Eu dei a ele meus melhores anos, sacrificando tudo para que Mateus, o homem que eu amava, alcançasse seus sonhos políticos.
Ele me prometeu o mundo, sussurrando que eu seria sua rainha assim que ele vencesse.
Mas quando a carreira dele estava em risco, fui eu quem assumiu a culpa por um desvio de dinheiro, fui eu que, para tornar a história convincente, sofri um "acidente" que me deixou com uma cicatriz medonha no rosto e uma mão aleijada.
Mateus me prometeu que nunca esqueceria meu sacrifício, que me compensaria por tudo; eu, na minha ingenuidade, acreditei.
Hoje, vendo-o tomar posse como deputado federal na TV, ele anunciou sua noiva: uma mulher linda, sem cicatrizes.
Ele me descartou como lixo, me humilhou publicamente na festa, me chamando de "criatura" com "problemas mentais", e jogou dinheiro no chão para que eu sumisse.
Eu estava quebrada, mas uma brasa de raiva acendeu.
Decidi que voltaria para o sertão, para o lugar de onde vim, para o esquecimento.
Quando Mateus invadiu meu apartamento, ele revelou seu verdadeiro eu: um monstro que me via como sua propriedade, sua maldição.
Ele me disse que me manteria como empregada de sua noiva, para me lembrar do meu "lugar".
A dor e a humilhação eram insuportáveis, mas eu não seria sua escrava.
No auge do meu desespero, quando a violência dele me derrubou, um homem misterioso e seus capangas surgiram, mudando o rumo da minha noite e me oferecendo uma chance inesperada de salvação e, talvez, de justiça.
Eu dei a ele meus melhores anos.
Isso não é uma figura de linguagem, é um fato.
Quando Mateus era apenas um estudante de direito, sonhando em entrar para a política, fui eu quem trabalhou em dois empregos para pagar suas contas. Fui eu quem vendeu o único bem da minha família, um pequeno terreno, para financiar sua primeira campanha para vereador.
Ele prometeu que nos casaríamos assim que ele vencesse.
"Elara, você é a base da minha vida. Sem você, eu não sou nada. Quando eu for alguém, o mundo inteiro saberá que você é minha rainha."
Essas palavras, sussurradas em noites cansadas, eram o meu alimento.
Em sua segunda campanha, para deputado estadual, a coisa ficou feia. Os oponentes dele descobriram um desvio de dinheiro na sua campanha anterior, algo que ele fez por desespero. Ele seria preso, sua carreira, acabada.
Na noite em que os investigadores bateram na nossa porta, eu não hesitei. Assumi a culpa.
Fui eu quem falsificou os documentos, eu disse a eles. Mateus não sabia de nada, ele era a vítima de uma assessora excessivamente zelosa.
Para tornar a história convincente, durante uma briga forjada com os "verdadeiros culpados" que os capangas de Mateus arranjaram, sofri um "acidente". Um incêndio.
O fogo deixou uma cicatriz que descia do meu olho esquerdo até o queixo, uma linha permanentemente repuxada e pálida. Minha mão direita também foi atingida, e os tendões do meu dedo anelar e do mindinho foram danificados para sempre. Eles ficaram curvados, inúteis, como garras de um pássaro morto.
Mateus chorou quando me viu no hospital.
"Nunca vou esquecer o que você fez por mim", ele disse, segurando minha mão boa. "Eu juro pela minha vida, Elara. Vou compensar você por tudo."
Eu acreditei nele.
Por dois anos, enquanto cumpria a pena em regime semiaberto e fazia trabalhos comunitários, eu o vi crescer. Ele se tornou deputado. Sua imagem estava em todos os lugares. O jovem promissor, o rosto da nova política.
Eu esperei.
Hoje, ele se tornou deputado federal. O noticiário da noite estava transmitindo ao vivo sua festa de posse, direto de Brasília. Eu estava assistindo em uma TV pequena no meu apartamento minúsculo, o mesmo que dividíamos quando não éramos nada.
O salão estava cheio de gente poderosa. Fotógrafos por toda parte.
E então, o mestre de cerimônias anunciou um momento especial.
Mateus subiu ao palco, sorrindo seu sorriso de um milhão de dólares. Ele pegou o microfone.
"Meus amigos, hoje é o dia mais feliz da minha vida. E não apenas pela vitória política. Mas porque hoje, eu quero compartilhar com todos vocês a minha maior bênção."
Ele se virou e estendeu a mão.
Do lado do palco, uma mulher deslumbrante em um vestido de seda surgiu. Vanessa de Almeida, a herdeira de um império de construção civil. Linda, perfeita, sem uma única cicatriz no rosto.
Mateus pegou a mão dela. Uma mão impecável, com unhas perfeitamente feitas.
"Eu quero apresentar a vocês a minha noiva, Vanessa. A mulher que esteve ao meu lado em todos os momentos e que em breve será minha esposa."
O salão explodiu em aplausos.
Meu coração não parou. Ele apenas se tornou uma pedra fria no meu peito.
Eu me levantei. Troquei de roupa, colocando o único vestido decente que eu tinha. Peguei um ônibus para o local da festa. Eu não sabia o que iria dizer. Eu só sabia que precisava ouvir da boca dele.
Os seguranças na porta me barraram. Minha aparência, minhas roupas simples, a cicatriz no meu rosto. Eu não pertencia àquele lugar.
"Eu conheço o Deputado Mateus. Eu preciso falar com ele."
Eles riram.
Mas eu fui insistente, e minha insistência causou uma pequena cena. Uma cena grande o suficiente para que alguém lá dentro notasse. Um dos assessores de Mateus, um homem que me conhecia dos velhos tempos, veio até a porta.
Seu rosto ficou pálido quando me viu.
Ele me levou para uma sala lateral, longe dos convidados. Pouco depois, Mateus entrou.
Ele fechou a porta. O sorriso tinha desaparecido. Seu rosto era uma máscara de irritação fria.
"O que você está fazendo aqui, Elara?"
Meu corpo inteiro tremia.
"Sua noiva... Você disse que ela esteve ao seu lado em todos os momentos."
Ele suspirou, impaciente.
"Não comece com drama. O que você esperava? Que eu me casasse com... você? Olhe para você. Olhe para o seu rosto. Para a sua mão."
Cada palavra era um golpe físico.
"Você me prometeu."
"Promessas mudam. As pessoas mudam. Eu mudei. Eu sou um deputado federal agora, Elara. Eu preciso de uma mulher que possa estar ao meu lado em jantares de estado, não de alguém que assuste as crianças."
A porta se abriu de repente e Vanessa entrou. Ela olhou para mim de cima a baixo, com um nojo mal disfarçado.
"Mateus, querido, quem é essa... criatura? Ela está causando um alvoroço."
Mateus colocou um braço ao redor dos ombros dela, um gesto possessivo.
"Não é ninguém, meu amor. Apenas uma antiga vizinha com alguns problemas mentais. Ela acha que eu lhe devo algo."
"Problemas mentais?" Eu sussurrei, incrédula.
Vanessa riu, um som agudo e cruel.
"Ah, uma daquelas. Dê um dinheiro para ela e mande-a embora. Não quero que estrague a nossa noite."
Mateus tirou a carteira do bolso. Ele pegou um maço de notas e jogou no chão, perto dos meus pés.
"Pegue isso e desapareça da minha vida. É mais do que você merece."
O dinheiro, as palavras, o olhar de desprezo no rosto do homem pelo qual eu sacrifiquei meu rosto, minha mão, minha liberdade.
Algo dentro de mim se partiu.
"Você é um monstro", eu disse, minha voz soando estranha para os meus próprios ouvidos.
Vanessa deu um passo à frente.
"Como você ousa falar com meu noivo assim, sua aberração? Seguranças!"
Dois homens enormes entraram na sala. Eles me agarraram pelos braços. A força deles era brutal.
"Levem-na para fora. E se ela resistir, podem ser um pouco mais duros. Ela parece do tipo que gosta."
Vanessa disse isso com um sorriso doce nos lábios.
Eles me arrastaram para fora, passando pela entrada lateral. As pessoas na calçada olhavam, cochichando. A mendiga, a louca, a desfigurada sendo expulsa da festa do homem bom.
"Ela tentou atacar o deputado!"
"Disse que era uma ex-namorada, coitado dele, ter que lidar com esse tipo de gente."
"Olha a cara dela, deve ser uma criminosa."
As vozes da multidão me cercaram, me sufocaram. Humilhação queimava mais quente que o fogo que me marcou.
Eles me jogaram na calçada molhada pela chuva fina que começara a cair.
Eu caí de joelhos.
No meu bolso, meus dedos encontraram um objeto pequeno e frio. Um relicário de prata que Mateus me deu anos atrás. Dentro, uma foto nossa, de quando éramos jovens e cheios de sonhos.
Com a mão que ainda funcionava, eu o arranquei do meu pescoço. A corrente fina cortou minha pele.
Eu olhei para a porta por onde eles me jogaram. Mateus e Vanessa estavam lá, olhando para mim como se eu fosse lixo.
Eu levantei o relicário. Nossos olhos se encontraram por um segundo.
Com toda a força que me restava, eu o joguei no chão. Ele se partiu com um som minúsculo e patético.
Eu me levantei, ignorando a dor em meus joelhos.
Virei as costas para eles, para aquela cidade, para aquela vida.
Havia um lugar. Um lugar para onde eu poderia ir. Uma pequena comunidade no sertão da Bahia, de onde minha mãe veio. Um lugar esquecido pelo tempo.
Eu não tinha um plano. Eu não tinha esperança.
Eu só tinha uma certeza. Eu precisava sair dali. Voltar para o pó, para o lugar de onde eu vim.
Era a única escolha que me restava.
Eu arrumei minhas poucas coisas em uma mala gasta. Roupas velhas, alguns livros, as economias que eu tinha juntado, que mal dariam para a passagem de ônibus. O apartamento parecia um túmulo, cada canto gritando as mentiras de Mateus.
Eu estava prestes a sair quando a porta se abriu com um estrondo.
Mateus estava lá. Sozinho. Seu rosto estava contorcido de raiva.
"Onde você pensa que vai?"
Ele entrou e chutou a porta, fechando-a. O som ecoou no pequeno espaço.
"Eu não te devo satisfações", eu disse, minha voz firme apesar do medo que gelava minha espinha.
Ele riu, um som sem humor.
"Você não me deve nada? Elara, Elara. Você ainda não entendeu. Você é minha. Tudo o que você é, eu fiz. Sua cicatriz, sua mão aleijada, seu registro criminal. Isso tudo é minha marca em você."
Ele se aproximou, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro de uísque caro e colônia encheu o ar.
"Eu te dei uma chance. Eu te ofereci dinheiro para sumir. Mas você tinha que fazer uma cena."
"Uma cena? Eu sacrifiquei tudo por você!"
"E você foi compensada!" ele gritou, seu rosto a centímetros do meu. "Você viveu. Eu poderia ter deixado você morrer naquele incêndio. Eu poderia ter deixado você apodrecer na cadeia. Eu te dei uma vida!"
A violência em seus olhos era algo que eu nunca tinha visto antes. Era a verdade nua e crua, despida de qualquer fingimento.
Ele agarrou meu braço com força, o mesmo braço da mão defeituosa. A dor foi aguda, lancinante. Eu gritei.
"Você vai ficar aqui", ele sibilou. "Vanessa teve uma ideia. Ela precisa de uma nova empregada pessoal. Alguém para limpar seus sapatos, lavar suas roupas íntimas. Alguém que a lembre todos os dias de como ela é sortuda por não ser... você."
A bile subiu pela minha garganta. A humilhação era tão profunda, tão avassaladora, que eu mal conseguia respirar.
"Eu prefiro morrer."
"A morte é fácil demais", ele disse, apertando ainda mais. Senti um estalo no meu pulso. "Você vai aprender seu lugar."
Ele me jogou no chão. Minha cabeça bateu na quina de uma mesa de centro barata. O mundo girou.
Ele se ajoelhou ao meu lado.
"E para garantir que você não tente fugir de novo..."
Ele pegou um pequeno porta-joias da minha penteadeira, um dos poucos itens de valor que eu tinha, um presente da minha falecida avó. Ele o enfiou no próprio bolso.
"Agora você não tem escolha. Ou você vem comigo por bem, ou eu chamo a polícia e digo que você me atacou e roubou este item valioso. Quem eles vão acreditar? No honrado deputado ou na ex-presidiária desfigurada?"
A injustiça daquilo era um soco no estômago. Ele estava me incriminando de novo, usando a mesma tática, a mesma crueldade.
Meus vizinhos, ouvindo o barulho, começaram a sair para o corredor.
"O que está acontecendo aqui?" perguntou Dona Sônia, a senhora do apartamento ao lado.
Mateus se levantou, seu rosto se transformando instantaneamente. A máscara de vítima preocupada estava de volta.
"Graças a Deus vocês estão aqui", ele disse, com a voz embargada. "Elara não está bem. Ela está tendo um surto, me atacou. Ela roubou um anel de noivado que eu ia dar para ela anos atrás."
Ele mostrou o porta-joias.
"Eu só quero ajudá-la. Levá-la para um lugar onde ela possa ser tratada."
A multidão no corredor olhava para mim, caída no chão, para minha cicatriz, para o caos no apartamento. E eles acreditaram nele.
"Coitado do Dr. Mateus."
"Ela sempre pareceu estranha."
"Ele é um santo por ainda tentar ajudar."
O mundo se tornou um pesadelo. Ninguém via a verdade. Eles viam o que queriam ver: o homem poderoso e bom, e a mulher louca e ingrata.
Lembrei-me de um tempo, anos atrás. Estávamos em um parque. Ele me deu o relicário de prata.
"Para que você nunca se esqueça de que meu coração é seu", ele disse.
Sua voz era tão sincera. Seus olhos, tão cheios de amor.
Onde estava aquele homem? Ele morreu, ou ele nunca existiu?
Essa dor, a dor da memória, me deu uma nova força. Uma força nascida do desespero absoluto.
Eu não seria sua escrava. Eu não viveria para ser um troféu de sua crueldade.
Quando ele se inclinou para me levantar, eu reagi.
Usei toda a minha força para empurrá-lo. Ele tropeçou para trás, surpreso pela minha resistência.
"Fique longe de mim!" eu gritei.
Eu me arrastei em direção à porta, tentando desesperadamente escapar.
A raiva no rosto de Mateus se tornou fúria. A máscara caiu completamente na frente de todos.
"Sua vadia ingrata! Você não vai a lugar nenhum!"
Ele se lançou sobre mim. Mas antes que pudesse me tocar, a porta do corredor se abriu mais.
Dois homens altos e de aparência rústica, vestidos com simplicidade, mas com uma aura de autoridade silenciosa, entraram no corredor. Eles não eram da cidade. Seus rostos eram curtidos pelo sol, seus olhos afiados.
Eles bloquearam o caminho de Mateus.
"O senhor tem algum problema, doutor?" um deles perguntou, a voz calma, mas com um sotaque forte do interior.
Mateus parou, pego de surpresa.
"Quem são vocês? Isso não é da sua conta. Saíam do meu caminho."
"Acho que é da nossa conta, sim", disse o outro homem. "Nosso patrão não gosta de ver homens batendo em mulheres."
Mateus olhou para eles, depois para a escada. Um terceiro homem estava parado ali. Mais velho, com cabelos grisalhos e um olhar que parecia ver através das pessoas. Ele usava um chapéu de couro e roupas simples, mas carregava um poder que não vinha de dinheiro ou política. Vinha de algo mais antigo. Mais real.
A atmosfera no corredor mudou instantaneamente.
O ar ficou pesado com uma tensão diferente.
A ajuda não veio de onde eu esperava. A ajuda veio do desconhecido.
E pela primeira vez naquela noite, um pingo de algo que não era desespero começou a se formar no meu coração.
Era uma pergunta.
Quem eram eles?