No hospital.
"Senhorita, a paciente está com febre alta. Ela também perdeu muito sangue e segue em risco, portanto precisa de repouso. Você não pode entrar."
"Saia da minha frente. Não tente me impedir. Uma mulher cruel como Loraine não merece descanso algum."
Loraine Bryant lutou para abrir os olhos ao escutar o burburinho.
Como fazia muito tempo que ela estava com febre, seu corpo não tinha forças e sua cabeça parecia rodopiar. Seu braço ainda ardia de dor.
Loraine virou a cabeça e viu Marina Bryant, a irmã do seu marido, empurrar a enfermeira e invadir seu quarto com raiva, a fulminando com os olhos. Era como se quisesse matá-la.
"Loraine, você é uma assassina! Por sua culpa, Keely rompeu um dos rins e segue em coma. Espere só para ver! Marco jamais vai te deixar sair impune com isso!"
A voz histérica de Marina fez Loraine se lembrar do que havia acontecido.
Hoje era o terceiro aniversário de casamento dela com Marco Bryant, mas ninguém da família Bryant, incluindo o próprio Marco, se lembrava disso. Eles chegaram ao cúmulo de deixá-la sozinha em casa.
Marco havia mandado Keely, uma terceira mulher no relacionamento deles, de volta para casa nesse dia.
Loraine estava com febre, mas mesmo assim arrastou seu corpo doente até a cozinha e preparou um jantar à luz de velas. Infelizmente acabou sendo o jantar de boas-vindas de Keely.
Keely foi até a cozinha, fingindo que queria ajudá-la, mas, na verdade, sua intenção era forçá-la a se separar de Marco. Quando Loraine discordou, Keely esfaqueou a si mesma como se fosse uma louca.
Loraine tentou impedi-la, mas acabou se cortando com a faca também e perdeu tanto sangue que desmaiou no chão.
Ao pensar nisso, Loraine se forçou a ficar sentada por mais fraca que estivesse.
"Eu não ataquei Keely."
Marina não acreditou nela e zombou: "Você ainda quer negar o que aconteceu? Naquele momento, somente você e Kelly estavam na cozinha. Se não foi você, então quem foi? Será que Keely esfaqueou a si mesma? Você deve estar com ciúmes porque Marco a aceitou de volta. Seu medo é que ela assuma sua posição como senhora Bryant, certo? Por isso você tentou matá-la."
Loraine sabia que a família Bryant nunca havia aceitado ela, mas nunca esperou que a tratassem assim.
"Marina, sou a esposa de Marco e também sua cunhada. Como você pode pensar algo assim de mim?"
Marina rebateu com desdém: "Na época, a vovó queria ter um neto a todo custo. No entanto, Keely foi para o exterior fazer um tratamento, portanto só restou a Marco se casar com uma mulher qualquer. Caso contrário, uma zé ninguém sem educação alguma e de uma família ordinária jamais teria se juntado a nós. Você não passa de escória humana. Durante esses três anos, não conseguiu dar à luz nem uma criança sequer. Não é possível te comparar nem sequer às cozinheiras ou empregadas da casa. Agora que Keely voltou, você acha que Marco vai querer continuar nesse casamento? E, para piorar ainda mais, você atacou Keely. Isso só fez com que ele te odiasse ainda mais."
O rosto de Loraine empalideceu ao escutar isso. Era como se alguém tivesse perfurado seu coração nesse momento e a dor era insuportável.
Marina não precisava lembrá-la disso. Ela estava plenamente ciente de que Marco não a amava e sim Keely, porém, após três anos de casados, Loraine tinha esperanças de que o homem olhasse para trás e visse todo seu sacrifício.
Justo então, Marco entrou no quarto.
O homem era alto e forte, os traços do seu rosto eram suaves, suas sobrancelhas proeminentes e seus olhos bem afiados. O seu corpo musculoso acentuava o seu charme e o deixava ainda mais bonito. Era como se fosse um deus grego numa pintura a óleo.
Loraine o encarou de maneira confiante, como se ele fosse sua última esperança.
"Marco, não fiz nada contra Keely. Por favor, acredite em mim."
Marco a encarou com condescendência e disse friamente: "Já chega, Loraine. Não quero mais ouvir suas desculpas. Você fez algo errado, portanto merece ser punida e deve se desculpar com Keely."
"Se desculpar? Você acha que só pedir desculpas é o suficiente? De jeito nenhum!", Marina gritou de repente. "O rim de Keely foi rompido por essa mulher, então nada mais justo que ela dê o seu rim para Keely."
Marina se virou para os guarda-costas atrás de Marco e gritou: "Peguem ela e a levem até o centro de testagens!"
Os guarda-costas imediatamente cercaram Loraine sem dizer palavra alguma. Agarrando as mãos e os pés dela, eles a carregaram para fora.
"Me larguem! Vocês não têm o direito de fazer isso comigo." No entanto, por mais que Loraine chorasse e lutasse para se soltar, eles não cederam. Ela precisou se virar para Marco e implorar: "Marco, por favor, me ajude."
Loraine esperava que ele pudesse fazer algo, mas, para a sua consternação, o homem simplesmente ficou parado e indiferente. Era como se tivesse concordado com a decisão de Marina.
Nesse momento, Loraine ficou desesperada.
Agora ela entendia por que Keely havia se esfaqueado. O objetivo dela era provar que esse casamento só era desejado por Loraine, que não era ninguém para o coração de Marco.
Marco acreditaria em qualquer coisa que Keely dissesse e nunca ouviria Loraine.
Essa era a diferença mais evidente entre onde havia amor e onde não havia.
Loraine sentiu um cansaço sem precedentes tomar conta de si.
Seu corpo estava exausto e seu coração partido. Ela decidiu nesse momento que não podia mais manter um casamento tão miserável e ridículo como esse.
Fechando os olhos e sorrindo com amargura, Loraine disse: "Marco, eu quero o divórcio."
"O que você disse?"
Marco se virou para a mulher com a descrença estampada no rosto.
"Loraine, deixe de brincadeira! Não foi você quem insistiu sem vergonha alguma para se casar com Marco? Você realmente quer se separar dele? Ou talvez só esteja usando o divórcio para deixar de assumir a culpa", Marina comentou sarcasticamente e fitou a mulher com desdém.
Emanando frieza pelos olhos, Loraine retrucou: "Não fiz nada de errado, então por que precisaria deixar de assumir qualquer coisa? E você quer que eu use meu rim para compensar Keely? Está bem! Mas primeiro quero ver o quão ruim é a lesão dela."
O coração de Loraine transbordou de raiva e isso deu forças para que se livrasse do jugo dos guarda-costas. Uma vez solta, ela saiu correndo da enfermaria.
Não demorou muito para que encontrasse a ala de Keely.
Loraine entrou no quarto dela, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Marco correu na sua frente e se interpôs no caminho para proteger Keely.
"Loraine, que truque você está tramando?"
Quando Keely a viu no quarto, seu corpo todo se encolheu com medo enquanto ela dizia em voz baixa: "Marco, estou com medo..."
O rosto do homem escureceu e sua raiva ficou ainda maior. Com uma voz severa, ele ordenou para Loraine: "Se ajoelhe e peça desculpas!"
Os cantos dos lábios de Loraine se contraíram ligeiramente. Então ela se aproximou cabisbaixa da cama.
Um olhar complacente reluziu nos olhos de Keely. Ela se inclinou na direção dela, ansiosa para vê-la se ajoelhar.
No entanto, o que aconteceu a seguir quebrou suas expectativas. Loraine ergueu a mão e deu um tapa com força na cara dela.
Slap!
O som seco do golpe ecoou pela enfermaria e antes que os demais pudessem reagir, Loraine levantou o avental hospital de Keely e arrancou a gaze que cobria sua cintura.
Uma pequena ferida foi revelada embaixo dela. Não estava sangrado e já havia cicatrizado.
O rosto de Marco ficou sombrio e sua testa se franziu ainda mais.
Loraine zombou: "Quer dizer então que esse pequeno corte merece meu rim como compensação? Keely, realmente tenho que te elogiar por elaborar um plano tão bom."
Ela já havia adivinhado que toda essa cena não passava de um truque de automutilação da garota, que não devia ter se cortado muito profundamente. Foi isso que a encheu de coragem para expor o teatro dela.
Keely entrou em pânico enquanto tentava cobrir a barriga, mas já estava claro de que havia algo errado com o seu ferimento. Era impossível que seu rim tivesse rompido.
"O que diabos é isso?" Marco se virou para Keely e a questionou com frieza.
O rosto da mulher empalideceu e ela se explicou em pânico: "Eu... não sei. Loraine me esfaqueou e acabei desmaiando. Só acordei agora. Como assim Loraine precisa me compensar com um rim? O médico deve ter dado um diagnóstico errado."
"O médico deu um diagnóstico errado? Se eu não tivesse exposto seu truque, agora estaria na mesa de operações com meu abdômen aberto", Loraine rebateu com sarcasmo.
"Isso é besteira!" Keely ficou ainda mais em pânico. "Marco, não acredite nela. Loraine me atacou com uma faca."
Marco olhou para Keely com profundidade, o que a fez estremecer. Então, se virando para Loraine, ele disse: "Vou descobrir a verdade e te trazer uma explicação. Vou compensá-la por isso."
Loraine olhou para aquele homem que um dia já havia amado profundamente. Agora ela não sentia mais nada.
Durante a relação deles, sempre que ela quis algo, ele nunca entregou nem mesmo o mínimo. Agora sua suposta compensação não passava de uma piada de mau gosto para ela.
Loraine zombou: "Não precisa. Só quero o divórcio."
Marco a encarou em choque. Era como se não a estivesse reconhecendo mais.
Nesses três anos, essa foi a primeira vez que ele encarou a esposa nos olhos.
Contudo, Loraine já não se importava mais. Ela se virou e deixou o lugar sem olhar para trás.
Ao deixar o hospital, Loraine cambaleou.
Ela ainda estava febril e todo o seu contra-ataque a deixou ainda mais fraca. A mulher havia usado todas as suas forças.
Sorrindo amargamente, Loraine puxou o celular e fez uma ligação.
Logo um Lincoln preto parou na frente dela e um homem bonito e elegante de terno desceu para recebê-la.
Assim que Loraine o viu, se sentiu tão fraca e exausta que suas pernas cederam, fazendo seu corpo cair para trás.
O homem correu e conseguiu segurá-la pela cintura antes que ela batesse no chão. Ele a levantou nos braços.
Loraine murmurou debilmente: "Tio Rowan..." Então todo o mundo ao seu redor ficou escuro como breu.
No hospital
A atmosfera dentro do quarto ficou extremamente tensa.
Todos estavam bem cientes da raiva de Marco sobre o que havia acabado de acontecer.
Até o médico plantonista próximo de Keely começou a tremer de medo.
Jogando o relatório do médico no chão, Marco o encarou e perguntou com frieza: "Ruptura renal? Ela precisa de um transplante de rim? Do que diabos se trata isso?"
A testa do médico ficou empapada de suor. Incapaz de se explicar sob o escrutínio de Marco, ele se limitou a choramingar.
Marco deu um ultimato para o homem.
"Por cometer uma estupidez desse tamanho, você acabou de demonstrar que não merece mais ser médico!"
O homem tremeu que nem uma folha de papel no vento, pois sabia que Marco estava falando sério. Bastavam algumas palavras dele para que ele nunca mais encontrasse trabalho em nenhum hospital.
Tremendo, o médico finalmente confessou a verdade: "A senhorita Haywood me pediu para fazer isso. Não cometerei o mesmo erro novamente. Por favor, me dê mais uma chance..."
"Suma daqui!", Marco rugiu.
Um guarda-costas imediatamente arrastou o médico para fora.
Marco virou a cabeça para observar o rosto pálido de Keely. Seus olhos estavam repletos de decepção. "Foi você quem fez isso", ele murmurou com frieza.
Keely entrou em pânico e, com a voz trêmula, disse: "Marco, não foi a minha intenção. É que Loraine não gostou de te ver me tratando bem, por isso... fiquei com muita raiva e quis dar uma lição nela."
"Chega!" Marco não queria ouvir a explicação dela. "Você queria dar uma lição nela arrancando seu rim? Keely, tenho sido muito permissivo com você!"
Sentindo que a situação estava piorando, Keely começou a chorar.
"Marco, eu errei! Só que eu estava morrendo de medo. Desde que Jorge morreu, não tenho mais com quem contar e fiquei doente. Meu medo era que você sumisse da minha vida por ter se casado. Você pode me perdoar por isso?"
Ao vê-la chorando, o coração de Marco amoleceu.
"Prometi a Jorge que iria cuidar de você e pretendo manter a minha palavra."
Keely suspirou aliviada e Marco prosseguiu: "Mas Loraine é minha esposa. Não a provoque mais. Espero que esta seja a última vez."
Keely ficou atordoada.
"Marco, como uma caipira que nem ela pode ser digna de ser sua esposa? Ela já não te envergonhou o suficiente nos últimos três anos? Você quer passar o resto da vida ao lado dela? Além disso, ela é tão gananciosa que até quer se separar..."
"Não quero ouvir nada sobre meu casamento vindo de você."
A expressão ameaçadora no rosto do homem assustou tanto Keely que ela imediatamente parou de falar.
"Agora o que você deve fazer é descansar e pensar no que fez."
Marco deixou o quarto com um ar indiferente, mas por dentro não pôde evitar se sentir incomodado com a atitude de Loraine de antes.
Marco não esperava por aquele pedido de divórcio da parte dela.
Ele nunca havia cogitado essa possibilidade.
O único motivo pelo qual aceitou o casamento foi porque ele precisava de uma esposa.
Uma garota solitária do interior como Loraine, que não tinha ninguém em quem confiar, nenhum dinheiro e nem poder, seria facilmente controlável.
Durante os três anos de casamento deles, Loraine sempre foi obediente e comportada, exatamente o que Marco queria.
Ele decidiu que era razoável manter um casamento assim.
Se Keely era o motivo pelo qual Loraine queria o divórcio, ele explicaria a situação claramente e a compensaria pelo transtorno.
Acenando para seu subordinado, ele ordenou: "Traga minha esposa de volta aqui e não permita que nada de ruim aconteça com ela. Além disso, transfira cinco milhões para a sua conta."
O subordinado pareceu ficar aflito.
Marco franziu a testa. "O que houve?"
O subordinado estava sem jeito. "Depois que a senhora Bryant deixou o hospital, um homem a buscou num carro de luxo."
"Como é que é?"
Marco cerrou os punhos.
De repente, ele sentiu que as coisas estavam saindo do seu controle.
Em voz baixa, Marco ordenou: "Encontre ela e esse homem. Então a traga de volta!"
Mais uma vez, Loraine abriu os olhos após ter desmaiado.
Desta vez não estava sozinha num quarto de enfermaria. O lugar à sua volta era um quarto luxuoso e aconchegante.
"Finalmente, depois de três anos longe de casa, você voltou. Por que você fez isso por um homem? Você ainda é uma Torres?"
Reconhecendo essa voz, Loraine se virou na direção dela.
Um homem alto e corpulento estava sentado perto da beirada da cama. Seu rosto era bonito e irradiava autoridade.
Ao ver sua família, Loraine começou a chorar.
"Tio Rowan, eu errei. Jamais deveria ter saído de casa. Nem deveria ter te magoado por um homem que não era digno do meu amor. Eu sinto muito."
Rowen Torres, um oficial do exército, sentiu o coração derreter ao ver sua sobrinha favorita chorando. Ele a abraçou pacientemente enquanto a garota chorava.
"Está bem. É ótimo que você tenha voltado!", Rowan comentou cheio de carinho. "Lorrie, os seus pais morreram num acidente e você se perdeu na zona rural. Fizemos de tudo para te encontrar. Você é o tesouro da família Torres e não deixaremos ninguém te machucar!"
Nesse momento, um homem grisalho entrou no quarto. Era Aldo Torres, dono do Grupo Universo em Vagow. Sua mera presença era capaz de assustar uma cidade inteira.
"Não chore! Lorrie, você é a herdeira do Grupo Universo. Centenas de milhões de propriedades serão suas no futuro. Quem quer que te machuque, irá pagar muito caro!"