Já estava anoitecendo, e eu como um ótimo adolescente de quinze anos, fui em um passeio com os meus amigos no shopping de Belo Horizonte. Nós caminhávamos pelos corredores e lojas caindo em risadas bobas, até que eu senti que alguma coisa ruim estava por vir...
Olá, eu me chamo Uriel, e sou uma aberração no sentido de anjos e demônios. Nessa historia, eu vou contar toda a minha trajetória enquanto estava no mundo dos mortais.
Para começar, vamos voltar um pouco antes de irmos ao shopping. Esses são Bárbara e Jack, os meus pais que eu tanto amo, e esse pirralho ali é o meu irmãozinho Nicolas. Todos vivíamos felizes em nossa casa, até que do nada as coisas começaram a ficar descontroladas.
Minha mãe sempre que brigava feio comigo por alguma bagunça ou outras coisas erradas que eu fazia, me deixava repleto de ódio, e parecia que eu não era o único sentindo o mesmo. Todos ao meu redor, menos o Nicolas, começavam a sentir raiva, desprezo e várias outras sensações negativas. Mas assim que me acalmava, as coisas voltavam ao normal. Com aquilo na cabeça, sempre tentei ficar calmo sempre que discutia com alguém para que aquilo não voltasse a se repetir. Era por esse motivo que quase todo dia, eu ia dar uma volta com meus amigos Luiz e Alyssa.
Aqueles dois aproveitavam o meu momento de "esfriar a cabeça" para ir ao shopping em Belo Horizonte toda vez em que saíamos. Até que em uma dessas idas ao shopping, senti uma presença desconfortável perto de mim, como se a temperatura estivesse cada vez mais baixa.
Deixei aqueles dois tagarelas conversando sozinhos e fui para o banheiro correndo, e com certeza essa foi a pior decisão que já tinha tomado até ali.
Assim que a porta se fechou, minha respiração ficou mais pesada. Quando inspirei, um vapor saiu pela minha boca como se estivesse em um grande freezer. Os pelos de todo o meu corpo se eriçaram devido ao medo repentino.
_Cara... Por que aqui tá tão frio?_ estremeci.
_Deixe de frescura Uriel... Um demônio de nível baixo como eu está te assustando?_ ecoou uma voz pelas paredes do banheiro.
_Quem está aí?!_ entrei em desespero._ Responda logo!
_Você ficou muito molenga desde a ultima vez que nos vimos... Está parecendo um franguinho assustado nessa forma. Mas não se preocupe, vou fazê-lo lembrar de mim rapidinho.
Eu estava virado para a porta quando vejo ela se abrir lentamente. Horrorizado com aquela cena, eu entrei em desespero e me escondi dentro de uma das cabines, onde subi no vazo em posição fetal e fechei a porta o mais rápido possível:
_Uri...eel_ chamou o demônio._ Você sabe que não pode escapar de mim, não é?
A voz aterrorizante ia passando de cabine em cabine com um som agoniante de garras arrastando no metal e na madeira. Quando a porta da cabine em que estava ia se destrancando sozinha, eu a empurrei com toda a força que consegui e sai correndo para a porta de entrada do banheiro.
Para o meu azar, algo com um toque tão congelante que chegava a queimar se agarrou minhas pernas, me jogando contra o espelho e o partindo em vários pedaços. Meu rosto e braços tiveram leves cortes, mais o suficiente para fazer sangue jorrar deles.
Ao me apoiar com a força dos braços e olhar para frente, uma névoa sombria formava uma leve silhueta macabra. Apenas os profundos olhos vermelhos que me encaravam se destacavam na névoa. Eu conseguia sentir apenas sofrimento, medo, ódio e tudo o que havia de ruim em um único ponto, e aquilo revirava meu estômago como se estivesse em uma montanha russa de Hallowen:
_Que patético da sua parte_ debochou o demônio._ Um anjo tão poderoso do falso Deus, reduzido a um garoto fracote e magricela.
_A-Anjo?!_ engoli em seco._ Mas como assim anjo?!
_É claro que você não se lembra_ concluiu o demônio._ Aquele idiota lá encima fez você apenas reencarnar em outro corpo. Já as suas memórias do passado... Foram reduzidas a nada.
_Olha, monstro demoníaco ou sei lá o que você seja_ tentei me recompor._ Eu não sou um anjo e muito menos fracote ou magricela.
_Você ainda não percebeu, não é?_ perguntou o demônio._ Somente seres como anjos, aqueles babacas com dons espirituais e o próprio falso Deus podem ver nós demônios. Mas pelo que vejo, parece ter algo diferente em você agora...
O demônio iria encostar suas mãos gélidas em mim, até que gritei:
_FIQUE LONGE DE MIM!!!.
Uma forte luz brilhou por todo o meu corpo, fazendo aquele feioso do demônio fugir imediatamente como um rastro de fumaça negra pela porta do banheiro.
Eu estava ofegante, e minhas mãos, estavam cheias de furos feitos pelos cacos de vidro no chão.
_Mas que...?
A exaustão tomou conta do meu corpo, e eu desabei sobre o tapete de cacos de vidro.
_Uriel... Uriel!
Eu abri lentamente meus olhos e vi Alyssa bem próxima do meu rosto:
_Acorda seu idiota!_ ela me beliscou.
_Tsch... Isso doeu sabia?!
_Era para doer mesmo seu idiota!_ bufou irritada._ Como você some no shopping e não nos avisa?!
_Alyssa, fica calma_ disse Luiz tentando tranquilizá-la._ Vamos parar com essa gritaria... Os outros pacientes devem estar ficando incomodados.
Alyssa se afastou um pouco da maca e cruzou os braços bufando.
_Você está bem?_ perguntou Luiz.
_Estou bem melhor agora... Aliás, onde é que estamos?
_No Hospital_ respondeu Luiz._ O médico disse que você teve uma hipotermia bem seria no shopping.
_Mas ele não soube dizer o que causou isso_ continuou Alyssa.
_Bom, acontece que, enquanto nós andávamos pelo shopping, eu comecei a me sentir mal e fui ao banheiro lavar meu rosto. Foi aí que...que um demônio apareceu na minha frente dizendo que me conhecia.
Os dois se olharam com uma expressão de espanto, mas risadas foram a última reação que demonstraram.
_Ai garoto, se liga_ disse Alyssa._Um demônio aparecer logo para você? Além disso, demônios nem devem existir de verdade.
_Talvez você esteja delirando por conta da hipotermia_ disse Luiz em um tom de preocupação._ Acho melhor levarmos você para casa quando tiver alta. Lá você toma um banho quente e descansa mais um pouco.
_Eu sei o que eu tô dizendo!_ afirmei._ Tinha um demônio naquele banheiro dizendo que me conhecia!
_Olha Uriel_ Luiz respirou fundo._ Sua historinha é bem legal, mas agora você precisa esperar a alta do médico.
_Isso se ele não vier com um psicólogo para lidar com essa sua esquizofrenia_ Alyssa debochou.
_Sabe, as vezes eu esqueço que você é minha amiga_ murmurei irritado.
_De nada_ Alyssa sorriu.
Enquanto eles me ajudavam a sentar na maca, uma mulher de terno preto passou pela porta e me encarou com seus óculos escuros. Depois disso ela continuou a seguir pelo corredor e foi embora.
Senti algo estranho novamente, só que dessa vez estava vindo dela. E por algum motivo, aquilo me deixou com um pulga atrás da orelha.
***
*1 HORA DEPOIS DO OCORRIDO NO SHOPPING*
_Agente Scofield_ cumprimentou um dos policiais.
_Me chame só de Lara por favor... O que temos aqui?
Lara pegou uma prancheta de madeira repleta de papeis.
_Alguns dos policiais que investigaram a área acham que foi uma tentativa de assasinato_ explicou outro policial.
_Hum... E vocês já sabem quem foi o ultimo a sair daquele banheiro?_ perguntou Lara.
_Testemunhas disseram que viram um garoto, de aproximadamente 15 anos. Ele entrou e acabou desmaiando por hipotermia_ respondeu outro policial.
_Hipotermia dentro de um banheiro?_ Lara se questionou._ Isso não faz o menor sentido.
Um dos peritos entrou na sala e entregou um pequeno pacote com alguns fios de cabelo:
_Encontramos estas amostras de DNA e mandamos para o laborátório.
_Muito bem.
Lara observou as imagens fotografadas no banheiro penduradas em um quadro.
_Pelo que parece nossa vitima tentou se defender e foi jogada com muita força contra esse espelho.
_Pelas marcas de sangue e fragmentos do espelho em alguns pontos do chão, isso não parece ter sido feito por alguém normal_ disse o perito.
_O que quer dizer com "normal"?_ perguntou Lara.
_Bom, eu já investiguei crimes semelhantes mas, a forma como o espelho foi quebrado com o corpo do garoto... Seria suficiente para quebrar a maior parte dos ossos de um ser humano adulto_ o perito deslizou o dedo sobre as fotos do espelho._ As marcas de cortes no corpo dele deixam isso bem evidente.
Lara estreitou o olhar com um pouco de preocupação e dúvida misturados em sua expressão.
_ Continuem investigando mais afundo sobre esse caso... Quanto mais cedo eu resolver isso, mais rápido vou poder ver a minha filha e a minha esposa.
_Sim senhora_ respondeu o restante da equipe.
Depois que os resultados chegaram do laboratório, Lara se reuniu com mais alguns policiais na sala de comunicações:
_As amostras coletadas indicam ser de Uriel Gonçalves de Andrade, filho de Bárbara Gonçalves e Jackson de Andrade_ disse o perito.
_E o que esse garoto tem haver com o acidente naquele banheiro?_ perguntou Lara.
_Talvez ele possa ter vendido drogas para alguns pivetes mal humorados_ supôs um dos policias.
_Acho bem improvável_ refutou o perito._ Tanto o local quanto as amostras de sangue coletadas nos cacos de vidro não indicaram nenhuma substância correspondente a algum tipo de droga ilegal.
_Então, se não foi algum moleque vendendo drogas, o que poderia ser?_ perguntou Lara novamente.
_Acho que possa ser só mais uma briguinha entre adolescentes. Sabem muito bem como são esses pirralhos hoje em dia_ disse uma voz masculina na direção da porta da sala.
A expressão de Lara ficou rígida como uma rocha ao olhar para a porta. Ela parecia bastante incomodada.
_Delegado Wanderson... Quem te deu autorização para entrar nesta sala?
_Ora, essa delegacia é minha_ respondeu em grosseria._ Você é quem deve se por no seu lugar, Agente Scofield... Além disso, só vim ver como está o andamento deste caso. Preciso de você para investigar mais um incidente dentro de Florestal.
_Outro incidente?
_Infelizmente_ murmurou indignado._ Um homem de 40 anos começou a surtar dentro de uma loja e acabou destruindo parte da loja. A gerente ligou como uma louca para a delegacia da cidade.
Lara esfregou os dedos nos olhos.
_Avise a gerente que em breve vou visitá-la... Mais alguma coisa?
_Pior que sim_ respondeu o delegado._ A mulher disse que esse homem estava com a boca espumando, e depois, que desmaiou de repente. Na ligação ela dizia que a sua pele estava congelando.
Naquele momento, um estalo veio na mente de Lara.
_Hipotermia... Peça aos policiais que não façam nada até eu chegar lá... Tenho que fazer uma visitinha ao hospital primeiro.
Depois de receber a alta ainda receosa do médico, saí do hospital e fui para minha casa. A tal Agente Scofield entrou em seu carro e foi direto para local do novo incidente na cidade de Florestal.
Por vários minutos, fiquei pensando no por que daquela mulher me incomodar tanto. Me deitei em minha cama para descansar um pouco e acabei adormecendo. Luiz e Alyssa já tinham ido embora e deixado a receita do doutor com minha mãe... E por falar nela, Bárbara já era uma mãe extremamente preocupada, mas depois do incidente no shopping, ela me proibiu de sair por tempo indeterminado.
Ah, mães superprotetoras...
Quando abri meus olhos, estava em um poço infinito de escuridão. Não havia nada de visível que não fosse o meu corpo ali.
_Ah... Olá?_ perguntei enquanto minha voz ecoava como em uma caverna.
Mesmo baixos, consegui escutar sussurros estranhos ecoando por todos os lados, como se estivessem bem longe e se aproximassem aos poucos.
_Você vai mesmo deixar a mulher mortal nas mãos daquele demônio patético?_ uma voz masculina e pesada ecoou mais alto do que as outras. Parecia um pouco rouca e maliciosa, como a do demônio que vi no banheiro.
_Q-Quem está aí?!_ perguntei assustado.
_Não se preocupa pirralho_ tranquilizou-me a voz._ Não posso machucar você no mundo astral dos sonhos... Mesmo se quisesse, Morfeu e Hipnos não deixariam que isso acontecesse_ suspirou._ Aqueles caras são um saco.
Uma sombra apareceu em minha frente. Todo o seu corpo esquelético era revestido por um manto negro, que por incrível que parecesse, se destacava na escuridão. Suas mãos ósseas seguravam o cabo negro de uma afiada foice, feita com uma lâmina de metal obscuro. Pendido no pescoço, abaixo do rosto cadavérico com olhos vermelhos brilhantes, havia um colar com uma cruz de cabeça para baixo, e só daí já dava para perceber que coisa boa não era.
Meu olhar e expressão de medo parecia estar bem expressos, já que a sombra caiu em risadas.
_Me desculpe, não sou muito bom com apresentações. Normalmente eu mato pessoas como você_ colocou a foice sobre os ombros._ Sou a personificação da sua parte demoníaca, Kálidos.
_P-Parte demoníaca?!... Ok, isso já está ficando esquisito demais... Primeiramente, eu não tenho nenhuma parte demoníaca. E segundo, eu sou cristão! Bom, eu não vou na igreja a vários meses, mas eu sou!
Kálidos fez uma expressão de desgosto.
_Deus... Odeio ouvir esse nome.
_Sério?_ murmurei em deboche.
Kálidos pigarreou.
_Bom, vamos direto ao ponto de uma vez... Você é uma aberração entre os anjos e os demônios. E para te ajudar a controlar seus incríveis poderes, fui aprisionado no seu corpo junto daquele idiota do Luriel.
_Mais respeito comigo seu demônio imundo_ respondeu outra voz ecoante pelas sombras._ É por esse motivo que Hipnos e Morfeu te detestam... Eles apenas deixaram você passar no mundo dos sonhos porque EU estou aqui para impedir que faça alguma besteira.
A voz estrondava ainda mais forte que a de Kálidos, mas ao mesmo tempo, trazia uma sensação de paz em suas palavras. Uma poeira se juntou em uma espiral luminosa e se solidificou em uma forma humanoide cintilante. Suas asas eram tão cintilantes quanto as de um belo cisne.
_Graças a Deus... Você deve ser meu anjo da guarda, não é?
_Sinto muito, jovem Uriel, mas eu não vejo Jesus há mais de mil anos... E não, não sou seu anjo da guarda. Esse trabalho é do Caladiel_ pousou a mão sobre seu peito._ Sou a personificação do seu majestoso lado angelical, Luriel.
_Eu avisei que ele era um idiota_ murmurou Kálidos.
Eu cocei a cabeça em desespero.
_Eu vou morrer, com certeza...
_Bom, se você continuar se tremendo igual um cachorro na chuva, é provável_ respondeu Kálidos.
_M-Mas eu não posso morrer agora!... Nem terminei meu Ensino Médio ainda!
_Estou zoando com a sua cara, garoto... Vocês mortais são sempre tão bestas.
_Pare de atormentá-lo, Kálidos... Você sabe que não temos muito tempo.
Kálidos bufou chateado e balançou as mãos no ar.
_Tá... Pode continuar esse seu discurso sem graça.
Luriel revirou os olhos. Parecia que ele estava se segurando para não dar uns belos murros no cara de caveira.
_A muito tempo atrás, um mortal descobriu uma forma de viajar entre dimensões através de magia negra, visitando tanto o céu e o inferno quanto diversas outras dimensões. Isso acabou o enlouquecendo cada vez mais, e com isso, as dimensões entraram em colapso... Deus se juntou á Lúcifer e o baniram de volta para a terra, mas desta vez com uma aparência horrenda. Ele é conhecido por vocês humanos como o Corpo-Seco.
_Céu e inferno; Magia Negra; Corpo-Seco... O que EU tenho haver com isso?
Kálidos suspirou impaciente.
_Você foi criado com o propósito de destruir o Corpo-Seco e seus seguidores que fugiram do céu e do inferno para juntar-se a ele... Seu paradeiro é desconhecido até os dias de hoje. E dizem que somente Deus, os outros deuses e Lúcifer sabem sua localização, e se enfurecem só de citar algo sobre ele.
_Outros deuses?_ perguntei confuso.
_Ah_ Kálidos travou a fala.
_Isso não é importante no momento, jovem Uriel_ interveio o anjo._ Você precisa acabar com aquele demônio antes que ele tire a vida de mais pessoas inocentes.
_Mas, se estamos falando de DEUS, o rei de tudo que existe, por que ele mesmo não... sabe? Acaba com ele de uma vez.
_Mesmo sendo o Corpo-Seco, meu senhor preferiu que os próprios mortais resolvessem o problema_ respondeu Luriel._ Ele disse que sua intervenção não seria necessária... Além disso, poderes tanto angelicais quanto demoníacos não funcionam contra aquela aberração.
_E deixa eu adivinhar... Só a junção das duas forças é capaz de derrotá-lo?
_Infelizmente_ responderam Kálidos e Luriel com indignação.
_Existem monstros poderosos espalhados pelo planeta. Coletando almas e fazendo planos desconhecidos... E é exatamente por isso, você vai precisar da ajuda de algumas pessoas.
_Seu trabalho é derrotar esses monstros e enviá-los de volta ao purgatório, onde futuramente você reinará sobre eles, fazendo-os sofrer por toda a eternidade_ explicou Kálidos.
_Ok, isso já tá indo longe demais_ disse atordoado com tantas informações._ E-Eu nem sei usar esses tais "poderes"... E quem é que eu vou pedir ajuda?!
_Não se preocupe com isso agora... Você deve ir atrás daquela mulher e impedir o demônio primeiro. As outras coisas vão ser esclarecidas no caminho.
Bufei indignado.
_Não acredito que eu vou fazer isso...
Ambos sombra e luz estenderam seus punhos cerrados para frente. Eu me aproximei e juntei meu punho trêmulo ao deles, fazendo o sonho se dissolver como uma névoa e me acordar no processo.
Olhei para o relógio digital em uma mesinha ao lado da minha cama e eram exatamente três da manhã.