A risada de Sofia ecoou, misturando-se à chuva lá fora, enquanto eu, Heitor, observava da estante, um fantasma na minha própria casa.
Ela estava nos braços de Gabriel, e a voz de Sofia, outrora melosa, transformou-se em uma ordem humilhante: "Heitor, por que você não vai lavá-lo para mim?".
Fui compelido a lavar o carro dela sob uma chuva torrencial, de joelhos, meus dedos congelados e dormentes, observando Sofia e Gabriel rirem abertamente através da janela, brindando à minha humilhação, como se eu fosse um cão molhado.
A dor de ser tratado como um objeto se intensificou quando, febril e doente, desmaiei, apenas para ser "socorrido" por Gabriel com uma seringa cheia de um líquido desconhecido, enquanto Sofia assistia, mais preocupada com o pulso dele do que com minha agonia.
Mas, ao ver minha rejeição no espelho, ela finalmente perguntou: "O que aconteceu com você?". Eu não respondi, mas o Heitor que ela conhecia, o capacho que ela pisava, havia acabado.
A risada de Sofia Lima ecoou pela sala de estar, um som claro e cortante que se misturava ao barulho da chuva forte lá fora.
Ela estava deitada no sofá de couro branco, aninhada nos braços de Gabriel Costa.
A mão dele deslizava por suas costas, possessiva, enquanto os lábios dele exploravam seu pescoço.
Eu estava parado perto da estante de livros, fingindo arrumar uma fileira de encadernações que nunca eram tocadas. Eu era uma peça da mobília, um fantasma na minha própria casa.
"Heitor", Sofia chamou, sem sequer virar a cabeça na minha direção.
Sua voz era melosa, mas carregada de uma ordem inconfundível.
"Sim, Sofia?"
"Pegue mais champanhe para nós. E traga alguns daqueles doces que a empregada fez."
Gabriel riu baixo, um som arrogante que me revirava o estômago.
"Ele é sempre tão obediente assim?", perguntou ele, a boca ainda contra a pele de Sofia.
"Ele sabe o lugar dele", respondeu ela.
Fui até a cozinha, meus movimentos rígidos. Cada passo era um esforço para não deixar a raiva transparecer. Peguei a garrafa gelada da adega e arrumei os doces em uma bandeja de prata. Minhas mãos tremiam ligeiramente.
Quando voltei, a cena era ainda mais íntima. Os amigos deles, um outro casal, haviam chegado e agora assistiam à performance de Sofia e Gabriel com sorrisos de aprovação.
Entreguei a bandeja a Sofia. Ela pegou uma taça sem me olhar, os olhos fixos em Gabriel.
"Obrigada, querido", disse ela, a palavra "querido" soando como um insulto.
Fiquei parado, sem saber se estava dispensado.
Foi então que o olhar de Sofia se desviou para a enorme janela de vidro, que ia do chão ao teto e dava para o jardim encharcado. Um sorriso lento e cruel se formou em seus lábios.
"Sabe, meu carro está imundo", disse ela, como se a ideia tivesse acabado de ocorrer.
Gabriel seguiu seu olhar e sorriu também.
"Uma pena, com essa chuva toda."
"É verdade", concordou Sofia. Ela finalmente se virou para mim, seus olhos brilhando com malícia. "Heitor, por que você não vai lavá-lo para mim?"
O silêncio caiu sobre o pequeno grupo. A chuva batia contra o vidro com mais força.
"Agora?", perguntei, a voz mais baixa do que eu pretendia.
"Sim, agora", ela confirmou, o sorriso se alargando. Ela pegou as chaves do carro na mesinha de centro e as jogou na minha direção. Elas caíram no tapete persa com um baque surdo. "Não quero dirigir um carro sujo amanhã."
Os amigos dela riram, um som abafado e debochado.
"Mas... está chovendo, Sofia."
"E daí? Você não é feito de açúcar, é? Anda logo. Quero vê-lo brilhando."
A humilhação era um gosto amargo na minha boca. Peguei as chaves do chão, sentindo os olhares de todos queimando em minhas costas. Ninguém disse nada para me defender. Ninguém jamais dizia.
Virei-me e caminhei em direção à porta.
Lá fora, a água gelada me atingiu como um soco. Em segundos, minha camisa e calça estavam completamente encharcadas, coladas à minha pele. O vento frio me fez tremer.
Pela janela, eu podia vê-los. Eles haviam se aproximado do vidro, taças na mão, como se estivessem assistindo a um espetáculo. Sofia estava no centro, o braço de Gabriel em volta de sua cintura, rindo abertamente.
Abri a garagem, peguei o balde, a esponja e o xampu para carros. Cada movimento era lento, deliberado. A água da mangueira estava gelada.
Comecei a ensaboar o capô do conversível preto de Sofia. A espuma se misturava com a água da chuva, escorrendo pelo metal. Minhas mãos ficaram vermelhas e dormentes rapidamente.
Eu podia ouvir as risadas deles, mesmo através do vidro e da tempestade. Eram como facas.
Mas enquanto eu esfregava a lataria, um pensamento me manteve de pé. Um único pensamento que era meu escudo contra tudo aquilo.
Amanhã.
Amanhã, o último pagamento da dívida dos meus pais seria finalmente compensado. Três anos. Três anos de inferno, de humilhações diárias, de noites em que eu dormia no quarto de hóspedes enquanto ouvia os sons dela com Gabriel no nosso quarto. Tudo para salvar minha família da ruína total, uma dívida que os teria deixado na rua.
Eles não sabiam a extensão do meu sacrifício. Eles achavam que eu tinha me casado por amor com uma mulher rica e temperamental. Eles não sabiam o preço.
Mas o preço estava quase pago.
Só mais uma noite. Eu podia suportar mais uma noite.
Olhei para a janela. Sofia ergueu a taça na minha direção, um brinde zombeteiro. Gabriel beijou-a longamente, os olhos fixos em mim.
"Olha só para ele", a voz de Gabriel chegou até mim, distorcida pelo vento. "Parece um cachorro molhado. Você o treinou muito bem, meu amor."
A risada de Sofia foi a resposta.
"Ele não vale nada", disse ela. "Mas pelo menos serve para alguma coisa."
Eu abaixei a cabeça e continuei a esfregar. A água gelada escorria pelo meu rosto, misturando-se a algo que poderia ser lágrimas, mas eu sabia que era apenas a chuva.
Amanhã. A palavra martelava na minha mente. Amanhã tudo isso acabaria.
Levei quase uma hora para terminar. Quando o último centímetro do carro estava limpo, eu estava tremendo incontrolavelmente, meus dentes batiam uns nos outros. A chuva havia diminuído para uma garoa fina, mas o frio parecia ter se instalado nos meus ossos.
Guardei tudo na garagem e entrei em casa pela porta dos fundos, que dava na lavanderia. Tirei a camisa encharcada e a joguei no chão, deixando uma poça de água suja. Meu corpo estava coberto de arrepios.
Fui para a sala de estar, esperando pelo menos um reconhecimento. Mas a cena era a mesma. Sofia, Gabriel e seus amigos estavam agora jogando alguma coisa no console de videogame. Risadas enchiam o ar. Ninguém sequer notou minha presença.
Passei por eles e comecei a subir as escadas.
"Onde você pensa que vai?", a voz de Sofia me parou.
"Vou tomar um banho. Estou com frio."
Ela fez uma pausa no jogo e me olhou de cima a baixo, uma expressão de puro desdém no rosto.
"Você está pingando no meu tapete."
Eu não respondi. Apenas fiquei ali, tremendo.
Gabriel colocou o controle de lado e se levantou. Ele caminhou até mim, circulando-me como um predador.
"Ele parece um pouco pálido, não acha, Sofi?"
"Ele é sempre pálido", ela respondeu, voltando a atenção para o jogo.
Gabriel parou na minha frente. Ele olhou pela janela em direção ao quintal dos fundos, onde a piscina de borda infinita brilhava sob as luzes externas.
"Sabe, o vento sujou a piscina toda. Folhas por toda parte", disse ele, casualmente.
Um calafrio percorreu minha espinha, e não era apenas pelo frio. Eu sabia o que estava por vir.
"A empresa de manutenção vem amanhã", eu disse, minha voz rouca.
"Mas eu queria dar um mergulho agora", disse Gabriel, fazendo beicinho de uma forma infantil e provocadora. Ele se virou para Sofia. "Amor, a água está tão suja. Você não acha que o Heitor poderia limpá-la para mim?"
Sofia deu de ombros. "Se você quer, querido."
Ela nem me olhou. A ordem foi dada através dele.
"Você ouviu", disse Gabriel, sorrindo. "Vá limpar a piscina."
"Sofia, por favor", eu implorei, olhando para ela. "Estou congelando. Acho que estou ficando doente."
Ela finalmente olhou para mim. Seus olhos eram frios, vazios de qualquer compaixão.
"Não seja dramático, Heitor. Um pouco de trabalho físico vai te aquecer. Agora vá."
A desesperança me atingiu com força. Não havia argumento. Não havia escapatória.
Dei meia-volta e desci as escadas, meus pés pesados como chumbo. Fui até o depósito da piscina, peguei a longa rede de limpeza e caminhei até a beira da água. O vapor subia da superfície aquecida, criando uma névoa fantasmagórica no ar frio da noite.
Mergulhei a rede na água. O esforço de arrastar a rede pesada pela piscina fez meus músculos doerem. Meus tremores pioraram. Uma tontura começou a tomar conta de mim, as luzes ao redor da piscina pareciam borrar.
Eu podia senti-los me observando da sala de estar. Suas silhuetas contra a luz quente da casa.
Continuei, folha por folha, galho por galho. Minha respiração ficou curta. Uma dor aguda começou a se formar no meu peito a cada vez que eu inspirava o ar gelado. Eu me sentia febril, minha pele queimava e gelava ao mesmo tempo.
Eu só precisava terminar. Apenas aguentar mais um pouco.
Mas o mundo começou a girar mais rápido. A rede pareceu pesar uma tonelada. Meus braços cederam.
Minha visão escureceu nas bordas. Olhei para a casa uma última vez. Vi Sofia rindo de algo que Gabriel disse, a cabeça dela jogada para trás em alegria. Ela nem estava olhando em minha direção.
A rede escorregou da minha mão e caiu na água com um barulho suave.
Meus joelhos dobraram.
A última coisa que vi antes de tudo ficar preto foi o convés de madeira da piscina correndo para me encontrar. A última coisa que ouvi foi o som distante da risada de Sofia.
Então, nada.