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Durval - O rei da máfia

Durval - O rei da máfia

Autor:: Mainy
Gênero: Romance
Nikolay, no passado, foi um homem honrado e dedicado. Sempre teve um forte senso de justiça acreditando que poderia colocar atrás das grades um grupo de criminosos que rondava a cidade, mas a infidelidade de seus irmãos fez sua vida ruir diante de seus próprios olhos. Tomado pelo ódio, deixou tudo o que acreditava para se tornar Durval – El Toro, um mafioso sanguinário que busca vingança contra aqueles que o traiu, mas será que ele conseguirá honrar todas as promessas feitas sobre o corpo de sua esposa? Às vezes o destino nos prega peças interessantes e coloca à prova aquilo que acreditamos.

Capítulo 1 Prólogo

Frase

Ele não busca reconhecimento, sucesso ou fama.

Ele busca vingança.

Prólogo

Aqueles lindos olhos claros que mais parecem um oceano de águas limpas e turbulentas me encaram assustados e com uma súplica silenciosa por socorro. Inutilmente tento soltar as correntes que prendem meus pulsos na barra de ferro atrás das minhas costas.

O pequeno corpo escultural que se encaixa perfeitamente ao meu é brutalmente estuprado diante dos meus olhos, sem que eu nada possa fazer. Por mais que eu grite, implore e ofereça minha vida em troca da dela, recebo chutes e pancadas. Sou obrigado a assistir toda maldade dos homens que um dia confiei, acreditei e jurei lealdade.

Os meus próprios companheiros e amigos mancham a pureza e inocência daquela alma cheia de vida que me encara com um pedido de perdão. O desespero estampado em seu olhar me desfaz em pedaços, não poder fazer nada me mata lentamente. Nenhuma mulher merece passar por isso, nem vivenciar tanta dor. Incapaz, tenho que assistir sem conseguir mover um único músculo do meu corpo para ajudá-la.

Por que? Eles deveriam protegê-la, assim como aos seus colegas de trabalho. Como policiais deveriam ser a justiça e não a desgraça, mas tudo aquilo que sempre acreditei, desmorona diante dos meus olhos.

Se eu desistisse das investigações, nada teria acontecido com Lana, mas a minha teimosia me levou a perdição, machucou quem eu mais amo. Eu deveria estar em seu lugar, deveria morrer por ela, morrer a protegendo, mas não, ela está lá, em meu lugar. Lana não merece maldade alguma, sempre foi uma mulher gentil e dedicada, ela não deveria pagar pelos meus erros.

Eu quero me soltar e matá-los friamente, quero rasgar suas gargantas lentamente, mas eu não posso.

Não posso ajudá-la, não posso salvá-la.

Me debato nas correntes soltando um rugido desesperado que queima minha garganta, um soco forte vem de encontro ao meu rosto e nem mesmo assim paro.

As algemas não cedem, por mais que as force, elas permanecem firmes. Vendo que eu não pararia quieto, um dos homens de Jacob atinge o lado esquerdo da minha face com um metal pontiagudo. Sou obrigado a fechar meus olhos ao sentir o metal rasgar minha pele. O sangue quente escorre pelo meu rosto e por um momento acredito ter perdido a visão, mas a dor física é irrelevante comparado ao desespero que comprime meu peito.

Atordoado e incapaz, encaro os seus lindos olhos azuis fixos aos meus. As lágrimas incessantes escorrem por sua face e os gritos de desespero já não rompem mais seus lábios.

Lana está cansada de lutar, exausta de tantas torturas e investidas brutais contra o seu corpo pequeno. Olhos que sempre foram tão puros e cheios de vida, agora me encaram vazios. Com as últimas forças que lhe resta, estica sua mão em minha direção sussurrando um pedido de desculpas, enquanto desfalece diante de mim.

- Você não pode me deixar... - Sussurro sem acreditar no que estava acontecendo.

O desespero domina cada parte do meu corpo, me sufoca e mata lentamente. Ela não pode desistir da vida, não me pode deixar.

- Não pode me deixar! - Grito forçando as correntes contra os meus pulsos na inútil tentativa de escapar.

Deixo minhas lágrimas correrem livres, querendo trazê-la de volta para mim. Querendo sentir seu corpo colado ao meu, seu sorriso tímido de todas as manhãs marcado por suas covinhas, mas de nada adianta.

- Lana! - Grito mais uma vez.

Meu corpo estremece ao sentir sua alma partir e restar apenas seu corpo sem vida diante de mim.

Acordo em um sobressalto agarrando os lençóis com força suficiente para rasgá-los. O ar entra em meus pulmões com força, queimando minhas narinas, suor escorre pela minha testa e o vento frio da janela entreaberta deixa arrepiado os pelos do meu corpo.

Ofegante e cansado, fecho os olhos passando as mãos no rosto na tentativa de tirar aquelas imagens da minha mente, esquecê-las, mas nada adianta.

Encaro o teto observando seu tom azulado pela pouca claridade da luz da lua que entra pela janela. Transtornado, espero minha respiração se acalmar enquanto sou obrigado a vivenciar aquelas imagens mais uma vez em minha mente.

Mais calmo, me viro para olhar o relógio sobre a escrivaninha ao lado da cama, suspiro pesadamente ao ver que consegui dormir apenas uma hora e meia. Fecho os olhos passando as mãos na testa ao perceber que meu tempo de sono está diminuindo gradativamente. Ultimamente os sonhos estão mais intensos e reais do que o normal, como se quisessem me punir dia após dia.

Cansado e aturdido demais para permanecer ali, me sento na cama com certa dificuldade. Apoio as mãos no rosto novamente, a fim de dispersar aquelas imagens da minha mente, mas não seria tão simples assim.

Atordoado com o pesadelo recente, apoio-me nos móveis à minha volta para chegar até a cômoda. Derrubo alguns vidros de perfume ao puxar com brutalidade as gavetas, apressadamente pego os pequenos frascos de remédios controlados e sem paciência jogo os calmantes dentro da boca, engolindo-os de uma vez.

Respiro profundamente na tentativa de estabilizar meus sentimentos para finalmente iniciar meus afazeres do dia.

Um pouco desnorteado, sigo para o banheiro entrando embaixo do chuveiro com as roupas que tinha no corpo. A água fria escorre pela minha pele quente tencionando ainda mais meus músculos e aos poucos, minha mente cansada e abatida se alivia, acalmando aquele sentimento de incapacidade e dor latente.

Retiro minhas roupas as jogando em um canto qualquer, aproveitando para tomar um banho demorado, para ser sincero mais demorado do que gostaria, porém serviu para esfriar minha cabeça, acalmar a ansiedade e diminuir a sede de vingança.

Preciso manter a calma para não fazer qualquer investida impensada. Resta apenas um dos assassinos da minha esposa, e terei a honra de matar com minhas próprias mãos como fiz com os outros três e farei com qualquer um que tentar me impedir. Mas tenho que organizar friamente meus planos para pegá-lo sem falhas.

Ao sair do banho visto uma calça de moletom e opto por ficar sem camisa. Seco rapidamente os cabelos com uma toalha os deixando bagunçados e despenteados sem me importar com aparências.

Toda noite é a mesma coisa, procuro me afundar no meu trabalho para não ter tempo de dormir, contudo o cansaço domina meu corpo e acabo cedendo a necessidade de descansar. Mas a cada dia que se passa a morte de Lana retorna em pesadelos brutais e dolorosos.

Ela era uma mulher doce, simpática e extrovertida, seu maior sonho era ser mãe. Mas infelizmente tudo nos foi tirado naquela noite.

Como o dia começaria bem mais cedo do que o normal, sigo para minha academia, preciso descontar o ódio que circula em minhas veias e com certeza seria no saco de pancadas.

As horas se arrastam lentamente e só paro o treino ao sentir o cansaço tomar conta dos meus músculos. Ofegante enxugo o suor que escorre em minha testa, arfando em busca de um pouco ar e paz, mas de nada adianta, as imagens continuam mais vivas em minha mente do que eu gostaria.

Vendo que nem mesmo a academia me tiraria aquela sensação de inquietude, tomo mais um banho e visto uma roupa social jogando meu sobretudo por cima dos ombros, encaixo perfeitamente o chapéu Fedora sobre a cabeça escondendo minha cicatriz. Mesmo sabendo que meus homens não me importunam dentro de casa, gosto do conforto e da paz que meu chapéu traz. É como se ele escondesse os meus pecados, as falhas e lavasse a minha alma. Uma falsa sensação que traz o mínimo de paz ao meu coração

Sigo para o escritório sentindo finalmente os efeitos do remédio acalmando a tensão constante do meu corpo. Acomodo-me em frente à mesa e observo os inúmeros papéis sobre ela, sem muita vontade de lê-los ou assiná-los.

Seria um longo dia, mas com certeza as investigações para a conclusão da minha vingança renderiam e fariam cada minuto valer a pena.

Falta pouco, muito pouco, para que eu consiga chegar a um dos principais responsáveis pela morte de Lana e eu faço questão de destruí-lo, lenta e dolorosamente sem um pingo de piedade.

Me tornei Durval - El Toro apenas para ter o imenso prazer de sentir o sangue quente daqueles homens escorrer pelas minhas mãos, como já fiz com os outros três e seus capangas.

Não poupei esforços, criatividade e vidas para arrancar a verdade de cada um deles. Pagaram com seus corpos todas as dores que minha preciosa esposa sentiu. E agora só falta mais um para completar minha vingança.

Aperto os papéis em minhas mãos os amassando e nem mesmo os remédios manipulados de Lourenço são capazes de conter o ódio que domina o meu peito.

O escritório fica sufocante diante desses sentimentos que me sugam, sou obrigado a jogar os papéis sobre a mesa e caminhar para a cozinha na tentativa de me acalmar.

Já está amanhecendo e isso é ruim, pois não gosto e muito menos permito que meus homens me vejam nesse estado de descontrole. Eles me respeitam pelo poder e autoridade que passo, mas neste momento sou apenas um homem quebrado e perdido com um forte desejo de vingança.

Seguro a garrafa de whisky disposta sobre a pia a virando em longos goles. O líquido forte desce queimando minha garganta, me trazendo uma sensação de alívio momentânea.

A mistura dos calmantes com o álcool não é uma das melhores combinações, causam efeitos adversos, mas neste momento queria apenas esquecer aqueles olhos que suplicavam por socorro.

Já se passaram dezessete anos e nada, absolutamente nada em minha vida mudou, a dor, o desespero, a angústia, o sofrimento, os pesadelos, tudo é tão real como se a cada dia eu vivesse novamente o dia de sua morte.

E assim sou forçado a viver essa mesma história dia após dia, esperando que cada um daqueles homens queime no fogo do inferno assim como eu queimarei, pois eu sei que para mim já não há mais salvação.

Capítulo 2 1 Capítulo

18 anos atrás, Inglaterra - Londres

Durval

- Durval, acorde! Você irá se atrasar. - Sinto mãos pequenas chacoalharem meu corpo com preocupação.

Resmungo chateado por ter que me levantar e ir trabalhar, gostaria de tirar umas férias para poder viajar com minha linda esposa, sou jovem, no auge dos meus 23 anos e merecia umas férias por ter subido de cargo há poucos meses.

- Ande logo, Durval! - Reclama irritada.

- Hum... - resmungo chateado. - Você ainda insiste em me chamar por esse apelido idiota, já faz anos - reclamo esfregando as mãos nos olhos.

- Vá logo tomar um banho, Nikolay González. - Recebo um leve tapa no peito e acabo sorrindo com a reação da minha esposa.

- Ei, volte aqui, eu quero meu beijo - retruco.

Contrariada ela semicerra seus lindos olhos azuis tempestuosos, me observando da porta com as sobrancelhas levemente arqueadas.

- Por favor - choramingo sorrindo.

- Eu odeio quando você faz isso. - Caminha elegantemente em minha direção rebolando seus fartos quadris a cada passo que dá.

Sento na lateral da cama encaixando seu corpo entre minhas pernas. Aquelas duas safiras puras me encaram curiosas e cheias de vida, seus lábios naturalmente rubros e suaves se encontram com os meus e automaticamente envolvo os braços em volta da sua cintura a abraçando, seus delicados dedos se enroscam em meus cabelos os puxando com carinho.

Involuntariamente solto um gemido manhoso e seus deliciosos lábios sorrirem nos meus.

- Pronto senhor González, agora trate de ir para o banho e depois tomar o seu café da manhã. Diones não aceitará mais atrasos.

Ela se desvencilha rapidamente do meu corpo me deixando chateado.

- Lana, volte imediatamente! Você é maldosa - protesto.

- Eu sei, meu amor, mas se não fosse essa mulher "maldosa", você estaria em sérios apuros. - Pisca, fechando a porta logo em seguida.

Frustrado, passo as mãos nos cabelos ao ver a porta se fechar, mas acabo sorrindo com a sua audácia que me enlouquece.

Sinceramente, eu amo essa mulher mais do que a minha própria vida.

Me levanto rapidamente seguindo para o banheiro, tomo um banho rápido e visto a farda segurando minha boina nas mãos. Ao sair do quarto encontro Lana servindo o café em um copo e as torradas com bacon e ovo já me esperavam no prato.

- Hum... você realmente sabe como agradar seu homem. - A abraço por trás beijando seu pescoço com carinho.

- Mas é claro! Preciso deixar esse homem bem alimentado, pois é um completo irresponsável, que com certeza morreria se vivesse sozinho. - Balança a cabeça em negativa revirando os olhos, mas deixa um suave beijo em meus lábios.

- O que seria de mim sem essa preciosa mulher?! - Mordo sua orelha.

- Você vai se atrasar. - Me empurra rindo.

Tomo o café em sua companhia e acabamos jogando conversa fora por mais tempo do que deveríamos. Se eu realmente demorasse mais alguns segundos me atrasaria e não quero outro sermão do chefe.

Coloco a boina na cabeça e saio com a viatura em direção a delegacia. Sou recebido por meus colegas de trabalho com sorrisos e parabenizações pela prisão realizada essa semana. O reconhecimento pelo meu árduo trabalho é realmente gratificante.

A prisão de um dos braços direto do mafioso mais temido do país, Jacob Smith, foi realmente um grande feito. Claro que não posso levar todos os méritos sozinho, afinal, todo o meu batalhão tem participação, mas quem seguiu os rastros e liderou a emboscada fui eu, acabando com boa parte do tráfico de drogas, exportações de armas e até mesmo tráfico de mulheres.

Como podem tratar mulheres como meros objetos sexuais? No meu ponto de vista, não só Smith, mas Benjamin também merece pena de morte. Não só por desrespeitar vidas inocentes, como também causarem desordem a população. Além disso, as mulheres merecem todo o amor que um homem é capaz de dar.

Sendo assim, me empenhei por um ano inteiro em seguir os rastros de Jacob Smith. Um homem que se diz inocente, mas é dono de uma rede de prostíbulos. Nunca confiei nos sorrisos falsos que ele distribui a todos à sua volta e muito menos no homem que sempre o seguiu calado, Benjamin Field.

Jacob sempre se mostrou para as pessoas com carinha de bom moço, mas eu sabia que ele escondia muito mais sob aquela máscara que usa, sempre me deixando alerta. Até que finalmente consegui descobrir todas suas tramoias e traições através de um erro bobo de Derek, um dos seus capangas.

Infelizmente, Jacob conseguiu se esquivar sorrateiramente das acusações que levantei contra ele, mas com isso perdeu muito poder ao ver mais de quinze dos seus homens irem parar atrás das grades.

Me sinto de certa forma realizado, pois lutei muito para chegar até aqui e até mesmo Diones se surpreendeu com minha evolução e desempenho nessa missão.

Não posso negar que em certos momentos agi em silêncio, pois Diones sempre achou perigoso demais se envolver com Jacob. Minha satisfação só não é completa, por saber que o chefe principal de todo o tráfico ainda está solto, ou seja, ainda tenho muito trabalho pela frente para realizar com perfeição a prisão desse bandido.

- Ei, Nikolay, você deveria pedir umas férias. - Jennah vem em minha direção sorrindo.

- Diones já acabou com minhas esperanças. - Suspiro frustrado.

- Nosso chefe é realmente um "mala". - Ela gargalha alto me entregando um café expresso.

Mesmo a contragosto recebo o café com carinho. Ela sempre se lembra de trazer para os integrantes do nosso esquadrão, porém nunca lembra do jeito que gosto do meu café, forte e sem muito açúcar, como os que Lana me oferece todas as manhãs.

- Ouvi isso, Jennah. - Diones aparece na porta de sua sala.

- Só disse a verdade, senhor. - Ela ri novamente fazendo todo o quartel segui-la nas risadas.

- Ei seus mal-amados, mexam esses traseiros e vão proteger a cidade! - Ele grita. - Nikolay, venha à minha sala imediatamente.

Faço uma careta para Jennah imitando a voz do nosso chefe e ela gargalha se voltando para a papelada burocrática em sua mesa.

Reviro os olhos ao observar meu relógio de pulso e ver que estava dez minutos atrasado. Não acredito que Diones me dará um sermão por causa de tão pouco tempo, ultimamente ele está uma pilha de nervos e isso o torna desagradável.

Sigo para sala do meu chefe encostando a porta assim que entro.

- Eu sei que me atrasei, mas precisamos mesmo ter essa conversa novamente? - Faço uma careta suspirando.

- Sente-se, Nikolay. - Aponta a cadeira à sua frente me fazendo suspirar.

Encaro aquele senhor alto, de meia idade, com cabelos grisalhas e corpo muito bem definido para um homem da sua idade, mas sendo o delegado não é estranho vê-lo tão em forma. Sei que ele treina seu corpo para combates diretos muito mais do que jovens como eu, por exemplo.

- Sim, senhor. - Me limito em dizer fazendo o que ele mandou.

Ele me observa com um olhar preocupado e um pouco distante. Aquilo me deixa apreensivo. Meu instinto me deixa em alerta, sinto que algo está acontecendo.

- Aconteceu algo que eu deva saber? - Pergunto preocupado.

- Tenho que te parabenizar pelo seu empenho e se destacando entre seus colegas tão rapidamente, Nikolay. - Ele sorri, mas não chega aos seus olhos, a preocupação continua tomando lugar.

- Obrigado, mas Jacob ainda está solto. - Suspiro chateado. - Eu tinha certeza que ele também seria preso.

- Este é o problema. - Suspira.

- Não entendi. - O observo.

- Não quero que se envolva com Jacob novamente, estou te tirando do caso, quero que volte a trabalhar com Brendo e Bernardo, vocês se conhecem há muitos anos e se dão muito bem. Agora que você está em um cargo maior, pode liderá-los como desejar, mas está oficialmente fora das investigações sobre Smith. - Diz com convicção sem brechas para discussão.

Fico tão chocado com a informação que nem mesmo consigo me manifestar sobre essa ordem tão absurda.

- Não me olhe assim, já foi decidido. - Cruza os braços me observando.

- De maneira alguma, não cheguei tão longe para desistir. - Falo indignado.

- Não é uma questão de desistência Nikolay, você está arriscando sua vida mais do que pode imaginar, está mexendo com pessoas desumanas e sem escrúpulos. Acha mesmo que Jacob ficará parado sabendo que você prendeu vários de seus homens, sendo dois deles o seu braço direto? Por favor, seja mais sensato. - Ele suspira irritado.

- Eu sei dos riscos que estou correndo, mas não vou desistir agora, falta pouco para pegarmos ele. - Me levanto irritado.

- Não é você quem decide isso, estou oficialmente te tirando desse caso.

- Você não pode fazer isso. - Me altero, visivelmente nervoso.

- Claro que eu posso, é pelo seu bem, meu rapaz. Você ainda é jovem e tem muito para viver ainda, sua esposa é linda e merece o marido ao seu lado. - Ele me entrega alguns papéis.

- O que é isso? - Seguro os papéis com força por causa da raiva.

- Seu novo caso, trate de resolvê-lo com maestria como sempre faz. - Diz com um sorriso cansado nos lábios.

- Sabe que não desistirei, certo? - Deixo o aviso.

- Sei, por isso te coloquei junto com Brendo e Bernardo, eles têm ordens diretas de te impedir de tentar algo, mesmo você sendo o chefe deles. - Sorri.

- Você é um velho chato e rabugento. - Reclamo frustrado.

- Eu sei. O que não faço pelos meus homens? Sua vida é mais importante no momento. - Seu sorriso se estende satisfeito, mas para mim aquilo com certeza não ficaria assim.

- Ok, ok, não precisa apelar, pelo visto tenho um novo caso para resolver. - Observo os papéis com pouco interesse e visivelmente chateado.

- É assim que se fala! Tire sua bunda da minha sala e vá trabalhar. - Ele me expulsa rindo e eu suspiro cansado.

Reviro os olhos com vontade de mandar aquele velho a merda, mas me contenho saindo de sua sala bastante irritado com a situação.

O dia mal começou e já estava uma grande porcaria. Minha vontade é voltar para casa, para os braços da Lana, namorar o dia todo e esquecer dessa manhã.

Se Diones acha que desistirei tão fácil, está muito enganado. Falta tão pouco para que eu consiga chegar até Jacob e não será agora que deixarei ele a vontade para se reerguer, depois de uma baixa tão grande em seus melhores homens.

Encontro meus amigos e novos companheiros no corredor e logo eles vêm em minha direção, animados apenas para festejar a minha volta ao seu esquadrão. Apesar de gostar deles, sorrio forçadamente.

Sempre fui um lobo solitário e gosto dessa vida, sempre que possível gosto de estudar meu oponente e agir sozinho, ataco na maioria das vezes sem a companhia de ninguém. Mas com certeza sei a grande importância que tem uma equipe.

Não é ruim trabalhar com eles, mas prefiro a solidão. Eles sempre foram meus amigos desde a infância e seria egoísmo da minha parte rejeitá-los.

Moramos próximos por muitos anos. Eles são irmãos e sua mãe vivia em minha casa. Nos damos bem, mas não queria regredir na minha carreira e sim avançar.

- Mas aqui estou eu mais uma vez voltando para o início. - Resmungo chateado analisando os papéis em minha mão.

Um homicídio? Realmente interessante, porém o que Diones quer que eu faça? Eu sou um policial e não um detetive.

Suspiro pesadamente massageando minhas têmporas.

Isso será mais trabalhoso do que eu esperava.

Ignoro o falatório dos meus amigos enquanto me concentro na folha em minha mão.

Capítulo 3 2 Capítulo

17 anos atrás.

Sei que deveria ter parado com o caso Smith como foi ordenado, mas não gastei mais de um ano da minha vida à toa. Não poderia simplesmente abandonar tudo como Diones queria, por isso, continuei meu trabalho em segredo e descobri que Jacob receberá uma carga de narcóticos hoje em um dos seus galpões.

Não posso perder essa oportunidade, preciso ver pessoalmente o que estão planejando e o que farão. Eu poderia contar com a ajuda dos meus parceiros, mas sei que não terei nenhum apoio e mesmo sabendo que é arriscado agirei sozinho.

Seria realmente um desperdício deixar essa oportunidade escapar.

***

Odeio mentir para Lana, mas nesse caso foi extremamente necessário. Não posso envolvê-la em algo tão perigoso como o caso de Jacob.

Disse a ela que teria uma reunião de emergência na delegacia, por isso chegaria mais tarde do que o previsto. Ela não precisa saber que estou colocando minha vida em risco para conseguir informações cruciais a fim de desmascarar Smith.

Com muito custo consegui entrar no barracão sem ser visto pelos seus seguranças, mas sinceramente estou decepcionado com o baixo número de homens que encontrei. Eu realmente esperava uma segurança mais elaborada e isso me deixa em alerta.

Apesar de sentir que tem algo errado acontecendo aqui, continuo escondido nos fundos, próximo a algumas caixas de madeira armazenadas em pilhas - ao que tudo indica são armas - ligo meu celular para deixar que grave o momento exato da entrega dos narcóticos para Jacob.

O silêncio ainda predomina no ambiente abafado, eu não deveria estar tão nervoso, mas minha respiração pesada me preocupa. Tirando os homens armados que andam de um lado para o outro conferindo a localidade, não há mais ninguém por aqui.

Minhas mãos suam e a ansiedade domina meus pensamentos, preciso ser rápido e não posso deixar que notem minha presença. Tudo está quieto e estranho demais, pelas informações que recebi o carregamento já deveria ter chegado.

Impaciente continuo em meu lugar esperando que algum caminhão apareça, e finalmente depois de horas de campana, vejo uma van escura entrar no barracão com pressa e estacionar.

Jacob sai de uma porta que nem mesmo sabia que existia e aproveito para flagrar seu rosto com minha câmera. A imagem não é boa, mas são provas suficientes para colocá-lo atrás das grades.

Do lugar em que estou não consegui ver muito bem onde a van parou, mas consigo ouvir os murmurinhos de conversa e os barulhos aumentam gradativamente à minha volta.

- Vocês demoraram. - Jacob diz impaciente.

- Tivemos um contratempo, foi mais difícil do que imaginamos. - Meu coração acelera ao perceber que conhecia aquela voz.

Me estico entre as caixas para conseguir ver aquilo que acreditava ser uma peça pregada pelos meus ouvidos, mas minhas suspeitas são confirmadas ao ver Brendo ainda fardado diante dos meus olhos.

Isso só pode ser brincadeira.

Sorrio irônico para mim mesmo e tenho vontade de vomitar.

Como policiais podem se juntar a um homem tão inescrupuloso como Jacob Smith?

- Trouxe a encomenda? - O sorriso se estende pelos lábios de Jacob.

- Mas é claro, não sou um incompetente. - Apoia a mão na arma em sua cintura com um grande sorriso no rosto.

- Sempre confie em você. - Jacob bate em seu ombro.

Aquilo estava ficando pior do que eu poderia imaginar.

Como meus amigos tão íntimos poderiam trabalhar com um homem daqueles? Isso é impossível, não aceitaria aquilo de bom grado, eles realmente teriam que se explicar e pagariam por seus atos.

- As informações foram entregues como planejado? - Jacob pergunta.

- Tudo conforme os planos. - Diz despreocupado.

- Então provavelmente já está aqui? - Diz com excitação evidente.

- Como tudo indica, sim, só precisamos da encomenda e tudo sairá como esperamos.

- Traga. - Jacob ordena.

- Bernardo, traga a encomenda. - Brendo pede para o irmão com voz autoritária.

Não consigo ver o que Bernardo busca, mas filmo tudo o que consigo para ter provas o suficiente para incriminá-los, porém sinto todo o meu corpo baquear e se desestabilizar ao ter Bernardo em meu campo de visão jogando Lana aos pés de Jacob, com as mãos amarradas e a boca amordaçada.

- Lana... - Sussurro sem acreditar no que vejo.

Seu corpo pequeno treme de medo enquanto Jacob agacha a sua altura segurando seus cabelos com força.

Ela protesta de dor e lágrimas escorrem de seus lindos olhos que agora se encontram extremamente assustados.

- Seu marido se envolveu em assuntos muito perigosos e quem pagará será você, com seu lindo corpo. - Ele desfere um tapa forte em seu rosto a fazendo gemer.

Guardo o celular no bolso interno do meu casaco escuro sacando minha arma pronto para atirar, mas um baque em minha nuca me deixa atordoado e outro baque faz minha visão se apagar.

***

Abro os olhos sentindo meus ombros e pulsos doerem, respiro com dificuldade sem saber ao certo onde estou, me remexo e sinto algo prender meus pulsos fortemente me causando dor. Com certo esforço fixo meus olhos no que há em minha frente e vejo minha doce mulher completamente machucada.

- Lana... Lana, minha querida. - Meus olhos se enchem de lágrimas ao ver seu pequeno corpo cansado dependurado.

- Durval... - Ela sussurra.

- Não me chame assim, minha querida. Não agora. - Falo ofegante.

- Eles vão te matar. - Ela chora copiosamente.

Forço as mãos nas correntes tentando me soltar. Eu preciso salvá-la. Preciso tirá-la desse lugar imundo o mais rápido possível.

Se é a mim que eles querem me entregarei de bom grado, mas não permitirei que façam mal a minha esposa. Eles não podem machucá-la, não mais, ela não merece passar por isso, não merece sentir dor.

- Shii querida, eles vão perceber que você acordou. - Sinto meus olhos queimarem com as lágrimas que ameaçam cair. - Me desculpe, você não merece passar por isso. - Me sinto completamente incapaz diante daquela situação.

Minha esposa amarrada e dependurada pelos braços, totalmente ferida, com marcas de sangue e hematomas pelo corpo, manchas roxas pelo rosto e cortes profundos de uma possível tortura enquanto eu estava apagado. Suas delicadas roupas agora estão rasgadas mostrando a parte superior de seus seios.

- Minha querida, me perdoe. - Me balanço tentando me soltar, mas meus pulsos estavam presos por algemas apertadas.

Todo o arrependimento cai sobre mim de uma só vez. Eu deveria ter escutado Diones, deveria ter seguido suas ordens estritamente sem dúvidas e incertezas, por teimosia minha esposa está pagando pelos meus erros.

- Eu te amo. - Ela sorri fraca com os olhos cheios de amor e esperança.

- Lana... - Meu coração se parte em mil pedaços por ser incapaz de ajudá-la.

- Eles matarão a mim ou a você, não suportaria viver sem você, Durval, meu amor. - Seu sorriso sincero faz com que as lágrimas escorram pelo meu rosto.

- Lana, por favor. - Suplico para que ela não faça nada inconsequente. - Eu te amo demais, me perdoe querida, a culpa é minha.

- Não se culpe meu amor, você é um policial incrível e o melhor homem do universo, você é o marido perfeito. - Ela sorri abertamente. - Sempre será o meu Durval.

Durval, eu nunca gostei desse apelido antigo, porém meu avô insistia em me chamar assim, nome de origem germânica que significa "sacerdote de Thor" o deus do trovão.

O apelido foi dado devido a uma história antiga que ele costumava contar sobre um touro.

Ele dizia que existia um touro chamado Durval, era o mais cobiçado, o maior da ninhada, o mais bravo e poderoso. Ele não se curvava diante de ninguém, não obedecia a comandos ou regras e levava consigo um olhar puro e intenso. Era um verdadeiro espírito livre.

Meu avô dizia que eu era como Durval – El Toro, por causa das muitas desavenças e brigas que causei entre os meus colegas. Sempre fui o menino sem controle e que jamais abaixava a cabeça para as pessoas a sua volta e assim fiquei conhecido como Durval, pois jamais podemos amansar um espírito livre que nasceu para se destacar.

Bom, era isso que o meu avô dizia, porém atualmente não gosto desse apelido, não gosto de me lembrar da criança petulante que fui, mas Lana conhece a história pois meu avô insistia em contar todas as vezes que ela ia em sua casa.

Um baque na porta faz com que minha atenção se volte para o homem ao meu lado. Jacob segura uma arma apontada para mim enquanto caminha em minha direção com um grande sorriso nos lábios, mais especificamente ele segura a minha arma.

- Finalmente acordado. - Agradeço aos céus por sua atenção estar voltada a mim e não a Lana.

Opto pelo silêncio e o encaro.

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