O lançamento do meu perfume, minha obra-prima, terminou em caos. Minha criação foi culpada por uma reação alérgica em massa que mandou pessoas para o hospital.
Meu noivo, Bernardo, o homem que me prometeu o mundo, foi quem armou para mim.
Ele me exilou em uma cabana remota por três anos, alegando que estava me protegendo. Na verdade, ele colocou seu irmão gêmeo para se passar por ele, roubando cada nova fórmula que eu criava e entregando-as para minha irmã de criação, Carla, que se tornou uma estrela com o meu trabalho.
Quando finalmente os confrontei, o prédio em que estávamos desabou. Fiquei presa sob os escombros, sangrando até a morte.
Os socorristas deram a Bernardo uma escolha: salvar a mim ou salvar o cachorro de Carla de uma área diferente e instável.
"Salvem o cachorro", ele disse. "A Elisa é forte. Ela pode esperar."
Ele me deixou para morrer.
Mas eu sobrevivi. Resgatada pelos pais poderosos que eu havia afastado, recebi uma nova identidade e uma nova vida na Suíça. Agora, estou construindo meu próprio império e vou voltar para queimar o deles até as cinzas.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Elisa
As sirenes gritavam, uma sinfonia dissonante rasgando a opulenta festa de lançamento. Não era o som de celebração, mas o lamento cru e urgente das ambulâncias. Eu estava paralisada no palco, o aroma da minha obra-prima, "Flor Etérea", agora uma nuvem tóxica no ar. As pessoas ao meu redor não aplaudiam. Elas engasgavam, agarravam a garganta, a pele explodindo em urticárias vermelhas e furiosas. Não era para ser assim. Aquele não era o meu perfume.
Em um momento, o salão de festas do Copacabana Palace brilhava de expectativa; no seguinte, mergulhou no caos. Uma mulher em um vestido esmeralda cintilante desabou, seu rosto inchando de forma assustadora. Outro homem arranhava o pescoço, os olhos arregalados de terror. O ar ficou denso com um cheiro químico, algo acre e errado, muito distante do coração delicado de jasmim e sândalo do Flor Etérea. Minha visão turvou. Meu estômago revirou. Era um pesadelo, e eu estava completamente acordada.
"Elisa, o que você fez?" A voz de Bernardo Salles cortou o pânico crescente, afiada e acusadora. Ele era meu namorado, o CEO da Salles Luxo, o homem que havia defendido minha visão para esta fragrância. Seus olhos, geralmente quentes e reconfortantes, agora estavam frios, refletindo o horror ao nosso redor. Ele apontou para mim, depois para a multidão que se contorcia. A acusação silenciosa pesava no ar: *A culpa é sua*.
"Não, Bernardo, não!" Minha voz era um sussurro desesperado, quase inaudível acima dos gritos que aumentavam. "Não pode ser. Eu testei. Centenas de vezes. Estava perfeito. Puro." Busquei meu celular, abrindo os relatórios finais do laboratório, as anotações meticulosas detalhando cada ingrediente, cada protocolo de segurança. "Olha! Passou em todos os testes. Não há alérgenos no Flor Etérea."
Mas nada disso importava. O relatório oficial, gritado em um megafone por um chefe dos bombeiros de rosto severo, confirmou o pior. "Reação alérgica em massa. Grave. Produto identificado como fragrância 'Flor Etérea'. Recolhimento imediato necessário." As palavras ecoaram pelos tetos dourados, selando meu destino. Minha criação, minha paixão, era agora uma arma.
O som das sirenes da polícia se juntou aos lamentos das ambulâncias, um coro sombrio sinalizando o fim do meu mundo. A lei estava vindo. Processos. Indignação pública. Minha carreira, minha reputação, tudo que eu construí, estava desmoronando ao meu redor.
Bernardo agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Temos que ir. Agora. Antes do circo da mídia, antes que os advogados cheguem. Eles vão te despedaçar, Elisa. Você vai ser arruinada." Ele me puxou por uma saída de serviço, para longe das luzes piscantes e dos olhares acusadores. Sua urgência era aterrorizante, mas também parecia um escudo. Ele estava me protegendo.
"Para onde estamos indo?" Eu ofeguei, tropeçando para acompanhá-lo.
"Para a fazenda da minha família em Petrópolis", ele disse, me empurrando para um carro preto que esperava. "É isolado. Ninguém vai te encontrar lá. Você estará segura. Eu vou cuidar de tudo aqui. Os processos, as relações públicas. Vou limpar seu nome."
Suas palavras eram uma tábua de salvação em meio a uma tempestade furiosa. "Você promete?" Minha voz era pequena, infantil.
Ele se inclinou, seus lábios roçando minha têmpora. "Eu prometo, meu amor. Apenas fique quieta. Fique segura. Eu vou me juntar a você assim que puder. Vamos superar isso, juntos."
Três anos se dissolveram na silenciosa e vasta natureza de Petrópolis. Três anos de solidão, quebrados apenas pelas visitas de "Bernardo". Ele chegava a cada poucos meses, um turbilhão de paixão e intensidade que me deixava sem fôlego. Cada vez, eu me agarrava a ele, ansiando por notícias do mundo exterior, por garantias de que meu nome estava sendo limpo, de que logo voltaríamos à nossa vida.
Mas algo mudou. O homem que me visitava não era exatamente o Bernardo que eu lembrava. Seu toque se tornou mais possessivo, menos terno. Seus olhos, embora ainda escuros e cativantes, tinham um brilho novo, quase predatório. Ele nunca falava do Rio, das investigações, da minha absolvição. Ele só falava de nós, do nosso refúgio isolado, do futuro que construiríamos aqui.
"Você parece cansado, meu amor", eu murmurava, traçando as linhas fracas ao redor de seus olhos durante uma dessas visitas intensas. "O Rio ainda está tão exigente?"
Ele me puxava para mais perto, seu abraço quase esmagador. "O mundo é um lugar cruel, Elisa. Cheio de abutres. Mas estar aqui, com você, é minha única paz." Ele me beijava então, um beijo longo e consumidor que roubava meu fôlego e sufocava minhas perguntas. Ele precisava de mim. Ele precisava deste santuário tranquilo. Como eu poderia negar isso a ele?
Seu ardor era implacável, quase insaciável. Ele me devorava com seus beijos, seu toque, sua necessidade desesperada. No início, fiquei lisonjeada, tranquilizada por sua devoção feroz. Era um contraste gritante com o terror e a incerteza que me levaram a Petrópolis. Isso deve ser amor, eu dizia a mim mesma. Um amor profundo e consumidor nascido do medo da perda.
Meses se transformaram em anos. Suas visitas se tornaram menos sobre conforto e mais sobre controle. Sua paixão beirava a agressão, seu amor um peso quase sufocante. Eu me acostumei a isso, às suas exigências ferozes, à maneira como ele me reivindicava, corpo e alma. Eu o amava, ou pelo menos, amava a ideia dele - o homem que estava sacrificando tudo para me proteger. Eu me preocupava com sua saúde, as olheiras escuras sob seus olhos, a maneira como ele parecia queimar a vida com uma intensidade desesperada.
"Você se esforça demais", eu sussurrava, acariciando seu cabelo.
Ele se afastava um pouco, seu olhar intenso. "Eu só tenho medo, Elisa. Medo de te perder. Medo do que o mundo fará se eu baixar a guarda." Sua vulnerabilidade era um gancho poderoso, me puxando mais fundo em sua narrativa de proteção e sacrifício.
Esse padrão continuou por três longos anos. Aceitei meu isolamento, minha dependência. Aceitei seu amor como era, intenso e exigente, o preço da minha segurança.
Então, a ligação veio.
"Elisa", sua voz, ainda profunda e ressonante, soou mais leve do que eu ouvia há anos. "Finalmente acabou. Eles limparam seu nome. Foi sabotagem, assim como você disse. Estamos livres."
Uma onda de alívio, tão profunda que fez meus joelhos fraquejarem, me inundou. "Ah, Bernardo! Sério? De verdade?" Lágrimas escorriam pelo meu rosto.
"Sim, meu amor", ele disse, sua voz transbordando de uma emoção que eu não ouvia há anos - alegria genuína. "E agora que a tempestade passou, há algo que preciso perguntar." Houve uma pausa, uma respiração suspensa através de milhares de quilômetros. "Case-se comigo, Elisa. Vamos oficializar. Vamos começar nossa vida de verdade agora."
Meu coração disparou. Era isso. O momento com que sonhei por três anos. A vindicação, o futuro, a promessa de uma vida com o homem que eu amava. "Sim!" Eu disse, engasgada, um soluço preso na garganta. "Mil vezes, sim!"
Fizemos planos. Grandes planos. Um casamento lindo no Rio, um novo começo. Esperei, tonta de antecipação, minhas malas prontas para minha jornada de volta. Ele prometeu enviar um jatinho particular para mim dentro de uma semana. Dias se transformaram em uma semana, depois uma semana em dez dias. Ele não veio. Minha excitação se transformou em uma ansiedade familiar. Algo estava errado.
Eu não podia mais esperar. Peguei o primeiro voo comercial de Petrópolis, desesperada para encontrá-lo, desesperada para entender. No momento em que pousei no Rio, um pressentimento arrepiante se instalou em mim. Fui direto aos nossos lugares de sempre, lugares onde ele poderia estar.
O clube privado no Jardim Botânico estava agitado, um zumbido baixo de vozes ricas. Empurrei as portas pesadas, meu coração batendo forte. E então, eu ouvi. Não a voz de Bernardo, não exatamente. Mas uma voz tão assustadoramente semelhante, se gabando, rindo, derramando segredos que eu não deveria ouvir. Estava em um reservado, logo depois do bar principal.
"Nossa, Cássio, você realmente interpretou o papel", uma voz de mulher riu. "Três anos? Preso em Petrópolis com a Elisa? Você é uma lenda."
Meu sangue gelou. Cássio? Bernardo tinha um irmão gêmeo, Cássio, um cara imprevisível, um parente distante que eu só tinha encontrado uma vez.
"Foi um papel desafiador, querida", a voz, inconfundivelmente de Bernardo, mas não de Bernardo, arrastou-se. "Mas a recompensa valeu a pena. Bernardo precisava dela fora do caminho, e eu precisava de um pouco de... entretenimento." Ele riu, um som arrepiante e decadente. "Pobre Elisa. Tão confiante, tão ingênua. Entregando todos os seus segredinhos de perfume, pensando que estava enviando para ele."
Uma voz diferente, esta mais aguda e venenosa, falou em seguida. "E aquelas fórmulas que ela pensava que a estavam protegendo? Elas me tornaram uma estrela. Cada prêmio, cada elogio. Tudo graças ao 'trabalho duro' da querida Elisa. Ela só não percebeu que estava trabalhando para mim."
Minha respiração falhou. Carla Medeiros. Minha irmã de criação. A mulher que jurou me superar, custe o que custar.
O verdadeiro Bernardo Salles, o homem que tinha sido meu namorado, meu protetor, meu noivo, finalmente falou. Sua voz estava desprovida do calor que eu um dia amei, substituída por uma frieza calculista. "Foi o plano perfeito. Incriminá-la, isolá-la, roubar o trabalho de sua vida. Cássio desempenhou seu papel lindamente."
"E o casamento? É só para inglês ver?" Carla perguntou, sua voz pingando malícia.
"Claro", Bernardo respondeu, um sorriso cruel evidente em seu tom. "Um ato final de humilhação pública. Ela volta, pensando que é a rainha, apenas para descobrir que está usando uma coroa de espinhos, uma tola desfilando para todos verem. Minha pequena Elisa sempre foi apenas um degrau, um meio para o sucesso da Carla. E para nós."
O mundo girou. Meu anel de noivado, o diamante brilhando no meu dedo, parecia um carvão em brasa. Cada palavra terna, cada beijo apaixonado, cada promessa de um futuro - tudo mentira. Tudo de um homem que nem era o homem que eu amava. Meu Bernardo. Meu verdadeiro Bernardo. O homem que eu acreditava estar lutando por mim, na verdade, estava orquestrando minha queda.
Um grito silencioso rasgou meu peito. A dor era física, um fogo abrasador. Pressionei a mão na boca, sufocando o soluço desesperado que ameaçava escapar. Eu tinha que sair. Eu tinha que desaparecer. Não da indignação pública, mas desta teia sufocante de engano.
Meu celular tremia na minha mão. Disquei o único número que eu sabia que ofereceria uma verdadeira fuga, um verdadeiro santuário. Meus pais. Os magnatas da tecnologia de quem eu me distanciei, ansiosa para provar meu próprio valor.
"Mãe", minha voz era um sussurro quebrado, "preciso da sua ajuda. Preciso desaparecer. Completamente. Você pode me apagar? Fazer com que eu nunca tenha estado aqui?"
A voz da minha mãe, geralmente tão calma e ponderada, quebrou com preocupação. "Elisa? O que aconteceu? Claro, querida. O que você precisar."
"Preciso de passagens. Para a Europa. E preciso que minha identidade brasileira... suma. Apagada. Não posso ser encontrada." Minha voz ficou mais forte, alimentada por uma raiva fria e ardente.
"Vai levar tempo para anular completamente sua identidade, meu bem", ela disse, sua voz cheia de preocupação. "Mas podemos te tirar daqui esta noite. Um jatinho particular. Para a Suíça. Seu pai e eu encontraremos você lá. Vamos resolver tudo."
"Ótimo", eu disse, uma única lágrima amarga finalmente escapando. "Estarei lá." Minha voz estava plana, desprovida de emoção. Eles pensaram que me quebraram. Estavam errados. Eles apenas me libertaram.
Ponto de Vista: Elisa
As luzes da cidade se transformaram em rastros de neon enquanto o táxi se afastava do clube privado. Minha mente era uma tempestade caótica, repassando a conversa que ouvi, cada palavra uma nova facada de traição. *Elisa. Pobre Elisa. Tão confiante, tão ingênua.* A frase ecoava, zombando de mim. O Rio que eu um dia amei, a cidade que prometia sonhos, agora parecia fria e indiferente. Três anos se passaram, e a paisagem urbana mudou de maneiras sutis e desconhecidas, espelhando a profunda mudança dentro de mim. Eu era uma estranha na minha própria cidade, um fantasma assombrando as ruas da minha vida anterior.
Meus olhos, secos e ardendo, fixaram-se em uma silhueta familiar à distância. O arranha-céu da Salles Luxo, um monumento à ambição de Bernardo, pairava contra o céu noturno, seus andares superiores ainda acesos. Costumava ser um símbolo do nosso futuro compartilhado, um testemunho do que poderíamos construir juntos. Agora, era uma lápide marcando a morte das minhas esperanças.
Um grupo de funcionários saiu da entrada principal, suas risadas pontuadas pelo tilintar de taças de champanhe. Eles estavam comemorando, percebi, mesmo a esta hora tardia. "Você ouviu sobre o novo contrato de patrocínio da Carla?" uma mulher cantou, sua voz perfurando o silêncio relativo da noite. "Outra fragrância premiada. Ela é imparável!" Outra interveio: "E a festa de lançamento do 'Flor do Deserto' na próxima semana? O próprio Bernardo Salles vai apresentar. Vai ser o evento do ano."
Flor do Deserto. O nome por si só revirou meu estômago. Era uma variação do Flor Etérea, minha fórmula, meu legado roubado. Eles estavam celebrando o sucesso dela, construído sobre a minha ruína. Meu sangue gelou, um gosto amargo enchendo minha boca. Meu trabalho roubado. Minha vida. Entregue a Carla.
Como se convocada pelos meus pensamentos mais sombrios, uma BMW preta e elegante parou na calçada. Carla Medeiros surgiu, radiante e autoconfiante, seu cabelo escuro brilhando sob as luzes da rua. Ela parecia mais deslumbrante, mais confiante do que eu jamais a vira. A mulher que um dia invejou cada passo meu agora irradiava uma aura de triunfo inabalável. Seu braço estava entrelaçado com o de Bernardo Salles. Meu Bernardo. O verdadeiro. Ele parecia exatamente com o homem com quem passei três anos, mas totalmente estranho.
Ele riu de algo que Carla sussurrou, um som genuíno e fácil que rasgou o pouco que restava do meu coração. Seu olhar varreu a rua e, por uma fração de segundo, seus olhos encontraram os meus. A surpresa cintilou em seu rosto, uma emoção crua e desprotegida.
Meu corpo enrijeceu, preparando-se para sua aproximação. Ele recuperou a compostura rapidamente, sua expressão endurecendo em algo indecifrável. Ele se desvencilhou de Carla e começou a caminhar em minha direção, um passo lento e deliberado que parecia um predador perseguindo sua presa.
"Elisa? É você mesmo?" Sua voz era uma performance ensaiada, uma mistura de falsa preocupação e choque fingido. "Não acredito. O que você está fazendo aqui? Você está bem?"
Eu o encarei, incapaz de falar, as palavras de acusação presas na minha garganta. Sua preocupação era uma zombaria vil.
"Bernardo, querido, quem é essa?" A voz açucarada de Carla nos alcançou, seu braço agora entrelaçado com um homem alto de cabelos prateados que reconheci como um proeminente analista da indústria. Ela se juntou a Bernardo, seu sorriso vacilando um pouco ao registrar minha presença.
"Carla, esta é Elisa Matos", disse Bernardo, sua voz plana, me apresentando como se eu fosse uma conhecida distante. "Ela costumava trabalhar para nós. Elisa, esta é Carla Medeiros, nossa Perfumista Chefe."
Minha Perfumista Chefe. O título martelou em meu crânio. Meu cargo. O trabalho da minha vida. Roubado, reembalado e entregue a ela. A amargura era uma dor física.
Os olhos de Carla, antes cheios de um ressentimento infantil, agora continham um brilho arrepiante de triunfo. "Elisa! Meu Deus, faz tanto tempo! Que maravilha te ver." Ela me abraçou, uma exibição teatral de afeto. Sua respiração estava quente contra minha orelha enquanto ela sussurrava: "Com saudades das suas antigas fórmulas, querida? Elas estão fazendo maravilhas pela minha carreira." A verdade fria e dura de suas palavras me perfurou mais fundo do que qualquer faca. Ela não apenas roubou meu trabalho; ela se deleitava com a minha dor.
Minha mente acelerou, as peças do quebra-cabeça se encaixando com uma precisão horrível. Cada fórmula que eu enviei de Petrópolis, supostamente para Bernardo, para ajudar a limpar meu nome, estava alimentando a ascensão meteórica de Carla. Eu era uma marionete, meus fios puxados pelas mesmas pessoas em quem confiava.
Encontrei o olhar de Bernardo, meus olhos ardendo com um apelo silencioso, um desafio desesperado para que ele reconhecesse a verdade. Ele desviou o olhar, sua mandíbula tensa, um lampejo de desconforto cruzando suas feições. Culpa. Estava lá, escondida sob camadas de indiferença.
"Eu... eu tenho uma reunião", ele gaguejou, se afastando. "Uma urgente. Carla, deveríamos ir." Ele se virou para mim, sua voz desdenhosa. "Elisa, foi bom te ver. A gente se fala em breve." Ele virou as costas, puxando Carla junto.
"Uma reunião?" Eu queria gritar. "Você vai me deixar aqui? De novo?"
Ele não olhou para trás. Carla, no entanto, virou a cabeça ligeiramente, seus lábios se contorcendo em um sorriso triunfante e conhecedor antes de desaparecer no carro com Bernardo.
Fiquei ali, abandonada na movimentada rua do Rio, o barulho da cidade de repente ensurdecedor. O carro preto, levando meus traidores, misturou-se ao tráfego noturno, deixando-me desolada e sozinha. Não, não sozinha. Eu estava mais sozinha do que nunca, porque a única pessoa que eu pensava ser minha âncora era meu algoz.
Chamei um táxi, dando ao motorista o endereço da cobertura de Bernardo. Nossa cobertura. A casa que eu dividi com o homem que amava. Eu precisava de respostas. Precisava confrontá-los. Talvez, apenas talvez, houvesse um erro. Um mal-entendido. O pensamento era uma faísca fraca e patética na escuridão do meu desespero.
O táxi parou em frente ao familiar prédio de luxo. Meus dedos tremeram enquanto eu digitava o código de acesso, aquele que Bernardo me deu, aquele que escolhemos juntos por capricho depois de um jantar romântico. Era nosso aniversário. Ou o que eu pensava ser nosso aniversário. *Erro*. Meu coração afundou. Tentei novamente. *Erro*. Um pavor frio se infiltrou em meus ossos. Isso não era um mal-entendido. Isso era irreversível.
Um pressentimento arrepiante, mais forte do que qualquer um que eu já senti, me envolveu. Minha casa, meu santuário, não era mais minha.
Ponto de Vista: Elisa
O táxi esperava, seu brilho amarelo refletido no vidro escuro da cobertura. Minha mente, ainda abalada pela confissão na rua, se viu atraída para o mundo digital. Peguei meu celular, meus dedos desajeitados enquanto navegava para as redes sociais de Carla Medeiros. Lá estava: uma cascata de postagens triunfantes. Legendas entusiasmadas sobre seu último prêmio, fotos de festas glamorosas e uma variedade estonteante de mensagens de parabéns. Cada imagem, cada palavra efusiva, era uma nova ferida.
Minha visão embaçou com uma raiva súbita e quente. Digitei o antigo código de acesso ao prédio da cobertura, aquele que eu compartilhava com Bernardo, aquele que representava uma data que não tinha mais nenhum significado. Era um aniversário, um dia que um dia marcamos com promessas e sussurros de para sempre. Meus dedos hesitaram por um momento, depois pressionaram o último dígito. Um clique suave. As pesadas portas de vidro se abriram. Alívio, frio e fugaz, me inundou, imediatamente substituído por um desconforto mais profundo. Este era um lugar de fantasmas e mentiras.
O elevador subiu, um rastejar lento e agonizante. Quando as portas se abriram, o corredor da cobertura se estendeu diante de mim, familiar, mas estranho. O cheiro familiar da minha própria casa, as notas sutis do meu purificador de ar personalizado de cedro e bergamota, havia sumido. Substituído por algo abertamente floral, enjoativo, como uma imitação barata da primavera. Carla. Tinha que ser Carla.
Cada passo para dentro do apartamento era uma invasão. A arte que antes adornava nossas paredes, peças que Bernardo e eu escolhemos cuidadosamente juntos, foi substituída por telas abstratas e berrantes que eu nunca tinha visto. Os móveis de pelúcia em tons neutros sumiram, trocados por peças elegantes e modernas que gritavam "showroom de designer", desprovidas de qualquer calor ou história. Esta não era minha casa. Era um palco, montado para outra pessoa.
Caminhei em direção ao que costumava ser nosso quarto, o pavor se enrolando em meu estômago. O cheiro floral enjoativo ficou mais forte, quase insuportável. Era a fragrância assinatura de Carla, "Flor do Deserto". Meu perfume. Torcido, reembalado e borrifado liberalmente por todo o meu santuário. Era uma invasão, uma profanação.
Meu olhar caiu sobre a mesa de cabeceira. Um lenço de seda, do tipo que Carla preferia, estava jogado descuidadamente sobre uma pilha de revistas. Ao lado, um copo de vinho meio vazio, duas marcas de batom claramente visíveis. Uma, um carmesim profundo. A outra, a marca mais fraca da mancha rosa-pálido característica de Bernardo. Meu estômago revirou, a bile subindo pela minha garganta.
Então eu vi. Escondida sob o lenço, uma pequena fotografia emoldurada em prata. Carla, com a cabeça apoiada no ombro de Bernardo, ambos radiantes, seus dedos entrelaçados. Não era uma foto recente. Era antiga, desbotada, uma relíquia de um tempo antes de mim, antes do "Flor Etérea". Um tempo em que a conexão deles já estava estabelecida, profunda e insidiosa. A visão me atingiu com a força de um golpe físico. A traição não era nova. Era um alicerce.
Uma onda de náusea, aguda e debilitante, me varreu. Minhas pernas cederam. Caí no chão, minhas mãos agarrando meu peito, tentando acalmar as batidas frenéticas do meu coração. O ar parecia denso, sufocante. Minha casa, meu amor, minha vida - tudo era uma mentira, construída sobre uma fundação podre de engano. Tentei engolir, mas minha garganta estava áspera, contraída.
Fechei os olhos com força, uma tentativa desesperada de apagar a imagem, a dor. Mas era tarde demais. A represa se rompeu. Um soluço gutural rasgou minha garganta, cru e agonizante. Meu corpo tremia incontrolavelmente, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, quentes e intermináveis. Os soluços eram silenciosos, desesperados, nascidos de uma dor tão profunda que parecia que minha própria alma estava sendo retalhada. Esta casa não era mais um santuário; era um mausoléu de sonhos desfeitos.
De repente, ouvi vozes do andar de baixo. Risadas. A risada profunda de Bernardo, seguida pela risadinha aguda de Carla. Eles estavam aqui. Meus traidores, se deleitando em sua felicidade roubada, em minha vida roubada. Meu coração saltou para a garganta, uma onda primal de medo. Então, uma determinação fria e dura se cristalizou em meu peito. Limpei o rosto, respirei fundo e me levantei. Eu não me acovardaria. Não mais.
Desci a grande escadaria, cada passo um ato deliberado de desafio. Minhas mãos estavam cerradas em punhos, meus nós dos dedos brancos. Bernardo e Carla estavam na sala de estar, uma imagem de felicidade doméstica, seus braços entrelaçados casualmente. Eles se viraram, seus sorrisos congelando ao me verem.
"Elisa?" A voz de Bernardo era afiada, um fio tenso de irritação entrelaçado na surpresa. "O que você está fazendo aqui?"
"O que eu estou fazendo aqui?" Minha voz era um rosnado baixo e perigoso, quase irreconhecível para meus próprios ouvidos. "Bernardo, quem é essa mulher? E por que ela está morando na nossa casa?"
Ele franziu a testa, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. "Carla está ficando aqui por um tempo. Ela acabou de se mudar para a cidade. O apartamento dela ainda não está pronto." Ele acenou com uma mão desdenhosa em direção a Carla. "Carla, Elisa. Elisa, Carla. Vocês duas se conhecem."
Carla deu um passo à frente, seus olhos brilhando com uma satisfação maliciosa. "Ah, Elisa, não é nada disso. Bernardo está sendo tão gentil, me deixando ficar aqui até minha nova cobertura ficar pronta." Ela piscou para Bernardo, uma performance que eu vi inúmeras vezes em nosso orfanato.
"Gentil?" Minha risada foi áspera, beirando a histeria. "Bernardo, ela está usando meu perfume. Ela está dormindo na minha cama. Ela tem enviado minhas fórmulas para você por três anos, tudo enquanto você me mantinha trancada em Petrópolis, pensando que estava me protegendo!" Minha voz falhou, crua de emoção. "Você me disse que me amava! Você me pediu em casamento!"
O rosto de Bernardo endureceu. "Elisa, você está sendo irracional. Exaltada. Carla é uma amiga, uma colega. Você passou por muita coisa. Você está imaginando coisas." Suas palavras foram como um banho frio, projetadas para apagar meu fogo, para me fazer duvidar da minha própria sanidade.
A manipulação era uma tática familiar, uma que ele usou inúmeras vezes nos últimos três anos, minando meu senso de realidade. Mas não mais. Não depois do que eu ouvi. O homem parado diante de mim era um estranho, um monstro usando o rosto do meu amado. Ele era frio. Impiedoso. Totalmente sem remorso.
"Preciso ir embora", sussurrei, virando-me para a porta, o ar nesta casa de repente fino demais para respirar. Eu não podia ficar aqui mais um segundo.
"Elisa." Sua voz, embora baixa, era afiada, comandante. Me parou no lugar. Foi um reflexo, uma obediência arraigada de anos de isolamento e dependência fabricada. Virei-me lentamente, meu coração batendo contra minhas costelas. O que mais ele poderia querer?