabelo acalmam as batidas frenéticas do meu peito. Enquanto pisco freneticamente voltando a enxergar a divisória que separa os bancos da frente.

- Apenas respire.

- Obrigada. - Consigo responder.

- Não me agradeça garota costumo causar ataques de pânico por menos do que você viu.

Suspiro pesadamente e acabo inspirando o perfume caro e amadeirado, misturado a nicotina e talvez álcool.

- Infelizmente a minha crise não foi por sua culpa. - Admito baixinho.

O que parece despertar o homem para a posição em que nos encontramos: Abraçados. Rapidamente ele volta para o seu lugar enquanto ergo o queixo encontrando seu olhar desconfiado, por isso espero a pergunta.

- E qual outro motivo seria?

Abafo uma risadinha para a previsibilidade, desde cedo aprendi a ser pragmática e apesar de buscar sempre enxergar o melhor nas pessoas algumas coisas acabaram moldando-me de uma maneira forte demais. Por isso decidi ser médica, dedicar a minha vida a ajudar os outros fazendo o meu melhor sempre sem esperar por nada em troca.

- Responda garota! - Sua voz autoritária tirou-me dos devaneios.

- Desculpe Senhor, mas não quero responder. - Estremeci enrolando os dedos contra o tecido da calça cinza gasta.

O rosto angelical se contorceu revelando os dentes alinhados, fechei os olhos imaginando que poderia ganhar algum tapa como as clientes mais ricas do salão costumam fazes quando estão irritadas e precisam de alguém para descontar. Só que o tapa não veio o ar pesado e a respiração quente contra os meus lábios atraíram toda a minha atenção, abri os olhos mirando as íris verdes tão próximas a fúria se expressando apenas pelo movimento do nariz ao soltar o ar.

- Quem te batia ali? - Questionou e o hálito mentolado atingiu um ponto desconhecido dentro de mim.

- Quem não me batia ali.- Consegui responder sem desviar os olhos sentindo o coração acelerado outra vez.

O homem se afastou outra vez escondendo o rosto para a janela enquanto permaneci como uma tola observando o perfil do seu corpo modelado pelo terno, os dedos tatuados com alguns anéis que reconheci serem caros.

- Você irá trabalhar na minha casa. - Não é uma pergunta, na verdade acredito ser uma ordem.

- Posso perguntar com o que senhor? - Tento me manter neutra.

- O que você sabe fazer além de ser o animal de estimação das socialites da cidade?

Engulo em seco com certa dor, finalmente parando de observar seu perfil e seus aneis virando-me para a janela, as pessoas caminhando pela rua, cada uma com sonhos a serem realizados. Por isso estufo o peito e respondo mesmo sabendo que posso ser motivo de alguma piada como já fui tantas outras vezes.

- Sou estudante de medicina, pela manhã sou um animal de estimação e a noite sou interna do hospital central. - Digo a última parte sem conseguir esconder o sarcasmo. - Não acredito ter alguma serventia nos negócios do dono da cidade.

- Se sabe que sou o dono desta cidade então sabe que a minha palavra é lei. - Sua voz autoritária preenche o carro. - Preciso de alguém que saiba costurar, você sabe fazer isso?

- Sim, senhor. - Engulo em seco aterrorizada pelo tipo de costura a que ele se refere.

- Ótimo, então o seu trabalho começa hoje.

Viro para ele de maneira rápida, seu olhar duro não deixa questionamentos, mas o medo não sai tão rápido.

- Preciso que suture um tiro que levei de raspão durante a madrugada. - Esclarece.

Mordo o lábio inferior nervosa, mas incapaz de dizer qualquer coisa que vá contra ele, as freiras sempre diziam que ir contra o demônio é mais difícil do que ir com ele. Nesse momento, o carro para, não tenho tempo para responder pois um homem já está abrindo a porta, começo a me afastar quando ele próprio empurra o outro da minha visão e estende a mão. Outra vez como uma oferenda indo em direção ao próprio calvário seguro na mão firme e quente, sem desviar do olhar felino que faz as minhas pernas ficarem instáveis.

Quando consigo terminar de descer do carro alto, acabo escorregando e caindo para frente sendo segurada por ele, sinto seu nariz passando pelos fios do meu cabelo até que a sua boca está contra o lóbulo da minha orelha.

- Pelo visto você é o poço da insensatez. - A voz baixa, rouca e grave constata mais uma vez o que percebi horas atrás e para piorar envia espasmos pela minha espinha, aquecendo o meu baixo ventre.

Suspiro incapaz de rebater, pois se fosse lucida o suficiente já estaria embarcando para o polo norte para fugir dele e especialmente teria aceitado esse lado que grita perigo.

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