Lara
O vidro explode ao lado do meu rosto.
Algo corta minha pele antes que eu entenda o que está acontecendo.
O gosto metálico do sangue aparece na minha boca.
A porta é arrancada e uma mão agarra o meu braço, me puxando com força.
- Agora.
Meu corpo é arrastado antes que eu consiga reagir.
- Não se mexe.
Outro segura meu ombro.
- Cuidado, porra... o chefe mandou trazer viva.
Minha respiração falha.
- E o bebê? - alguém pergunta.
Um segundo de silêncio.
- Ele não falou nada sobre o bebê, mas se ela começar a parir aqui, estamos fodidos.
Alguém cospe no chão.
O asfalto rasga minhas costas quando eu caio. O impacto expulsa o ar dos meus pulmões.
Meu instinto não é lutar, é proteger a barriga.
Porque meu filho se mexe dentro de mim no mesmo segundo em que vejo os homens cercando o carro e entendo.
Então outro pensamento me atinge.
A última coisa que eu disse ao Marlon foi:
"Está tudo bem."
Não estava.
Naquele momento eu ainda não sabia... mas aquela decisão ia custar muito mais do que o meu sequestro.
Duas horas antes...
Estou sentada à mesa, planilhas abertas. Passo os olhos pela agenda sem ler. O estômago embrulha e minha respiração encurta sem motivo.
Passo a mão pela barriga quase sem perceber. O bebê se mexe sob a palma da minha mão.
A porta abre.
Encontro Marlon entrando no escritório. O olhar dele muda no instante em que me vê, a tensão habitual desaparece e dá lugar àquele sorriso, o canto da boca levantando devagar.
- Amor.
Ele atravessa a sala até mim, segura meu rosto com uma das mãos, e me beija como se estivesse chegando em casa depois de um dia inteiro longe. O beijo é quente, e eu percebo tarde demais que estou prendendo o ar.
Quando se afasta, a mão dele desce naturalmente até a minha barriga.
- E aí, campeão... - murmura, a voz mais baixa. - Está cuidando da sua mãe direitinho?
O bebê se mexe na mesma hora.
Marlon solta uma risada curta, surpreso, os olhos dele se estreitando de alegria.
Ele espalha a mão sobre minha barriga, os dedos se movimentam devagar num carinho lento.
- Eu não vejo a hora de te ter nos braços, filho. Estou contando os dias.
Ele encosta a testa de leve na minha barriga por um segundo.
Meu peito aperta.
- Amor... você pode chamar a Lílian para mim? Preciso sair para uma reunião do marketing.
Ele franze a testa de leve.
- Eu vi na agenda. - os dedos dele descansam na minha barriga. - E pensei exatamente nisso. Você não vai sozinha, ainda mais agora, no final da gestação.
- Obrigada.
Ele se inclina e me beija de novo antes de se afastar.
A porta quase se fecha quando ele volta dois passos para dentro, como se tivesse esquecido alguma coisa importante. Segura meu queixo e me rouba outro beijo, rápido, intenso e desaparece no corredor.
- Agora eu vou chamar a Lílian - murmura contra meus lábios e sai me deixando ali com a mão sobre a barriga e o coração apertado.
"..."
Lilian entra no carro com a postura impecável de sempre.
Os olhos passam rápido pelo retrovisor antes de me olhar.
Então ela sorri, e por um segundo parece mais leve do que de costume.
- Confesso que fiquei feliz quando você me chamou - ela diz, colocando o cinto. - A gente trabalha no mesmo prédio e quase não temos tempo...
- Também sinto isso - respondo. - Parece que tudo virou reunião, decisão.
Ela sorri, dá partida e diz:
- Então hoje a gente faz direito. Come alguma coisa e finge que o mundo não está nos engolindo.
O carro começa a se mover. Lílian ajusta o retrovisor novamente.
E, pela primeira vez desde cedo, a sensação de perigo se afasta um pouco.
O suficiente para eu aceitar sair e baixar a guarda.
O trânsito está lento. Horário ingrato. Os carros avançam aos poucos, parando e seguindo em um ritmo preguiçoso.
- Você acredita que eu estou pensando em fazer aquela pós-graduação?
Ela ajusta o retrovisor pela terceira vez.
- Só para estudar...
O sorriso dela dura pouco.
- Estranho...
- O quê?
- Aquele carro atrás da gente não saiu do lugar desde o último sinal.
O bebê se mexe de novo, mais forte.
Levo a mão à barriga, massageio devagar.
- Ele está inquieto hoje - comento. - Como se estivesse tentando me avisar de alguma coisa.
- Ansioso - Lílian brinca. - Puxou o pai.
Sorrio, mas algo em mim se contrai.
Um tipo de atenção que o corpo aciona antes da mente concordar. Ainda assim, atribuo ao calor, ao trânsito, ao peso da gestação avançada.
- Está tudo bem? - ela pergunta, notando meu silêncio.
- Está - respondo. - Só preciso respirar um pouco.
O sinal à frente fecha, nós paramos.
Carros dos dois lados. Um ônibus atrás. Nada fora do padrão. Um cenário comum demais para justificar qualquer inquietação real.
No ônibus parado atrás de nós, um menino encosta o rosto no vidro e olha direto para o carro.
Por um segundo, nossos olhos se encontram.
Então o sinal abre.
É quando tudo acontece.
Sem aviso, sem erro, rápido.
O som vem primeiro.
Um estalo brutal, que não pertence ao trânsito. O vidro do motorista explode em mil fragmentos que não caem, voam. Imediatamente, o ar muda. Fica pesado, hostil.
A porta é arrancada, não aberta. Arrancada.
Mãos entram no carro com precisão assustadora. Não há hesitação. Não há grito. Só execução.
- Agora.
- Cala a boca.
- Não reage...
As vozes são baixas. Controladas.
Meu corpo trava. Minha língua gruda no céu da boca.
Uma mão fecha no meu braço e me arranca do carro com uma força que não machuca.
Apenas decide por mim.
O solavanco em meu braço espalhou um choque que fez meu pescoço estalar e adormecer.
Quando minhas costas batem no asfalto, sinto a pele ser arrancada de mim, queima.
Abraço a minha barriga e me encolho no chão de olhos fechados esperando o fim do que eu ainda nem tinha entendido.
Mas o demônio não poupa crianças.
Um homem puxa meus braços para trás e prende com algo que faz minhas mãos formigarem.
- Quietinha. É melhor pra você. Não olha.
- Pelo amor de Deus, estou grávida!!!
O grito foi inútil, instintivo rasgando minha garganta em uma esperança imbecil de que ali haja humanidade.
Não há!
Do outro lado, vejo Lílian.
Ela é arrancada do banco como um objeto que perdeu valor. Ela reage. Se debate. Tenta chutar. Tenta morder.
Uma mão enorme cobre a boca dela e a outra segura o rosto.
Os olhos dela me encontram, aquele olhar não pede ajuda, ele se despede.
Somos jogadas para dentro do carro.
Não, não, não.
Meu corpo entra torto. A barriga bate. A urina escorre entre as minhas pernas antes que eu consiga impedir. O homem que me segura olha para baixo. Não desvia.
A boca dele se curva de leve, quase curiosa. Eu tento fechar as pernas, mas ele aperta meu braço e me mantém aberta ali no meio de todos.
Meu coração pula errado, rápido, meu corpo inteiro começa a tremer.
O carro anda em alta velocidade, eu escorrego. O corpo balança. Tudo gira. O cheiro me dá ânsia.
Meu ventre aperta. Meu corpo se curva sozinho.
Não agora. Por favor, filho.
Sinto um empurrão de dentro para fora. Outro. Dói. Não é só dor, é aviso. É pânico dentro de pânico.
A dor me prende antes que eu consiga me encolher.
Quero proteger, mas não sei como.
As pernas não obedecem.
Não vejo nada, só sei que estou sendo levada.
O carro acelera e algo em mim despenca junto. Uma certeza horrível e fria.
Ninguém vem, ninguém sabe.
Marlon não sabe.
E a última coisa que eu fiz foi dizer que estava tudo bem.
Meu ventre endurece e o pânico explode de vez.
Não aqui, não assim. Por favor.
O choro explode de dentro de mim, desordenado, animal, um som que rasga a garganta e me expõe inteira. Não parece meu. É só pavor vazando.
Então alguém ri.
Um riso curto, irônico me alerta.
Sinto um olhar me percorrendo rápido, técnico, sem curiosidade. Como quem confere se a mercadoria ainda serve.
E eu quebro...
Algo pressiona o meu rosto.
O cheiro invade primeiro.
Químico, forte, amargo. Errado.
- Dorme.
O polegar dele pressiona meu maxilar para abrir minha boca.
Balanço a cabeça. Tento virar, tento morder. Tento puxar ar. Meus pulmões queimam. O bebê se mexe com força, como se também entendesse que algo saiu do eixo.
O pensamento vem fragmentado, errado, sem forma.
Isso não devia estar acontecendo...
Vejo Lílian ao meu lado, ela também luta, mas também perde.
O pano cobre a boca dela. Os olhos arregalam. As mãos dela batem no banco uma última vez.
Nossos olhares se cruzam, um segundo, só um.
Tempo suficiente para o terror se fixar para sempre.
Depois, tudo começa a se afastar.
O som some primeiro, depois a luz.
Tento responder, mas...
"..."
Ainda estamos no carro, meu corpo pesa contra o banco. Não consigo mexer os braços. Não consigo gritar. O pano ainda está no meu rosto. O cheiro queima por dentro.
Sinto o meu filho mexer. Como se pedisse algo que eu não posso dar.
Ninguém abre a porta, nem chama meu nome.
Aos poucos, fica claro o que eu tentei negar desde o início.
Meu corpo decide sozinho. Minha barriga contrai.
O suor escorre. A dor vem em ondas que não pedem permissão.
Tento respirar. O ar não entra direito.
O carro despenca num buraco e a dor vem quente, puxando para baixo. Meu corpo cede sem pedir permissão.
A dor aumenta e eu engasgo com o grito.
Não agora.
Não por essas mãos.
A barriga pulsa, tento chamar alguém mas nenhum som sai. A minha garganta queima.
Não é só o meu corpo que está fora do controle, é o destino do meu filho.
Eu penso em algo pior do que o sequestro.
Será que eles não vieram só por mim? Vieram pelo meu filho?
Meu braço se fecha sobre o ventre por instinto, tentando proteger alguém que ainda nem chegou ao mundo.
E então uma ideia fria atravessa meu pensamento.
Pela forma como me observam... talvez eles não estejam esperando o momento de me levar.
Talvez estejam esperando o momento de ele nascer.
Lara
Eu sou jogada para frente e só consigo proteger a barriga.
As costas batem no chão com força, a poeira sobe ao redor do meu rosto. O gosto de terra entra na minha boca quando tento puxar ar.
Levo alguns segundos para conseguir respirar de novo. O ar volta errado, curto demais.
Por um segundo eu penso que o bebê sentiu a queda antes de mim.
Minha mão vai direto para a barriga.
Meu corpo se dobra sozinho quando bato no chão. A dor explode por todo o corpo, costas, braços e pernas.
Minha mão procura apoio e afunda em terra solta. O braço falha. O peso da barriga puxa meu corpo para o lado e eu gemo sem querer.
- Lara. - a voz de Lílian chega perto. - Olha para mim. Os olhos dela descem para minha barriga antes de voltar para o meu rosto.
O chão está a poucos centímetros do meu rosto. Som de gente. Vejo pés passando.
Um rádio ligado em algum lugar. Vozes altas e risadas, algo metálico bate duas vezes, sempre no mesmo ritmo.
Alguém passa chutando uma pedra para o lado, rindo de alguma coisa que não tem nada a ver comigo.
Meu corpo jogado no chão não interrompe a tarde dessas pessoas.
Uma mulher passa carregando sacolas e desvia de mim como se eu fosse um buraco na calçada. Ela olha rápido para a minha barriga. Depois desvia os olhos. Muito rápido para ser descuido.
O som começa a se organizar ao redor de mim.
Funk pesado vibra acima, marcando território. Entre uma batida e outra, estalos curtos de rádio confirmam que aquilo não é bagunça. É controle.
- Chegou?
- Chegando.
- Segura aí mano.
As vozes não se explicam, elas se reconhecem, ninguém pergunta quem eu sou.
Alguém passa falando mais alto, avisando que "tá tudo limpo". Outro responde rindo que "a madame tá sentindo". A palavra atravessa meu corpo como tapa. Madames não gemem de dor no chão com a barriga dura demais para caber em si.
Sinto o cheiro do lugar agora. Poeira, gordura, esgoto distante, algo queimado. É o cheiro de um lugar que não espera permissão para existir.
Um rádio chia perto de mim. Uma voz surge, abafada, impaciente.
- Ela tá aí?
- Tá viva. Por enquanto.
Não dizem meu nome, não precisam.
Alguém encomendou isso e esse alguém pode estar a caminho.
Não foi sequestro, nem acaso, foi escolha.
- Aqui não entra ninguém, não tem conversa, não tem erro, aqui é Laje, porra - a voz sai debochada, segura, como quem não precisa explicar o nome porque todo mundo ali já sabe quem manda e ninguém discorda.
Alguns riem mas o riso não tem humor.
Dito como regra antiga, dessas que não precisam ser repetidas.
É aí que meu estômago afunda. O calor sobe pelo peito, a boca seca e minhas mãos começam a tremer sem que eu mande. O ar fica curto. Meu corpo entende antes de mim que isso não é bagunça, não é acaso. É a casa deles.
Aperto os dedos contra o chão quando a dor passa pela minha barriga.
O ar prende no peito, fico imóvel por um segundo, tentando entender se é contração ou medo.
E então, sem aviso, a minha mente foge para outro dia, outro quarto.
Eu dobrava as roupinhas do bebê, minúsculas demais para parecerem reais.
Marlon montava o berço ao meu lado, mas a cada peça que encaixava, ele olhava para mim.
- Você comeu?
- Já bebeu água?
Perguntava isso a cada cinco minutos, como se vigiar cada gole de água pudesse proteger o mundo inteiro. Eu respondia roubando um beijo, ele reclamava... mas sempre sorria.
O aperto atravessa minha barriga outra vez, mais intenso e o quarto parece se afastar por um segundo.
Lílian abre a boca para falar de novo. Um olhar corta ela no meio da frase. Ela fecha a boca na hora.
Ouço passos se aproximando. Alguém para bem perto. Sinto um olhar rápido sobre mim. Não curioso. Avaliador. Como quem confere um problema antes de seguir adiante.
- Tá cedo? - uma outra voz pergunta, indiferente.
- Se nascer aqui, segura. - alguém diz, de longe, como quem fala de um pneu murcho.
Um sequestrador ri baixo. O riso faz meu estômago virar, eles estão falando do meu filho como se fosse uma carga atrasada.
Ninguém mais responde.
Apoio as duas mãos na barriga.
- Você escolheu um caos para nascer... sabia?
- Você se mexe forte, como se respondesse.
Eu sorrio.
- Calma... seu pai é pior que isso tudo e ela te ama.
Minha mão cobre a barriga inteira, como se eu pudesse esconder ele do mundo.
- Ama você antes de ver seu rosto.
Engulo em seco.
- Quando o médico disse que você existia... ele ficou em silêncio por tanto tempo que eu achei que tinha ouvido errado.
Lembro das mãos dele fechando devagar.
- Ele já perdeu um filho uma vez.
Minha garganta aperta.
- Filho... se alguma coisa acontecer comigo... pelo menos você não vai crescer sem pai.
Mas perder outro filho... isso eu não sei se ele sobreviveria.
Meu corpo reage antes que eu consiga pensar. A pressão desce devagar, pesada, como se algo por dentro estivesse mudando de lugar.
Minha mão aperta o chão. Os dedos se cravam na terra quase sem perceber.
Marlon ainda acha que eu estou em uma reunião.
E fui eu quem deixou ele acreditar nisso.
Meu ventre se move de novo, um chute forte, baixo, eu puxo o ar.
Outro aperto vem logo atrás, mais profundo.
- Lílian... - minha voz sai falha. - Acho que...
Ela já está me olhando e entende antes de qualquer palavra terminar.
Não é só medo ou nervoso, meu corpo está entrando em trabalho de parto e agora eu sei.
Espero outro chute, ele sempre responde quando eu falo com ele.
Só que, de repente... o meu filho parou de se mexer.
O silêncio dentro de mim é pior que a dor.
A pergunta atravessa tudo, cruel, inevitável, sem resposta:
Se o meu corpo começou aqui... quanto tempo meu filho ainda tem?
Em algum lugar acima de mim, alguém grita que o chefe está chegando.
MARLON
- Ela chega em quarenta minutos.
Digo isso sem olhar para Darlan. Estou de pé, perto da mesa de reuniões, conferindo a agenda no tablet pela terceira vez, como se os horários pudessem justificar alguma coisa.
Darlan para de digitar. O cursor ainda pisca na tela, os dedos ficam suspensos no teclado por um segundo.
Não pergunta nada, levanta o olhar devagar.
- Quem chega? - ele pergunta.
- Lara. A reunião do marketing termina agora. Restaurante perto da Sinclair.
O silêncio muda de peso.
Darlan fecha o notebook com calma excessiva. Os dedos não tremem. Mas param um segundo a mais sobre a tampa. O rosto não denuncia nada, mas eu conheço aquele intervalo. É o segundo em que ele cruza dados antes de ouvir versões.
- Não fui informado da saída.
Engulo em seco.
- Foi uma decisão de última hora. Ela não quis pressão. Disse que seria rápido. Foi com a segurança da empresa.
A palavra empresa soa pequena demais.
Darlan se levanta.
Não anda ainda. Só fica em pé.
- Quem autorizou?
- Eu. - respondo. Rápido. Antes que ele pergunte de novo.
O olhar dele vem direto no meu. Não é raiva, é cálculo. Raiva grita. Aquilo mede danos.
- A segurança da empresa não cobre deslocamento externo sem escolta dedicada - ele diz. - Você sabe disso.
- Era um trajeto curto.
- Erros não precisam de distância. Só de uma brecha.
A porta se abre antes que eu responda.
Dois seguranças entram. Estão suados. Um deles segura o rádio com força demais.
- Senhor - o mais alto começa. - Houve uma abordagem no semáforo.
Meu estômago afunda.
- Relata - Darlan diz. Seco.
- Dois veículos. Fechamento rápido. Profissional. Tiraram as duas do carro em menos de vinte segundos. Tentamos acompanhar, mas eles trocaram de rota dentro da comunidade. Perdemos o visual.
O rádio ainda chia na mão dele, como se a falha continuasse acontecendo.
O segurança termina o relatório e evita olhar para mim.
O tablet escapa da minha mão e estilhaça na mesa, eu nem olho. Os cacos vibram no chão, ninguém se mexe para recolher.
Minha mão fecha devagar.
- Tocaram na minha mulher.
Levanto os olhos.
- Eu queimo essa cidade inteira até encontrar quem fez isso.
Meu estômago revira antes que eu pense em qualquer coisa.
O número fica ecoando, vinte segundos e não sai.
Vinte segundos.
Menos tempo do que ela levava para atravessar a cozinha descalça quando vinha roubar comida da panela.
"Você disse que não estava com fome.
Ela encostou o queixo no meu ombro.
- Eu menti.
Roubou a colher da panela e provou antes que eu pudesse impedir.
- Você vai me matar um dia - eu disse.
Ela riu. O vapor da panela subiu entre nós, eu quase disse para ela parar de roubar comida, mas deixei.
- Vai sentir saudade."
Vinte segundos.
Ela estava no final da gestação. Eu sabia e mesmo assim, deixei.
Minha mão fecha devagar, o peito aperta de um jeito errado, como se algo tivesse deslocado por dentro. Engulo em seco e não passa. O gosto é ácido, quente. Minha cabeça gira uma vez e para.
- Comunidade onde? - Darlan pergunta.
- Região da Laje.
O nome não vem completo. Não precisa.
Quando escuto, o chão some por um segundo, meu joelho quase cede. Minha mão se solta da mesa.
Não é medo. É certeza.
Eu não perdi o controle da situação, eu entreguei.
Darlan pisca uma vez.
- Quem estava com ela? - ele pergunta.
- A secretária dirigia... a Lílian.
Algo passa pelo rosto de Darlan agora. Não é surpresa. É agravamento.
Ele vira de costas para mim e já está andando quando fala:
- Esquema de crise. Agora!
- Darlan... - tento acompanhar.
Ele não diminui o passo. Nem olha para trás.
- Você ficou responsável pela decisão. Agora fica responsável pelo silêncio.
O mundo estreita.
Antes que eu perceba, já estou indo para cima dele.
A cadeira bate no chão atrás de mim quando avanço.
Minha mão agarra o colarinho dele e o empurra contra a parede com força suficiente para fazer o quadro tremer.
- Silêncio? - minha voz sai baixa, cortante. - Levaram a minha mulher, porra.
Minha língua passa pelos dentes devagar.
Como se eu estivesse escolhendo onde bater, mas o punho dele vem primeiro.
Eu respondo no mesmo segundo.
O impacto estoura entre nós e alguém grita alguma coisa que ninguém escuta.
Outro soco já vem meu, Darlan recua um passo.
Eu avanço de novo, ele me acerta.
- Se alguma coisa acontecer com ela...
O sangue ainda escorre do corte no meu lábio. Eu nem sinto.
Um braço entra no meio com força brutal.
Davi.
Ele me segura pelo peito e me empurra para trás.
- Marlon! Chega!
Eu tento avançar de novo, mas ele segura firme, o peso inteiro do corpo travando o meu.
- Solta.
Minha camisa ainda está torcida na mão dele.
- Não.
- Me solta caralho, é a minha mulher!
Minha respiração está curta.
Os olhos dele não desviam dos meus.
- Você quer achar quem fez isso?
Silêncio.
- Então para de bater em quem está do seu lado.
O ar queima no meu peito.
Lá fora, a cidade continua respirando como se nada tivesse mudado. Mas todo mundo naquela sala sabe a verdade.
Quem levou Lara não roubou uma mulher.
Declarou guerra.
Davi ainda está na minha frente quando a sala finalmente fica quieta. Minha respiração vem pesada, o gosto de ferro na boca lembrando que a briga foi real. Passo a mão pelo maxilar, sentindo o lugar onde o soco pegou, e olho na direção da porta por onde Darlan saiu.
- Eu vou com ele.
Minha voz ainda sai áspera.
- Nós vamos subir aquela favela agora.
Davi solta um sopro curto, sem humor nenhum, e balança a cabeça.
- Não vai.
Eu levanto os olhos devagar.
- Tenta me impedir.
Ele não recua. Fica exatamente onde está, firme, me encarando como se estivesse medindo até onde eu realmente estou disposto a ir.
- Aquilo é uma favela, Marlon. Você não invade um lugar desses sozinho, no impulso.
Eu dou um passo para o lado, pronto para passar por ele.
- Lara está lá.
Davi segura meu braço antes que eu alcance a porta. Não é força bruta agora, é aviso.
- Eu sei.
O silêncio pesa entre nós por um segundo.
Então ele baixa a voz.
- Mas presta atenção em outra coisa.
Eu olho para ele.
- Darlan também está no limite.
O nome fica no ar.
- Você sabe de onde ele veio - Davi continua, sério. - O que ele é...
Davi aperta meu braço um pouco mais antes de soltar.
- Se você entrar nessa favela com ele agora, cego de raiva, não vai ser só sobre resgatar Lara.
Ele sustenta meu olhar.
- Vai virar outra coisa.
Eu fico parado por um segundo, o peito ainda queimando.
Em algum lugar da cidade, Lara está lá fora.
Sozinha.
E quanto mais tempo passa, mais difícil fica acreditar que ainda dá tempo de chegar antes que seja tarde demais.
DARLAN
O elevador não espera.
Enquanto desce, já estou no telefone. O espelho do elevador devolve um rosto que eu não reconheço, mas os olhos estão certos.
- Derick. Rastreio total. Agora. Última posição, cruzamento de câmeras, sinal morto, tudo.
- Alguma janela de tempo? - ele pergunta.
- Todas. Não me interessa o passado. Me dá onde ela está.
Saio do elevador andando rápido. O hotel fica a dois quarteirões da Sinclair. Entro direto no quarto, jogo a jaqueta na cadeira, abro o notebook.
Derick retorna em menos de três minutos.
- Achei. Não foi improviso. Usaram bloqueador curto, mas erraram na triangulação final. Elas estão dentro da área da Laje. Setor fundo. Casa fixa.
A tela mostra o ponto vermelho.
Não piscando. Estável. Como se estivesse esperando.
- Confirmação visual? - pergunto.
- Não. Mas ninguém some assim sem permissão ali.
Permissão.
- Quantos acessos? - continuo.
- Três entradas. Todas fechadas. Controle de rádio ativo.
Fecho o notebook.
- Mobiliza. Não avisa ninguém fora do meu círculo. - pego as armas, confiro o carregador. - Se ela estiver viva...
Não termino a frase.
Desço de novo. Já falando com a equipe de intervenção.
- Não é resgate. É invasão. Ninguém entra gritando. Ninguém negocia antes de eu chegar.
- Derick. Linha fechada.
- Já está.
- Ela está viva.
O ar volta aos meus pulmões de um jeito curto, contido. Não alivio. Alívio vem depois. Agora é foco.
- Estado? - pergunto.
- Crítico, mas consciente até pouco tempo atrás. Estão mantendo. Não avançaram ainda.
Aperto o maxilar.
- Local confirmado?
- Barraco fixo. Setor fundo. Comunicação interna por rádio amador. Código fechado. Não é lugar pra subir agora.
Fico em silêncio. Ele sabe que eu não gosto dessa resposta.
- Já falei com o Don - Derick continua. - Planta completa, rotas, recuo, contenção. Tudo criptografado. Você recebe em dois minutos.
- Autorização?
A pausa vem curta e calculada.
- Só à noite. Se subir agora, vira guerra aberta, eles se fecham e ela vira escudo.
Meus dedos apertam o telefone até doer. O plástico range.
- Então ninguém toca em nada até escurecer - digo. - Ninguém assusta o terreno. Ninguém chega perto do barraco.
- Já orientei. - Ele hesita um segundo. - Darlan...
- Fala.
- Eles não sabem quem você é ainda.
Um canto da minha boca sobe, sem humor nenhum.
- Ótimo.
"..."
Entro no carro, a cidade passa rápido demais.
Lara saiu do protocolo, Lílian ampliou o risco e Marlon autorizou isso.
Não pode.
Eles abriram o inferno sem saber quem vinha atrás.
Tocaram no que não era deles.
Eles ainda acham que sequestraram uma mulher.
Quando eu sorrir, ninguém vai confundir isso com misericórdia.
Lara ainda respira em algum lugar daquela favela.
A única dúvida agora é:
Quem vai estar vivo para ver o meu sorriso virar a própria desgraça?