Eu cuidei do meu marido até ele sair de um coma, grávida do filho que eu achava que completaria nossa vida perfeita. Então, a ex-namorada dele reapareceu, também alegando estar grávida de um filho dele.
Durante um sequestro forjado, ele fez sua escolha.
Ele me ofereceu, junto com nosso filho ainda não nascido, aos sequestradores em troca dela.
Ele me viu cair, viu o sangue manchar o concreto e virou as costas para salvar a mulher que o estava enganando.
Ele achou que estava me deixando para morrer.
Mas eu sobrevivi. E a primeira coisa que eu disse ao meu salvador foi: "Estou pensando em trocar o pai do meu bebê."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Helena "Lena" Porter:
"Estou pensando em trocar o pai do meu bebê."
As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse impedi-las, pairando no silêncio entre mim e Caio Monteiro. Soavam insanas. Delirantes, até. Mas o vazio doloroso no meu peito me dizia que eram a coisa mais honesta que eu havia dito em meses.
Caio não se abalou. Ele apenas me olhou, seu olhar firme e sério do outro lado da mesa de ferro do pátio. Anos de amizade me ensinaram a ler cada nuance em sua expressão. Não havia julgamento, nem choque, apenas um foco silencioso e inabalável.
"Ok", ele disse, sua voz um barítono grave que sempre foi minha âncora. "Me diga do que você precisa."
Essa era a essência de Caio. Ele não perguntava "por quê" ou "como". Ele perguntava "o quê".
Meu celular vibrou na mesa, uma intrusão grosseira e indesejada. Um alerta de notícias. Eu não precisava ler. Eu sabia o que diria. A manchete provavelmente já estava estampada em todas as telas do país: *Magnata da Tecnologia Gregório Velasquez e Mulher Misteriosa: Uma Chama Reacendida?*
Eu vi uma única foto perfeita carregar. Meu marido, Gregório, com o braço protetoramente em volta de uma mulher de aparência frágil. O rosto dela, manchado de lágrimas, estava enterrado em seu peito, o paletó de seu terno sob medida cobrindo seus ombros finos. Era uma imagem de devoção. A imagem de um homem salvando a mulher que amava.
A mulher que ele amava não era eu.
Meu celular vibrou novamente. Uma mensagem de Caio, mesmo ele estando sentado bem na minha frente.
*Você não precisa olhar para isso, Lena.*
Forcei um sorriso que pareceu vidro se quebrando. "É um pouco tarde para isso."
A imagem estava gravada na minha mente, uma cicatriz permanente sobre a ferida que havia sido aberta na noite anterior.
O Gala de Caridade da Fundação Velasquez era o evento social da temporada. Eu estava ao lado de Gregório, minha mão repousando sobre minha barriga sutilmente saliente, um símbolo de nossa vida perfeita. Ele era o bilionário da tecnologia que veio do nada, o homem que lutou para sair da miséria. Eu era Helena Porter, a herdeira que esteve ao seu lado, que segurou sua mão por meses enquanto ele estava em coma, sussurrando histórias do futuro que construiríamos.
O leilão de caridade era o evento principal da noite - vinhos raros, viagens exóticas, arte de valor inestimável. Então, o leiloeiro anunciou um item final e especial. Não um objeto, mas uma causa. Um "lance humanitário", ele chamou. As cortinas se abriram e um holofote iluminou uma mulher no palco.
Ela era magra, quase esquelética, vestida com roupas limpas, mas gastas. Seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados com um pavor que parecia quase teatral. Ela era um fantasma de um passado sobre o qual eu só tinha ouvido falar, uma história que Gregório me contou em tons baixos e cheios de culpa.
Adriana Paes. Sua ex-namorada de antes do dinheiro, antes do coma, antes de mim.
O leiloeiro contou uma história triste de uma mulher que passou por dificuldades, uma mulher que perdeu tudo e precisava de uma segunda chance. O lance inicial era para um fundo para ajudá-la a se reerguer.
Senti Gregório enrijecer ao meu lado. Um som baixo e gutural escapou de sua garganta. Seus nós dos dedos estavam brancos onde ele segurava sua taça de champanhe. Era o som de um homem vendo um fantasma.
A história era que Adriana estava dirigindo o carro na noite do acidente que colocou Gregório em coma. Ela desapareceu depois, consumida pela culpa. Gregório sempre carregou essa culpa, acreditando que havia arruinado a vida dela.
Ele olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Lena, eu..."
"Não", sussurrei, minha voz tensa.
Mas ele já estava se movendo. Ele caminhou em direção ao palco, cada passo ecoando no salão de baile subitamente silencioso. Ele não levantou uma placa de lance. Ele não ofereceu dinheiro. Ele se ofereceu.
Ele pegou o microfone do leiloeiro atônito. "O leilão acabou", anunciou ele, sua voz ressoando com uma autoridade que ninguém ousou questionar. "Eu cuidarei dela. O que quer que ela precise, pelo tempo que precisar. Essa é a minha promessa."
Um suspiro coletivo varreu o salão. Ele subiu no palco, tirou sua jaqueta de grife e a envolveu nos ombros trêmulos de Adriana. Os flashes das câmeras eram ofuscantes, uma barragem de explosões capturando minha humilhação pública.
Adriana desabou em seus braços, soluçando. Ele a segurou, acariciando seu cabelo, sussurrando palavras que eu não podia ouvir, mas que senti como um golpe físico. Ele a estava confortando. Protegendo-a. De um mundo do qual eu fazia parte.
Caminhei até a beira do palco, meus saltos afundando levemente no tapete felpudo. "Gregório", eu disse, minha voz mal um sussurro. "O que você está fazendo?"
Ele olhou para mim e, por um segundo, vi um lampejo do homem com quem me casei. Um lampejo de culpa. "Lena, não é o que parece. Isso é... isso é sobre o meu passado. Eu devo isso a ela."
Ele me deu as costas e guiou Adriana para fora do palco, protegendo-a dos olhares curiosos da imprensa, deixando-me sozinha sob os holofotes.
Eu não chorei. Eu não gritei. Eu os segui.
Eu os encontrei em um pequeno salão privado, fora do salão principal. A porta estava entreaberta. Fiquei nas sombras, meu coração batendo um ritmo frenético e doloroso contra minhas costelas.
Gregório segurava as mãos dela, de costas para mim. "Você está bem, Adriana? Eu estava tão preocupado. Quando soube que você tinha voltado..."
"Eu senti sua falta, Greg", ela sussurrou, sua voz embargada de lágrimas. "Todos os dias."
"Eu também senti a sua", disse ele, as palavras como uma adaga se torcendo em minhas entranhas. "Eu tenho uma cobertura no Itaim Bibi. Você pode ficar lá. Vou te dar um cartão de crédito, tudo o que você precisar. Apenas... fique segura."
Ele estava dando a ela um lar. Ele estava dando a ela dinheiro. Ele estava dando a ela a segurança que havia me prometido.
Então, ela se inclinou e o beijou.
Não foi um beijo longo. Não foi apaixonado. Foi suave, demorado e cheio de uma história compartilhada que eu nunca poderia penetrar. E ele não se afastou. Por uma fração de segundo, sua mão subiu para segurar o rosto dela, seu polegar acariciando sua bochecha.
O mundo girou. O homem que eu amava, o pai do meu filho, havia desaparecido. Em seu lugar havia um estranho, beijando outra mulher enquanto eu estava a poucos metros de distância.
Afastei-me da porta, meus movimentos rígidos e robóticos. Saí do gala, passando pelos olhares curiosos e sussurros, e não olhei para trás.
Agora, sentada em frente a Caio, o sol da manhã parecia brilhante demais, alegre demais para os destroços da minha vida. Olhei para o alerta de notícias no meu celular uma última vez. A foto. O abraço. A mentira.
Minha decisão estava tomada.
Meu celular vibrou novamente. Outra mensagem de Caio.
*A casa de hóspedes está pronta. Está há anos. É só dizer.*
Respirei fundo, o ar queimando meus pulmões. Digitei minha resposta, uma única palavra que continha o peso do meu passado e a frágil esperança pelo meu futuro.
"Ok."
Ponto de Vista de Helena "Lena" Porter:
O mundo parecia abafado, como se uma grossa camada de algodão tivesse sido enrolada em meus sentidos. Mal registrei o curto trajeto até a propriedade de Caio ou a maneira gentil como ele me guiou para a casa de hóspedes, que era maior e mais luxuosa do que a primeira casa que Gregório e eu compartilhamos.
"Lena?" Minha assistente, Clara, estava na porta, seu rosto marcado pela preocupação. "O Sr. Monteiro me ligou. Ele disse que você não estava se sentindo bem."
Afundei no sofá macio, as almofadas de seda parecendo impossivelmente suaves contra minha pele. "Estou bem, Clara." Era uma mentira, e nós duas sabíamos disso. Meu corpo parecia pesado, drenado de toda energia, uma manifestação física do buraco imenso na minha alma.
Clara não insistiu. Ela simplesmente colocou um copo de água e um pequeno prato de biscoitos na mesa de centro. "Sua sogra ligou. Eugênia. Ela está preocupada. Ela viu as notícias."
Eugênia Velasquez. Uma mulher tão dura e inflexível quanto o aço que seu marido um dia forjou. Ela nunca gostou de Adriana, havia avisado Gregório sobre ela anos atrás. Parte de mim queria ligar para ela, deixar sua fúria justa chover sobre seu filho. Mas essa não era a luta dela. Era minha.
"Diga a ela que estou tirando alguns dias para mim", eu disse, minha voz monótona. "E Clara... preciso que você faça algo por mim. Quero tudo o que puder encontrar sobre Adriana Paes. Onde ela esteve nos últimos cinco anos, com quem esteve, qual é a situação financeira dela. Tudo. E quero que seja discreto."
Clara assentiu, sua expressão sombria. "Claro, Lena."
Depois que ela saiu, fiquei sozinha com meus pensamentos, um tormento de memórias se repetindo em um loop implacável. Lembrei-me de Gregório, acordando do coma. Seus olhos, turvos e confusos, haviam percorrido o quarto até pousarem em mim. Ele não se lembrava do acidente, não se lembrava dos meses que o antecederam. Ele só se lembrava de mim.
"Você é minha âncora, Lena", ele sussurrou, sua mão fraca na minha. "Você é a única coisa real em toda essa bagunça."
Ele havia me prometido uma vida inteira de devoção. Ele havia prometido que os fantasmas de seu passado estavam enterrados. Ele havia jurado que seu amor por mim era um porto calmo e estável, diferente da paixão tempestuosa e destrutiva que ele compartilhara com Adriana.
Agora eu entendia. Seu amor por mim era uma escolha, uma decisão consciente de construir uma vida estável. Seus sentimentos por Adriana eram um instinto, uma atração primitiva à qual ele era impotente para resistir. E quando confrontado com ambos, ele deixou o instinto vencer.
Meu celular vibrou. Um número desconhecido. Quase ignorei, mas uma sensação doentia de pavor me compeliu a abrir a mensagem.
Era uma foto.
Gregório e Adriana, não no gala, mas no que parecia ser um quarto de hotel. Ele estava sentado na beira da cama, a gravata afrouxada, e ela estava de pé atrás dele, os braços em volta de seu pescoço, pressionando um beijo em sua bochecha. Seus olhos estavam fechados, uma expressão de contentamento cansado em seu rosto. Na mesa de cabeceira, ao lado de uma garrafa de champanhe, havia um tubo de batom. Um tom específico de carmesim profundo.
Ruby Woo. Meu favorito. Aquele que eu não conseguia encontrar há semanas.
A data na foto era de três semanas atrás. Meu aniversário.
A noite em que ele chegou tarde em casa, cheirando a um perfume que não era o meu, com uma leve mancha vermelha em seu colarinho que ele culpou uma garçonete desajeitada. A noite em que ele prometeu que estava fechando um negócio, mas me olhou com olhos vazios.
"Você conseguiu o batom que eu queria?", eu havia perguntado, tentando manter meu tom leve.
Ele franziu a testa, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos. "Desculpe, querida. Estava esgotado em todos os lugares. Eu te compenso."
As peças do quebra-cabeça se encaixaram, cada uma uma nova facada de dor. As mentiras. O engano. A crueldade casual de tudo isso. Não foi uma recaída recente; foi uma traição calculada que estava acontecendo bem debaixo do meu nariz.
Outra mensagem chegou do mesmo número.
*Ele me compra seu batom favorito porque diz que a cor o lembra da primeira vez que te viu sorrir. Não é romântico?*
Minha respiração falhou. A tela ficou embaçada enquanto lágrimas que eu não sabia que ainda tinha começaram a cair. Salvei a imagem, a data, a mensagem. Evidência. Não para ele, mas para mim. Um lembrete do porquê eu nunca poderia voltar.
Uma terceira mensagem apareceu.
*Ele se sente culpado, sabe. Ele fala de você constantemente. Fala sobre como você é boa. Mas toda noite, ele volta para mim.*
Então o golpe final.
*Vamos fazer uma aposta, Lena. Vamos ver quem ele escolhe. Ele diz que não pode te deixar agora, não com o bebê. Mas eu aposto que ele vai. No momento em que ele estiver pronto para contar ao mundo que meu filho é dele, você vai embora. Sem cenas, sem briga. Você simplesmente desaparece. Fechado?*
Meu filho. As palavras se contorceram em meu estômago. Ela estava alegando que o filho dela era dele. Era uma mentira, tinha que ser, mas o veneno havia sido injetado. A dúvida estava lá.
A audácia disso. A crueldade pura e não adulterada. Ela não estava apenas tentando levar meu marido; ela estava tentando aniquilar meu espírito. Me tornar uma participante voluntária da minha própria destruição.
Meus dedos tremeram enquanto eu digitava minha resposta. Eu não me defendi. Eu não me enfureci. Eu aceitei o desafio dela.
*Fechado.*
Clara voltou algumas horas depois, seu rosto pálido. "Lena... eu tenho o relatório preliminar sobre Adriana Paes. Mas... há outra coisa. Gregório acabou de transferir a escritura de uma de suas coberturas no centro da cidade para o nome dela. E ele depositou dez milhões de reais em uma nova conta para ela."
Ele já havia lhe dado um lar. Ele já havia lhe dado uma fortuna. Tudo antes mesmo de voltar para casa para me encarar.
Senti uma risada amarga escapar dos meus lábios. A aposta já havia acabado. Eu já havia perdido. Ou talvez, apenas talvez, eu finalmente tivesse vencido.
"Clara", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Guarde o relatório sobre a Adriana. Não me mostre. E o que quer que você faça, não deixe o Gregório saber que estamos investigando ela."
Eu precisava ver por mim mesma. Precisava de um último olhar para o homem com quem me casei, uma última chance de ver se havia algo dele que valesse a pena salvar.
Eu precisava vê-lo escolher.
Ponto de Vista de Helena "Lena" Porter:
Gregório chegou em casa pouco depois da meia-noite, o cheiro de champanhe velho e um perfume enjoativamente doce agarrado a ele como uma segunda pele. Era o mesmo perfume do meu aniversário, o cheiro de Adriana. Meu estômago revirou.
Ele me encontrou na sala de estar, encolhida no sofá, um livro não lido em meu colo. Ele tentou sorrir, mas foi uma coisa fraca e desgastada.
"Oi", ele murmurou, ajoelhando-se na minha frente. "Você ainda está acordada."
Ele estendeu a mão para a minha, mas eu me movi, deixando-a cair entre as almofadas. Seu sorriso vacilou.
"Eu já escolhi um presente para você", eu disse, minha voz uniforme, quase conversacional. "Uma coisinha para celebrar nossa nova... adição."
O alívio inundou seu rosto. Ele pensou que eu me referia ao bebê. Ele pensou que eu estava alheia, que meu silêncio era aceitação. A pura arrogância disso era de tirar o fôlego.
"Lena, sobre ontem à noite...", ele começou, sua voz tingida com aquele tom praticado e paternalista que ele usava quando estava prestes a explicar uma má decisão de negócios. "Eu sei como pareceu, mas você tem que entender. Adriana... ela é frágil. Eu tenho que ajudá-la."
Ele tirou uma caixa de veludo do bolso. "Eu comprei algo para você. Para dizer que sinto muito pela cena."
Ele a abriu para revelar um colar de diamantes, uma cascata de pedras brilhantes que provavelmente custou mais do que a casa da maioria das pessoas. Era requintado. Também era idêntico ao que Adriana estava usando na foto que ela me enviou. Uma compra em atacado, talvez? Uma promoção de "leve dois, pague um" em símbolos de desculpas para as mulheres que ele estava traindo.
Uma dor física e aguda atravessou meu peito, tão intensa que me fez ofegar.
"Então você vai arrumar a vida dela, dar um dinheiro, e esse será o fim?", perguntei, meu olhar fixo nos diamantes brilhantes e sem sentido.
"Exatamente", disse ele, seu alívio palpável. "Um rompimento limpo. Eu só preciso ter certeza de que ela está estável primeiro. É o mínimo que posso fazer."
"E quanto ao leilão?", insisti, minha voz perigosamente suave. "Aquela grande declaração na frente do mundo inteiro. Foi só para garantir que ela ficasse 'estável'?"
Ele teve a decência de parecer envergonhado, mas apenas por um momento. "Foi um erro. Eu estava emotivo. Não vai acontecer de novo." Ele se inclinou, tentando me beijar, mas eu virei a cabeça. Seus lábios roçaram minha bochecha, e o cheiro do perfume dela era tão forte que me deu vontade de vomitar.
Eu me afastei, e meus olhos captaram uma mancha fraca, quase invisível, no colarinho de sua camisa branca. Um carmesim profundo e revelador. Ruby Woo.
"Você deveria ser mais cuidadoso, Gregório", eu disse, deixando meus dedos traçarem a linha de seu colarinho, parando pouco antes da mancha. "Você não gostaria de deixar nenhuma... evidência."
Seus olhos se arregalaram ligeiramente. Ele sabia. Ele sabia que eu sabia.
Ele tentou me beijar de novo, com mais força desta vez, uma tentativa desesperada de recuperar seu território. Coloquei uma mão firme em seu peito, parando-o. "Não estou me sentindo bem."
Como se fosse um sinal, uma onda de náusea me atingiu, real e violenta. Tropecei até o banheiro, o gosto amargo da bile subindo pela minha garganta. O estresse, o coração partido, o puro nojo - tudo se manifestava em uma rejeição física e brutal.
Quando saí, pálida e trêmula, Gregório estava na cozinha. Ele mexia uma panela no fogão, o cheiro familiar da sopa de gengibre e frango de sua mãe enchendo o ar. Por um momento horrível e desorientador, foi como nos velhos tempos. Como se o homem que eu amava ainda estivesse aqui, cuidando de mim.
"Aqui", disse ele, servindo a sopa em uma tigela. "Isso sempre te fazia sentir melhor."
Ele a colocou na minha frente e, por um segundo, quase me permiti acreditar na ilusão. Lembrei-me de todas as vezes que ele fez isso, sussurrando que sempre cuidaria de mim.
Então o celular dele vibrou. Ele olhou para a tela, e a máscara de preocupação caiu, substituída por uma energia urgente e frenética.
"Me desculpe, Lena", disse ele, já vestindo o casaco. "É a Adriana. Ela está tendo um ataque de pânico. Eu tenho que ir."
Ele não esperou por uma resposta. Ele saiu pela porta antes que eu pudesse processar o choque de sua traição.
Eu encarei a sopa. O vapor subia da superfície, carregando o cheiro de gengibre, frango e... amendoim. Uma lasca minúscula, quase imperceptível, de amendoim, um enfeite para uma sopa que nunca teve enfeite.
Eu sou alérgica a amendoim. Não mortalmente, mas severamente. Foi a primeira coisa que ele aprendeu sobre mim. Ele uma vez repreendeu um chef cinco estrelas por permitir contaminação cruzada na cozinha, pairando sobre mim com um nível de preocupação que beirava o pânico.
Ele havia esquecido.
Em sua pressa para confortar sua ex-amante, na névoa de suas mentiras e sua culpa, ele havia esquecido completa e totalmente algo que poderia ter me machucado seriamente. Ou talvez, ele simplesmente não se importasse mais.
A dor no meu peito não era mais aguda. Era um peso surdo e pesado, a sensação de algo morrendo.
Levantei-me, levei a tigela para a pia e despejei a sopa pelo ralo. Fui para a sala, peguei a caixa de veludo e joguei o colar na lata de lixo.
Não dormi naquela noite. Sentei-me perto da janela, observando o céu clarear lentamente do preto para um roxo machucado e para um cinza frio e implacável, e esperei pelo amanhecer da minha nova vida.
Uma única mensagem iluminou a tela do meu celular pouco antes do nascer do sol. Era de Caio.
*Estou aqui. Quando estiver pronta.*
Minha resposta foi igualmente simples.
*Estou pronta agora.*