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Em plena Luz

Em plena Luz

Autor:: sxtzambrana
Gênero: Romance
Alma Serrano é uma mulher que tem tudo: é a CEO da Seré, uma das casas de moda mais influentes da América Latina. Visionária, elegante e ferozmente independente, ela construiu seu império do zero. No mundo dos negócios, ninguém ousa subestimá-la. Em casa, compartilha a vida com Tomás, seu marido, um homem caloroso, discreto e encantador, que abriu mão da própria carreira para ser seu apoio incondicional, cuidando do lar com ternura e devoção. Mas o que Alma não sabe é que Tomás é, na verdade, Leonel Duarte, CEO nas sombras da Theia Corp, uma marca de moda emergente e agressiva que, sob sua liderança secreta, começou a roubar mercado de grandes empresas... inclusive da própria Seré. O que começou como uma estratégia corporativa - aproximar-se de Alma para espioná-la por dentro - se complicou quando ele realmente se apaixonou. Agora, preso entre seu amor genuíno por Alma e os segredos que podem destruí-la, Tomás/Leonel se vê forçado a jogar um jogo perigoso. Sua vida dupla começa a ruir quando Alma inicia uma investigação sobre a identidade do misterioso CEO da Theia Corp, sem saber que ele dorme ao seu lado todas as noites. Até quando a verdade pode ser escondida antes de se tornar insuportável? O amor pode sobreviver a uma traição construída com silêncio?

Capítulo 1 O acordo

Lía olhava para o contrato à sua frente com a mesma determinação com que havia enfrentado cada passo importante da sua vida. A luz suave do entardecer iluminava o cômodo, criando uma atmosfera acolhedora no escritório de Santiago, mas não era o brilho do sol que a mantinha focada. Era a promessa de estabilidade, de poder, de finalmente pertencer a um mundo que sempre observara de longe. Uma assinatura, pensou, e seu futuro estaria garantido.

O contrato não era uma simples formalidade. Era a porta de entrada para uma nova vida e, ao mesmo tempo, uma corrente invisível que a prenderia a uma existência que nunca havia imaginado, mas que agora não podia rejeitar. Ela havia trabalhado duro demais para chegar até ali, jogado todas as cartas para construir uma vida melhor, e agora que a oportunidade estava diante dela, não podia falhar.

A caneta descansava em sua mão como uma ferramenta de mudança. Tão simples e tão definitiva. Cada letra escrita seria uma decisão irrevogável, mas ela sabia que não podia hesitar. Se quisesse ascender à alta sociedade, se quisesse o poder, o dinheiro, a vida que tanto desejava, aquele era o preço.

Lía levantou os olhos e viu Santiago de pé à sua frente. Ele, como sempre, estava impecável, vestido com um terno escuro que realçava sua elegância. Nada em seu rosto indicava que aquela era uma decisão difícil para ele. Santiago havia feito da cautela sua bandeira, e naquele momento, seu olhar fixo nela não revelava nada. Nada que ela não pudesse interpretar como uma promessa do que ambos esperavam obter com aquele acordo.

- Tem certeza disso? - ele perguntou, com a voz baixa e tranquila, como se já soubesse a resposta. A pergunta ficou no ar, mas não havia necessidade de confirmação.

Lía não respondeu imediatamente. Seus olhos percorriam a linha da assinatura na parte inferior do contrato, aquelas palavras que pareciam pequenas, mas que representavam a base de tudo o que ela queria construir. Um contrato que não apenas lhe oferecia um lugar na elite, mas também segurança e tranquilidade em todos os aspectos da sua vida. Em troca de um compromisso que, embora formal, não precisava ser profundo nem emocional.

Era um acordo de conveniência. Ambos sabiam disso.

Santiago, com a paciência que lhe era característica, deu um passo em direção a ela. Seus movimentos eram sempre controlados, sem espaço para improviso. Observou o contrato por um momento e depois voltou a encará-la, seus olhos escuros refletindo a calma com que parecia lidar com todas as situações.

- O que fizer depois disso não é problema meu, Lía. Apenas certifique-se de que tudo siga conforme o planejado. Nós... não precisamos complicar. - disse, mantendo uma postura firme, mas ao mesmo tempo distante.

Lía sentiu-se tentada a responder, mas em vez disso, apenas assentiu lentamente, convencida de que tudo o que ele dizia era verdade. Não precisavam complicar. Haviam chegado a um acordo mútuo, e enquanto cumprissem suas partes, tudo ficaria bem. Não havia espaço para emoções naquele trato. Era apenas uma questão de desempenhar um papel, de fazer o que se esperava deles. E se conseguissem fazer isso, ambos sairiam ganhando.

- Entendo perfeitamente, Santiago. Não estou em busca de amor, nem de complicações - disse, com a voz firme. Embora sentisse uma leve pressão no peito, o medo não era suficiente para detê-la. Ela não podia recuar agora.

Santiago observou suas mãos enquanto ela pegava a caneta. Sua atitude não havia mudado, e o silêncio entre eles era confortável, quase ritualístico. Assim como ela, ele havia compreendido que sua vida seguiria de forma previsível, sem surpresas. E era isso o que ambos queriam: estabilidade, uma vida tranquila, mas sem sobressaltos.

- Então, vamos assinar o contrato. - A ordem de Santiago foi tão clara e direta quanto todas as suas palavras. Lía não hesitou. Pegou a caneta, mergulhou-a na tinta e assinou com uma caligrafia clara, sem vacilar. O som da caneta rasgando o papel foi o único indicativo de que algo importante estava acontecendo.

Quando a tinta secou, Lía voltou a olhar para Santiago. Pela primeira vez durante toda a reunião, permitiu-se um leve sorriso. Era um sorriso frio, calculado, mas também libertador. Finalmente havia conseguido o que tanto desejava: acesso a um mundo que sempre sonhara. A alta sociedade, uma vida sem preocupações, o poder que vinha com o sobrenome de um homem importante. Não precisaria mais se preocupar com o futuro, pensou.

- Bem-vinda à sua nova vida, senhora de García. - A voz de Santiago rompeu o silêncio, mas não era uma frase cheia de emoção ou romantismo. Apenas uma declaração formal. Lía assentiu, já acostumada com aquela distância, com a falta de emoção no tom dele.

- Obrigada, senhor García. - respondeu automaticamente, sem deixar que suas palavras soassem muito emocionadas. Ela estava perfeitamente ciente de que não era uma mulher que se deixava levar por sentimentos desnecessários. Restava-lhe apenas cumprir seu papel e esperar que tudo saísse como planejado.

O acordo estava feito, mas os sentimentos de ambos continuavam sendo um mistério. Lía não conseguia evitar um leve desconforto ao pensar no futuro, mas sabia que nada poderia mudá-lo. Aquele casamento seria apenas uma fachada, uma forma de entrar no círculo fechado que sempre desejara. Nenhum dos dois esperava que as coisas fossem além de um simples acordo. No fundo, ela sabia que nunca chegaria a se apaixonar por Santiago. Ele era um homem demasiado distante, demasiado calculista. E ela mesma tinha seus próprios objetivos, seus próprios medos que preferia não enfrentar.

Santiago deu um passo para trás, como se a assinatura não tivesse mudado nada em sua vida. Apenas mais um trâmite. Mais um item na longa lista de coisas que precisava fazer para garantir seu futuro. Seu olhar permanecia o mesmo, frio e distante, mas com um toque de respeito que Lía não pôde ignorar. Não era um respeito por ela como pessoa, mas pela imagem que ele sabia que ela representava. A esposa perfeita. O acessório adequado para sua vida pública.

Ambos sabiam que o que havia sido assinado não passava de uma fachada. Um contrato legal, uma promessa vazia de emoções, mas cheia de benefícios para os dois. Lía teria o que sempre sonhara: pertencer àquele mundo de luxo e elegância. Santiago, por sua vez, manteria sua imagem intacta e garantiria que não fosse visto como um homem solitário, como alguém que não conseguiu formar uma família.

Ambos sabiam o que esperavam um do outro. Nenhum esperava mais. E, no entanto, no fundo, havia algo começando a crescer. Um pequeno fio invisível que os ligava, algo que nem eles sabiam como lidar ainda.

Lía guardou a caneta com delicadeza, olhando o contrato mais uma vez. O silêncio voltou a preencher o cômodo, mas dessa vez, o peso da decisão parecia mais denso do que nunca.

Santiago quebrou o silêncio, como sempre, com calma.

- Nos vemos no baile de amanhã. - disse. Era um convite, mas também uma instrução. Como se já estivesse preparado para assumir o papel de marido, embora ainda não o sentisse de fato.

Lía assentiu, sorrindo levemente, embora sua mente estivesse a mil. Amanhã seria mais um passo. Um passo em direção ao mundo que sempre desejou. E, ainda assim, não conseguia deixar de se perguntar se o futuro que havia planejado realmente seria tão simples quanto imaginava.

- Até amanhã, Santiago. - respondeu. E, embora suas palavras fossem corteses, sua mente estava longe. Ela sabia que o acordo era apenas o começo. E, mesmo que seus corações não estivessem envolvidos, algo começava a se formar entre eles. Algo que nenhum dos dois havia previsto.

Com essa última palavra, ambos saíram da sala. A mansão de Santiago, tão grande e fria, parecia tão vazia de emoções quanto os próprios corações deles. Mas o acordo estava feito, e agora restava apenas cumpri-lo.

Capítulo 2 A lua de mel

Na manhã seguinte ao casamento, o ar fresco do oceano entrava suavemente pelas cortinas abertas do quarto do hotel. O som das ondas quebrando na areia era a única coisa que se ouvia, mas, no silêncio do luxo, a tensão entre Lía e Santiago era palpável. Apesar de o casamento ser um arranjo conveniente, o conceito de "lua de mel" lhes parecia quase ridículo. Um ato simbólico de algo que nenhum dos dois havia pedido, mas que agora eram obrigados a cumprir.

Lía despertou com o sol acariciando seu rosto, a suavidade dos lençóis de seda a envolvendo, mas algo dentro dela a fazia se sentir desconfortável. Havia sido um dia longo, cheio de formalidades e sorrisos falsos, e a ideia de estar agora em uma ilha exótica com um homem que mal conhecia a fazia se sentir mais distante do que nunca. O casamento havia sido uma assinatura, um acordo entre duas pessoas que, apesar da aparente proximidade na cerimônia, nunca haviam se permitido ver um ao outro como algo além do profissional.

Santiago, por sua vez, já estava acordado, deitado na cama com os olhos fixos no teto. Diferente de Lía, não se preocupava com formalidades. Sua vida, como sempre, era controlada, medida. Era um homem acostumado a manter a distância emocional. No entanto, algo naquela manhã o fazia pensar que, embora tudo estivesse sob controle, algo havia escapado. Um pequeno detalhe o surpreendia: a presença de Lía. Ela, mesmo que não o interessasse emocionalmente, começava a intrigá-lo.

Quanto a ela, sua primeira reação foi a mesma da noite anterior. O casamento havia sido um trâmite, algo necessário, mas naquela manhã acordou com uma sensação estranha, como se algo tivesse mudado. Talvez não tanto em relação ao que esperava dele, mas ao que ela mesma sentia. As horas passavam, mas ela ainda não sabia como lidar com a presença dele em sua vida. Estar ali, naquele lugar, com ele, a incomodava de formas que não conseguia decifrar.

Santiago quebrou o silêncio que preenchia o quarto.

- Vai ficar aí o dia todo? - perguntou no seu tom característico, suave mas direto, enquanto se erguia na cama e a observava no canto onde ela havia se acomodado, olhando para o horizonte.

Lía virou-se lentamente para ele, com um leve sorriso esboçado nos lábios. Não era um sorriso caloroso, mas um que tentava esconder o desconforto que sentia por dentro.

- Estava pensando no que vamos fazer hoje - respondeu, como se sua mente estivesse a quilômetros dali. Não conseguia evitar a sensação de desconexão, embora soubesse que a situação exigia um esforço para fazer daquela lua de mel algo que parecesse um "momento especial" aos olhos dos outros. Ninguém sabia que aquele casamento não era por amor, apenas um contrato de conveniência. Ninguém sabia o quanto os dois se sentiam desconfortáveis.

Santiago levantou-se da cama, sua presença imponente preenchendo o espaço enquanto se dirigia ao frigobar para servir-se de café. Não parecia particularmente afetado pelo ambiente; na verdade, estava tão calmo quanto sempre, como se estivesse apenas cumprindo mais uma obrigação da sua vida.

- Não precisamos fazer nada disso, certo? - perguntou, levantando uma sobrancelha enquanto oferecia a xícara de café a Lía. - O contrato já está assinado. Isso é só uma formalidade. -

Lía aceitou a xícara, mas sua mão tremeu levemente ao tocar a porcelana. O que ele dizia fazia sentido, e ainda assim, aquela simples observação a fazia se sentir ainda mais presa à situação. Não havia espaço para emoções ali, não havia espaço para esperanças românticas. Mas dentro dela, algo se agitava.

- Só quero que tudo pareça certo - disse ela, com um tom mais baixo do que pretendia. Às vezes, uma parte de si desejava poder tirar aquela máscara de perfeição que tanto se esforçara para construir. Mas não podia. Havia chegado longe demais, e essa era a etapa final da sua ascensão ao que sempre quis.

O silêncio se instalou novamente entre eles. Lía observava o mar pelas janelas, um oceano lindo e vasto que lhe parecia tão distante, tão inalcançável, como a vida que havia deixado para trás. Aquela era sua nova realidade, e a ideia de estar numa ilha exótica com seu marido só reforçava a desconexão que sentia. Embora Santiago fosse atraente, sua presença a fazia se sentir como se estivesse presa entre a obrigação e a indiferença.

Santiago, no entanto, começava a perceber algo. Algo que não notara na noite anterior, talvez por conta das emoções do dia ou do álcool. Mas agora, enquanto a observava, havia algo diferente em Lía, algo que não conseguia identificar completamente. Havia algo em sua postura, em seu olhar, que ia além do superficial. Ela não era apenas a mulher perfeita, a esposa ideal, que ele havia contratado. Havia algo mais profundo, algo que despertava sua curiosidade.

Quando ela se virou para encará-lo, ele percebeu o que a tornava intrigante: ela não se deixava levar pelo que os outros esperavam dela. Havia uma vulnerabilidade em seu olhar, mas não na forma como se mostrava para ele, e sim nos pequenos gestos, nas formas sutis com que deixava transparecer seus pensamentos, embora com muito cuidado.

- O que vai fazer hoje? - perguntou Santiago, tentando quebrar o gelo de alguma forma. Seu tom foi mais suave do que havia sido até então, uma tentativa de aproximação, ainda que sem perder o controle habitual.

Lía deu de ombros, sem querer demonstrar muito interesse. Não queria dar a impressão de que aquela lua de mel significava algo para ela, embora soubesse, no fundo, que aquele momento era mais complicado do que imaginava.

- Talvez eu caminhe pela praia - respondeu, evitando olhá-lo diretamente.

Santiago assentiu, pensativo. Às vezes, a beleza de Lía não estava em seu físico, mas na maneira como mantinha distância, como controlava as emoções. Havia algo de atraente naquela barreira que ela havia construído, algo que ele mesmo aprendera a dominar. Mas, à medida que as horas passavam, algo começava a incomodá-lo. Era o fato de que ele não conseguia decifrá-la. Não sabia o que ela pensava, o que sentia. E isso o intrigava mais do que qualquer outra coisa.

- Sabia que isso não precisa ser tão... formal? - disse Santiago depois de um momento, observando a silhueta de Lía enquanto ela se aproximava da janela.

Lía o olhou de relance, surpresa com a suavidade no tom dele. Não estava acostumada com esse tipo de comentário. Claro, conhecia Santiago como um homem calculista, alguém que não se deixava levar pelas emoções. Mas, por alguma razão, naquele momento, aquela suavidade a desarmou um pouco.

- O que quer dizer com isso? - perguntou, com a voz levemente tensa.

Santiago sorriu, mas era um sorriso pensativo. Não tinha certeza do que queria dizer. Talvez fosse apenas uma maneira de preencher o silêncio desconfortável entre eles, ou talvez fosse algo mais. A verdade era que algo em Lía o perturbava, e por mais que tentasse manter distância, havia uma centelha de curiosidade dentro dele.

- Me pergunto se algum dia conseguirei te entender - murmurou, quase para si mesmo, embora tenha dito de forma que Lía ouvisse claramente.

Ela se virou para ele, sem saber o que responder, mas com uma leve franqueza no olhar. Algo estava mudando, embora nenhum dos dois reconhecesse ainda. Havia algo naquele silêncio tenso, naqueles pequenos momentos de troca, que lhes dizia que, talvez, o acordo que haviam assinado não os deixaria tão indiferentes quanto pensavam.

O resto do dia passou com uma lentidão incômoda. Embora tenham ido até a praia, as interações entre eles foram breves e forçadas. Lía caminhava pela areia, sentindo a brisa suave acariciar seu rosto, mas sem conseguir parar de pensar no que estava acontecendo entre ela e Santiago. Algo estava se movendo, algo que nem ela nem ele sabiam como lidar.

À medida que o sol começava a se pôr, iluminando o céu com tons de laranja e rosa, Lía parou, olhando para o horizonte. Estava presa em um mar de incertezas. Aquilo não era o começo de uma lua de mel, e sim o início de algo muito mais complexo. E embora o acordo ainda fosse a única coisa clara, algo no ar, algo na maneira como Santiago a observava, começava a mudar.

Seria possível que esse acordo de conveniência se transformasse em algo mais? A ideia lhe parecia absurda, mas uma pequena parte de si não podia deixar de se perguntar. E enquanto o sol desaparecia no horizonte, uma nova tensão se instalava entre eles.

Capítulo 3 Os primeiros dias na casa

Os primeiros dias na mansão foram um turbilhão de emoções contraditórias para Lía. Aquela casa, que antes ela só via em fotos, agora era sua nova realidade. As paredes de mármore, os corredores amplos, o ar limpo que preenchia a casa - tudo nela falava de riqueza, poder e de uma vida que ela havia sonhado por anos. Mas, no fundo, a sensação que tinha ao acordar todas as manhãs não era de satisfação, e sim de um desconforto inquietante.

A mansão, com todos os seus luxos, não podia substituir o que ela realmente desejava: a liberdade de ser quem era, sem a constante pressão de interpretar um papel.

Na manhã em que sua nova vida começou, Lía se levantou cedo, como fazia todos os dias. Santiago já havia saído para cumprir seus compromissos de trabalho, mas sua presença na casa era inegável. Desde o escritório até os corredores decorados com fotos de família, tudo parecia falar dele, de sua história. Lía caminhou pelos corredores, admirando a decoração requintada da mansão, mas algo dentro dela permanecia vazio. Sentia que estava andando pela casa de outra pessoa, por um mundo que não lhe pertencia por completo.

Naquele primeiro dia na mansão, os funcionários já estavam cientes de sua chegada, e assim que ela cruzou a porta de entrada, foi recebida com sorrisos gentis e cumprimentos corteses. Não estava acostumada com tanto cuidado e atenção, mas aceitou com a mesma graça que lhe haviam ensinado desde pequena. A esposa perfeita precisava saber se comportar em todas as situações, e era isso que ela faria.

A casa era construída com uma majestade de tirar o fôlego. Ela passou a manhã explorando cada canto, enquanto sua mente tentava assimilar o que significava fazer parte daquela vida. Era surreal. A mansão, com seus jardins impecavelmente cuidados e sua arquitetura que evocava tempos passados de glória, parecia feita para alguém como ela. Mas, no fim, o que mais a perturbava não era a opulência, e sim a constante sensação de estar sendo observada, avaliada, medida a cada passo que dava. Era difícil acreditar que tudo aquilo era resultado de um acordo, e não de um destino.

O almoço foi a primeira ocasião em que encontrou novamente Santiago. Ele havia voltado ao meio-dia, e a refeição estava preparada com a mesma perfeição que marcava toda a mansão. Lía, a princípio, pensava que ele estaria ocupado demais para lhe dar atenção, mas logo percebeu que Santiago tinha uma presença tão imponente que parecia preencher cada espaço da casa. Embora seu trato com ela fosse cortês, havia algo em sua atitude que deixava claro que não havia interesse real em conhecê-la. Para ele, aquilo ainda era um negócio, algo que precisava ser cumprido para atender a uma necessidade.

- Como você está se sentindo? - ele perguntou, ao se sentar à mesa. Sua voz, embora suave, carregava uma nota de autoridade, como se sua posição na vida fosse tão sólida quanto o mobiliário ao seu redor.

Lía levantou os olhos do prato, surpresa com a pergunta. Estava acostumada a ser ignorada ou a ouvir perguntas superficiais, mas dessa vez foi diferente. Ainda assim, não havia calor em suas palavras, nem curiosidade genuína.

- Bem, eu acho - respondeu ela, escolhendo as palavras com cautela. Estava em uma mansão que teoricamente era sua, mas sua resposta era vazia, pois a sensação de estar perdida naquele espaço ainda persistia.

Santiago assentiu, aparentemente satisfeito com a resposta, e continuou comendo. Não houve mais palavras entre eles, apenas o som dos talheres e o sussurro suave dos funcionários que circulavam pela casa. Lía sabia que aquele silêncio se repetiria inúmeras vezes, que aquele casamento não traria conversas profundas nem momentos de cumplicidade. Ambos haviam assinado um contrato de conveniência, e era isso que estavam cumprindo - embora a tensão subjacente fosse impossível de ignorar.

À medida que os dias passavam, a rotina de Lía na mansão tornava-se mais definida. As manhãs eram dedicadas aos eventos sociais para os quais Santiago a convidava, a maioria dos quais pouco lhe interessava. Recepções, jantares, coquetéis - tudo parecia uma repetição constante do mesmo: pessoas ricas falando de negócios, política, viagens exóticas. Lía, embora se sentisse um pouco deslocada naquele mundo, sorria e mantinha uma postura perfeita, como lhe ensinaram desde a infância.

Mas todas as noites, ao retornar à mansão, a realidade se tornava mais difícil de ignorar. Os momentos de solidão em seu quarto enorme pareciam uma sentença. Ela se olhava no espelho e via a mulher perfeita, a esposa ideal, mas algo dentro de si começava a se quebrar. Não era a vida com a qual havia sonhado. Aquilo não era a liberdade que sempre desejou. A pressão de ser a esposa perfeita para um homem que mal conhecia a estava sufocando pouco a pouco. Às vezes, acordava no meio da noite com a mente cheia de perguntas sem resposta, sem saber se o caminho que escolhera era o certo ou se estava se perdendo em uma vida que nunca foi realmente sua.

Santiago, por sua vez, mantinha-se em seu papel: atento aos detalhes, porém distante. Embora estivesse mais presente em sua rotina do que havia estado na lua de mel, não demonstrava intenção de se abrir emocionalmente. Os dias passavam e ele seguia ocupado com o trabalho, com as exigências da sua posição. Cada vez que cruzava com Lía, o fazia com uma frieza calculada, ciente do que se esperava dele. Como sempre, Santiago permanecia no controle - mas algo começava a incomodá-lo: o fato de que, apesar de sua indiferença, não conseguia deixar de notar certos detalhes nela que o intrigavam.

Era uma mulher que, embora cuidadosamente moldada para ser a esposa perfeita, deixava escapar momentos de vulnerabilidade quando menos esperava. Cada vez que via seu olhar perdido ou o modo como ela se isolava em seu próprio mundo, sentia uma curiosidade insaciável. O que se escondia por trás daquela fachada perfeita? O que ela realmente pensava?

Numa tarde, depois de um longo dia de reuniões e compromissos sociais, Santiago voltou à mansão mais cedo do que o habitual. Não tinha planos de ir a nenhuma gala naquela noite, então decidiu descansar um pouco. Ao entrar na sala, viu Lía sentada em frente à lareira, com os olhos fixos no fogo, mas com uma expressão distante. Ela não parecia tão perfeita, tão impecável como de costume. Havia algo nela, algo que ele não conseguia ignorar. De longe, a viu suspirar e virar levemente a cabeça em direção à janela, como se desejasse fugir, embora não soubesse para onde.

Santiago se aproximou, em silêncio, até ficar de pé diante dela. A situação estava carregada de uma tensão estranha. Ele queria perguntar o que se passava em sua mente, o que ela sentia de verdade, mas conteve-se. A esposa perfeita não devia mostrar inseguranças, nem mesmo na intimidade de sua própria casa.

- Está tudo bem? - foi tudo o que conseguiu dizer.

Lía o olhou, surpresa com a pergunta. Por um momento, pensou que talvez Santiago tivesse notado algo nela, mas logo percebeu que seu interesse não era genuíno. Era apenas mais uma formalidade.

- Está tudo bem - respondeu ela, com um sorriso que não alcançava os olhos. Um sorriso que não enganava nem a ele, nem a si mesma.

Santiago não insistiu. Foi uma tentativa - uma que, ao que parecia, não conseguiu ultrapassar a barreira que ambos haviam construído entre si. Em sua mente, havia apenas uma constante: a mulher perfeita, aquela que esperavam que ela fosse, e a mulher real, que começava a emergir sob a superfície - com suas dúvidas, seus medos, seu cansaço.

Lía, por sua vez, sentiu o peso da própria resposta. Talvez estivesse bem naquele momento, mas algo dentro dela começava a ceder. Estava presa entre o que devia ser e o que realmente desejava. E não sabia por quanto tempo mais conseguiria sustentar aquela fachada.

A pressão de ser a esposa perfeita não fazia senão crescer.

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