Bianca Silva, uma humilde faxineira, levava uma vida dupla como "facilitadora de heranças", uma especialista em realizar rituais de purificação para ricos atormentados. Um dia, ela recebeu uma oferta irrecusável: duzentos mil reais para limpar a energia de um suicídio de "alto nível" , com a estranha condição de usar o material genético do falecido para uma inseminação artificial nela mesma.
O choque foi avassalador, mas a promessa de aposentadoria a fez hesitar. Ao chegar na mansão, ela descobriu a verdade mais perturbadora: o "suicida" era Rafael Costa, seu ex-namorado, o homem que ela amou e que sumira sem deixar explicações, revelando-se agora herdeiro de um império.
Acreditando ser um capricho de um rico entediado, Bianca iniciou o ritual, mas as evidências gritavam: aquilo não era suicídio, era assassinato. Ela percebeu que havia sido usada como um álibi, uma testemunha manipulada pelos pais de Rafael, que ainda queriam eliminá-lo.
De repente, o impensável aconteceu: o "morto" respirou. Rafael estava vivo, vítima de uma droga que simulava a morte. Ele sussurrou para Bianca, seus olhos cheios de pânico:
"Corra."
A porta rangeu, indicando a chegada dos seguranças. Bianca, entre o medo e uma nova determinação, se viu encurralada, com um homem "morto" que respirava em suas mãos e a porta prestes a ser arrombada. Ela estava presa em um jogo mortal, mas, pela primeira vez, enxergou uma chance de lutar.
Bianca Silva limpava o chão de um escritório luxuoso, o cheiro de produto de limpeza preenchendo suas narinas. Para o mundo, ela era apenas uma faxineira, uma mulher simples que passava despercebida com seu uniforme e um esfregão na mão. Ninguém imaginava que, por trás daquela fachada humilde, Bianca era uma "facilitadora de heranças", uma profissão secreta e extremamente lucrativa.
Ela não lidava com fantasmas, não de verdade. Ela lidava com os vivos, com a culpa, a superstição e o desespero dos ricos. Seu trabalho era realizar rituais, cerimônias de purificação em locais de morte, para garantir que os herdeiros pudessem tomar posse de suas fortunas sem o peso de uma "maldição" ou de uma consciência pesada. Era um serviço psicológico vendido como uma necessidade espiritual, e Bianca era a melhor no ramo.
Enquanto passava o pano no corrimão de mogno, seu celular, um modelo antigo e discreto, vibrou no bolso do avental. Era um número desconhecido. Ela atendeu, mantendo a voz baixa e neutra.
"Alô?"
A voz do outro lado era grave e apressada, acostumada a dar ordens.
"Preciso de um serviço de herança. O mais alto nível."
O coração de Bianca acelerou um pouco. "Alto nível" significava dinheiro. Muito dinheiro. Ela se afastou para um canto mais reservado do corredor, virando as costas para as câmeras de segurança.
"Descreva a situação", ela disse, sua voz agora com um tom profissional que não combinava em nada com sua aparência de faxineira.
"Suicídio. Filho único. O pai quer o local limpo, espiritualmente falando. Rápido."
Bianca franziu a testa. Suicídios eram complicados. Traziam uma carga emocional pesada e, geralmente, os clientes ficavam ainda mais paranoicos. Isso significava que o preço subia.
"Meu serviço padrão para esse tipo de ocorrência começa em cinquenta mil", ela disse calmamente, testando o terreno.
Houve uma pausa do outro lado da linha, seguida por uma risada seca.
"O dinheiro não é problema. Pagaremos duzentos mil. Mas há uma condição."
Bianca sentiu um arrepio. Duzentos mil. Isso era mais do que ela ganhava em um ano. Era o suficiente para antecipar sua aposentadoria em pelo menos cinco anos. A alegria inicial, no entanto, foi rapidamente substituída por um alarme interno. Uma oferta tão generosa quase sempre vinha com um risco igualmente grande.
"Qual é a condição?", ela perguntou, a cautela transparecendo em sua voz.
"O serviço precisa ser feito esta noite. E você precisa garantir que a linhagem dele... continue."
Bianca quase deixou o celular cair. Ela parou de respirar por um segundo, tentando processar o que acabara de ouvir. "Garantir a linhagem"? O que diabos isso significava?
"Você pode me explicar o que quer dizer com 'garantir a linhagem' de um homem morto?", ela perguntou, a voz cortante.
"O rapaz congelou material genético. Queremos que você o utilize. A mãe... ela quer um neto. Quer que algo do filho dela continue vivo. Precisamos que você realize a inseminação. Em você mesma."
O choque percorreu o corpo de Bianca como uma corrente elétrica. Aquilo era insano. Era antiético. Era macabro. Ela não era uma barriga de aluguel, e certamente não para um homem morto. Sua profissão já era estranha, mas isso ultrapassava todos os limites.
"Isso não faz parte dos meus serviços", ela respondeu friamente. "Sou uma facilitadora, não uma incubadora. Encontre outra pessoa."
Ela estava prestes a desligar, mas a voz do homem a interrompeu, agora com um tom de desespero.
"Quinhentos mil. Meio milhão de reais. Pagos esta noite, em dinheiro. E mais um milhão quando a criança nascer. Pense nisso, Srta. Silva. É a sua aposentadoria. Uma vida inteira de trabalho em uma única noite."
Meio milhão. A quantia pairou no ar, pesada e tentadora. Bianca pensou em sua avó, Dona Sofia, que a criou e a ensinou os segredos da profissão. Pensou na pequena casa que queria comprar para elas, longe de tudo e de todos. Aquele dinheiro mudaria tudo. Mas o risco... o risco era imenso.
"Isso é perigoso e bizarro. Por que eu? Por que não contratar uma barriga de aluguel profissional?", ela questionou, sua mente pragmática analisando todos os ângulos.
"Precisamos de discrição absoluta. A família é... proeminente. Um escândalo está fora de questão. Seu perfil é perfeito. Ninguém nunca suspeitaria de você. Além disso, a avó do rapaz, antes de morrer, deixou em testamento que o ritual de passagem deveria ser feito por alguém da sua linhagem, alguém que entende as tradições. Ela mencionou o nome da sua avó, Sofia. Foi assim que chegamos até você. Acreditamos que, ao unir o ritual de passagem com o ritual de concepção, a alma do meu... do rapaz... encontrará paz. E a criança será abençoada."
O nome de sua avó. Aquilo mudava as coisas. Aquilo tornava o pedido bizarro um pouco mais compreensível, dentro da lógica distorcida dos super-ricos e supersticiosos. A família Costa. Ela imediatamente soube de quem se tratava. Eram magnatas, donos de um império. O filho deles, Rafael Costa, havia sido notícia em todos os portais. Jovem, rico, herdeiro de tudo, encontrado morto em sua mansão. A história oficial era suicídio.
"Tudo bem", disse Bianca, após uma longa pausa. Sua voz era firme. "Mas o preço sobe. Setecentos mil adiantados. E o restante do acordo se mantém. E eu tenho minhas próprias condições. Ninguém interfere no meu trabalho. Ninguém entra no local enquanto eu estiver lá. E quero ver o dinheiro antes de começar."
"Combinado", respondeu o homem sem hesitar. "Um carro estará esperando por você em frente ao seu local de trabalho em dez minutos."
A ligação terminou. Bianca ficou parada, o celular na mão, o coração batendo descontroladamente. Ela olhou para o esfregão e o balde, símbolos de uma vida que ela estava desesperada para deixar para trás. Esta noite poderia ser sua passagem para a liberdade, ou sua descida para um inferno que ela nem conseguia imaginar.
Dez minutos depois, um sedã preto e luxuoso parou silenciosamente no meio-fio. A porta traseira se abriu. Bianca tirou o avental, jogou-o em uma lixeira e entrou no carro sem olhar para trás.
O trajeto foi rápido e silencioso. O carro deslizou pelos portões de uma propriedade gigantesca em um dos bairros mais caros da cidade. A mansão dos Costa era um monumento ao poder e à riqueza, com colunas brancas e um jardim impecavelmente cuidado, que parecia sombrio sob a luz da lua.
Ao entrar, ela foi recebida por um homem de terno, o mesmo da ligação, e um casal mais velho. O homem, o Sr. Costa, tinha um rosto duro, marcado pela arrogância e pelo controle. A mulher, a Sra. Costa, parecia frágil, seus olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. A dor dela parecia genuína, um contraste gritante com a frieza calculista do marido.
"Srta. Silva", disse o Sr. Costa, sua voz tão impassível quanto seu rosto. "Agradeço por sua presteza."
"Por favor, meu filho... ajude meu filho a descansar em paz", soluçou a Sra. Costa, agarrando a mão de Bianca. O toque era frio e desesperado.
Bianca sentiu uma pontada de compaixão, algo raro em seu trabalho. Ela olhou para a mulher e assentiu.
"Farei o meu melhor."
O Sr. Costa a interrompeu. "O dinheiro está na maleta. Sete mil maços de cem. Conte se quiser."
Ele apontou para uma maleta de couro sobre uma mesa. Bianca abriu, verificou um dos maços e fechou. O cheiro de dinheiro novo era quase tão forte quanto o cheiro de desinfetante de horas atrás.
"O quarto dele é no andar de cima. A polícia já liberou a cena", disse o magnata. "Mas antes de você subir... há mais uma coisa."
Ele fez um sinal e o homem de terno se aproximou com um pequeno refrigerador portátil, daqueles usados para transportar material médico.
"Isso é o que você pediu?", perguntou Bianca, já sabendo a resposta.
O Sr. Costa não respondeu. Ele apenas a encarou com seus olhos frios e calculistas. Foi nesse momento que Bianca notou algo na parede da sala. Uma grande foto emoldurada. Um retrato de família. O Sr. e a Sra. Costa, e ao lado deles, um jovem sorridente.
O ar sumiu dos pulmões de Bianca.
Ela conhecia aquele rosto.
Ela conhecia aquele sorriso.
Não era Rafael Costa, o magnata. Era "Rafa", o segurança humilde com quem ela namorou há dois anos, o homem que desapareceu de sua vida sem deixar vestígios.
O homem que ela amou.
O homem que estava morto no andar de cima.
A revelação a atingiu como um soco no estômago. Rafa. O segurança gentil, de sorriso fácil, que lhe contava histórias sobre querer uma vida simples, era, na verdade, Rafael Costa, o herdeiro de um império multibilionário. A mentira era tão colossal que sua mente se recusava a aceitá-la.
Sua cabeça girava. O segurança que ela conheceu era uma farsa. Aquele relacionamento, que ela pensou ter sido real, talvez fosse apenas um capricho de um menino rico entediado. A dor da traição passada se misturou com o choque do presente. E agora, o pai dele a estava contratando para um ritual macabro sobre o corpo do próprio filho.
"Srta. Silva? Algum problema?", a voz gélida do Sr. Costa a trouxe de volta à realidade.
Bianca piscou, forçando-se a recompor a máscara de profissionalismo. Ela não podia demonstrar nada. Não ali. Não para eles. Qualquer sinal de uma conexão pessoal poderia colocar tudo a perder. Poderia colocá-la em perigo.
"Nenhum problema", ela respondeu, a voz surpreendentemente firme. "Apenas me concentrando no trabalho. É um ambiente carregado."
A Sra. Costa, ainda chorando baixinho, olhou para ela com gratidão.
"Obrigada. Por favor, faça o que for preciso. O quarto é a última porta do corredor."
Bianca pegou sua própria maleta de trabalho, que continha suas ervas, óleos e ferramentas, e o pequeno refrigerador. Cada passo escada acima parecia pesar uma tonelada. A cada degrau, uma lembrança de Rafa vinha à sua mente: o primeiro encontro, a forma como ele segurava sua mão, a promessa de que ficariam juntos. Tudo mentira.
Ao chegar à porta do quarto, ela parou e respirou fundo. Preparou-se para o que veria lá dentro. Mas nada poderia prepará-la para a realidade.
O quarto era enorme, decorado com luxo e tecnologia de ponta. Mas tudo estava manchado pela tragédia. Havia uma mancha escura e seca no tapete persa, onde o corpo dele deve ter sido encontrado. Uma corda estava jogada em um canto, um objeto sinistro em meio à opulência. O ar estava pesado, parado, com um cheiro fraco de sangue e... outra coisa. Algo químico.
Ela viu a cama desarrumada, as roupas jogadas sobre uma cadeira. Parecia a cena de uma luta, não de um suicídio planejado. Seu instinto, afiado por anos lidando com a morte, gritava que algo estava errado.
"Isso vai custar mais", disse Bianca em voz alta, para si mesma, mas sabendo que eles poderiam estar ouvindo. Era uma tática, uma forma de se distanciar emocionalmente e reafirmar seu controle.
Ela se virou, como se esperasse que alguém estivesse atrás dela. A porta ainda estava aberta. O Sr. Costa estava parado no final do corredor, observando-a.
"O quê?", ele perguntou, a voz ecoando pelo corredor silencioso.
"A energia aqui. Está mais perturbada do que o normal. O ritual será mais complexo. E perigoso para mim. O preço da complexidade é de cem mil a mais", ela disse, o rosto impassível. Era uma aposta, mas ela se sentia no direito de fazê-la. Eles a queriam para algo repulsivo. Eles iriam pagar por isso.
O Sr. Costa a encarou por um longo momento, seus olhos como lascas de gelo. Bianca sustentou o olhar, sem piscar. Ela não era uma faxineira implorando por um emprego. Ela era uma especialista vendendo um serviço exclusivo.
"O dinheiro será transferido para sua conta amanhã de manhã", ele finalmente cedeu. "Agora, faça o seu trabalho."
"Quem é você, afinal?", ele perguntou, um toque de curiosidade em sua voz fria. "Uma médium? Uma charlatã?"
"Nenhum dos dois", respondeu Bianca. "Minha família faz isso há gerações. Antigamente, éramos chamadas de 'carpideiras' ou 'rezadeiras'. Acalmávamos os mortos e confortávamos os vivos. Hoje, os problemas são outros. As pessoas não têm mais medo de fantasmas, têm medo de que o trauma de uma morte violenta contamine suas fortunas, suas casas, suas vidas. Eu modernizei a profissão. Eu ofereço paz de espírito. Um placebo caro para os ricos e culpados."
A explicação pareceu satisfazer o magnata, que apenas assentiu e se afastou. Antes que Bianca pudesse fechar a porta, dois seguranças enormes se aproximaram.
"O senhor pediu para verificarmos seus equipamentos", disse um deles, a voz grave.
Bianca suspirou. Era esperado. Ela abriu sua maleta, mostrando as ervas secas, os frascos de óleos, as velas e alguns objetos de metal polido que pareciam antigos. Eles revistaram tudo superficialmente, sem entender o propósito de nada. Também abriram o refrigerador, viram o recipiente de metal selado e o fecharam. Por fim, passaram um detector de metais pelo corpo dela.
Quando terminaram, Bianca os encarou.
"Agora, minhas regras", ela disse firmemente. "Ninguém, absolutamente ninguém, entra neste quarto até eu sair. Nenhuma câmera, nenhum microfone. O ritual exige privacidade total. Qualquer interferência pode ter... consequências imprevisíveis e permanentes. Para a energia da casa e para a alma que estamos tentando guiar. Vocês entendem?"
Ela usou o jargão da sua profissão, as palavras que seus clientes supersticiosos temiam.
Os seguranças se entreolharam e depois assentiram.
"O Sr. Costa deu ordens para que sua privacidade fosse respeitada", disse um deles.
"Ótimo", disse Bianca.
Ela fechou a porta pesada de madeira, girando a tranca. O som do clique ecoou no silêncio do quarto. Finalmente, sozinha.
Sozinha com o fantasma do homem que ela amou.
Ela se encostou na porta, o corpo tremendo. A fachada profissional desmoronou. As lágrimas que ela segurou arderam em seus olhos. Era demais. A mentira, a morte, o pedido bizarro.
De repente, uma corrente de ar frio passou por ela. A temperatura no quarto pareceu cair vários graus. Não era uma brisa da janela, pois todas estavam fechadas. Era um frio que vinha de dentro, um frio que parecia emanar das próprias paredes.
Bianca se encolheu, não de medo, mas de um reconhecimento sombrio. Ela já sentira aquilo antes. Era a sensação de uma presença que não queria ser perturbada.
Ela enxugou as lágrimas, a profissional assumindo o controle novamente. O luto teria que esperar. Primeiro, o trabalho. E o primeiro passo do trabalho era sempre o mesmo: inspecionar o local.
Ela começou a andar pelo quarto, seus olhos treinados buscando por qualquer coisa fora do lugar. E não demorou para encontrar. Atrás de uma cortina pesada, perto do teto, havia uma pequena luz vermelha piscando discretamente.
Uma câmera.
Eles mentiram.
Claro que mentiram.
A raiva substituiu o frio. O Sr. Costa não queria apenas privacidade. Ele queria vigiá-la. Queria ter certeza de que ela faria exatamente o que foi paga para fazer. E talvez, só talvez, ele quisesse uma gravação para usar contra ela mais tarde.
Aquele trabalho estava ficando cada vez mais perigoso.