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Dose de Risco

Dose de Risco

Autor: Joyce Lima
Gênero: Romance
Ailim Mendonça carrega cicatrizes profundas. Aos dez anos, testemunhou a morte brutal da mãe, um trauma que moldou cada passo de sua trajetória. Guiada por uma sede implacável de justiça, ela transformou a dor em fúria controlada e virou delegada da divisão de homicídios em São Paulo, usando a lei - e suas próprias regras - para caçar o algoz que destruiu sua infância. Com uma vida corrida e o coração blindado, Ailim tem prioridades claras: seu trabalho implacável, sua sede de vingança, suas amigas e seu protetor (e dramático) tio. Para ela, homem nenhum vale mais do que uma boa transa sem compromisso. Yago Castilho nasceu em berço de ouro e carrega o peso de ser o CEO da Bebidas Castilho, uma das maiores empresas do país. Por trás do sorriso carismático, do estilo mulherengo e da fama de quem vive os prazeres no limite, há um homem marcado por traições, com o coração em frangalhos e um medo visceral de ser machucado novamente. Ele não tem a menor intenção de se entregar ao amor. Quando um caso criminal cruza os caminhos dos dois, o que era para ser apenas uma colisão de mundos se transforma em uma atração magnética, visceral e impossível de ignorar. Mas os fantasmas do passado retornam para cobrar o preço, transformando a paixão em um verdadeiro campo de minas. Em meio ao caos de São Paulo, o encontro dessas duas almas feridas será suficiente para mantê-los em pé, ou a dose de risco será alta demais?
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Capítulo 1 Yago Castilho

Porra... esse dia só piora!

Imagine aqueles dias que começam uma bosta e, com o passar das horas, as coisas só vão ladeira

abaixo.

Bom... bem-vindos ao meu dia de hoje!

Ok, ok... acordar ao lado de uma mulher gostosa e nua não foi ruim, mas não lembrar de

absolutamente nada da noite anterior deveria ter sido um alerta de que meu cérebro gostaria de apagar

alguma informação. Ou seja: eu deveria ter fugido para as montanhas, mas não fiz.

EU ODEIO GRITOS! Ainda mais aquele típico escândalo fingido, como se a pessoa precisasse

afirmar seu desempenho durante o sexo. Isso não é sexy, muito menos satisfatório. E... droga! A

mulher berrou. Mas berrou tanto que meus ouvidos ficaram zumbindo por horas. Até agora não sei

como meus vizinhos não chamaram a polícia, porque tenho certeza de que nem toda a vedação

acústica da minha cobertura foi suficiente para abafar toda aquela "performance". Poxa... eu até teria

agradecido a interrupção.

E depois do show de rock pesado que perfurou meus tímpanos, a coisa declinou de vez. Tentar ser

sutil e dispensar a mulher - que, para início de conversa, eu nem sabia o nome - dizendo que estava

atrasado para uma reunião não adiantou. Falar que eu iria organizar algumas coisas, mas que era só

encostar a porta quando saísse, funcionou ainda menos. A maldita escandalosa me olhava e sorria

coberta por uma falsa doçura, como se fôssemos íntimos, enquanto forçava uma aproximação nada

desejada. Eu estava quase desistindo da minha educação; depois das minhas inúmeras tentativas de

me livrar dela, a criatura não desistia. Dei aquela que achei que seria a última cartada: disse que iria

tomar um banho SOZINHO, mas que ela poderia ficar à vontade para se arrumar e ir EMBORA.

- Fique tranquilo, benzinho. Eu não estou com pressa. Pode tomar seu banho que eu vou me apossar

da cozinha e, como sou boazinha, te faço um café - falou a última parte sussurrando, como se me

contasse um segredo, enquanto passava as unhas vermelhas compridas pelo seu colo desnudo e

piscava os olhos lentamente.

Em qualquer outro momento eu acharia isso sexy, mas o clima não era mais esse. Nem de perto.

Alguém precisa contar para ela que sexo casual não é intimidade. É SÓ SEXO! As pessoas fodem,

gozam e vão embora. Pronto! CASUAL!

Me livrar da doida virou meu objetivo de vida.

Precisando pensar com mais calma, fui para o meu banheiro, tomei um banho frio e decidi que esse

era só um obstáculo e que tudo iria melhorar. Me preparei para isso. Afinal, a galera "zen", o povo

"good vibes", aqueles que batem palmas para o Sol, sempre dizem que pensamentos positivos atraem

coisas boas. Esse virou meu novo mantra. Foi pensando nesse meu momento de glória que me armei:

coloquei meu terno favorito, cinza, feito sob medida da Brooks Brothers, meu Rolex, calcei meus

sapatos Stefano Bemer, elegantes e confortáveis, e parti para a guerra. Afinal, eu não sou homem de

aceitar derrotas com facilidade.

Saí da minha suíte com destino à cozinha e, para minha surpresa, a senhorita "Sem Nome"... tá, ela

deve ter um nome, mas eu não lembro qual é e, para ser sincero, nem faço questão de lembrar. Enfim,

a maldita estava usando uma camisa MINHA, calçada com as MINHAS meias, sentada na MINHA

bancada, rodeada por algumas comidas e bebidas, se sentindo a porra da dona da MINHA casa!

Ei... muita calma nessa hora. Eu não sou nenhum escroto, não negaria café da manhã a ninguém,

muito menos à mulher que estava com meu pau na boca algumas horas antes. Mas a "Miss Taquara

Rachada" estava me tirando do sério. Eu a queria fora da minha vida, urgentemente.

- Você demorou, amorzinho, quase fui te buscar. Você quer?... - Ela fez beicinho e mordeu os

lábios enquanto passava a porra de uma uva pelo queixo... fala sério! Me chamar de "amorzinho" já

seria um completo ultraje, mas fazer isso usando as minhas roupas e me oferecendo a MINHA comida

na MINHA casa?! Limite, cadê você???

Respirei fundo e me concentrei em manter a expressão neutra, fazendo uso da minha melhor cara de

pôquer, com a voz controlada e livre de qualquer sentimento - mesmo que, em minha mente, eu já

tivesse arrastado a "Sem Nome" para fora da minha casa pelo pescoço. Usando todo o meu

autocontrole, como faço com meus parceiros e adversários de negócios, encarei a mulher focado em

manter meu réu primário intacto.

- Desculpe, como disse anteriormente, tenho uma reunião importante e estou atrasado. Vou chamar

um táxi para você. Pode ir se trocar enquanto isso.

Já estava me virando com o celular nas mãos para chamar um carro que pudesse me livrar do encosto,

quando ela desceu da bancada e veio até mim, ainda com aquele sorrisinho idiota de falsa inocência

no rosto.

- Tolinho! - Fez sinal de me dispensar com a mão. - Pode ir para a sua reunião "superimportante"

- fez aspas com os dedos e deu ênfase na palavra enquanto arregalava os olhos. É sério isso? - Eu

fico por aqui, tomo um banho, dou uma organizada nas coisas e te espero voltar... cheirosinha e nua

na nossa cama.

No final da fala, ela lambeu os lábios e deu mais um passo em minha direção, o suficiente para

segurar o meu pau por cima da calça, convencida de que era uma proposta irrecusável. Coitada. Meu

pau estava tão traumatizado quanto meus ouvidos. E que merda é essa de NOSSA cama?! A cama é

MINHA, só MINHA, sempre foi e vai continuar assim!

O que a doida estava pensando? Foi só uma noite, sexo sem compromisso. Eu tenho certeza de que

não pedi ninguém em casamento ou propus alguma espécie de relacionamento; mesmo não lembrando

de porra nenhuma, tenho certeza de que não faria isso. JAMAIS.

Sorte que eu sou um bom homem, dotado da mais completa sanidade mental, centrado e equilibrado.

Porque, na real, bastava que eu fosse apenas um pouco inconsequente para não entender a armadilha

em que a escandalosa queria me enfiar. Imaginem se eu acabasse deixando a criatura sozinha na

minha casa: quando voltasse, encontraria as malas da bonita na minha suíte e um decreto oficial de

que ela moraria comigo. Ou seja, isso não tinha a menor possibilidade de acontecer. Ela precisava sair

da minha casa imediatamente!

Limites existem para serem respeitados! Esses limites, pelo menos, precisam.

Sem mais paciência e sem tentar ser sutil ou educado, segurei firme no braço da maluca e saí puxando

a "Sem Nome" até a MINHA suíte. Não respondi aos protestos pouco enfáticos ou às falas de como

eu era impaciente, nem me manifestei quando ela gemeu dizendo que a minha pegada bruta a estava

excitando e o quanto minha atitude de homem das cavernas a deixava molhada e pronta para o nosso

próximo round. Completely insana, eu falei... nem fodendo teríamos próximo round. Meus tímpanos e

minha sanidade mental não aguentariam.

Joguei-a dentro do quarto, recolhi as roupas dela que estavam espalhadas e as joguei sem nenhum zelo

sobre ela.

- Vista-se AGORA! - Falei sério e sem disfarçar minha fúria.

- Mas, querido... - Me olhou meio confusa.

- AGORA! - Gritei. - Você tem um minuto antes que eu te jogue para fora da MINHA casa

vestida como está.

A feição da mulher mudou drasticamente, ganhando um ar de irritação e incredulidade. Finalmente...

Contive um suspiro de alívio; afinal, eu não poderia demonstrar a ela nenhuma outra emoção que não

fosse a mais completa impaciência e raiva. Acho que ela entendeu, e me dei palminhas nas costas

mentalmente pelo meu êxito. Com os olhos marejados e um bico digno de qualquer birra infantil, ela

virou de costas para mim, tirou minha camisa pela cabeça sem desabotoá-la e se enfiou dentro do

vestido vermelho minúsculo. Antes de ir, olhou para mim novamente, virando-se completamente em

minha direção, apontou o dedo para a minha cara e esbravejou. Achei que a maluca ia começar a

espumar pela boca, é sério!

- Seu grosso, estúpido... Fique sabendo que eu FINGI o orgasmo! Em todas as vezes! Você não me

merece. Nem pense em pedir meu telefone, porque eu não quero te ver nunca mais, mesmo que você

implore!

Revirei os olhos mentalmente. Vai esperando, maluca... Até parece que eu ligaria. Prefiro virar

monge!

Vendo que não arrancaria nenhuma reação de mim, ela pegou a bolsa que estava na cômoda perto da

porta do banheiro, os sapatos de salto que estavam no chão ao lado da cama, empinou o nariz e saiu

pisando duro pelo meu apartamento, fazendo o máximo de barulho possível. E eu pude, finalmente,

respirar aliviado. Graças a Deus, meu refúgio estava seguro novamente. O estrondo da porta da sala

batendo evidenciava isso, e eu quase fiz a dancinha da vitória em comemoração.

Capítulo 2 Yago Castilho

Depois da épica batalha e de vencer o monstro, desci até a garagem, peguei meu BMW i8 prata - meu neném precioso - e saí em disparada para

a empresa. Afinal, a tal reunião "superimportante" era verdadeira e, além de ter que encarar meu pai, ainda teriam os velhotes do conselho para atazanar minha existência. Para esses velhos ranzinzas, nada basta, e eu sou apenas um playboyzinho com a linhagem sanguínea certa ocupando um lugar que não

merece.

Tenho trinta e seis anos e assumi como CEO da Bebidas

Castilho há exatos cinco meses, logo depois que meu pai teve um ataque cardíaco

e quase morreu. O velho foi praticamente obrigado pelos médicos e pela minha

mãe a desacelerar, e me passou o bastão. Acontece que, para esses "idosos

fofinhos" do conselho, eu não passo de um "garoto" inconsequente que não merece a cadeira de CEO. Não, isso não é uma piada; alguns até me chamam de moleque quando querem me rebaixar. Tá bom, eu amo uma festa, gosto de beber e, acima de tudo, amo uma boa e apertada boceta - se for mais de uma, melhor ainda. Antes de assumir a empresa, a minha vida era essa, principalmente enquanto cursava Administração. Mas conheço a história dessa empresa, sei da importância dela para a minha família e para as famílias que dependem dela. Me preparei muito para o momento em que meu pai me daria a honra de administrar nosso legado e, quando assumi o cargo de CEO, me comprometi a fazer de tudo para que a Bebidas Castilho cresça e prospere. Quero que meu pai sinta orgulho do meu trabalho e do homem que me tornei.

Mas, primeiro, preciso convencer meu velho e as múmias caquéticas do conselho de que sou capaz, que mereço meu posto de CEO a longo

prazo. E chegar atrasado a uma reunião não é o melhor caminho.

A reunião foi uma enorme bosta!

Os velhotes me pediram mais dados sobre os potenciais parceiros na Europa. Eu quase ri, porque só se eu incluir o tamanho, a cor e as

marcas preferidas das roupas íntimas dos sócios e seus familiares para que

tenhamos mais dados. Além de, claro, ter sido chamado de "garoto" zilhões de vezes, em cada mínima oportunidade, tudo para enfatizar o quanto

eles me acham imaturo e irresponsável, nem um pouco digno da cadeira de CEO.

Isso é uma grande merda... Mais uma vez, precisei engolir meu orgulho e praticar meu autocontrole, tudo para não esganar uma daquelas múmias. Meu consolo é que uma hora esse dia vai chegar e eu terei realmente o poder para calá-los. Eu vivo por esse momento.

Saí da reunião exausto e frustrado, mas, como desgraça pouca é bobagem, estou eu aqui coberto de café quente, que minha ilustre secretária fez o favor de derrubar. Caralho, essa porra queima!

Desisti de vez, recolhi minhas coisas e saí da minha sala, decidido a ir para casa me exilar. Cansei de dar sorte para o meu azar, que

hoje está de parabéns.

- Solange, cancele meus compromissos. Não retorno mais hoje.

Solange é minha secretária. Geralmente ela é bem eficiente: uma senhora na casa dos quarenta e poucos anos, bem-humorada, organizada e profissional, mãe de família que me trata super bem, mas que hoje me tirou do

sério com o banho de café quente com o qual me presenteou. Tamanha a minha irritação que nem me dei ao trabalho de esperar sua resposta. Saí em disparada - ardência dos infernos! Peguei o elevador privativo e fui direto para a garagem pegar meu BMW e partir de volta para o meu refúgio, que agora está

livre de malucas.

Durante o percurso, meu telefone toca. Pelo painel do carro, vi que era Thiago, um dos meus melhores amigos e diretor financeiro da Bebidas

Castilho. Ou seja: ceder à vontade absurda de não atender seria motivo dobrado para escutar xingamentos dos quais ele não me pouparia, ainda mais se fosse algo relacionado à empresa. Além do que o homem é insistente, não vai me deixar

em paz, isso é fato.

- Oi, Thiago. Estou no carro, indo para casa. Espero que não

sejam mais problemas - disparei assim que atendi a ligação, com meu melhor ar

dramático ativado.

O idiota gargalha alto:

- Ui, ele está irritadinho... Mas convenhamos, como é bom

ser o chefe! Indo para casa durante a semana e nem são três da tarde ainda. Um

dia eu chego lá. - Ele suspira como se fosse um sonho, todo trabalhado no

deboche e na falsidade, já que, se ele quisesse realmente ser o CEO da própria

empresa, não lhe faltariam recursos ou oportunidades. Era só abrir algo para si

ou assumir os negócios da família.

- Thiago, não me enche, cara. Meu dia foi uma sucessão de

merdas, a reunião foi aquela porcaria que você presenciou de camarote e, para

ajudar, a Solange me deu um puta banho de café quente. Eu estou irritado,

frustrado, sujo e queimado, então não me torra a paciência, estou no meu limite

aqui!

Sim, cada palavra foi dita aos berros, no meio do trânsito,

dentro do carro. Se alguém visse a cena, acharia que enlouqueci de vez.

- Caramba, Yago, foi mal, cara. Não sabia que a princesa

estava tão sensível hoje. Era zoeira, prometo não te azucrinar mais enquanto

sua TPM não passar, tá bom, miguxo? Mas, mudando de assunto, só liguei para

lembrar que hoje é a inauguração da Nova Era, e a Sophia faz questão que você e

o Rafael estejam lá.

Mais essa. Eu tinha me esquecido da tal inauguração. Nova

Era é uma boate nova e a proprietária é namorada do Thiago. Essa garota pegou

meu amigo pelas bolas, nunca vi ele tão dedicado a uma mulher antes. Estou bem

sem paciência, mas, pensando melhor, hoje é sexta-feira: bebida, mulheres

bonitas, festa, música... essa é definitivamente uma boa combinação, e eu estou

precisando mesmo exorcizar esse dia.

- Tinha me esquecido disso, cara, mas é claro que eu vou. A

gente se encontra lá que horas, castrado? - pergunto, já me sentindo um pouco

mais animado.

- Castrado é o seu cu, Yago! E a gente se encontra às vinte

e três horas. Eu espero vocês... Vou mais cedo, preciso cuidar da minha garota!

- Era nítido o sorriso na voz do cara. Ele nem discute tanto mais quando o

chamo de castrado; afinal, só estou constatando um fato. Perdemos o guerreiro,

esse foi abatido com sucesso.

- Cara, você está muito fodido, bem cadelinha. Essa Sophia

te pegou de jeito - gargalho alto ao telefone, porque saber que meu amigo foi

dominado me deixa contente. Estou zoando, mas vê-lo feliz me faz muito bem.

- Ah... Foda-se. Sua hora vai chegar e eu vou estar aqui,

bebendo um uísque e rindo da sua cara de bosta.

O cara me rogou uma praga, que filho da puta! Parei de rir

na hora. Para mim isso é assunto sério: só de pensar em amar, meu estômago dá

um nó que uísque caro nenhum consegue desatar. A última vez que deixei alguém

se aproximar o suficiente, o rombo foi grande demais para me arriscar

novamente.

- Você sabe que desse inferno já tive minha cota. Nunca mais

mulher nenhuma vai me pegar dessa forma.

Ele fica quieto por alguns instantes; sabe que estou falando

sério, que meu coração nunca mais vai cair nessa armadilha que chamam de amor.

Mesmo assim, o imbecil responde reforçando o mau agouro:

- Veremos! - Encerra a ligação sem nem ao menos me dar tempo

de xingá-lo de filho da puta.

Mas eis aqui uma promessa que reforço sempre: nunca mais mulher nenhuma vai ter espaço em meu coração. Eu aprendi minha lição!

Capítulo 3 Ailim Mendonça

Meu dia está uma loucura, maior que o normal.

Mesmo sem plantão na delegacia, ajudar a Sophia com a inauguração da Nova Era está sendo bem corrido e cansativo. Fora que aqui tem muito do que desprezo... Muita bebida, muitas pessoas que ficarão bêbadas, sem pudores ou inibições, o que sempre resulta, consequentemente, em confusão.

Muita confusão!

Entendam: não é chatice da minha parte, mas, como delegada e ex-policial militar, vi por anos os resultados dessa combinação. Ou seja, presenciei a verdadeira receita para o caos e muito trabalho para mim e minha equipe. Além disso, vivi na pele o quão destruidor o uso de álcool em excesso e a perda de inibição podem ser para uma pessoa e até mesmo para famílias

inteiras. Mas, mesmo odiando tudo isso e o que representam, eu sou uma boa amiga - na verdade, sou uma amiga maravilhosa - e estou aqui, apoiando e carregando caixas e mais caixas de bebida. Tudo para que esta noite, esta

inauguração, seja memorável. A Sophia trabalhou muito para isso; ela merece minha ajuda.

Somos amigas desde a infância, quando ela e a Betina me defenderam de algumas crianças na escola. Eu era a aluna nova, esquisita e

quieta, tinha acabado de perder minha mãe, estava completamente à deriva e me sentindo sozinha. Naquele dia, quando me protegeram, elas me salvaram de várias formas e se tornaram minhas irmãs. Eu faria qualquer coisa pelas duas, e a prova é justamente euzinha agora, carregando caixas gigantescas de bebida no meu dia de folga.

- Tochinha! - Estou empilhando a milionésima caixa quando escuto a Sophia me gritar, enquanto entra no depósito de bebidas da boate.

Ela e a Tina me chamam assim desde o primeiro dia, tudo porque, quando nos conhecemos, eu estava no auge da minha pré-adolescência - aquela fase ingrata de transição em que tudo o que somos se resume à palavra

"esquisita". Eu era extremamente magra, usava aparelho dentário e, vamos combinar, ser ruiva não contribuiu em nada para que elas desistissem do apelido. Segundo elas, eu realmente parecia uma tocha olímpica: fininha e

sempre pegando fogo... Elas me amam.

- Tô aqui, Barbie! Quero deixar claro que te odeio mais a cada caixa que carrego. Seu saldo está quase negativo, gatinha - respondo alto

para que ela me encontre, e funciona, já que a baixinha vem na minha direção.

- Você me ama, esse meu saldo positivo com você é eterno, não se iluda - responde sorrindo para mim. Ela está feliz de verdade e eu amo

vê-la assim. Quem vê essa carinha angelical mal sabe a maluca cheia de

garras afiadas, supercompetente e decidida que a Sophia é.

Limpo minhas mãos suadas no jeans velho que estou usando e fico encarando minha amiga, esperando o golpe. Porque ela não me engana - não quando usa esse sorriso de quem vai aprontar comigo.

- Larga essas caixas! Os rapazes vão terminar isso, porque a gente tem outro compromisso - ela praticamente cantarola a última parte, e eu

já antecipo o desespero, porque Sophia animada é sinônimo de Ailim ferrada.

Levanto a sobrancelha e continuo a encarando, desconfiada.

Tenho medo do que vem pela frente e, por isso, adio o inevitável, evitando perguntar o que ela quer dizer, torcendo internamente para não ser nada estapafúrdio.

Vendo que não vou perguntar, ela muda a cara de expectativa para uma bufada baixa e um bico digno de registro, antes de continuar:

- Calma, garota! Amigaaaa... Aff! Esse negócio de delegada está te deixando ainda mais desconfiada e bem assustadora. Confia em mim, eu hein. - Ela franze o narizinho pequeno. - A Betina ligou e está nos esperando

no salão. Hoje é dia de ficarmos ainda mais maravilhosas para a inauguração.

Vendo minha cara de "não, por favor", ela amplia o beicinho, irritada, levanta o queixo pequeno, aperta os olhos em sinal de

advertência, coloca as mãos na cintura e continua:

- Sem protestos, Ailim! Quero vocês deslumbrantes hoje ao meu lado. Tudo tem que ser perfeito e vocês são a minha família. Colabora e faz sua amiga maravilinda feliz!

Ela nem espera uma resposta e sai me puxando pela mão. A nanica é forte.

Dito isso, vamos esclarecer alguns pontos: eu sou vaidosa, gosto de estar bonita e bem-arrumada, mas tudo do meu jeito, sem exageros. A questão é que, quando Sophia, Betina e tio Carlos se unem para atormentar minha existência, eu me sinto uma verdadeira boneca de cera: supermaquiada, megaproduzida, hiperdecotada... Eu deixo de me sentir eu mesma. Eles me tiramtotalmente da minha zona de conforto, o que me irrita, pois eu não só gosto,

mas preciso estar no controle SEMPRE. Não estar no controle me assusta, me põe

na defensiva. Eu programo tudo; toda a minha vida é planejada e estruturada,

incluindo meu visual, porque preciso ter certeza de quem eu sou.

Enquanto sou arrastada, respiro fundo, tentando controlar

meu humor, que já foi pras cucunhas. Conto até dez enquanto olho para a Sophia

com carinha de determinada. Mentalizo que hoje é o dia especial dela e que eu

não tenho o direito de arruinar isso. Tenho certeza de que o dia de hoje

renderá inúmeras sessões com o meu psicólogo - ele agradece, inclusive.

Derrotada, suspiro alto para deixar claro que estou desconfortável, mas não

consigo negar nada para ela. Não hoje. Aff... Eu raramente consigo negar algo

para as duas, e elas sabem e se aproveitam disso. Intimidade e amor são fodas!

- Tá bom, eu vou, mas sem exageros! Quero sair de lá sendo

eu, e não uma versão artificial de mim, ok?

Mal termino de falar, ela larga minha mão e se vira em um

pulo digno de um bebê canguru bem ágil. Logo sou escalada, agarrada e beijada

por uma Sophia muito contente, que dá gritinhos estridentes de felicidade,

arrancando gargalhadas sinceras de mim.

- Vamos logo, então! Não vejo a hora de ver você e a Tina

lindas, produzidas e com os modelitos perfeitos que escolhi para vocês - ela me

larga, pisca e sai em disparada rumo ao estacionamento da Nova Era.

Aff... Eu estou muito lascada mesmo. Saio correndo atrás

dela, desesperada.

- Nanica... Meu "mo-de-li-to"? - Falo

pausadamente, fazendo aspas com os dedos para ela entender, enquanto tento

alcançá-la. As perninhas da criatura são curtas, mas a bichinha parece o

Papa-Léguas de tão ligeirinha quando quer fugir da gente. - Sophia... Me diz

que dessa vez esse look vai ter tecido suficiente, sim...? Pelo amor de Deus,

não me venha com nada nem remotamente parecido com aquele último, que mal

servia em uma criança de dez anos! Eu não tenho mais essa idade nem estrutura

corporal... Por favor, eu nunca te pedi nada, Barbie! - Junto as mãos

implorando por misericórdia, mesmo sem acreditar no bom coração da vaca que

chamo de amiga.

Ela me dispensa com as mãos, sem nem se virar na minha

direção, enquanto destrava e entra no carro.

- Relaxa, amiga, você vai ficar linda. Quando foi que te

decepcionei? - Antes que eu a responda, ela intervém: - Não responda,

engraçadinha... Só confia em mim! Agora entra logo, porque temos horário!

E assim, com um enorme sorriso naquela cara deslavada, ela

me arrasta rumo ao salão do meu tio, para o início da minha tortura.

Que Deus me proteja e que os jogos comecem!

O restante do dia foi dedicado a nós, bem ao estilo

"Clube da Luluzinha", sendo o tio Carlos o presidente interino da

irmandade das Luluzetes - ou, como ele diz, das Carlizetes.

Eu amo meu tio e serei eternamente grata por tudo o que ele

fez e ainda faz por mim. Fui criada por ele desde os meus dez anos; foi o único

parente que me quis depois que minha mãe foi tirada de mim da pior forma

possível. Eu era uma bomba prestes a explodir e ele me dedicou todo o seu amor

- por mais maluco que fosse -, carinho e cuidado.

O salão de beleza do tio Carlos é um dos mais famosos e

disputados pelas mulheres da região, localizado a poucas quadras da Nova Era e

a quinze minutos da delegacia pela qual sou responsável.

Quando Sophia e eu chegamos ao salão Requinte, a gangue já

está reunida à nossa espera, mesmo com o salão a todo vapor. Meu tio está

impecável, como sempre: lindo, estiloso e elegante com sua calça ajustada

marsala e uma camisa de botões preta dobrada nos punhos. Betina foi direto do

hospital onde trabalha desde a formatura e, mesmo depois de um plantão de mais

de doze horas seguidas na emergência, estava animada e com cara de quem

pretendia aprontar todas e mais algumas esta noite.

Quando me viu, tio Carlos nem me deu tempo e veio

esbravejando até mim, com o dedo apontado, completamente esbaforido:

- Ailim! Por que não respondeu às minhas mensagens? - Com um

suspiro e cara de desespero, ele continua, colocando a mão no peito como se

sentisse dor: - Quer me matar do coração, garota? Depois que me matar, não

venha chorar no meu túmulo. Garota ingrata! - Finaliza empinando o nariz e me

dando as costas em um giro dramático.

Eu já cheguei levando bronca. Devido à mágoa e apreensão na

voz do meu tio, fiquei imediatamente preocupada, já que, ao conferir meu

celular, me dou conta de que ele me mandou pelo menos umas vinte mensagens. Nem

me dei ao trabalho de lê-las.

- Desculpe, tio. Estava ajudando a Sophia na Nova Era, não

vi as mensagens. Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? - perguntei enquanto

abria a conversa para conferir o que ele queria e me antecipar.

Tio Carlos me dispensou com a mão, fazendo cara de desdém e

me olhando de lado antes de responder, com a voz calma desta vez:

- Que nada, querida. Só queria saber se vocês estavam vindo,

para garantir que minhas meninas seriam as rainhas absolutas e magnânimas da

noite. O mundo precisa ver a minha arte, aceite! - Finaliza sorrindo, como se

não tivesse acabado de me dar uma bronca gratuita.

Olho indignada para o tio Carlos:

- Vou mandar seu currículo pro SBT! As novelas mexicanas

estão perdendo um ótimo ator - e olha que nome de astro latino o senhor já tem!

- Agora quem bufa sou eu, batendo o pé direito no chão em uma birrinha calculada. - Depois ainda diz que é você quem vai morrer do coração, né?! - Aponto para o sem-vergonha de forma acusatória.

Todos em volta gargalham da nossa interação levemente dramática - e olha que nem somos gregos.

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