Oi, pessoal!
Antes de iniciar a história, gostaria de passar esse recado para você, leitor.
Desculpe-me, mas não posso garantir que este será um livro onde vocês vão rir com os personagens... mas posso garantir que irão sim, se emocionar e muito!
Como autora desta obra, aconselho a pegarem uma caixa de lenços e até mesmo um copo d'água, acredito que vocês irão precisar.
Este livro contém gatilhos emocionais e psicológicos, aqueles dos quais as pessoas costumam dizer que é frescura, até o pior acontecer.
Todos nós temos nossos monstros internos, mas poucos têm alguém que os ajude a se livrar deles. Então, minha pergunta é: Você tem alguém que te tire da escuridão? Você tem alguém para desabafar quando se vê sem saída? Se sua resposta for 'Sim', então você é uma pessoa de sorte. Mas se por acaso a sua resposta for 'Não', saiba que estou aqui e meu WhatsApp está aberto para você. Sinta-se à vontade e acolhido por mim."
Com carinho, Lorany.
Prólogo
As lembranças assombram minha mente como sombras do passado, um eco constante dos momentos que moldaram minha vida. Sou Maitê Ferreira, uma alma marcada pela tragédia que se desdobrou no coração do morro do Complexo do Alemão. Filha do temido King, dono do morro, e dividida entre o amor e a rivalidade de uma família dilacerada pelo poder e pela dor.
A presença constante de minha madrasta, sempre um desafio, contrastava com a luz radiante que era meu irmão gêmeo, Viktor, conhecido como VT. Juntos, éramos inseparáveis, unidos por laços que o tempo e a tragédia não conseguiram romper completamente. Sua morte, há quatro anos, ainda ecoa em minha alma, como uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar.
No dia fatídico da invasão, vi meu mundo desmoronar diante de meus olhos. Corri para proteger meu irmão, mas a violência implacável do morro rival roubou sua vida, deixando-me com nada além de lembranças dolorosas e um desejo insaciável por vingança. O grito de dor que rasgou minha garganta ecoa em minha mente até hoje, como um lembrete constante do preço da guerra pelo controle do morro.
A morte de Viktor foi o catalisador de uma série de eventos que mudariam para sempre o curso de minha vida. Minha decisão desesperada de enfrentar seus assassinos, mesmo que isso significasse sacrificar minha própria segurança, selou meu destino de maneiras que ainda estou tentando compreender. Sangue por sangue, justiça por justiça, eu me tornei uma figura polarizadora dentro do morro, uma fonte de inspiração para alguns e de medo para outros.
Agora, após quatro anos de exílio autoimposto, estou retornando ao lugar que um dia chamei de lar. Em um avião que corta os céus, encontro-me imersa em um turbilhão de emoções, lutando para reconciliar o passado com o presente e encontrar uma razão para seguir em frente. Ao meu lado, Fumaça, meu fiel guardião, permanece como uma âncora em meio à tempestade que é minha alma.
Enquanto o avião corta as nuvens, rumo ao destino que me aguarda, só posso me perguntar se algum raio de luz conseguirá penetrar a escuridão que se instalou em meu coração.
Capítulo 1 Maitê
Meu nome é Maitê Ferreira. Sou filha do King, o dono do morro do Complexo do Alemão. Viver ao lado da minha madrasta sempre foi desafiador, mas a presença do meu irmão, tornava tudo recompensador.
Éramos cinco: os três mais velhos eram filhos da minha madrasta, enquanto meu irmão e eu, éramos fruto de uma traição.
• Lui - conhecido como Escorpião, é o mais velho, com 28 anos e atua como sub do morro.
• Larissa - aos 25 anos, aprecia o luxo de ser filha do dono. Mesquinha e insubmissa, ela não sabe dar valor ao que possui e parece não considerar seu próprio futuro, focando apenas em viver às custas de nosso pai.
• Talita - com 23 anos, não é muito diferente de sua irmã mais velha. Como elas dizem: nós amamos se envolver com figuras de poder, tendo como desejo tornar-se á fiel do líder do comando, acreditando que quanto mais alta a patente, melhor.
• Viktor, vulgo VT - com 19 anos, era meu irmão gêmeo até a vida tirá-lo de mim, há quatro anos. Ele era cheio de vida e carismático, amando a liberdade. No entanto, tudo mudou.
Há 4 anos, parti do morro alemão sentindo-me perdida, após testemunhar a morte do meu irmão.
**Lembranças Ligadas**
Eu tinha 15 anos quando tudo aconteceu.
As vozes dos trabalhadores indicavam um novo dia, até o primeiro foguete anunciar uma invasão.
Meu irmão invadiu meu quarto, ordenando que eu fosse para o cofre junto com as meninas. Corri para dentro e secretamente, peguei um radinho.
- Princesa, vai para o cofre, não temos tempo. - Ouvi a voz de VT.
Senti uma dor em meu peito, era como se algo me avisasse.
- Eu não estou com um bom pressentimento, por favor, não vai fica aqui comigo.
- Relaxa, pequena, vai ficar tudo bem e jaja venho te buscar.
E lá ele me deixou. A invasão foi frenética e mesmo dentro do cofre, podíamos ouvir os barulhos de tiros. Para falar a verdade eu nunca gostei desses barulhos. Passaram-se quando ouço um barulho do lado de fora e paro no lugar ao ouvir a voz familiar de Juca, alertando meu irmão.
- VT, não siga por esse caminho! - Ele gritou, mas meu irmão permaneceu em silêncio.
Sem conseguir raciocinar direito, minha mente estava focada apenas em meu irmão. Fechando as mãos em punho e decidida a cuidar dele, saí do cofre.
- Volta aqui agora, Maitê! O que você acha que pode fazer? Maitê! - Mesmo com os gritos de minha madrasta para continuar lá dentro, eu saí da barreira de proteção e tranquei o cofre outra vez. Antes de sair do cômodo, peguei uma arma que sabia que ficava na mesinha.
Corri pelos becos, desesperada e não conseguia pensar em nada, só em ajudar o meu irmão.
Ao chegar na esquina, paralisei ao ver o suposto dono do morro rival apontando a arma para meu irmão. Escondi a arma nas costas, mas antes que pudesse reagir, três tiros perfuraram o peito do meu irmão. - Nãoooooooo! - Estanquei no lugar, ao mesmo tempo em que um grito rasgou minha garganta. Todos viraram suas armas para mim.
- Fica parada aí, porra. - Eles gritavam, mas eu já não me importava com mais nada. Ignorando as armas apontadas, corri até meu irmão, segurando-o em meus braços.
- Não, isso não pode estar acontecendo. - Me abaixei ao seu lado, colocando algumas mechas do meu cabelo atrás da orelha e sentindo meus olhos turvos pelas lágrimas. - Por favor, Viktor olha pra mim. - Eu falava desesperada, tentando pedir pela misericórdia de Deus e chamando meu irmão. - Deus, salva meu irmão, não permita que isso aconteça. Olhe para mim, VT... por favor, olhe para mim. Estou aqui, apenas olhe para mim. Eu não permito que me abandone. - Todos ao redor, com armas apontadas, pareciam paralisados. Enquanto eu gritava desesperadamente.
Desesperada e tomada pela raiva, coloquei a mão em minhas costas e destravei a arma silenciosamente.
O tempo parecia que havia congelado, enquanto eu segurava meu irmão nos braços. Com determinação, apesar da minha inexperiência com armas, apontei para o homem que havia tirado a vida do meu irmão.
Ele abriu um sorriso debochado, apontando para mim, sua arma.
- Acha mesmo que vai conseguir me matar e sair daqui viva? - Ele indagou.
- A partir do momento em que você atirou em meu irmão, eu não me importo com mais nada. Sangue por sangue. - Murmurei, pressionando o gatilho. O som ecoou pelo beco, cortando o silêncio tenso. O homem caiu, com uma bala certeira em sua cabeça. E por um breve momento, o caos congelou. Olhares atônitos se voltaram para mim e a tensão aumentou ainda mais.
Recuei. Protegendo meu irmão com meu próprio corpo, enquanto os outros membros do morro se aproximavam. Paralisei ao ver os invasores com armas apontadas para nós. Mas então, eles abaixaram suas armas ao verem meu pai se aproximar, enquanto eu permanecia ali, segurando meu irmão nos braços. A confusão se espalhava, mas a dor pela perda de meu irmão persistia.
Ouvi a voz de meu pai.
- A partir de hoje, o morro do Jacarezinho é nosso. - Ouço os barulhos de armas e a comemoração pela vitória, mas é na vitória deles que eu estou de luto.
Em meus braços, meu irmão morreu, seu coração parou diante dos meus olhos. O seu sangue manchou minha roupa, criando um quadro de horror. Não consegui me mover dali e as lágrimas pareciam não ter fim.
Os olhares julgadores, decorrentes do ato que cometi para proteger quem amava, nunca mais se dissiparam de mim.
O fardo daquela escolha pesava em meu coração, misturando-se à dor da perda.
Permaneci ali, segurando meu irmão sem vida, envolto pelo silêncio tenso que sucedeu o tumulto. A comunidade começou a sair de suas casas e seus olhares de horror, me penetraram como lâminas afiadas.
No entanto, a dor de ter meu irmão em meus braços nem se comparava. O ar estava carregado de pesar e o peso da responsabilidade doía em meus ombros.
Meu pai aproximou-se de nós e pude ver pequenas lágrimas se formando em seus olhos. Com uma expressão séria, ele me retirou de cima do corpo gélido de meu irmão.
- O que aconteceu aqui, não será mencionado a ninguém. - Afirmou ele com firmeza. Seus olhos transmitiam uma mistura de pesar e determinação.
Todos abaixaram a cabeça em concordância e depois de me ajudar a levantar, ele me levou para casa. Lembro-me que naquele mesmo dia foi o velório dele, as lágrimas escorriam sem parar. Meu coração estava marcado pela dor, minhas mãos pelo derramamento de sangue, e meus olhos, que um dia foram alegres e brilhantes, estavam opacos. Dentro de mim, restava apenas o caos.
Naquela noite sombria, o peso da perda e a lembrança do corpo frio de meu irmão assombravam meus pensamentos. A casa ecoava com o silêncio doloroso e as lágrimas continuavam a cair, como uma chuva infinita de tristeza. Cada canto carregava a memória de um passado, agora obscurecido pela ausência irreparável. O caos dentro de mim se intensificava, uma tempestade emocional, que parecia não ter fim.
" Lembranças Desligadas "
Aqui estou, agora dentro de um avião, voltando após quatro anos e com as lembranças que mancharam a minha vida e nunca deixaram de fazer morada em mim. O voo é realmente uma jornada de reflexão, carregando o peso do passado enquanto busco encontrar alguma esperança para o que me aguarda ao retornar. Cada nuvem lá fora parece refletir as camadas complexas das minhas experiências. Mas, ainda assim, busco um raio de luz no horizonte.
- Você está bem? - Fumaça pergunta preocupado.
Desde que me entendo por gente, Fumaça tem sido meu segurança. Quando tudo desabou, ele ainda estava aqui, tentando me fazer levantar. Saiu do morro comigo para garantir que eu conseguisse sobreviver a essa névoa que me assombra.
- Eu... eu não sei te dizer como estou. - Suspiro, tentando buscar as palavras que podem me ajudar a explicar. - As lembranças dos momentos estão voltando, como uma enxurrada de agonia.
Sou o Líder do Comando, conhecido por todos como Lorde. Assumi o comando depois que meu pai foi em cana. Poucos sabem o meu nome, apenas os mais confiáveis.
Sou Gabriel, o líder mais jovem que o comando já teve. Mas não se engane, não alcancei essa posição por ser filho do antigo líder e sim pelo que sou.
Em meio ao caos da invasão dos botas, eles levaram o meu pai e minha mãe, foi morta por eles. Foi um golpe avassalador.
Na reunião subsequente, fui designado como líder do comando e dono da Rocinha. Já era um homem frio e calculista, mas a perda da minha coroa intensificou essa faceta.
Para o mundo, sou considerado o próprio satanás. Mas as coisas mudam dentro de casa, com minha irmã, ainda sou o Gabriel. Conheço o sofrimento pelo qual ela passou com todas essas mudanças, e é por isso que nossa ligação é inquebrável. Protejo-a tanto quanto ela me protege, pois somos os únicos que realmente conhecem o peso do fardo que carregamos.
A responsabilidade pesa nos meus ombros e cada decisão é uma jogada estratégica. O respeito não vem apenas do título, mas das ações e da lealdade conquistada. Nas vielas do comando, onde a vida é medida em cada passo, eu trilho meu caminho enfrentando desafios que moldam a minha liderança e definem o futuro do morro.
Sei muito bem em quem posso confiar e comigo não há segunda chance para pilantragem. Aqui, vagabundo não tem vez.
Dizem que sou frio e que deveria ser mais carismático, mas isso é parte da minha essência, algo que não mudaria por nada e nem ninguém.
Não sou de me apaixonar, na verdade, nem me lembro quando foi a última vez que isso aconteceu. Comigo, é uma experiência única e nada mais, não gosto de repetir.
Hoje vai rolar um churrasco maneiro no Complexo do Alemão, e o King me chamou. Dizem que a filha mais nova dele está voltando depois de anos.
Quem é ela? Não faço ideia, não me lembro dela.
A parte complicada de ir para o morro do Alemão é ter que lidar com Larissa e Talita. Não vou mentir, já me envolvi com as duas, e agora elas quase se matam, achando que uma delas será minha fiel.
Chego no morro trajado na beca. Usando uma bermuda preta da Burberry, camiseta branca da Balenciaga, uma corrente de ouro no pescoço e um relógio de destaque no pulso.
Assim que me vêem, as meninas se entreolham e logo se aproximam, me cumprimentando, passando as mãos pelo meu corpo.
Distancio-me delas, indo em direção ao King para cumprimentá-lo. Pego um whisky, acendo um fininho e mergulho na atmosfera do churrasco no Complexo do Alemão.
O funk alto e as minas jogando a bunda no chão, até que é uma visão boa de onde eu estou. Enquanto sorvo meu whisky, uma mina que eu nunca havia visto, morena e dona de uma bunda maravilhosa vem até mim, já sentando em meu colo. A cara de cu e desgosto das filhas do King, chega até ser engraçado.
Observando a agitação e ouvindo murmúrios sobre o gelo acabando, percebi minha oportunidade para sair por um tempo.
- O gelo tá acabando? - Pergunto, como quem não se importa muito.
- Sim, mas já vou acionar os crias para ir buscar.
- Precisa não, deixa que eu vou. - Comentei, virando o restante da minha dose. - Tenho que comprar uns bagulhos pra mim também, já aproveito a viagem.
Dirijo-me até o carro, solto a marcha em direção ao bar do seu Zé, onde pego o que preciso e ao sair, avistei uma mina loirinha, com ares de patricinha, subindo o morro. Dois soldados, Fumaça e G3, a acompanham. Me surpreendo pois já faz alguns anos que não via fumaça.
A mina, por mais atraente que seja, parece não ter brilho nos olhos, como se não enxergasse o que está acontecendo à sua volta. É um fenômeno difícil de explicar.
Seu Zé, como todos no morro, observa a cena, deixando-me ainda mais confuso.
- A vida não foi fácil para ela, e aqueles olhos são a prova disso. - Diz seu Zé, ficando ao meu lado.
- Quem é ela? - Pergunto curioso.
- É a filha mais nova do King. Não deve estar sendo fácil voltar para cá depois de tanto tempo. Minha menina tinha um sorriso tão lindo em seu rosto, seus olhos brilhavam como duas esferas. Ao olhar para o passado, é possível até ouvir sua gargalhada gostosa pelo morro... mas agora, eu não encontro mais aquela menina. - Ele diz, indo para dentro da cozinha, preparar algo.
Eu permaneço ali, hipnotizado pela cena intrigante.
Olho em direção ao seu Zé, que retorna com milkshake de ovomaltine em suas mãos.
- Maitê! - Ele grita de dentro do bar. - Venha, minha menina, tenho algo que vai gostar.
A mina abre um pequeno sorriso, como se alguma memória fosse ativada em sua mente e em passos pequenos, ela caminha em direção ao seu Zé. Abraça-o sem dizer uma palavra e sem olhar na minha direção.
Ela senta em uma das mesas e começa a saborear o milkshake.
Vejo Fumaça falando algo que não consigo ouvir e depois, se dirige a mim.
- E aí, Lorde! Quanto tempo, parceiro? Como tu tá?
- Ah, achei que não viria me cumprimentar. - Digo dando uma risadinha. - Tô suave, e tu?
- Em primeiro lugar, a segurança dela. - Aponta discretamente em direção a loirinha. - Depois, eu cumprimento os parceiros, é bom estar no Brasil após tanto tempo fora. - Ele diz, rindo. - Tudo firmeza, também. - Quando olho para a menina, nossos olhos se encontram, trazendo uma sensação estranha no peito.
Fumaça, sempre com seu jeito direto, traz uma descontração ao ambiente tenso. Enquanto mantemos a conversa, observo Maitê saboreando o milkshake, sua expressão distante revelando um misto de sentimentos.
- Maitê, esse é o Lorde, nosso líder do comando. - Fumaça me apresenta, tirando ela de seus pensamentos.
Ela levanta os olhos e fixa o olhar em mim por um momento, como se tentasse decifrar algo. Cumprimenta-me com um aceno de cabeça, mas suas palavras permanecem ausentes.
- Lorde, essa é Maitê, a filha mais nova do King. Voltou hoje depois de um bom tempo fora. - Fumaça explica.
- Bem-vinda de volta, Maitê. - Expresso de maneira cortês, mas sua presença evoca uma atmosfera peculiar. - Novamente, ela apenas acenou com a cabeça, como se pouco se importasse. Uma energia desconhecida paira entre nós, alimentando a curiosidade e a perplexidade diante da situação.
O clima tenso persiste enquanto Maitê permanece mergulhada em seus próprios pensamentos, sem revelar muito sobre seu retorno ao morro. Fumaça, percebendo que ela ficou estranha, decide se afastar e retornar à sua posição de segurança.
A indiferença de Maitê em relação à minha presença, destaca-se de todas as interações que estou acostumado. Pela primeira vez, não percebo qualquer sinal de curiosidade ou atenção vinda dela. Essa atitude inusitada me incomoda mais do que eu poderia ter previsto, desafiando a dinâmica habitual das relações no morro.
Assim que a aeromoça anunciou que chegamos ao Brasil, uma mistura de sentimentos me invade. Lembro-me da adolescência, quando nunca quis sair do Brasil, contrastando com os motivos que me levaram a sair.
Descemos do avião e depois de pegarmos nossas bagagens, nos dirigimos aos carros, onde logo avistamos o G3, e entramos no veículo. Ao longo do caminho, observo o Rio e sua beleza encantadora, que só é encontrada aqui.
Após alguns minutos no carro, percebo que estamos nos aproximando da barragem do morro. Fecho os olhos e respiro fundo, sentindo como se estivesse sufocando a cada minuto dentro do veículo.
Ao passarmos pela barreira, noto algumas mudanças no morro. Mas a maior parte, ainda está igual. Vejo crianças brincando na rua e as velhas fofoqueiras continuam no mesmo lugar. Uma pequena lágrima escorre pelo meu rosto.
- Você... pode, por favor, parar o carro? - Perguntei num sussurro, sem saber ao certo se podia ser ouvida.
- Está tudo bem? - Fumaça pergunta, me olhando preocupado, mas já sinto o veículo sendo parado.
- Sim, só quero ir andando. - Sem dizer mais nada, eles descem e também me ajudam a fazer o mesmo. G3 pede para que outro homem leve o carro até a casa do meu pai.
Ao sair, o ar do morro invade meus pulmões. A atmosfera familiar, misturada com a tensão da minha volta, me deixa emotiva.
Caminho pelas ruas que um dia chamei de lar, observando as mudanças e, ao mesmo tempo, os elementos que permanecem intocados pelo tempo. As lembranças surgem como fantasmas, ecoando pelas vielas e becos.
Uma enxurrada de lembranças paira sobre mim, a cada passo que dou pelo morro. As boas memórias, especialmente aquelas com meu irmão, me fazem parar no meu caminho. Ao olhar para cima, percebo a realidade de onde estou, e uma vontade avassaladora de gritar e expressar o quanto odeio estar ali novamente, acaba tomando conta de mim.
Contudo, como sempre, engulo o grito que ameaça escapar. A cada rua percorrida, mais lembranças ressurgem, tanto as alegres, quanto as dolorosas.
Até que ouço uma voz familiar.
- Maitê! - Ele grita.
Ergo meus olhos e vejo o seu Zé à minha frente. É como se, mesmo que eu não dissesse nada, ele soubesse que eu precisava sair da bolha que estava prestes a me engolir. Como um farol, meus olhos encontraram os dele e caminho em sua direção a pequenos passos, tentando controlar minha respiração.
Sento-me à mesa, a mesma que sempre sentava com meu irmão, e logo ele traz um milkshake de ovomaltine, meu preferido. Sinto que, mais uma vez, voltei ao tempo. Olho para a cadeira em minha frente, e quase posso ver meu irmão sentado ali, como nos velhos tempos. A voz dele soa em meus ouvidos.
- Nada melhor que, após um dia cansativo, poder tomar um shake desses. - Dizia Viktor, com um sorriso lindo em seus lábios.
Sinto meus olhos queimarem, segurando o máximo que consigo o choro que está travado em mim. - Você não tinha o direito de morrer antes de mim. - Digo baixinho para mim mesma.
Um olhar se fixa sobre mim, como se queimasse minha pele. Ergo a cabeça e o encaro, mas logo desviei de seus olhos, olhando para o nada.
É quando Fumaça vem até mim, acompanhado dessa mesma pessoa, e diz que ele é o líder do comando. Olho para ele e apenas cumprimento com a cabeça.
As coisas mudaram mesmo em quatro anos, pois o líder do comando que eu conhecia era o Morte. Sem querer realmente saber o motivo, acabo pensando no que deve ter acontecido com ele.
O novo líder se apresenta, mas nem ao menos eu consegui dizer algo. É como se eu fosse uma grande filha da puta...
Essa revelação sobre o novo líder do comando ecoa em meus pensamentos, mas as palavras ficam presas na garganta. Morte, é o meu padrinho, e pensar na possibilidade de sua morte corrói a minha alma.
Porque todos que eu amo morrem?
Indago em pensamento. Vejo Fumaça se afastando do líder do comando e vindo em minha direção. O mesmo, antes de sair do bar de seu Zé, dá mais uma olhada para mim e entra em seu carro.
Volto a me deliciar com meu milkshake, quando G3 quebra o silêncio.
- Temos que ir, pequena. Seu pai está te esperando. - Fala, tentando parecer calmo. Respiro fundo e concordo com um aceno, me levantando da mesa, deixando o copo de milkshake pela metade. Os sentimentos tumultuados se entrelaçam, enquanto sigo G3 em direção a casa de meu pai.
Chegando perto da casa, percebo como está lotado e a vontade que tenho, é de fazer o mesmo caminho que fiz para chegar aqui e ir embora.
- É sério mesmo que achou que eu ficaria feliz com a casa cheia de gente estranha? - Digo em uma gargalhada sem emoção.
Ao entrar na casa, meus olhos se encontram novamente com os do líder do comando. Antes que eu erguesse minha cabeça, Larissa e Talita correm até mim e me abraçam. Retribuo sem dizer nada.
- Meeeeu Deus! Que saudades, pequena... nos conte tudo. - Elas falavam como se eu acabasse de voltar de um intercâmbio. - Olha lá, aquele de branco. Escrito Balenciaga na blusa, é dele que a gente sempre te fala, nosso futuro marido. - Elas dizem, empolgadas.
Então, lembro-me de onde já havia visto fotos dele. As doidas das minhas irmãs ficam com o mesmo homem e ainda acham que vão casar com ele algum dia. Chega a ser hilário.
Vejo meu pai no canto, me olhando, e não consigo sentir nada ao encará-lo. Ele caminha até mim, mantendo um olhar firme.
- Não vai cumprimentar o seu pai? - Questiona.
- Achou mesmo que fazer um churrasco para a minha chegada, com pessoas desconhecidas era a melhor opção?
- Uma hora ou outra, você terá que se acostumar com eles. - Ele diz friamente.
- Engraçado, como todos vivem suas vidas, como se meu irmão não tivesse sido ninguém.
- Chega, caralho! - Ele grita, chamando a atenção de todos ao redor. - Faz quatro anos que seu irmão morreu e você ainda não superou? Nada do que você fizer vai trazê-lo de volta, porra! - O grito de meu pai ecoa na sala, silenciando momentaneamente o ambiente carregado de tensão. Seus olhos refletem uma mistura de frustração e mágoa, enquanto ele enfrenta a minha resistência em aceitar a realidade. - Chega, Maitê. - Ele repete, desta vez num tom mais contido. - Você precisa seguir em frente, se agarre às lembranças boas que temos do seu irmão.
Meus olhos, secos e imperturbáveis, encontram os dele. Uma troca de olhares que carrega anos de desentendimentos não resolvidos. Em meio à multidão, as palavras não ditas entre nós parecem pesar mais do que qualquer choro ou desabafo.
Um silêncio pesado paira no ar, enquanto meu pai e eu encaramos um ao outro. As palavras não ditas parecem criar uma barreira entre nós, e eu me vejo incapaz de quebrar esse muro de ressentimento.
- Você precisa seguir em frente, Maitê. A vida continua, mesmo que a gente não queira. - Ele suspira, tentando transmitir uma compreensão que parece distante.
Sem uma palavra, viro-me e me afasto dos olhares que me cercam, buscando um lugar para me esconder dos olhos intrigantes das pessoas ao nosso redor. Me pergunto como é possível seguir em frente, quando o passado ainda se agarra a mim como sombras indeléveis.