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Entre Leis e Pecados

Entre Leis e Pecados

Autor:: Glo Amorim
Gênero: Romance
No coração de Nova York, onde o crime e a sedução se entrelaçam, Alice Martins, uma jovem advogada recém-formada, vê sua vida virar de cabeça para baixo ao aceitar defender Enzo Bellini, um astuto e charmoso chefe da máfia italiana. Inicialmente relutante, Alice se vê cada vez mais atraída pelo mundo perigoso que ele representa - um universo onde lealdade e poder são a moeda de troca, e os limites entre o certo e o errado se tornam borrados. À medida que ela se aprofunda na defesa de Enzo, Alice descobre uma conspiração que ameaça não só o império mafioso de seu cliente, mas também a segurança de Nova York. Entre as sombras de um mundo implacável e sedutor, ela se vê dividida entre a lei e a lealdade, o dever e o desejo. Quando seu coração começa a questionar tudo o que acreditava ser certo, Alice terá que decidir até onde está disposta a ir para proteger aqueles que ama - e até onde ela está disposta a ir para salvar a si mesma. Em um jogo de poder e traição, ela descobrirá que, em um mundo como esse, ninguém sai ileso.

Capítulo 1 1. Primeiro Passo

A primeira semana depois de receber minha licença como advogada não foi como eu imaginava. Tudo parecia certo no papel: graduada com honras, pronta para fazer a diferença. Mas, na prática, estava apenas perdida em um mar de possibilidades. Minha única certeza era que eu queria trabalhar com a defesa de pessoas inocentes, aquelas cujas vidas foram destruídas por acusações falsas, por um sistema que as esmagava sem dó. Era nisso que eu acreditava. Era para isso que eu me formei.

Ainda assim, parecia que minha visão de um mundo mais justo estava mais distante do que nunca. O mercado de trabalho não era acolhedor para recém-formados, e as vagas que apareciam não estavam nem perto do que eu imaginara. Como poderia ajudar as pessoas se, em vez disso, eu fosse obrigada a aceitar qualquer trabalho apenas para pagar as contas?

Minha mente estava em um turbilhão de frustrações quando Karen entrou no café. Ela me encontrou sentada, com a xícara de café à minha frente, já esfriando, meus olhos fixos nas folhas do jornal que não consegui ler. Quando ela me viu, os olhos dela brilharam.

- Alice! - Karen sorriu, um sorriso aberto, mas com uma sombra de preocupação. - Eu sabia que te encontraria aqui. Você sempre aparece nesse café quando está com a cabeça cheia. O que está acontecendo? Não me diga que você ainda está se lamentando por não ter conseguido um trabalho.

Eu olhei para ela, sentindo um misto de gratidão e frustração. Karen sempre foi minha melhor amiga de infância, mas eu sabia que ela não entendia totalmente o que estava se passando comigo. Ela tinha uma vida estruturada, uma carreira começando a decolar. Já trabalhava como assistente de marketing em um escritório de advocacia de prestígio, e, ao contrário de mim, parecia ter tudo sob controle.

- Eu não lamento, Karen. Eu só... não sei o que fazer. - Minha voz saiu com um tom de incerteza que eu odiava, mas que parecia inevitável. - Eu formei para defender pessoas injustiçadas, sabe? Pessoas que foram vítimas do sistema. Mas, por enquanto, não vejo nada que se aproxime disso. Todo mundo parece tão... distante disso.

Karen se sentou à minha frente, com seu olhar focado e determinado. Ela era uma daquelas pessoas que sempre sabia o que dizer, mesmo quando eu não queria ouvir.

- Eu sei que você queria algo mais voltado para causas sociais, Alice. Mas, eu tenho uma proposta para você. O escritório onde trabalho está assumindo um caso grande. E, olha, não é o tipo de caso que você provavelmente sonhou, mas é uma chance que pode mudar tudo.

Eu levantei uma sobrancelha, confusa.

- O que você está dizendo? Um caso grande? E o que isso tem a ver comigo?

Ela respirou fundo antes de falar, como se estivesse guardando um segredo.

- O caso é de Enzo Bellini. Um chefão da máfia italiana. O escritório está precisando de uma advogada forte para atuar na defesa dele. E eu pensei em você, Alice. A chance de trabalhar com os melhores advogados da cidade, de ter um espaço para crescer e, quem sabe, conseguir o que você realmente quer: mudar o sistema.

Eu congelei. Enzo Bellini. Um nome que, embora eu soubesse quem era, eu nunca imaginei que teria alguma relação com ele. A ideia de defender um mafioso me deixou sem palavras. Mas, ao mesmo tempo, havia algo no jeito de Karen falar sobre isso que me fez hesitar.

- Ele é um criminoso, Karen. Como posso defender alguém assim? Não é isso que eu quero para minha vida. Eu quero defender pessoas inocentes, aquelas que o sistema falha em proteger. Pessoas que não têm a quem recorrer, que são tratadas como culpadas sem nunca terem sido julgadas. Não um mafioso.

Karen se inclinou para frente, seus olhos firmes sobre os meus.

- Eu sei, Alice. Mas, às vezes, a vida nos dá oportunidades de formas que não esperamos. Este caso pode ser o caminho para você ser vista, para alcançar o que você realmente quer. E, quem sabe, até usar sua experiência para defender aqueles que realmente precisam. Mas, para isso, você precisa dar o primeiro passo. E este é o primeiro passo. O escritório, a visibilidade, a chance de se fazer notar no meio de tudo isso.

Eu olhei para ela, em conflito. A ideia de estar ao lado de um criminoso me repelia, mas eu sabia que Karen tinha razão. Isso era uma oportunidade. Uma chance que talvez nunca mais surgisse. Eu não tinha nada a perder.

- Eu não sei, Karen. Não sei se consigo. - Minha voz vacilou. - Eu quero lutar por algo maior, sabe? Não sei se isso vai me levar para onde eu quero ir.

Ela colocou a mão sobre a minha, com um gesto simples, mas que transmitia confiança.

- Alice, você pode fazer isso. E pode usar isso para lutar pelo que sempre acreditou. Você tem uma visão, e todos vão ver isso. Vamos começar com isso, e depois você decide como quer mudar o mundo. Mas, para isso, você precisa ser vista. Agora, você tem a chance de fazer isso. Não desperdice.

Eu fiquei ali, em silêncio, olhando para a mão de Karen sobre a minha, o calor da sua confiança me envolvendo de forma inesperada. Eu queria acreditar que era possível usar aquele caso para algo maior, mas a verdade era que estava em um ponto de inflexão. A escolha estava ali, diante de mim, e eu não sabia qual caminho seguir.

Karen se levantou com uma energia que só ela tinha, como se já soubesse que essa seria a solução para os meus dilemas. Ela sempre foi a pessoa prática, que fazia as coisas acontecerem enquanto eu ficava presa no labirinto das minhas próprias dúvidas.

- Pense bem, Alice. Não estou dizendo que você deve abrir mão dos seus ideais, mas a vida, o trabalho, eles nem sempre são como a gente imagina. Às vezes, é necessário jogar o jogo para depois mudar as regras.

Ela estava certa, mas o pensamento de me envolver com a máfia italiana, mesmo que de forma profissional, me fazia sentir desconfortável. Eu tinha tanto medo de me perder nesse mundo de escuridão e segredos. Não sabia se estava pronta para o que isso representava. Mas, então, lembrei-me de algo que minha mãe sempre dizia: "Você só vai saber se pode nadar quando entrar na água." Eu estava prestes a pular de cabeça nesse oceano desconhecido.

- Vou pensar sobre isso, Karen. Mas não prometo nada. Eu... - minha voz falhou por um momento - eu realmente não sei se sou capaz de lidar com isso.

Ela sorriu, um sorriso largo e confiante, como se soubesse que eu faria a escolha certa, mesmo sem perceber isso naquele momento.

- Eu confio em você, Alice. Você sempre foi forte. Só precisa se lembrar disso.

Aquelas palavras me seguiram durante toda a tarde, enquanto eu caminhava pela cidade, sem destino, absorvendo o caos da vida nova-iorquina. O sol estava começando a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, e, por algum motivo, esse cenário me trouxe uma sensação de tranquilidade. Era como se o mundo lá fora estivesse me dizendo que eu tinha tempo. Que ainda havia espaço para escolher. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que o tempo estava passando, e que o caso de Enzo Bellini era uma oportunidade única.

Eu não sabia o que fazer. Defender um mafioso, mesmo sendo uma chance de visibilidade, significava se arriscar de maneira que eu não estava certa de ser capaz. Mas, talvez isso fosse uma forma de conquistar meu espaço. Um primeiro passo para me fazer ouvir, para finalmente ser vista no mundo jurídico que sempre imaginei. A dúvida era a minha constante companheira naquele momento.

Cheguei em casa e deixei a chave na porta com um suspiro, meu corpo cansado de tanto pensar. Tentei ocupar a mente com alguma tarefa simples, como organizar minha mesa de trabalho. Mas meu coração continuava batendo mais rápido sempre que pensava no nome de Enzo Bellini. Ele era uma lenda no submundo de Nova York, e agora eu teria que defendê-lo. Como poderia fazer isso sem me perder?

Sentada em minha cama, olhei para o espelho e me vi, com a expressão confusa e cansada de quem estava tentando encaixar uma peça de quebra-cabeça que não parecia se encaixar. Mas, algo dentro de mim dizia que esse caso não seria apenas mais um trabalho. Ele representava algo maior, algo que poderia mudar a minha vida.

No dia seguinte, de manhã cedo, meu celular tocou. Era uma mensagem de Karen.

"Você decidiu?"

Eu respirei fundo e digitei uma resposta rápida, mas não sabia o que sentir ao enviar.

"Vou para a reunião. Te conto depois."

Era o que eu podia fazer no momento. Não podia mais adiar a decisão. Era hora de enfrentar a realidade e descobrir, por mim mesma, se eu estava realmente pronta para entrar nesse jogo.

O escritório onde Karen trabalhava ficava em um prédio imponente no centro de Manhattan. O ambiente era sofisticado, com móveis modernos e o tipo de luxo discreto que só quem tem poder sabe exibir. Quando entrei, uma recepcionista sorridente me indicou o caminho para a sala de conferências. O ambiente estava cheio de pessoas de negócios com terno e gravata, a maioria com ares de superioridade, mas o que me chamou a atenção foi a presença de Enzo Bellini, sentado à cabeceira da mesa, com a postura de um homem que estava acostumado a ser ouvido.

Ele me olhou assim que entrei, e foi como se o tempo tivesse desacelerado. Seus olhos negros me estudaram por um instante, e a tensão no ar foi palpável. Enzo Bellini não era apenas um mafioso - ele era poder, ele era o tipo de homem que comandava não apenas uma organização, mas o medo.

Eu respirei fundo antes de me sentar à mesa, tentando não deixar transparecer o turbilhão de emoções que estava sentindo. A minha mente estava a mil, tentando calcular cada palavra, cada movimento. Mas, algo em mim sabia que, para chegar até onde eu queria, eu precisaria passar por ele. Não fisicamente, mas espiritualmente. Defender Enzo Bellini poderia me dar a visibilidade que eu tanto buscava, mas, ao mesmo tempo, isso me afastaria de tudo o que eu acreditava.

Karen me deu um olhar de incentivo antes de se sentar ao meu lado, e foi como se ela estivesse me dizendo: "Você está no caminho certo." A reunião começou com um tom formal, mas a tensão nunca deixou o ambiente. Quando finalmente fui chamada para falar, minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

- Eu estou disposta a assumir a defesa do caso de Enzo Bellini. Mas quero que fique claro: meu objetivo é garantir que ele tenha um julgamento justo, independente do que o passado dele represente.

Enzo me observou com um sorriso discreto, mas havia algo de enigmático em sua expressão. Como se ele soubesse que, ao aceitar aquela proposta, algo muito maior estava em jogo.

O que eu não sabia era que, ao tomar essa decisão, eu já havia dado o primeiro passo em um caminho que mudaria tudo em minha vida.

Capítulo 2 2. Decidida, decisão

A tensão na sala estava no ponto de ruptura. Enzo Bellini estava ali, diante de mim, sem um pingo de paciência para o que eu tinha a oferecer. Eu sabia que ele esperava um bom motivo para acreditar que eu poderia ser a solução para seus problemas, mas eu também sabia que estava longe de ser a escolha óbvia para um criminoso de sua estatura.

Karen, ao meu lado, parecia mais desconfortável do que o normal, mas também estava tensa com a situação. Ela sempre soubera que eu tinha a ambição de ser uma advogada de causas justas, mas defender Bellini? Aquilo era algo completamente diferente.

Ele, por sua vez, parecia quase se divertir com a minha presença. Seu olhar estava fixo em mim, com um sorriso sarcástico curvando os cantos de sua boca. Aquele tipo de sorriso que dizia: "Você não tem a menor ideia no que está se metendo."

- Então, Sr. Bellini, é assim que pretende me convencer a lhe defender? - Eu mantinha a postura, tentando esconder a insegurança que queimava por dentro. Mesmo com minha licenciatura e experiência acadêmica, havia algo em Enzo que me deixava vulnerável. Algo no poder que ele emanava.

Ele se levantou da cadeira com uma lentidão quase provocante, caminhando até a janela. A luz da cidade de Nova York iluminava seu rosto de maneira quase cinematográfica, criando sombras que faziam sua expressão ainda mais imponente.

- Você realmente acredita que pode me defender, Alice? - Ele virou-se lentamente para me encarar. - Vai encarar um caso como esse apenas porque tem um diploma? Ou você tem algo mais a oferecer, hm? Porque eu posso ver em seus olhos que você não tem a menor ideia do que é realmente lutar por um cliente como eu.

Aquelas palavras, ditas com tanta certeza, faziam meu estômago revirar. Ele estava certo, eu não tinha experiência. Mas eu também não estava ali para desistir. Minha mente girava com uma única certeza: eu não era fraca, e tinha uma razão para estar ali. Eu não iria permitir que ele me fizesse duvidar de mim mesma.

- Eu posso não ser experiente, Sr. Bellini, mas a minha determinação não tem preço. - A firmeza da minha voz me surpreendeu, mas a frase saiu com mais convicção do que eu imaginava. - Eu sou a melhor opção que você tem. Não sou mais uma das advogadas de grandes escritórios que vai tentar negociar em cima do medo. Eu vou lutar por você, e se você achar que só um bom nome pode resolver o seu caso, então estamos em desacordo.

Enzo não respondeu imediatamente. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, mas o sorriso em seu rosto se alargou, e então ele caminhou em direção à mesa, ainda sem desviar os olhos de mim.

- Vamos ver, então, Alice. Vamos ver o quanto você está disposta a sacrificar por mim. Você vai ter que ser muito mais do que "determinada". E se você acha que vai sair imune disso tudo, posso te garantir uma coisa: vai se decepcionar.

Ele se aproximou, parando tão perto de mim que eu podia sentir o cheiro amadeirado do seu perfume, algo que parecia envolver a sala inteira. O tom ameaçador em sua voz era como uma advertência disfarçada de curiosidade.

- Eu gosto de ver pessoas assim, cheias de coragem, sem nem saber o que estão enfrentando. - Ele sussurrou, como se fosse uma observação íntima. - Mas me conte, o que você faria por mim, Alice? O que você tem a oferecer?

Aquelas palavras reverberaram na minha mente como um eco. Eu sabia que o que ele queria não era uma resposta direta, mas uma maneira de me testar, me empurrar para fora da minha zona de conforto. Ele não me via como uma ameaça ainda. Mas o que mais me irritava era que ele tinha razão em pensar assim. Eu não sabia o que estava por vir. Eu só sabia que precisava seguir em frente.

Karen, que estava quieta até então, respirou fundo e se aproximou de nós. Ela olhou para Enzo, depois para mim, e soltou um pequeno sorriso nervoso, como se tentasse aliviar a tensão. A presença dela me lembrava o porquê de estar ali.

- Alice, não leve para o lado pessoal - ela disse, sua voz tentando soar mais casual do que o momento exigia. - Sr. Bellini, com todo o respeito, acho que a Alice está aqui porque ela sabe o que está fazendo. Ela é boa. E tem muita determinação. Só precisa de uma chance.

Eu poderia sentir a relutância de Karen em intervir, mas também percebia o quanto ela queria me apoiar. Ela sabia que o que eu estava fazendo era arriscado, mas não me deixaria enfrentar isso sozinha.

Enzo me observava com um ar de quem estava se divertindo em me ver vacilar, mas também havia algo em seu olhar que estava diferente. Ele não parecia mais tão confiante de que eu fosse uma perda de tempo.

- Está vendo, Alice? Sua amiga sabe o que estou falando - ele disse, lançando um olhar para Karen, que estava tentando manter a calma, mas claramente desconfortável. - Vamos ver até onde vai essa sua "determinada" coragem, então. Vou te dar uma chance. Apenas uma. Mas não espere que eu seja fácil de lidar. Não se você realmente quiser me tirar dessa.

Ele deu um sorriso pequeno, mas que, para mim, soou mais como uma ameaça disfarçada. Mas era um desafio, e eu estava determinada a não me intimidar. Eu havia aceitado esse jogo. Agora, era hora de jogar.

- Vamos trabalhar juntos, Sr. Bellini. - Eu disse, mantendo o olhar fixo. - Mas lembre-se de uma coisa: eu não sou do tipo que recua.

Ele assentiu lentamente, como se aquilo fosse o que ele esperava ouvir.

- Vamos ver, Alice. Vamos ver. - A última palavra saiu da sua boca como uma promessa, e ele se afastou, deixando o clima ainda mais carregado na sala.

Eu respirei fundo, tentando recuperar o equilíbrio, enquanto sentia a pressão de cada palavra trocada.

A primeira jogada tinha sido feita.

Após a reunião, eu estava com a mente a mil. A pressão de Enzo Bellini parecia ainda pairar no ar. Ele não só me desafiou como também me fez questionar minhas próprias intenções. Eu sabia que havia aceitado o caso em busca de uma oportunidade, mas o que ele me mostrou - ou melhor, o que ele não mostrou - me fez duvidar de mim mesma.

Karen insistiu que fôssemos almoçar. Ela sabia que eu não estava em um bom estado mental para trabalhar ou fazer qualquer outra coisa, então ela quase me arrastou para fora do escritório. O calor de Nova York batia forte, mas nem mesmo o calor abafado da cidade poderia dissipar a tensão que eu estava sentindo. O som do trânsito, a pressa das pessoas, tudo isso me parecia distante, como se eu estivesse fora de sintonia com o mundo ao meu redor.

Nos sentamos em uma pequena lanchonete não muito longe do escritório, e o cheiro dos sanduíches e café parecia quase surreal diante do caos mental que eu estava enfrentando.

- Alice, você não parece bem. - Karen falou com cuidado, observando-me enquanto eu mexia na comida sem realmente comer. Ela sabia que algo estava errado, e embora eu tivesse tentado esconder, não consegui mais disfarçar.

Eu suspirei e recostei na cadeira, tentando colocar meus pensamentos em ordem.

- Eu não sei o que fazer, Karen. Ele... Ele é tão... Ele sabe o que está fazendo. - Eu falei, a frustração tomando conta de mim. - Enzo Bellini tem um controle sobre tudo e todos, ele tem o poder, a influência, e eu sou só uma... uma advogada recém-formada sem experiência. Ele quase me fez acreditar que eu estava em cima da minha cabeça.

Karen me observou com uma expressão de preocupação, mas também havia algo mais em seus olhos, uma certa compreensão que fez minha respiração ficar mais tranquila. Ela já tinha me visto passar por várias dificuldades e se lembra da Alice que começou com poucos recursos, a Alice que teve que lutar por cada pequena conquista.

- Eu sei que você está se sentindo assim, mas... - ela pausou, pensativa - você tem uma coisa que ele não tem, Alice: integridade. E isso vai ser mais do que o suficiente. Você tem uma visão clara do que quer, e sim, ele é perigoso, e sim, o caso é grande demais, mas você não vai ceder a isso. Não agora.

Eu me afastei da mesa por um momento e observei o movimento pela janela, o reflexo da cidade se desenhando como uma tela em branco diante de mim. Mas a verdade era que eu ainda me sentia perdida.

- O problema, Karen, é que eu não sei até onde posso ir. O que eu realmente quero fazer é advogar para pessoas inocentes, para aquelas que não têm voz. Mas esse caso... É uma escolha difícil. - Eu a olhei, esperando que ela me ajudasse a entender o que eu estava sentindo. - Eu sei que o mundo é cheio de injustiças, mas será que vale a pena me perder em algo tão sombrio?

Karen ficou em silêncio por um momento, aparentemente absorvendo minhas palavras. Ela sabia o que eu estava pensando. Ela sabia o quanto eu me importava com os meus valores, e o quão difícil seria para mim ficar presa nesse jogo de poder.

- Alice, eu entendo seus dilemas, mas o que você não pode esquecer é que você tem a chance de fazer a diferença aqui. Enzo Bellini é um homem complexo, um criminoso, sim, mas ele também é alguém que precisa de uma defesa justa. E você, mais do que ninguém, tem as ferramentas para fazer isso. Se você acredita que ele é inocente, ou se você acredita que ele merece uma chance de mudar... então essa é a sua missão.

As palavras de Karen soaram como um despertar para mim. Era isso. A missão. Não era sobre aceitar o trabalho de defender Bellini porque eu queria me envolver com o mundo dele. Era sobre justiça. Era sobre fazer a diferença. Isso poderia ser minha chance de lutar por algo mais.

Eu respirei fundo, deixando as palavras dela se encaixarem em meu raciocínio. A pressão de suas implicações não desapareceu, mas algo dentro de mim se acendeu. Eu não ia recuar agora.

- Talvez você esteja certa. - Eu murmurei. - Talvez o que eu preciso agora seja aprender a lutar pelas pessoas de uma forma diferente, até mesmo por aquelas que estão do lado errado da lei.

Karen sorriu, aliviada por me ver começar a fazer sentido das coisas. Ela estendeu a mão e tocou minha mão, um gesto simples, mas cheio de apoio.

- E lembre-se, Alice, você não está sozinha nessa. Eu estou com você. Vamos encontrar uma maneira de fazer isso dar certo.

Eu olhei para ela, sentindo uma onda de gratidão tomar conta de mim. Ela era minha amiga desde a infância, e agora, mais do que nunca, eu sabia que sua amizade e lealdade significavam o mundo para mim.

- Obrigada, Karen. Sério. Eu não sei o que faria sem você.

Karen sorriu, dando um leve empurrão em minha cadeira.

- Sempre, amiga. Agora, vá lá e mostre a esse mafioso quem realmente manda.

As palavras dela me fizeram sorrir, e pela primeira vez desde a reunião, eu senti uma chama de confiança se acender dentro de mim. Eu estava prestes a mergulhar no mundo de Enzo Bellini, e isso significava mais do que apenas um trabalho.

Era a chance de transformar uma vida, e talvez até mesmo a minha.

Capítulo 3 Entre passado e futuro

A noite caía lenta sobre o horizonte de Nova York, e eu me encontrava debruçada na papelada do caso Bellini, sentindo cada palavra como um peso em minhas mãos. O apartamento estava silencioso, exceto pelo som da minha caneta deslizando sobre o papel, e o leve estalo das luzes da cidade que se refletiam nas janelas. Eu precisava focar, mas algo dentro de mim parecia impedir que eu avançasse. Algo que não era apenas o caso Bellini, mas o peso das escolhas que eu teria que fazer nos próximos dias.

De repente, meu celular vibrou. Era uma notificação de vídeo chamada. Olhei para a tela, e o nome de Karen apareceu. Suspirei e aceitei a chamada, me forçando a sorrir, apesar do turbilhão de pensamentos que me consumia.

- Oi, Karen! - respondi, tentando soar animada.

Karen estava em sua casa, com seu fundo colorido e moderno, um contraste com o meu ambiente sombrio e solitário. Ela sorriu para a câmera, mas seus olhos logo se estreitaram, como se notasse minha falta de entusiasmo.

- Oi, amiga! O que está fazendo? Estudando para o caso Bellini? - perguntou, com um tom de preocupação, já sabendo que eu estava atolada de trabalho.

- Sim, isso... - respondi, sem saber como expressar a quantidade de caos mental em que eu me encontrava. - Mas está complicado, Karen. Estou começando a duvidar de mim mesma. Não sei se estou preparada para lidar com esse caso.

Ela franziu a testa, como se fosse a última coisa que ela esperava ouvir de mim.

- Alice, você sempre soube o que queria. Isso é só uma fase. Você é incrível, vai conseguir dar conta de tudo. Lembra quando você falava que queria lutar pelos inocentes? Acho que, no fundo, esse caso é a chance de você realmente fazer isso - disse Karen, sua voz firme, tentando me dar algum tipo de esperança.

Suspirei, desabando na cadeira e olhando para os papéis novamente. As palavras de Karen faziam sentido, mas a dúvida ainda estava lá, me corroendo por dentro. Eu não queria me envolver com pessoas como Enzo Bellini, mas, ao mesmo tempo, eu sabia que esse caso poderia ser o passaporte para um futuro promissor.

Antes que eu pudesse responder, um rosto familiar apareceu ao lado de Karen. Eu congelei. Não era esperado. Era Ramon.

- Oi, Alice - disse ele, com um sorriso de canto de boca, um sorriso que sempre me desconcertava. Eu sentia uma mistura de vontade de socá-lo e de rir ao mesmo tempo.

Ramon era meu ex-ficante e irmão mais velho da Karen. Durante a adolescência, tínhamos uma "amizade colorida" que continuou até os primeiros anos da faculdade. Não éramos namorados, mas as coisas entre nós eram... complicadas. Ele sempre soubera como me fazer rir e me tirar da rotina pesada da faculdade, mas também sempre soubera como me deixar confusa com suas provocações e flertes constantes.

Apesar de termos vivido um romance de idas e vindas, hoje nossa relação era mais amigável do que qualquer outra coisa. No entanto, Ramon não parecia ter desistido de tentar reacender a chama. Às vezes, ele insistia em tentar reatar a velha amizade colorida, mas eu não cedia mais. Eu sabia que ele tinha o dom de me fazer esquecer a razão, mas já estava cansada disso. Ele sempre procurava me envolver nas suas gracinhas, mas eu não podia me dar ao luxo de ceder. O futuro que eu almejava não estava na diversão sem compromisso.

- Que surpresa, Ramon - disse, tentando manter o tom neutro. Eu não queria que ele visse que sua presença me afetava mais do que eu queria admitir.

Karen sorriu de lado, parecendo perceber a tensão no ar.

- Ah, o Ramon apareceu de última hora. Como sempre. - Ela riu baixinho, antes de se virar para ele e lhe dar um empurrão no braço. - Tente não atrapalhar a conversa da Alice, ok?

Ramon riu, balançando a cabeça de forma despretensiosa.

- Não estou atrapalhando nada, Karen. Só estou querendo saber se minha amiga vai finalmente me dar uma chance de novo. - Ele piscou para mim, com aquele olhar travesso que sempre me fazia questionar como eu tinha me envolvido com ele tantas vezes.

Eu soltei uma risada nervosa, forçando um sorriso, mas não pude evitar o pensamento de que, com Ramon, nunca havia sido simples. Havia algo nele que me fazia ficar em cima do muro, sempre entre o querer e o não querer.

- Não seja idiota, Ramon. Estamos apenas conversando, ok? - disse, tentando colocar um ponto final na questão.

Ele apenas levantou as mãos, como se fosse uma rendição, mas o sorriso ainda estava lá, como se soubesse que tinha me deixado desconfortável.

- Tá bom, tá bom, vou me comportar. Não vou interromper mais... pelo menos por agora.

Karen me olhou de volta, com um sorriso genuíno. Era claro que ela tentava aliviar a tensão, mas eu estava longe de estar descontraída. Ela logo mudou de assunto, fazendo com que a conversa tomasse um rumo mais leve.

- E aí, Alice, como está o caso? Você já tomou uma decisão? Está decidida em defender o Bellini?

Eu olhei para os papéis espalhados na mesa, sem saber o que dizer. Não podia mentir, mas também não queria continuar alimentando a dúvida dentro de mim.

- Não sei, Karen... Eu realmente estou muito confusa. Não sei se estou pronta para lidar com esse tipo de cliente. Quero ajudar as pessoas inocentes, mas esse caso é... é muito mais do que eu imaginava.

Ramon, que até aquele momento estava quieto, resolveu intervir, sua voz baixa e cheia de sarcasmo.

- Então você vai deixar passar a chance de dar um grande salto na carreira por causa de algumas dúvidas bobas? Alice, a vida não vai esperar por você. Ou você dá o passo agora, ou vai ficar no mesmo lugar para sempre.

Eu olhei para ele, com um misto de raiva e frustração. Aquelas palavras vieram de alguém que nunca soubera o que era realmente lutar por algo que valesse a pena.

- Não é assim, Ramon. Não se trata de "dar um salto na carreira". Eu não quero ser a advogada dos criminosos, não importa quanto dinheiro esteja em jogo. - A raiva se misturava com a preocupação, e eu senti meu tom de voz subir um pouco mais do que o esperado.

Karen, percebendo a tensão crescente, interveio rapidamente.

- Alice, você precisa ouvir o que o seu coração está dizendo. Se esse caso está te consumindo assim, é porque ele é importante para você de alguma forma. Não precisa ser agora. Vai com calma, mas faça o que achar certo.

Eu a olhei, um pouco mais tranquila, e respirei fundo.

- Talvez você tenha razão, Karen. Eu vou tentar focar e tomar uma decisão. Eu não posso continuar assim, perdida entre os dois mundos.

Ramon parecia irritado, mas sua expressão mudou rapidamente.

- Tá, ok. Mas, se precisar de ajuda, já sabe onde me encontrar. - Ele sorriu, ainda com aquele olhar insinuante, mas desta vez eu não cedi. Ele saiu de cena como sempre, mas havia algo em seu olhar que me dizia que ele não havia desistido.

Após a vídeo chamada terminar, o silêncio do meu apartamento parecia me engolir. A única coisa que eu conseguia ouvir era o som da minha respiração ofegante e o farfalhar dos papéis sobre a mesa, como se eles estivessem me observando, esperando que eu tomasse uma decisão. Eu me sentia como uma criança que se depara com um abismo imenso à sua frente e precisa decidir entre saltar ou recuar. Mas, em vez de um abismo, era um caminho tortuoso, cheio de escolhas difíceis, promessas vazias e uma sensação esmagadora de que minha vida nunca mais seria a mesma depois daquele caso.

O telefone na mesa brilhou novamente. Era uma mensagem de Karen, simples e direta: "Confia em você, Alice. Você é mais forte do que pensa. Eu sei que você vai fazer o certo."

Eu sorri sem graça, sentindo um nó apertado no estômago. Karen sempre foi essa pessoa que, com um sorriso e palavras de incentivo, conseguia acalmar até mesmo os meus maiores medos. E, ao mesmo tempo, ela me desafiava a ser mais do que eu achava que podia ser. Ela sabia que a ambição e a dúvida dentro de mim sempre brigavam uma com a outra, mas ela sempre acreditou que, no fim, a ambição venceria.

Mas eu não sabia. Eu realmente não sabia.

Fiquei sentada por mais alguns minutos, olhando para o celular, sem querer dar o próximo passo. Eu queria deixar tudo isso de lado e voltar para o meu sofá, assistir a uma série qualquer, e esquecer do mundo ao meu redor. Mas, em algum lugar dentro de mim, sabia que fugir não seria uma opção.

Era tarde da noite quando, finalmente, decidi que não conseguiria focar mais naqueles papéis. Levantei e andei até a janela do meu apartamento. Olhei para a rua iluminada abaixo e para as luzes distantes da cidade. Nova York, com toda a sua grandiosidade e ruído constante, parecia agora uma terra de oportunidades e de mistérios. E no meio dessa cidade, Enzo Bellini estava me esperando.

A imagem dele me invadiu, como uma sombra escura que não conseguia dissipar. Ele era a personificação do perigo, mas também da promessa de algo maior. Eu poderia me tornar uma advogada de sucesso com ele, sem dúvida. Mas a que custo? Quantas vezes eu me vi rejeitando a ideia de me envolver com pessoas como ele, pessoas que estavam dispostas a ultrapassar qualquer limite para alcançar o que queriam. E, no entanto, aqui estava eu, prestes a me entregar a esse jogo.

Eu sabia que Enzo me via como uma peça no tabuleiro, uma ferramenta a ser usada. Mas e quanto a mim? Eu estava disposta a me tornar mais do que isso? Estava disposta a me sacrificar por uma causa que poderia muito bem me consumir?

Eu fechei os olhos, tentando clarear minha mente. Eu precisava de uma pausa, de um pouco de clareza. E foi quando a campainha do meu apartamento tocou. Olhei para o relógio, surpresa. Quem seria àquela hora?

Levantei-me rapidamente e fui até a porta. A surpresa era quase palpável quando a abri.

- Oi, Alice. - A voz de Ramon veio com aquele tom brincalhão que sempre me fazia sorrir, apesar de tudo. Ele estava de pé no corredor, com um sorriso travesso e a expressão de quem não esperava ser recebido com entusiasmo.

- O que você está fazendo aqui? - Perguntei, ainda surpresa. Eu sabia que Ramon sabia como me pegar de surpresa.

Ele deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.

- Queria saber se você estava bem. Fiquei preocupado depois da ligação. Achei que a gente poderia conversar, tomar um café e distrair um pouco. - Ele falou, entrando sem esperar uma resposta.

Eu suspirei, relutante, mas sabia que ele tinha razão. Talvez eu estivesse precisando de uma distração, um pouco de leveza para clarear a mente. Então, sem dizer mais nada, deixei ele entrar. Fechei a porta e seguimos até a cozinha.

- Você realmente acha que isso vai me ajudar? - Perguntei, tentando disfarçar a tensão na minha voz.

Ramon olhou para mim com um sorriso enigmático, uma expressão de quem sabia exatamente o que estava acontecendo.

- Eu sei que você está em um dilema, Alice. Não precisa me esconder isso. Mas eu também sei que você não pode ficar se afundando nessa pressão sozinha. - Ele se sentou à mesa e me olhou com aqueles olhos curiosos, como se tentasse adivinhar o que estava se passando pela minha mente. - Você vai encarar o Bellini. Vai ser uma oportunidade única para a sua carreira. E você sabe disso. Não adianta ficar se torturando, pensando no que poderia ser e no que não é.

Eu sentei-me na cadeira, com a caneca de café quente nas mãos. O cheiro me acalmava, mas as palavras de Ramon ainda ecoavam na minha mente.

- Eu sei. Mas... não é só sobre o caso, Ramon. É sobre quem ele é. Eu me recuso a ser mais uma peça no jogo dele. Ele não está interessado em nada além de conseguir o que quer, a qualquer custo. - Eu disse, tentando fazer com que ele entendesse.

Ramon riu baixinho, uma risada cheia de cinismo.

- Alice, ele é um mafioso. Não espere que ele seja um cavaleiro de armadura brilhante. Mas, ei, você é uma mulher inteligente. Se alguém pode fazer isso funcionar, essa pessoa é você. - Ele se inclinou para frente, com um olhar intenso. - E, entre nós, você sabe que, quando você quer, nada te impede de conquistar o que você deseja.

Eu o encarei por alguns segundos, o peso das suas palavras me atingindo mais do que eu gostaria de admitir. Ele não estava errado. Eu tinha passado toda a minha vida tentando alcançar minhas ambições. Mas, agora, a linha entre o certo e o errado parecia mais turva do que nunca.

Ramon se recostou na cadeira, cruzando os braços, observando-me de maneira atenta.

- E aí, qual vai ser? Vai seguir seu coração ou vai continuar com essa história de ser a advogada das inocentes? - perguntou, com um sorriso sardônico.

Eu suspirei e olhei para ele, meu ex-ficante, agora apenas um amigo distante, mas que, ainda assim, sabia como mexer comigo. A decisão não era simples, mas ele estava certo em uma coisa: eu não podia mais ficar parada.

- Eu vou defender o Bellini, Ramon. - Disse finalmente, minha voz soando mais firme do que eu me sentia. - Mas vou fazer isso no meu ritmo, do meu jeito. Não vou me perder no meio dessa história.

Ramon levantou-se, com um sorriso de aprovação.

- Isso é o que eu queria ouvir, Alice. Agora você está no controle. E eu sempre vou estar por aqui, caso precise de alguma... distração. - Ele piscou para mim, com aquele sorriso charmoso, e, antes que eu pudesse responder, ele se virou e se dirigiu para a porta.

Eu respirei fundo e assisti-o sair. Agora que ele tinha me dado sua benção, ou melhor, me desafiado, a minha decisão estava feita.

Eu estava pronta para o que estava por vir.

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