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Entre Fogo & Paixão – Romance Gay

Entre Fogo & Paixão – Romance Gay

Autor:: Sebastian Pereira
Gênero: LGBT+
Conheça a história de Dean, um jovem que muda de cidade para ingressar na melhor universidade dos quatro municípios do estado do Lassen. O sonho de estudar na Valenza, finalmente sai do papel quando recebe um email contando a novidade. Eufórico por começar a dá vida aos sonhos de seus falecidos pais, Dean só teme deixar seu tio, William, na pequena Ashton City. Decidido, porém, William é de acordo com a ida do sobrinho, e quando este chega a Thyssen, conhece seu companheiro de quarto, Luc, que apesar das patadas iniciais, logo se tornam melhores amigos. No segundo dia, ele esbarra com Lee, a personificação de Narciso, em pessoa. Num sentimento construído somente a base de prazer e submissão, Dean tenta se afastar do perigo que Lee, representa à sua vida. Porém, será na reviralta do destino que a paixão por Luc aumentará, rompendo com ele por causa disso. Entre Fogo & Paixão, narra um romance gay com seus diferenciais, recitando mais uma boa história que te prenderá do início ao fim. Obs: nome de lugares totalmente fictícios. Só existem no universo da obra.

Capítulo 1 Fragmentos do passado

Era noite de verão. Dean observava da varanda de sua casa, o céu totalmente estrelado, a rua de seu bairro deserta, compunhada apenas pelos carros estacionados ao lado esquerdo, aonde ficava o lugar favorito em Ashton City: a residência de seu tio, William. Estava sem sono, mal dormia por conta dos últimos acontecimentos e rezava sutilmente enquanto sentia a mesma angústia começando a inibir a mente, retraindo miseravelmente à pouca força de seu corpo.

- Sem sono, meu filho?

- Oi, tio. É, tô sim, mas ficarei bem.

- Quer alguma coisa?

- Não, tio, pode ir dormir sossegado, vou em seguida.

- Quer mesmo que eu vá, Dean? - ele perguntou, colocando a mão sobre os ombros caídos do rapaz em protesto. - Se quiser eu posso preparar um café, sento aqui com você e dividimos essa angústia. Que tal?

- Oh, tio. Só o senhor mesmo, mas eu preciso ficar um momento sozinho, para colocar a cabeça em ordem, entende?

- Entendo, claro que entendo! A barra não está sendo fácil para nem um de nós, Dean. Mas, por favor, tenta não deixar a cabeça controlar o coração.

Dean assentiu, afirmativo.

- Tá, tio, eu prometo não me esfolar voltando ao passado, afinal de contas, tô bem assim. Boa noite.

- Boa noite, Dean.

Com um beijo depositado sobre a cabeça do sobrinho, William foi-se.

Dean, após à morte de seus pais, passou a morar com William, o único parente próximo e ainda vivo. William, apesar de se sentir culpado pela ida precoce de sua irmã, Jessica, e seu cunhado, Théo, arramou um jeito de criar sozinho o sobrinho, na época, com quinze anos. Ele era um homem belíssimo, na casa de seus trinta e sete anos, cabelos castanhos claros, olhos verdes escuros e pele branquinha, com certos sinais chamativos e espalhado ao longo corpo. Respeitando o tempo de cada um, William tentou se aproximar aos poucos e conforme Dean crescia, tudo ficou mais fácil de lidar, acabaram por construir uma amizade invejável e, em alguns momentos, emocionava-se ao ouvir o garoto lhe chamando de pai. Estavam há sete anos convivendo juntos, e isso era muito produtivo.

Ultimamente, porém, Dean sentia que era hora de ganhar novos horizontes e semear sementes para dar frutos dignos de seu esforço. Com isso, tratou de fazer sua inscrição na Valenza Universit, a faculdade mais importante do estado de Lassen, com sede na cidade de Thyssen, a poucas horas de Ashton City. A ansiedade, desde então, passou a tomar espaço e mal conseguia dormir na esperança de que o email com a confirmação ou absorção de sua inscrição, chegasse.

Até tarde daquela noite de sexta-feira, Dean ansiava por isso, já que o ano letivo teria início na segunda, dois dias após. Esfregando as mãos, e num ímpeto de coragem, se levantou da varanda e foi-se para dentro da casa e, em seguida, ao quarto.

O quarto de Dean, não era tão grande quanto o do seu tio, mas este bastante aconchegante, tornava-se perfeito para um isolamento duradouro. Sentou na beirada da cama, conferiu o email no notebook, e arrasado mais uma vez, deitou sobre o móvel e apertou o aparelho contra o corpo e assim adormeceu.

Acordou com o apito estéreo do despertador lhe chamando para um novo dia. O canto suave dos pássaros e os pingos profanos de uma garoa acima do telhado, entrou pelas frestas das janelas até seus ouvidos. Dean sentou sobre a cama e exercitou o corpo, indo até o banheiro e fazendo sua higiene matinal.

Depois, ao voltar, pegou uma camisa e seguiu o cheiro de omelete e panquecas, comida preferida logo pela manhã e, que seu tio, William, não media esforços de acordar cedo para preparar tudo com muito carinho.

Deixou o quarto e seguiu o corredor, o lance de escadas e chegou a sala, da onde o cheiro tornou-se convidativo.

- Bom dia, pai.

- Bom dia, filho. Dormiu bem?

- Sim, melhor impossível.

William virou para encarar Dean e arqueou uma sobrancelha, conhecia tão bem o sobrinho que a parte de ter dormido bem, soou como inverdade.

- Ok, não tão bem, mas conseguir colocar os pensamentos em ordem. - assegurou Dean, sentando-se o redor da mesa. - E sua noite, foi legal?

- Digamos que sim. Estava preocupado com você, então dormir um pouco mais tarde para certificar de que não faria besteira. - ele voltou-se para o fogão e as panelas. - Sabe, Dean? Estava pensando em irmos pescar hoje.

- Pescar, tio? Não sou adepto desse esporte, principalmente porque compreende uma porcentagem gradativa de força, vitalidade e vontade.

William riu.

- Então você escolhe a diversão do dia. Que tal?

- Ah, pode ser. Que acha de irmos dá uma volta no centro, fazer compras e comer fora?

- Se enjoou da minha comida, meu filho?

- Não é isso, senhor William, é apenas uma opção de descontração, mas se não quiser ir, podemos pescar!

- Você me conhece tão mal, Dean. - fungou William trazendo o café para a mesa. - Sim, vamos até o centro fazer compras e comer.

Dean mostrou um sorriso de vitória, o que gerou um certo desconforto em William, o qual odiava perder para o sobrinho.

- Ah, mas me fala, tio: você e a Lia ainda estão se pegando?

- Olha as palavras, moleque. - repreendeu o mais velho, fazendo o mais novo arquear uma de suas grossas sobrancelhas. - Mas, lhe respondendo, a gente sai de quando em quando. Tomamos um chope, vamos ao cinemas e raramente rola algo mais quente.

- Entendi. Então não estão juntos? Tipo, como namorados?

William sentou do outro lado da mesa e abriu um pão e passou a manteiga, pensando brevemente nas palavras que usaria.

- Ainda não. É complicado, sabe?

- Sei. Já passei por essa fase e...

- Ei. Vamos aumentar este astral. Já falei para não voltar no passado, Dean.

- Eu sei, tio. Tô tentando engrenar minha vida, mas ainda não sei lidar com a ausência que o Luan deixou no meu peito. Afinal, éramos muito bem resolvidos e, com isso, nosso amor surtia um efeito bem maior. - assegurou deixando a xícara de lado e fitando o homem à sua frente. - Acha que um dia eu vou amar alguém tão quanto amei o Luan, tio?

William mastigou o pedaço de pão e engoliu em seco. Da corda aquele assunto que feria aos extremos seu sobrinho, lhe magoava, mas isso parecia não atingir tanto Dean.

- O Luan foi um cara incrível, meu filho. Mas o tempo vai lhe mostrar um garoto legal, disso eu tenho certeza. - afirmou William, segurando a mão de Dean por cima da mesa. - Confia em mim, voltar ao passado só lhe trará prejuízos mentais.

Dean concordou.

- Tá bom. Pai?

- Diga, Dean!

- Você saberia conviver com minha ausência? - perguntou Dean, a William.

O homem analisou à pergunta calmamente, o suor descendo seu pescoço.

- O porque da pergunta, meu filho?

- Porque queria ir para Thyssen.

- Como assim, ir para Thyssen? Você não tem ninguém lá, Dean.

- Eu sei, tio. Mas eu quero ir para Thyssen, estudar.

- Mas às aulas em Thyssen, iniciam na segunda-feira, Dean. Não teria como agendar uma vaga para você, nem mesmo daria tempo para te inscrever numa faculdade. - ressaltou William.

- Sobre isso...

- Ah, não, Dean. Não consigo acreditar que traiu a confiança à qual depositava em você, nem mesmo pediu uma consulta minha. - bufou William deixando o café de lado, provavelmente havia perdido também o apetite. - Eles te aceitaram?

Dean retraiu o corpoe bufou, nunca tinha visto seu tio agir tão diferente.

- Não sei. Ainda não chegou o email de confirmação.

William levantou da cadeira e foi-se para a pia. Lavou algumas louças e pensou por um instante na primeira pergunta de seu sobrinho, sobre sentir a ausência dele.

- Sabe, Dean? - começou William, após um tempo. - Quando seus pais morreram naquele maldito assalto, e você chegou para mim arrasado, destruído e chorando, eu mal sabia cuidar de mim. Os primeiros meses, foram fatais, não tinha experiência, porém, você me ajudou. Você me fez ser um homem melhor, mais responsável. Agora, crescido, você tenta se convencer de que não precisa de mim...

- Não estou excluindo o senhor da minha vida, tio. - cortou Dean. - Quero seguir meu sonho, o sonho de meus pais. Quero ajudá-lo e aqui, em Ashton, não vou ter futuro.

William suspirou, enxugando as mãos no guardanapo e voltou-se para à mesa.

- Só queria ter feito mais parte das suas escolhas, Dean. Você é um filho que ainda não tive, e isso foi a pior punhalada que levei. Esperava tudo, menos essa traição. - ele fungou, abalado. - Porém, é seu sonho, então vou continuar te apoiando.

- Mas eu nem sei se vou ser chamado. Então não se preocupe com nada, talvez ficarei por aqui.

- Não, não, Dean. Qual a universidade que inscreveu-se? - questionou William, agora mais prestativo.

- Valenza Universit.

William arqueou uma sobrancelha, visivelmente preocupado. A fama da universidade era extraordinária, mas haviam alguns problemas com os quais devia se preocupar, e com toda razão possível.

- É a melhor. - certificou-se nas lembranças mais vetusta. - Eu e meus amigos estudamos nela, então é um bom lugar para repensar, fazer novas amizades e, por cima, namorar.

Dean deu um meio sorriso, antes de questionar:

- Está furioso comigo, tio?

- Não, Dean. Um pouco chateado, mas é seu sonho. Vou te apoiar, assim como sua mãe me apoiava nos tempos da escola. - ele riu. - Bom, agora termine o seu café, se arrume que vamos até o centro comprar roupas para você, e uma mala.

- Ainda nem sei se vou ser chamado para a universidade, pai. Ela é muito concorrida. - disse Dean, receoso de colocar esperanças demais.

- Primeiro, você sempre foi o melhor aluno de Ashton City. Segundo, não perca a fé. Agora levanta essa bunda grande da cadeira, toma um banho e vamos sair um pouco.

Dean tinha um sonho de cursar Direito em Valenza, e isso já vinha desde os treze anos, quando seus pais, os advogados renomados de Ashton e Thyssen, passaram por lá e formaram-se grandemente, construindo seu império e uma vida de requinte. Essa força que vinha de dentro de seu peito, tinha tornado-se mais visível e favorável quando resolveu se inscrever na universidade. Suas prioridades giravam entorno de: concluir seu curso, erguer sua própria rede de advocacia, ganhar muito dinheiro, comprar uma fazenda em Telenza, levar seu tio para morar com ele e, por fim, encontrar a cópia perfeita de Luan, o grande amor de sua vida. Carinhoso, angelical, atraente e único.

Se bem que ultimamente sua vida amorosa tivera estagnado, mal conseguia dormir pensando na faculdade e em como era estar presente nela, cercado de universitários de todos os tipos e ideologias, alguns menos radicais e outros inúmeros com faces diferentes, prontos para dar o bote certeiro.

E caso fosse chamado, não iria desperdiçar um único momento, viveria intensamente cada segundo, alimentando à vontade de estar incluido aonde poucos conseguiam alcançar. Valenza, era uma instituição feita para poucos, os menos inteligentes, com certeza ficariam pelo caminho e esse, não era, nem de perto, o objetivo de Dean.

Depois de tomar banho, mudar de roupa e escovar os dentes, Dean fitava sua imagem através de um espelho grande em seu quarto, lugar onde tinha privilégio de ser ver diariamente, pois sua beleza realmente tornava-se tentadora.

Os cabelos loiros caiam até abaixo de sua nuca, passando por cima das orelhas e sobrancelhas, deixando uma fenda para os demais vislumbrar os olhos de um azul claro hipnotizante, aliado a pele branca e sem marcas. Dean tinha braços e pernas torneadas, sempre foi amante da academia, influenciado por William e Luan, havia ganho um corpo escultural, atraente. Para finalizar, Dean pôs um óculos de grau e deixou o quarto.

Naquela ocasião, optou por uma vestimenta consistida apenas em uma bermuda moletom, tênis, e uma camisa regata preta, combinando com o calção branco. Saiu do quarto e foi até a sala, onde William assistia ao telejornal local, com fatos abundantes.

- Vamos, tio.

William dobrou um pouco a cabeça e fitou o sobrinho, impávido. Olhar para Dean, consistia em estar vendo uma versão masculina de sua amada irmã, Jessica.

- Que gato. Se parece muito com seu tio aqui.

- E você não está exagerando, pai. Mas agora vamos, está quase na hora do almoço. - disse Dean, caminhando dois passos à frente. - Por que não convida a Lia? Quero tanto conhecê-la!

- É, pode ser. Vou fazer isso agora mesmo. - disse William, pegando o aparelho. Depois de um ou dois minutos de conversa, o homem desligou o celular e ainda sorrindo, deu à boa notícia ao sobrinho. - Bom, vamos, porque ela vai nos esperar no Restaurant of the Dylan.

Capítulo 2 Prelúdio do Adeus

Restaurant of the Dylan, ficava no centro histórico de Ashton City, próximo de parques, shoppinps center, academias ao ar livre e escolas de última geração, lugar onde Dean houvera terminado seu ensino médio, com mensalidade pagas por seu tio, William. De todos os cantos da pólis, aquele em especial lhe trazia lembranças formidáveis, pois seu primeiro beijo com Luan, fora ali, logo atrás da Bernard Avenue. Dean estacionou o carro próximo a uma linha de coqueiros, na orla da cidade, onde a brisa persuadia o ar e trazia uma sensação de liberdade na alma.

Como era verão em Ashton, todas as praias estavam tomadas por turistas de diversas parte do continente. A base da riqueza e o PIB, provia especialmente do turismo. O centro de Ashton, era tomado por hotéis luxuosos, mansões gigantescas e bonitas, muito diferente do bairro onde Dean morava. Mais calmo. Mais pacato. Porém, mais bonito.

Eles deixaram o carro preto estacionado e seguiram caminho pela rua asfaltada, atravessando à orla, onde o piso era de pedras no estilo portuguesa. A arborização era atraente, em Ashton City, as árvores e flores pareciam mais verdes e coloridas do que em qualquer outro lugar, pois o clima colaborava para o esplendor.

Como era sábado, as ruas estavam cheias, e tiveram de deixar o veículo a uma certa distância por falta de vaga, mas aproveitaram para alongar o corpo até o amontoado de hotéis, restaurantes e casas noturnas. A frente de Ashton City, com certeza, era única.

Ao avistar o restaurante mais ao fundo, Dean vislumbrou por um momento a figura feminina sentada num banco debaixo da árvore, e fitou o tio que transbordava um sorriso de afeto e alegria nos lábios.

- Lia?

- Que você falou?

- É a Lia, a mulher sentada mais à frente? - levantou o pescoço indicando a morena com óculos de sol, sorrindo ao avistá-los.

William sorriu torto.

- Sim. Bonita, não é mesmo?

- Muito gata. Se eu não fosse gay, com certeza pegaria ela.

- Olha à boca. - repreendeu William, dando um tapinha na nuca de Dean.

- O senhor não se garante, William Ferraz? - perguntou Dean, num tom sarcástico.

- Tenho tudo que uma mulher procura num homem, filho. Corpo sarado, dentes perfeitos, sorriso encantador...

- Autoestima elevada. - cortou Dean, ao atravessar a rua junto de William. - Já ouvir isso algumas vezes. Porém, ela teve sorte.

- Por que você diz isso, Dean? - fungou o homem.

- Ah, talvez porque o meu tio seja um vislumbre humano vindo da Grécia. Vou orar para que vocês dêem certo, e ela vire minha madrasta.

William passou os braços torneados envolta do pescoço de Dean, e caminhou com ele até Lia. Que os recepcionou com um sorriso nos lábios, retirando os óculos e deixando visível o olhar maduro e escuro.

Ela depositou um beijo nos lábios de William, e admirou a beleza extasiante de Dean.

- Lia, este é Dean. Dean, esta é Lia, minha namorada. - William apresentou-os um ao outro. - Espero que se dêem super bem.

Dean abraçou Lia, sorrindo.

- Você não me disse que seu sobrinho era tão bonito, William. - ela disse após se desvencilharem. - A genética da sua família é realmente inquestionável. - elogiou.

- Ah, muito obrigado, Lia. Você que é linda. - disse Dean, mostrando seus dentes brancos e alinhados.

- Minha irmã casou com um deus da Grécia antiga, Lia. A junção de beleza deu nisso. - apontou para Dean, que encostou a cabeça nos braços de seu tio. - Dean, além de muito bonito, é inteligente e bom de papo.

- Oh, já gostei dele. Mas que tal irmos comer? Estou morta de fome.

Riram.

Lia entrelaçou seus braços ao de William, enquanto Dean caminhava com suas mãos no bolso do moletom vislumbrando as ruas perfeitamente asfaltada, as casas recém pintadas, crianças brincando no parque. Sentiria saudade dali, não porque se acostumara a lugares calmos, porém porque gostava daquela vida simples.

Seguiram caminhando por uns cinco minutos, até estar em frente ao restaurante caro, chique e com uma decoração magnífica, moderna e nostálgica. Era, sem sombra de dúvida, o lugar perfeito para conversar e comer bem. Não que a comida de William fosse péssima, mas ele realmente não tivera nascido para a cozinha.

Recepcionados alegremente por uma moça bonita, que os conduziu até a mesa que William tivera reservado mais cedo, Dean ficou contente por voltar ao local. Tirou um momento para reavaliar o restaurante, as mesas de vidro com toalhas brancas, as cadeiras estofadas, os talheres perfeitamente alinhados, tudo em perfeita ordem.

- Aqui servem a melhor lagosta da cidade. - afirmou William, já sentado. - Mas não chega nem perto da minha comida, porém, dá pro gasto.

Dean riu do sarcasmo do tio.

- É... Tem razão, pai.

- Pai? - Lia intrometeu-se. - Você chama de pai para seu tio? Que fofo!

- Sim, sim. Não vejo problema algum, ele me criou como filho dele e ele foi meu pai quando necessitei de um. - Dean apanhou a mão de William, apertando-a singelamente. - É o melhor pai que o destino poderia me dá, sabe?

- Sei. Tanto sei que agora isso fica explícito, porque seus olhos, mesmo escondidos atrás desse óculos, brilham quando você fala isso. - deduziu Lia, também pegando na mão de William. - Seu tio é uma pessoa muito especial, tem uma aura incrível e nostálgica.

- Eu sei o quanto meu tio é incrível. - disse Dean, desvencilhando sua mão das de William. - Mas me conte como se conheceram?

Lia deu um meio sorriso, e William aproveitou para secar os olhos.

- Foi alguns meses atrás. Estava na Marconi Avenue, quando olhei para o lado e vi meu ex-colega de faculdade.

- Vocês estudaram juntos? - questionou Dean, com um misto de curiosidade e felicidade. - Não sabia disso.

- Oh, sim. Eu e seu tio estudamos jornalismo na Valenza Universit. Porém, no oitavo mês, ele tivera trocado a Valenza, pela North-American, e nunca mais havíamos nos falado. - ela afirmou, em seguida. - No entanto, o destino arrumou uma forma de nos ajuntar novamente.

Dean estreitou o olhar, mais estupefato.

- Você e meu tio, ficaram na época da faculdade? - perguntou o rapaz, a voz branda.

Era uma pergunta bastante intima, e William quase o repreendeu, mas parecia que, Lia, estava disposta a revelar tudo.

- Namoramos por algumas semanas. Foi maravilhoso, seu tio é muito carinhoso, Dean. - ela comentou, meigamente. - Ter ele de volta, me fez acender uma paixão há muitos anos congelada.

Dean suspirou, intrigado pela história toda.

William chamou o garçom e fez os pedidos, estes não demoraram para chegar. A lasanha, a qual Dean pediu, estava divino, a costeleta de porco, que William fizera questão de usar como entrada, uma maravilha. O molho pardo, o suco verde, e o champanhe, inquestionável. Tudo muito perfeito.

- Qual seu grande sonho, Dean? - Lia perguntou após um tempo.

- Meus pais eram advogados, tinham um diploma grandioso, mas tiveram de vender a advocacia para quitar algumas dívidas. Meu sonho é estudar Direito, me formar, abri minha própria empresa, ganhar muito dinheiro, comprar uma casa no campo e encontrar o homem perfeito para passar meus dias ao lado dele.

Lia levantou uma sobrancelha, alarmante.

- Você é gay, Dean? - ela perguntou.

- Sim, eu sou. Tem algum problema?

- Não, nem um. Mas você é a primeira pessoa que fala isso sem demonstrar vergonha. É tão seguro. - Lia comentou.

- Eu não tenho vergonha de ser o que sou, Lia. Meus pais me ensinaram desde cedo a ter poder sobre tudo, a não temer quem eu era, ou quem estava destinado a ser. - ele fez uma pausa na voz, antes de prosseguir. - Ser gay tem suas vantagens, assim como ser hétero.

- Eu amo esse meu sobrinho. - William deu um soco no braço de Dean. - É tão voraz com as palavras, não acha, Lia?

- Sim. Além de lindo, não tem medo de ser o que é. Se ele não falasse, nunca ía desconfiar.

O almoço seguiu calmo, sem interrupções. Após o fim, ao pagar a conta, William, Dean e Lia, estavam caminhando pela rua comercial de Ashton City, lado a lado.

William e Lia, estavam de mãos dadas, enquanto Dean, por sorte, continuava com as mãos dentro dos bolsos de seu calção moletom, ouvindo os assuntos ditos pelos mais velhos. Eram quase três da tarde, o sol estava destacado, o calor impossível de não ser sentido, mas ainda assim, continuaram o passeio pela orla magnífica de Ashton.

De volta ao ponto de encontro, em frente aos hotéis luxuosos, preferiram comprar roupas e calçados numa loja de produtos caros na esquina dos restaurantes. Mesmo sem demonstrar, Dean tinha um bom dinheiro em caixa, não que o fizesse rico, pois patrimônio que seus pais haviam deixado para ele em testamento, era de valor simbólico. Mas pouco usufruía daquele dinheiro, preferia levar a vida simples, ao lado do tio.

Com as compras no porta-mala do carro, Dean sentou no banco do motorista e, atrás, seu tio e Lia, conversavam assuntos aleatórias. Ele ligou a ignição, e perguntou:

- Para qual lugar agora?

William pareceu pensar, pois analisou o relógio de pulso durante alguns segundos, antes de responder.

- Poderíamos pescar. Que tal? Ainda não são nem cinco da tarde. - ele disse, temendo o contragosto do sobrinho.

- Por mim tudo bem. - assegurou Lia.

Dean pensou que aqueles poderiam estar sendo os últimos momentos ao lado de seu tio, então aproveitaria cada nanossegundo.

- É, pode ser. Estou disposto.

- Então que seja! - afirmou William, com um sorriso torto.

Dean deu partida no carro, indo rumo ao conjunto de residências pequenas e aconchegantes, deixando as compras sobre a cama e voltando com as vara de pesca, de volta ao automóvel.

No caminho até o Lago Bryan, William o questionou:

- Já pensou em usar seu dinheiro da poupança para comprar um carro, Dean? Não estou falando merda, mas acho mais peculiar que tenha seu próprio transporte, afinal o meu é bem surrado para levar. - ele comentou. - Se quiser, podemos ir a concessionária amanhã e você escolhe. Que tal?

- É uma boa ideia. Eu realmente preciso de um carro.

- Mas é bom ter juízo, meu filho. O trânsito de Thyssen é bem mais movimentado que o de Ashton. -William o lembrou.

O percurso até o Lago Bryan, no fim da cidade de Ashton, foi rápido. Antes das seis da tarde, lá estavam Lia, Dean e William, sentados sobre a encosta do riacho pescando.

O esporte não foi muito produtivo. Pescaram pouquíssimos peixes, o maior, William acabou levando para o jantar. De volta a casa, aliviado e tomado banho, Dean sentou na cadeira da mesa na cozinha e observou o casal preparando a comida.

- Que farão desse peixe, em?

- Um assado de forno. Entra?

- Ah, com certeza. Deve sair uma maravilha. - disse Dean, prontamente. - Quando vão oficializar esse rolo de vocês?

William deu de ombros, e Lia, virou-se para Dean, contastando se este falava à verdade ou, se estava a brincar.

- Por mim, seria hoje. Mas quando William decidir, vamos oficializar. - ela asseverou, voltando-se para picar as verduras e legumes. - E você, Dean, tem alguém?

Ele mordeu os lábios e arrumou à postura.

- Tinha, mas agora estou solteiro, ou não, não sei dizer.

- Como não sabe?

- Simplesmente não sei. É uma longa história.

Então, com detalhes, Dean contou tudo a Lia, que estupefata mal conseguia assimilar os acontecimentos. Até para Dean, voltar ao passado lhe trazia más recordações, tudo porque era lá que Luan, estava presente.

- Oh, eu sinto muito por vocês dois. Mas o destino vai lutar para lhe trazer uma outra pessoa, Dean. - solidarizou-se.

- Obrigado, Lia. Você é um anjo. Sorte do meu tio de encontrá-la.

- Não, Dean. É ao contrário. Sorte minha de encontrar um homem como seu tio.

William a agarrou pela cintura e a trouxe para junto de seus músculos, abraçando-a antes de beijar os lábios da morena.

O jantar ficou pronto dentro de uma hora. Lia arrumou a mesa, e Dean se qualificou para lavar as louças ao término. Comeram e conversaram, parecia que quanto mais interagiam, mais assunto floriava do nada.

Eram quase dez da noite quando, Lia, havia ido embora. William se ofereceu para levá-la até a residência, mas esta pegou um táxi. Sozinhos, em casa, William fitava seu sobrinho à distância, enquanto terminava de secar as louças e colocá-las em seu devido lugar.

- Foi um bom dia hoje.

- É, foi mesmo. Aproveitamos como nunca, e isso é bom. Tô muito feliz por você, tio.

William caminhou alguns passos e repousou sua mão nos ombros de Dean, e beijou as costas dele.

- Eu também estou feliz por você. Já verificou o seu notebook? Quem sabe tua facilidade já não esteja pronta para ser comemorada. - ele pôs ao lado de Dean. - Vai lá e deixa que eu termino de arrumar aqui.

- Obrigado, tio.

Dean enxugou suas mãos no guardanapo e foi-se para o quarto, ligou o aparelho e entrou no email, haviam alguns muitos, tanto de seus colegas mais próximo, como um em especial, anunciando o provável.

Após ler o enunciado da Valenza Universit, a primeira parte de seu sonho estava ganhando vida. Ao limpar as lágrimas, Dean correu para a cozinha, como alguém que não queria nada, e esgueirou-se até a geladeira, abrindo-a e retirando duas garrafas de cerveja, entregando uma a William, que arqueou uma sobrancelha, curioso.

- Você nunca bebeu, o porque disso agora?

- Talvez porque seu filho tenha sido aceito na maior universidade de Lassen, pai.

William paralisou, encurralado.

- Você passou? - perguntou sem muita emoção, quiçá por ver seu sobrinho longe.

- Sim, tio. Eu passei. Minhas notas foram o suficiente para entrar para a Valenza, e isso é demais.

William abriu a tampa da cerveja e bebeu um gole para ganhar coragem e enfrentar à realidade.

- O senhor não ficou feliz, pai?

William mordeu os lábios, não estava pronto para ficar sem Dean, ainda que o destino ousasse a querer o contrário.

- Estou, claro que estou, Dean. Mas a ausência que deixará, não tem preço.

- Ah, pai, não fica assim. Olha? Terá feriados, fins de semanas e às férias, às quais poderei passar aqui, com o senhor. - Dean aliviou a pressão.

- Promete, meu filho?

- Prometo, pai.

William então o abraçou.

- Vamos arrumar suas malas. Tem de partir cedo amanhã, afinal, Thyssen não é tão perto assim. - assegurou o homem, com a voz firme.

Capítulo 3 Colega de quarto

À noite havia sido longa. Após a breve comemoração, Dean arrumou algumas malas com o material e roupas necessárias e caiu no sono. Acordou pela manhã com o despertador lhe convidando para mais um dia, um dia este especial e único, o qual ficaria marcado para sempre na sua vida, corpo e alma.

Sentou na beirada da cama e sentiu o cheiro de panquecas e omelete no ar, mal tinha noção de que o costume de acordar e está tudo pronto, logo não faria parte da sua rotina matinal. Vestiu uma camisa e foi-se para o banheiro, se higienizar. Depois, voltou ao quarto e prosseguiu em direção à cozinha, deparando-se com uma mesa farta, o que não era costumeiro.

- O senhor ainda vai me deixar mal acostumado. - Dean disse puxando uma cadeira. - Bom dia, pai.

- Bom dia, filho. Como foi sua noite? Suponho ter sido maravilhosa em todos os aspectos, estou certo?

- Sim, foi uma noite boa. Mal esperava amanhecer para terminar de arrumar os poucos detalhes e, em seguida, ir para Thyssen. - ele falou pegando um pedaço de bolo, proveniente da padaria na esquina. - Falando em Thyssen, o senhor me leva até lá. Talvez não dei tempo de ir à concessionária.

William trouxe uma jarra com suco natural e depositou sobre à mesa.

- Quanto a isso, não vai ser preciso. Você irá para Thyssen, no seu próprio carro. Eu tinha umas economias no banco, e acabei comprando um para você, Dean.

- Não, tio. Por que fez isso? Esse dinheiro era para o senhor se manter esses tempos.

- É um presente meu, para você. Daqui a pouco o carro chega, e não precisa fazer tempestade em copo d'água, aliás, arrumei um emprego como repórter na rede de televisão de Lessen, ou seja, poderei me garantir rapidamente. - ele deu às boas novas.

- Sério?

- Sério. E outra, o carro nem foi tão caro assim, Dean. Vale menos do que você significa para mim, filho. - William mais uma vez, sendo gentil. - Vai que horas para Thyssen? São quase duas e meia de viagem, não tem que pegar à estrada à noite.

- Tô muito feliz pelo senhor, tio. E, não, vou às duas horas da tarde.

- Menos mal.

Dean riu pela preocupação do tio, mas via pela expressão de William, que o homem estava infeliz, talvez porque não tivesse preparado-se para a despedida. Porém, para Dean, era melhor assim.

As horas passaram-se como minutos. Os minutos deram vez ao segundos e assim sucessivamente. O carro de Dean, chegara no horário marcado. Era um automóvel preto, muito bonito, de última geração, com wifi inativo e teto solar, além de refrigerado. Espaçoso, gigante e aconchegante, tudo que Dean precisava, mas diferente do que William lhe dissera, aquele veículo não foi nem um pouco barato.

Olhando o tio pelo retrovisor, Dean perguntou:

- É um carro caro, tio.

- Dean, por favor. - William o repreendeu. - É um presente meu, apenas aceite.

Ele foi intimado a concordar.

- Vamos buscar suas coisas, está quase na hora de partir.

Mesmo se fazendo de forte, William Ferraz estava desgastando-se, ainda não sabia como lidaria com à ausência de Dean. Mas Dean, por outro lado, tinha certeza que ele e Lia, logo estariam juntos e comemoraria este feito grandemente.

Dean desceu do carro e acompanhou William de fora, para dentro da casa trazendo os pertences. Alguns pesados, outros nem tanto, e deixou-os no porta malas. Em pé, ao lado da varanda da casa, William sustentou um olhar, este vencido quando Dean avançou e o abraçou forte.

Os dois choraram.

Um porque queria seu sonho realizado. Outro porque desejava ficar mais tempo ao lado do sobrinho, ainda que sete anos tivesse sido tempo suficiente para isso. Mas, William, aprendeu a amar Dean de uma forma única, um amor de pai para filho. Um amor de proteção e, acima de tudo, um amor limpo.

Ao se afastarem, Dean fez questão de secar as lágrimas de seu tio, logo depositando um beijo no rosto de William, segurando firme as mãos dele.

- Vou sentir sua falta, pai.

- É pra me ligar todos os dias, assim que acordar. Me ouviu?

- Ouvi. - disse Dean, sorrindo. - Posso não ligar todos os dias, mas ligarei, pelo menos, uma vez na semana. Sem contar que poderei vir nos finais de semana.

William o abraçou novamente.

- Vai com cuidado, Dean. Qualquer coisa eu vou estar aqui, sempre. Pode contar comigo.

- Eu sei disso, pai. Sempre soube.

- Oh, Dean... - William continuou o abraçando, ainda mais forte -, já tô com saudade.

- Eu também. Mas agora é hora de ir, pai. Eu odeio despedidas...

- Mas esta não é uma despedida, é um até breve.

William o soltou, soltou para deixá-lo livre. Deixou livre para poder voar sozinho, sem cargas sobre as costas, como Jessica havia o pedido antes de morrer. Então assim o fez. Deixou que Dean Ferraz Salvatore, fosse embora em busca de seus sonhos.

Num último abraço e aperto de mãos, Dean sentiu que a melhor coisa que houvera acontecido consigo após a morte de seus genitores, sem dúvida era o afeto que supria por seu tio, como se ele fosse seu pai. Um pai presente, responsável e alegre. Um homem que dava tudo só para vê-lo feliz. Mas o momento era outro. E quando Dean já estava dentro do carro com o cinto lhe protegendo, aquele metal todo envolta, soube que o destino lhe preparava algo mais agradável.

Ele deu partida e acelerou rumo ao futuro, à sua nova vida. Recomposto, já pegando a avenida que o levaria para fora da cidade de Ashton, Dean percebeu que aquilo não seria tão ruim assim, já que o mundo tinha suas façanhas, mas o tempo era quem compositava alguns destinos.

As árvores verdes, as flores coloridas, o trânsito pacato, logo foi dando lugar a uma arborização diferente. Montanhas, relvas secas e um deserto não tão quente, àquela era à fronteira entre Ashton, ao Leste e Thyssen, ao Oeste.

A viagem foi longa, principalmente por está sozinho, porém, logo o rádio acabou sendo seu companheiro mais próximo. A cadeia montanhosa ficou para trás, o que separava Ashton de Thyssen, agora era uma enorme ponte construída sob o Rio Gamar, à qual levava para as primeiras moradias de uma metrópole em pleno desenvolvimento.

Cercada por indústrias, com uma população com mais de dois milhões de habitantes, Thyssen era o lugar mais bonito em todo o estado de Lassen. Até o céu era diferente, um pouco mais azulado, talvez pela poluição. Porém, diferente de Ashton, Thyssen possuía mais recursos, mais vitalidade e uma forte economia, um bom lugar para recomeçar.

Depois de haver atravessado a ponte e está finalmente em solo de Thyssen, o silêncio foi dando lugar ao barulho de buzinas, pessoas andando pelas ruas, cartazes com propagandas, e isso era somente o fim da cidade, o começo para quem vinha de Ashton. O centro de Thyssen, era mais lindo, com lojas e campos de futebol, hotéis belíssimos, erguidos em pouco tempo. Uma cidade desesperada com uma população em plena correria.

Ele seguiu viagem até o centro urbano, onde as universidades estavam localizadas, aonde Valenza, estava construída. Chegou, finalmente, ao seu destino. Viu-se, de longe, o prédio com a fechada pintada recentemente, à movimentação do lado de fora e previu que os alunos da faculdade, já chegavam para a primeira semana de aula.

Ele estacionou o carro ao lado de alguns coqueiros e saiu de dentro do automóvel, cruzando à rua de pedras portuguesas até está dentro do enorme Campus. Parecia maior do que quando estivera ali há quase um mês. Valenza, seria agora, sua nova casa. Seu colega de quarto, uma pessoa diferente, mas com quem teria de lidar como lidava com William, seu tio.

Dentro do campus, ele parou para observar o prédio. As paredes intactas, os bancos perfeitamente limpos, o piso um brilho, os alunos menos ofegantes do que a maioria das pessoas lá fora. A construção exalava um esbelto ar puro, detalhadamente e com minuciosidade gigantesca, muito próxima daquelas que só se viam em filmes.

Dean caminhou vagarosamente, cruzando o extenso pátio à procura de alguém que pudesse ajudá-lo. Não muito distante, uma senhora com informe da instituição, parecia dar as boas vindas aos novatos, os veteranos apenas davam boa tarde, ou boa noite, afinal, eram quase seis. Ele, então, dirigiu-se a ela a passos firmes, com um ar sereno.

- Posso ajudá-lo em alguma coisa, jovem? - perguntou a senhora gentilmente.

- Sim. Poderia me dizer onde fica isso? - ele mostrou o comprovante com o número do alojamento, casa, professores e salas.

A funcionária pegou o papel, colocou os óculos e analisou-o brevemente.

- Oh, sim. Está vendo aquele homem com terno sentado naquele banco?

- Sim.

- Então, é só pegar a esquerda dele, vai chegar até à um jardim e, sucessivamente, atrás da instituição, onde estão os alojamentos. O seu é o da direita, peça informações ao responsável, no caso, me parece que é o Ítalo. Veio sozinho?

- Sim, vim sozinho.

- Tem carro?

- Tenho.

- Então o ponha no estacionamento designado apenas aos alunos, assim fica mais fácil colocar suas coisas na casa.

- Obrigado pela recepção, senhora.

Ela assentiu.

Dean fez o mesmo trajeto de volta à rua. O crepúsculo já tomava conta dos céus, e diferente do que era em Ashton, Thyssen tinha um clima complicado, começando pela quantidade de chuva que caía do céu e quebrava sobre o asfalto da cidade. Ele tratou de colocar seu veículo no canto adequado no estacionamento, o qual lhe ofereceram, e retirou duas malas, as mais pesadas. Seguindo as instruções do responsável pelo estacionamento dos alunos, Dean pegou um corredor estreito e foi-se para além dele, chegando ao tal alojamento.

Ele foi no da direita, o qual haviam lhe indicado anteriormente, bateu na recepção e um garoto corpulento e com sinais de acnes, o atendeu.

- Novato?

- Sim.

- Cadê seu comprovante?

Dean estendeu o pedaço de papel ao rapaz que analisou e fitou Dean uma vez mais.

- Pode entrar. - ele avisou, entregando o comprovante de inscrição a Dean. - Seu quarto é o 110, é só seguir esse lance de escadas que vai chegar até lá. - indicou o responsável pelo alojamento.

- Obrigado. - Dean agradeceu.

Sem obter respostas, o garoto seguiu as instruções. Se soubesse que o quarto ficava tão acima, jamais teria pedido para morar no quinto andar. Foi mais por sorte, só isso.

Quando chegou ao quinto andar, ficou mais aliviado, a casa dos enumerados com 100, finalmente, estavam estampado nas portas de madeiras. Não precisou ficar conferindo, seguiu o final do corredor e viu o número 110, e bem abaixo, como um convite perene, um: "Sou psicopata". Um frio correu a espinha de Dean, o ar lhe faltou, a garganta amargou o pior.

Mas num ímpeto de força, Dean deu três batidas na porta e aguardou quem estivessem do lado de dentro, lhe recepcionar. O barulho do som, abaixou-se quase no mesmo instante, e segundos depois, viu a maçaneta girando, revelando uma figura grandiosamente incapaz de lhe fazer mal. Ou faria?

- Ei! Você deve ser o Dean, meu colega de quarto, estou certo? - perguntou o rapaz, estendendo a mão em um cumprimento.

- Sim, eu mesmo. - sorriu timidamente.

- Prazer, eu me chamo Luc. - continuou com a mão suspensa.

- O prazer é meu. - Dean apertou-a brevemente, em retribuição.

- Tá, deixa eu te ajudar com essas malas.

Luc, então, as levou para dentro do quarto e deixou-as sobre uma das camas, ainda não usadas.

- Este é seu armário. Não é tão grande, mas acho que cabe suas roupas.

- Não tem problema, se não caber eu dou um jeitinho depois.

- Entendi. Tem opção em camas, ou tanto faz? - perguntou Luc a Dean.

- Tanto faz. Não sou muito detalhista.

Luc riu.

- Bom, bem-vindo. - abriu os braços e se jogou sobre a cama.

- Obrigado. Vou buscar minhas outras malas.

- Quer ajuda? - Luc se ofereceu para ajudá-lo caso quisesse.

Dean, porém, negou.

- Não. Estas eram as maiores, dou conta das demais.

- Então tá.

Dean conteve-se. Não pensou que o destino colocaria ao seu lado um menino bonito, na verdade, magnífico, e ainda por cima, sem camisa, apenas usando um calção esportivo fino que deixava um volume marcado mais abaixo, além do corpo sarado e braços torneados, como o dele. Seu anfitrião, sem sombra de dúvida, era o pecado em pessoa. Os cabelos loiros num corte baixo, quase raspado, os olhos azuis, a pele bronzeada, muito diferente da sua: branca. Luc tinha um jeito malandro, mas o sorriso desfazia qualquer guerra quando se abria inesperadamente.

Ele buscou o restante das malas no carro e colocou elas sobre a cama, algumas embaixo dela, e preparava-se para arrumar suas roupas no armário, quando, rapidamente, Luc puxou assunto.

- Da onde você vem? Tem cara de ser da cidade de Thirro, estou certo?

Dean sorriu.

- Que te fez pensar que sou de Thirro?

- Sei lá. Os garotos de Thirro são baixos, loiros, brancos como vampiros e super descolados. - ressaltou Luc.

- Eu sou de Ashton City. - Dean revelou. - E lá as pessoas são altas, de maioria morena, poucos loiros, mas eu nasci assim. - dedurou-se.

- Entendi. Vai cursar qual área?

- Direito. E você, estuda há quantos anos aqui?

- Legal, vou dividir o quarto com um futuro advogado, lembre-me de ser amigável com você, principalmente para que, um dia, me livre de sentenças mortais. Sobre à segunda pergunta, esse é meu terceiro ano, estou estudando economia.

Dean riu, mas Luc parecia está falando à verdade.

Fez-se um breve silêncio, mas a inquietude logo foi rompida.

- Seu cabelo é legal. - elogiou Luc, pegando um livro e folheando.

- Está dando encima de mim, Luc?

O garoto sorriu, desdenhoso.

- Não sou veado, Dean. Elogiar não significa querer pegar alguém.

Dean o encarou sorrindo.

- Todos os caras que já me elogiaram, quiseram passar uma noite comigo.

Luc ergueu uma sobrancelha, incrédulo.

- Você é veado, Dean?

- Sou. - falou Dean, sem mostrar receio. - Tem alguma coisa contra?

- Não, nenhuma. Só não tenta me usar durante às noites que eu chego bêbado, lúcido e indefeso.

- Fica tranquilo, cara. Primeiro, você não faz meu tipo. Segundo, você é idiota demais, mente pequena e...

- Quer morrer, Dean? Eu mal te conheço. Fecha a matraca e termina de arrumar as tua tralhas e dorme, bem caladinho. - Luc deixou o livro de lado e apagou o abajur. - Boa noite!

- Boa.

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