Simon Salvatore corria em círculos pelo jardim, os bracinhos abertos, um sorriso largo enquanto o vento batia contra seu rosto e balançava seu cabelo. Era como voar. Adorava a sensação, mas, acima de tudo, amava ouvir a risada miúda de sua amiga de brincadeiras, Paulina Perez, filha da governanta e do motorista da mansão Salvatore.
A menina, dois anos mais nova, sentada no tapete de retalhos da varanda, com seus olhos de um suave âmbar observava fascinada o amigo rodopiar sem parar.
- Vamos, Lina! É divertido!
- Não. Da outra vez, fiquei tonta, caí, e mamãe brigou - lembrou, as bochechas coradas pelo calor primaveril de novembro.
Simon parou de rodopiar. Contrariado, subiu os três degraus que levavam à varanda e sentou-se ao lado dela.
- Não tem graça sem você - resmungou, fazendo bico, o que arrancou o riso cristalino da amiga. Encabulada, ela colocou a mão sobre a dele.
Simon admirou o pequeno sorriso, as bochechas coradas e a beleza dela. Parecia uma boneca de porcelana, como as que sua mãe guardava na prateleira mais alta do quarto de costura. Branquinha, lábios rosados, delicada, sempre de vestido de rendas florais. A diferença era que tinha permissão para brincar com Lina. Embora ela recusasse algumas brincadeiras, como subir em árvores, rodopiar pelo gramado ou jogar bolas de lama. Mesmo assim, gostava muito dela e a queria para sempre ao seu lado.
Sua atenção foi atraída por vozes na lateral da mansão. Viu sua mãe acompanhar o marido até o carro. Mantendo a porta traseira aberta para o patrão, estava o pai de Paulina. Simon sorriu quando sua mãe deu um beijo nos lábios do marido antes de deixá-lo partir para o trabalho. Toda manhã, eles repetiam aquele gesto, e Simon se perguntava se era isso que os mantinham juntos.
Voltou-se para a amiguinha, que também observava a cena, e, imitando sua mãe, depositou um beijo na boca dela.
Foi então que tudo mudou. Naquele breve instante, após o inocente beijo.
De repente, a mãe de Paulina apareceu gritando e puxou a filha para longe dele. Apavorado, ouviu a mulher, sempre tão gentil, repreendê-lo duramente.
Sua mãe se aproximou, confusa com a gritaria, e a mãe de Paulina contou sobre o beijo, dizendo que ele tinha tomado liberdades indevidas com a filha dela. As duas mulheres começaram uma discussão acalorada. Confuso, Simon chorou, com medo de que seu beijo tivesse ferido a amiga e por isso a mãe dela estivesse tão irritada.
Depois daquele dia, nunca mais teve permissão para brincar com Paulina, e a mãe dela não deixava que ficassem sozinhos.
Simon não entendia o que havia de tão errado em seu beijo, porém, não teve coragem de perguntar ou reclamar da distância crescente entre ele e Paulina.
Passou a sentir raiva. Das Perez, de si mesmo e da péssima ideia de beijar Paulina para uni-los para sempre. O efeito foi o contrário: a cada dia, se afastavam, ignoravam e, com o tempo, tornaram-se dois estranhos na mesma casa.
~*~
Ao atravessar a porta dos fundos da mansão, Simon Salvatore lançou um olhar furtivo à Paulina Perez, que conversava com o jardineiro. A presença dela era um chamariz para sua curiosidade. Nos últimos dois anos, a viu poucas vezes, sempre de passagem. Agora, segundo a governanta da mansão, ela ficaria por ali por alguns dias ou mais.
Encostou-se a uma viga da varanda e a observou, aproveitando que não percebeu sua presença.
Baixinha, com pouco mais de um metro e cinquenta, parecia ainda menor com as roupas que usava: saia longa e blusa de manga comprida. Simon nunca entendeu o motivo de se cobrir tanto, mesmo em dias de calor extremo - como aquela tarde. O longo cabelo negro e a franja farta ocultavam parcialmente os olhos que lhe lembrava de mel derretido. Mesmo à distância, sabia que a pele clara estava corada pelo sol intenso.
Sorrindo de canto, aproximou-se devagar, presumindo que ficaria ainda mais ruborizada ao vê-lo.
Sentindo-se observada, ela interrompeu a conversa e, protegendo os olhos do sol com a mão, avaliou por um instante o homem que se aproximava dela e de Pedro, seu tio. Assim que reconheceu Simon, as mãos suaram e o coração acelerou, ecoando em seus ouvidos.
Retornando a atenção para o tio, podando os arbustos, apertou as mãos e mordiscou o lábio inferior. A tensão tomou conta de seu corpo ao prever o que aconteceria quando o caçula dos Salvatore chegasse perto.
Simon sempre foi arrogante, convencido e um egoísta, que passava pelas mulheres com indiferença devastadora.
Sua falecida mãe sempre a alertou sobre homens como ele, e exigiu que mantivesse distância respeitosa dos filhos dos patrões. Paulina cresceu seguindo esse conselho. O que não é difícil, já que Simon possui um perturbante prazer em afastá-la com provocações inconvenientes.
Simon cumprimentou ambos antes de se concentrar em Pedro, perguntando com educação sobre o trabalho no jardim e elogiando seu cuidado com as plantas. Apesar de tentar ignorar a conversa, Paulina o observou de relance e percebeu, não pela primeira vez, que, quando queria, ele podia ser agradável. Era em momentos como aquele, quando Simon sorria e se mostrava gentil, que entendia por que as mulheres se apaixonavam perdidamente por ele.
Sem dúvida, Simon tornou-se um homem bonito: cabelo preto e denso, olhos escuros e penetrantes, estatura imponente. Até Paulina, que sabia o quanto sua aparência escondia uma personalidade terrível, nutriu uma paixonite por ele na adolescência. Um sentimento que reprimiu, tanto por suas provocações constantes quanto pelos avisos dos pais , sempre lembrando-a de que não passava de uma empregada, mesmo sem trabalhar oficialmente na propriedade.
- Depois a gente se fala, tio. Até mais, senhor Simon! - despediu-se, incomodada por ter sido praticamente ignorada pelos dois.
Afastou-se apressada em direção à lateral da residência, onde sua família paterna morava e trabalhava há três gerações. Precisava escolher a roupa para a entrevista de emprego no dia seguinte.
Embora gostasse de dividir o mesmo teto com a irmã mais nova, a convivência com o pai estava cada dia mais difícil. Desde que perdeu o emprego anterior, ele insistia que ela trabalhasse na faxina ou em outro ocupação na mansão. Por anos, atendeu a todas as exigências dele - até os cursos que fez foram por imposição -, mas agora, formada em governança hoteleira, só aceitaria um cargo de governanta, a menos que ficasse completamente sem recursos.
- Voltou para a mansão em definitivo? - A voz grave de Simon atrás dela arrancou-a violentamente de seus pensamentos.
Perturbada por ele tê-la seguido, perguntou-se por que Simon cismava tanto com ela. Poderia ignorá-lo e seguir em frente, mas, se o pai descobrisse que tratou mal o filho dos patrões, a repreenderia sem piedade.
- Só até arrumar um novo emprego - respondeu baixinho, cabeça abaixada e olhos evitando-o.
Ele posicionou-se à sua frente, as mãos nos bolsos, e, pelo movimento da sombra no chão, percebeu que se inclinava sobre ela.
- Vai fritar nessa sauna que chama de roupa - escarneceu. - Vestida assim, presumo que concorrerá à vaga de freira. É esse o trabalho que procura?
Paulina puxou as mangas da blusa, apertando os dedos nas bordas, escondendo os poucos centímetros de pele exposta. Odiava quando Simon zombava de suas roupas. Ainda assim, apertou os lábios, reprimindo a vontade de revidar, de dizer que, ao contrário das mulheres com quem ele saía, foi criada valorizando a decência e discrição.
- Perdeu a língua, Perez? Posso achá-la pra você - sussurrou perto de seu ouvido.
Ela inspirou fundo, tremendo de vontade de jogar no lixo todas as regras de bom comportamento, implantadas pelos pais em sua mente, e mandar Simon pastar.
- Vou trabalhar como governanta em um hotel - respondeu trêmula.
Falou como se a contratação estivesse garantida, quando na verdade dependia de uma última entrevista. Preferia nadar com jacarés a dar a Simon mais munição para humilhá-la.
Simon endireitou-se, analisando-a friamente. Seus olhos escuros detiveram-se nas mãos que se apertavam, notando as dobras esbranquiçadas, quase como se não houvesse sangue circulando. A face dela estava pálida, os lábios tensos e trêmulos, sinais de que estava à beira de um colapso.
- Não sei para quem desejo sorte: para você ou para o infeliz que a contratar - disse, recuando um passo. - Tente agir menos como uma ostra.
Com esse conselho sem sentido aos ouvidos de Paulina, saiu de sua frente. Agarrando-se à oportunidade como um náufrago a um pedaço de madeira no mar, Paulina seguiu a passos largos para a ala que dividia com o pai e a irmã.
Se olhasse para trás, surpreenderia Simon com um risinho divertido nos lábios.
Massageando a têmpora na esperança de amenizar as pontadas na cabeça, Simon ouvia entediado o que a mulher sentada a sua frente de microvestido azul dizia. A voz dela era irritante, o constante cruzar e descruzar de pernas eram irritantes e as caras e bocas também. Tudo nela o irritava, mas o principal era perder seu precioso tempo para entrevistá-la quando era óbvio que ela desejava um cargo maior que governanta.
Era evidente no sorriso exagerado, por fingir pudor, ao puxar devagar a barra do vestido ultrajusto para cobrir - obviamente sem sucesso - as coxas grossas e no modo como se inclinava por qualquer motivo, oferecendo uma bela visão dos seios fartos.
Cerrou os olhos por um instante, irritado com a oitava vez que ela cruzava e descruzava vagarosamente as pernas desde o começo da entrevista. Presumia que assistiu Instinto Selvagem demais.
Não era a primeira entrevistada a se insinuar descaradamente. Em outra situação, Simon até aceitaria o convite. No entanto, por bom senso, não contrataria uma mulher para fazer hora extra em sua cama. Jamais teria sexo casual com alguém que possuísse acesso total a sua casa e, num acesso de raiva, colocasse fogo em tudo.
No momento, só queria alguém para manter o apartamento em ordem, as roupas limpas e organizadas no armário, e garantir que, ao voltar do trabalho ou da balada, houvesse algo para comer. Um desejo simples, mas, aparentemente, impossível.
- O senhor pode ter certeza que realizarei todas as suas fantasias - ela insinuou, passando a língua pelos lábios.
Certo! Instinto Selvagem era sofisticado demais para ela. Devia copiar aqueles gestos de algum pornô barato.
- Senhorita Moraes, procuro uma governanta, não uma... - freou a vontade de dizer transa e se levantou. - Agradeço sua presença. Se for a escolhida, ligarei esta semana. - "O que nunca vai ocorrer", completou mentalmente ao seguir até a porta do apartamento e a escancarar. - Tenha um bom dia!
- Pode chamar de Nanda - ela pediu se aproximando. - Aguardarei ansiosa sua ligação, Simon.
Perguntou-se quando deu intimidade para que ela ronronasse seu nome e o beijasse no rosto - e isso porque desviou o rosto.
- Nova namorada, filho? - A distinta voz feminina às suas costas o fez estremecer até os fios de cabelo.
Virou-se e observou sua mãe, Mirela Salvatore, elegante em um conjunto branco de saia lápis, camisa de manga longa e scarpin, aproximando-se. Um anjo perverso de perspicazes olhos negros fitando ele e a jovem ao seu lado com escancarado interesse.
- Não, mãe - respondeu temendo a interpretação errônea. - Acabei de entrevistá-la para a vaga de governanta.
- Mesmo? - Mirela olhou a mulher de cima a baixo, sorriu e comentou sarcástica: - Na minha época, governantas usavam mais roupa e não deixavam marcas de batom no rosto do futuro patrão. - Ignorando o palavrão de Simon, proferido após passar a mão na bochecha e ver os dedos tingidos de vermelho, completou mordaz: - Novo tempo, novas atitudes. Qual seu nome, minha jovem?
- Fernanda Moraes.
- Fernanda. Belo nome.
Mirela supôs que deixou evidente seu desagrado, pois a mulher se despediu rapidamente deixando-a sozinha com seu filho metido a conquistador. Assim que Simon fechou a porta, perguntou:
- Vai contratá-la? Não me intrometo na sua vida... Digamos, intensa. Mas contratar uma mulher que deseja ser mais que uma funcionária é um perigo - avisou seguindo-o pela sala. - Logo ela vai querer um anel de diamantes e um polpudo acordo de divórcio.
- Não se preocupe. Não pretendo contratá-la, nem me casar com quem quer que seja - apressou-se a acrescentar.
Mirela franziu o cenho.
- Que bom que ainda tem bom senso. Mas espero que mude de ideia quanto a casar.
- Hum... - Simon massageou a têmpora com mais força. Quando Mirela enveredava pelo assunto casamento a conversa não tinha fim.
- Logo terá trinta anos. Precisa pensar em casamento, filhos, um lar - repetiu o desagradável mantra aos ouvido do filho, completando taxativa: - Preciso de netos.
- Faltam três aniversários para meus trinta anos - resmungou. - E o Alessandro te deu dois netos.
- Simon Salvatore, só porque seu irmão tem filhos não significa que não espero que também os tenha - ela retrucou sentando no sofá macio. Arrumou as roupas e o cabelo liso, perfeitamente tingido de preto, antes de cravar o olhar reprovador no filho caçula. - Precisa de uma boa moça para constituir algo mais duradouro que relações relâmpagos.
Simon revirou os olhos, cansado de ser retratado como o filho irresponsável que morreria sem deixar herdeiros. Por um lado entendia sua mãe. Orfã aos dez anos, Mirela passou longos anos em um orfanato, sem o calor de uma família. Sempre que falava desse tempo era com a tristeza da perda dos laços familiares e das sucessivas rejeições devido à idade. A alegria só retornava ao recordar como conheceu o marido e juntos formaram a família de seus sonhos.
Ela prezava a família. Prático, Simon prezava a si próprio.
- Sabe o que realmente preciso? - questionou, jogando-se no sofá, de frente para sua mãe. - Preciso de uma governanta discreta, organizada, confiável, que more no meu apartamento sem me atacar durante a noite - enumerou, deslizando a mão pela face esgotada devido o fracasso com às dezenas de mulheres entrevistadas. - Mas parece que essa pessoa não existe.
- Conheço a mulher perfeita, querido - ouviu da matriarca.
Ignorando o enorme sorriso na face de Mirela, o que normalmente representava uma ideia carregada de segundas intenções, Simon respondeu sem pensar:
- Contrate-a.
Era tudo o que Mirela necessitava para entrar em ação. Levantou-se e marchou até a porta.
- Aonde vai?
- Falar para Carlos preparar o contrato da sua nova governanta. À noite virei apresentá-la, querido - comunicou alegremente antes de sumir porta afora.
Alarmado ao ouvir o nome do advogado da família, Simon correu atrás dela. Mas não deu tempo. A porta do elevador se fechou, com Mirela acenando em despedida.
De repente foi tomado por uma inquietação e se perguntou se tomou a decisão certa.
Retornando de outra entrevista, Paulina entrou em seu quarto. Esgotada, jogou a pasta de couro sobre a cama e caminhou até o espelho da penteadeira. Manteve distância do objeto, o suficiente para analisar seu reflexo da cabeça aos pés. Procurou alguma imperfeição no traje, uma pista para as sucessivas rejeições.
Não era sofisticado: uma camisa branca de manga comprida, saia longa e terninho discreto, ambos na cor azul escuro. Queria parecer responsável e mais velha do que realmente era, e o traje, em teoria, fornecia essa imagem. Na prática, porém, não conseguiu o efeito desejado.
O dia começou bem, mas foi anuviado no momento em que o recrutador do hotel, no qual desejava trabalhar como governanta, olhou-a de cima a baixo e torceu o nariz. Foi questão de minutos para ouvir o tão conhecido "a senhorita não se enquadra no perfil". Era a terceira entrevista só naquela semana em que ouvia essa frase. Que diabos de perfil seria esse?
O problema tinha de estar em sua aparência, pois seu currículo estava impecável. Desde a infância, teve contato com a profissão, acompanhando e ajudando sua mãe na administração da mansão Salvatore dia e noite. Quando Soraia Perez faleceu, passou a trabalhar com Núbia Santos, governanta que substituiu sua mãe. Formou-se em governança hoteleira, fez diversos cursos para se aperfeiçoar e, nos últimos dois anos, trabalhou e morou na casa de uma senhora. Experiência não faltava.
Havia somente uma mácula em seu currículo, uma que a obrigou a omitir o contato de referência do antigo emprego, diminuindo as provas de sua experiência. Infelizmente, junto com a casa e o dinheiro, o filho de sua antiga patroa achou que ela fazia parte da herança. Tremia ao lembrar-se da proposta abusiva, do tapa que deu e da corrida desesperada para evitar outras investidas nojentas durante o velório da mãe dele.
Respirou fundo e afastou a lembrança daquele homem, voltando a focar na busca pelo motivo das rejeições. Talvez fosse o cabelo, imaginou, analisando os fios, que chegavam abaixo da cintura, parcialmente presos por um laço. Devia ter feito um penteado mais elaborado. Levou as mãos aos fios para fazer um coque improvisado, mas soltou-os ao ouvir batidas na porta.
Apressou-se a abri-la, sem se surpreender ao ver Mirela Salvatore à sua frente. Antes de ser a rica proprietária da mansão e matriarca dos Salvatore, Mirela morou por anos no orfanato onde conheceu a mãe de Paulina. Por isso, tratava seus funcionários e os filhos deles como família, principalmente Paulina e sua irmã.
- Boa tarde, querida! Como foi a entrevista? - perguntou Mirela, entrando sem cerimônia no pequeno quarto.
- Não muito bem - confessou triste pela oportunidade perdida e grata pela consideração da bondosa Salvatore.
Até que a ouviu exclamar, satisfeita:
- Ótimo!
- Perdão?!
- Desculpe, querida, deixe-me explicar. - Mirela segurou suas mãos entre as dela. - Encontrei o trabalho perfeito para você. Paga bem e, se aceitar, está contratada.
- Que tipo de trabalho? - perguntou curiosa. A mansão não precisava de uma governanta, e ela não aceitaria menos que isso.
- Simon está procurando uma governanta que possa trabalhar e dormir no apartamento dele. O salário é praticamente o mesmo que pago ao seu pai, e há vários benefícios.
O salário alto e os benefícios desapareceram num instante.
- Trabalhar no apartamento do senhor Simon... Dormir lá... Eu?
Não que Simon Salvatore, filho mais novo de Mirela, fosse uma pessoa ruim - não totalmente -, mas se havia alguém no mundo que representava tudo o que Paulina abominava, era ele. Arrogante e prepotente, passou anos fazendo piadas de sua vida sexual, ou, como adorava ressaltar, da falta dela. Além disso, dias antes, a chamou de ostra e desejou, sarcástico, sorte a ela e a quem a contratasse. A sorte que ele desejou só lhe trouxe azar.
- Querida, será ótimo ter alguém da minha confiança cuidando do meu bebê, zelando por ele.
Bebê? Simon podia ser chamado de muitas coisas, menos de bebê.
- Não posso, dona Mirela... Simon não gosta de mim... - "Nem eu dele", completou em pensamento. - Será um desastre.
- Ah, vocês eram tão amigos quando pequenos. - Mirela soltou uma risada baixa. - Eu e Soraia passávamos horas fazendo planos... Podem retomar a amizade - finalizou com um sorriso esperançoso.
Paulina não se lembrava de ter sido amiga de Simon. Ao contrário, sua mãe sempre exigiu que mantivesse distância dos filhos dos patrões. Não via motivo para Mirela mentir, mas supôs que fosse para convencê-la a aceitar o emprego. O passado, porém, não conseguiria mudar o presente.
- Pelo menos tente, Lina - pediu Mirela, estreitando mais suas mãos nas dela. - Se não gostar, é só pedir demissão. Sem multas, sem complicações. Por favor, tente. Por mim.
Às vezes, como naquele momento, Paulina condenava-se por ter um coração mole e ser obediente demais. Era fácil dobrá-la.
- Tudo bem, dona Mirela. Por você, aceito.
Mirela envolveu-a num abraço apertado.
- Obrigada, filha. Tenho certeza de que não se arrependerá.
Paulina duvidou, mas nada disse, limitando-se a aceitar o abraço caloroso da Salvatore - que, de certa forma -, lembrava o de sua falecida mãe.
~*~
As portas do elevador abriram no nono andar, e Simon Salvatore saiu com o semblante carregado, o estresse perceptível nos passos fortes e apressados em direção ao seu escritório. Ignorou todos à sua volta, principalmente sua secretária, Cherrilyn Martins. Não que adiantasse: assim que passou pela porta do escritório, ela apareceu, a agenda aberta em uma mão e uma caneta na outra.
- Pensei que o senhor não viria hoje - comentou, empurrando uma mecha acobreada para trás da orelha.
- Pensou errado - respondeu, ainda sob o efeito da dor de cabeça. Não que fosse gentil com a espiã de sua mãe.
- Já contratou a governanta?
Ele olhou irritado para a secretária.
- A senhorita ao menos se dignou a entrevistá-las antes de mandá-las ao meu apartamento?
- A agência para a qual telefonei disse que mandaria as melhores, de acordo com o perfil do senhor - defendeu-se Cherry, imaginando que o mau humor daquela vez tinha sido por causa das entrevistadas. Não que ele fosse gentil com ela.
- Que perfil?
Cherry lembrou as informações passadas por e-mail.
- Solteiro; vinte e sete anos; empresário renomado; CEO da Oryun Vision Publicidade; herdeiro das empresas Salvatore...
- Não pensou em contar quanto tenho no banco? - resmungou, imaginando as funcionárias da tal agência fazendo fila para encontrá-lo, sedentas pela oportunidade de pôr as mãozinhas em sua fortuna.
- Ajudaria? - quis saber com interesse.
- Claro que não! - quase gritou, encarando os olhos verdes da Martins com raiva. - Da próxima vez, diga minha personalidade, não minhas qualidades financeiras.
Mentalmente, Cherry perguntou-se quantas pessoas aceitariam trabalhar para ele se o descrevesse como: Grosseiro, mal-humorado e exigente ao extremo. Provavelmente, nenhuma. Por fim, ofereceu:
- Posso refazer o perfil.
- Não é preciso. Minha mãe já escolheu a governanta.
- Dona Mirela?! - estranhou. - O senhor tem certeza de que não quer refazer o perfil?
- Não é preciso - repetiu com irritação.
Cherry perguntou-se qual seria o interesse da Salvatore agora. Afinal, foi contratada por Mirela para informar tudo o que acontecia na empresa que Simon montou com um amigo há cerca de dois anos. Ela queria uma espiã dentro do apartamento?
- Martins, ouviu algo do que falei? - perguntou Simon, estranhando que ela não tivesse se retirado.
Cherry piscou, confusa.
- Quero comprimidos para dor de cabeça - repetiu, o desagrado vibrando na voz.
- Ah, desculpe-me. Volto em um instante, senhor.
Saiu apressada, quase se chocando contra o sócio e diretor da empresa, Gabriel Saadi. Lançou um rápido pedido de desculpas ao homem alto de cabelo castanho acobreado e continuou seu percurso.
- O que fez com a garota agora? - Gabriel perguntou ao fechar a porta.
- Nada. E olha que estou tentado - resmungou, antes de sentar-se em sua poltrona giratória de couro preto. - Acredita que ela deixou que enviassem várias ninfomaníacas ao meu apartamento?
- Com o seu histórico, tinha de estar feliz - gracejou o Saadi, sentando-se de frente para o Salvatore.
- Meu histórico não é diferente do seu. Então me diga: ficaria feliz?
- Não. - Gabriel fixou os olhos verde-água no amigo. Simon parecia prestes a explodir. - Pelo jeito, foi muito ruim.
- Pior - resmungou, massageando a região entre os olhos. - Se soubesse que seria assim, deixava nas mãos da minha mãe antes.
- Mirela?! Deixou que ela contratasse alguém para trabalhar para você de novo? - Gabriel encarou-o com um pequeno sorriso descrente. - Vive reclamando que tem de aguentar a Cherry e repetiu a dose?
- Cherry é uma secretária eficiente, mesmo ajudando minha mãe a controlar meus passos.
- E qual é o nome da nova governanta?
- Não sei. Ela disse que conhecia a pessoa certa e saiu antes que eu pudesse perguntar o nome.
- Pelo menos, sabe quando conhecerá a sua futura governanta?
- Hoje à noite.
- Se fosse você, telefonava e exigia o nome. Nunca se sabe que tipo de pessoa é "certa" na mente de Mirela Salvatore - comentou, coçando a barba por fazer. - E o que ela fazia em seu apartamento hoje?
- É provável que Cherry tenha contado sobre as entrevistas.
- Nesse caso, creio que Mirela já tinha alguém em mente para o cargo.
- Será?!
Simon sentiu um frio na espinha. Desconfiava que Mirela tinha planos mais ousados do que lhe fornecer uma governanta adequada, mas ouvir outra pessoa dizer o mesmo tornou tudo pior. Não que sua mãe fosse fazer uma escolha ruim... Esperava que não fizesse.