Era um dia quente e úmido, o tipo de clima que te faz repensar cada decisão que tomou antes de sair de casa. Danna e eu acabávamos de sair do exame final do semestre, ambas exaustas. Ela, como sempre, impecável e cheia de energia apesar do cansaço. Eu, por outro lado, sentia que meu cabelo e minhas roupas carregavam todo o peso do dia. Nunca me importei muito com minha aparência; minha prioridade era sobreviver ao dia a dia com as poucas moedas que conseguia esticar.
Danna, com sua bolsa de grife e otimismo inabalável, sorriu para mim do banco do copiloto.
Eu juro que passei! Mas o assunto das dinastias egípcias quase me matou.
Se você passou, eu mal consegui passar raspando. -Suspirei, tentando ignorar como o suor começava a colar minha camiseta no corpo.
Em casa, enquanto eu mal havia aberto um livro para me distrair, ela corria de um lado para o outro. Tinha um compromisso importante: entrevistar Carlos Torres, conhecido como "o Chino", o arqueólogo mais rico e famoso do mundo. Eu já tinha lido tanto sobre ele que parecia quase um mito: um homem que revolucionou a arqueologia com descobertas que qualquer outra pessoa consideraria impossíveis.
No entanto, o destino tem um senso de humor bastante cruel. Danna acordou com febre e sem forças nem para se levantar da cama. Ela me olhou com olhos desesperados enquanto segurava um questionário cuidadosamente preparado.
Você tem que ir, Aletxa. Por favor.
A ideia me aterrorizou.
Você está louca? Eu não sei nada sobre entrevistas, e muito menos com alguém como ele.
Só siga o questionário. -Ela tossiu e me lançou as chaves do seu carro. Um conversível vermelho brilhante. Algo que eu jamais imaginei dirigir.
Duas horas depois, nervosa como nunca, cheguei à cidade e encontrei o museu. Era um prédio imponente, uma mistura perfeita de arquitetura moderna e detalhes clássicos, como se o tempo não tivesse poder sobre ele. O interior era igualmente impressionante: pisos de mármore, vitrines iluminadas que protegiam tesouros históricos e um ar tão sofisticado que eu senti que cada passo meu estava fora de lugar.
A secretária me recebeu com um sorriso frio e profissional.
Senhorita Velázquez, não é? Por aqui. O senhor Torres está esperando.
Tentei não tropeçar nos meus próprios pés enquanto ela me conduzia até uma porta de madeira esculpida, tão grande e majestosa que parecia a entrada para um reino. Respirei fundo enquanto ela a abria.
Pode entrar.
A primeira coisa que vi foi sua figura. Ele estava de pé perto de uma grande janela com vista para o centro da cidade, a luz do pôr do sol delineando sua silhueta. Era um homem alto, de ombros largos, daqueles que te fazem pensar que os deuses estavam de bom humor ao moldá-lo. Ele usava um terno preto perfeitamente ajustado, com uma camisa branca que contrastava com sua pele bronzeada.
Quando ele se virou para me olhar, quase perdi o fôlego. Seu rosto era como uma obra de arte: mandíbula forte, lábios que pareciam esculpidos com precisão e olhos escuros e profundos que pareciam estudar cada canto da minha alma. Seu cabelo, negro e levemente bagunçado, caía de uma maneira perfeita, como se não se importasse com sua aparência, mas ao mesmo tempo estivesse impecável.
Senhorita Velázquez, presumo. -Sua voz era grave, envolvente, e me fez esquecer onde estava por um segundo. Estendeu a mão para mim.
Mas eu ainda estava na porta, imóvel, como se meus pés tivessem criado raízes. Nunca me senti tão deslocada, tão insignificante. Lá estava eu, com minhas calças jeans surradas e uma camiseta que mal disfarçava o calor da viagem, diante de um homem que parecia ter saído diretamente de um filme de ação.
Está tudo bem? -perguntou com uma sobrancelha levantada, e esse simples gesto me fez engolir em seco e dar um passo à frente, desajeitada.
Sim, desculpa... é só que... -Tentei me justificar enquanto lhe apertava a mão, notando que a dele estava quente e firme.
Acho que não esperava algo assim. -Ele sorriu de lado, mostrando dentes perfeitos que não ajudaram a me acalmar.
Não... quer dizer, sim... bem, não. -Senti que estava me afogando com minhas próprias palavras.
O sorriso dele se alargou, e de repente não soube se ele estava se divertindo ou simplesmente aproveitando minha vergonha.
Sente-se, por favor.
O escritório era tão impressionante quanto o resto do museu, com móveis de madeira escura, estantes cheias de livros antigos e artefatos que pareciam contar histórias de civilizações esquecidas. Mas o que mais me incomodava era ele: como cada movimento seu parecia calculado e elegante, como se o mundo inteiro girasse no ritmo dele.
Tentei me concentrar no questionário que Danna havia preparado, mas seus olhos não paravam de me observar, como se estivesse decifrando quem eu realmente era.
Então, senhorita Velázquez... como acabou aqui em vez de sua amiga?
E como eu explicaria que estava ali porque minha amiga rica e brilhante estava doente, e eu era apenas um substituto improvisado? Felizmente, ele parecia ter toda a paciência do mundo para ouvir minha explicação desajeitada.
Sentei na cadeira em frente à sua mesa, mas minhas mãos tremiam tanto que precisei pressioná-las contra minhas coxas para mantê-las firmes. Respirei profundamente, tentando me acalmar, mas seu olhar me atravessava como um raio. Carlos Torres não era apenas imponente fisicamente; havia algo na presença dele que parecia preencher cada canto do espaço, como se o próprio ar se curvasse diante dele.
Ele notou meu nervosismo, é claro.
Está bem, senhorita Velázquez? -perguntou com um tom que misturava curiosidade e paciência.
Assenti rapidamente, embora o tremor das minhas mãos tenha me traído. Para minha surpresa, ele se levantou da cadeira e deu a volta na mesa, sentando-se em uma cadeira à minha frente, a menos de um metro de distância. Essa proximidade fez minha respiração acelerar ainda mais.
Relaxe. Eu não mordo... pelo menos não sem permissão. -Ele sorriu levemente, e senti meu rosto ficar vermelho de vergonha.
Eu queria desaparecer naquele momento, mas sabia que precisava manter a compostura. Peguei a gravadora e o telefone, colocando ambos sobre a mesa.
Desculpe, estou um pouco nervosa. Nunca faço isso.
Então, por que está aqui?
Fiquei em silêncio por um momento. Não queria parecer pouco profissional, mas também não podia mentir para ele.
Minha amiga Danna estava muito doente para vir. Ela é a jornalista, não eu. Só estou aqui para ajudá-la.
Ele assentiu, como se minha resposta fosse suficiente.
Tudo bem. Vamos fazer simples. Comece quando estiver pronta.
Peguei o questionário com as mãos trêmulas e tentei focar nas palavras. A primeira pergunta era uma introdução típica sobre sua trajetória na arqueologia. Ele respondeu com precisão, embora seu tom deixasse claro que esse tipo de entrevista não o empolgava muito. As próximas perguntas eram semelhantes: conquistas, descobertas importantes, sua motivação para seguir essa profissão. Ele respondia sem entusiasmo, como se já tivesse feito aquilo um milhão de vezes.
Cada resposta dele me fazia me sentir menor, como se estivesse na presença de alguém de outro mundo, completamente fora do meu alcance. Mas continuei, tentando não tropeçar com minhas próprias palavras.
Tudo estava indo relativamente bem até que cheguei à pergunta número dez. Li em voz alta antes de perceber o que estava dizendo.
Tem namorada, esposa... ou simplesmente não se interessa por essas coisas?
O silêncio que seguiu foi ensurdecedor. Meu coração batia tão forte que pensei que ele pudesse ouvi-lo. Senti meu rosto ficar vermelho de vergonha e levantei o olhar apenas para me deparar com seus olhos escuros fixos em mim, avaliando-me.
Desculpe... essa pergunta não é minha. -Levantei rapidamente as mãos, como se tentasse me defender. Apontei para o questionário. - Minha amiga pode ser um pouco intrometida.
Ele inclinou a cabeça, um sorriso ligeiro apareceu nos lábios.
Intrometida? Eu diria que mais... curiosa.
Eu não sabia como responder, então desviei o olhar, fingindo revisar a próxima pergunta. Mas ele não havia terminado.
Então, você se interessa pela resposta?
Minha cabeça se virou rapidamente para ele.
O quê? Não... bem, não é que eu não me interesse... é só que... -As palavras se amontoaram na minha garganta, e o sorriso dele se alargou ao me ver gaguejando como uma idiota.
Não tenho esposa nem namorada. -Seu tom foi casual, mas o jeito que seus olhos se fixaram nos meus fez meu coração dar um salto. - O trabalho ocupa muito tempo, e os relacionamentos exigem algo que eu não posso oferecer.
Assenti rapidamente, sem ousar olhar diretamente para ele. Tentei mudar de assunto, focando na próxima pergunta, mas não conseguia tirar a resposta dele da minha cabeça. Como alguém como ele poderia não ter alguém em sua vida? Ou será que ele preferia não se prender a ninguém?
Tentei continuar com as perguntas, mas toda vez que levantava os olhos para ver sua expressão, sentia que meu nervosismo voltava com mais força. Ele parecia se divertir com o meu desconforto, como se fosse um jogo para ele.
Está pulando uma. - Sua voz interrompeu meus pensamentos.
O quê?
A pergunta onze. Você não leu.
Olhei o questionário e percebi que estava tentando evitar outra pergunta pessoal.
Oh... sim. - Respirei fundo. - O que você busca em um parceiro?
Ele riu, um som baixo e caloroso que fez meu estômago se contorcer.
Definitivamente, isso foi sua amiga que escreveu.
Sim... definitivamente. - Minhas bochechas queimavam, e eu queria desaparecer naquele momento.
Quer a resposta?
Não sabia o que dizer. Era um sim? Era um não?
Finalmente, me limitei a assentar, incapaz de encontrar as palavras. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, e seus olhos encontraram os meus novamente.
Procuro alguém autêntico, que não se impressione pelo que eu tenho, mas por quem eu sou.
Sua resposta me surpreendeu. Eu esperava algo superficial ou genérico, mas, em vez disso, suas palavras ressoaram no meu peito. Durante alguns segundos, esqueci completamente onde estava ou por quê. Só conseguia pensar em como aquele homem que parecia ter tudo também procurava algo tão simples e humano.
Eu estava revisando a última pergunta do questionário quando ele quebrou o silêncio de uma forma que me pegou completamente desprevenida.
Antes de continuarmos... quero lhe perguntar algo.
Levantei os olhos das folhas, um pouco confusa. O tom dele estava mais relaxado, quase casual, mas seus olhos ainda eram intensos, como se cada palavra que ele dissesse tivesse um peso que eu ainda não entendia.
Você tem namorado?
Senti como se tivessem jogado um balde de água fria em mim. Minha mente começou a girar em todas as direções, tentando encontrar uma explicação lógica de por que um homem como ele gostaria de saber algo tão pessoal. Não havia nada no questionário que sugerisse que ele deveria me fazer perguntas.
O quê? - minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia, e eu precisei limpar a garganta para recuperar a compostura. - Não... não tenho namorado.
Não sei por que falei tão rápido, como se fosse algo importante para ele saber. Talvez porque estivesse nervosa ou porque o olhar dele fixo não me dava trégua.
Interessante. - Um sorriso sutil apareceu nos lábios dele, o suficiente para eu não conseguir adivinhar se ele estava falando sério ou apenas brincando comigo.
Por que pergunta? - ousei perguntar, embora imediatamente me arrependesse da ousadia.
Curiosidade. - Ele deu de ombros com uma naturalidade que me deixou sem palavras.
O silêncio se estendeu por um segundo desconfortável, mas antes que eu pudesse fugir para o próximo ponto do questionário, ele me parou com outra pergunta.
E agora, me diga... quem é Aletxa Velázquez?
Fiquei olhando para ele, piscando como se não tivesse entendido as palavras.
Desculpe?
Quero saber sobre você. Não o que veio perguntar de parte da sua amiga, mas sobre você.
Eu... não acho que isso seja relevante.
Para mim, é.
Havia algo na maneira como ele disse isso, uma firmeza tranquila que me desarmou. Não estava acostumada a que alguém demonstrasse interesse na minha vida, especialmente alguém como ele. Olhei para baixo, tentando encontrar as palavras certas.
Não há muito o que dizer.
Deixe-me julgar isso.
Suspirei e me armei de coragem. Se ele queria saber, não fazia sentido mentir.
Bem, sou estudante de arqueologia. Estou no último ano do curso. Amo o que estudo, embora não seja fácil. Tenho que trabalhar para pagar os meus estudos, então passo metade do meu tempo entre as aulas e empregos temporários. Nada emocionante.
E que tipo de empregos?
O que eu encontrar. - Dei de ombros. - De garçonete a assistente em uma loja de antiguidades. Não sou exigente, desde que me ajude a me manter.
E por que arqueologia?
O interesse genuíno dele me desconcertava. Não era só uma pergunta de educação; parecia realmente curioso.
Sempre me fascinou o passado. Saber que houve pessoas antes de nós que deixaram suas marcas, coisas que nunca entendemos totalmente... me parece incrível. Além disso, acho que é uma maneira de dar voz a quem não pode mais falar.
Percebi que havia falado com mais paixão do que pretendia. Olhei para baixo, envergonhada, mas quando olhei de relance para ele, vi algo diferente na expressão dele. Ele não parecia mais apenas um homem poderoso acostumado a ter o mundo ao seu redor; por um momento, ele parecia admirar-me.
Isso é nobre. - Sua voz estava mais suave agora, como se estivesse processando minhas palavras.
Suponho. Mas não é tão impressionante quanto o que o senhor conseguiu.
Ele balançou a cabeça.
O que eu consegui é só o resultado de ter recursos. Mas você... trabalha, estuda, e ainda encontra tempo para sonhar. Isso sim é impressionante.
O rubor voltou às minhas bochechas, mas dessa vez não era de nervosismo. As palavras dele tinham um peso que eu não esperava, como se ele realmente valorizasse o que eu fazia.
Obrigada... eu acho.
Me diga, Aletxa, alguma vez você já esteve em uma expedição?
Balancei a cabeça rapidamente.
Não. Mal consigo pagar os estágios no laboratório da universidade, muito menos viajar.
Ele se reclinou na cadeira, cruzou os braços e me observou atentamente. Havia algo no olhar dele que parecia calcular, como se estivesse traçando um plano.
Isso tem que mudar.
Desculpe?
O fato de você nunca ter estado em uma expedição. É um desperdício de talento.
Não sabia o que responder. Era um elogio? Uma sugestão? Antes que eu pudesse perguntar, ele voltou a sorrir, dessa vez com um toque de mistério.
Bem, acho que isso é o suficiente por hoje.
Isso significa que terminamos a entrevista?
Por agora, sim.
Levantei-me desajeitada da cadeira, me sentindo como se estivesse acordando de um sonho estranho e intenso demais. Enquanto recolhia minhas coisas, ele permaneceu sentado, me observando com aquela expressão que eu não conseguia decifrar.
Foi um prazer conhecê-la, senhorita Velázquez. Espero que seja a primeira de muitas vezes.
Suas palavras me seguiram mesmo depois que saí da sala dele, com o coração batendo tão forte que temi que os outros pudessem ouvi-lo. Havia algo em Carlos Torres, algo além da sua fama e fortuna, que me fazia sentir que este não seria nosso último encontro. E, embora eu não soubesse o que isso significava, uma parte de mim não podia evitar esperar que ele tivesse razão.
Saí da sua sala com os pés trêmulos, aquele homem causava algo em mim, como se minha alma, meu corpo o reconhecessem. Estava prestes a entrar no elevador quando alguém me empurrou, me prensando contra o vidro do elevador.
- O que está acontecendo? - perguntei, procurando o agressor. Fiquei surpresa, era ele, Carlos Torres.
- Nunca faço isso, mas a verdade é que não consigo me conter mais - disse, enquanto suas mãos tomavam meu rosto.
Sua boca se colou à minha, no começo não sabia o que fazer, mas depois algo foi mais forte do que minha vontade de resistir.
O elevador parou com um leve puxão, e durante alguns segundos, a realidade ficou suspensa naquele pequeno espaço metálico. Meus lábios ainda queimavam, o sabor dele ainda estava ali, na minha boca, como um lembrete do que acabara de acontecer. Carlos permanecia na minha frente, sua respiração errática, sua testa encostada na minha. Por um momento, pensei que ele fosse falar, mas tudo o que fez foi fechar os olhos e apertar a mandíbula.
- Isso é um erro - murmurou, sua voz rouca, quase um sussurro.
Meus olhos buscaram os dele, mas ele não os abriu. Parecia perdido, como se estivesse lutando contra algo que não conseguia controlar. Quis me mover, me afastar, mas não consegui. Meus pés estavam presos ao chão, meu coração batia descompassado no peito, e minha mente estava em um caos.
- Um erro? - repeti, tentando não deixar minha voz tremer. Dói, embora eu não entendesse por quê. Como algo tão rápido poderia doer tanto, algo que eu mal havia processado?
Carlos se afastou um passo, deixando um vazio que me fez estremecer. Finalmente, abriu os olhos, mas não havia vestígio da paixão de antes. Estavam cheios de culpa.
- Não devia ter te beijado, não devia ter deixado isso acontecer - continuou, evitando me olhar diretamente.
Suas palavras me atingiram como um soco. Senti o calor que havia invadido meu corpo se transformar em gelo. A confusão se misturava com uma pontada de raiva, mas, principalmente, de dor.
- Então, por que fez isso? - perguntei, incapaz de me conter. Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. Minhas mãos se fecharam em punhos ao meu lado.
Ele não respondeu imediatamente. Passou uma mão pelo cabelo, visivelmente frustrado, como se estivesse procurando as palavras certas.
- Não sei, não consigo explicar. É como se... como se eu não pudesse me controlar quando estou perto de você. Mas isso não deveria acontecer.
- Por que não? - retruquei, dando um passo em direção a ele. Meu coração ainda batia forte, e embora soubesse que estava me arriscando, não conseguia ficar em silêncio. - Não entendo, Carlos. Primeiro me beija como se... como se significasse algo, e agora diz que foi um erro. O que você quer de mim?
Ele me olhou, e nos seus olhos vi um brilho de algo que parecia tão confuso quanto o que eu sentia. Dor, desejo, medo... tudo misturado.
- Quero que você se afaste de mim, Aletza. Não volte à minha sala, não haverá mais entrevistas - disse, finalmente, sua voz firme, mas quase um sussurro.
As palavras dele foram um golpe direto no peito. Abri a boca para dizer algo, para perguntar o porquê, mas nada saiu. Como se esperava que eu reagisse?
- Se afaste? - repeti, incrédula. Dei um passo para trás, como se a distância física pudesse me proteger do impacto do que acabara de dizer. - Por quê? O que você está tentando proteger? A mim ou a você? Eu não vim aqui porque quis, vim fazer um favor.
Carlos suspirou, e por um momento, parecia mais cansado do que nunca.
- De ambos.
- Não entendo... - minha voz quebrou, e odiei o quanto soava vulnerável. Me forcei a erguer o queixo, a manter minha dignidade, embora por dentro me sentisse desmoronando. - Se me quer longe, então não me beije mais. Não olhe para mim assim, como se fosse me devorar. Não brinque comigo, Carlos.
Ele deu um passo em minha direção, e antes que eu pudesse recuar, tomou meu rosto entre as mãos. Seus dedos eram firmes, mas não me machucavam. Pelo contrário, seu toque era quente, reconfortante.
- Não estou brincando com você, Aletza - disse com uma intensidade que me deixou sem fôlego. - Você é... você é tudo o que eu não deveria querer, mas não consigo evitar. E isso me assusta.
Sua confissão me deixou paralisada. Não sabia o que dizer, o que fazer. Meu coração batia forte, como se fosse sair do peito.
- Por quê? - perguntei, minha voz mal era um sussurro. - Por que não deveria me querer?
Ele fechou os olhos e soltou um suspiro longo, como se carregasse um peso muito grande.
- Porque não sou o que você precisa, porque não posso te dar o que você merece. E porque... porque há coisas em mim que você não conhece, coisas que fariam você se arrepender de ter cruzado essa linha comigo.
As palavras dele me desconcertaram ainda mais. Quis perguntar o que isso significava, mas antes que eu pudesse, o som de uma campainha nos interrompeu. O elevador, ainda parado, começou a se mover novamente.
Carlos afastou as mãos do meu rosto como se queimassem e deu um passo atrás. O ar entre nós ficou tenso, quase insuportável.
- É melhor assim - disse, seu tom frio e distante, como se não tivesse me beijado com toda a intensidade que jamais experimentei.
Quando as portas do elevador se abriram, ele saiu sem me olhar, me deixando ali, sozinha, com um turbilhão de emoções que eu não sabia como lidar.
Fiquei parada por alguns segundos, incapaz de me mover, incapaz de processar tudo o que acabara de acontecer. O elevador se fechou e parou em outro andar, mas já não me importava.
O único fato que eu sabia com certeza era que Carlos estava fugindo, não só de mim, mas de algo que nem eu entendia. E embora cada fibra do meu ser quisesse segui-lo, quisesse entendê-lo, também sabia que havia algo sombrio dentro dele, algo que provavelmente me machucaria se eu me aproximasse demais, queria conhecê-lo mais.
Será que eu estava louca?
No entanto, o que mais me aterrorizava era que, apesar de tudo, queria correr esse risco, mesmo sem conhecê-lo, porque ele era um desconhecido para mim.