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Enterrada Viva: Seu Espírito Inquebrável

Enterrada Viva: Seu Espírito Inquebrável

Autor:: Eleanor
Gênero: Moderno
Dez anos atrás, eles me enterraram viva. Meu noivo, Caio, e meu irmão adotivo, Alan, me internaram à força, me acusando de louca para encobrir o caso dele com Carina, a filha biológica perdida da minha família. Eles me apagaram de suas vidas perfeitas, me pintando como um perigo para mim mesma e para os outros. Enquanto eu era deixada dopada e destroçada numa clínica psiquiátrica, ele se casou com ela, garantindo sua conexão com o poder da nossa família e decolando em sua carreira política. Mas eu sobrevivi. Reconstruí uma vida tranquila das cinzas, encontrando paz numa pequena livraria à beira-mar. Este era o meu santuário. Até hoje. Eles entraram pela minha porta, quebrando uma década de silêncio. Caio, agora um poderoso Promotor de Justiça de olho no Senado, me encarou, sua compostura se quebrando. "Clara?" Encarei seu olhar, minha voz gélida e firme, a voz que eu usava para qualquer estranho. "Posso ajudar?"

Capítulo 1

Dez anos atrás, eles me enterraram viva. Meu noivo, Caio, e meu irmão adotivo, Alan, me internaram à força, me acusando de louca para encobrir o caso dele com Carina, a filha biológica perdida da minha família.

Eles me apagaram de suas vidas perfeitas, me pintando como um perigo para mim mesma e para os outros. Enquanto eu era deixada dopada e destroçada numa clínica psiquiátrica, ele se casou com ela, garantindo sua conexão com o poder da nossa família e decolando em sua carreira política.

Mas eu sobrevivi. Reconstruí uma vida tranquila das cinzas, encontrando paz numa pequena livraria à beira-mar. Este era o meu santuário.

Até hoje.

Eles entraram pela minha porta, quebrando uma década de silêncio. Caio, agora um poderoso Promotor de Justiça de olho no Senado, me encarou, sua compostura se quebrando.

"Clara?"

Encarei seu olhar, minha voz gélida e firme, a voz que eu usava para qualquer estranho.

"Posso ajudar?"

Capítulo 1

Dez anos atrás, eles me enterraram viva. Hoje, eles entraram na minha livraria.

O sino acima da porta tocou, um som geralmente associado a boas-vindas, mas desta vez pareceu um sino da morte. Levantei o olhar do balcão que estava limpando. Minha mão congelou. O pano escorregou dos meus dedos, caindo com um baque úmido na madeira polida.

Caio Mendes. Alan Rocha. Eles estavam parados na entrada, silhuetas contra o sol forte do litoral.

Caio, ainda impossivelmente bonito, mais velho agora, com um ar mais afiado em seu terno feito sob medida. Ele era um Promotor de Justiça, mirando uma vaga no Senado, as notícias sussurravam. Alan, meu irmão adotivo, parecia exatamente como eu me lembrava, apenas mais frio. Seu relógio caro brilhou quando ele ajustou o punho da camisa. Ele era um CEO implacável, o construtor de um império.

Minha respiração falhou. O ar ficou denso e pesado, como o silêncio que sempre precede uma tempestade.

Eles estavam na minha tranquila livraria-café, o santuário que eu construí das cinzas da minha antiga vida. Um lugar pequeno e despretensioso à beira-mar, cheio do cheiro de papel antigo e café fresco. Esta era a minha paz. Minha paz duramente conquistada.

Os olhos de Caio, o mesmo azul penetrante que eu lembrava, se fixaram nos meus. Ele parecia chocado. Seu olhar vacilou para o pequeno livro de capa de couro gasta que eu estava segurando, depois de volta para o meu rosto. Uma batalha silenciosa se desenrolou entre nós, uma década de história não reconhecida pairando no ar.

Alan, sempre o pragmático, foi mais rápido em se recuperar. Sua mão foi para o bolso, como se para esconder algo, um gesto nervoso que eu reconhecia da nossa infância. Ele pigarreou, tentando quebrar o feitiço.

Peguei o pano, devagar, deliberadamente. Meus movimentos eram calmos, praticados. Minhas mãos não tremiam. Continuei a limpar o balcão, meu olhar fixo na tarefa, não neles. Este era o meu espaço. Eu estava no controle aqui.

"Posso ajudar?", perguntei, minha voz neutra, profissional. Era o tom que eu usava com qualquer cliente, um estranho.

Caio se encolheu. A máscara de compostura que ele usava rachou por um segundo. Ele engoliu em seco. "Clara?", ele murmurou. Meu nome, saindo de seus lábios, parecia alienígena.

Eu não reconheci a pergunta. Continuei limpando, minha postura ereta. "Procurando algum livro em especial? Ou talvez um café?"

Alan deu um passo à frente, sua expressão indecifrável. "Faz... faz muito tempo", disse ele, com a voz rouca. Ele olhou ao redor da pequena loja, seus olhos demorando nas prateleiras de livros, nos cantos de leitura aconchegantes. Ele provavelmente esperava me encontrar em alguma sarjeta, não prosperando.

"De fato", respondi, ainda sem encontrar seu olhar diretamente. "Dez anos, para ser exato." Meu tom não entregava nada. Sem raiva, sem tristeza, apenas uma simples constatação de fato.

Caio mudou o peso do corpo. "Você... você parece bem", ele finalmente conseguiu dizer, a voz tensa. Era uma tentativa desajeitada de conversa fiada, um ramo de oliveira coberto de espinhos.

"Eu estou", eu disse, com uma pequena pausa. "E você, Sr. Mendes? Ainda subindo na carreira política?" Usei seu sobrenome, uma fronteira clara entre nós. Não Caio. Não o garoto que um dia amei.

Ele recuou como se tivesse sido atingido. Seu rosto empalideceu. A cor sumiu de seus lábios. Ele ficou ali, congelado, a realidade da minha fria indiferença o atingindo mais forte do que qualquer discussão ou acusação jamais poderia.

Alan, vendo a reação de Caio, interveio. "Estávamos apenas de passagem", disse ele rapidamente, um toque de desespero em sua voz. "Carina queria conhecer essa parte do litoral."

Carina. O nome cortou o ar, afiado e frio. Era sempre Carina. A mulher que roubou minha vida, a quem Caio escolheu em meu lugar. Grávida, eu me lembrava. As notícias haviam mencionado.

"Entendo", eu disse, minha voz ainda plana. "Espero que ela aproveite a visita." Eu não me importava. Não mais. A simples menção de seu nome não trazia mais uma onda de dor, apenas uma dor distante e surda. Era uma cicatriz, não uma ferida aberta.

"Além disso", Alan continuou, ignorando o constrangimento, "minha mãe está aqui. Eunice. Ela estava... se perguntando se você estaria disposta a vê-la." Ele olhou para mim, um brilho de algo que poderia ser esperança em seus olhos.

Finalmente encontrei seu olhar. Minha mãe adotiva, a mulher que assinou os papéis que me mandaram embora. "Não há nada para ver", eu disse, minha voz firme. "E, por favor, não mencione minha presença a ela. Isso só causaria um sofrimento desnecessário." Para eles, não para mim.

Caio abriu a boca, um som desesperado escapando de seus lábios, mas nenhuma palavra veio. Ele parecia perdido, esvaziado. O carisma que o tornava tão atraente, tão perigoso, havia desaparecido.

Nesse momento, a porta dos fundos do café se abriu com um estrondo. Luana entrou com tudo, seu cabelo rosa-choque um respingo de cor contra o interior rústico. "Clara! Terminei de reabastecer a seção de arte! Posso fazer uma vitamina pra mim?", ela tagarelou, seus olhos arregalados de entusiasmo.

Seu olhar varreu as três figuras na frente do balcão. Luana, a família que eu escolhi, a adolescente ferozmente leal que eu acolhi anos atrás. Ela tinha um brilho travesso nos olhos, uma mente afiada sob um exterior muitas vezes problemático. Ela era tudo o que a família Rocha não era – genuína, barulhenta e cheia de vida.

Um sorriso genuíno, um que alcançou meus olhos, suavizou minhas feições. Era um sorriso que eu não dava a ninguém nesta sala há uma década. "Claro, querida", eu disse, minha voz calorosa. "Fique à vontade."

Luana sorriu para mim, depois olhou de volta para Caio, Alan e a agora silenciosa Carina, que permaneceu escondida atrás deles até agora. Carina, com uma gravidez avançada, o rosto pálido e abatido, agarrou o braço de Caio. Seus olhos encontraram os meus, arregalados com uma mistura de medo e outra coisa, algo que eu não conseguia decifrar.

"Bem", eu disse, virando-me de volta para o trio, meu sorriso desaparecido, minha voz fria novamente. "Se não for mais nada, tenho clientes esperando." Meu olhar varreu propositalmente o café quase vazio. Era uma dispensa, clara e inequívoca.

Os olhos de Caio caíram no balcão, ainda úmido da minha limpeza. Ele encarou o local onde o pano havia caído, depois a pequena e intrincada concha que eu mantinha ao lado da caixa registradora, um símbolo da minha nova vida. Sua mandíbula se contraiu. Ele parecia querer dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras pareciam presas em sua garganta.

Alan colocou a mão no ombro de Caio, um sinal silencioso. Ele acenou secamente para mim, um lampejo de dor em seus próprios olhos. Eles se viraram, uma retirada silenciosa, e saíram da loja. O sino tocou novamente, uma nota final e arrepiante.

Luana, sempre observadora, os viu sair, a testa franzida. "Uau, Clara", disse ela, sua voz baixando para um sussurro. "Quem eram aquelas pessoas? Pareciam importantes. Tipo, gente que aparece no jornal."

Peguei o pano novamente, retomando minha tarefa. "Apenas velhos conhecidos, Luana", eu disse, minha voz calma, quase sem emoção. "Nada mais."

Mas Luana era esperta. "O homem de terno elegante, Caio Mendes? Ele não é aquele Promotor de Justiça que está concorrendo ao Senado? E o outro parecia o Alan Rocha, o CEO do Grupo Rocha." Ela recitou os nomes deles, com os olhos arregalados. "Eles pareciam te conhecer."

Apertei o pano. A verdade parecia uma pílula amarga, mas eu a engoli tantas vezes. "Eles conheciam, uma vez", admiti, minha voz quase inaudível. "Há muito tempo."

Foram eles que me destruíram.

Eu me lembrava do aço frio da maca, das mãos rudes me segurando. Das paredes brancas e estéreis da clínica psiquiátrica. Dos medicamentos forçados que entorpeciam meus sentidos, borravam as bordas da minha sanidade. Eles chamaram de crise nervosa. Eu chamei de prisão.

Eu me lembrava do rosto de Alan, desprovido de emoção, enquanto ele assinava os papéis. Sua mão segurando a caneta firme, traindo a irmã que ele um dia adorou. Caio, ao lado dele, já calculando seu próximo movimento, seus olhos desprovidos do amor que ele um dia jurou sentir por mim. Ele havia garantido sua conexão com a família Rocha, com seu poder e influência, me jogando fora.

Eles me apagaram de suas vidas, de sua história. Eles me pintaram como instável, um perigo para mim mesma e para os outros. Tudo para proteger suas mentiras cuidadosamente construídas, suas vidas perfeitas. Tudo para encobrir o caso sórdido de Caio e Carina.

Eles me deixaram naquele lugar, destroçada e abandonada. Mas eu não estava mais destroçada. Não por eles, de qualquer maneira. Eu me reconstruí, pedaço por pedaço estilhaçado. E eu não os deixaria me estilhaçar novamente.

Capítulo 2

"Clara? O que é isso?" A voz de Luana me tirou dos cantos escuros da minha memória. Ela segurava uma pequena pulseira de linha trançada, vermelho-escura, quase marrom, com uma mancha fraca, cor de ferrugem. Ela estava remexendo em uma caixa esquecida no depósito dos fundos.

Meu sangue gelou. Minhas mãos, ainda no balcão, se fecharam. Era um pedaço do meu passado que eu pensei ter enterrado fundo. "Onde você achou isso?" Minha voz foi mais áspera do que eu pretendia.

Luana se encolheu. "Só nesta caixa velha de coisas esquecidas. Parece que já foi bonita. É sua?"

Caminhei até lá, meus movimentos rígidos. Meu olhar caiu sobre a pulseira. O padrão era inconfundível. Eu mesma a havia trançado, anos atrás. "Era", eu disse baixinho, pegando-a dela. A mancha fraca, eu sabia, era sangue seco. Meu sangue. Daquela noite.

Isso me levou de volta ao começo, a um tempo antes da traição, antes da dor. Um tempo em que eu pensava que Caio era meu futuro.

Eu me lembrava da primeira vez que o vi. Ele era um garoto na época, mal tinha dezessete anos, encolhido no beco atrás da mansão dos Rocha. A chuva caía, grudando seu cabelo escuro no rosto. Ele estava tremendo, machucado, uma ferida aberta no mundo opulento que eu habitava. Ele vinha de uma família falida, um mundo de pobreza e violência que eu não conseguia imaginar. Meus pais, os Rocha, o teriam mandado embora.

Mas eu não consegui. Algo em seus olhos, uma inteligência feroz e desesperada, me chamou. Eu tinha 16 anos, era privilegiada e ingênua. Eu o trouxe para dentro, contra as objeções furiosas da minha mãe adotiva, Eunice. Alan, meu irmão adotivo mais velho, ficou do lado da mamãe. Mas eu me mantive firme. Eu insisti. Ele precisava de ajuda. Eu vi uma faísca nele, um potencial que merecia mais do que um beco frio e úmido.

Eu cuidei dele até se recuperar. Dei aulas de reforço, o ajudei a recuperar o tempo perdido na escola. Ele era brilhante, uma esponja para o conhecimento. Ele absorvia tudo, da etiqueta à economia. Ele se transformou de um garoto de rua em um jovem polido e ambicioso. Ele era meu projeto, meu confidente, minha sombra. Ele me chamava de sua "salvadora".

Crescemos juntos, navegando nas águas traiçoeiras da alta sociedade da família Rocha. Éramos inseparáveis. Ele era "meu Caio". Compartilhávamos segredos sussurrados ao luar, escapávamos para bares decadentes, sonhando com um futuro longe das expectativas sufocantes dos meus pais adotivos. Nos apaixonamos, um amor secreto e fervoroso forjado na rebelião e em sonhos compartilhados.

"Vou entrar para o exército", ele me disse uma noite, seus olhos brilhando de determinação. "Ganhar alguma experiência, fazer um nome para mim. Depois eu volto para você, Clara. Vamos construir nosso próprio império, longe de tudo isso." Ele me prometeu a lua, e eu acreditei nele.

Antes de ele partir, eu trancei esta pulseira para ele. Um símbolo do nosso laço, do nosso futuro. Ele a usaria sempre, ele jurou. Um lembrete constante.

Meu pai adotivo, no seu jeito quieto, mexeu uns pauzinhos. Caio foi promovido rapidamente, recebendo oportunidades com as quais outros só podiam sonhar. Ele se destacou, subindo na hierarquia com uma velocidade espantosa. Ele era brilhante, carismático, implacável quando precisava ser. Tudo o que eu sempre vi nele.

Quando ele voltou, um oficial condecorado, eu estava em êxtase. Nosso futuro estava finalmente ao nosso alcance.

Então, o mundo virou. A verdade sobre meu nascimento, uma reviravolta cruel do destino. Eu não era uma Rocha de sangue. Tinha sido trocada na maternidade, um erro biológico, um constrangimento social. Carina, a filha verdadeira deles, foi encontrada. Ela foi trazida para nossas vidas, uma estranha, um fantasma de um passado que eu nunca conheci.

Meus pais adotivos, Eunice e Ricardo Rocha, foram consumidos pela culpa. Eles insistiram que meu lugar na família estava seguro. Eles abraçaram Carina com um fervor igual, se não maior. Alan, sempre buscando a aprovação de seus pais, rapidamente se alinhou, cobrindo sua irmã biológica de afeto.

Caio, minha rocha, meu amor, reiterou sua promessa. "Isso não muda nada, Clara", ele sussurrou, me abraçando forte. "Eu sempre vou te proteger. Isso só significa que temos que lutar mais pela nossa própria vida juntos."

Tentei ser acolhedora, abraçar Carina. Eu também me sentia culpada, por viver a vida dela, mesmo sem saber. Apresentei-a aos meus amigos, ao meu mundo. Eu até a levava nos meus encontros com o Caio. Ela era tão doce, tão inocente, ou assim eu pensava. Uma garota ingênua que havia sido privada de sua família por direito. Eu queria compensá-la, fazê-la se sentir amada. Eu fui tão estúpida.

Caio, meu Caio, começou a mudar. Seus olhos demoravam em Carina um pouco mais do que o normal. Seu toque, quando ele segurava minha mão, parecia... distraído. Eu ignorei, disse a mim mesma que era minha imaginação, minha insegurança após a revelação da minha adoção.

Então veio a véspera de Ano Novo. O acidente. Um motorista bêbado, um borrão de faróis. Caio desviou. Naquela fração de segundo, eu vi sua escolha. Ele protegeu a Carina, puxando-a para perto, protegendo o corpo dela com o seu. Eu fui jogada de lado, batendo no painel, vidro se estilhaçando ao meu redor.

Eu fiquei ali, atordoada, sangue escorrendo de um corte na minha testa. Minha cabeça latejava. Minha visão nadava. Mas eu os vi. Caio, segurando Carina, verificando se ela estava ferida, seu rosto marcado pela preocupação. Ele nem sequer olhou na minha direção.

A verdade fria e dura me atingiu em cheio. Não era minha imaginação. Era real. O amor, as promessas, a proteção – tudo havia mudado. Eu não era mais sua prioridade. Eu não era mais dele. Eu estava sozinha, sangrando, e completa, irrevogavelmente traída.

Capítulo 3

Eu os vi pela porta entreaberta, seus corpos entrelaçados na luz fraca do escritório. A risada de Carina, leve e arejada, flutuou para fora. A voz profunda de Caio, um murmúrio de palavras carinhosas. Meu mundo, já fraturado, se estilhaçou em um milhão de pedaços.

Era um pesadelo, mas eu estava bem acordada. O ar em meus pulmões parecia grosso, como lama. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Minha visão embaçou, não de lágrimas, mas de uma raiva súbita e vertiginosa.

Abri a porta com um estrondo. O som ecoou pela casa silenciosa. Eles se separaram num pulo, como crianças culpadas pegas roubando biscoitos. Carina gritou, se apressando para se cobrir. O rosto de Caio era uma máscara de choque, e depois, rapidamente, de raiva.

"O que você pensa que está fazendo?", gritei, minha voz crua e quebrada. Avancei no Caio, minhas mãos voando, unhas à mostra. Arranhei seu rosto, seu pescoço, qualquer coisa que eu pudesse alcançar. O desejo de infligir dor, de fazê-lo doer tanto quanto eu, era avassalador.

Ele agarrou meus pulsos, torcendo-os, seu aperto como ferro. "Clara, pare com isso!", ele rosnou, seus olhos em chamas. Ele me empurrou para longe. Eu tropecei para trás, batendo na quina afiada de uma mesa de mogno. Uma dor lancinante atravessou meu quadril.

Carina, agora encolhida atrás de Caio, espiou, seus olhos arregalados com um terror fingido. "Caio, querido, ela enlouqueceu!", ela choramingou. "Ela está te machucando!"

"Louca?", eu ri, um som áspero e sem humor que rasgou minha garganta. "Eu estou louca? Vocês dois, fazendo isso na minha casa? Ele era meu noivo! E você... você é minha irmã!"

O rosto de Carina endureceu. "Ele nunca foi verdadeiramente seu, Clara. Ele me amava. Sempre amou. Você só o pegou primeiro porque eu não estava aqui." Sua voz, antes tão doce, estava tingida de veneno.

"Sua vadia manipuladora!", gritei, minha mente se desfazendo. "Espero que vocês dois queimem no inferno! Espero que sofram! Espero que morram!" As palavras jorraram de mim, venenosas e descontroladas.

O lábio de Caio se curvou em um desprezo. "Você precisa de ajuda, Clara. Ajuda séria. Você está perdendo o controle. Talvez um médico possa te fazer entrar na razão." A frieza em sua voz foi como um golpe físico.

Nesse momento, Eunice e Alan entraram correndo, atraídos pela comoção. Eunice olhou para a cena, seu rosto contorcido em nojo. "Clara! O que diabos está acontecendo aqui? Pare com isso imediatamente!", ela ordenou, sua voz afiada e autoritária.

"Ela enlouqueceu, mamãe!", Carina soluçou, agarrando-se a Caio. "Ela nos atacou! Disse coisas terríveis!"

Alan me encarou, seus olhos cheios de decepção. "Clara, acalme-se. Essa não é você."

"Essa não sou eu?", engasguei, apontando um dedo trêmulo para Caio e Carina. "Eles me traíram! Eles estão tendo um caso!"

Eunice ofegou, a mão voando para a boca. "Já chega! Carina é sua irmã! Como você pôde acusá-la de tal coisa? Você está transtornada, querida. Está imaginando coisas."

Eles se uniram contra mim, suas palavras uma barragem de acusações e dispensas. Eu era a histérica, a louca, a mentirosa. Eu era uma estranha, sempre fui. Eles eram a família. Eles estavam unidos. E eu estava sozinha.

Eu não conseguia respirar. Sentia como se estivesse me afogando, sufocando sob o julgamento coletivo deles. Eles me olhavam com pena, com desdém, com medo. Eu era o problema. Eu era a louca.

Fugi de casa, correndo sem rumo pela noite. Acabei do lado de fora do quartel militar de Caio, gritando seu nome, implorando para que ele saísse, para explicar, para negar tudo. Ele apareceu no portão, seu rosto iluminado pelas luzes duras da rua. "Vá para casa, Clara", disse ele, com a voz plana. "Se você não parar com isso, terei que conseguir uma ordem de restrição."

Tentei expô-los. Contatei tabloides, desesperada para contar minha história. Mas a família Rocha tinha vastos recursos, conexões poderosas. Meus gritos desesperados foram silenciados, distorcidos, virados contra mim. Fui pintada como uma mulher desprezada e instável, obcecada e delirante.

Uma manhã, eu estava do lado de fora do prédio do Grupo Rocha, uma faixa grosseira pendurada nos ombros. "CAIO MENDES, TRAIDOR E MENTIROSO! CARINA ROCHA, DESTRUIDORA DE LARES!", gritei, minha voz crua, minha garganta queimando. Eu queria arruiná-los, assim como eles me arruinaram.

Os seguranças dos Rocha, homens que me conheciam desde a infância, avançaram sobre mim. Eles me arrastaram, chutando e gritando, de volta para a mansão. Eunice me encontrou na porta, seu rosto uma máscara de fúria fria. Ela me deu um tapa no rosto, forte o suficiente para arder.

"Sua criatura ingrata!", ela cuspiu. "Você tirou tudo da Carina! Vinte anos da vida dela! Você não vai arruinar o pouco que lhe resta!"

Eles me trancaram no porão empoeirado e frio. Dias se transformaram em noites. Eles me deixaram passar fome, me negaram o sono. Eles me quebraram, física e mentalmente. Meu espírito, antes tão desafiador, murchou sob sua crueldade implacável.

Então, um dia, Caio apareceu na porta do porão. Ele estava em seu uniforme de gala, parecendo elegante, impecável. Ele segurava um documento na mão. "A licença de casamento foi aprovada, Clara", disse ele, sua voz desprovida de emoção. "Carina e eu vamos nos casar neste fim de semana."

Minha visão nadou. Meu coração parou. Era isso. O golpe final.

Ele olhou para mim, um lampejo de algo em seus olhos, algo que eu não conseguia decifrar. "Eu disse a eles que me casaria com você se você parasse de lutar", disse ele, um tom estranho e oco em sua voz. "Eu disse a eles que cuidaria de você."

Ele me ofereceu uma mão, mas parecia uma armadilha, um cálice envenenado. Minha mente disparou, tentando entender. Casar comigo? Depois de tudo isso? Não fazia sentido. Era um adiamento, mas um que parecia muito mais aterrorizante do que qualquer punição.

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