Os uivos dos lobos ecoavam à distância, lembrando-o impiedosamente do que um dia foi seu lar. A lua, testemunha silenciosa de seu reinado, começava a se eclipsar atrás das sombras do amanhecer, como se também renunciasse à sua existência.
Kael tropeçou para a frente, guiado apenas pelo instinto selvagem que ainda o mantinha de pé. Ele não conseguia ver. Mal conseguia ficar de pé. Seus passos eram desajeitados, arrastados, cada um mais doloroso que o anterior. Ele vagava há horas, exausto e completamente ferido por todo o corpo.
Mas não era uma ferida física que o havia cegado, e sim algo muito mais brutal: a traição. Luna, sua companheira destinada, o havia rejeitado quando ele mais precisava dela. E com esse abandono, ela impôs o castigo mais impiedoso que um alfa poderia receber: o esquecimento, a solidão, a humilhação e a cegueira.
Mas Kael não era um lobo comum. Mesmo quebrado, sua presença impunha respeito. Mesmo cego, sua alma ardia como uma fogueira no meio da floresta, inextinguível, alimentada por uma única verdade: ele jurou que voltaria para se vingar de todos, especialmente de seu irmão mais novo, que conspirou contra ele para vê-lo cair.
Sua matilha, aquela por quem ele sangrou e rugiu, o cuspiu como se ele nunca tivesse pertencido. Eles o baniram, pisoteando seu nome, enterrando o legado do Alfa sob a indiferença e a covardia. Mas a fúria de Kael não conheceria descanso. Não enquanto seu coração ainda batesse nas sombras.
«Lyra, venha cá! Encontrei um homem, rápido!»
«Um homem por aqui? Que estranho...» Lyra guardou sua arma de caça e se dirigiu ao local onde Helga a chamava. Mas ao vê-lo, seus olhos se iluminaram e seu coração disparou.
«Não... não pode ser verdade. O que ele está fazendo aqui?» Ela se ajoelhou ao lado do corpo, tremendo, e verificou se Kael ainda respirava.
«Helga, ajude-me, por favor. Traga o carro. Ele está muito ferido, precisamos levá-lo conosco.»
«Você o conhece?» Helga perguntou, confusa.
«Sim... é Kael», o nome escapou dos lábios de Lyra com nostalgia.
«Kael? O Alfa da matilha Lua Negra? O que diabos aconteceu com ele? Não podemos levá-lo para casa, Lyra, é perigoso.»
Lyra já começava a amarrá-lo com determinação, preparando-se para levantá-lo. Ela balançou a cabeça; não o deixaria ali, não ele, não depois de tudo o que havia acontecido, ela não conseguiria se perdoar.
«Não vou deixá-lo jogado aqui como um animal moribundo. Ajude-me!»
«Mas... temos que trazer o jantar. Estão nos esperando, e se chegarmos de mãos vazias, você sabe muito bem que poderíamos ser o prato principal», Helga murmurou, completamente nervosa.
Mas Lyra não se importava; ela sempre esteve ali para Kael.
«Vamos parar em um açougue e pegar carne. Não entendo por que continuam nos forçando a caçar», Lyra zombou, enquanto levantava com força o corpo de Kael. Com a ajuda de Helga, ela o acomodou em seus ombros e o colocaram no carro.
Lyra não era mais do que uma ômega, uma escrava destinada a cozinhar e fornecer comida para a matilha. Mas apesar de sua patente, ela era forte, orgulhosa, indomável. Antes de retornar, elas compraram carne suficiente para evitar perguntas e punições. Quando finalmente chegaram, juntas colocaram Kael na cama de Lyra.
«Obrigada, Helga. Eu cuido dele.»
«Você tem alguma ideia do problema em que vamos nos meter se descobrirem que Kael está aqui?»
«Eu sei», Lyra respondeu, firme. «Mas assumo a responsabilidade, quero cuidar dele.»
Ela pegou uma bacia de água, uma toalha limpa e começou a colocar panos úmidos em sua testa, tentando aliviar sua febre e limpar suavemente suas feridas.
«Maldita seja, Lyra... Não quero estar na sua pele», Helga murmurou antes de sair, fechando a porta da pequena cabana atrás de si.
E assim, pelo resto da noite e boa parte da madrugada, Lyra permaneceu ao lado dele. Limpou cada ferida, monitorou sua respiração, acariciou sua pele em brasa... e protegeu seu sono como se sua vida dependesse disso.
A manhã seguinte chegou, e os primeiros raios de sol se filtravam pela janela daquela humilde cabana. Lyra, exausta de sua vigília, dormia reclinada na beira da cama, enquanto Kael, com esforço, abriu os olhos.
Que cheiro era aquele?
Confuso, Kael imediatamente percebeu que não estava na floresta... nem em sua mansão. Ele estava em uma cama desconhecida, mas aquele fedor... isso o enfureceu.
«Onde estou?», ele murmurou roucamente, sua garganta ardendo de secura.
Lyra acordou assustada e, ao vê-lo consciente, não pôde deixar de sorrir.
«Alfa...»
«Essa voz, esse cheiro. Esse maldito cheiro!» ele rosnou para si mesmo. De repente, ele tentou se sentar.
«Lyra! O que diabos estou fazendo na sua casa?!» ele rugiu, e em um instante, atirou a xícara de água para o outro lado do quarto. Com fúria descontrolada, varreu tudo ao seu alcance. Alguns pratos se estilhaçaram contra o chão.
«Kael... Alfa... por favor», Lyra cobriu a cabeça, aterrorizada.
«Por que você me trouxe da floresta? Por que não me deixou morrer lá?»
«Eu... eu te encontrei muito doente. Não pude te deixar assim. Por favor, você está ferido. Precisa descansar, precisa-»
«Não me peça para me acalmar, Lyra!», ele a interrompeu com um grito feroz. «Ninguém quer sua estúpida compaixão. Não quero estar neste maldito buraco... e especialmente não com você.»
«Kael... eu só queria te ajudar. Eles te expulsaram da matilha, eles querem você morto. Estou apenas tentando te proteger... como ninguém mais faria.»
Sua voz falhou, mas seus olhos permaneceram fixos nele. Não havia ódio em seu olhar; ele nunca a amou ou reconheceu seus sentimentos, ainda assim ela permaneceu firme no que sentia por ele.
«Não preciso de uma ômega de baixa patente como você para me ajudar, e especialmente não por compaixão!», Kael retrucou com desprezo. «Estou saindo desta maldita cabana fedorenta!»
Com esforço, ele tentou se levantar da cama, mas seu corpo, enfraquecido e quebrado, o traiu. Mal conseguiu se sentar antes de cair de volta no colchão com um grunhido de frustração.
Ele estava cego. Não conseguia se orientar, não via nada; seus olhos eram inúteis. Tudo o que lhe restava agora era o olfato, e o cheiro da casa de Lyra o desorientava, impedindo-o de se mover com segurança para qualquer lugar. Cheirava a pobreza, a resignação, a tudo o que ele abominara por toda a vida.
«Kael, por favor...» Lyra se aproximou para ajudá-lo, mas ele a afastou bruscamente.
«Não me toque! Prefiro morrer a ficar aqui com você. Você não passa de uma serva!»
Lyra baixou o olhar. As palavras de Kael a atingiram como lâminas; seu peito doía. Desde criança, ela o amava com uma força silenciosa e infinita, disposta a fazer qualquer coisa por ele. Mas todos riam de seu amor calado; ninguém levava a sério o desejo de uma ômega insignificante, muito menos ele, que sempre a olhara com desdém... como se sua existência fosse uma completa zombaria.
«Estou saindo daqui», Kael rosnou, e tentou se sentar mais uma vez. Mas suas pernas, fraturadas pelas surras que recebera antes de seu exílio, falharam. Ele perdeu o equilíbrio e caiu em direção ao chão.
Lyra, que estava por perto, reagiu imediatamente. Ela o abraçou por trás, segurando-o em seus braços antes que ele pudesse se chocar contra o chão.
Seu toque era quente; ela o abraçou, querendo protegê-lo.
«Não vou deixar que se machuque mais... mesmo que me odeie. Mesmo que deseje nunca ter acordado aqui. Não vou soltar você, Kael, estou aqui para cuidar de você sempre.»
Imediatamente, Kael sentiu o toque de Lyra queimá-lo. Um acesso de fúria excessiva percorreu seu corpo e, sem pensar, ele a empurrou com tanta violência que ela caiu no chão.
«Não preciso que você cuide de mim», ele rugiu, sua voz cheia de desprezo. «Se você fosse a última mulher na Terra, eu não me importaria. O fato de minha companheira ter me rejeitado não significa que eu agora notaria uma ômega tão insignificante quanto você. Prefiro morrer primeiro.»
Sem outra opção naquele momento, Kael, resignado e ferido no corpo e na alma, permaneceu na pequena cabana de Lyra. Jurou que, assim que suas feridas cicatrizassem, partiria sem olhar para trás. Enquanto isso, ela, com o coração dividido entre a dor e uma alegria silenciosa por tê-lo por perto, levantava-se ao amanhecer para cumprir seus deveres como serva no castelo da matilha.
Naquele dia, ela foi designada para limpar bem ao lado do escritório de Mirkay, o irmão mais novo de Kael. O mesmo traidor que incitara a matilha contra seu Alfa, manipulando e corrompendo para tomar o poder. De dentro do escritório, risadas ecoavam com arrogância. Mirkay brindava com Jordan, seu cúmplice mais próximo.
Lyra, com a vassoura na mão, fingia varrer o chão, embora na realidade seus ouvidos estivessem atentos.
«Pobre tolo!» Mirkay riu, cheio de escárnio. «Foi tão fácil. Ele me confiou tudo, como o idiota sentimental que sempre foi.»
A explosão de risadas ecoou no corredor, risadas tão cheias de desprezo por aquele que um dia foi o Alfa. E Lyra, cerrando os punhos, sentiu algo dentro de si começar a despertar.
«Ele nunca imaginou que você seria capaz de destroná-lo. Mas tome cuidado, meu amigo», Jordan alertou, baixando um pouco a voz. «Seu irmão é um Alfa forte. Estou convencido de que ele voltará. Os servos o viram escapar para a floresta... Kael ainda está vivo.»
Mirkay soltou uma gargalhada estrondosa, revirando os olhos arrogantemente.
«Isso não me preocupa. Ele está gravemente ferido; não irá longe. E eu já movi meus pauzinhos», disse ele, em tom venenoso. «Desta vez, ele não escapará. Eles arrancarão a cabeça dele, e com ele, qualquer esperança de alguém vir disputar este trono... um trono que eu conquistei com inteligência, um trono que será meu para sempre.»
Ele ergueu seu copo com um sorriso malicioso. Jordan brindou o dele com entusiasmo.
Do corredor, Lyra mal conseguia conter o tremor nas pernas. O que acabara de ouvir gelou seu sangue. Ela deu um passo para trás, pronta para correr, mas ao fazê-lo, a vassoura caiu a seus pés com um baque surdo que quebrou o silêncio.
O som alertou Mirkay, que imediatamente virou a cabeça. E a encontrou.
«Bem, o que temos aqui?» ele murmurou ironicamente ao vê-la. «Ora, ora... se não é a pequena Ômega que sempre olhou para meu irmão como se ele fosse um deus.»
Seus olhos a percorreram com desprezo, mas também com desejo. Lyra, paralisada, baixou o olhar, sem saber como escapar.
«Como é saber que o homem que você ama está prestes a morrer?» ele sussurrou cruelmente.
Lyra empalideceu, sua voz presa na garganta. Sentiu o coração bater violentamente, ameaçando se partir.
«Senhor... eu... eu não sei o que o senhor quer dizer», ela gaguejou, temendo que suas palavras a condenassem.
Mirkay se aproximou com passos lentos e predatórios. Ele pegou o queixo dela entre os dedos, forçando-a a levantar o rosto. Ao ver seus olhos grandes e úmidos, sua beleza pura e sedutora, sentiu um impulso primitivo. Suas pupilas dilataram e seu olhar se tingiu de um assustador vermelho escarlate.
«Lyra, Lyra! A pequena Ômega... Como você é linda», Mirkay disse com um sorriso distorcido que fez a pobre garota se arrepiar. Jordan ergueu as mãos em resignação, lançando ao Alfa um olhar cúmplice.
«Estou indo, irmão. Aproveite sua... 'festa'», disse ele antes de sair do escritório.
Lyra balançou a cabeça, ainda tremendo.
«Eu... eu tenho que ir, senhor.»
Mas os olhos de Mirkay já estavam fixos nela como facas. Se seu irmão moribundo não soubera valorizá-la, ele certamente o faria... à sua maneira. Com um olhar aceso de desejo perverso, ele avançou como um predador.
«Venha aqui, pequena. Se Kael não a fez se sentir mulher... eu farei questão de fazê-lo.»
«Não! Espere... o que você está fazendo?» Lyra recuou, mas ele foi mais rápido. Ele agarrou seus braços e a puxou para si violentamente, forçando-a a sentir sua respiração e sua força. Seus lábios ásperos e pesados se chocaram contra os dela.
Ela se debateu, chutou, lutou desesperadamente. Embora fosse forte, não conseguia igualar a brutalidade daquele lobo enlouquecido que afiava suas presas a cada tentativa de Lyra de resistir.
«Você será minha, Lyra! Você não pode resistir», ele rosnou, sua voz baixa e perigosa.
Suas mãos a apalparam sem piedade. Repulsa e desamparo se misturaram no peito de Lyra até que, desesperada, ela conseguiu arranhar o rosto dele com toda a força que lhe restava.
«Maldita seja!» Mirkay rugiu, o arranhão queimando em seu rosto.
A fúria irrompeu. Com um golpe, ele a derrubou. O punho de Mirkay quebrou a boca dela e Lyra caiu no chão, sangrando e com dor. Mas ela não cedeu. Com um chute, ela o fez tropeçar. Foi sua única vantagem, mas durou apenas segundos.
Ele avançou novamente, agarrou-a pelos cabelos e a arrastou para seu corpo, prendendo-a. E então, ele a atingiu com uma cabeçada, quebrando o nariz da mulher indefesa, e o sangue fluiu ainda mais violentamente. Lyra estremeceu de medo.
«Ah!» ela gritou, impotente para se libertar.
Mirkay não parou. Ele estava possuído pela crueldade, pelo desejo de destruição. Não ouvia nada além de sua própria respiração enlouquecida, ignorando os gemidos de Lyra, que, embora completamente espancada e destroçada, continuava a lutar.
E justamente quando Mirkay estava prestes a arrancar suas roupas, Lyra conseguiu agarrar o cabo da vassoura. Com a força desesperada de uma Ômega encurralada, ela lhe desferiu um golpe brutal na cabeça. O impacto ressoou surdamente, e o corpo do Alfa caiu no chão como um saco de carne inerte.
Sem perder um segundo, Lyra correu para fora do castelo. Ela sabia que tanto sua vida quanto a de Kael estavam por um fio.
Ela abriu a porta da cabana violentamente, e Kael, percebendo seu cheiro alterado e o rastro inconfundível de sangue, imediatamente se sentou. Ele franziu a testa, alarmado.
«O que diabos aconteceu com você, Lyra? Você está ferida?», ele perguntou, com um tom um tanto preocupado, surpreendendo-a. Mas não havia tempo para explicações.
«Temos que ir, Kael. Agora.»
«O quê?» ele gaguejou, ainda atordoado, guiado pelo cheiro dela.
Lyra foi até o guarda-roupa, abriu a porta com força e enfiou as primeiras coisas que encontrou em uma mala: documentos, algumas roupas, itens essenciais. Em seguida, abriu um baú escondido e pegou todas as suas economias. Ela havia trabalhado por anos esperando pagar a faculdade, mas agora, tudo o que importava era a sobrevivência.
«Vamos, Alfa!» ela disse com determinação, pegando o braço dele.
Kael grunhiu de dor, sentindo algo sombrio no ar, mas ele a deixou guiá-lo. Ela o ajudou a entrar no carro, fechou a porta e o ligou com força. O motor rugiu enquanto eles deixavam a cabana para trás.
Mas eles não haviam ido longe quando, pelo retrovisor, Lyra viu as luzes de vários carros se aproximando; eram os soldados do castelo se aproximando.
Lyra pisou fundo no acelerador, e a estrada se tornou insuficiente para a velocidade com que fugiam. Ela olhou novamente pelo retrovisor: os veículos ainda estavam atrás deles.
Um dos soldados do rei sacou uma arma e começou a atirar neles.
«Vão nos matar», Lyra disse, pisando ainda mais no acelerador.
Kael, agarrado à maçaneta da porta, encolheu os ombros.
«Não resista, Ômega. É a melhor coisa que poderia nos acontecer. Se continuar a desafiá-los, nosso destino final será ainda mais cruel.»
«Droga... só resta uma opção», Lyra pensou, avistando o cruzamento que se abria à frente deles. Uma estrada levava ao mundo dos lobos; a outra, ao desconhecido: o mundo humano. Eles não tinham escolha. Ela sabia que, se pegassem aquela rota, os soldados não os seguiriam; eles temiam o que residia do outro lado.
Sem pensar duas vezes, ela tomou uma decisão.
«Lyra, que estrada você pegou?» Kael perguntou, franzindo a testa com o cheiro que emanava do asfalto.
«O mundo humano, meu Alfa. Não temos outra saída.»
«O quê?» Kael encostou a cabeça no encosto e praguejou silenciosamente. No fundo, ele sabia que para um Alfa marcado pela deficiência e uma Ômega como ela, o desconhecido era a única alternativa.
Lyra não tinha certeza para onde se dirigiam. Ela só ouvira lendas sobre os corajosos que arriscavam tudo e viviam para contar suas histórias naquele outro mundo.
Quando chegaram à cidade, seus olhos se perderam entre os imponentes edifícios, as luzes ofuscantes e o incessante burburinho de carros que enchiam as ruas. Era perfeito. Um lugar ideal para passar despercebidos.
Ela pegou o celular e procurou um lugar para alugar nas proximidades. Determinada, dirigiu até uma casa antiga nos subúrbios da cidade, um dos poucos lugares que se encaixavam em seu orçamento apertado. Pequenos apartamentos eram alugados ali, algo estranho para dois seres acostumados a florestas intermináveis e espaços abertos, mas por enquanto, era a única possibilidade.
«São quinhentos por mês», uma mulher de aparência rude anunciou enquanto lhes entregava um molho de chaves e os observava com desconfiança. «Não quero escândalos neste lugar.»
Lyra aceitou as chaves com um sorriso forçado e pegou a mão de Kael.
«Não terá nenhum, eu garanto.»
Kael continuou a farejar o ar. Tudo lhe era repulsivo: o cheiro de umidade, de confinamento, e aquela mistura indescritível de cheiros humanos que se filtravam dos outros apartamentos. Com um gesto de desgosto, ele soltou a mão de Lyra.
«Me deixe.»
Ela abriu a porta do pequeno apartamento. Havia gastado grande parte da metade de suas economias no aluguel do primeiro mês e nos itens essenciais para sobreviver, mas não se importava. Ali, pelo menos, estariam seguros.
«Que lugar podre é este, Lyra?» Kael protestou, apoiando-se pesadamente no ombro dela. Ele continuou praguejando em voz baixa.
«É o que conseguimos com o que tínhamos», ela respondeu, tentando soar serena. «Mas prometo que estaremos seguros aqui, pelo menos por um tempo... até você se recuperar. Este será nosso refúgio.»
Lyra olhou ao redor com esperança, enquanto Kael desabava em uma poltrona velha e desgastada.
«Você chama isso de refúgio?» ele cuspiu com desprezo. «Prefiro estar acorrentado na maldita masmorra do meu irmão do que viver neste lixo. Prefiro estar morto!»
Lyra ofereceu um leve sorriso. A aspereza de Kael não a afetava.
«Bem, você terá que se acostumar, Kael, porque eu não vou deixar você morrer.»
Enquanto falava, ela começou a arrumar algumas coisas em um armário improvisado no canto do quarto. Kael, de costas, zombou com irritação distorcida.
«Maldita a minha sorte», ele murmurou.
«Não me importa o que você diga, Alfa. Gastei todo o meu dinheiro para te trazer para cá, para te curar, para te alimentar. Agora você me pertence. Você me deve.»
«Não te devo nada, Lyra. Não te pedi nada. Você é igual aos outros», Kael retrucou, com profunda raiva na voz.
Um silêncio tenso pairou. Kael não encontrou mais palavras para se defender. No fundo, ele sabia que ela estava certa. Lyra era a única que havia feito algo por ele ultimamente, embora seu orgulho o impedisse de admitir.
«Estou te avisando, simples Ômega... eu poderia quebrar seu pescoço a qualquer momento», Kael rosnou entre dentes cerrados, de repente sentando-se ereto, consumido pela raiva.
Lyra interrompeu o que estava fazendo e se aproximou dele. Em vez de recuar ou tremer, ela o abraçou e repousou a cabeça em seu peito. Ela suspirou suavemente.
«Precisamos sobreviver, meu querido Alfa. Mesmo que seja difícil para você aceitar, só temos um ao outro.»
Kael afastou os braços dela bruscamente e recuou dois passos.
«Não me toque. Você me enoja, Ômega. Já te disse muitas vezes: prefiro estar morto a viver neste lugar imundo. Não sei por que permiti que você me trouxesse para cá.»
Lyra não respondeu. Em vez disso, ela sorriu levemente e caminhou em direção ao banheiro, ignorando os gritos de Kael e o olhar desdenhoso que ele lhe lançava.
«Vou tomar um banho antes de dormir», ela anunciou calmamente, fechando a porta atrás de si.
Em frente ao espelho, ela soltou lentamente o cabelo. Então, algo estranho começou a acontecer com ela. Suas pernas de repente falharam e um estalo agudo subiu pelo seu pescoço. Tontura a forçou a se agarrar à pia. O calor subiu por sua pele como uma febre súbita.
Ela pegou um punhado de água e jogou no rosto.
«Droga... deve ser cansaço», ela repetiu para si mesma, mas algo em seu corpo lhe dizia que não era só isso. A água fria não era suficiente para aplacar o que a percorria, e a sensação que a invadia parecia ir muito além do esgotamento da viagem.
O calor começou a subir do centro de seu corpo, perfurando sua pélvis com uma queimação insuportável. Sua testa suava, e de repente, o ar pareceu rarefeito.
«Não... agora não...»
Suas mãos, movidas por um impulso que não conseguia controlar, começaram a explorar suas calças, procurando em toda aquela área onde o fogo era mais intenso. Suas bochechas ardiam, e seus seios endureceram como carvalho, causando-lhe dor.
«Não, agora não! Não!» ela gritou internamente, desesperada.
Ela se agarrou à pia, ofegante. Quando olhou para cima, suas pupilas estavam dilatadas, brilhando com um vermelho acobreado. Ela soube imediatamente: a proximidade de Kael havia apressado seu cio. E com ele, veio uma urgência absoluta. Se ela não resolvesse, poderia morrer.
«Droga... eu consigo controlar.»
Ela abriu abruptamente a torneira; a água fria guinchou ao sair e se chocou contra sua pele, mas mal conseguiu apaziguar o fogo que a consumia. Ela tentou respirar, se concentrar, mas o desejo a sufocava.
Então, a porta se abriu de repente.
Kael apareceu com os olhos semicerrados, o rosto tenso, respirando pesadamente também-«Que... que diabos é esse cheiro?», ele retrucou, desesperado.
O cheiro que Lyra emitia o envolveu como uma labareda. Era selvagem, doce, como fumaça de fogueira misturada com mel silvestre. Um perfume tão antigo que despertava a parte mais profunda de seu ser. Seu lobo, adormecido até aquele momento, rugiu dentro dele.
Lyra se virou, e um de frente para o outro, eles souberam.
A conexão era inegável. Instintiva. Dolorosamente real.
Ela... ela era sua segunda companheira destinada.