O meu mundo de nove meses de gravidez era pura antecipação pelo meu filho, Leo, e um futuro feliz com Pedro.
Mas num instante, um post do Instagram virou tudo de cabeça para baixo.
A fotografia revelou Pedro sorridente, noivo, ao lado da minha "melhor amiga", Sofia.
A palavra "noivado" ecoou na minha mente enquanto o meu prato caía, e a traição deu lugar a uma dor física excruciante.
O trabalho de parto começou ali mesmo, no meio da minha desolação.
No hospital, Pedro só apareceu para me dispensar, dizendo que ele e Sofia esperavam um bebé, e que eu era apenas um "mau timing".
Ele ofereceu uma pensão de alimentos insultuosamente baixa, mostrando a sua verdadeira e cruel face.
Como podia um homem que prometeu amar-nos até ao fim virar as costas ao seu próprio filho recém-nascido, por ambição e conveniência?
Por que é que o caráter de Pedro falava tão alto sobre o que ele era... e sobre o que ele não era?
Mas eu não ia ficar parada a assistir à minha própria destruição; peguei no meu filho, Leo, e enviei um e-mail a alguém poderoso, alguém que Pedro não podia ignorar.
"Ana, o bebé está a mexer-se tanto hoje," eu disse, acariciando a minha barriga de nove meses.
Sentei-me no sofá, a olhar para o meu telemóvel.
O Pedro não tinha respondido a nenhuma das minhas chamadas ou mensagens durante todo o dia.
Uma sensação de inquietação crescia dentro de mim, tão forte como os pontapés do bebé.
A minha mãe, a Lúcia, saiu da cozinha com um prato de fruta cortada.
"Ele deve estar ocupado no trabalho, querida. Os arquitetos têm sempre prazos apertados."
Ela colocou o prato na mesa à minha frente.
"Come um pouco. Faz bem a ti e ao bebé."
Tentei sorrir, mas o meu rosto parecia tenso.
Peguei num pedaço de maçã, mas não consegui comer.
Liguei para o Pedro outra vez.
Desta vez, a chamada foi diretamente para o correio de voz.
O meu coração afundou-se. Ele desligou o telemóvel.
"Mãe, algo não está bem," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente.
"O Pedro nunca desliga o telemóvel."
A minha mãe suspirou e sentou-se ao meu lado, colocando um braço reconfortante à volta dos meus ombros.
"Não penses demasiado, Ana. Talvez a bateria tenha acabado."
Mas ambas sabíamos que era uma desculpa fraca.
Naquele momento, o meu telemóvel vibrou com uma notificação.
Era uma publicação no Instagram.
Uma amiga em comum tinha marcado o Pedro numa foto.
Abri a aplicação, o meu polegar a tremer.
A imagem era clara e devastadora.
O Pedro estava sentado num restaurante chique, a sorrir para a câmara.
Ao lado dele, com a cabeça apoiada no seu ombro, estava a Sofia, a minha "melhor amiga".
A legenda dizia: "A celebrar o novo projeto do Pedro e o noivado surpresa! Tão feliz por vocês os dois, @PedroAlmeida e @SofiaGomes!"
Noivado.
A palavra ecoou na minha cabeça, silenciosa e mortal.
O prato de fruta caiu das minhas mãos, espalhando pedaços de maçã e manga pelo chão.
Eu não conseguia respirar.
"Ana? O que aconteceu?" A minha mãe agarrou-me no braço, o seu rosto cheio de preocupação.
Virei o ecrã do telemóvel para ela.
Ela ofegou, os seus olhos arregalaram-se em descrença e depois em fúria.
"Aquele desgraçado," ela sibilou.
Eu não conseguia falar. Apenas olhava para a foto. Para o sorriso dele. O mesmo sorriso que ele me deu esta manhã antes de sair para o "trabalho".
De repente, uma dor aguda atravessou o meu abdómen.
Gritei, agarrando a minha barriga.
Era uma cãibra, mais forte do que qualquer coisa que já tinha sentido.
"Mãe... dói," consegui dizer.
Outra onda de dor atingiu-me, e senti um líquido quente a escorrer pelas minhas pernas.
A minha bolsa tinha rebentado.
"Oh, meu Deus. O bebé está a chegar," a minha mãe entrou em pânico por um segundo, mas depois a sua determinação tomou conta. "Aguenta, Ana. Vou chamar uma ambulância."
Enquanto ela corria para o telefone, eu fiquei ali, paralisada pela dor física e pela traição esmagadora.
O meu filho estava a chegar.
E o pai dele estava a celebrar o seu noivado com outra mulher.
A sala de partos era fria e branca.
As luzes brilhantes pareciam zombar da escuridão que se instalara na minha alma.
A dor era constante, um ritmo brutal que me roubava o fôlego.
A minha mãe segurava a minha mão, o seu rosto uma máscara de preocupação e raiva.
"Respira, Ana. Pelo bebé, respira," ela dizia repetidamente.
Tentei concentrar-me na sua voz, mas a imagem do Pedro e da Sofia juntos continuava a piscar na minha mente.
A enfermeira verificou o meu progresso.
"Ainda não está totalmente dilatada. Vai demorar mais um pouco."
As horas arrastaram-se.
Cada contração era um lembrete torturante da minha situação.
Eu ia trazer uma criança a este mundo, sozinha.
A minha mãe tentou ligar para o Pedro várias vezes.
Sem resposta.
Ela deixou mensagens de voz furiosas, a sua voz a quebrar-se de vez em quando.
"Pedro, a Ana está em trabalho de parto! O teu filho está a nascer! Onde estás, seu cobarde?"
Silêncio.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade de agonia, a médica disse: "Está na hora. Vamos empurrar."
Reuni toda a força que me restava.
Empurrei com um grito que rasgou a minha garganta, um som cheio de dor, raiva e desespero.
E então, ouvi.
Um choro.
Fraco, mas claro.
"É um menino," disse a médica, a sua voz suave. "Parabéns, mamã."
Colocaram o meu filho no meu peito.
Ele era tão pequeno, tão perfeito.
As suas pequenas mãos agarraram o meu dedo.
As lágrimas que eu tinha segurado finalmente caíram, a misturarem-se com o suor no meu rosto.
Ele estava aqui. O meu filho, o meu pequeno Leo.
Por um momento, esqueci-me de tudo o resto.
Só existíamos nós os dois.
A minha mãe chorava silenciosamente ao meu lado, a sua mão a acariciar o meu cabelo.
"Ele é lindo, Ana. Tão lindo."
Apesar da exaustão, senti uma onda de amor tão poderosa que me deixou sem fôlego.
Eu faria qualquer coisa por este pequeno ser.
Eu iria protegê-lo.
Eu seria suficiente para ele.