Meu jantar de aniversário não terminou com um beijo, mas com meu marido, Caio, me traindo com minha prima, Bruna.
Ele me expulsou da nossa casa, aquela que meu pai nos ajudou a comprar, e me baniu para a casa de hóspedes. Mas quando cheguei, Bruna já estava lá, vestindo meu robe de seda favorito, sorrindo com desdém ao me dizer que eu ficaria no apartamento úmido do porão.
Lá no porão frio e mofado, encontrei o que meu pai me deixou: a prova de que Caio não apenas se casou comigo. Ele orquestrou a aquisição hostil que destruiu a empresa do meu pai, o levou à morte e depois se casou comigo para roubar tudo o que restava, incluindo o trabalho da minha vida, um projeto chamado "Aura".
Ele me internou em uma clínica psiquiátrica, dizendo a todos que eu estava instável. Ele pensou que tinha me enterrado, mas meu amigo de infância, Eric, me ajudou a forjar minha morte em um acidente de carro encenado.
Agora, anos depois, eu voltei.
Sob um novo nome, Íris, criei uma nova obra-prima que está agitando o mundo da tecnologia e está prestes a colocar o império de Caio de joelhos.
Ele pensa que Helena Ferraz está morta. Ele não tem ideia de que ela está prestes a destruí-lo.
Capítulo 1
Meu jantar de aniversário com Caio terminou, não com um beijo, mas com a descoberta de seu caso com Bruna, minha prima de rosto inocente. O cheiro de champanhe e rosas ainda pairava no ar, chocando-se com o gosto amargo em minha boca. Os convidados estavam saindo aos poucos, seus "boa noite" educados soando vazios, como ecos em um salão deserto.
Eu estava parada junto à grande janela em arco, observando os carros de luxo desaparecerem pela alameda arborizada. Cada lanterna traseira era uma memória desvanecida de uma vida que eu pensei ter, uma vida que nunca foi real. Minha espinha parecia rígida, gelada. Outras mulheres poderiam ter chorado, até gritado. Eu apenas me sentia... quieta. Uma quietude se instalou profundamente dentro de mim, uma calma perigosa.
Uma mão tocou meu braço. Era a Sra. Albuquerque, uma amiga da família por parte de Caio. Seus olhos estavam cheios de pena, ou o que ela pensava ser pena.
"Helena, querida, você está bem?", ela perguntou, sua voz um sussurro suave.
Virei a cabeça apenas o suficiente para que ela visse meus olhos. Não disse uma palavra. Meu olhar era uma muralha. Ela retirou a mão, seu sorriso vacilando, e rapidamente se desculpou. Ótimo. Eu precisava de espaço. Precisava desse ar claro e frio ao meu redor.
Caminhei até meu escritório, o único cômodo que Caio raramente entrava. Meus dedos, firmes como os de um cirurgião, pegaram meu celular. Rolei pela minha lista de contatos.
"Dr. Dantas", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas firme. "É Helena Ferraz. Preciso iniciar o processo de divórcio. Imediatamente."
Houve uma pausa do outro lado da linha, uma inspiração súbita. "Sra. Alencar? Tem certeza? Isso é bastante repentino. Está tudo bem?" Dr. Dantas, o advogado da minha família, soava genuinamente surpreso.
"Tenho absoluta certeza", afirmei, cada palavra uma pedra caindo em um poço profundo. "Não há nada 'bem' nisso. Apenas faça."
Ele hesitou. "Muito bem. Vou começar a papelada amanhã de manhã. Há algo específico que você gostaria de incluir sobre a divisão de bens?"
"Apenas comece o processo", respondi, minha voz desprovida de emoção. "Fornecerei os detalhes mais tarde. Por enquanto, a velocidade é essencial."
Uma vibração súbita na minha mão me fez estremecer. Uma notificação. Era de Bruna. Meu estômago se contraiu, um nó frio de pavor e fúria.
A mensagem continha uma foto. Era uma selfie. Bruna, com os olhos arregalados e artificialmente inocentes, deitada contra um travesseiro. O travesseiro de Caio. E em volta do pescoço dela, brilhando fracamente, estava o pingente de safira que Caio me deu no nosso quinto aniversário. Aquele que ele disse ter personalizado só para mim.
Abaixo da foto, uma frase, casual, cruel: "Ele disse que ficou melhor em mim, Lena. E sinceramente? Ele tem razão. Você sempre foi muito... séria para coisas bonitas. Algumas pessoas simplesmente sabem como viver de verdade, sabe?"
Minha visão embaçou. Uma onda quente de náusea me invadiu, subindo pela minha garganta. Minha cabeça latejava, uma batida implacável contra minhas têmporas. O quarto girou. Agarrei a borda da minha mesa, a bile subindo. Bruna. Minha doce e ingênua prima.
O telefone vibrou novamente, uma chamada desta vez. Caio. Seu nome piscou na tela, um vermelho atormentador. Respirei fundo, de forma irregular, e atendi.
"Que diabos foi aquilo, Helena?" Sua voz era fria, afiada, tingida de uma fúria mal controlada. "Você estragou a noite inteira! O que foi aquele olhar mortal para a Bruna? Você me envergonhou na frente de todo mundo."
Minha mão tremia, mas mantive minha voz estável. "Suponho que eu não estava me sentindo muito festiva, Caio. Considerando."
"Considerando o quê?", ele zombou. "Seus dramas de sempre? Olha, estou cansado disso. A Bruna está chateada. Preciso que você arrume suas coisas. Você pode ficar na casa de hóspedes por enquanto. Vou pedir para o pessoal da casa levar seus pertences para lá amanhã."
Uma dor súbita e aguda atravessou meu peito, como se alguém tivesse enfiado a mão e torcido meu coração. A casa de hóspedes. Ele estava me expulsando da minha própria casa, a casa que meu pai nos ajudou a comprar. Por causa da Bruna.
"Tudo bem", eu disse, a palavra um som plano e vazio.
Um instante de silêncio. "O que você disse?" Caio soou genuinamente surpreso.
"Eu disse tudo bem", repeti, uma calma estranha e sombria se apoderando de mim. "A casa de hóspedes. Ótimo."
Ele bufou, um som de descrença frustrada. "Certo. Bem. Apenas... não faça uma cena. Vou mandar alguém para te ajudar." E então, ele desligou. A linha ficou muda com um clique que ecoou no silêncio repentino do escritório.
Meus olhos caíram sobre a fotografia emoldurada na minha mesa – meu pai, Davi Ferraz, seus olhos gentis sorrindo para mim. Esta casa, esta vida, tudo começou com ele. Seu legado. Eu podia sentir o peso frio e pesado de sua ausência, mas também uma faísca, uma pequena brasa de sua força.
Saí do escritório, meus passos ecoando na casa silenciosa. Passei pela grande escadaria, pela sala de estar e entrei no conservatório ensolarado, um lugar que meu pai amava. No canto, quase escondido atrás de uma samambaia exuberante, havia um pequeno armário de madeira antigo. Era dele. Ele costumava guardar seus esboços mais preciosos aqui, seus primeiros projetos.
Tracei os entalhes em sua madeira escura. Quantas vezes eu o vi aqui, perdido em pensamentos, uma caneta na mão? Fechei os olhos, lembrando de sua risada, da maneira como ele me explicava algoritmos complexos em termos simples e mágicos. Ele confiava em Caio. Ele trouxe Caio para sua empresa. E Caio, com o pai de Bruna como seu cúmplice, havia destruído tudo, e a ele.
Meu amor por Caio, aquela coisa frágil e equivocada, havia morrido esta noite. Mas outra coisa estava florescendo em seu lugar. Uma determinação fria e dura. Uma sede de justiça.
Meus dedos encontraram o pequeno e quase invisível fecho na parte inferior do armário. Ele se abriu com um clique, revelando um compartimento secreto. Dentro, aninhado entre plantas desbotadas e um diário de couro gasto, havia um pequeno pen drive criptografado. O trabalho final do meu pai. A verdadeira Aura.
Isso não era mais apenas sobre Caio. Era sobre Davi Ferraz. Meu pai. E seu legado. O pen drive parecia frio contra minha palma, uma promessa, uma arma. Esta era a chave. Era aqui que tudo começava.
A casa de hóspedes. Parecia menos uma oferta e mais um despejo. Aproximei-me da casa de campo isolada na beira da vasta propriedade de Caio. A fechadura inteligente, que geralmente reconhecia minha impressão digital, piscou um vermelho raivoso.
"Acesso negado", anunciou uma voz fria e sintetizada.
Minha respiração falhou. Ele já havia mudado os códigos. Ele me trancou para fora.
Nesse momento, a porta se abriu por dentro. Bruna estava lá, um sorriso de escárnio nos lábios. Ela não estava usando o pingente de safira agora, mas um robe de seda, um dos meus. O rosa-claro que eu amava. Ele se agarrava às suas curvas, uma segunda pele. Seu cabelo ainda estava úmido de um banho, emoldurando seu rosto enganosamente inocente.
"Ah, Helena", ela arrulhou, sua voz pingando falsa simpatia. "O Caio te trancou para fora? Ele pode ser tão dramático às vezes. Não se preocupe, eu te deixo entrar." Ela se afastou, seus olhos brilhando com triunfo.
Passei por ela, o cheiro do meu caro sabonete líquido de jasmim grudado nela. Meu maxilar doía de tanto apertar. A casa de hóspedes, antes um refúgio aconchegante para visitantes, havia sido transformada. Meus livros, minha arte, meus toques pessoais – sumiram. As mantas brilhantes e berrantes de Bruna estavam jogadas sobre os móveis antigos. Seu perfume barato e enjoativo lutava com o leve e persistente cheiro da minha própria casa.
No canto, meus pertences estavam empilhados de qualquer maneira, uma bagunça desordenada de caixas e malas. Minha vida, reduzida a uma pilha indigna. Acima deles, em uma prateleira branca impecável, estavam os produtos de cuidados com a pele perfeitamente arranjados de Bruna e pilhas de revistas de moda brilhantes. Meu espaço, usurpado.
Uma voz súbita cortou meus pensamentos. "O que está demorando tanto, Bru?"
Caio saiu do quarto, sem camisa, uma toalha casualmente jogada sobre o ombro. Ele passou a mão pelo cabelo úmido. Seus olhos, quando pousaram em mim, estavam desprovidos de qualquer calor. Um lampejo de nojo, talvez. Definitivamente irritação.
Bruna imediatamente correu para o lado dele, agarrando seu braço e enterrando o rosto em seu peito. "Ah, Caio, a Helena está... ela está chateada. Ela viu meu robe novo, e acho que ela o reconheceu." Ela fungou dramaticamente. Meu robe de seda. Era a maneira dela de torcer a faca.
O olhar de Caio endureceu. Ele puxou Bruna para mais perto, seus olhos se estreitando para mim. "Helena, isso é ridículo. Você está fazendo uma cena. Não pode simplesmente pegar suas coisas e ir para o apartamento do porão? É perfeitamente habitável."
O apartamento do porão. O espaço escuro e úmido sob a casa de hóspedes, usado para armazenamento. Um lugar em que eu não punha os pés há anos. Ele não estava apenas me expulsando; ele estava me enterrando viva.
Meu coração parecia um peso de chumbo, afundando. Mas eu não lhe daria a satisfação de me ver quebrar. Encarei seu olhar frio diretamente. "Tudo bem", eu disse, a palavra mal audível. "O apartamento do porão, então."
Caio piscou, um lampejo de confusão em seus olhos. Ele deve ter esperado uma discussão, lágrimas, uma briga. Minha resposta calma pareceu desorientá-lo. Bruna também parecia surpresa, seus fungados diminuindo.
"Olha, Helena", disse Caio, recuperando-se rapidamente. "Não seja assim. Vou garantir que você seja cuidada financeiramente. Um acordo generoso. Você não terá que se preocupar com nada." Ele gesticulou vagamente, como se estivesse me jogando um osso. "Apenas assine os papéis quando o Dr. Dantas os enviar."
Minha calma se quebrou. As palavras tinham gosto de cinzas. O legado do meu pai, reduzido a um "acordo generoso".
"Você acha que dinheiro conserta tudo, Caio?", perguntei, minha voz subindo, um tremor desconhecido nela. "Você acha que pode comprar a traição? Comprar o que você fez com meu pai? Conosco?"
Seu rosto ficou em branco. "Não traga seu pai para isso, Helena. Você está sendo irracional."
Mas eu já estava me virando, meus passos firmes, em direção à escada estreita e mal iluminada que levava ao porão. Não lhes dei outro olhar. Seus rostos chocados, seus sussurros, desapareceram atrás de mim enquanto eu descia para o ar frio e mofado.
O porão era um labirinto de coisas esquecidas. Partículas de poeira dançavam no único feixe de luz que se filtrava por uma janela alta e suja. Móveis velhos cobertos com lençóis brancos, caixas esquecidas. Meus olhos varreram as sombras, procurando. Eu me lembrava. Estava aqui. O esconderijo secreto do meu pai. Um pequeno cofre embutido, escondido atrás de uma pedra solta na parede.
Ele me mostrou quando eu era criança, um jogo que jogávamos. "É aqui que guardo meus segredos mais profundos, minha Heleninha", ele disse, seus olhos brilhando. "Só você sabe a combinação." Não era sobre segredos, na verdade. Era sobre confiança. Sobre nós.
Meus dedos encontraram a pedra áspera, a empurraram para o lado. Um pequeno cofre de aço. O disco, frio sob meu toque. Os números, gravados para sempre em minha memória. A data de nascimento do meu pai, depois da minha mãe, depois a minha. Girei o disco, cada clique uma batida do meu coração acelerado.
A porta pesada se abriu com um baque suave. Sem joias. Sem pilhas de dinheiro. Apenas uma pilha grossa e amarelada de documentos, amarrada com uma fita desbotada, e um único anel de prata manchado. O anel de noivado da minha mãe.
Puxei os documentos. Eram registros antigos da empresa, demonstrações financeiras, papéis legais. A caligrafia meticulosa do meu pai preenchia as margens. Enquanto eu lia, uma verdade fria e dura começou a se cristalizar dentro de mim. A aquisição hostil da Ferraz Tech não foi apenas um negócio que deu errado. Foi um ataque calculado e brutal.
Caio Alencar. Seu nome aparecia repetidamente, não como um funcionário, mas como um arquiteto da queda. Ele não apenas se casou com a filha enlutada de um visionário da tecnologia. Ele orquestrou a queda do império de Davi Ferraz. Ele usou o executivo de confiança do meu pai – o pai de Bruna – para obter acesso interno. Ele levou meu pai ao túmulo, depois se casou comigo para consolidar a propriedade intelectual restante, para garantir seus ganhos ilícitos.
Minhas mãos se fecharam, os papéis amassando. O homem que eu amei, o homem com quem me casei, era uma víbora. Ele usou meu luto, minha confiança, para construir seu próprio império sobre as cinzas do meu pai. Cada palavra terna, cada sonho compartilhado, cada jantar de aniversário – uma mentira. Um passo calculado em sua ascensão implacável.
A raiva era um fogo rugindo em minhas veias agora, mais quente e mais feroz do que qualquer coisa que eu já senti. Não era apenas traição. Era profanação. Ele não apenas roubou meu amor; ele roubou minha família, meu legado, todo o meu passado. Ele era a razão pela qual meu pai se foi.
Isso não era apenas sobre recuperar minha vida. Era sobre derrubar a dele. Átomo por átomo.
Um ano passou como um borrão, um turbilhão de luto, raiva e planejamento meticuloso. A vida nas sombras, longe dos olhos curiosos de Caio, era fria, mas clara. Eu não era mais Helena Ferraz. Eu era Íris. E Íris tinha um único e ardente propósito.
A notícia estourou em uma manhã de terça-feira. "Concurso Anual de Design da Alencar Corp: Finalistas Anunciados!" A manchete gritava de todos os blogs de tecnologia. Meu coração, geralmente um tambor constante, deu um salto. A imagem que acompanhava mostrava os rostos radiantes dos principais concorrentes. No centro, radiante e falsamente confiante, estava Bruna Soares.
Seu projeto, "Aura", foi aclamado como um avanço. "Um algoritmo de IA revolucionário", os artigos se derramavam, "prometendo interação intuitiva com o usuário e inteligência emocional incomparável." Os críticos elogiaram sua "empatia semelhante à humana" e "integração perfeita".
Meu sangue gelou. Aura. Minha Aura. O projeto no qual eu derramei minha alma após a morte do meu pai, uma personificação digital de sua visão, uma maneira de manter sua memória viva. Eu mostrei a Caio os protótipos iniciais, compartilhei minhas esperanças, meus sonhos, até mesmo o nome. "Aura", eu disse a ele, "porque parece uma presença, um espírito vivo."
Ele ouviu, ou fingiu ouvir. Ele viu o código inicial, a arquitetura intrincada. Ele viu o amor cru e sangrento que eu derramei nele, uma tentativa desesperada de preencher o vazio que meu pai deixou.
Meu pai. Davi Ferraz. A dor no meu peito era uma pontada familiar e dolorosa. Caio esteve lá, sempre, durante aqueles dias sombrios após a aquisição hostil, depois que o coração do meu pai parou. "Eu vou cuidar de você, Helena", ele prometeu, seu braço em volta dos meus ombros trêmulos no funeral. "Vamos superar isso juntos." Mentiras. Tudo mentiras. Enquanto eu estava de luto, ele estava consolidando seu roubo. Ele estava abrindo caminho para Bruna.
Agora, minha Aura, nascida da minha dor mais profunda e do legado do meu pai, era o bilhete de Bruna para a fama. Uma ferramenta para ela, para eles, ascenderem. A injustiça parecia um golpe físico.
Não hesitei. "Me arranje um carro para o centro de conferências da Alencar Corp", ordenei ao meu motorista, minha voz seca. "Agora."
O grande salão fervilhava de excitação. Os holofotes me cegaram enquanto eu abria caminho pela multidão de repórteres e especialistas da indústria. No palco, Caio estava ao lado de Bruna, seu braço em volta dela, um sorriso orgulhoso e possessivo no rosto. Ela usava um vestido branco cintilante, interpretando perfeitamente o papel da ingênua. O logotipo "Aura", meu logotipo, piscava atrás deles em uma tela enorme.
Avancei, uma força da natureza. Os seguranças tentaram me bloquear, mas minha raiva me impulsionou. Desviei de um braço musculoso, arranquei um microfone de um repórter perplexo e corri em direção ao palco.
"Ela é uma fraude!" Minha voz, amplificada pelo microfone, cortou os aplausos como uma faca. O silêncio repentino foi ensurdecedor. Todos os olhos na sala se viraram para mim.
O sorriso de Caio desapareceu. Os olhos de Bruna se arregalaram de terror.
"Este projeto 'Aura'", continuei, minha voz crua de emoção, "é uma obra-prima roubada. É minha criação. Cada linha de código, cada projeto arquitetônico, cada recurso inovador – tudo veio de mim. Helena Ferraz."
Um murmúrio se espalhou pela multidão. O rosto de Bruna ficou branco como papel. Ela tropeçou para trás, agarrando o braço de Caio, sua inocência fingida desmoronando.
"Isso é ridículo!" Caio rugiu, dando um passo à frente. "Segurança! Tirem essa mulher daqui!"
"Você acha que pode me silenciar?", desafiei, tirando um pequeno pen drive criptografado do meu bolso. "Eu tenho os documentos de design originais, o código inicial, datado e com carimbo de tempo. Meu pai, Davi Ferraz, me ensinou a proteger meu trabalho. Este é o legado dele, e o meu!" Ergui o pen drive.
Bruna gemeu, enterrando o rosto no ombro de Caio. "Caio, ela está louca! Ela sempre foi instável depois que o pai dela... você sabe."
Caio, com o rosto contorcido de fúria, avançou sobre mim. Ele arrancou o pen drive, seus dedos esmagando-o em seu punho. Ele ergueu o braço e, com um rugido primal, o esmagou contra o chão do palco. Cacos de plástico e metal se espalharam. Minha evidência. Minha prova.
"Ouçam-me, todos vocês!", Caio gritou para a plateia atônita, sua voz retumbando. "Esta mulher é delirante! Ela está instável há meses, desde a morte de seu pai. Ela está obcecada por mim, por Bruna, projetando seus próprios fracassos em nós!" Ele puxou Bruna para a frente, como se para protegê-la. "Bruna Soares é um talento brilhante, uma visionária! Esta mulher... esta Helena Ferraz... ela não passa de uma bagunça patética e ciumenta!"
As palavras me atingiram como golpes físicos. Patética. Bagunça.
"Você acha que pode me apagar, Caio?", gritei, minha voz falhando. "Você roubou a empresa do meu pai, você roubou meu trabalho, você roubou minha vida! Você nunca vai se safar disso! Eu vou fazer você pagar! Juro por Deus, eu vou ver você queimar!"
Dois seguranças corpulentos me agarraram, suas mãos como grampos de ferro em meus braços. Eu lutei, chutando, gritando, minha voz rouca.
"Ela está claramente desequilibrada!", Caio gritou para os repórteres, seu rosto uma máscara de falsa preocupação. "Ela precisa de ajuda. Ajuda psiquiátrica."
"Seu monstro! Seu monstro sem alma!", gritei, enquanto eles me arrastavam para trás, meus saltos raspando no chão polido. "Eu vou te assombrar! Eu vou destruir tudo o que você construiu!"
Caio me observou, seus olhos frios, desprovidos de qualquer reconhecimento ou pena. Apenas um lampejo de alívio, uma sensação de ter finalmente lidado com um incômodo. Ele acenou para os guardas, um comando silencioso para se livrarem de mim.
A última coisa que vi antes que as portas se fechassem foi Bruna, espiando por trás de Caio, um sorriso triunfante substituindo sua fachada inocente. Eles venceram. Por enquanto.
"Levem-na para a clínica", ouvi Caio dizer, sua voz calma, racional, como se estivesse discutindo uma máquina quebrada. "Digam a eles que ela é um perigo para si mesma e para os outros. Certifiquem-se de que ela seja... contida."
O mundo lá fora era um borrão de luzes piscando e rostos confusos. A van branca, as paredes acolchoadas, o cheiro estéril. Eles me amarraram. Meus gritos morreram na minha garganta, substituídos por uma determinação fria e dura. Ele me queria contida? Ele me queria silenciada? Ele acabou de acender o pavio de sua própria destruição.