O vento rugia como um aviso sombrio, lançando meu cabelo para trás enquanto eu corria por entre as árvores. A respiração vinha em arquejos curtos, queimando meus pulmões, e as sombras pareciam se mover, acompanhando meus passos. Fugir de criaturas havia se tornado parte de quem eu era agora. Mas, dessa vez, algo era diferente. Dessa vez, parecia que fugir não bastaria.
A floresta, antes viva com os sons da natureza, mergulhara em um silêncio opressor. Cada folha parecia segurar seu fôlego. O ar estava carregado, pesado, quase impossível de respirar. Era como se até as árvores estivessem esperando, assistindo ao meu desespero.
Parei de correr, minhas pernas tremendo. O chão parecia instável sob meus pés. O mundo ao redor girava em um turbilhão de medo e incerteza. Onde ele estava? Será que eu havia conseguido despistá-lo?
- Afaste-se, besta! - gritei, a voz tremendo, mas firme. Eu precisava parecer forte, mesmo que estivesse apavorada. - Mesmo sem meus poderes, eu ainda posso destruí-lo!
A resposta veio quase imediatamente. Uma risada maligna, profunda e perturbadora, ecoou pela floresta, reverberando como se milhares de gargantas rissem ao mesmo tempo. Depois, rosnados grotescos, rasgados e primais.
- Socorro, Violet! - A voz dele cortou o ar como uma lâmina. A voz de Dylan. - Me salve, pequena!
Meu coração apertou. Por um instante, um instante cruel, quase acreditei.
- Cala a boca! - gritei, cobrindo os ouvidos, tentando abafar o som. - Não é o Dylan, não é ele!
Mas a criatura sabia exatamente como se infiltrar nas minhas rachaduras.
- Violet, por favor... - A voz quebrou em soluços, tão real, tão dolorosamente parecida com a dele. - Eu fui pego... Me ajuda!
Fechei os olhos com força, lutando para não ceder, lutando contra o aperto esmagador no peito. Eu sabia que não era real. Eu sabia que Dylan estava morto. Morrera diante dos meus olhos.
Mas então a criatura disse algo que me fez congelar.
- Violet, você lembra? A nossa primeira vez, no dia do ritual. Você estava tão linda, sua pele cheirava a baunilha.
Minha garganta secou. Ninguém sabia disso. Ninguém. Nem mesmo Ivy. Era um segredo nosso. Algo que havíamos compartilhado numa tarde tranquila, longe do mundo.
Minha voz saiu como um sussurro.
- Como você sabe disso?
Mais risadas, desta vez mais próximas. A floresta parecia se fechar ao meu redor.
- Eu sei muitas coisas, Violet. Coisas que nem você lembra. - A voz mudou, ficando mais baixa, quase íntima. - Eu sei como ele olhava para você quando achava que você não estava vendo. Sei as palavras que ele nunca teve coragem de dizer.
- Chega! - gritei, desesperada. Minhas mãos tremiam, e as lágrimas queimavam em meus olhos. - Você não é ele!
- Não sou? - A voz assumiu um tom de zombaria. - Você tem certeza disso?
A criatura não estava apenas me perseguindo. Estava brincando comigo, me torturando de um jeito que só alguém que conhecia Dylan poderia fazer. Como isso era possível?
- Lembra daquela noite, Violet? - A voz dele ficou doce, quase gentil. - Quando você teve aquele pesadelo? Ele te segurou até você dormir de novo, mas nunca te contou que também tinha medo... medo de te perder.
Eu me encolhi, apertando os braços contra o corpo. As palavras me atingiam como facas, cortando fundo, reabrindo feridas que eu tentava ignorar.
- Ele não contou para ninguém, mas eu sei. Eu sei de tudo, Violet.
O rosnado voltou, mas agora parecia cercar-me. As sombras se moviam, e eu sabia que não estava mais sozinha.
- Mostre-se! - gritei, a voz quebrando. - Pare com isso!
Uma figura emergiu das sombras, mas era pior do que eu esperava. Não era a forma monstruosa que eu imaginava, mas Dylan. Ou, pelo menos, algo que se parecia com ele.
- Sou eu, Violet. - Ele deu um passo à frente, e meu corpo travou. - Por que está com medo?
Seus olhos... não eram os olhos de Dylan. Estavam escuros, vazios, como se não houvesse alma ali. Mesmo assim, o sorriso no rosto era exatamente o dele.
- Você não é real. - Minha voz saiu fraca, quase inaudível.
- Real o suficiente para lembrar do que você sente falta. - Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus. - Real o suficiente para te lembrar de que você falhou.
A dor em meu peito aumentou, cada palavra dele atingindo como uma marreta. Eu sabia que não era Dylan, mas a maneira como ele falava, como se movia, era tão perfeita que meu coração queria acreditar, mesmo enquanto minha mente gritava para eu correr.
- Você não devia ter me deixado, Violet. - A criatura agora estava a poucos passos de distância. - Por que você não me salvou?
As lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto. Eu sabia que aquilo era uma mentira, mas as palavras dele despertavam toda a culpa e arrependimento que eu carregava.
- Eu tentei... - sussurrei, a voz falhando.
- Não o suficiente. - Ele estendeu a mão, os dedos quase tocando meu rosto.
Recuei, tropeçando e caindo de joelhos. A risada voltou, mas agora era mais distorcida, mais monstruosa. A ilusão se desfez, e a criatura mostrou sua verdadeira forma. Algo grotesco e impossível, com olhos que brilhavam como carvões em brasa e uma pele que parecia pulsar com vida própria.
- Você vai falhar de novo, Violet. - A voz agora era uma mistura de muitas vozes, todas ecoando na minha mente. - Vai perder tudo. Assim como perdeu ele.
Eu gritei, um som primal, carregado de dor e desespero, enquanto me levantava e corria. Não importava para onde. Só precisava escapar.
As risadas me seguiram, e o som parecia vir de dentro da minha própria cabeça. A floresta era um labirinto, cada caminho parecendo igual, cada sombra escondendo algo pior.
Meu corpo tremia, exausto, mas eu não podia parar. Não podia ceder. Não podia deixar essa coisa vencer.
Mas, no fundo, uma parte de mim sabia que já estava perdida.
Semanas antes
- Venha viver comigo - digo a Ivy, enxugando suas lágrimas. - Não aguento mais vê-la triste e cansada toda vez que vem me visitar.
Desde que deixei a cidade, refugiei-me na fronteira entre os países, num lugar afastado de tudo e de todos. Conseguir uma moradia aqui foi fácil; ninguém em sã consciência escolheria viver num lugar como este. O antigo dono desse casarão ficou incrédulo quando fiz uma oferta de compra. Não houve sequer negociação - ele aceitou na hora, por um valor absurdamente baixo.
Após meu braço finalmente se recuperar, passei meses economizando, trabalhando em todo tipo de emprego para reunir o suficiente e me afastar da cidade e das lembranças dolorosas que ela guardava.
Ivy, claro, continuou a me visitar, mesmo que isso significasse enfrentar três dias na estrada na moto do amigo dela, Logan. No começo, confesso que a ideia de vê-la ao lado de alguém como ele me incomodava. Mas com o tempo percebi que Logan apenas queria protegê-la.
- Violet... as coisas não são tão simples assim - ela suspira e baixa o olhar, voltando a se sentar no banco da varanda. - Tenho responsabilidades agora. A família de Logan me acolheu na alcateia, e eles me tratam como parte da família. Isso significa que agora faço parte da família de um dos Reis Alfas... é como ser uma princesa, com uma responsabilidade enorme nas costas.
Só então me lembrei. Logan era filho de um Rei lupino. Uma das princesas que participou do ritual naquela noite era sua irmã, e Logan estava lá para protegê-la.
O ritual... Faz pouco tempo que minha memória estava confusa, e eu culpava Dylan por um abandono que nunca aconteceu...
Quando recuperei minhas lembranças, o impacto foi devastador. Eu me senti a pior das criaturas por ter julgado Dylan, e a realidade desabou sobre mim... Dylan estava morto, e eu jamais voltaria a vê-lo.
Ivy respirou fundo antes de falar:
- Violet... Eu vim aqui para lhe entregar uma coisa.
Ela se inclinou, abrindo a mochila com cuidado, e retirou um pacote envolto em um tecido pesado. Estendeu-o em minha direção, e eu o aceitei, sentindo o peso estranho em minhas mãos. O tecido estava frio ao toque, e uma parte de mim já sabia o que encontraria ali.
Minhas mãos hesitaram por um instante antes de abrir o embrulho. Quando finalmente o fiz, o mundo pareceu parar por um segundo. Ali estava ele: o Sanguináculum. O livro ainda exalava a aura sombria e ancestral que eu lembrava, pulsando com uma energia quase imperceptível. Toquei sua capa com os dedos trêmulos, sentindo uma conexão familiar, embora distante. Uma vez, ele fora a chave para todo um universo de poder que percorria minhas veias. Agora, essa lembrança era uma sombra amarga, e eu, uma humana fraca, abandonada pela magia.
Meus olhos se encheram de lágrimas, e por um instante, senti a dor de tudo que havia perdido. Segurei o livro junto ao peito, como se ele pudesse me devolver o que fui um dia.
- Por favor, pare com o drama, Violet. - A voz de Logan quebrou o silêncio com uma rudeza desconcertante. Ele estava ali, observando tudo de braços cruzados, com uma expressão aborrecida. Ao ver minhas lágrimas, revirou os olhos, como se tudo aquilo não passasse de um espetáculo sem sentido.
Ivy e eu o olhamos, chocadas.
Ele continuou, implacável.
- Sabe, existem muitas criaturas sem poderes naturais que ainda assim aprenderam a manipular a magia. E para isso, passam anos, décadas até, estudando com afinco. - Ele me olhou de cima a baixo, os olhos brilhando com uma impaciência que eu não entendia. - A verdade, Violet, é que você não é especial. Nunca foi. A magia simplesmente aconteceu de cair no seu colo, sem nenhum esforço. Você nunca teve que lutar para dominá-la, para conquistá-la. Agora que a perdeu, age como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Pois saiba que você foi uma exceção – Ele analisa meu rosto com desdém. – Para quase todos os outros, a magia exige disciplina e sacrifício.
Eu estava dividida entre a surpresa e uma raiva surda que fervilhava em meu peito. Quem era ele para falar assim comigo? Aquele desprezo arrogante, a insinuação de que eu nunca entendera o que tinha...
- Está dizendo que eu poderia... recuperá-la? - Minha voz saiu mais contida do que eu pretendia, traindo minha expectativa.
Logan revirou os olhos outra vez, como se a pergunta fosse ridícula.
- Obviamente. Nada lhe impede de estudar e trabalhar para isso - ele disse, com um tom de impaciência. - Mas precisará de algo mais do que nostalgia e lágrimas.
Senti o peso de suas palavras me atingir, uma verdade incômoda se insinuando. Ele tinha razão. Até então, a magia fora minha por capricho do destino. Mas e se fosse possível reivindicá-la de volta, por mérito e dedicação?
Fitei o Sanguináculum em minhas mãos. Talvez, ao contrário do que sempre pensei, ele não representasse um passado perdido, mas uma porta que eu ainda poderia atravessar.
Suspirei, sentindo o peso de tudo me esmagar.
- Não sei se sou capaz de fazer alguma coisa. - Minha voz soou fraca, quase como se pertencesse a outra pessoa. - Sinto como se estivesse paralisada, presa em um vazio. Nem sequer consigo proteger a alcateia de toda a destruição da guerra causada por Klaus. Sou inútil assim.
Ivy segurou minhas mãos, seu toque quente tentando romper o gelo que parecia se formar dentro de mim.
- Violet, você precisa se reerguer. Sem você, tudo tem sido tão difícil. - Seus olhos brilharam com uma mistura de esperança e desespero. - Sua magia pode salvar todos nós.
Olhei para ela, mas sua voz parecia distante. Na minha mente, o rosto de Dylan se formava com uma clareza dolorosa, e meu coração se apertou. Ele tinha sido o centro de tudo, a razão de muitas das minhas escolhas. Perder Dylan havia deixado um vazio impossível de preencher. Suspirei novamente e me sentei no sofá, sentindo o peso de uma vida que parecia distante e inatingível.
- Eu só queria... - minha voz falhou, e fechei os olhos por um momento, tentando conter as lágrimas que ameaçavam vir. - Só queria que as coisas voltassem a ser como antes. Que o Alfa estivesse vivo.
O som de Logan suspirando alto me fez abrir os olhos. Ele cruzou os braços e nos observava, a impaciência marcando suas feições. Ivy, notando algo, virou-se para ele.
- Você sabe de alguma coisa, Logan - disse ela, com firmeza.
Ele hesitou, o maxilar se contraindo.
- Não sei se devo dizer. É arriscado... e nem todo mundo é capaz.
Meu coração acelerou, um misto de esperança e desespero me consumindo.
- O que é? - perguntei, tentando conter o tremor na minha voz. - Logan, você precisa me dizer agora.
Ele me lançou um olhar sério, sua expressão endurecida por algo que parecia mais do que relutância.
- Existe um jeito... - ele começou, lentamente, como se cada palavra fosse uma decisão pesada. - Um jeito de fazer as coisas voltarem a ser como antes. Pelo menos, para Dylan.
O mundo parou ao meu redor.
- Você está dizendo... - balbuciei, quase sem voz. - Que existe uma maneira de trazer Dylan de volta?
Logan passou a mão pelos cabelos, frustrado, e suspirou profundamente.
- Vou me arrepender de dizer isso, mas... sim. Existe. Há bruxas capazes de voltar no tempo, ou até mesmo de trazer criaturas de volta à vida. Em teoria, é possível. Mas, até hoje, ninguém conseguiu fazer algo assim.
Fiquei em silêncio, a mente girando com as possibilidades. Poderia mesmo ser verdade? Um fio de esperança começou a se formar, mas ele estava cercado por medo e incerteza.
- Se existe essa possibilidade - disse Ivy, quebrando o silêncio com sua determinação -, então ela precisa ser explorada.
Logan parecia mais hesitante agora, seu tom mais grave.
- Não é tão simples assim. - Ele cruzou os braços, os olhos fixos em mim. - Quando alguém morre, a alma vai para uma área muito diferente da nossa dimensão. Trazer uma alma de lá é incrivelmente difícil. E, mesmo que você consiga, há riscos... enormes.
- Que tipo de riscos? - perguntei, minha voz mal saindo.
Ele respirou fundo antes de continuar.
- A alma pode se corromper durante o processo. Especialmente uma alma lupina, que carrega sua própria força e instinto. Dylan... pode voltar como uma versão que não é mais ele. Sem bondade. Talvez até... maligna.
Aquelas palavras eram um golpe cruel. Mas, ao mesmo tempo, elas traziam uma ideia impossível de ignorar. Dylan, de volta. Mesmo com o risco...
Levantei-me, escondendo as emoções que fervilhavam dentro de mim, e olhei para Logan e Ivy com um sorriso forçado.
- Obrigada, Logan. De verdade. - Minha voz era suave, mas distante. - Vou fazer um café para nós.
Sem esperar resposta, fui para a cozinha. Meu coração estava acelerado, dividido entre esperança e medo de falhar. Eu realmente poderia concertar as coisas? Eu realmente poderia ter Dylan novamente?
Seus olhos vem em minha mente, aqueles olhos claros e sinceros que tanto me faziam falta. Sabia que nosso tempo juntos foi breve, apenas poucos momentos românticos... Mas ainda assim, eu sentia falta de sua presença cada segundo do meu dia e com todo o meu ser.
Entrei na cozinha sentindo meu coração se apertar com as lembranças que invadiam minha mente.
Suspirei pegando a chaleira e verificando se a água já estava quente.
Ivy entrou na cozinha furtivamente, seus passos leves contrastando com a tensão que pairava no ar.
- Por que você pareceu tão calma lá fora? - perguntou, inclinando-se contra a bancada enquanto me observava.
Peguei o pote de pó de café e comecei a preparar a bebida, sem olhar para ela.
- Eu só queria um café, Ivy - respondi, tentando manter a voz firme.
Mas Ivy não se deixou enganar.
- Você está aprontando alguma coisa. - Sua voz tinha uma mistura de preocupação e determinação. - Se acha que vai fazer algo arriscado sozinha, saiba que não vou deixar.
Parei de mexer o pó e me virei para encará-la, segurando o pote em uma das mãos. Meu olhar encontrou o dela, e as palavras saíram antes que eu pudesse pensar.
- Você não pode mandar em mim, Ivy. Eu sou uma adulta agora. E você? Você é só uma adolescente que acha que entende tudo.
O choque estampou-se no rosto dela. Ela piscou, surpresa, e depois riu, mas era uma risada amarga, incrédula.
- Então é assim agora? - perguntou, com a voz tingida de ironia. - Você vai me tratar como lixo, igual todos me tratavam na alcateia de Dylan?
Senti um peso no peito, o remorso me atingindo como um golpe, mas fiquei em silêncio.
Ivy deu um passo à frente, sua voz falhando enquanto segurava o choro.
- Você foi a primeira pessoa naquela alcateia que me tratou como alguém digno, Violet. A primeira que me viu de verdade. - Sua garganta se apertou, mas ela continuou. - Eu pensei que você fosse minha amiga... minha melhor amiga. Depois que Alaric desapareceu, você foi tudo que me restou. Toda a família que eu tinha. E agora você está me excluindo de novo, como todo mundo fez.
Suas palavras cortaram fundo, mas ainda assim eu não consegui responder. Tudo o que podia fazer era desviar o olhar, tentando ignorar o peso crescente da culpa.
Suspirei, finalmente quebrando o silêncio:
- Não quero que você se envolva nisso. A magia é perigosa, Ivy. E nem sempre eu consigo controlá-la.
Ela riu de novo, um som descrente e quase cruel.
- Passei por coisas muito piores ao seu lado, Violet. A magia nunca foi um problema antes. Por que seria agora? O que mudou?
Virei para ela, sentindo uma onda de emoção me consumir.
- Eu mudei! - gritei, minha voz ecoando na cozinha. - O problema é que eu não sou mais a mesma! Não sou mais uma criatura com a alma do mago supremo ou com a energia mágica ancestral da família da minha mãe! Agora eu sou fraca, Ivy! Fraca! Não posso nem me proteger, como vou conseguir proteger você?
Meu peito subia e descia enquanto tentava recuperar o fôlego. Ivy ficou quieta, seus olhos avaliando cada detalhe do meu rosto. Quando finalmente falou, sua voz era baixa, quase um sussurro:
- Talvez você devesse confiar mais em si mesma. E nas pessoas ao seu redor.
Eu não disse nada. Não sabia o que dizer.
Ivy suspirou, parecendo cansada.
- Vou para o quarto de hóspedes descansar. A viagem de volta à alcateia de Logan é longa.
Ela se virou para sair, mas antes de cruzar a porta, murmurei:
- Vocês não precisam ir embora agora.
Ivy parou e olhou por cima do ombro, seus olhos brilhando com algo que eu não conseguia identificar.
- Não vou ficar na casa de alguém que não me considera família. - Sua voz era firme, mas doía. - E que não confia em mim o suficiente para ajudar.
Ela saiu da cozinha, deixando-me sozinha. Fiquei ali, em silêncio, sentindo o peso esmagador da culpa crescer dentro de mim.
O quarto estava mergulhado em um silêncio que parecia pesar tanto quanto o livro que eu segurava. A capa de couro preto, lisa e sem adornos, repousava fria contra minhas mãos. Ivy e Logan haviam recuperado este e outros volumes da antiga casa da minha família, resgatados de um cofre que por anos esteve fora do meu alcance. Agora, eu o tinha comigo, mas ao mesmo tempo, parecia que as respostas que buscava estavam tão distantes quanto sempre estiveram.
Respirei fundo e abri o livro. O cheiro de papel antigo, mesclado ao couro envelhecido, trouxe uma estranha familiaridade, um eco de algo que nunca conheci de verdade. A caligrafia fluía em latim, um idioma que até pouco tempo eu seria incapaz de decifrar. Mas agora...
As palavras não apenas faziam sentido - elas ressoavam em mim. Era como se cada frase despertasse memórias adormecidas, como se aquele conhecimento estivesse gravado em meu DNA. Li devagar, saboreando cada linha, cada conceito. A escrita abordava magia ancestral, feitiços complexos e, o mais perturbador, os custos para manipular tais forças.
Foi então que cheguei a uma seção que congelou o ar ao meu redor: "Consequências das Distorsões Temporais."
As palavras eram uma advertência. Saltos no tempo, dizia o texto, não eram apenas perigosos. Eram quase sempre catastróficos. Manipular o tempo era lidar com forças além da compreensão humana, forçando o universo a dobrar-se de formas que ele não fora feito para suportar. As histórias descritas eram assustadoras: bruxos que tentaram alterar o passado e acabaram apagados da existência; outros que retornaram de suas viagens trazendo horrores indescritíveis, sombras vivas que os consumiram.
Fechei o livro por um instante, o peso daquelas palavras pressionando meu peito. Não pude evitar lembrar o que o Sanguináculum havia me contado antes: minha mãe era uma bruxa que fazia saltos temporais. Era isso que ela escondia de mim? Sempre me perguntei por que ela parecia tão distante, sempre envolta em segredos. Agora, tudo fazia um sentido terrível e inevitável.
"Será que posso fazer o mesmo?"
A pergunta pairou no ar, inquietante. Voltei ao livro, virando as páginas com mais cautela. E foi então que percebi: algo estava errado.
Uma seção estava fora de ordem. O texto seguia de forma fluida até a página 70, mas depois saltava abruptamente para a 75. As páginas intermediárias estavam coladas, quase como se alguém houvesse intencionalmente ocultado o conteúdo. Franzi o cenho, passando os dedos pelas bordas unidas. A textura do papel parecia diferente ali, mais áspera, como se houvesse marcas ou rabiscos entre as folhas.
Segurei a respiração enquanto tentava separá-las, mas o material era antigo e frágil. Qualquer esforço adicional poderia destruí-las por completo. Recuei, frustrada, sentindo uma mistura de curiosidade e temor.
"O que minha mãe queria esconder aqui?"
Meus pensamentos vagaram. Quem teria colado essas páginas? Foi minha mãe ou alguém que queria apagar sua história? Observei o livro, analisando as margens das folhas, mas não encontrei nada que pudesse me ajudar a desvendar o mistério. Ainda assim, a presença daquela lacuna era perturbadora, como se escondesse algo que não deveria ser conhecido.
Larguei o livro no colo e passei uma mão pelos cabelos, tentando organizar as ideias. As advertências do texto sobre as consequências temporais voltaram à minha mente. O preço de manipular o tempo não era apenas alto; era irreversível.
As palavras ainda ecoavam: "O que foi feito não pode ser desfeito."
A verdade dessas palavras doía. Não importa o quanto eu quisesse corrigir o passado, trazer Dylan de volta, nada poderia apagar as escolhas que haviam sido feitas. Ainda assim, algo dentro de mim se recusava a aceitar.
O Sanguináculum tinha sido claro sobre minha mãe. Ela era uma bruxa de saltos temporais, uma feiticeira capaz de dobrar o tempo à sua vontade. E se ela pôde fazer isso, talvez eu também pudesse.
Olhei para o cofre vazio no canto do quarto. Ele tinha sido apenas um recipiente, uma barreira entre mim e o legado que agora pulsava à minha volta. Os livros, os feitiços, tudo parecia convergir para um único ponto. Não era apenas sobre magia. Era sobre quem eu era - ou quem eu poderia me tornar.
Voltei a encarar as páginas coladas. Sentia uma urgência latente, uma certeza de que as respostas que buscava estavam ali, trancadas dentro daquelas folhas. Mas algo também me dizia que não estava pronta para isso. Não ainda.
Fechei o livro com cuidado e o coloquei de lado. Deitei-me na cama, encarando o teto, enquanto minha mente corria. As histórias de minha mãe eram claras agora: ela sabia coisas que nunca compartilhou comigo, provavelmente tentando me proteger. Mas agora eu entendia que, ao esconder o passado, ela havia me deixado vulnerável ao presente.
Se eu realmente queria respostas, teria que enfrentá-las por completo. Não apenas nos livros, mas dentro de mim. O que quer que estivesse escondido ali, entre aquelas páginas ou no meu próprio sangue, seria a chave para o futuro que eu desejava - ou para a destruição total do que restava de mim.
Ainda assim, mesmo com todo o medo, uma pergunta me consumia: "Até onde eu estaria disposta a ir para trazê-lo de volta?"
(...)
Passei a noite imersa nas páginas, como se cada palavra escrita ali tivesse o poder de me prender em um transe. Quando finalmente ergui os olhos, o mundo parecia distante, como se estivesse assistindo a tudo por trás de uma vidraça embaçada. O cheiro inconfundível de café fresco invadiu o quarto, rompendo o torpor que me envolvia.
Leves batidas na porta me trouxeram de volta à realidade, seguidas pelo som da madeira se abrindo lentamente. Ivy entrou hesitante, seu rosto ainda carregando a sombra de uma mágoa que parecia se perpetuar entre nós.
- Logan fez o café da manhã - disse ela, sua voz calma, mas contida. - Ele pediu para te chamar.
Demorei alguns segundos para processar suas palavras antes de olhar para o relógio na parede. O ponteiro marcava 8:30 da manhã. Passei a mão pelo rosto, tentando afastar o cansaço acumulado pela noite em claro.
- Já é de manhã? - murmurei, mais para mim mesma.
Ivy permaneceu onde estava, perto da porta, sua postura tensa, como se estivesse decidindo se deveria dizer mais alguma coisa ou simplesmente sair.
- Ivy, espera. - Minha voz soou mais rouca do que eu esperava.
Ela parou, mas não se virou. Respirei fundo e continuei:
- Me desculpe. Por como te tratei. - Minha garganta parecia apertada enquanto eu falava. - As coisas... as coisas estão confusas de um jeito horrível desde que Dylan se foi.
Ela finalmente se virou, seus olhos encontrando os meus. Eles estavam cheios de algo que eu não conseguia decifrar completamente - dor, cansaço, talvez até um toque de resignação.
- Eu perdi tudo, Violet. - Sua voz tremia levemente. - Minha alcatéia, meu lar. Agora sou obrigada a viver aqui, com Logan, em um lugar que nunca será meu.
Cada palavra era como uma faca, cortando-me com sua honestidade crua.
- Nem mesmo Alaric está aqui. Sinto falta dos meus. Até mesmo dos lobos que me desprezavam. Pelo menos eles eram familiares. - Ela riu amargamente, um som sem alegria que parecia aumentar o peso no meu peito.
Uma onda de culpa e empatia me atravessou. Ivy suspirou profundamente antes de continuar:
- Tudo o que eu conhecia foi tomado de mim. E agora... agora o rei alfa decidiu que Logan e eu devemos nos casar.
Demorei um momento para compreender o que ela havia acabado de dizer. Levantei-me tão rápido que quase derrubei o livro no chão.
- O quê? Isso é impossível! Lobos só podem casar depois do ritual, quando a Chama Sagrada escolhe o par.
Ivy deu um sorriso amargo, olhando para o chão.
- Isso seria verdade... se eu ainda pudesse passar pelo ritual. - Sua voz ficou baixa, quase inaudível. - Mas isso nunca será uma opção para mim. Não depois do que ele fez.
Foi como se algo dentro de mim tivesse sido incendiado. Ela não precisava dizer o nome. O "ele" era Eric, o monstro que a havia violado durante o ataque de Caleb à nossa alcatéia. Era uma lembrança que eu gostaria de apagar, mas sabia que jamais a deixaria.
- Ivy... - tentei falar, mas ela ergueu a mão, interrompendo-me.
- Não é só isso, Violet. Logan... ele não é um lobo comum. Todos da família real parecem temê-lo. Até agora, eu nunca o vi em sua forma de lobo. Algo nele é... errado. Como se houvesse algo demoníaco dentro dele.
Seu tom era sombrio, carregado de uma verdade que ela parecia ter medo de verbalizar completamente. Meus pensamentos voltaram ao Sanguináculum e aos trechos que falavam sobre possessões demoníacas em lobos e sobre criaturas sobrenaturais que conseguiam abrigar demônios dentro de si, substituindo sua alma. A possibilidade me deixou inquieta.
- Você não precisa fazer isso. - Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Você pode ficar aqui, comigo. Eu vou te proteger. Vou esconder você.
Ivy riu baixinho, mas não havia humor em seu riso.
- Violet, não se meta no caminho de um rei alfa. Eles não são apenas poderosos. Eles são implacáveis.
Ela se virou para sair, mas o peso de suas palavras permaneceu no ar. Suspirei profundamente, sentindo um nó se formar em meu estômago. Como eu poderia salvá-la dessa situação? E, mais importante, o que exatamente Logan escondia por trás de sua fachada impenetrável?
Enquanto a porta se fechava atrás dela, meu olhar voltou para o livro ao meu lado. Eu precisaria encontrar respostas - e rápido. Porque, de uma forma ou de outra, eu sabia que o tempo estava contra nós.