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Entre Nós - Livro.II

Entre Nós - Livro.II

Autor: Nayara Barbosa
Gênero: Romance
Todos os direitos reservados! +18 Continuação do livro: Proibidamente Sua SINOPSE: ENTRE NÓS Agora é hora de conhecer a nova geração Cortez. Aurora Cortez tem vinte anos, está terminando a faculdade e acredita saber exatamente o que quer para sua vida. Lorenzo Cortez, seu tio e melhor amigo, já assumiu os negócios da família e parece ter tudo sob controle. Mas a vida raramente segue os planos que fazemos. Quando novas pessoas entram em seus caminhos, sentimentos inesperados começam a surgir, amizades ganham novos significados e o amor aparece justamente onde ninguém estava procurando. Entre segredos, descobertas, provocações e escolhas, Aurora e Lorenzo descobrirão que crescer também significa aprender a enxergar as pessoas - e os sentimentos - de uma maneira diferente. Porque algumas histórias não são planejadas. Elas simplesmente acontecem. E tudo começa Entre Nós. Plágio é crime! Por Nayara Barbosa.
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Capítulo 1 Prólogo

LORENZO

Eu aprendi muito cedo que carregar o sobrenome Cortez significava carregar muito mais do que um nome.

Significava expectativas.

Responsabilidades.

Histórias que não eram minhas, mas que, de alguma forma, sempre fizeram parte de mim.

Durante anos, observei meus pais construírem uma vida juntos depois de enfrentarem coisas que poderiam ter destruído qualquer pessoa. Vi meu pai perder a memória, vi minha mãe sofrer, vi os dois se encontrarem novamente quando tudo parecia perdido.

Também vi minha tia Sophia e Matteo construírem a própria história.

Cresci cercado por pessoas que me ensinaram que família não era apenas sangue.

Era escolha.

Era presença.

Era permanecer.

Talvez por isso eu tivesse me tornado tão protetor.

Principalmente com Aurora.

Olhei para o relógio no pulso enquanto atravessava o corredor da Cortez Holdings.

Oito e quarenta e sete da manhã.

Eu estava atrasado para uma reunião que deveria ter começado às oito e meia.

Não porque eu tivesse me atrasado.

Porque alguém tinha decidido que poderia remarcar minha agenda sem me consultar.

- Quem autorizou essa mudança?

Minha voz fez minha assistente se endireitar imediatamente.

- O senhor pediu para encaixar a reunião com os investidores às oito e meia.

Parei.

- Eu pedi?

Ela assentiu.

- Ontem à tarde.

Passei a mão pelo rosto.

Eu realmente precisava dormir mais.

- Então mantenha.

- Mas eles já estão na sala.

- Ótimo. Então não precisam esperar mais.

Ela respirou fundo.

- Sim, senhor Cortez.

Continuei andando.

Aos vinte e cinco anos, eu já tinha aprendido que as pessoas esperavam que eu soubesse exatamente o que estava fazendo.

O problema?

Na maioria das vezes, eu não fazia ideia.

Mas ninguém precisava saber disso.

Meu pai havia passado anos preparando meu caminho para aquele momento. Agora, a Cortez Holdings estava sob minha responsabilidade.

E eu não pretendia decepcioná-lo.

Meu celular vibrou dentro do bolso.

Parei no meio do corredor e tirei o aparelho.

Aurora.

Sorri antes mesmo de abrir a mensagem.

«Aurora: Você vai almoçar comigo hoje.»

Não era uma pergunta.

Era uma ordem.

Digitei:

«Lorenzo: Tenho reunião.»

A resposta veio quase imediatamente.

«Aurora: Você sempre tem reunião.»

«Lorenzo: Porque eu trabalho.»

«Aurora: E eu estudo. Ainda assim consigo comer.»

Revirei os olhos.

Essa garota.

Digitei:

«Lorenzo: Onde?»

«Aurora: No campus. Meio-dia.»

«Lorenzo: Não.»

«Aurora: Sim.»

«Lorenzo: Aurora.»

«Aurora: Lorenzo.»

Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.

Ela tinha aprendido a me enfrentar desde pequena.

Talvez fosse culpa minha.

Eu sempre deixei.

Guardei o celular.

- Senhor Cortez?

Olhei para minha assistente.

- Sim?

- Está tudo bem?

Assenti.

- Está.

E pela primeira vez naquela manhã, meu sorriso apareceu de verdade.

Porque, apesar de todo o caos que era minha vida, eu sabia que ao meio-dia estaria no campus.

Aurora sempre conseguia o que queria.

Principalmente de mim.

---

AURORA

Meu tio dizia que eu era teimosa.

Minha mãe dizia que eu era impulsiva.

Meu pai dizia que eu precisava confiar mais em mim.

E Lorenzo...

Bem, Lorenzo dizia que eu precisava aprender a pensar antes de fazer qualquer coisa.

Segundo ele, eu tinha "uma habilidade impressionante para transformar situações simples em problemas completamente desnecessários".

Eu achava exagero.

- Você está me ouvindo?

Levantei os olhos do computador.

Clara estava sentada ao meu lado, mexendo no próprio cabelo enquanto me encarava.

- Estou.

- Então repete o que eu falei.

Pisquei.

- Você estava falando sobre...

Parei.

Ela estreitou os olhos.

- Exatamente.

Sorri.

- Eu estava distraída.

- Você está distraída há vinte minutos.

Olhei para a tela.

Meu projeto de conclusão de curso estava aberto, mas eu não tinha conseguido avançar praticamente nada.

Não porque fosse difícil.

Era só...

Eu estava inquieta.

Talvez porque aquela semana marcasse o início de uma fase completamente diferente da minha vida.

Eu estava no último período da faculdade.

Também tinha começado meu estágio na Cortez Holdings.

E, em poucos meses, não seria mais uma estudante.

Eu seria uma profissional.

Aquilo deveria me deixar feliz.

E deixava.

Mas também me assustava.

- Estou nervosa - confessei.

Clara relaxou a expressão.

- Com o quê?

Dei de ombros.

- Com tudo.

- Aurora...

- É sério. Eu sinto que todo mundo espera que eu saiba o que fazer.

Ela sorriu.

- Você é uma Cortez.

- Exatamente.

Soltei um suspiro.

Era difícil explicar.

Eu amava minha família.

Amava o sobrenome que carregava.

Mas, às vezes, parecia que ele vinha acompanhado de uma lista invisível de coisas que eu precisava ser.

Inteligente.

Responsável.

Bem-sucedida.

Perfeita.

E eu não sabia se queria ser tudo isso.

Queria apenas descobrir quem eu era.

Sem comparação.

Sem expectativas.

Sem precisar provar nada.

Meu celular vibrou sobre a mesa.

Olhei.

Lorenzo.

«Lorenzo: Onde você está?»

Sorri.

«Aurora: Faculdade.»

«Lorenzo: Eu sei. Qual prédio?»

«Aurora: Por quê?»

«Lorenzo: Vou te buscar para almoçar.»

Franzi a testa.

«Aurora: Você não tinha reunião?»

«Lorenzo: Tenho.»

«Aurora: Então?»

«Lorenzo: Vou sair no intervalo.»

Ri sozinha.

Clara percebeu.

- Lorenzo?

Assenti.

- Ele é completamente obcecado por você.

- Ele é meu tio.

- Eu sei.

- Então não fala assim.

Ela deu de ombros.

- Estou falando que ele é protetor.

- Demais.

- E você gosta.

Parei.

Talvez gostasse mesmo.

Lorenzo era cinco anos mais velho do que eu, mas, desde que éramos crianças, sempre esteve por perto.

Ele me ensinou a andar de bicicleta.

Me ensinou a dirigir.

Já brigou com professores por minha causa.

Já me buscou em festas.

Já ouviu meus dramas amorosos.

E, principalmente, sempre esteve ali.

Mesmo quando eu não pedia.

Especialmente quando eu não pedia.

- Ele acha que ainda tenho quinze anos.

Clara riu.

- Para ele, você sempre vai ter.

Sorri.

Talvez fosse verdade.

Mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquela fase estava chegando ao fim.

Eu estava mudando.

E talvez as pessoas ao meu redor também.

---

LORENZO

- Você não vai acreditar.

Gael entrou na minha sala sem bater.

Como sempre.

Levantei os olhos dos documentos.

- Em quê?

Ele se jogou na cadeira à minha frente.

- Sua secretária nova.

Franzi a testa.

- O que tem ela?

- Nada.

- Então por que está falando dela?

Ele sorriu.

- Porque ela acabou de entrar.

- E?

- E ela não parece gostar de você.

Parei de assinar o documento.

- Ótimo.

- Ótimo?

- Sim.

- Normalmente as pessoas tentam agradar você.

- Eu não preciso que ninguém tente me agradar.

Gael riu.

- Talvez seja exatamente por isso que você precise de alguém que não faça isso.

Ignorei.

- Você veio aqui para falar da minha secretária?

- Não.

- Então?

Ele ficou sério.

- Aurora.

Meu corpo ficou imediatamente alerta.

- O que aconteceu?

- Nada.

- Gael.

- Ela está bem.

Relaxei um pouco.

- Então por que mencionou o nome dela?

Ele me encarou por alguns segundos.

- Você sabe que não vai conseguir protegê-la para sempre, não sabe?

Meu maxilar travou.

- Eu sei.

- Ela está crescendo.

- Eu sei.

- Está terminando a faculdade.

- Eu sei.

- E tem a própria vida.

- Eu sei, Gael.

Ele sorriu.

- Só queria ter certeza.

Levantei-me.

- Você está me irritando.

- Esse é o meu trabalho.

Joguei uma caneta na direção dele.

Gael desviou, rindo.

- Vamos almoçar?

- Não posso.

- Com a Aurora?

Não respondi.

Ele abriu um sorriso.

- Sabia.

Peguei meu paletó.

- Se você falar mais uma palavra, vai sozinho.

- Você é muito mal-humorado.

- E você fala demais.

Saímos juntos.

Mas, enquanto caminhava até o elevador, uma sensação estranha tomou conta de mim.

Gael tinha razão.

Aurora estava crescendo.

E, pela primeira vez, percebi que talvez eu precisasse aprender a deixar de ser apenas o homem que a protegia.

Talvez precisasse aprender a confiar nas escolhas dela.

Mesmo quando não gostasse delas.

Principalmente quando não gostasse.

---

AURORA

Quando vi o carro de Lorenzo estacionar em frente à faculdade, revirei os olhos.

Ele poderia simplesmente ter mandado mensagem.

Mas não.

Precisava aparecer pessoalmente.

- Seu tio chegou - Clara avisou.

- Eu vi.

- Ele parece bravo.

- Ele sempre parece bravo.

Saímos juntas.

Assim que me aproximei do carro, Lorenzo abaixou o vidro.

- Entra.

- Oi para você também.

Ele me olhou.

- Oi, Aurora.

- Melhor.

Entrei no banco do passageiro.

Clara ficou do lado de fora.

- Até mais tarde.

- Até.

O carro começou a andar.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

- Você está bem? - ele perguntou.

Olhei para ele.

- Estou.

- Tem certeza?

- Tenho.

- Seu namorado falou alguma coisa?

Revirei os olhos.

- Lorenzo.

- O quê?

- Você não pode perguntar isso toda vez que me vê.

- Posso.

- Não pode.

- Posso porque sou seu tio.

- Você usa isso como desculpa para tudo.

Ele sorriu de canto.

- Funciona.

Ri.

Por alguns segundos, ficamos em silêncio.

Olhei pela janela.

A cidade passava rapidamente diante dos meus olhos.

Eu não sabia explicar, mas naquele dia havia algo diferente.

Talvez fosse apenas a sensação de que minha vida estava começando a tomar outro rumo.

Ou talvez fosse a certeza de que algumas coisas estavam prestes a mudar.

- Lorenzo?

- Hm?

- Você acha que as pessoas realmente mudam?

Ele demorou a responder.

- Sim.

- Mesmo quando acham que não vão?

- Principalmente essas.

Olhei para ele.

- E você?

- O que tem eu?

- Você mudou?

Ele sorriu.

- Espero que sim.

- Eu acho que você ficou mais chato.

Ele soltou uma gargalhada.

- E você continua insuportável.

- Então não mudamos tanto assim.

Ele estendeu a mão e bagunçou meu cabelo.

- Talvez não.

Eu ri.

Naquele momento, não fazia ideia de que aquelas palavras ficariam comigo por muito tempo.

Não fazia ideia de quantas coisas mudariam.

Quantas pessoas entrariam em nossas vidas.

Quantas certezas seriam destruídas.

Quantas escolhas nos obrigariam a crescer.

E, principalmente, não fazia ideia de que o amor poderia aparecer justamente quando acreditávamos saber exatamente onde nosso coração estava.

Porque, às vezes, a vida não avisa.

Ela simplesmente coloca alguém no nosso caminho.

E, quando percebemos...

Já estamos envolvidos demais para voltar atrás.

---

LORENZO

Observei Aurora entrar no restaurante à minha frente.

Ela falava sem parar.

Sobre a faculdade.

Sobre o estágio.

Sobre Clara.

Sobre alguma coisa que eu não tinha entendido completamente.

E eu escutava.

Porque era isso que eu fazia.

Estava ali.

Sempre estaria.

Mas naquele dia, enquanto a observava sorrir, tive uma sensação estranha.

Como se estivesse diante do começo de alguma coisa.

Não sabia do quê.

Talvez fosse apenas mais uma fase.

Talvez fosse apenas a vida.

Mas havia algo no ar.

Uma mudança silenciosa.

Uma espécie de aviso que eu ainda não conseguia compreender.

Aurora sentou-se diante de mim.

- Por que está me olhando assim?

- Assim como?

- Como se estivesse pensando demais.

Sorri.

- Talvez eu esteja.

- Isso nunca é bom.

- Concordo.

Ela riu.

E eu também.

Sem saber que, naquele exato momento, nossas vidas estavam prestes a tomar caminhos que nenhum de nós havia planejado.

Eu acreditava que sabia proteger minha família.

Aurora acreditava que sabia o que queria.

Nós dois estávamos errados.

Porque algumas histórias não são planejadas.

Elas simplesmente acontecem.

E algumas começam exatamente onde ninguém estava procurando.

Entre nós.

{...}

Capítulo 2 01

VALENTINA MORETTI

O dia começou cedo.

Cedo demais para o meu gosto, diga-se de passagem.

Hoje era meu primeiro dia de trabalho na Cortez Holdings, como secretária de Lorenzo Cortez. Todos falavam que ele é ignorante, arrogante e cheio de si. Porém, eu, Valentina Moretti, não me deixava abalar tão facilmente.

Para colocar homem no lugar dele, eram dois palitos.

Entrei no elevador e meu irmão me olhou com aquela cara de "se controla".

- Nem vem, Dante. Aqui você é o advogado da empresa e não o meu irmão.

- Só se controla. Não vai bater de frente com ele.

- Se eu estiver errada, serei a primeira a pedir desculpas. Você sabe.

- Meu medo é você estando certa. - Ele disse, e a porta do elevador abriu.

Saí primeiro, ajeitando a alça da bolsa no ombro.

O saguão da Cortez Holdings era exatamente como eu imaginava.

Imponente.

Elegante.

Caro.

Tudo ali parecia ter sido cuidadosamente planejado para lembrar às pessoas que elas estavam entrando em um lugar onde dinheiro e poder caminhavam lado a lado.

As paredes de vidro refletiam a luz do começo da manhã, funcionários atravessavam o espaço carregando pastas, notebooks e copos de café, enquanto algumas pessoas falavam ao telefone com uma urgência que parecia desnecessária.

Olhei ao redor.

- Uau.

Dante parou ao meu lado.

- Impressionada?

- Com o prédio? Sim.

- E com o salário?

- Principalmente.

Ele riu.

- Pelo menos você é sincera.

- Sempre.

Caminhamos até a recepção.

Uma mulher muito bem vestida levantou os olhos assim que nos aproximamos.

- Bom dia.

- Bom dia. - Dante respondeu. - Sou Dante Moretti, advogado da empresa. Minha irmã começa hoje como secretária do senhor Cortez.

A mulher olhou para mim.

- Valentina Moretti?

- A própria.

Ela sorriu educadamente.

- Seja bem-vinda à Cortez Holdings. Seu crachá já está pronto. A senhora Helena está esperando por você no décimo oitavo andar.

Peguei o crachá.

- Obrigada.

Prendi-o na roupa e olhei para Dante.

- Viu? Já sobrevivi aos primeiros dois minutos.

- Ainda falta o chefe.

- Lorenzo Cortez não me assusta.

Dante respirou fundo.

- É justamente isso que me preocupa.

- Você fala dele como se fosse um monstro.

- Não é um monstro.

- Ótimo.

- Ele só é...

- Arrogante?

- Exigente.

- Grosso?

- Direto.

- Insuportável?

Dante me encarou.

- Você já decidiu que não gosta dele sem sequer conhecê-lo.

- Eu não preciso conhecer alguém para reconhecer um homem convencido.

- Valentina...

- Estou brincando.

- Você nunca está brincando.

Sorri.

- Vai trabalhar, Dante.

Ele balançou a cabeça.

- Boa sorte.

- Não vou precisar.

Entrei no elevador novamente.

As portas se fecharam e, finalmente, fiquei sozinha.

Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo.

Meu sorriso desapareceu por alguns segundos.

Primeiro dia.

Nova empresa.

Novo chefe.

Nova responsabilidade.

Eu precisava admitir que estava nervosa.

Não porque Lorenzo Cortez fosse assustador.

Mas porque eu precisava daquele emprego.

Não pelo dinheiro.

Ou não somente por ele.

Eu queria provar para mim mesma que conseguia.

Eu havia passado anos estudando, fazendo cursos, trabalhando em lugares onde ninguém sabia meu nome e aceitando oportunidades pequenas enquanto esperava por uma chance maior.

Agora ela estava diante de mim.

Eu não pretendia desperdiçá-la.

Quando o elevador chegou ao décimo oitavo andar, as portas se abriram.

Uma mulher loira estava esperando.

- Valentina?

- Sim.

- Sou Helena. Recursos Humanos.

Estendi a mão.

- Prazer.

- O prazer é meu. Venha, vou te mostrar seu espaço e explicar algumas coisas antes de você conhecer o Lorenzo.

- Antes?

Ela soltou uma risadinha.

- Você vai querer alguns minutos para respirar.

Arqueei uma sobrancelha.

- Ele é tão ruim assim?

Helena me olhou por alguns segundos.

- Eu não disse isso.

- Mas seu rosto disse.

Ela riu.

- Lorenzo é... Lorenzo.

- Isso não respondeu absolutamente nada.

- Você vai descobrir.

Seguimos pelo corredor.

Ela me explicou onde ficavam algumas salas, o banheiro, a copa e a sala de reuniões.

Então paramos diante de uma mesa posicionada em frente à enorme porta de vidro do escritório principal.

Meu novo lugar.

- Essa é sua estação.

Coloquei minha bolsa sobre a cadeira.

- Gostei.

- E aqui está sua agenda da semana.

Ela me entregou uma pasta.

Abri.

Reuniões.

Telefonemas.

Almoços.

Compromissos.

Viagens.

Documentos.

Era uma quantidade absurda de coisas.

- Ele faz tudo isso em uma semana?

- Ele faz mais.

Fechei a pasta.

- Acho que vou precisar de dois cafés.

Helena riu.

- Recomendo três.

- Vou considerar.

Ela apontou para a porta.

- O escritório dele fica ali.

Olhei.

- E ele está lá?

- Sim.

- Ótimo.

- Valentina.

- O quê?

- Uma dica.

- Estou ouvindo.

- Não leve as grosserias dele para o lado pessoal.

Cruzei os braços.

- E se ele for grosseiro comigo?

- Respire.

- Eu vou respirar.

- E não responda.

- Isso vai ser difícil.

Helena começou a rir.

- Eu sabia.

- O quê?

- Que você seria interessante.

Antes que eu pudesse responder, a porta do escritório se abriu.

E ele apareceu.

Lorenzo Cortez.

Precisei de alguns segundos para entender por que tantas pessoas falavam dele.

Alto.

Terno escuro perfeitamente ajustado.

Cabelos castanhos ligeiramente bagunçados, como se ele tivesse passado a mão neles várias vezes durante a manhã.

Rosto sério.

Olhar intenso.

Ele caminhou até nós segurando alguns documentos.

Seu olhar passou rapidamente por Helena e parou em mim.

Não houve sorriso.

Nenhuma gentileza.

Nada.

Apenas uma análise silenciosa.

- Você é a nova secretária?

Pronto.

Nem um bom-dia.

Sorri educadamente.

- Sou.

Ele olhou para o meu crachá.

- Valentina Moretti.

- Sim.

- Você chegou atrasada.

Olhei para o relógio.

Oito e cinquenta e nove.

- Meu horário começa às nove.

- Eu sei.

- Então não estou atrasada.

Helena fechou os olhos por um instante.

Eu quase consegui ouvir o pensamento dela.

"Não faça isso."

Lorenzo me encarou.

- Você gosta de discutir?

- Não.

- Parece.

- Eu apenas gosto de fatos.

Ele deu um passo na minha direção.

- Aqui dentro, senhorita Moretti, eu não tenho tempo para discussões.

- Ótimo. Eu também não.

Um silêncio pesado caiu entre nós.

Helena olhava de um para o outro como se estivesse assistindo a uma partida de tênis.

Lorenzo estendeu a pasta que carregava.

- Minha agenda.

Peguei.

- Bom dia para você também.

Ele me olhou.

Por um segundo, pensei que fosse responder.

Mas apenas virou as costas e voltou para o escritório.

Fiquei parada.

Helena colocou a mão na boca para esconder o sorriso.

- O que foi?

- Nada.

- Você está rindo.

- Não estou.

- Está sim.

Ela finalmente perdeu a batalha e começou a rir.

- Meu Deus, Valentina.

- O quê?

- Você não durou nem cinco minutos.

- Ele começou.

- Isso é verdade.

Olhei para a porta.

- Ele é sempre assim?

- Com praticamente todo mundo.

- Então não sou especial.

- Definitivamente não.

Bufei.

- Ótimo.

Sentei-me.

Abri a agenda.

- Vamos trabalhar.

---

Duas horas depois, eu já tinha descoberto três coisas sobre Lorenzo Cortez.

A primeira: ele não gostava de café frio.

A segunda: odiava atrasos.

A terceira: aparentemente, odiava a minha existência.

- Senhorita Moretti.

Levantei os olhos do computador.

Lorenzo estava parado diante da minha mesa.

- Sim?

- Onde está o relatório da reunião com os investidores?

- Na sua caixa de entrada.

- Eu não encontrei.

- Porque eu mandei há vinte minutos.

Ele me encarou.

- Reenvie.

- Claro.

Enviei novamente.

O celular dele vibrou.

Ele olhou.

Depois para mim.

- Recebi.

- Ótimo.

Ele continuou parado.

- Mais alguma coisa?

- Sim.

- Estou ouvindo.

- Minha reunião das onze foi transferida para onze e meia.

- Eu sei.

- Quem autorizou?

- O senhor.

Ele franziu a testa.

- Eu não autorizei.

- Autorizou sim.

Peguei a agenda e virei o computador na direção dele.

- Está aqui. Ontem, às quatro e dezessete da tarde, o senhor respondeu ao e-mail do senhor Thompson confirmando a alteração.

Lorenzo ficou em silêncio.

Olhou para a tela.

Depois para mim.

- Certo.

- Certo.

Ele não se mexeu.

- Algum problema?

- Não.

- Então?

Ele pareceu levemente irritado por eu ainda estar falando.

- Nada.

- Perfeito.

Ele virou-se para entrar no escritório.

- Senhor Cortez?

Ele parou.

- O quê?

- Bom trabalho.

Ele me olhou por cima do ombro.

- O quê?

- Nada.

Sorri.

Ele estreitou os olhos.

E entrou.

Eu mordi o lábio para não rir.

Talvez aquele emprego fosse mais divertido do que eu imaginava.

---

Na hora do almoço, eu estava terminando de organizar alguns documentos quando ouvi vozes no corredor.

- Você precisa comer.

A voz masculina era familiar.

Olhei para cima.

Um homem entrou no andar ao lado de Lorenzo.

Era o mesmo que eu tinha visto algumas vezes nas fotos da empresa.

Gael Bennett.

Melhor amigo de Lorenzo.

Ele entrou no escritório sem bater.

Dois minutos depois, saiu carregando Lorenzo pelo braço.

- Eu disse que não vou.

- E eu disse que você vai.

- Gael.

- Lorenzo.

Eles pararam diante da minha mesa.

Gael me olhou.

- Você deve ser a Valentina.

- E você deve ser o homem que consegue arrastar o CEO para almoçar.

Ele riu.

- Gostei dela.

Lorenzo me lançou um olhar.

- Não incentive.

- Ela tem personalidade.

- Ela tem problemas.

Cruzei os braços.

- E você tem uma péssima habilidade social.

Gael soltou uma gargalhada.

- Definitivamente gostei dela.

Lorenzo respirou fundo.

- Vamos.

Gael começou a andar, mas parou.

- Você não vem?

Olhei para Lorenzo.

- Eu?

- Sim.

- Por quê?

- Porque você é a secretária dele.

Lorenzo respondeu antes de mim.

- Ela tem trabalho.

- Você também.

- Eu sou o CEO.

- E daí?

- Daí que eu decido.

Gael sorriu.

- É por isso que ninguém gosta de você.

- Vamos embora.

Eles seguiram pelo corredor.

Antes de entrar no elevador, Gael olhou para trás e piscou para mim.

Sorri.

Quando as portas se fecharam, voltei ao meu computador.

Meu primeiro dia ainda nem tinha terminado.

E eu já tinha certeza de uma coisa:

Lorenzo Cortez seria um problema.

Talvez o maior problema que eu já tivesse encontrado.

E, pela maneira como ele me olhava...

Eu suspeitava que ele pensava exatamente a mesma coisa sobre mim.

---

LORENZO

- Ela vai te enlouquecer.

Olhei para Gael enquanto caminhávamos até o restaurante.

- Quem?

Ele riu.

- Não se faça de idiota, minha secretária.

- Valentina? Ela está trabalhando.

- Ela está me enfrentando. Não tenho tempo para isso.

Gael parou.

- Você está sorrindo.

Franzi a testa.

- Não estou.

- Está sim.

- Você está imaginando coisas.

- Lorenzo, eu te conheço há vinte e cinco anos.

Continuei andando.

- Ela só é atrevida.

- E você gostou.

Parei.

- Eu não gostei.

Gael sorriu.

- Ainda.

Revirei os olhos.

- Você está ficando insuportável.

- E você está ficando previsível.

Voltei a andar.

Mas, contra a minha vontade, a imagem dela voltou à minha cabeça.

O olhar firme.

A resposta rápida.

Aquele sorriso irritante.

Ela não tinha medo de mim.

E, por algum motivo que eu ainda não conseguia explicar, aquilo me incomodava.

Muito.

---

VALENTINA

Quando o expediente terminou, eu desliguei o computador e peguei minha bolsa.

Estava cansada.

Mas satisfeita.

Eu tinha sobrevivido ao primeiro dia.

Quando entrei no elevador, ouvi passos antes que as portas se fechassem.

Uma mão segurou a porta.

Lorenzo entrou.

Nós dois ficamos em silêncio.

Ele apertou o botão do térreo.

Eu olhei para frente.

Ele também.

O silêncio começou a ficar desconfortável.

- Primeiro dia. - ele disse.

Olhei para ele.

- Sim.

- E?

- Sobrevivi.

O canto da boca dele se levantou discretamente.

- Você é sempre assim?

- Assim como?

- Tão...

Ele parou.

- Petulante?

- Eu ia dizer direta.

- Mas pensou em petulante.

Ele me olhou.

- Pensei.

Sorri.

- Então estamos quites.

As portas do elevador se abriram.

Saí primeiro.

Antes que pudesse andar, ouvi sua voz atrás de mim.

- Valentina.

Virei.

- Sim?

- Amanhã, oito da manhã.

Franzi a testa.

- Meu horário começa às nove.

- Eu sei.

- Então?

Ele sustentou meu olhar.

- Quero você aqui às oito.

Cruzei os braços.

- Isso é uma ordem?

- É.

- Então vou pensar.

Ele arqueou uma sobrancelha.

- Você vai pensar?

- Vou.

- E qual é a chance de você aparecer às oito?

Sorri.

- Se eu estiver de bom humor, talvez oito e meia.

Ele soltou uma risada curta, desacreditada.

- Boa noite, senhorita Moretti.

- Boa noite, senhor Cortez.

Caminhei até a saída.

E, pela primeira vez desde que havia chegado àquela empresa, percebi uma coisa.

Talvez meu irmão estivesse certo.

Talvez eu estivesse mesmo arrumando problemas.

Mas alguma coisa me dizia que aquele seria apenas o começo.

Porque, por mais que Lorenzo Cortez parecesse determinado a me tirar do sério...

Eu começava a desconfiar que provocar aquele homem seria divertido demais para eu simplesmente parar.

{...}

Capítulo 3 02

Aurora

Depois de longas seis aulas chegou a agora finalmente de ir embora, só que o que me esperava era o período da tarde de estágio na empresa da família. E confesso que preferia ficar lá do que no campus da universidade.

Senti mais tapando meus olhos, e eu sabia que só poderia ser uma pessoa, Miguel. Por mais que nós estivéssemos dando um tempo da nossa relação, ele ainda continuava perto, e talvez por a gente terminar e voltar tantas e tantas vezes, dessa vez eu não sinto falta.

- Oi Miguel.

- Sem graça. - Ele diz bufando.

- Eu estou com pressa tenho que ir trabalhar. - Digo.

- Esse é um dos motivos da gente tá dando um tempo, você só pensa nos estudos e na maldita empresa da sua família.

- Esse é um dos motivos de eu estar pouco me fodendo para o que você pensa ou deixa de pensar. Você é filhinho de mamãe, quando seu pai morreu, sua mãe deixou você fazer o que bem entendesse e isso foi o maior erro dela. Você não vai ter a grana na mamãe pra toda vida não, eu pelo menos quero construir algo, assumir a empresa da minha família e não só usufruir do dinheiro. Você é um moleque inconsequente e não sabe o valor de cada roupa ou jóia que está no seu corpo. - Dito isso ouvi um estralo e minha bochecha arder.

Antes que eu pudesse raciocinar, levantei minha mão e lhe devolvi não só a bofetada, como um chute no saco, e quando ele abaixou lhe dei um soco.

- Se você acha que tínhamos chance de volta agora tenha certeza que eu nunca mais deixo você encostar um dedo em mim, seu maldito filho da puta. - Viro as costas e saio.

Olho no viro do carro e vejo que meu lábio cortou e minha bochecha está muito vermelha, com algumas partes ficando roxas.

Maldito filho da puta.

Entrei no carro e segui para a empresa, entrei e pedi pra um dos seguranças uma bolsa de gelo. Entrei no elevador e um deles veio correndo e me entregou, coloquei no meu rosto, e tudo que eu queria era não encontrar meu tio, e muito menos o Gael, porém os dois estavam bem na minha frente assim que as portas do elevador se abriram.

- Que merda é essa, Aurora? - Gael foi o primeiro.

Lorenzo ficou quieto.

- Ele está bem pior, não se preocupe. - Digo. - Acho que não terá filhos. - Dou uma risadinha.

Gael e Lorenzo mudaram suas feições rapidamente, eles estavam com feições de dois Pitbulls prontos para atacar e estraçalhar a cara de alguém. E esse alguém seria Miguel Rossi.

- Boa tarde, você deve ser a Valentina. Muito prazer, não ligue para esses dois em questão de segundos esse telefone vai tocar e saberemos o que eles fizeram. - Foi eu calar a boca e o elevador tinha fechado as portas e dos haviam sumido.

- Quem fez isso com você? - Ela perguntou.

- Me ex, mas eu deixei ele bem pior. - Digo e dou uma piscadela.

- Eu acho que por isso nunca namorei, meu requisito para homem está muito elevado.

- Apesar que ele era uma boa pessoa, mas depois que o pai dele morreu se tornou um filhinho da mamãe mimado. Mas eu sei me defender não se preocupe.

- Você é corajosa. - Valentina diz.

- Você também, por aturar meu tio.

- Eu acho que ele encontrou alguém a altura do bom humor dele. - Ela diz e eu dou risada.

- Já gostei de você.

Valentina sorriu, mas antes que pudesse responder, ouvimos passos apressados pelo corredor.

- Aurora!

Fechei os olhos por um segundo.

Eu conhecia aquela voz.

- Meu Deus...

- O quê? - Valentina perguntou.

As portas do elevador abriram novamente e Gael apareceu.

Sozinho.

O que, considerando a expressão no rosto dele, era ainda mais assustador.

- Onde ele está?

- Quem?

Ele me encarou.

- Aurora.

- Gael.

- Não brinca comigo.

Suspirei.

- Eu não sei.

- Lorenzo está tentando descobrir.

- Tentando descobrir o quê?

- Onde o seu ex está.

Revirei os olhos.

- Vocês não fizeram nada, fizeram?

Gael cruzou os braços.

- Depende do que você considera "nada".

- Gael!

- Estamos apenas conversando.

- Com Miguel?

- Sim.

- E onde vocês estão conversando?

Ele ficou em silêncio.

- Gael.

- Em um lugar reservado.

- Vocês estão loucos.

- Ele bateu em você.

A voz de Lorenzo surgiu atrás dele.

Meu sorriso desapareceu.

Ele estava parado alguns metros à nossa frente, com o maxilar travado e as mãos fechadas.

Eu conhecia meu tio.

Conhecia aquele olhar.

Era o olhar que ele usava quando estava tentando controlar a própria raiva.

E aquilo me assustou mais do que se ele tivesse gritado.

- Lorenzo...

Ele veio até mim.

- Deixa eu ver.

- Não precisa.

- Aurora.

Suspirei e tirei a bolsa de gelo do rosto.

Ele segurou meu queixo com delicadeza, virando meu rosto para o lado.

Seus olhos escureceram ao observar a marca.

- Ele fez isso?

- Sim.

- E você fez o quê?

- Dei o troco.

Gael soltou uma risada curta.

Lorenzo nem sequer olhou para ele.

- Você está machucada.

- Não estou.

- Seu lábio está cortado.

- É só um corte.

- E sua bochecha está ficando roxa.

- Também vai passar.

Ele respirou fundo.

- Você deveria ter me ligado.

- Para quê?

- Para qualquer coisa.

- Lorenzo, eu não tenho cinco anos.

- Eu sei.

- Então pare de agir como se eu precisasse de alguém para resolver minha vida.

Ele me encarou.

Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.

Eu sabia que ele estava preocupado.

Sabia também que, se dependesse dele, teria ido atrás de Miguel no mesmo segundo em que viu meu rosto.

Mas eu não queria isso.

Não queria que aquele episódio se tornasse maior do que já era.

- Eu consigo cuidar de mim. - falei mais baixo.

A expressão dele suavizou um pouco.

- Eu sei.

- Então confia em mim.

Ele assentiu.

- Eu confio.

Gael bufou.

- Eu não.

Olhei para ele.

- Ninguém perguntou.

- Eu só estou dizendo.

- E eu só estou ignorando.

Valentina, que até então estava quieta, soltou uma risadinha.

Olhei para ela.

- Está vendo? Ela já entendeu como funciona.

- Entendi mesmo.

Lorenzo olhou para Valentina pela primeira vez.

- Não dá corda, Velentina.

Ela ajeitou a postura.

- Não estou.

Ela piscou.

Gael abriu um sorriso.

Eu mordi a parte interna da bochecha para não rir.

Lorenzo virou lentamente o rosto para ela.

Olhei para Gael.

Ele estava quase explodindo de tanto segurar o riso.

Lorenzo passou a língua pelos dentes, respirou fundo e apontou para a porta do escritório.

Eu não aguentei.

Comecei a rir.

- O que foi? - ele perguntou.

- Nada.

- Aurora.

- É que...

Olhei para Valentina, que já estava sentada na mesa.

- Acho que finalmente encontrei alguém que consegue te irritar mais do que eu.

Gael gargalhou.

Lorenzo lançou um olhar para nós dois.

- Vocês são insuportáveis.

- Obrigada - respondi.

Ele balançou a cabeça e entrou no escritório.

---

Fiquei alguns minutos na recepção conversando com Valentina.

Apesar de termos nos conhecido há poucos minutos, era fácil conversar com ela.

Talvez porque ela não tentasse me tratar como "a filha de Sophia e Matteo".

Ela falava comigo como Aurora.

E eu gostava disso.

- Então você trabalha aqui há quanto tempo? - perguntei.

- Hoje é meu segundo dia.

Arregalei os olhos.

- Está brincando.

- Não.

- E você já discutiu com Lorenzo?

- Tecnicamente, ele discutiu comigo.

- Não importa. Você ganhou.

Ela riu.

- Seu tio é sempre assim?

- Infelizmente.

- Você parece gostar dele.

- Eu amo aquele homem.

- Dá para perceber.

Sorri.

- Lorenzo sempre foi meu porto seguro. Quando eu era criança, ele fazia tudo por mim.

- E agora?

- Agora ele acha que ainda precisa fazer.

Valentina apoiou os braços na mesa.

- E você não gosta?

Pensei por alguns segundos.

- Às vezes gosto. Às vezes me irrita.

- Normal.

- Você tem irmãos?

Ela assentiu.

- Um. Dante.

- O advogado?

- Sim.

- Então você sabe como é ter alguém querendo controlar cada passo.

- No meu caso, é o contrário. Dante tenta me impedir de colocar fogo nas coisas.

Ri.

- Acho que vamos nos dar muito bem.

- Também acho.

O elevador abriu.

Gael saiu.

Sozinho novamente.

Olhei para ele.

- Onde está Lorenzo?

- Em uma ligação.

- E Miguel?

O sorriso dele desapareceu.

- Resolvido.

- Gael...

- Não fizemos nada.

- Tem certeza?

- Seu tio só conversou com ele.

- Conversou?

- Sim.

- E por que você está com essa cara?

- Porque seu tio é assustador quando está calmo.

Soltei um suspiro.

- Eu não quero confusão.

- Eu sei.

- Então deixe Miguel para lá.

- Aurora...

- Sério.

Ele assentiu.

- Tudo bem.

Por alguns segundos, ficou me olhando.

- Você está mesmo bem?

- Estou.

- Não precisa fingir comigo.

Aquilo me atingiu.

Gael sempre fazia isso.

Ele enxergava além do que eu dizia.

- Eu estou chateada - admiti.

- Com ele?

- Comigo também.

- Por quê?

Olhei para minhas mãos.

- Porque eu fiquei tanto tempo insistindo em um relacionamento que já não existia.

Gael ficou em silêncio.

- Eu e Miguel terminávamos e voltávamos o tempo inteiro. Eu achava que aquilo significava alguma coisa. Que, no fundo, nós ainda nos amávamos.

- E agora?

Olhei para ele.

- Agora eu acho que só tinha medo de admitir que não.

Ele se aproximou um pouco.

- Você não precisa voltar para ninguém só porque ficou muito tempo com essa pessoa.

- Eu sei.

- E não precisa começar outro relacionamento agora.

- Eu também sei.

- Então...

- Então o quê?

Ele sorriu.

- Nada.

Fiquei olhando para ele.

Havia alguma coisa diferente naquele sorriso.

Alguma coisa que eu não conseguia identificar.

- Você está estranho.

- Eu?

- Sim.

- Estou normal.

- Não está.

- Você está imaginando coisas.

- Talvez.

Ele deu de ombros.

- Pode ser.

Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, Lorenzo saiu do escritório.

- Aurora.

- Sim?

- Sua mãe ligou.

Meu coração acelerou.

- O que ela quer?

- Saber se você está bem.

- Você contou?

- Ela viu uma mensagem no grupo da família.

- Droga.

Peguei o celular.

Havia oito chamadas perdidas.

- Vou ligar para ela.

- Faça isso.

Comecei a caminhar em direção ao corredor.

- Aurora.

Parei.

- Sim?

- Você vai para casa depois daqui.

- Tenho estágio.

- Não hoje.

- Lorenzo...

- Você precisa descansar.

- Estou perfeitamente bem.

- Não estou perguntando.

Cruzei os braços.

- E eu não estou aceitando.

Gael começou a rir.

Lorenzo fechou os olhos.

- Você vai acabar comigo.

- Você sobrevive.

- Vai para casa, Aurora.

- Não.

Ele me encarou.

Eu sustentei o olhar.

- Tenho trabalho para fazer.

- Você acabou de levar um tapa.

- E já devolvi.

- Isso não muda o fato de que você está machucada.

- Lorenzo, se eu for embora toda vez que alguma coisa acontecer comigo, nunca vou aprender a lidar com a vida.

Ele ficou quieto.

Dessa vez, ele pareceu entender.

- Tudo bem.

Sorri.

- Obrigada.

- Mas você vai me mandar mensagem quando chegar em casa.

- Isso eu já faria.

- E vai ficar com o gelo no rosto.

- Sim, senhor.

- E não vai encontrar Miguel.

Revirei os olhos.

- Não pretendo.

- Promete?

- Prometo.

Ele assentiu.

- Então está bem.

Passei por ele.

- Ah, Lorenzo?

- O quê?

- Sua secretária é ótima.

Ele olhou para Valentina.

Ela fingiu que não estava ouvindo.

- Ela é um problema.

Valentina levantou os olhos.

- Eu ouvi.

- Era para ouvir mesmo.

- Ótimo.

Ela sorriu.

Eu ri.

Definitivamente, aquela mulher seria minha amiga.

---

O restante da tarde passou mais rápido do que eu esperava.

Entre documentos, ligações e algumas mensagens da minha mãe perguntando se eu estava realmente bem, consegui me distrair.

Quando terminei uma parte do meu trabalho, levantei para pegar água.

Passei pela porta do escritório de Lorenzo.

Estava aberta.

Ele estava de costas, olhando pela janela.

Parecia cansado.

Bati duas vezes.

- Entra.

Entrei.

- Está tudo bem?

Ele se virou.

- Comigo?

- Sim.

- Por que não estaria?

- Você está quieto.

- Estou trabalhando.

- Você fica quieto quando está preocupado.

Ele soltou um suspiro.

- Estou preocupado com você.

- Eu estou bem.

- Eu sei.

- Então por que continua com essa cara?

Ele caminhou até mim.

- Porque eu odeio saber que alguém encostou em você.

Minha expressão suavizou.

- Lorenzo...

- Eu deveria ter percebido que alguma coisa estava errada.

- Você não tinha como saber.

- Sou seu tio.

- Exatamente.

Ele sorriu de leve.

- Você cresceu rápido demais.

- Isso é bom.

- Nem sempre.

Fiquei em silêncio.

Ele tocou de leve meu cabelo.

- Só me promete que nunca vai esconder de mim quando alguma coisa estiver acontecendo.

- Prometo.

- Mesmo que seja ruim.

- Mesmo que seja ruim.

Ele assentiu.

- Então está bem.

Eu o abracei.

- Eu te amo.

Ele me apertou contra o peito.

- Eu também te amo, pequena.

- Eu não sou pequena.

- Para mim é.

- Idiota.

Ele riu.

Quando me afastei, percebi alguém parado na porta.

Gael.

Ele nos observava com um sorriso discreto.

- Interrompi alguma coisa?

- Não. - respondi.

Lorenzo pegou alguns documentos.

- Você queria falar comigo?

Gael assentiu.

- Sim.

Olhei para os dois.

- Vou deixar vocês.

Saí do escritório e fechei a porta.

Não ouvi o que eles conversaram.

Mas, enquanto caminhava de volta para minha mesa, uma sensação estranha tomou conta de mim.

Talvez fosse apenas o dia difícil.

Talvez fosse o cansaço.

Ou talvez alguma coisa estivesse realmente mudando.

Porque, pela primeira vez, comecei a perceber que as pessoas ao meu redor não eram exatamente as mesmas.

Eu também não era.

Eu havia passado anos acreditando que sabia o que queria.

Sabia quem amava.

Sabia com quem queria ficar.

Mas naquele dia, depois de levar um tapa, percebi que meu relacionamento provavelmente havia terminado muito antes daquela tarde...

Uma pergunta começou a surgir dentro de mim.

E se eu nunca tivesse realmente enxergado as pessoas que estavam ao meu lado?

Olhei para Gael através do vidro.

Ele estava conversando com Lorenzo.

Por algum motivo, nossos olhos se encontraram.

Ele sorriu.

Eu sorri de volta.

E imediatamente desviei o olhar.

Não sei por quê.

Talvez porque, pela primeira vez, aquele sorriso tenha causado uma sensação diferente.

Uma sensação pequena.

Quase imperceptível.

Mas que eu não conseguiria esquecer tão facilmente.

E eu ainda não sabia...

Mas talvez algumas coisas estivessem prestes a mudar.

Não apenas na minha vida.

Mas também dentro de mim.

{...}

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