Esta noite, meu namorado de sete anos, Bernardo Castilho, deveria me pedir em casamento. Nosso futuro era um quadro perfeito, planejado nos mínimos detalhes.
Mas uma única ligação despedaçou tudo. Uma voz misteriosa o convenceu de que eu era uma interesseira que o levaria à ruína, e que outra mulher, Jéssica Fontes, era sua verdadeira alma gêmea.
Ele cancelou nosso noivado na mesma hora.
Isso foi apenas o começo do meu pesadelo. Fui perseguida por um homem obcecado por Jéssica, um confronto que terminou comigo caindo de um terraço e estilhaçando meu braço. Depois, fui sequestrada por uma agência suspeita, presa por um contrato que Jéssica havia assinado em meu nome. Eu estava vivendo o destino horrível que era para ser dela.
Bernardo, o homem que me prometeu a eternidade, me abandonou para sofrer enquanto defendia a mesma mulher que orquestrou meu tormento.
Deitada em uma cama de hospital, recebi uma carta de aceitação para uma bolsa de estudos de design em Paris. Era minha única fuga. Eu aceitei, deixando para trás o homem que me destruiu e a vida que ele arruinou.
Capítulo 1
O ar no grande salão de festas da universidade estava denso de expectativa. Não apenas pelos discursos inevitáveis, o tilintar das taças de champanhe ou as despedidas finais. Para mim, Amanda Siqueira, era por um único momento: Bernardo Castilho, meu namorado há sete anos, se ajoelhando. Todo mundo sabia que ia acontecer. Os sussurros nos seguiam como uma segunda sombra. Bernardo, o queridinho da cidade, herdeiro de uma fortuna imobiliária, e eu, sua talentosa namorada estudante de design de moda. Esta noite era a nossa noite. O nosso futuro.
Eu o observava do outro lado do salão, seu cabelo escuro capturando a luz, seu perfil nítido e confiante enquanto conversava com um reitor. Meu coração martelava, um tambor frenético contra minhas costelas. Sete anos. Uma vida inteira para nós. Tínhamos planejado tudo, cada detalhe de nossas vidas, até o tipo de cachorro que teríamos. Alisei o tecido do vestido que eu mesma desenhei, uma seda rosa-claro suave que brilhava a cada respiração. Era minha ode ao nosso amor, ao futuro em que eu acreditava.
Então, o celular dele vibrou. Ele olhou, uma sombra de irritação em seu rosto, depois se desculpou, indo para o nicho mais silencioso perto da entrada principal. Tentei não encarar, mas meus olhos estavam grudados nele. Ele atendeu, sua voz baixa, quase um sussurro. Eu mal conseguia distinguir as palavras, mas a tensão em seus ombros era uma linguagem que eu entendia. Algo estava errado.
"Não, isso é impossível", Bernardo murmurou, de costas para mim. Sua mão se fechou em torno do telefone, os nós dos dedos brancos. "Como... como você sabia disso?" Houve uma pausa, um silêncio longo e agonizante. Minha respiração ficou presa. Ele estava ouvindo, realmente ouvindo, o que quer que estivesse sendo dito do outro lado.
"Amanda? Uma interesseira?" Sua voz estava mais alta agora, com um tom que eu não conseguia identificar - descrença, talvez, mas também uma pitada arrepiante de consideração. "Ela me levaria à falência?" As palavras cortaram o zumbido da festa, encontrando seu caminho até mim. Meu sangue gelou. Interesseira? Eu? Senti uma onda de náusea.
Ele ouviu novamente, a cabeça baixa. "Jéssica Fontes? Minha verdadeira alma gêmea?" Minha visão embaçou. Jéssica Fontes. Uma bolsista. O nome dela era como um caco de vidro no meu ouvido. A família de Bernardo a patrocinava. Ela era uma colega de design, sempre por perto, sempre um pouco próxima demais.
"O acidente... você previu?" A voz de Bernardo era quase inaudível, mas eu ouvi. O pequeno acidente de carro que ele teve na semana passada, uma batida leve que o abalou mais do que ele admitiu. Ele tinha descartado como má sorte. Mas agora... a pessoa na linha tinha previsto? Um arrepio percorreu minha espinha. A conversa continuou, abafada e urgente. Eu não conseguia ouvir as frases exatas, mas a postura de Bernardo enrijeceu ainda mais. Ele continuava olhando na minha direção, uma estranha mistura de suspeita e confusão em seus olhos.
Meu coração parecia estar se partindo, pedaço por pedaço agonizante. Interesseira? Levá-lo à falência? Jéssica Fontes? Minha mente girava. O que era isso? Uma piada cruel? Um mal-entendido? Eu queria correr até lá, exigir respostas, mas meus pés estavam presos no chão, pesados como chumbo.
Ele encerrou a ligação, lentamente, como se estivesse em transe. Ele se virou, seus olhos varrendo o salão, e então pousaram em mim. O calor havia desaparecido. Substituído por um olhar frio e calculista que eu nunca tinha visto direcionado a mim. O olhar de um estranho. Ele começou a andar em minha direção, e eu me preparei, meu estômago se revirando.
"Amanda", ele disse, sua voz plana, desprovida de emoção. "Eu... eu não posso fazer isso."
Meu mundo inclinou. "Fazer o quê, Bê?" sussurrei, minha garganta apertada. Eu sabia. Eu já sabia.
"O pedido. Esta noite. Está cancelado." Suas palavras eram concretas, pesadas, como pedras jogadas em águas paradas.
Meus joelhos fraquejaram. Agarrei as costas de uma cadeira próxima para me firmar. O vestido de seda rosa de repente pareceu uma mortalha. Eu o encarei, procurando em seus olhos qualquer vestígio do homem que eu amava, o homem que me prometeu a eternidade. Não havia nada. Apenas um muro.
Lembrei-me de Jéssica. Ela estava sempre lá, uma presença silenciosa. Eu a via com frequência no ateliê de design, seus olhos, embora geralmente baixos, pareciam seguir Bernardo. De repente, cada olhar demorado, cada risada compartilhada que Bernardo teve com ela, passou pela minha mente como uma montagem horrível. Ele a mencionava com frequência, como ela era trabalhadora, como era grata pela bolsa de estudos de sua família. Eu tinha descartado como gentileza. Agora, uma sensação doentia se contorcia em meu estômago.
Ele era o meu Bernardo. Meu Bernardo estável e amoroso. Ele não acreditaria em mentiras tão maliciosas. Acreditaria? Minha mente gritava, mas meus lábios permaneceram selados. Lembrei-me de uma conversa que tivemos na semana passada, sentados em um banco de parque. Ele havia confessado sua insegurança mais profunda, um medo de que as pessoas estivessem apenas atrás do dinheiro de sua família. Eu tinha rido, garantindo-lhe que meu amor era real, que sua riqueza não significava nada para mim. Ele sorriu, apertando minha mão, parecendo tranquilizado. Agora, essa mesma insegurança estava sendo usada como arma contra mim.
Bernardo viu o choque em meu rosto. Ele estendeu a mão para tocar meu braço, mas eu me afastei, como se estivesse queimada. Sua mão caiu. "Amanda, eu..."
Antes que ele pudesse terminar, uma voz suave interrompeu. "Bernardo? Está tudo bem? Eu vi você sair." Jéssica Fontes estava ao nosso lado, seus olhos grandes e inocentes, uma pequena carranca preocupada em seu rosto. Ela olhou diretamente para Bernardo, ignorando-me completamente.
A expressão de Bernardo suavizou, uma mudança sutil que pareceu um soco no meu estômago. "Jéssica. Está tudo bem. Só... uma ligação rápida." Ele ofereceu a ela um sorriso pequeno e tranquilizador. Era um sorriso que ele costumava reservar para mim.
Minha garganta estava se fechando. Eu não conseguia respirar. Senti-me presa, sufocada pelo perfume forte dos outros convidados, pelo tilintar dos copos. Meus olhos dispararam entre eles. O jeito que Bernardo olhava para ela, o jeito que ela olhava para ele. As palavras do interlocutor ecoaram: Jéssica Fontes, sua verdadeira alma gêmea.
Ele me viu olhando para ela, depois de volta para ele. Um lampejo de culpa, ou talvez apenas exasperação, cruzou seu rosto. "Amanda, preciso de um pouco de espaço. Podemos conversar mais tarde."
"Espaço?" Minha voz era pouco mais que um sussurro rouco. "Depois de sete anos? Esta noite?"
Ele não respondeu. Ele se virou ligeiramente, sua atenção já se desviando de volta para Jéssica, que agora puxava sutilmente sua manga, seus olhos ainda arregalados com falsa preocupação.
Meu olhar pousou na bolsa de mão de Jéssica. Um pequeno e intrincado bordado de uma fênix renascendo das chamas. Era surpreendentemente semelhante a um motivo que eu vinha desenvolvendo para minha coleção final, um símbolo da minha própria resiliência. Eu tinha mostrado a Bernardo alguns esboços no mês passado, animada com seu potencial. Uma onda fria me percorreu. Não. Não podia ser.
"Esse design é seu, Jéssica?" perguntei, minha voz perigosamente uniforme.
Jéssica olhou para sua bolsa, depois de volta para mim, um sorriso minúsculo, quase imperceptível, brincando em seus lábios antes de desaparecer. "Ah, isso? Apenas algo que eu fiz. Sempre amei fênix, sabe?" Ela inclinou a cabeça, seu olhar desafiador, mas envolto em falsa inocência.
Bernardo interveio, sua voz mais áspera do que eu já tinha ouvido direcionada a mim. "Amanda, o que há de errado com você? É só uma bolsa." Ele olhou para Jéssica se desculpando. "Jéssica trabalhou tanto. Ela merece se expressar."
"Trabalhou tanto? Ou copiou?" sibilei, as palavras com gosto de cinzas na minha boca.
A mandíbula de Bernardo se contraiu. "Já chega. Você vai acusar todo estudante de design de te copiar agora? Só porque a Jéssica é talentosa não significa que ela está roubando de você." Ele colocou uma mão reconfortante no braço de Jéssica. "Não se preocupe com ela, Jéssica. A pressão está a afetando. Nós vamos ficar bem. Certo?" Ele olhou para Jéssica, que assentiu docilmente, seus olhos ainda baixos.
A negação pública, a defesa imediata de Jéssica, o descarte dos meus sentimentos. Foi um golpe triplo. Meu coração, já machucado, parecia finalmente estar se estilhaçando. Ele não apenas cancelou o pedido. Ele cancelou a gente. E ele fez isso na frente dela.
"Não há nada para conversar, Bernardo", eu disse, minha voz oca. "Acho que entendi tudo o que preciso saber." Virei-me, ignorando sua expressão atordoada, ignorando o olhar triunfante de Jéssica. Saí do salão de festas, longe das luzes brilhantes, longe dos pedaços estilhaçados do meu sonho de sete anos.
Meu celular vibrou na minha mão. Era um e-mail. A prestigiosa bolsa de estudos de design de moda da École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne. Eu havia me inscrito meses atrás, um plano B, uma esperança selvagem. Eu quase tinha me esquecido. Parabéns, Amanda Siqueira. Seu talento lhe garantiu uma vaga.
Parei na saída, o ar frio da noite batendo em meu rosto. Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Bernardo queria que eu abandonasse minha carreira após a formatura, para focar em sua família, em nosso futuro. Ele disse que sempre apoiaria meus sonhos, mas esta noite, ele me mostrou o que seu apoio realmente significava.
Respirei fundo, o frio cortando meus pulmões. Meus dedos voaram pela tela. Aceitar bolsa. Estarei aí. Não havia mais volta.
POV Amanda:
A dor da traição de Bernardo persistia como um membro fantasma, uma dor constante sob a superfície. Fazia semanas desde a festa de gala, semanas desde a última vez que realmente falei com ele. Ele tentou, algumas mensagens de texto sem entusiasmo, uma ou duas mensagens de voz, mas suas palavras pareciam vazias, desprovidas da sinceridade que eu um dia apreciei. Eu era um fantasma assombrando minha própria vida, empacotando minhas coisas, me preparando para Paris, enquanto a universidade parecia um campo de batalha onde eu estava constantemente desviando de memórias.
Uma tarde, eu estava desenhando sozinha no ateliê de design deserto, me perdendo nas linhas e sombras, quando uma sombra caiu sobre minha página.
"Amanda? Finalmente te peguei sozinha."
Olhei para cima e vi Derek, um paquerador notório do departamento de história da arte. Ele vinha tentando chamar minha atenção há meses, apesar de saber que eu estava com Bernardo. Seu sorriso era predatório, seus olhos intensos demais.
"Derek", eu disse, minha voz plana. "O que você quer?"
"Só queria ver se os rumores eram verdadeiros", disse ele, encostado na porta, bloqueando minha saída. "Bernardo Castilho finalmente mostrou suas verdadeiras cores, hein? Eu te disse que ele não valia a pena." Ele deu um passo mais perto, seu olhar percorrendo meu corpo, fazendo minha pele arrepiar. "Mas sabe, o lixo de um homem é o tesouro de outro."
Levantei-me, juntando meus esboços. "Não estou interessada."
Ele riu, um som baixo e desagradável. "Ah, vamos lá, Amanda. Não me diga que você vai simplesmente se esconder e lamber suas feridas. Bernardo é um tolo. Você é linda, talentosa. Você merece mais do que ser escondida." Ele estendeu a mão, roçando meu braço.
Eu recuei, dando um passo brusco para trás. "Não me toque."
Seu sorriso vacilou, um lampejo de raiva em seus olhos. "O quê, ainda bancando a noiva fiel? Ele te largou, Amanda. Todo mundo sabe. Você está livre agora. E eu sempre quis um pedaço desse prêmio."
Meu coração disparou. Isso não era mais apenas flerte. Isso era invasivo.
De repente, a porta se abriu com um estrondo. Bernardo estava lá, seu rosto furioso. "Que porra está acontecendo aqui?" ele rosnou, seus olhos fixos em Derek.
Derek pulou, assustado. Seu sorriso predatório desapareceu rapidamente, substituído por um sorriso nervoso. "Castilho. Só... admirando o trabalho da Amanda."
"Saia", Bernardo rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Antes que eu chame a segurança do campus."
Derek, vendo a fúria genuína nos olhos de Bernardo, não discutiu. Ele me lançou um último olhar perturbador antes de sair do ateliê.
Bernardo se virou para mim, sua raiva mudando, se transformando em uma possessividade familiar e sufocante. "O que você estava fazendo com ele, Amanda? Já flertando com outros homens?"
Eu o encarei, perplexa. "Flertando? Ele estava me assediando, Bernardo. E o que você está fazendo aqui? Pelo que me lembro, você precisava de 'espaço' de mim."
Ele passou a mão pelo cabelo escuro, a frustração estampada em seu rosto. "Eu estava preocupado com você! Você não tem atendido minhas ligações. Eu ouvi o que aquele nojento estava dizendo."
"Ah, então você ouviu isso? Mas não a parte em que ele me chamou de interesseira? Ou como a Jéssica é sua alma gêmea?" As palavras saíram, cruas e amargas.
Ele se encolheu. "Amanda, isso é diferente. Aquilo foi... um mal-entendido."
"Um mal-entendido?" Eu ri, um som áspero e sem humor. "Certo. Assim como o design 'original' da fênix da Jéssica, que misteriosamente se materializou semanas depois que eu te mostrei o meu."
Seus olhos se estreitaram. "Não comece com a Jéssica. Ela é inocente em tudo isso. Ela é vulnerável. Minha família a patrocina, Amanda. É minha responsabilidade protegê-la."
"E quanto à sua responsabilidade comigo? Sua noiva?" A palavra parecia uma mentira na minha língua.
Ele desviou o olhar, a mandíbula tensa. "Eu... eu cometi um erro naquela noite. Eu estava confuso. Mas isso não significa que eu não me importo com você. Eu me importo. Temos sete anos, Amanda. Sete anos."
Era a mesma velha canção. Ele se importava, mas estava confuso. Ele se importava, mas estava defendendo Jéssica. Ele se importava, mas tinha cancelado nosso futuro por causa de uma ligação enigmática.
Meu celular vibrou no meu bolso. Uma nova mensagem. De Bernardo.
*Me desculpe, Amanda. Por tudo. Eu sei que estraguei tudo. A Jéssica na verdade precisa de ajuda com o aluguel este mês, o dinheiro da bolsa não é suficiente. Estou apenas tentando garantir que ela esteja bem. É difícil para ela, sabe? Mas isso não significa que eu não te amo. Sinto sua falta. Por favor, podemos conversar? Venha para minha casa esta noite. Prometo que vou compensar você.*
Eu li a mensagem, meus olhos percorrendo as palavras. *Jéssica precisa de ajuda com o aluguel... dinheiro da bolsa não é suficiente... difícil para ela.* Era sempre sobre Jéssica agora. Suas promessas, suas tentativas de reconciliação, sempre entrelaçadas com sua necessidade de "protegê-la". E a menção de sua casa, uma oferta para "compensar" a mim, parecia manipuladora, uma maneira de me puxar de volta para sua órbita.
Olhei para Bernardo, parado diante de mim, seu rosto uma mistura de remorso e exasperação. Ele ainda não entendia. Ele ainda achava que poderia ter ambos: eu, e sua "responsabilidade" com Jéssica. Ele ainda não conseguia ver a podridão que havia se instalado.
"Bernardo", eu disse, minha voz calma, quase distante. "Não se preocupe com o aluguel da Jéssica. Tenho certeza de que você cuidará disso."
Ele franziu a testa, confuso. "Claro que vou. Mas e nós?" Ele deu um passo em minha direção, sua mão se estendendo.
Eu balancei a cabeça, evitando seu toque. "Não existe 'nós', Bernardo. Não mais." Apaguei a mensagem de texto dele sem pensar duas vezes. A tela piscou e depois ficou em branco.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Tinha acabado. Verdadeiramente, finalmente acabado.
POV Amanda:
Um grito agudo rasgou meu sono, me arrastando violentamente de volta à consciência. Minha colega de quarto, Clara, estava me sacudindo. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de terror.
"Amanda! Acorda! É o Derek! Ele... ele está no telhado da Torre Sul! Ele está ameaçando pular!" Sua voz era um sussurro frenético.
Torre Sul. O prédio mais alto do campus, onde o departamento de arquitetura tinha suas aulas de ateliê. Meu estômago despencou. Derek. O perseguidor obsessivo que me encurralou no ateliê de design semanas atrás.
"O quê? Por quê?" Saí da cama, minha mente a mil.
"Ele está dizendo... ele está dizendo que vai fazer isso se você não for lá!" Clara torcia as mãos. "A polícia está aqui, a segurança do campus. Eles estão tentando convencê-lo a descer, mas ele só fica gritando seu nome! Ele diz que você é a única que o entende!"
Meu sangue gelou. Isso era loucura. Eu mal tinha falado com Derek, muito menos lhe dado qualquer motivo para acreditar que eu o "entendia". Mas suas palavras, as que ele gritou para mim sobre Bernardo, sobre eu estar "livre", agora ecoavam em meus ouvidos com um novo e arrepiante significado.
Antes que eu pudesse processar completamente, meu celular vibrou. Era a Professora D'Ávila, a coordenadora do meu curso.
"Amanda, você precisa vir aqui agora", sua voz estava tensa, urgente. "Derek está exigindo falar com você. Ele está instável. A polícia acha que sua presença pode acalmar a situação. Já tentamos de tudo."
Minha mente gritava não. Isso não era minha culpa. Eu não pedi por isso. Mas a ideia de alguém morrer, e meu nome ser o último em seus lábios, era um fardo pesado. "Estou indo", eu disse, minha voz mal um sussurro.
Clara me levou, suas mãos brancas nos nós dos dedos no volante. O campus estava fervilhando de luzes piscando – carros de polícia, ambulâncias. Uma multidão se formou, seus rostos virados para cima, morbidamente fascinados. Meu coração batia com uma mistura de medo e pavor. Isso não estava acontecendo.
Chegamos à base da Torre Sul. A Professora D'Ávila correu em minha direção, seu rosto uma máscara de preocupação. "Amanda, graças a Deus você está aqui. Ele está ficando mais agitado."
"Professora, eu não entendo isso", eu disse, minha voz tremendo. "Eu mal o conheço. Ele... ele estava me assediando."
Ela suspirou, tocando meu braço. "Eu sei, querida. Mas ele parece ter fixado em você. Ele está convencido de que você é a única que pode ajudá-lo. Por favor. Apenas fale com ele." Seus olhos suplicavam aos meus. O peso da responsabilidade pousou em meus ombros.
Uma policial, uma mulher de rosto severo, se aproximou. "Sra. Siqueira. Precisamos que você suba. Devagar. Não faça movimentos bruscos. Apenas ouça o que ele tem a dizer." Ela me entregou um pequeno fone de ouvido. "Estaremos ouvindo. Vamos te guiar."
A viagem de elevador parecia interminável. Cada andar passava, uma contagem regressiva para algo aterrorizante. Quando as portas se abriram, o vento uivou, chicoteando meu cabelo em volta do meu rosto. O telhado era austero, concreto e metal. E lá, na beirada, estava Derek.
Ele era uma silhueta contra o céu tempestuoso, seus braços estendidos, seu corpo balançando precariamente. Suas roupas estavam desgrenhadas, seu cabelo selvagem. Ele parecia totalmente desesperado.
"Amanda! Você veio!" ele gritou, sua voz rouca, ecoando pelo telhado. "Eu sabia que você viria!"
Meu coração martelava. "Derek", eu disse, tentando manter minha voz calma, embora meu interior estivesse tremendo. "Por favor, saia da beirada."
Ele se virou, seus olhos vidrados, injetados de sangue. "Eles não entendem! Ninguém entende! Mas você entende, Amanda. Você é como eu! Deixada de lado, abandonada!"
"Não, Derek, eu não sou", eu disse, caminhando lentamente em sua direção, seguindo as instruções da policial pelo fone de ouvido. "Eu sei que as coisas estão difíceis, mas esta não é a resposta."
"Ele te abandonou! Assim como eles me abandonaram!" ele gritou, seu olhar selvagem. "Mas podemos ficar juntos, Amanda! Podemos começar de novo! Só você e eu!" Ele deu um passo em minha direção, longe da beirada, mas depois outro passo, e outro, muito rápido.
"Derek, pare!" gritei, meu coração pulando para a garganta. Mas ele estava perdido demais. Ele se lançou, não em mim, mas passando por mim, em direção a algo invisível.
Naquela fração de segundo, uma comoção explodiu atrás de mim. Um policial, movendo-se muito rápido, muito de repente, esbarrou em mim. Perdi o equilíbrio. Meu corpo se inclinou para frente, desequilibrado.
Um grito rasgou meus pulmões quando o chão sob mim desapareceu. Senti a horrível e enjoativa corrente de ar, a sensação aterrorizante de cair. Minhas mãos se debateram, agarrando o nada.
Então, uma dor lancinante explodiu em meu braço direito quando atingi algo duro - um toldo, uma saliência, eu não sabia. Meu impulso mudou, mas a queda não parou. Eu rolei, batendo no chão com um baque doentio. O mundo girou. Minha cabeça bateu no concreto.
Uma dor aguda e insuportável percorreu meu braço, seguida por uma dor surda e latejante que se espalhou por todo o meu corpo. Tentei me mover, mas não consegui. Minha visão embaçou, os sons se tornaram abafados. Eu estava deitada no chão frio e duro, olhando para o céu, que agora era uma tela giratória de preto e cinza.
Fracamente, como um eco de outra dimensão, ouvi vozes.
"Bernardo, o que você fez?!" Era a voz de um homem, cheia de acusação furiosa. Parecia Bernardo, mas mais velho, mais áspero.
"Do que você está falando? Eu não fiz isso!" Era a voz de Bernardo, crua de pânico.
"Este era o destino dela, Bernardo! Da Jéssica! A queda, o ferimento, o perseguidor! Era tudo para a Jéssica! Mas você tinha que interferir, não é? Você tinha que mudar seus afetos, mudar a linha do tempo!" A voz mais velha era um rosnado de frustração. "Você desviou o sofrimento dela para a Amanda!"
Minha mente, já desvanecendo, agarrou-se às palavras. *O destino dela... da Jéssica... desviado para a Amanda.* O interlocutor. O "eu do futuro". Era isso que ele queria dizer? Essa era a "evidência"? Meu sofrimento era uma transferência? Uma troca cármica? Porque Bernardo tinha escolhido Jéssica?
"Não! Isso não é verdade! Eu amo a Amanda!" A voz de Bernardo estava cheia de uma negação desesperada.
"Ama ela? Você chama isso de amor, Bernardo? Você a abandonou quando ela mais precisava de você. Você acreditou nas mentiras sobre ela. Você a afastou, bem no caminho desse destino distorcido." A voz mais velha era fria, implacável. "Você selou o sofrimento dela no momento em que escolheu a Jéssica."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com a chuva que começara a cair. Não era um mal-entendido. Era pior. Muito, muito pior. A insegurança de Bernardo, sua crença fácil nas mentiras de um estranho, seus afetos mutáveis... eles me quebraram. Não apenas meu coração, mas meu corpo. Eu estava sangrando pelos pecados de Jéssica. Eu estava morrendo porque Bernardo era um tolo.
A dor se intensificou, uma tempestade rugindo dentro de mim. Minha visão escureceu. As vozes desapareceram em um zumbido distante. A escuridão me consumiu.