Eu morri uma vez.
Minha prima, Mariana, orquestrou tudo, tirou meu filho, roubou minha identidade e, por fim, roubou meu amor, Pedro, meu noivo.
Fui jogada na rua, sem nome, sem dinheiro, sem ninguém, e o frio e a fome me consumiram até a morte.
Mas por que? Como ela, a quem tratei como irmã, pôde me odiar tanto a ponto de cobiçar cada pedaço da minha existência?
Então, abri os olhos novamente na maternidade, com Mariana ao meu lado oferecendo um suco venenoso – o mesmo que iniciou minha ruína na vida passada –, e soube que o jogo havia virado.
Eu morri uma vez.
Minha morte não foi rápida, foi um processo lento e doloroso, uma erosão de tudo o que eu era e de tudo o que eu tinha.
Minha prima, Mariana, orquestrou tudo.
Ela agiu nas sombras, movida por uma inveja que eu, em minha ingenuidade, nunca percebi.
Primeiro, ela tirou meu filho. Na maternidade, ela trocou meu bebê saudável por um doente, condenando-me a uma dor que nenhuma mãe deveria conhecer.
Depois, ela roubou minha identidade. Ela se apresentou como a herdeira perdida da fortuna da minha família, tomando meu lugar, meu nome, meu futuro.
Por fim, ela roubou meu amor. Pedro, meu noivo, um homem poderoso e influente no Rio de Janeiro, caiu em sua teia de sedução e mentiras. Ele se casou com ela.
Eu perdi tudo. Fui jogada na rua, sem nome, sem dinheiro, sem ninguém. O frio e a fome se tornaram meus únicos companheiros, até que meu corpo, enfraquecido pela dor e pelo desamparo, finalmente cedeu.
Eu morri.
Mas então, eu abri os olhos.
A luz forte do quarto da maternidade me cegou por um instante. O cheiro de antisséptico invadiu minhas narinas. Eu estava de volta, deitada na cama, o corpo ainda dolorido do parto. O parto do meu filho. Meu filho verdadeiro.
Um barulho suave me fez virar a cabeça.
Mariana estava ao lado da minha cama, sorrindo. O sorriso dela era doce, cheio de uma falsa preocupação que agora me causava náuseas.
"Sofia, priminha, que bom que você acordou."
Ela segurava um copo com um suco de cor vibrante.
"Eu mesma preparei para você. Um suco especial, cheio de vitaminas, para te ajudar a se recuperar."
Era o mesmo suco. O mesmo copo. O mesmo sorriso.
O ponto de partida da minha ruína.
Meu coração começou a bater forte, não de medo, mas de uma raiva fria e calculista. Desta vez, eu sabia. Desta vez, eu estava preparada.
O jogo tinha virado.
"Mariana," eu disse, minha voz soando fraca, exatamente como ela esperava.
Ela se inclinou, o rosto dela perto do meu, exalando um perfume caro que eu mesma havia lhe dado de presente no seu último aniversário.
"Sim, querida?"
"Obrigada," eu sussurrei. "Você é sempre tão boa para mim."
O sorriso dela se alargou. A satisfação brilhou em seus olhos. Ela não fazia ideia de que a mulher que ela via na cama não era mais a Sofia ingênua que ela planejava destruir.
Eu me lembrava de tudo. Lembro-me de como a acolhi em minha casa quando sua mãe, minha tia, veio trabalhar como governanta para minha família. Ela era quieta e observadora, sempre à sombra. Eu dividi minhas roupas, meus segredos, meu mundo com ela. Eu a tratei como uma irmã.
Eu a apresentei a Pedro. Eu a levei para festas e eventos, querendo que ela sentisse parte da minha vida feliz. E o tempo todo, por trás dos sorrisos e agradecimentos, ela me odiava. Ela cobiçava cada pedaço da minha existência.
"Claro, Sofia. Somos família, não é? Temos que cuidar uma da outra."
Ela me estendeu o copo. O líquido parecia inofensivo, mas eu sabia que continha o veneno que me deixaria fraca e confusa, o primeiro passo para me afastar do meu bebê e facilitar a troca.
Minha mão tremeu quando estendi o braço para pegar o copo. Era parte da minha atuação. Eu precisava que ela acreditasse que eu ainda era a mesma.
"Estou um pouco enjoada," eu disse, fazendo uma careta. "Pode deixar aqui na mesinha? Vou tomar daqui a pouco, quando me sentir melhor."
O sorriso dela vacilou por uma fração de segundo. Desconfiança. Mariana era meticulosa.
"Tem certeza? É melhor tomar agora, enquanto está fresco."
"Tenho," eu insisti, com a voz mais frágil que consegui produzir. "Por favor, prima. Só preciso de um minuto."
Eu fechei os olhos, fingindo uma onda de fraqueza. Era uma tática arriscada. Ela poderia tentar me forçar a beber.
Mas ela recuou.
"Tudo bem, então," ela disse, a voz um pouco mais dura. "Vou deixar aqui. Mas beba logo, sim? Pelo seu bem."
Ela colocou o copo na mesinha ao lado da cama, a uma distância que eu podia alcançar facilmente.
Ela não saiu imediatamente. Ficou parada, me observando, como se tentasse ler meus pensamentos. Eu mantive minha respiração lenta e regular, o rosto sereno. Eu não daria a ela nada.
Finalmente, ela se moveu em direção à porta.
"Vou ver como está o pequeno Lucas," ela disse, o nome do meu filho soando como uma posse em seus lábios. "Ele é tão lindo, Sofia. Tão perfeito."
Ela queria me lembrar do que estava em jogo. Ela queria que eu soubesse o que ela planejava tomar.
Ela parou na porta e olhou para trás uma última vez, seus olhos fixos no copo de suco.
"Beba o suco," ela repetiu, quase como uma ordem.
Então, ela se foi, fechando a porta suavemente atrás de si.
O silêncio no quarto era pesado.
Eu abri os olhos. Minha expressão frágil desapareceu, substituída por uma determinação de aço.
Olhei para o copo de suco. A primeira arma de Mariana.
E a primeira peça do meu tabuleiro de vingança.
Assim que a porta se fechou, eu me movi.
A dor do parto era real, mas a adrenalina que corria em minhas veias era um analgésico poderoso. Com cuidado, peguei o copo da mesinha. O líquido vermelho e espesso parecia zombar de mim.
Eu não o joguei fora. Isso seria muito simples, muito arriscado. Mariana era esperta demais. Ela voltaria. Ela verificaria.
Levantei-me devagar, apoiando-me na cama. Cada passo em direção ao banheiro do quarto privativo era uma vitória. O chão frio sob meus pés me lembrava que eu estava viva, que eu tinha uma segunda chance.
No banheiro, olhei para o meu reflexo no espelho. Eu parecia pálida, exausta, vulnerável. A imagem perfeita da vítima que Mariana queria criar.
Abri a torneira da pia, deixando a água correr para abafar qualquer ruído. Despejei quase todo o conteúdo do suco no vaso sanitário e dei a descarga. O redemoinho de água levou embora a primeira parte do plano dela.
Mas eu guardei um pouco, cerca de dois dedos, no fundo do copo.
Depois, abri minha bolsa de maternidade, que estava sobre uma cadeira. Peguei um pequeno frasco de amostra de perfume, esvaziei o conteúdo na pia e, com muito cuidado, despejei o resto do suco de Mariana dentro dele. Fechei bem a tampa e guardei o frasco no fundo da bolsa, entre fraldas e roupas de bebê. Uma prova. Uma arma para o futuro.
Voltei para o copo. Lavei-o meticulosamente na pia, removendo qualquer vestígio. Sequei-o com uma toalha de papel e o coloquei de volta na mesinha de cabeceira, exatamente onde Mariana o havia deixado. Vazio.
Deitei-me na cama, arrumando os lençóis para parecer que eu não havia me movido. Respirei fundo, tentando acalmar meu coração acelerado, e fechei os olhos.
Não precisei esperar muito.
Menos de cinco minutos depois, a porta se abriu silenciosamente.
Eu não me mexi. Continuei fingindo dormir.
Senti a presença de Mariana se aproximando da cama. Ela ficou parada por um longo momento, provavelmente me observando, checando minha respiração. O cheiro dela, o mesmo perfume que eu lhe dei, era forte e enjoativo.
Ouvi o som suave do copo sendo pego da mesinha. Silêncio. Ela o estava inspecionando. Provavelmente o virou de cabeça para baixo, procurando por qualquer gota restante.
Eu podia imaginá-la. Seu rosto tenso, os olhos estreitos procurando por qualquer sinal de que seu plano havia falhado.
Então, ouvi um suspiro suave. Um som de alívio.
Ela colocou o copo de volta na mesa, desta vez com um clique um pouco mais alto. Um som de triunfo.
Ela achava que tinha vencido.
O alívio dela era quase palpável. Eu senti uma onda de prazer frio percorrer meu corpo. O caçador acreditava que a presa estava na armadilha. Mal sabia ela que a armadilha era para ela.
Mariana se afastou da minha cama. Seus passos eram leves, quase alegres.
Ela foi até o outro lado do quarto, onde ficava o berçário de acrílico. Meu filho, Lucas, dormia pacificamente. Meu coração se apertou. Na minha vida passada, a essa altura eu já estava fraca e sonolenta, incapaz de protegê-lo.
Eu arrisquei abrir os olhos só uma fresta.
Mariana estava parada em frente ao berço, olhando para o meu bebê. Não havia amor ou ternura em seu olhar. Havia cobiça. Havia um cálculo frio, como um ladrão avaliando uma joia que estava prestes a roubar.
Seus olhos brilhavam com uma ambição sombria. Ela estava olhando para o meu filho como se ele fosse um objeto, uma chave que abriria as portas da fortuna e do status que ela tanto desejava. Aquele olhar confirmou tudo. Ela não tinha limites. Ela não tinha alma.
Ela se afastou do berço e caminhou em direção à porta, satisfeita, acreditando que seu plano estava em andamento.
Antes de sair, ela me deu uma última olhada. Eu mantive meus olhos fechados.
Quando a porta se fechou pela segunda vez, eu a abri. A raiva que senti ao vê-la olhar para o meu filho me deu uma nova força.
Levantei-me novamente, desta vez com mais firmeza. Fui até a janela do meu quarto, que dava para uma pequena área de jardim do hospital.
Era final de tarde. Eu vi uma figura familiar sentada em um banco lá embaixo. A mãe de Mariana, minha tia Clara, que trabalhava para minha família. Ao lado dela, em uma coleira, estava o pequeno shih-tzu de Mariana, um cachorro chamado Prince. Mariana o amava mais do que a qualquer pessoa. Ela o tratava como um filho, sempre o enchendo de mimos e roupas caras.
Um plano se formou em minha mente. Um plano cruel, mas justo.
Olho por olho. Dente por dente.
Peguei o frasco de perfume com o resto do suco na minha bolsa. Também peguei um pacote de biscoitos amanteigados que minha mãe havia trazido para mim.
Desci pelo elevador de serviço, usando um roupão por cima da camisola. Ninguém prestou atenção em mim.
Cheguei ao jardim. Minha tia se assustou ao me ver.
"Sofia! O que faz aqui? Você deveria estar descansando!"
"Eu precisava de um pouco de ar fresco, tia," eu disse, sorrindo. "Mariana me disse que a senhora estava aqui com o Prince."
O cachorrinho correu em minha direção, abanando o rabo.
Ajoelhei-me para acariciá-lo, meu coração batendo forte.
"Ele é tão fofo," eu disse, olhando para minha tia.
Tirei um biscoito do pacote. Prince ficou animado, pulando em minhas pernas.
Enquanto minha tia estava distraída, respondendo a uma mensagem no celular, eu agi rapidamente. Abri o pequeno frasco e derramei o líquido venenoso sobre o biscoito, que o absorveu instantaneamente.
Ofereci o biscoito a Prince.
"Aqui, garoto. Um presentinho da sua tia Sofia."
Ele devorou o biscoito em uma única mordida.
Levantei-me, limpando as mãos.
"Bom, preciso voltar para o quarto antes que as enfermeiras sintam minha falta," eu disse, mantendo meu sorriso calmo. "Dê um beijo na Mariana por mim, tia."
"Claro, querida. Se cuida."
Voltei para o meu quarto da mesma forma que saí, sem ser notada.
Deitei-me na cama. Agora era só esperar.
A vingança, eles dizem, é um prato que se come frio.
Mas às vezes, ela é servida em um biscoito de cachorro.