Na noite do nosso quinto aniversário, eu não estava bebendo champanhe. Estava nas sombras do escritório do meu marido, segurando um pen drive criptografado que encontrei colado atrás da nossa foto de casamento.
Ele continha os projetos de uma vida que Dante estava construindo com outra mulher - Sofia Ricci, a filha do nosso maior inimigo.
Ele não estava apenas me traindo. Estava usando o projeto de Revitalização do Porto, que eu passei dois anos desenvolvendo, para lavar o dinheiro de que precisava para fugir com ela.
Quando o confrontei, Dante não implorou por perdão. Ele me olhou com a indiferença fria de um Capo e me disse para dar um jeito na minha cara para o jantar.
A humilhação não parou por aí.
Ele me forçou a dividir o carro com sua amante enquanto meu tornozelo estava inchado e latejando por causa de uma queda. Ele se preocupou com o enjoo "delicado" de Sofia, ignorando completamente a minha dor.
"Helena aguenta o tranco", ele disse, com desdém.
Aguenta o tranco. Como uma mula. Como uma mesa que ele possuía.
Ele até me tirou do meu cargo, entregando minha operação multimilionária para Sofia simplesmente porque ela teve uma "visão" de paredes de vidro.
Ele achava que eu era apenas uma esposa obediente, uma peça no tabuleiro para manter suas contas limpas enquanto ele brincava de casinha com seu verdadeiro amor.
Ele se esqueceu de que, enquanto ele era a força bruta, eu era a arquiteta.
Então, na Gala da Família, usando um vestido da vingança com as costas nuas, eu não pedi apenas a separação.
Joguei uma taça de champanhe na cara dele e anunciei para todo o submundo que as contas estavam vazias.
Eu não apenas o deixei. Levei as chaves de criptografia, o dinheiro e todo o futuro dele comigo.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Helena Vitti
Na noite do nosso quinto aniversário, eu estava nas sombras do escritório do meu marido, segurando um pen drive criptografado de nível militar.
Ele continha os projetos de uma vida que meu marido estava construindo com outra mulher.
E se eu não decifrasse o código antes que ele entrasse pela porta, eu continuaria a ser a arquiteta involuntária de um império que nunca foi destinado para eu governar.
A carcaça de metal do pen drive estava fria contra a minha palma.
Pesava na minha mão, muito mais do que o anel de diamante de cinco quilates que Dante havia deslizado no meu dedo horas antes.
Ele chamou o anel de um símbolo da nossa aliança duradoura.
Eu sabia o que realmente era: dinheiro para me calar.
Dante Moretti nunca foi apenas um marido.
Ele era um Capo na família criminosa Vitti, um homem cuja reputação foi construída sobre silêncio e violência.
Ele havia matado homens apenas por me olharem do jeito errado.
Ele havia incendiado um armazém simplesmente porque o dono desrespeitou meu pai.
Todos me diziam que eu era a sortuda.
Diziam que eu era a Rainha no tabuleiro de xadrez, protegida pelo Cavaleiro mais letal da cidade.
Mas Rainhas são apenas peças a serem movidas.
E esta noite, descobri que estava prestes a ser sacrificada.
Eu estava em seu escritório, um cômodo com um cheiro forte de uísque caro e óleo de arma.
Eu deveria estar lá em cima, me trocando, vestindo seda para o jantar.
Em vez disso, estava aqui embaixo, procurando a escritura de um imóvel para a Revitalização do Porto de Santos, o projeto que passei dois anos desenhando para lavar os lucros de transporte da família.
Encontrei o pen drive colado na parte de trás da moldura da nossa foto de casamento quando a movi para verificar o cofre na parede.
O simbolismo fez meu estômago revirar.
Com os dedos trêmulos, conectei-o ao seu laptop.
Um pedido de senha piscou na tela, zombando de mim.
Tentei nosso aniversário.
Acesso Negado.
Tentei a data de sua iniciação na família.
Acesso Negado.
Minhas mãos começaram a tremer violentamente.
Dante estaria lá em cima em cinco minutos.
Se ele me encontrasse bisbilhotando, as consequências não seriam uma briga de casal.
No nosso mundo, segredos eram moeda, e roubá-los era um crime.
Fechei os olhos, forçando minha mente a voltar aos sussurros que eu havia ignorado.
As noites tardias.
O cheiro de um perfume que não era o meu - algo floral e barato, como lilás.
Então, me atingiu.
Lembrei-me de um deslize de um de seus soldados bêbados, três meses atrás.
*Catorze de agosto. O chefe odeia o dia catorze de agosto.*
Ponto de Vista: Helena Vitti
Digitei a senha.
A tela piscou em verde.
Acesso Concedido.
Minha respiração ficou presa dolorosamente na garganta.
Pastas apareceram na tela.
Não eram registros financeiros.
Não eram nem mesmo listas de alvos.
Eram fotos.
Centenas delas.
Sofia Ricci.
A filha do nosso maior rival.
Sofia rindo em um café.
Sofia passeando com seu cachorro.
Sofia dormindo em uma cama que parecia suspeitamente com a do esconderijo particular de Dante.
Cliquei em um documento intitulado *Castelo no Céu*.
Era uma coleção de cartas.
Rascunhos que ele nunca enviou, ou talvez cópias das que ele enviou.
*Helena é uma boa soldada, Sofia. Ela mantém os livros em ordem. Mas ela é feita de mármore frio. Você é o fogo.*
Li a próxima linha, minha visão embaçando.
*Assim que o Porto estiver operacional, terei poder suficiente para comprar minha saída. Podemos ir para a Serra Gaúcha. Vou deixar a Vida. Vou deixá-la.*
O ar foi sugado para fora da sala.
Eu não era sua esposa.
Eu era sua gerente de banco.
Eu era a substituta mantendo sua cama quente e seu dinheiro lavado até que ele pudesse se dar ao luxo de fugir com seu verdadeiro amor.
O som da maçaneta girando cortou o silêncio como um tiro.
Arranquei o pen drive da porta USB no exato momento em que Dante entrou.
Ele estava vestindo seu smoking, a gravata borboleta desfeita, solta ao redor do pescoço.
Ele estava devastadoramente bonito.
Parecia o diabo envolto em alfaiataria sob medida.
Seus olhos pousaram no laptop, depois no meu punho cerrado.
"Helena", ele disse.
Sua voz era um ronco baixo, o som de um carro de luxo em ponto morto.
"Você não está vestida."
Levantei-me, minhas pernas parecendo feitas de chumbo.
"Quem é ela, Dante?"
Eu não gritei.
Eu não chorei.
Perguntei com o mesmo tom seco e burocrático que usava para discutir alvarás de construção.
O rosto de Dante não mudou.
Ele não parecia culpado.
Ele parecia contrariado.
Ele caminhou até o frigobar e serviu-se de uma bebida.
"Você está histérica", disse ele. "É o seu aniversário. Vá colocar o vestido vermelho."
"Eu vi o pen drive", eu disse.
Ele congelou.
O copo parou a meio caminho de sua boca.
Ele se virou lentamente.
A indiferença em seus olhos foi instantaneamente substituída por algo mais sombrio.
Era o olhar de um predador reconhecendo uma ameaça.
"Dê para mim", disse ele.
Ele estendeu a mão.
Era uma ordem, não um pedido.
"Você prometeu deixar a Vida por ela", eu disse, minha voz tremendo agora. "Você está usando o meu projeto, os meus desenhos, para financiar sua fuga com uma Ricci."
Dante deu um passo à frente.
Ele fechou a distância entre nós em duas longas passadas.
Ele agarrou meu pulso.
Seu aperto era de ferro.
Ele abriu meus dedos com uma força que machucava e pegou o pen drive.
Ele nem sequer olhou para ele.
Simplesmente o deixou cair em seu copo de uísque.
O líquido sibilou.
"Não há escapatória, Helena", disse ele, olhando para mim de cima. "Só existe a Família. E você faz parte da Família."
"Eu sou sua esposa", sussurrei.
"Você é uma Vitti", ele corrigiu. "Você conhece o código. Você não faz perguntas para as quais não quer as respostas."
Ele tomou um gole do uísque, o pen drive arruinado tilintando zombeteiramente contra o gelo.
"Agora suba", disse ele. "Dê um jeito nessa sua cara. Temos uma reserva para o jantar."
Ele me deu as costas.
Ele me dispensou como uma empregada que quebrou um prato.
Olhei para seus ombros largos, os músculos se movendo sob o tecido caro.
Percebi então que o homem que eu amava não existia.
Ele era uma fachada.
E eu cansei de construir estruturas para outras pessoas morarem.
Ponto de Vista: Helena Vitti
O café era à prova de som, um luxo necessário para pessoas do nosso ramo.
Era território da Família, um lugar onde acordos eram fechados com café expresso e o sangue era esfregado dos nós dos dedos nos banheiros.
Lúcia Rossi sentou-se à minha frente.
Ela era a única pessoa no mundo em quem eu confiava.
Ela também era a mente jurídica mais afiada da organização, uma Consigliere de saltos de quinze centímetros.
Ela mexeu seu café, seus olhos vasculhando a sala em busca de dispositivos de escuta por puro hábito.
"Você parece que não dorme há uma semana", disse ela.
"Faz doze horas", respondi.
Empurrei meus óculos de sol para cima do nariz.
Não queria que ela visse o inchaço ao redor dos meus olhos, a evidência do meu desmoronamento.
"Ele mantinha um santuário, Lúcia. Um santuário digital."
Lúcia parou de mexer.
Sua colher tilintou contra a porcelana, um som agudo na sala silenciosa.
"Sofia Ricci", ela afirmou.
Ela não formulou como uma pergunta.
"Você sabia?"
"Eu suspeitava", disse ela, sua voz fria e distante. "Dante sempre teve uma fraqueza por coisas que não pode ter. Faz parte do seu narcisismo."
"Ele planeja ir embora", eu disse, inclinando-me. "Ele escreveu. Ele quer pegar o dinheiro do projeto do Porto e fugir com ela."
Lúcia soltou uma risada curta e sem humor.
"Ele não vai embora, Helena. Homens como Dante não abrem mão do poder. Ele apenas gosta da fantasia. E ele gosta de ter você lá para garantir que o poder permaneça intacto enquanto ele sonha acordado."
Ela estendeu a mão sobre a mesa e pegou a minha.
Seu aperto era firme, me ancorando.
"Mas esse não é o problema. O problema é que a Fantasma está de volta."
"Ela está na cidade?"
"Ela está no ouvido dele", disse Lúcia. "E isso a torna perigosa. Se o Chefe descobrir que Dante está conspirando com uma Ricci, ele mandará matá-lo. E como você é a esposa dele, será um dano colateral."
Senti um arrepio que não tinha nada a ver com o ar condicionado.
"Eu quero sair", eu disse.
As palavras tinham gosto de cinzas na minha língua.
"Eu quero uma separação."
Lúcia puxou a mão de volta.
Ela me olhou com pena, e isso doeu mais do que a indiferença de Dante.
"Helena, você é casada com um Capo. Você não consegue uma separação. Você consegue um funeral."
"Tem que haver um jeito", insisti, o desespero subindo pela minha garganta. "Você conhece as leis melhor do que ninguém."
"Má-fé", ela murmurou, batendo a unha bem-feita na mesa ritmicamente. "Se pudermos provar que ele entrou no casamento de má-fé... que sua lealdade estava comprometida desde o início..."
Ela olhou para mim, seus olhos escuros.
"É uma guerra, Helena. Ele verá isso como uma perda de território. Ele vai queimar a cidade inteira antes de deixar você ir. Não porque ele te ama, mas porque ele te possui."
A porta do café se abriu.
Marcos, o noivo de Lúcia, entrou.
Ele não era da Família.
Ele era um civil. Um pediatra. Um homem de mãos limpas.
Seu rosto se iluminou quando viu Lúcia.
Ele se aproximou e beijou sua testa, a mão repousando suavemente em seu ombro.
"Pronta para ir?", ele perguntou a ela. "Fiz reservas naquele restaurante tailandês que você gosta."
Lúcia sorriu.
Era um sorriso de verdade.
Alcançou seus olhos, suavizando as arestas da Consigliere.
"Me dê cinco minutos", ela disse a ele.
Ele assentiu e foi esperar perto do balcão.
Eu os observei.
Observei o jeito como ele a olhava como se ela fosse a única pessoa na sala.
Observei o jeito como ela relaxava sob seu toque, despindo sua armadura.
Eu nunca tive isso.
Eu tinha joias caras e um complexo de alta segurança.
Eu tinha um marido que olhava para mim e via um item em uma planilha.
"Ele me trata como um ativo", eu disse baixinho. "Como um hotel que ele possui."
Lúcia se virou para mim.
Seu rosto estava duro novamente.
"Então pare de ser um ativo", disse ela. "Comece a ser um problema."
Ela deslizou um guardanapo pela mesa.
Ela havia escrito um número nele.
"Ligue para este número se as coisas ficarem feias hoje à noite. Conecta diretamente ao meu celular descartável."
"Por que as coisas ficariam feias hoje à noite?", perguntei, meu estômago se revirando.
Lúcia hesitou.
"Porque Dante vai te buscar. E ouvi dizer que ele não vem sozinho."