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Ensurdecido pelas Suas Palavras Odiáveis

Ensurdecido pelas Suas Palavras Odiáveis

Autor:: Penelope
Gênero: Moderno
Por oito anos, eu abri mão da fortuna da minha família e da minha audição para ajudar meu namorado, Emiliano Rocha, a se tornar um astro do rock. Eu era sua musa, seu anjo da guarda, a sócia silenciosa em seu sucesso. Então, um milagre aconteceu: minha audição voltou. Bem a tempo de pegá-lo com uma universitária e ouvi-lo me chamar de "fardo" e "caso de caridade". A traição não parou por aí. Quando a nova garota dele bateu o Opala antigo que meu falecido pai me deu, eu a confrontei na delegacia. Emiliano correu para lá, não para me defender, mas para protegê-la. Ele me empurrou com tanta força que eu caí no chão, e o mundo ficou em silêncio novamente. Minha audição se foi, pela segunda vez, por causa dele. "Você é surda?", ele gritou para mim, furioso por eu não simplesmente perdoá-lo. "Eu te dei tudo! Era exaustivo, sufocante!" Eu olhei para o homem por quem sacrifiquei tudo, o homem que tinha acabado de me destruir mais uma vez. Ele não fazia ideia de que eu tinha ouvido cada uma de suas palavras odiosas. "Não, Emiliano", eu disse, minha voz clara e firme. "A pergunta é: você é surdo? Ou você é só um covarde?"

Capítulo 1

Por oito anos, eu abri mão da fortuna da minha família e da minha audição para ajudar meu namorado, Emiliano Rocha, a se tornar um astro do rock. Eu era sua musa, seu anjo da guarda, a sócia silenciosa em seu sucesso.

Então, um milagre aconteceu: minha audição voltou. Bem a tempo de pegá-lo com uma universitária e ouvi-lo me chamar de "fardo" e "caso de caridade".

A traição não parou por aí. Quando a nova garota dele bateu o Opala antigo que meu falecido pai me deu, eu a confrontei na delegacia. Emiliano correu para lá, não para me defender, mas para protegê-la. Ele me empurrou com tanta força que eu caí no chão, e o mundo ficou em silêncio novamente. Minha audição se foi, pela segunda vez, por causa dele.

"Você é surda?", ele gritou para mim, furioso por eu não simplesmente perdoá-lo. "Eu te dei tudo! Era exaustivo, sufocante!"

Eu olhei para o homem por quem sacrifiquei tudo, o homem que tinha acabado de me destruir mais uma vez. Ele não fazia ideia de que eu tinha ouvido cada uma de suas palavras odiosas.

"Não, Emiliano", eu disse, minha voz clara e firme. "A pergunta é: você é surdo? Ou você é só um covarde?"

Capítulo 1

Ponto de Vista de Adell:

O mundo se estilhaçou não com um estrondo, mas com um anúncio pop-up de um site de fofocas de celebridades classe B no meu celular.

Minha mãe, Cristina Salles, tinha me avisado. A voz dela, afiada como um diamante, cortou o ar luxuoso da nossa cobertura na Avenida Vieira Souto, oito anos atrás. "Adell, esse músico, Emiliano Rocha, ele é um sonhador. Sonhadores partem corações, e eles certamente não constroem impérios." Ela estava parada ao lado do piano de cauda, seu robe de seda brilhando, um retrato da desaprovação polida.

Mas eu era jovem, tola e ferozmente apaixonada. Emiliano tinha fogo nos olhos, um violão pendurado no ombro e uma melodia que prometia uma vida muito mais rica do que qualquer herança. Eu fiz uma única mala naquela época, deixando para trás a gaiola dourada e a mulher que via o amor como uma transação. Eu persegui a música, a garra, o caos cru e belo de uma vida com ele.

Eu me lembrava do incêndio no estúdio como se fosse ontem, embora oito anos tivessem embaçado tantas outras coisas. O cheiro acre de fios queimando, Emiliano tentando freneticamente salvar sua nova mesa de som, o estalar das faíscas. "Fica pra trás!", ele tinha gritado, mas eu vi o equipamento caindo, pesado e quente. Eu o empurrei para longe, senti a dor lancinante quando um amplificador caiu, esmagando meu ouvido esquerdo. O mundo ficou em silêncio daquele lado, um vazio opaco e algodoado que se tornou meu companheiro permanente. "Minha garota corajosa", ele sussurrou na emergência, seus olhos úmidos com uma gratidão que parecia uma promessa. "Eu te devo tudo, Adell. Minha vida, minha música, meu futuro. Você é minha musa, meu anjo da guarda."

Ele se ajoelhou ao lado da minha cama de hospital e colocou a mão sobre meu ouvido bom, gesticulando furiosamente em LIBRAS: "Eu te prometo, Adell. Na alegria e na tristeza. Você é meu para sempre." Suas palavras ecoaram em minha mente, um voto sagrado.

E ele manteve sua promessa, de certa forma. Sua carreira decolou. O músico batalhador se tornou uma sensação global. Discos de platina, arenas lotadas, um loft gigantesco na Vila Madalena que agora parecia mais um santuário do que um lar. Ele me adornou com roupas de grife, joias brilhantes e uma vida de luxo sem esforço. Tudo que eu precisava, materialmente, estava ao meu alcance. Nosso casamento, um evento grandioso planejado para o próximo mês, era o ápice da nossa jornada, uma celebração de oito anos de sacrifício e sucesso.

Eu estava rolando meu feed, procurando inspiração para as lembrancinhas do casamento, quando o pop-up apareceu. "O Amor Secreto de Emiliano Rocha: A Confissão de uma Universitária." Meu polegar congelou. Meu estômago se contraiu. Era uma postagem de blog, um fio longo e confuso de alguém chamada Keisha Matos.

"Meu Deus, gente, o Emiliano é o mais fofo! Ele me entende totalmente. Diferente de certas pessoas..." A postagem vaga insinuava algo mais, um relacionamento secreto, alfinetadas veladas. Meu coração começou a bater em um ritmo frenético. Parecia que eu estava de volta ao estúdio em chamas, só que desta vez o fogo estava no meu peito.

A seção de comentários era um ninho de cobras. "Isso é sobre a noiva surda dele? Coitada da Adell." "Ele com certeza merece alguém melhor que uma mulher quebrada." "Acho que ele se cansou de gritar, hein?" As palavras, cruéis e casuais, me açoitavam. Eles discutiam meu relacionamento, minha perda de audição, como se eu fosse uma figura distante e patética.

"A traição", dizia um comentário, "é uma música melhor cantada a dois. Mas só um consegue dançar." A implicação era clara: Emiliano estava me traindo. E essa Keisha Matos estava se deliciando com isso.

Emiliano havia cancelado nosso jantar de aniversário, na noite anterior. "Emergência no estúdio, amor", ele sinalizou, seus olhos evitando os meus. "Prazo apertado. Você sabe como é. A gente comemora direito depois da turnê." Suas palavras, embora sinalizadas, pareciam ocas, como um tambor sem pele.

Lembrei-me de encarar a mesa elaborada que eu havia preparado, as velas bruxuleantes, o champanhe perfeitamente gelado. Tudo para nada. Sozinha no loft silencioso, o silêncio parecia mais pesado do que o normal, um cobertor sufocante. Eu até tive uma consulta de acompanhamento com meu fonoaudiólogo naquele dia. "Notável, Adell", disse o Dr. Lins, olhando para o meu canal auditivo. "O dano no nervo parece estar... revertendo. É quase um milagre. Você está recuperando alguma função."

Eu quase ri na hora, a ironia era afiada demais. Minha audição, finalmente voltando depois de todos esses anos, bem a tempo de quê?

Cliquei no perfil de Keisha Matos. Uma cascata de fotos inundou minha tela. Ela, rindo com Emiliano. Ela, pendurada em seu braço em uma balada. Ela, usando a jaqueta de couro vintage dele - a que eu comprei para ele anos atrás, a que ele jurou que nunca deixaria ninguém mais tocar. Minha respiração falhou. Ele estava usando um relógio novo, um design prateado e elegante que eu nunca tinha visto antes, brilhando sutilmente em todas as fotos dela. Não era o de ouro antigo que eu lhe dei em sua primeira grande turnê.

Um nó frio e duro se formou no meu estômago. Não era mais apenas especulação. Era real. Era gritante e dolorosamente real. Minha visão embaçou, lágrimas quentes ardendo em meus olhos. Senti um grito subindo pela minha garganta, mas ele morreu ali, sufocado por uma onda de náusea. Meu corpo tremia, cada terminação nervosa gritando em protesto.

Peguei meu celular, os dedos atrapalhados no teclado. "Onde você está?", mandei por mensagem.

A resposta dele veio minutos depois: "Ainda no estúdio, amor. Problemas enormes. Não me espera acordada."

Eu digitei: "Posso ir aí? Levar algo pra você comer?"

Silêncio.

Não, não silêncio. Uma nova postagem de Keisha Matos brilhou no meu feed. Um vídeo curto. Ela em uma balada lotada e pulsante, rindo, com o braço em volta da cintura de Emiliano. A cabeça dele estava jogada para trás, um sorriso largo e genuíno em seu rosto. O mesmo sorriso que ele não me dava há semanas.

"Na Pulse, galera! Melhor noite de todas!", dizia a legenda de Keisha.

Pulse. Não o estúdio. Ele tinha mentido. Ele estava com ela.

Meus ouvidos zumbiam, um chiado agudo que era ao mesmo tempo novo e aterrorizante. Era o som da traição, amplificado. Meu corpo parecia pesado, enraizado no lugar, mas minha mente era um turbilhão de gelo e fogo. Eu tinha que ver. Eu tinha que saber.

Peguei um táxi, as luzes da cidade um borrão do lado de fora da janela. O grave da Pulse vibrava através do asfalto, através dos meus sapatos, subindo até meu peito. Passei pelos seguranças, meus olhos varrendo a multidão pulsante. E então eu os vi.

Emiliano, sob as luzes estroboscópicas, com o braço em volta de Keisha. Ele estava rindo, a cabeça inclinada perto da dela. Um som feio e cru arranhou minha garganta. Não foi um grito. Foi um gemido, perdido na música ensurdecedora.

Eu fiquei ali, congelada, meu corpo um bloco de gelo no calor úmido da balada. Minha cabeça latejava, e a audição recém-retornada no meu ouvido esquerdo captava cada batida agonizante da música. E então, vozes.

"Olha o Emiliano, finalmente se divertindo um pouco", um de seus colegas de banda arrastou as palavras, cutucando outro cara. "O 'anjo surdo' estava ficando um pouco demais, não era?"

"É", o outro respondeu, tomando um gole de sua garrafa. "Oito anos. É muito tempo para bancar o enfermeiro. Além disso, a Adell sempre foi tão... quieta. Sabe, sem graça. A Keisha tem fogo. Exatamente o que ele precisa para continuar fazendo sucesso."

Meu coração martelava contra minhas costelas. Não eram apenas eles. A voz de Emiliano, clara como um sino, alcançou meus ouvidos. "Honestamente, ela se tornou... um fardo. Toda aquela coisa de 'meu herói', a gratidão constante. É desgastante." Ele riu, um som amargo e desdenhoso que me rasgou por dentro. "E o sexo? Como fazer um favor para um caso de caridade. Prefiro alguém que possa gritar meu nome, não apenas sinalizá-lo." Ele apertou a cintura de Keisha, e ela riu, pressionando o rosto em seu ombro.

A ironia daquela declaração me atingiu como um golpe físico. O mesmo ouvido de que ele falava, aquele que eu danifiquei para protegê-lo, agora era perfeitamente capaz de ouvir cada palavra cruel. O rugido em minha cabeça se intensificou, um peso esmagador contra meus tímpanos.

"Quer dizer, eu ainda me sinto na obrigação, sabe?", ele continuou, sua voz tingida de irritação. "Depois de tudo. O acidente. Toda a narrativa de 'ela salvou minha vida'. Não posso simplesmente largá-la. Ainda não. O casamento ainda está de pé, de fachada. Mas isso... isso é liberdade." Ele gesticulou vagamente para Keisha, seus olhos cheios de uma luz faminta que fez meu estômago revirar.

Minhas mãos se fecharam, as unhas cravando em minhas palmas. A taça de champanhe em uma mesa próxima, esquecida por seu dono, parecia zombar de mim. Era frágil, elegante, cheia de bolhas comemorativas. E então, sem pensar, eu a peguei. Meu braço balançou, impulsionado por uma força que eu não reconheci. A taça voou pelo ar, brilhando sob as luzes estroboscópicas, e se estilhaçou contra a parede logo acima da cabeça de Emiliano, o som engolido pela batida do baixo, mas o spray de líquido o fez recuar.

Ele se virou, seus olhos arregalados, a confusão se transformando em reconhecimento.

"Adell?", ele articulou, seu rosto empalidecendo.

Ponto de Vista de Adell:

Uma onda de náusea me invadiu, o choque de ver o rosto de Emiliano, pálido e horrorizado, quase insuportável. Lágrimas, quentes e incontroláveis, escorriam pelo meu rosto. Meu corpo se contorcia em soluços silenciosos. A música da balada, antes uma batida surda, agora parecia zombar do meu coração partido.

Emiliano, recuperando-se da surpresa, estendeu a mão para mim. Suas mãos, aquelas que uma vez sinalizaram tão ternamente promessas de eternidade, agora se moviam com uma urgência quase frenética. Ele formou os sinais familiares: "Adell, amor, o que você está fazendo aqui? Vamos para casa. Precisamos conversar."

Ele tentou me puxar, seu aperto firme no meu braço. Ele queria me arrastar para fora da balada, longe dos olhares curiosos e da música alta, para controlar a narrativa, para conter o desastre. Eu sabia. Aquele olhar em seus olhos não era preocupação por mim; era pânico por si mesmo.

Mas Keisha, mais ousada e possessiva do que eu esperava, se interpôs entre nós. Seus olhos, estreitos e frios, perfuraram minha vulnerabilidade crua. "Deixa ela em paz, Emiliano! Ela é sempre tão dramática. Não vê que ela está tentando estragar nossa noite?" Ela se agarrou ao braço dele, seu corpo uma barreira desafiadora.

"Não ceda a ela, Emi! Ela é patética, se agarrando a você assim", cuspiu Keisha, sua voz pingando veneno. "Sempre a vítima. Sempre precisando de você para fazê-la se sentir especial. Você merece alguém divertido, alguém que não seja sempre tão... cuidadosa."

Emiliano hesitou, seu olhar alternando entre nós. Ele não me defendeu. Ele nem mesmo tentou. Seu silêncio foi mais alto do que qualquer acusação. Minha visão turvou.

"Ela sempre foi a quietinha", Emiliano ponderou, quase para si mesmo, embora as palavras tenham chegado aos meus ouvidos com uma clareza brutal. "Sempre tão frágil. Tão facilmente quebrável. Ficou... sufocante." Ele olhou para Keisha, um sorriso fraco, quase de desculpas, em seus lábios. "Ela acha que me controla com sua impotência."

Ele realmente acreditava nisso. Ele acreditava que poderia me manipular, que meu amor era tão absoluto que eu perdoaria qualquer coisa. Sua arrogância doeu mais do que qualquer golpe físico.

Minha respiração falhou. Uma calma estranha começou a se instalar sobre mim, uma determinação arrepiante se solidificando no caos. O zumbido em meus ouvidos finalmente diminuiu, substituído por uma clareza silenciosa e determinada. Puxei meu braço do aperto de Emiliano, o movimento brusco e decisivo.

"Estou indo embora", sinalizei, meus dedos tremendo levemente, mas meu olhar inabalável. "E não vou voltar." Minha voz, embora fraca, estava firme.

Virei-me e abri caminho pela multidão de corpos, as luzes pulsantes e a música ensurdecedora um cenário surreal para o meu terremoto interno. Saí da balada, sem olhar para trás. O ar fresco da noite atingiu meu rosto, um choque bem-vindo após o calor sufocante lá dentro.

Chamei o primeiro táxi vazio que vi. "Para o aeroporto", eu disse, minha voz rouca. Minha mente disparou. As palavras de minha mãe ecoaram: "Se você algum dia perceber que cometeu um erro, sempre pode voltar para casa, Adell. Mas entenda, haverá condições." Sua condição sempre girava em torno do meu futuro, das minhas escolhas. Ela havia me alertado sobre a codependência, sobre me perder em outra pessoa. Ela queria arranjar um casamento para mim, um partido estável e rico. Eu zombei na época. Agora, a ideia não parecia tão terrível.

Senti uma pontada de arrependimento pela minha teimosia passada, por descartar sua sabedoria como um cálculo frio. Ela não era fria; ela era protetora. Ela tinha previsto isso.

O táxi acelerou pela cidade. Peguei meu celular, meus dedos ainda trêmulos, mas decididos. Abri meus contatos e encontrei o número da minha mãe. Fazia anos que eu não ligava diretamente para ela. Eu precisava dela. Eu precisava de sua força pragmática, de sua crença inabalável na estratégia.

"Mãe", eu disse, minha voz quebrando apenas um pouco. "É a Adell. Eu preciso de você. E... minha audição, ela voltou. Nos dois ouvidos." O retorno milagroso da minha audição, a única coisa positiva a emergir deste pesadelo, parecia um presente cruel, permitindo-me ouvir cada sílaba de sua traição.

"Eu aceito sua oferta", continuei, o alívio me inundando ao ouvir sua respiração ofegante do outro lado. "A apresentação arranjada. Eu me casarei com quem você escolher, desde que não seja ele. Eu quero construir uma vida real, uma vida construída no respeito, não em uma mentira."

Limpei os últimos vestígios de lágrimas das minhas bochechas, meu olhar fixo nas luzes da cidade que se distanciavam. A dor ainda era uma ferida aberta, mas por baixo dela, uma pequena faísca de resiliência tremeluzia. Eu cansei de ser a musa silenciosa e paciente. Eu cansei de ser Adell, a noiva surda. Eu era Adell Salles, e estava voltando para casa.

A decisão parecia uma extração dolorosa e excruciante, mas também como se eu estivesse me livrando de uma pele pesada e sufocante. Oito anos. Oito anos da minha vida, do meu amor, da minha audição, derramados em um homem que me via como um fardo, um caso de caridade. O peso dessa constatação se abateu sobre mim, pesado e frio. Mas com ele veio uma sensação estranha e estimulante de liberdade. A estrada à frente era incerta, mas pela primeira vez em muito tempo, era minha para escolher.

Meus dedos voaram pela tela, uma mensagem se formando para Emiliano. "Acabou. Não entre em contato comigo de novo."

Ponto de Vista de Emiliano:

O ar no loft estava pesado com o cheiro de champanhe velho e arrependimento. Minha cabeça latejava, uma batida implacável contra meu crânio, ecoando o caos da noite passada. Passei a noite ligando freneticamente para Adell, deixando mensagens de voz cada vez mais desesperadas, cada uma mais patética que a anterior. Mas o celular dela ia direto para a caixa postal. Nenhuma resposta. Nada.

Peguei a garrafa de uísque pela metade, despejando uma quantidade generosa em um copo. Keisha ainda estava dormindo na minha cama, alheia à tempestade que se formava em minha mente. A presença dela parecia... errada, uma nota dissonante na sinfonia da minha vida. Isso não deveria ter acontecido. Adell não deveria estar lá. Ela não deveria ter ouvido.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de texto. Meu coração deu um salto. Adell.

Era curta, direta e devastadora. "Acabou. Não entre em contato comigo de novo."

Minha mão tremeu, o celular quase escorregando do meu aperto. "Não. Não, não pode ser." Fiquei olhando para a tela, lendo e relendo as palavras, como se elas fossem mudar, como se fossem magicamente se transformar de volta em uma declaração de amor. Mas elas permaneceram, cruas e implacáveis.

Um grito agudo, quase animalesco, rasgou minha garganta. Joguei o celular contra a parede, vendo-o se estilhaçar em cem pedaços. O impacto mal registrou. Minha mente estava em parafuso. Acabou? Como poderia ter acabado? Oito anos. Oito anos da minha vida, da vida dela. Minha carreira. Meu tudo.

Lembrei-me dos primeiros dias, do estúdio apertado, das noites intermináveis movidas a café barato e grandes sonhos. Adell esteve lá em tudo. Minha rocha. Minha musa. Meu... fardo. Aquela palavra, a que eu pronunciei tão descuidadamente na noite passada, agora ecoava em meus ouvidos, um julgamento cruel.

Ela me empurrou para longe daquele amplificador caindo, o metal quente queimando seu ouvido, roubando-lhe a audição. "Minha garota corajosa", eu a chamei. "Eu te devo tudo." E eu quis dizer isso. Juro que sim. Mas com o tempo, a gratidão azedou em ressentimento. Sua força silenciosa, seu apoio inabalável, pareciam uma dívida que eu nunca poderia pagar. Um lembrete constante do que eu devia a ela. Do que eu havia sacrificado.

Bati com o punho na bancada de mármore, a dor uma distração bem-vinda da agonia em meu peito. "Droga, Adell!", gritei para o apartamento vazio. "Como você pôde simplesmente... ir embora?"

Mas ela não tinha simplesmente ido embora. Eu a empurrei para longe. Eu a quebrei. E agora, eu a perdi. A constatação me atingiu com a força de um tsunami. Ela se foi. E eu não tinha ninguém para culpar a não ser a mim mesmo. O uísque queimou minha garganta, mas não conseguiu anestesiar o medo frio e desesperado que tomava conta da minha alma.

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Capítulo 2

Ponto de Vista de Adell:

O mundo do lado de fora da janela do táxi era um borrão de neon e chuva, mas por dentro, eu sentia uma calma estranha e perturbadora. Minhas lágrimas haviam secado, deixando uma sensação apertada e ardente ao redor dos meus olhos. A última mensagem de Emiliano, suas tentativas patéticas de se explicar, de implorar, de racionalizar, foram ignoradas. Eu bloqueei o número dele. Eu não queria ouvir nada do que ele tinha a dizer.

A voz da minha mãe, surpreendentemente gentil em sua firmeza, tinha sido uma tábua de salvação. "Adell, querida, você sabe que minha porta está sempre aberta. Mas desta vez, você volta nos meus termos. Chega de correr atrás de sonhos vazios." Ela não se vangloriou, não disse "eu te avisei". Apenas uma compreensão silenciosa e resoluta que dizia muito.

Lembrei-me de zombar dela anos atrás, quando ela tentou me apresentar a Javier Torres. "Ele é médico, Adell", ela disse. "Estável, inteligente, de boa família. Ele te admirava na faculdade." Eu o descartei como chato, previsível demais. Meu coração estava decidido pelo caos, pela paixão crua do mundo de Emiliano. Eu queria ser aquela que o salvaria, que o construiria. Que tola eu fui.

Agora, a ideia de estabilidade, de apoio silencioso, soava como um santuário. Eu precisava de terreno firme, não das areias movediças do ego de um músico.

"Eu aceito seu arranjo, mãe", eu disse a ela, as palavras parecendo surpreendentemente certas. "Vou conhecê-lo. Vou considerar qualquer coisa. Apenas... me tire daqui." A admissão da minha audição recém-restaurada foi recebida com um silêncio atordoado, depois uma onda de alívio dela. Era como se essa cura física fosse um símbolo da minha prontidão emocional para retornar.

Limpei o último vestígio de lágrimas, endireitei os ombros e respirei fundo. Minha determinação se endureceu, uma barra de aço substituindo o vidro frágil do meu eu passado. Joguei fora oito anos, minha audição, meu orgulho, por um homem que me via como um fardo. Nunca mais.

O taxista, um homem idoso e gentil, me olhou pelo retrovisor. "Tudo bem, moça? Você parece que viu um fantasma."

Consegui um sorriso fraco. "Apenas uma noite longa." Olhei pela janela, as luzes da cidade refletindo em meus olhos. A velha Adell, aquela que vivia para Emiliano, se foi. Enterrada sob o peso de sua traição. Mas a nova Adell, ela ainda estava em construção. E ela estava voltando para o Rio de Janeiro.

O pensamento de encarar minha mãe, de admitir meu fracasso colossal, era assustador. Mas a imagem do rosto zombeteiro de Emiliano, suas palavras ecoando em meu ouvido agora perfeitamente funcional, alimentava uma raiva fria que ofuscava qualquer constrangimento. Ele me fez sentir pequena, descartável. Eu me levantaria disso, mais forte, mais orgulhosa.

Meu celular vibrou na minha mão. Era minha mãe. "O jatinho está esperando em Jacarepaguá. Meu motorista vai te encontrar no Galeão." Prática, eficiente e exatamente o que eu precisava.

Digitei uma resposta, uma única palavra: "Chegando."

Os últimos oito anos passaram diante dos meus olhos: as risadas, os sonhos compartilhados, os apartamentos apertados, os sucessos estrondosos. E então, a erosão lenta e insidiosa da minha autoestima, a distância crescente, a traição final e brutal. Tinha sido uma promessa grandiosa e vazia, construída sobre areia.

Agora, um novo capítulo. Um escrito não nas notas caóticas e apaixonadas de um hino de rock, mas no ritmo silencioso e constante do autorrespeito e do amor genuíno. Eu só não tinha percebido o quão desesperadamente eu ansiava por esse ritmo silencioso até agora.

O avião decolou, subindo acima da grade brilhante de São Paulo. Olhei para baixo, um pequeno ponto de luz em um mundo vasto e indiferente. Emiliano e Keisha, seu caso sórdido, suas palavras cruéis, agora pareciam impossivelmente distantes. Como um pesadelo do qual eu finalmente estava acordando.

Era isso. O começo de algo novo. Algo real. Eu só esperava me lembrar de como construí-lo desta vez.

A oferta da minha mãe não era apenas sobre um arranjo de casamento; era um caminho de volta para mim mesma, uma chance de reivindicar a Adell Salles que eu havia enterrado sob camadas de devoção e sacrifício. E desta vez, eu não deixaria ninguém me diminuir novamente.

O avião subiu mais alto, perfurando as nuvens. O futuro era uma tela em branco, e eu estava segurando o pincel.

Ponto de Vista de Emiliano:

O loft parecia uma jaula, seu vazio luxuoso zombando de mim. Dias se transformaram em noites, cada um pontuado pela repetição frenética do desastre da noite passada. O rosto de Adell, pálido e manchado de lágrimas, passava diante dos meus olhos. Sua voz, tão baixa, mas tão firme, dizendo: "Estou indo embora. E não vou voltar." E então aquela mensagem de texto arrepiante: "Acabou. Não entre em contato comigo de novo."

Minha cabeça latejava. Keisha, ainda aqui, flutuava por aí, alheia ao abismo que se abriu sob meus pés. "Emi, querido, você viu a nova postagem sobre nós? Todo mundo está falando sobre isso!", ela cantarolou, mostrando o celular. Mal registrei suas palavras. Uma raiva surda fervia dentro de mim. Ela deveria ser uma distração, uma breve fuga. Não isso. Não o motivo pelo qual Adell foi embora.

Tentei ligar para Adell novamente. O número dela estava bloqueado. Meu coração afundou, uma pedra fria e pesada. Tentei de um telefone diferente, um pré-pago que eu mantinha para... outros fins. Ainda bloqueado. Ela estava falando sério. Ela realmente se foi.

O pânico começou a se instalar, um pavor frio e rastejante. Adell era mais do que apenas minha noiva; ela era minha âncora. Ela cuidava de tudo, gerenciava minha agenda, apaziguava minha gravadora quando eu era difícil, suavizava minha imagem pública. Era ela quem se lembrava do aniversário da minha mãe, quem garantia que meus impostos fossem pagos, quem me lembrava de comer. Ela era o motor silencioso da minha vida caótica. E agora esse motor havia parado.

Meu empresário ligou, sua voz tensa com raiva mal contida. "Emiliano, que diabos está acontecendo? O anúncio do casamento deveria ser uma mina de ouro de relações públicas, não um desastre nuclear! As postagens de Keisha Matos estão por toda parte. A narrativa da 'noiva surda' está explodindo online, e não de um jeito bom."

Eu gritei de volta: "A culpa é da Adell! Ela apareceu na balada! Ela jogou um copo!"

A resposta do meu empresário foi arrepiante. "Não importa de quem é a 'culpa'. O público vê um astro do rock traindo sua noiva leal e com deficiência. Você precisa consertar isso. Agora."

Consertar isso. Como? Adell se foi. Meu mundo estava desmoronando. O loft, antes um símbolo do meu sucesso, agora parecia um mausoléu. Cada canto guardava uma memória dela, uma acusação silenciosa. A poltrona gasta onde ela lia, a cozinha que ela usava com moderação, mas organizava meticulosamente, o pequeno canto de gravação onde ela ouvia minhas primeiras demos, a cabeça inclinada, aquele sorriso suave e conhecedor em seu rosto.

Fui até o armário, pegando a jaqueta de couro vintage que Keisha estava usando em suas fotos virais. Cheirava fracamente ao perfume barato dela, um contraste gritante com o cheiro sutil e elegante de Adell. Lembrei-me de Adell comprando para mim, seus olhos brilhando. "Para o meu astro do rock", ela sinalizou, dando um beijo na minha bochecha. A jaqueta parecia pesada, de repente nojenta. Arranquei-a do cabide e joguei no lixo.

Eu precisava encontrá-la. Eu precisava fazê-la entender. Isso foi um erro. Um momento de fraqueza. Ela era minha musa. Meu anjo. Eu não podia perdê-la. Não agora, quando tudo que eu construí parecia tão precário sem ela.

Peguei meu violão, um instrumento feito sob medida que Adell havia encomendado para mim. Meus dedos voaram pelo braço, mas as notas eram dissonantes, sem alegria. A música, minha força vital, parecia vazia. Sem Adell, não havia melodia. Apenas ruído.

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Capítulo 3

Ponto de Vista de Adell:

Rio de Janeiro. A cidade das possibilidades infinitas, da ambição altíssima, das realidades duras. Fazia oito anos desde a última vez que a chamei de lar, desde a última vez que vivi sob o teto meticulosamente curado de minha mãe. O ar, fresco com a promessa do outono, parecia diferente aqui. Mais limpo. Mais nítido. Como uma faca recém-afiada, pronta para cortar o peso morto do meu passado.

O motorista da minha mãe me encontrou no aeroporto de Jacarepaguá, uma presença familiar e estoica da minha infância. Ele simplesmente acenou, pegou minha única mala e me levou ao Bentley que esperava. Sem perguntas, sem julgamentos. Apenas um serviço eficiente e silencioso, exatamente como eu me lembrava.

A cobertura, ainda na Avenida Vieira Souto, ainda exalava aquela aura de dinheiro antigo e tradição inflexível. Mas desta vez, parecia menos uma jaula e mais uma fortaleza. Ao entrar, o cheiro familiar de lírios caros e madeira polida encheu meus sentidos. Minha mãe, Cristina Salles, estava no grande hall de entrada, seu cabelo prateado perfeitamente penteado, sua expressão indecifrável.

"Adell", ela disse, sua voz mais suave do que eu me lembrava, mas ainda carregando aquele aço subjacente. Ela não me abraçou, mas seus olhos, geralmente tão guardados, continham um lampejo de algo que eu não via há anos: preocupação. "Você parece... cansada."

Eu assenti, o eufemismo quase risível. "Eu estou."

Ela me levou para a sala de estar, onde um bule de chá Earl Grey já estava sendo preparado. "Conte-me tudo", ela ordenou, não de forma rude.

Eu relatei a história, a postagem viral, a balada, as palavras. Cada detalhe agonizante. Enquanto eu falava, sua expressão endureceu, uma máscara familiar de desaprovação aristocrática se instalando em suas feições. Mas também havia um lampejo de dor em seus olhos, um reflexo da minha própria.

"Eu te avisei, Adell", ela disse, sua voz baixa. "Eu te disse que ele era um sonhador. Sonhadores perseguem seus próprios desejos, nunca vendo verdadeiramente os sacrifícios feitos por eles." Ela fez uma pausa, seu olhar direto, inabalável. "Eu também te avisei para não ser uma mera companheira na jornada de outra pessoa. Você tentou construí-lo, ser sua salvadora. Mas você se perdeu no processo."

Eu engoli em seco, o chá de repente com um gosto amargo. Ela estava certa. Cada palavra.

"E agora, minha audição voltou", acrescentei, quase como um pensamento posterior. "Bem a tempo de ouvi-lo me chamar de fardo." A ironia era uma torção cruel da faca.

Minha mãe fechou os olhos por um momento, uma rara demonstração de emoção. "Um milagre, talvez. Ou uma cruel reviravolta do destino. Mas é um presente, Adell. Uma chance de ouvir de verdade, não apenas o mundo, mas a si mesma." Ela abriu os olhos, seu olhar penetrante. "Você disse que aceitaria meu arranjo."

"Eu disse", afirmei, minha voz mais forte agora. "Eu vou. Chega de ilusões românticas. Eu quero estabilidade, respeito. Um parceiro, não um projeto."

Ela assentiu, um leve sorriso tocando seus lábios. "Bom. Javier Torres. Você se lembra dele?"

Javier. O nome enviou um leve lampejo através da minha memória. Um garoto quieto e inteligente da faculdade, sempre sério, sempre gentil. Ele me admirava, eu sabia. Mas eu estava muito ocupada correndo atrás de um astro do rock.

"Eu me lembro", eu disse, uma estranha mistura de apreensão e curiosidade se agitando dentro de mim.

Minha mãe continuou, seu tom suavizando um pouco. "Ele se tornou um cirurgião cardiovascular muito respeitado. Construiu sua própria clínica. Sem drama, sem escândalos. Apenas competência silenciosa. Ele ainda não se casou. E ele pediu especificamente uma apresentação a você."

Ele me pediu? Depois de todos esses anos? O pensamento foi estranhamente reconfortante.

Uma empregada apareceu, colocando discretamente um iPad na mesa de centro. Minha mãe gesticulou para ele. "Enquanto você estava... fora, os problemas de Emiliano começaram. O público não está reagindo bem à sua última escapada."

Observei enquanto ela rolava por artigos de notícias. "Reputação de Emiliano Rocha Manchada", "Noiva Adell Salles Fica em Silêncio", "Fãs Exigem Respostas". A seção de comentários, antes cheia de adoração, agora fervia de raiva. Minha história, amplificada pela internet, estava virando o jogo. A "noiva surda" agora era vista como uma vítima, não um fardo.

"O que Emiliano fez é abominável", afirmou minha mãe, sua voz tensa de desaprovação. "Mas essa reação pública, é uma faca de dois gumes. Vai destruí-lo, mas também garantirá que você não seja esquecida. Você será vista como a parte injustiçada, aquela que merece algo melhor."

Uma satisfação sombria se instalou em meu peito. Eu não queria que ele fosse destruído, não de verdade. Mas também não queria que ele escapasse das consequências de suas ações. Finalmente entendi a abordagem pragmática da minha mãe para a vida. Não era sobre amor, mas sobre sobrevivência. Sobre reconstruir.

"Preciso descansar", eu disse, esfregando minhas têmporas. O peso do mundo, de todas essas novas decisões, parecia pesado.

Minha mãe assentiu. "Claro. Seu antigo quarto está pronto. E Adell... bem-vinda de volta." Suas palavras não eram um convite; eram uma afirmação.

Enquanto eu subia a familiar grande escadaria, o silêncio da cobertura era um contraste gritante com o caos pulsante da balada. Era um silêncio curativo, um silêncio que prometia paz, não negligência. Eu estava em casa. E pela primeira vez em muito tempo, senti que estava exatamente onde precisava estar.

A força silenciosa da minha mãe, seu apoio inabalável, foi um bálsamo para minha alma maltratada. Eu sabia que este caminho não seria fácil, mas parecia certo. Parecia caminhar em direção à luz, longe da escuridão em que ele me mergulhou.

Entrei no meu antigo quarto, um santuário de tons pastel suaves e móveis antigos. A cama, com seus lençóis brancos e impecáveis, parecia convidativa. Afundei nela, puxando um cobertor macio ao meu redor. Os últimos vestígios de lágrimas finalmente secaram. Meu futuro, antes tão inextricavelmente ligado a Emiliano, agora estava completamente desvinculado. Era aterrorizante e estimulante.

Fechei os olhos, imaginando Javier Torres. Um médico. Estável. Gentil. Era um contraste gritante com a vida que eu acabara de deixar. E pela primeira vez, senti um lampejo de esperança que não estava ligado a uma promessa grandiosa e vazia, mas a algo silencioso, constante e real.

O barulho da cidade zumbia suavemente lá fora, uma presença constante e reconfortante. Chega de celebrações encenadas. Chega de traições ocultas. Apenas a reconstrução silenciosa de uma vida. E desta vez, eu a construiria para mim mesma.

O passado era um livro fechado, queimado até as cinzas no fogo de sua traição. E eu, Adell Salles, estava pronta para escrever uma nova história. Uma melhor.

Ponto de Vista de Emiliano:

O silêncio no loft era ensurdecedor, um lembrete constante da ausência de Adell. Dias se transformaram em uma semana, depois duas. Minhas ligações não foram atendidas. Minhas mensagens, não lidas. Meu empresário ainda estava no meu pé, exigindo que eu "consertasse esse pesadelo de relações públicas". Mas como eu poderia consertar qualquer coisa quando a única pessoa que sabia como me consertar se foi?

Keisha, abençoado seja seu coração superficial, não ajudava em nada. Ela flutuava pelo meu loft, tentando ser alegre, tentando me distrair. "Emi, amor, vamos sair! Todo mundo está falando de nós, deveríamos dar um show para eles!", ela arrulhava, alheia ao fato de que "todo mundo" agora estava principalmente me despedaçando online.

Eu a afastei. "Apenas... me deixe em paz, Keisha." Ela fez beicinho, seus olhos grandes e inocentes, mas sua presença era como uma lixa para meus nervos em carne viva. Eu não suportava o jeito que ela me olhava, como se eu fosse um prêmio que ela havia ganhado. O que eu vi nela? Uma emoção passageira, uma fuga desesperada da gratidão sufocante que eu sentia por Adell.

Passei meus dias andando pelo loft, olhando para o lado vazio da cama dela, sentindo o buraco enorme que ela deixou para trás. Meu celular era uma fonte constante de agonia. Artigos de notícias e postagens em redes sociais narravam minha queda. "Emiliano Rocha: De Astro do Rock a Destroços", "O Custo da Traição: Fãs Abandonam Rocha". As vendas do meu álbum despencaram. Datas de shows estavam sendo canceladas. Minha gravadora estava furiosa.

O silêncio ficou mais alto, ecoando o vazio em meu peito. Tentei escrever, mas a música não vinha. Meu violão parecia pesado, sem vida. Cada acorde que eu tocava soava oco, zombeteiro. Adell tinha sido minha musa, minha inspiração. Sem ela, eu era apenas um homem cansado com um coração partido e uma carreira em rápida desintegração.

Lembrei-me de sua força silenciosa, da maneira como ela conseguia acalmar minha energia frenética com um único olhar. Sua lealdade, sua crença inabalável em mim, foram a base do meu sucesso. E eu joguei tudo fora por uma emoção barata, por um impulso passageiro de ego.

Eu precisava dela. Eu precisava de sua presença silenciosa, de sua mão firme. Eu precisava do seu perdão. Mas como eu poderia conquistá-lo? Eu a chamei de fardo. Eu praticamente assinei meu amor para fora da existência. A lembrança das minhas palavras, claras como um sino em minha mente, parecia um ferro em brasa na minha alma.

Peguei os pedaços espalhados do meu celular quebrado. Era inútil. Assim como eu. Eu precisava encontrá-la. Eu tinha que. Mesmo que significasse rastejar de joelhos, implorando por uma segunda chance. Porque sem Adell, eu não era nada.

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