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Ele não é meu irmão

Ele não é meu irmão

Autor:: Nayara Barbosa
Gênero: Romance
Depois de perder os pais em um acidente, Lia se vê obrigada a deixar a antiga vida para trás e ir morar com a tia Ana. Em meio ao luto e à adaptação, ela tenta encontrar seu lugar em uma casa que ainda parece estranha. Tudo muda quando ela passa a conviver com Ian, o filho do marido da tia. Reservado e difícil de decifrar, ele mantém distância - mas a proximidade diária torna isso cada vez mais complicado. Entre silêncios, pequenas provocações e momentos inesperados de apoio, Lia percebe que alguns sentimentos surgem sem pedir permissão, mesmo quando não deveriam. Ele não é seu irmão. Mas também não é alguém fácil de ignorar.

Capítulo 1 Prólogo

Lia

A estrada parecia interminável.

O asfalto escuro se estendia diante de nós como uma fita contínua, cortando o verde dos morros e desaparecendo no horizonte. Eu estava no banco de trás, com a cabeça apoiada no vidro da janela, observando as luzes dos postes passarem rápido demais. São Paulo ia ficando para trás - os prédios, o barulho, a pressa - e, com ela, aquela sensação constante de estar sempre atrasada para alguma coisa.

- Falta muito? - perguntei, sem tirar os olhos da estrada.

Meu pai riu baixinho, mantendo as duas mãos firmes no volante.

- Ansiosa? - Ele me olhou pelo retrovisor. - Serra Clara não vai sair do lugar.

- Ela só está curiosa - minha mãe disse, se virando no banco do passageiro para me encarar. - E cansada. Essa viagem sempre dá sono.

Ela tinha razão. O balanço do carro, o som baixo do rádio e a conversa tranquila dos meus pais criavam uma espécie de bolha segura. Daquelas que a gente acha que nunca vai estourar.

- Filha, você vai amar - mamãe continuou, sorrindo. - A praia é linda. Água clara, areia fofa... e seu pai surfava altas ondas lá quando era jovem.

- Surfava nada - ele respondeu, fingindo indignação. - Eu caía mais do que ficava em pé.

- Mentira - ela rebateu. - Você era ótimo. Só parou porque resolveu virar um homem responsável.

- Ou porque envelheci - ele disse, rindo.

Eu sorri, observando os dois. Eles pareciam tão... inteiros. Tão vivos. Era difícil imaginar que aquela viagem simples, quase rotineira, mudaria tudo.

Mamãe voltou o olhar para frente.

O grito veio no segundo seguinte.

- CUIDADO!

Não houve tempo para entender. Apenas sentir.

O impacto foi violento. O som de metal retorcendo, o carro perdendo o controle, girando. Meu corpo foi lançado de um lado para o outro, o cinto apertando meu peito com força. O mundo virou de cabeça para baixo.

Vidros se estilhaçaram.

O carro capotou.

Uma, duas vezes.

Então tudo parou.

Por alguns segundos, só houve silêncio.

Um silêncio pesado, quebrado apenas pelo chiado distante do motor e pelo gosto metálico na minha boca.

Abri os olhos com dificuldade. Minha visão estava embaçada. O carro estava de lado, o teto esmagado. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.

- Mãe? - minha voz saiu fraca. - Pai?

Nenhuma resposta.

Com as mãos trêmulas, levei os dedos ao cinto e consegui soltá-lo. Meu corpo caiu contra a lateral do carro, a dor explodindo pelo meu braço. Ignorei.

Empurrei a porta com dificuldade e me arrastei para fora, sentindo o chão frio sob minhas mãos.

Quando levantei o rosto, vi meu pai.

Ele estava do outro lado da pista, imóvel.

- Não... - sussurrei.

Meu olhar se moveu desesperado até o carro. Mamãe ainda estava presa, o corpo inclinado de um jeito que não parecia certo. O para-brisa estava destruído.

Entre nós, no meio da estrada, havia um animal grande, sem vida.

- Socorro... - tentei gritar. - So... socorro...

As palavras não saíam direito. Minha visão escureceu nas bordas.

E então tudo ficou preto.

---

Acordei com frio.

Um frio que parecia vir de dentro.

Abri os olhos devagar e encarei o teto branco, iluminado demais. O cheiro forte de desinfetante invadiu minhas narinas.

Hospital.

Meu coração disparou.

- Não... - murmurei. - Não, não, não...

Por favor, Deus. Por favor.

Que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo horrível. Que meus pais estivessem bem. Que estivessem me esperando do lado de fora, preocupados, mas vivos.

- Bom dia, Lia.

A voz era conhecida.

Virei o rosto lentamente.

Minha tia Ana estava sentada ao lado da cama, as mãos cruzadas sobre o colo. Usava roupas claras e tinha aquele mesmo sorriso controlado de sempre.

Vê-la ali fez um nó se formar no meu estômago.

Se ela estava ali...

- Meus pais? - perguntei, a voz quase inexistente.

Ela respirou fundo, como se ensaiasse aquela fala há muito tempo.

- Querida... você precisa ser forte.

Meu coração começou a doer de verdade.

- Não - balancei a cabeça. - Não fala isso. Por favor.

Ela se levantou e segurou minha mão.

- Desculpe, Lia. Não houve o que os médicos pudessem fazer.

As palavras caíram sobre mim como uma sentença.

- Não... - sussurrei. - Não pode ser...

O choro veio forte, descontrolado, rasgando meu peito. Minha tia me puxou para um abraço e eu deixei, porque naquele momento qualquer coisa que me mantivesse de pé era válida.

Quando as lágrimas cessaram, sobrava apenas um vazio assustador.

- E agora? - perguntei.

- Você não vai ficar sozinha - ela disse rapidamente. - Você tem a mim. Tem seu tio Leo. E também tem o Ian.

O nome soou estranho aos meus ouvidos.

- Ian?

- O filho do Leo - explicou. - Você vai comigo para Serra Clara.

Serra Clara.

A cidade pequena onde meu pai cresceu. O lugar que deveria ser apenas uma visita.

Assenti, sem forças para discutir.

Mas, por dentro, algo gritava.

Eu amava minha tia. Sempre amei. Mas nunca confiei totalmente nela.

Meu pai dizia, meio em tom de brincadeira, meio sério demais:

"Minha irmã é ambiciosa. Faria qualquer coisa para subir na vida."

E agora, ali, sentada ao lado da minha cama, ela parecia... interessada demais.

Eu sabia.

Sabia que aquela boa vontade não era apenas carinho.

Minha mãe era podre de rica. Filha única. Tudo o que meus avós tinham ficou para ela. Meu pai construiu uma empresa do zero com a ajuda dela - e fez crescer. Muito.

A herança era grande.

Grande demais.

Enquanto Ana segurava minha mão e falava sobre recomeços, eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

Eu estava indo para Serra Clara.

E nada seria simples dali em diante.

---

Ian

Acordei cedo naquela manhã.

Cedo demais para alguém que estava oficialmente de férias do meio do ano. O sol ainda mal tinha surgido quando abri os olhos, encarando o teto do quarto, ouvindo apenas o som distante do mar misturado ao canto preguiçoso dos pássaros. Serra Clara tinha esse hábito irritante de acordar antes de todo mundo.

Férias, para mim, significavam três coisas bem claras:

Prancha.

Mar.

Silêncio.

Nada de horários, nada de cobranças, nada de gente falando demais.

Levantei da cama, passei a mão pelo cabelo ainda bagunçado e fui direto para o banheiro. A água fria me despertou de vez. Vesti uma bermuda qualquer, peguei a camiseta jogada na cadeira e enfiei os pés no chinelo.

A prancha estava encostada perto da porta, como sempre. Companheira fiel.

Quando coloquei a mão na maçaneta, a porta da sala se abriu.

Meu pai entrou.

Leo nunca foi de acordar cedo. Quando acordava, era porque alguma coisa estava errada.

Ele estava sério demais. Os olhos vermelhos, como se não tivesse dormido ou como se tivesse chorado - coisa rara demais para eu ignorar.

- O que houve, coroa? - perguntei, apoiando a prancha no chão.

Ele respirou fundo antes de responder.

- O irmão e a cunhada da Ana sofreram um acidente.

Fiquei em silêncio.

- Só a filha sobreviveu - ele continuou. - A Lia.

O nome ecoou na minha cabeça.

Lia.

A sobrinha da Ana.

Eu precisei de alguns segundos para puxar a imagem dela da memória. Lembrava vagamente de uma menina pequena, de cabelos escuros, sempre atrás da tia nas poucas vezes em que ela vinha a Serra Clara quando eu era criança.

Ela devia ter... o quê? Dez anos na última vez?

Agora, pelas contas rápidas na minha cabeça...

- Dezessete. Ou dezoito - murmurei.

- Dezessete - meu pai confirmou.

Balancei a cabeça, sentindo um peso estranho no peito.

- Puts... - soltei, sem pensar. - Foda pra caralho.

- Olha a boca, moleque - ele repreendeu, mas sem muita força. - A Ana está no hospital com ela. Em breve as duas chegam aqui.

Franzi a testa.

- Aqui?

- Ela vai morar com a gente.

O silêncio caiu pesado entre nós.

- Seja gentil - ele completou. - A garota perdeu os pais. Só tem a gente agora.

Soltei o ar devagar.

- Vou ter que ser babá?

Ele me lançou um olhar sério.

- Vai ter que ser humano. Só isso.

Dei de ombros.

- Tá bom. Vou cuidar da garota.

Peguei a prancha de novo.

- Agora vou pra minha praia.

- Vai lá - ele disse. - E vê se toma cuidado.

Assenti e saí de casa.

O ar da manhã bateu no meu rosto assim que atravessei o portão. Entrei na caminhonete e dirigi em silêncio pelas ruas ainda vazias de Serra Clara. As casas pareciam adormecidas, as janelas fechadas, o cheiro de maresia já impregnado no ar.

Estacionei perto da areia e desci.

O mar estava lindo.

Ondas médias, bem desenhadas, o tipo de dia que fazia tudo valer a pena.

Theo já estava lá.

Encostado na caminhonete dele, rindo alto com duas meninas que eu reconhecia de vista. Cumprimentei com um aceno de cabeça e joguei a prancha na areia.

- Dormiu no ponto hoje - ele provocou, vindo atrás de mim.

- Problemas em casa - respondi, sem entrar em detalhes.

- Sempre - ele riu.

Entramos no mar lado a lado, deixando o resto do mundo para trás.

O primeiro mergulho sempre limpava minha cabeça. A água fria, o esforço do braço, o equilíbrio precário sobre a prancha. Ali, tudo ficava em silêncio.

Peguei boas ondas. Theo também.

Mas, entre uma remada e outra, a imagem da garota não saía da minha cabeça.

Lia.

Ela estava vindo morar com a gente.

Uma desconhecida.

Ou pior: alguém ligada diretamente à Ana.

Quando saímos do mar, o sol já estava mais alto. Sentamos na areia, ofegantes, observando as ondas quebrarem mais à frente.

- Tá estranho hoje - Theo comentou. - Quieto demais.

- Chega uma pessoa nova em casa - respondi.

- Quem?

- Filha do irmão da Ana.

Ele arqueou a sobrancelha.

- O quê? Aquela família rica?

- Essa mesmo.

- Caralho - ele soltou um assobio. - E vai morar com vocês?

- Vai.

- Boa sorte, então.

Não respondi.

Voltei pra casa horas depois, com o corpo cansado e a mente inquieta.

A caminhonete da Ana estava estacionada em frente.

Elas tinham chegado.

Entrei em casa em silêncio.

O clima estava... diferente.

A sala parecia menor, mais cheia, mesmo sem ninguém ali naquele momento. Subi para o quarto, tomei um banho rápido e desci de novo quando ouvi vozes baixas na cozinha.

Ana falava.

- Ian - ela chamou ao me ver. - Venha cá.

Respirei fundo e fui.

E então eu a vi.

Lia estava sentada à mesa, as mãos entrelaçadas no colo. Usava roupas simples demais para alguém que, eu sabia, vinha de uma vida confortável. O rosto estava pálido, os olhos inchados, como se tivesse chorado por dias.

Mas o que mais me chamou atenção foi o olhar.

Ela parecia... vazia.

- Esse é o Ian - Ana disse. - Filho do Leo.

Ela levantou o olhar devagar.

Nossos olhos se encontraram.

E algo ali... não fez sentido.

- Oi - ela disse, a voz baixa.

- Oi - respondi.

Só isso.

Mas foi o suficiente para eu perceber que nada naquela casa seria simples a partir daquele momento.

Ela não parecia uma menina frágil.

Parecia alguém quebrado.

E eu sabia, no fundo, que coisas quebradas nunca vinham sozinhas.

Elas traziam problemas.

E, estranhamente... eu senti que aquele era apenas o começo.

{...}

Capítulo 2 01

Lia

Acordei no dia seguinte com um turbilhão de pensamentos embaralhados.

Na verdade, não cheguei a dormir. Toda vez que fechava os olhos, via meus pais sorrindo - meu pai com aquele jeito calmo, minha mãe falando demais - e, no segundo seguinte, tudo se misturava ao barulho do impacto, ao vidro estilhaçando, ao silêncio pesado que veio depois. Meu corpo parecia cansado demais para levantar, mas minha mente não me deixava descansar.

Hoje seria o velório.

Sentei na cama, respirei fundo e me obriguei a levantar. Abri a mala ainda meio desorganizada e escolhi um vestido preto, simples, que ia um pouco abaixo dos joelhos. Não pensei muito. Nada parecia certo de qualquer forma. Separei também uma toalha e minhas coisas e segui pelo corredor silencioso até o banheiro do fundo da casa.

A água fria do chuveiro caiu sobre mim como um choque necessário. Fiquei ali mais tempo do que o normal, tentando afastar a confusão que insistia em se agarrar aos meus pensamentos. O rosto da minha mãe, a voz do meu pai, a sensação de que tudo tinha acabado rápido demais.

Meus pais seriam enterrados ali mesmo, em Serra Clara.

Era a cidade natal do meu pai. E, no fundo, eu sabia que minha mãe teria concordado. Onde ele estivesse, ela estaria também.

Saí do banho, me vesti devagar e voltei para o quarto. Deixei as coisas sobre a cama, peguei o celular - dezenas de mensagens não lidas - e desci as escadas.

As vozes vinham da sala.

- Ian, você está pronto? - ouvi a voz do marido da minha tia.

- Sim.

- Nunca vi você tão elegante - Ana comentou. - Tem que se arrumar assim mais vezes.

- Ana, você sabe muito bem que, nas férias, minha roupa é a mais confortável possível - ele respondeu, num tom contido. - Estou de férias, não na faculdade.

- Está bem, está bem... - ela suspirou. - Só estou dizendo que você fica muito mais bonito social.

Desci o último degrau.

Eles se viraram para mim quase ao mesmo tempo.

Ian estava diferente. Usava roupa social escura, simples, mas bem ajustada. Nada exagerado. Ainda assim, havia algo nele que chamava atenção - talvez o contraste entre a formalidade e o jeito naturalmente despretensioso.

- Você está linda, querida - Leo disse.

Apenas sorri, sem mostrar os dentes, em agradecimento.

- Não quer pôr um scarpin preto? - Ana sugeriu.

- Ana, pelo amor de Deus... - Leo revirou os olhos.

- Não, tia - respondi, antes de pensar. - Estou indo para um funeral, não para um desfile de moda.

O silêncio caiu rápido demais.

Ian soltou uma risada curta, quase involuntária, e levou a mão à boca como se tentasse disfarçar.

- Lia! - Ana me repreendeu.

- Deixe a menina - Leo disse, já caminhando em direção à porta. - Vamos logo.

Ana suspirou, claramente contrariada, e foi atrás dele.

- Quer ir comigo? - Ian perguntou, antes que saíssemos. - Na minha caminhonete.

- Obrigada - respondi.

Ele sorriu de leve, sem mostrar os dentes.

---

O caminho até o cemitério foi silencioso.

A caminhonete avançava devagar pelas ruas de Serra Clara, ainda meio vazias naquela manhã. Eu observava a cidade pela janela: as casas baixas, as árvores, o céu limpo demais para um dia como aquele.

Ian mantinha as duas mãos no volante, o olhar fixo à frente. Não parecia desconfortável com o silêncio - talvez até preferisse assim.

- Sinto muito - ele disse, depois de um tempo. - Pelo que aconteceu.

- Obrigada - respondi.

Nada mais foi dito.

Quando chegamos, o lugar já estava cheio.

Amigos antigos do meu pai, parentes distantes, pessoas que eu mal conhecia. Serra Clara tinha esse jeito estranho de reunir todo mundo quando algo acontecia.

O caixão do meu pai estava ao lado do da minha mãe.

Ver os dois ali foi como levar um golpe direto no peito.

Minhas pernas tremeram.

Ana segurou meu braço, dizendo algo que eu não ouvi direito. Eu apenas caminhei, passo por passo, até ficar de frente para eles.

Parei.

Respirei.

E então tudo veio de uma vez.

O choro não foi bonito. Não foi contido. Foi alto, dolorido, rasgando tudo por dentro. Senti braços ao meu redor - da minha tia, de alguém que eu não identifiquei - mas, por um instante, só existiam meus pais e aquele vazio impossível de preencher.

As pessoas falavam, se aproximavam, diziam palavras que soavam todas iguais.

Eles estão em um lugar melhor.

Foram pessoas incríveis.

Seja forte.

Eu apenas assentia.

Ian ficou um pouco mais afastado, respeitoso. Eu o vi conversar com um menino em algum momento, os dois sérios demais para o normal. O menino me olhou rápido, como se quisesse dizer algo, mas não se aproximou.

Quando chegou a hora do enterro, senti o chão desaparecer sob meus pés.

Vi os caixões serem baixados.

E ali, finalmente, entendi.

Eles não voltariam.

Quando tudo terminou, restava apenas o cansaço.

Voltamos para casa em silêncio.

Dessa vez, fui com minha tia e Leo.

A casa parecia ainda maior quando entramos. Vazia demais. Organizada demais.

Subi para o quarto e me sentei na cama, encarando a parede.

Algumas batidas leves soaram na porta.

- Posso entrar? - era a voz do Ian.

Assenti.

Ele entrou devagar.

- O Theo vai passar aqui mais tarde - disse. - Vamos pra um lual na praia, sei que não é o momento, mas gostaria que fosse.

- Obrigada. - Pensei em recusar, porém...- Okay.

Ele ficou ali, parado por alguns segundos, como se não soubesse exatamente o que fazer.

- Se precisar de alguma coisa... - começou.

- Eu sei - interrompi, com a voz baixa.

Ele assentiu.

- Vou estar lá embaixo.

Quando a porta se fechou, me permiti chorar de novo.

Não era apenas pelos meus pais.

Era pela vida que eu tinha perdido.

E pela sensação incômoda de que, a partir daquele momento, tudo seria diferente.

Serra Clara não era só um lugar.

Era o começo de algo que eu ainda não conseguia entender.

---

IAN

Eu estava na sala com Theo, jogados no sofá como se aquele fosse apenas mais um dia comum de férias. A TV ligada em volume baixo, passando qualquer coisa irrelevante, e nossos celulares largados de lado. Mas nada ali era comum.

Eu sabia que Lia estava vindo.

E, mesmo sem entender direito o peso daquilo, eu sentia que algo na casa tinha mudado desde o acidente. O ar parecia mais denso, como se as paredes escutassem. Como se o silêncio tivesse aprendido a gritar.

- Ela demora assim mesmo? - Theo perguntou, quebrando o silêncio.

- Não sei - respondi. - Acho que hoje qualquer coisa deve ser difícil.

Eu não sabia como era perder um pai. Muito menos os dois de uma vez. A única coisa que eu podia fazer era estar disponível. Levar, buscar, abrir portas. Não perguntar demais. Não invadir.

Ouvi batidas na porta.

Levantei no mesmo instante. Quando abri, uma garota alta, loira, de olhos azuis claros e expressão completamente assustada estava ali, segurando a alça da bolsa como se fosse a única coisa que a mantinha de pé.

- A Lia está? - perguntou, sem rodeios.

- Sim... - respondi, antes mesmo de perguntar quem era ou convidá-la a entrar.

- Mila? - a voz de Lia ecoou atrás de mim.

A garota passou por mim sem hesitar. As duas se encontraram no meio da sala e se abraçaram com uma força que não combinava com a fragilidade daquele momento. Foi um abraço desesperado, de quem tenta impedir o mundo de desmoronar de vez.

- Me desculpa... - Mila dizia, com a voz embargada. - Me desculpa por não ter chegado a tempo. O voo atrasou, tempestade... ai, amiga... meu Deus. Eu sinto muito.

- Mila... - Lia respondeu, a voz baixa, trêmula, mas sem chorar.

Aquilo me partiu mais do que se ela tivesse desabado ali mesmo.

- Eu tô aqui agora - Mila continuou, segurando o rosto de Lia entre as mãos. - Meus pais compraram uma casa aqui. Eu vou ficar com você o tempo que for preciso.

- O quê? Você tá louca? - Lia tentou sorrir, mas não conseguiu. - E a sua vida?

- A minha vida pode esperar. Você não.

Fiquei observando em silêncio. Aquela amizade me arrancou um sorriso involuntário. Era exatamente como eu e Theo. Quando tudo dá errado, você só precisa de alguém que fique.

- Você tá linda - Mila comentou, enfim reparando na roupa de Lia. - Pra onde vai assim?

- Ian me convenceu a ir a um lual com ele e o Theo - Lia respondeu, apontando discretamente para mim.

Mila arqueou a sobrancelha, avaliando.

- Então eu vou junto. - Ela olhou pra mim. - Se puder, claro... - disse ela com um olhar de cachorro pidão.

- Claro que pode - Theo respondeu rápido demais. Rápido o suficiente pra me fazer virar a cabeça e encará-lo.

Ele já tinha se interessado. Era óbvio.

- Então vamos - falei, pegando a chave da camionete.

Seguimos para fora. Theo sentou ao meu lado, as meninas atrás. Dei partida e seguimos em direção à praia.

A estrada estava quase vazia. As luzes dos postes refletiam no asfalto, e o cheiro de maresia entrava pelas janelas abertas. O som baixo de uma música qualquer preenchia o espaço, mas ninguém parecia disposto a conversar.

Olhei pelo retrovisor.

Lia observava tudo em silêncio, abraçada aos próprios joelhos, enquanto Mila segurava sua mão com firmeza.

Chegamos ao lual.

Fogueiras espalhadas pela areia, gente rindo, violões tocando, o som das ondas quebrando logo ali. Vida acontecendo. Normalidade demais para quem tinha acabado de perder tudo.

- Se quiser ir embora a qualquer momento, é só me avisar - falei baixo para Lia.

Ela assentiu.

Sentamos perto de uma das fogueiras. Theo e Mila se afastaram quase imediatamente, rindo de alguma coisa boba. Fiquei ali, ao lado de Lia, sem saber exatamente o que dizer.

- Obrigada por insistir - ela disse, depois de um tempo.

- Não precisa agradecer.

O fogo refletia nos olhos dela. Bonita. Muito. Mas cansada. Triste de um jeito profundo.

- Às vezes parece errado sorrir - ela confessou. - Como se eu estivesse traindo eles.

Engoli em seco.

- Acho que eles não iriam querer isso - respondi. - Acho que iriam querer você vivendo.

Ela me olhou, surpresa.

- Você fala como se soubesse.

- Eu não sei - admiti. - Mas... é o que eu gostaria que fizessem por mim.

Ficamos em silêncio novamente.

O violão começou a tocar mais alto. Alguém cantava desafinado. Pessoas dançavam. A vida insistia em continuar.

Lia respirou fundo.

- Serra Clara é bonita - ela disse.

- É - concordei. - Às vezes dói ficar. Às vezes salva.

Ela sorriu de leve. O primeiro sorriso real que vi nela desde que chegou.

Naquele momento, eu entendi uma coisa.

Eu não precisava consertar nada.

Apenas precisava ficar ali com ela, só escutar e ajudar ela a viver sem eles presentes.

{...}

Capítulo 3 02

LIA

Eu estava sentada ao lado de Ian, com os pés enterrados na areia fria, observando o fogo do lual dançar diante de nós como se tivesse vontade própria. As chamas subiam e desciam, estalando, iluminando rostos desconhecidos, risadas soltas, violões desafinados. A vida acontecendo ao redor como se nada tivesse sido arrancado de mim dias atrás.

Mila tinha sumido com Theo fazia um tempo. No início, eu ainda tentava acompanhar os dois com o olhar, mas bastou uma onda mais forte e uma gargalhada alta para eles desaparecerem completamente da minha linha de visão. Aqueles dois não perdiam tempo - nunca perderam. Conheço Mila há anos, sei como ela é quando resolve viver algo: inteira, intensa, sem pedir permissão. Theo... bem, isso ficava a critério de Ian.

- Acho que eles estão se divertindo - comentei, deixando escapar uma risada curta ao vê-los, à distância, correndo em direção ao mar.

Theo puxava Mila pela mão, e ela gritava entre risos, fingindo protestar enquanto tropeçava na areia. Uma parte de mim sentiu alívio. Outra parte, inveja. Eles estavam vivos naquele momento. Leves.

- Parece que sim - Ian respondeu, acompanhando a cena com o olhar antes de voltar a atenção para mim. O sorriso dele era discreto, contido, como se não quisesse parecer deslocado naquele cenário de gente feliz demais.

O vento passou mais forte, trazendo o cheiro salgado do mar e fazendo meu vestido bater contra minhas pernas. Arrepiei. Não só pelo frio. Por dentro, tudo em mim ainda parecia frágil demais, como se qualquer coisa pudesse me quebrar outra vez.

- Acho que vou entrar na água - disse de repente, mais para mim do que para ele.

Ian virou o rosto na mesma hora, me analisando com cuidado, como se estivesse medindo riscos invisíveis.

- Deve estar gelada pra caramba.

- Não tem problema - respondi, já me levantando.

Tirei o All Star e deixei ao lado da mochila. O contato da areia fria com a planta dos pés me fez fechar os olhos por um segundo. Puxei o vestido pela cabeça, ficando apenas de top e calcinha box. Nada planejado, nada pensado demais. Só precisava sentir algo que não fosse esse peso constante no peito.

Quando olhei de novo para Ian, percebi que ele tinha virado o rosto para o outro lado rápido demais. Dei uma risada baixa.

- Você não vem?

- Vou - ele respondeu, tirando a camisa e os tênis, quase sem me olhar. - Mas não corre.

Claro que eu corri.

Disparei em direção ao mar, sentindo o vento bater no rosto, o cabelo grudando na boca, a risada escapando sem controle. Ouvi os passos dele atrás de mim e isso me fez correr ainda mais rápido, como se aquela pequena competição pudesse apagar qualquer coisa ruim dentro de mim.

Entramos na água quase ao mesmo tempo. O choque da água gelada arrancou um grito alto da minha garganta.

- Meu Deus! - reclamei, rindo e me encolhendo.

- Eu avisei! - Ian gritou de volta, já rindo também.

Mergulhei de uma vez, deixando o corpo afundar. O frio queimou a pele, mas trouxe algo inesperado: silêncio. Por alguns segundos, não havia pensamentos, não havia lembranças, não havia imagens do hospital ou do telefone tocando de madrugada. Só o som abafado do mar.

Quando voltei à superfície, puxei o ar com força. A onda recuou rápido demais, e eu escorreguei na areia molhada, perdendo o equilíbrio.

Ian me segurou antes que eu caísse.

As mãos dele foram firmes na minha cintura, seguras, quentes em contraste com o frio da água.

- Tô bem - garanti, tossindo de leve. - Só escorreguei.

Ele não me soltou imediatamente.

- Não vai pra muito longe - disse, sério, os olhos atentos ao mar atrás de mim. - Aqui muda rápido. O mar vira, fica traiçoeiro.

- Sim, senhor capitão - brinquei, tentando aliviar o peso daquele cuidado excessivo.

Ele sorriu de canto, mas continuou perto. A água batia nas nossas pernas, subindo e descendo, e eu sentia meu corpo tremer - parte frio, parte alguma coisa que eu não queria nomear.

- Você tá batendo o queixo - ele observou.

- A água tá gelada mesmo.

- Quer sair?

- Daqui a pouco.

Uma onda maior veio sem aviso. Ian reagiu rápido, me puxando contra o corpo dele para evitar que eu caísse outra vez. O contato foi inevitável. Próximo demais. O peito dele contra o meu, o braço firme ao redor da minha cintura.

Meu corpo inteiro se arrepiou.

- Acho melhor irmos agora - ele disse, se afastando primeiro, como se tivesse percebido a mesma coisa que eu.

Assenti, respirando fundo.

- E a Mila e o Theo? - perguntei, olhando ao redor.

- A essa hora... - ele riu. - Já devem estar bem longe daqui.

Voltamos para a areia. Vesti o vestido rápido, sentindo a pele ainda gelada e sensível. Pegamos nossas coisas e seguimos em direção à camionete. O caminho foi silencioso, mas não desconfortável. O som do mar parecia preencher tudo o que não era dito.

Dentro do carro, o aquecedor começou a funcionar, e aos poucos minhas mãos deixaram de doer de frio. Apoiei a cabeça no banco, olhando para frente.

- Você já terminou os estudos? - Ian perguntou, quebrando o silêncio.

- Já. Meu diploma deve chegar nas próximas semanas.

- E a faculdade?

Suspirei.

- Eu queria fazer artes. - Dei uma risada baixa, sem humor. - Pode não parecer, mas eu danço. Sempre dancei.

Ele me olhou rapidamente, surpreso.

- Sério?

- Sério. Mas agora... - dei de ombros. - Agora tenho que assumir a empresa do meu pai e organizar os investimentos da minha mãe.

Ele assentiu lentamente.

- Responsabilidades sempre chegam antes dos sonhos, né?

- Às vezes. - Engoli seco. - Não posso deixar isso nas mãos da minha tia. Ela pode ser... complicada quando se trata de dinheiro.

- Desculpa - acrescentei. - Sei que ela é sua madrasta.

- Não tem problema - ele respondeu. - Até eu fazer dezoito, a pensão que minha mãe mandava ficava com ela.

- O quê? - virei para ele, chocada. - Que horror!

- Ela não é uma pessoa ruim - disse, com calma. - Mas passa dos limites.

- Meu pai sempre dizia isso.

Ele respirou fundo antes de continuar.

- Minha mãe se casou com um cara rico e me mandou pra morar aqui. Acho que a culpa bateu forte. Ela manda dinheiro até hoje.

- E você aceita?

- Invisto. - Ele sorriu de canto. - Combinei com meu pai que, aos dezoito, isso acaba.

- Seu segredo está seguro comigo.

- Quando eu terminar a faculdade, vou morar na casa que ela comprou. Só não fui antes por causa do meu pai. Não quero que ele se sinta abandonado.

Olhei pela janela por alguns segundos antes de falar:

- Quando eu fizer dezoito, também vou embora. Não quero ficar com a Ana.

- Concordo.

Ele estacionou em frente à casa. Descemos com cuidado, tentando não fazer barulho.

- Onde vocês pensam que vão? - a voz de Ana cortou a noite como uma lâmina.

- Para o quarto - Ian respondeu, visivelmente cansado.

- Onde estavam?

- Onde mais, Ana? - ele suspirou. - Na praia.

- Lia ainda é menor de idade e está sob minha responsabilidade.

Senti algo ferver dentro de mim.

- Te corrigindo, tia - falei, firme. - Meus pais me emanciparam aos dezesseis. Sou responsável por mim. E, se for preciso, fico com a Mila até sair toda a documentação da herança.

Ela ficou sem reação.

- Seu pai não me perdoaria.

- Que seja.

Subi as escadas antes que minha coragem desaparecesse. No banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água cair sobre mim. Fechei os olhos.

Pela primeira vez desde o acidente, eu não estava apenas sobrevivendo.

Eu estava sentindo.

E isso me assustava quase tanto quanto a dor.

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IAN

Lia subiu as escadas com passos firmes, duros demais para alguém que dizia estar bem. O som dos pés batendo nos degraus ecoou pela casa silenciosa, carregado de raiva, dor e algo que eu ainda não sabia nomear. Eu ia logo atrás, a cabeça cheia demais para pensar em qualquer coisa além de um banho quente, quando senti uma mão apertar meu braço.

- Ela não, Ian.

Virei devagar.

Ana estava parada no último degrau, os braços cruzados, o olhar afiado como se estivesse prestes a me acusar de um crime que eu nem sabia qual era.

- Ela não é essas garotas da cidade com quem você se diverte - continuou. - Lia não é esse tipo de garota.

Engoli a resposta que veio pronta. Aquela mulher tinha um talento impressionante para ultrapassar limites.

- Ela está com uma dor cortante - Ana insistiu. - E pode confundir gentileza com outra coisa.

Respirei fundo, contando mentalmente até três antes de responder.

- Ana, eu prometi ao meu pai que seria gentil com ela. Só isso. - Falei firme. - Você prefere que ela saia um pouco, respire, ou que fique trancada naquele quarto, sozinha, afundando numa possível depressão?

Ela desviou o olhar por um segundo, mas voltou ainda mais dura.

- Que seja. Mas ela ainda é menor. Se eu souber que você tocou nela, eu mesma te denuncio. E não quero saber se você é filho do meu marido.

Aquilo foi o suficiente.

- Eu não vou tocar nela, Ana. - Puxei meu braço com força, me livrando do aperto. - E você devia ter mais cuidado com o que diz.

Subi as escadas sem olhar para trás.

Que mulher maluca.

Entrei no meu quarto e fechei a porta com mais força do que pretendia. Passei a mão pelo rosto, tentando afastar o incômodo que aquela conversa tinha deixado. Tudo ali parecia errado. O clima da casa, o jeito como Ana olhava para Lia, como se ela fosse um problema a ser administrado, não uma menina que tinha acabado de perder os pais.

Peguei uma toalha no armário e segui para o banheiro do corredor, pensando apenas em água quente e silêncio.

Levantei a mão para girar a maçaneta.

A porta se abriu antes.

Lia estava ali.

Só de toalha.

O susto foi tão grande que meu cérebro levou alguns segundos para processar a cena. O cabelo ainda molhado, a pele levemente corada pelo banho, os olhos arregalados de surpresa. A toalha escapou de suas mãos no mesmo instante.

Virei o rosto no reflexo mais rápido que consegui.

- Vira pra lá, Ian! - ela disse, desesperada, abaixando-se rapidamente para pegar a toalha e se cobrir.

- Desculpa! - respondi na hora, já completamente de costas, encarando a parede como se ela fosse a coisa mais interessante do mundo.

Ouvi o tecido sendo ajustado, passos apressados.

- Tudo bem - ela murmurou, ainda nervosa.

Em segundos, Lia correu em direção ao quarto e fechou a porta. Só então percebi que estava prendendo a respiração. Soltei o ar devagar, sentindo o coração bater rápido demais para uma situação tão simples.

Entrei no banheiro e fechei a porta atrás de mim.

Apoiei as mãos na pia e abaixei a cabeça.

Não tinha sido nada. Não tinha visto nada. E, ainda assim, aquela imagem involuntária ficou gravada na minha mente de um jeito desconfortável. Não pelo corpo dela - mas pela vulnerabilidade. Pela forma como Lia parecia frágil, exposta, tentando se manter inteira quando tudo ao redor desmoronava.

Liguei o chuveiro.

A água caiu quente, pesada, escorrendo pelos meus ombros, mas não levou embora o incômodo no peito. A conversa com Ana, o jeito como ela tratava Lia, a dor silenciosa que a garota carregava... tudo aquilo se misturava dentro de mim.

Eu não queria ultrapassar limites.

Não queria confundir nada.

Não queria ser mais um problema na vida dela.

Mas também não conseguia fingir que nada estava mudando.

Que o silêncio entre nós não dizia coisas demais.

Que os olhares não duravam um segundo a mais do que deveriam.

Que aquela casa não estava ficando pequena demais para sentimentos que ninguém tinha coragem de nomear.

Fechei os olhos sob a água.

Eu só precisava cumprir uma coisa:

ficar.

Sem promessas, sem confusão, sem atravessar linhas.

Só ficar.

E torcer para que isso fosse suficiente.

{...}

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