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ENQUANTO VOCÊ FOR MINHA

ENQUANTO VOCÊ FOR MINHA

Autor:: Marcela Gaspar
Gênero: Romance
Após perder os pais em um trágico acidente, Gabriela Medeiros é adotada pelos seus padrinhos e passa ser criada por eles como filha legítima. Dona de uma beleza encantadora e fortuna inestimável atrai a atenção do ambicioso Murilo, mas é em Cadu, seu irmão de criação, que Gabriela encontra o amor verdadeiro. Eles estão dispostos a enfrentar tudo e todos, mesmo sob os olhares acusadores de sua transgressão e ao destino traçado por uma profecia. Seguem surdos para as vozes que os condenam e silenciosos em cada pulso que os une. Mas o destino prega peças e revelações do passado os impactará de maneira avassaladora. Será que o amor vence tudo, inclusive o fim?

Capítulo 1 Epígrafe e Prólogo

"O amor é surdo frente ao verbo divino e ao esconjuro das bruxas."

O livro dos abraços – Eduardo Galeano

CADU

Os sons de alerta ressoam ensurdecedores dentro da aeronave, o giro cortante das hélices cada vez mais falhos reverberam pelo meu corpo.

– Mayday, Mayday.

O piloto berra e sem resposta, sei que é chegada a hora.

De repente

Baque!

Escuridão

Eu tinha 24.

Vinte e quatro fodidos anos quando cruzei com a infeliz da bruxa naquela praia.

Seu esconjuro ecoa todos os dias desde então na minha cabeça, lembrando-me que o meu destino, se é que posso chamar assim, seria regido por uma espécie de profecia. Uma profecia ditada pelos lábios daquele ser pagão que gosta de brincar de ser Deus.

Eu mesmo fui educado, ridículas aulas de catequese, intermináveis missas aos domingos e inúmeras conversas com o meu melhor amigo padre, a não acreditar em nada que não fosse divino, mas ironicamente, a barreira do meu ceticismo havia sido rompida depois daquele dia.

– Cadu, vamos! – Antônio me puxa pelo ombro.

– Calma é uma cigana, vai ler a minha mão. – Falo o óbvio mostrando a figura exótica a nossa frente.

– Você sabe que não devemos mexer com essas coisas, não é mesmo? – Ele me repreende com as sobrancelhas erguidas e ar sério. Antônio será padre. – Eles brincam de ser Deus. Brincam com o destino e sabemos a quem ele realmente pertence.

– Nosso destino pertence a nós mesmos, Antônio. Livre arbítrio, já ouviu falar? Deixa de ser careta. Esse negócio de ser padre já o afeta. – Zombo. Antônio é um ano mais velho que eu, mas parece ter 50. Ele dará um bom padre.

– Vamos, o que diz ai? – Viro-me para a bruxa que encara seriamente as linhas da minha mão.

Assim que ela termina de proferir algo que parece ter decorado de um livro místico qualquer, uma espécie de profecia cheia de metáforas, o sorriso até então zombador do meu rosto morre e um frio cortante percorre minha espinha.

Encaro-a sério desta vez e me afasto lentamente sendo guiado pelos braços de um Antônio que parece ter visto a face do capeta, falando coisas que neste momento não sou capaz de compreender, pois estou em suspenso com aquelas palavras.

Baque!

Minhas ações, sentimentos e crenças mudariam a partir daquele dia.

Verbo.

Passado, presente e futuro colidindo-se no que até então eu chamava de vida. Onde a única preocupação eram os estudos, me tornar um grande arquiteto, assumir os negócios da família e, ela.

Deus!

Em ironia minha mente grita o santo nome em vão diante da epifania macabra.

Ela...

Não!

Não posso ser um filho da mãe egoísta, não posso querê-la, nem tê-la. Não mais. Não depois daquilo. Ela não merece estar ligada ao meu destino. E neste momento o destino é um tremendo filho da puta e eu só queria ignorá-lo.

Ignorar tudo ao meu redor, segurar a mão dela e sumir.

Fuga.

Do amor a dor.

Uma linha tênue os separa e ao que me consta passarei a vida inteira andado sobre ela quando o assunto for Gabriela.

A partir de hoje terei que fugir e execrar tudo o que sinto pela pequena enviada de Deus que povoa meus sonhos e amaldiçoou-me por ter que fazer isso, esperando que um dia ela possa me perdoar.

GABI

Sirenes.

O som ecoa misturando-se ao retumbe dos trovões. Suas luzes confundem-se com os raios cortantes no céu.

Acabo de completar quatro anos de idade e as cenas que antecedem tudo aquilo me assombrarão ao que compreendo ser pelo resto da minha vida.

Meus pais jazem nos bancos dianteiros do nosso carro, suas cabeças pendendo e... sangue.

Após um risco de tempestade, meu pai desiste da viajem que faríamos de volta a São Paulo de helicóptero e nos toma, mamãe e eu, em seu carro.

Estávamos em nossa casa de campo em São José dos Campos, no interior de São Paulo, comemorando meu aniversário quando papai recebeu uma ligação e precisou voltar às pressas para a capital.

Em algum momento da viagem, ao qual não me lembro, pois estava em sono profundo, sinto-me como se estivesse em um parque de diversões.

Barulho, luzes, rodopios.

Agora nosso carro inclinado em um barranco é tomado por lama, muita lama.

O choro daquela garotinha ecoa.

Forte, desesperado, solitário.

– São três! – Ouço uma voz forte que faz cessar meu pranto.

– Dois estão desacordados e, meu Deus, tem uma criança.

"Está viva!"

"Desçam a maca, colar e a manta. Vou tirá-la."

"Os demais estão presos nas ferragens e temos que ser rápidos, esta árvore não vai aguentar por muito tempo. A chuva está aumentando e o barranco vai ceder." – Mais uma vez ele berra em seu rádio.

– Ei anjinho, vamos te tirar daí, está ok?! Fique calma. Eles são a mamãe e o papai? – Ele pergunta e eu apenas olho para aquelas duas figuras a minha frente e guardo aquela imagem.

– Vamos lá...

"Um"

"Dois"

"Três!"

Capítulo 2 GABI

Acordo em um sobressalto.

Estou assustada, meus pulmões queimam e meus cabelos são um emaranhado confuso colados em toda minha face, nuca e colo devido ao suor que toma meu corpo gélido e rígido.

Outro pesadelo.

Aquele dia.

Olho para a janela a minha frente, ainda aberta, dando entrada para a noite tempestuosa.

Chuva.

Gatilho.

Sabe aquela sensação de prazer que as pessoas sentem ao sentir cheiro de terra molhada, assim que a chuva toca o chão?

Nunca tive.

Como o fluido que corre pelas veias dos deuses – é o que dizem a respeito da sensação "prazerosa" – esta, me atinge cortando a carne quando o sabor terroso invade minha boca.

Depois daquele dia trágico onde perdi meus pais e após incontáveis crises, fui diagnosticada com "Pluviofobia", um distúrbio raro de quem tem pavor de chuva. Ridículo.

Ainda sentada na cama giro o pescoço e meus olhos batem em um porta-retrato em cima do criado.

São eles. Felizes com uma garotinha no colo.

Suspiro.

Sinto falta deles.

Já faz catorze anos.

Levanto-me e vou em direção ao banheiro. Meu refúgio em dias como este.

Os raios cortam o céu no período que lhes é mais propício: Janeiro. Meu aniversário. Irônico.

Abro a torneira molhando as mãos e levo-as em direção a nuca e rosto buscando algum refrigério. Abaixo a cabeça e subo.

Respiro.

Tento manter a calma quando meu interior grita tanto quanto o uivo dos ventos que invadem a noite tenebrosa.

A madrugada será longa.

Hoje completo dezoito anos.

Lembranças.

Sou apenas o fio do que restou delas.

Sentada no chão do box, divago madrugada adentro na esperança de encontrar meu alvorecer.

[...]

Lembro-me de cada detalhe de quando cheguei a esta casa. Não mais como a afilhada dos Albuquerque, nem mais portando apenas o sobrenome de meus pais nos documentos. A partir daquele momento eu era Gabriela Medeiros e Albuquerque. Um acréscimo e tanto quando falamos das duas famílias mais poderosas do Estado de São Paulo.

Eu tinha quatro anos quando perdi meus pais em um acidente de carro e fui adotada pelos meus padrinhos, Armando e Eleninha Albuquerque. Fui acolhida por eles como uma verdadeira filha. Eu tinha pais e irmãos novamente. Família.

– Oi. – Paula, minha nova irmã, me cumprimentou. Ela era afilhada dos meus pais e lembro-me que sua luz angelical naquele dia estava apagada e seus olhos verdes ressacados estavam inchados e apagados diante do tom de brasa que parecia queimar-lhes. Ela estava arrasada, mas me acolheu como irmã e eu sabia que a partir dali eu poderia contar com ela como tal. – Venha vou te mostrar onde será seu novo quarto. É perto do meu e se sentir medo a noite pode dormir comigo.

– Não! Ela vem comigo. Vou tocar piano para ela. – O menino que parece um anjo me puxa pelo braço bom, já que o outro estava imobilizado devido a cirurgia.

Levou-me até uma grande sala de paredes de vidro que sugava para o seu interior toda luz natural que vinha de fora e onde bem ao centro dela descansava um lindo piano de cauda branco. Um lugar que beirava o etéreo.

Ele sentou-se na banqueta e bateu com a mão sobre ela pedido que eu me sentasse ao seu lado. Fazendo o que me pediu, seus longos dedos pálidos ergueram a tampa do grandioso instrumento revelando as teclas pretas e brancas e um som quase que celestial ressoou por todo o ambiente reverberando em meu coração.

Grandes olhos verdes me encararam e sorrimos cumplices como se nossas almas soubessem o que uma queria dizer a outra. O pequeno anjo ascendeu aos céus e levou-me junto em seus braços.

Cresci no seio da minha nova família tão amada quanto os filhos legítimos. Armando e Eleninha sabiam o que era amor incondicional. Sabiam o significado disso, e bastava olhar para eles, mesmo que o casamento deles não tenha vindo da forma para aqueles que se amam. Um unir de fortunas lhes trouxeram até aqui, mas juntos, conseguiram construir uma união forte e alicerçada na lealdade. Antes da fidelidade, vem a lealdade, diziam.

Mas sempre enxerguei neles muita cumplicidade. Os olhares, as palavras não ditas, as frases incompletas. Nunca os vi brigar. Pareciam seguir uma receita.

E de receita eu entendo.

Sinto-me aquela receita bem dosada de tudo o que terei que ser a partir de agora. Desde que meus pais morreram e eu herdei tudo sem esforço algum.

Quantos tem essa sorte?

Junto aos meus dezoito anos, chegam as minhas responsabilidades para assumir o legado dos meus pais, e o peso desse legado parece cair em dobro sobre as minhas costas, pois está ligado também aos Albuquerque. Meu pai, Rodrigo Medeiros, e Armando Albuquerque, além de melhores amigos, tornaram-se sócios ainda na faculdade, fundando a Aleiros Engenharia & Co. que com o passar dos anos tornou-se a maior no ramo empreiteiro e, hoje, incorpora diversos outros negócios, principalmente o hoteleiro, desde que estes sejam lucrativos.

Paula, a filha mais velha, renunciou aos negócios da família quando saiu pela tangente aceitando o compromisso com um dos herdeiros do agronegócio paulistano, Lucas Maggi, deixando para que Cadu, o filho do meio, assumisse aos 25 anos o cargo de presidente da Aleiros, tornando-se assim o CEO, enquanto nosso pai passava ao conselho.

Mal posso imaginar que daqui a um mês trabalharei lado a lado com meu irmão.

Se é que posso chamá-lo assim.

Sinto falta dos rebeldes cachos dourados angelicais que com o passar dos anos tornaram-se lindas madeixas castanhas, lisas e bem penteadas, seus olhos verde oliva, ora tempestuosos, ora cristalinos como âmbar, que coloria meus dias quando formavam o degradê perfeito ao me enxergarem.

Sempre comparei Carlos Eduardo Albuquerque a um felino, um lince, para ser mais específica. Alto, cabelos volumosos, porte atlético e silencioso, muito silencioso. Esta última característica, parecia quase um superpoder que muitas vezes irritava nossa mãe que dizia que um dia morreria de susto em uma de suas aproximações. Mas em mim, o bálsamo da sua presença sempre chegava antes – carvalho, vinho e hortelã – uma tarde de verão na Toscana. Meu lugar favorito em todo o mundo. Ele, facilmente seria o meu lugar favorito em todo o mundo.

Cada vez que o degradê dos seus olhos queimava sobre mim, Cadu parecia ler-me como um livro de contos rebuscados e eu sabia que nesses momentos as engrenagens na sua cabeça trabalhavam e suas feições falavam. Mandíbulas serradas, lábios comprimidos em uma fina linha, um leve vinco entre os olhos. Sim, estava lá, intrínseco.

Como eu sabia?

Talvez o amor fosse cego para uns, mas para outros ele desnuda até a alma.

E eu? Eu era apaixonada pelo meu irmão.

Mas, se dependesse de mim levaria esse segredo para o túmulo. Era absurdo pensar e sentir algo por ele que não fosse apenas fraternal.

Pecado.

Se sentir por ele o que eu sentia era um pecado, meu Deus, eu era a maior das pecadoras.

Gostava dos nossos momentos de descontração em família ou entre amigos, Cadu sempre portava um sorriso largo e fácil, suas feições ganhavam o mesmo ar angelical de sua mãe e irmã – eles eram incrivelmente parecidos. Com os amigos, o ar e os sorrisos eram sempre zombeteiros, era o sarrista da turma. Cada vez que aquele largo sorriso ganhava vida, Cadu transformava-se em uma verdadeira criança, era leve e eu amava, principalmente, quando dirigidos a mim.

Mas certo dia, ao retornar de uma viagem à praia com os amigos, tudo mudou. Eu já não ganhava mais sorrisos e sobre o degradê dos olhos uma penumbra negra pairou. A partir daquele instante encaravam-me sempre em tom de repreensão, escurecidos como um mar que recebe uma tormenta. E eu já não era mais, em suas duras palavras, a "irmã", eu não era mais nada. Eu tinha quatorze anos. E isso me quebrou.

– Cadu! – Invadi o quarto dele correndo como sempre fiz. – A Bah disse que você havia chegado. – Pulei em seus braços, mas ele afastou-me duramente. O largo sorriso em meus lábios estreitou-se e pisquei algumas vezes em confusão. – O que houve? – Questionei.

– O que houve é que não quero que você entre mais no meu quarto. E se possível, não precisa mais falar comigo. – Minhas sobrancelhas uniram-se e meus olhos já marejados encararam os seus buscando respostas. Era como se uma densa névoa me impedisse de ver o límpido verde ambarado que dias atrás buscava pelos meus.

– Do que você está falando? Somos irmãos.

Queria que fôssemos mais que isso. Mas é impossível.

– Nós não somos irmãos! Minha irmã, sangue do meu sangue, é a Paula. Você não é nada minha, entendeu? Se toca garota. – Ele cuspiu as palavras me puxando pelo braço empurrando-me porta afora. O estrondo emitido, assim que ela se fechou, me fez estremecer e as lágrimas que antes marejavam os olhos, verteram em enxurrada.

Crises.

As crises voltaram e precisei retomar as terapias.

A única capaz de entender meu caos era Carolina, minha psicóloga. Ela sabia de tudo e fez o papel de amiga confidente e conselheira durante toda a minha adolescência. Ela não me julgava. Eu não precisava de julgamentos, eu mesma fazia esse papel e, Carolina, não deixou que eu cedesse ao meu caos. Um caos chamado Cadu.

Capítulo 3 GABI

Três anos antes...

Debut.

Imagino que para a maioria das garotas normais completar 15 anos deva ser empolgante. Viver por um dia o perfeito conto de fadas particular, usar um vestido suntuoso, ser guiada pelo salão de festas por um príncipe em uma comemoração digna da realeza.

Daqui a alguns dias debutarei, e ao contrário do que deveria sentir, como a maiorias das garotas, sinto-me no século XIX sendo arrastada pelos pais aristocratas para sua iniciação social. Serei apresentada com toda pompa e circunstância em um evento do qual não foram poupados um real sequer, vestido suntuoso assinado por algum estilista famoso, como um pedaço de carne aos abutres solteiros da sociedade paulistana, a fim de arrumar um pretendente que queira somar fortuna.

É sério que ainda fazem isso em pleno século XXI?

Tão sério que estou aqui, presa na aparatosa sala de costura da minha mãe, vulgo Eleninha, que berra a plenos pulmões ao telefone com a equipe da estilista da qual ela escolheu para fazer o meu vestido da noite do debut.

- Chá? É sério isso, Martinha? - Paula, minha irmã mais velha, reclama quando encara as xicaras que foram dispostas na mesa.

- Trouxe a pedido da senhorita Gabriela.

- Hortelã, meu favorito. - Pelo menos algo para me animar. Penso ao sorver o aroma do líquido da minha xícara. - E é Gabriela, Martinha. Nada de senhorita, por favor. Quantas vezes vou ter que falar?

- Tinha que ser. Martinha, champagne! Sei que é cedo, mas preciso de álcool para continuar aguentando isso. - Ela aponta discretamente em direção à nossa mãe que a qualquer momento começará a arrancar os cabelos.

Continuo bebericando minha bebida tentando abstrair o surto matinal de Eleninha até que meu olfato capta uma fragrância invadir o ambiente e, não é apenas meu chá de hortelã.

Ergo o olhar por cima da xícara e lá está ele. Braços e pernas cruzadas encostado ao arco da porta. No seu melhor jeito despojado. Camisa polo branca, calça jeans e tênis. Cabelos levemente escurecidos o que me leva a crer que acabou de sair do banho e o sorriso de canto de boca no melhor estilo matador de debutantes indefesas.

- Como assim, mais uma hora? Eu não tenho uma hora a mais na minha agenda para vocês. - Minha mãe encara o relógio de pulso. ¬- Estamos no mesmo bairro. Jardins! E você está me dizendo que vai demorar tudo isso da Oscar Freire até aqui? Vocês têm meia hora, entenderam, meia hora! - Berra desligando o telefone e sinto que ela vai começar a espernear como uma criança mimada que não conseguiu o que quer.

- Problemas dona Eleninha? - A voz forte e grave de Cadu a faz pular no lugar.

- Que susto garoto! Você ainda vai me matar, sabia? - Diz com a mão no peito reclamando do jeito silencioso que Cadu sempre faz ao aproximar-se. - E sim, problemas e você... é a solução para um deles. Seu smoking está chegando e você precisa prová-lo, então, junte-se a nós.

¬- Smoking? E posso saber para quê? - Seus olhos fitam os meus ligeiramente o que me faz baixar a cabeça, mas percebo sua confusão e leve irritação, pois já deixou claro que não participará da minha festa e nossa mãe continua insistindo.

- Por favor Cadu, não se faça de sonso. É o aniversário da nossa irmã e você será o príncipe da noite. - Paula intervém.

- Primeiro, ela não é minha irmã. Segundo, não vou participar disso, muito menos serei príncipe de quem quer que seja.

- E você é um tremendo filho da puta! - Ela grita levantando-se da cadeira.

- Ei, tudo bem. Eu não me importo. ¬- Seguro em seu braço incentivando-a a sentar-se novamente. - E você acabou de xingar nossa mãe se não percebeu. - Repreendo sua impulsividade.

- Desculpa, mãe! Não foi minha intensão.

- Tudo bem, filha. Nada que eu nunca tenha ouvido. E ofensa maior aqui é seu irmão berrar aos quatro cantos que Gabriela não é sua irmã. Ele não faz ideia o quanto machuca-me essa atitude. Eu só esperava de você, meu filho, o mínimo de condescendência pela Gabi. Você conheceu a história dela. Estava aqui no dia em que ela chegou nesta casa...

- Mãe! Chega! - Agora sou eu quem me exalto.

- Não, ele precisa ouvir.

- Não as custas da minha dor. Não quero a pena dele.

- Para mim deu. Fui. Garanto que conseguem se virar sem mim. - E como sempre ele dá as costas. Típico de Carlos Eduardo mimado e contrariado.

- Me digam, o que eu faço com o irmão de vocês? Em que momento da educação de vocês eu errei para que ele se tornasse esse poço de frieza? - Nossa mãe encolhe os ombros em completa decepção.

- Vamos esquecer o Cadu, por favor! Sei que a senhora dará um jeito. É uma Albuquerque, esqueceu-se? - Tento consolar sua dor sufocando a minha.

- Paula, quais opções temos? Rapazes disponíveis para príncipe, por favor. - Ela estala os dedos sentando-se à mesa, como quem pede o cardápio do dia a um garçom. Essa mulher é impressionante.

Paula, por outro lado, congela assim que estende a mão para pegar uma taça de champanhe ao qual Martinha traz numa bandeja.

- Opções? Bem... em se tratando da sua filha nada social aqui. - Retruca referindo-se a mim e suspira pesado. - Lamento, mas não temos muitas.

- Quem são as opções Paula, por favor?! - Elenina massageia as têmporas e eu me pergunto: O que estou fazendo aqui mesmo?

- Tem o... o... - Paula estala os dedos como se tentasse lembrar de alguém.

- O?

- Michael.

- O bolsista?

- Mãe?! - Repreendo-a. Michael é meu melhor amigo e ganhou uma bolsa em nossa escola depois de ter participado de uma competição de matemática. Tudo bem que seus pais não são herdeiros, trabalham suado para dar o melhor para o filho, mas desprezá-lo por ser bolsista?

- Não, ele tem uma queda por você. Não quero dar esperanças ao pobre coitado. Classe média demais. Pula. Próximo.

Inacreditável.

- Temos o Rodolfo.

- O Rod? - Digo em espanto, pois nem mesmo ele aceitaria. Rod intitula-se pansexual e aceitar ser meu príncipe diante do que chamamos de circo é enjaular-se como atração principal do espetáculo. - Ele não aceitaria. Próximo.

- Inclusive todos nas rodas comentam a respeito das roupas que ele vem usando. Amei a tendencia que ele vem ditando, inclusive pensei nele para uma entrevista à revista. A coitada da Verônica tem evitado nossos chás desde o evento da escola. - Minha mãe refere-se ao dia que Rod escandalizou a todos chegando na escola com o uniforme transformado no melhor estilo crossdresser em protesto às roupas que a direção vinha nos obrigando a usar.

Torci para que ele conseguisse mudar o pensamento arcaico daquelas pessoas, mas ele ganhou uma belíssima suspensão e seu pai, fazendo parte do conselho estudantil, deve ter desembolsado um belo montante em doações para que ele não fosse expulso.

Um ponto importante sobre minha mãe. Ela é editora chefe de uma das maiores revistas de moda do país. Neta de um dos barões do café, Elena Albuquerque é herdeira não só do título, mas de inúmeras fazendas cafeicultoras e vinícolas aqui e fora do país. Atualmente tudo sendo gerido pelo conglomerado que se tornou a Aleiros.

Seus doces olhos verdes me salvaram aquele dia no hospital. Assim que abri os olhos naquele quarto e deparei-me com duas lagoas verdes cristalinas e profundas, tive a sensação de ter sido arrebatada.

- Bem, nos sobra o Caio. - Minha irmã puxa-me daquele quarto inóspito ao qual me encontrava e solta a bomba de maneira afetada. Ela está gargalhando por dentro e eu sou a chacota.

- Caio? Caio Velasques? - Repito o nome junto ao sobrenome para me certificar que de fato a informação é real e não ouvi errado.

- A culpa é toda sua e da sua roda social restrita. - Ela dá de ombros e eu engulo em seco por me ver em um beco sem saída, senão aceitar ter por "príncipe" o mauricinho mais porra-louca de São Paulo.

O que eu fiz para merecer isso? Ok, a culpa é minha que nunca fui de muitos amigos, nem de rodas sociais. Talvez, olhando por essa ótica eu mereça.

Mas, pensando bem, até que isso me traz uma certa... satisfação. Caio Velasques é cunhado do meu amado irmão e eles se odeiam. Posso me aproveitar da situação.

- Ok, aceito o Caio. - Respondo no meu melhor tom, como quem acaba de fechar um negócio.

- Perfeito, vou agora mesmo ligar para Alicinha Velasques. Ela ficará encantada com a honra. - Minha mãe falta saltitar com meu aceite inconsequente.

- Já que tudo está decidido, vou para o meu quarto e vocês decidam todo o resto.

- Como assim vai para seu quarto, Gabriela? Seu vestido chega daqui a alguns minutos.

- Dona Elena... ¬- Dirijo a ela meu melhor sorriso. - Eles estão atrasados e aqui, temos uma infinidade de empregados que podem ir até o segundo andar chamar-me assim que a equipe da estilista chegar. Tenho certeza de que eles terão prazer em lhe obedecer. - Debocho e saio buscando meu refúgio. Preciso pôr para fora as lágrimas engolidas naquela sala antes que elas me sufoquem.

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