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Entre No Jogo

Entre No Jogo

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Romance
Whitney lutava com todas as forças para impedir que uma esperança se instalasse em seu coração. Precisava ser realista! Como alimentar a ilusão de que Sloan poderia amá-la se ela destruíra o noivado dele? Jamais se esqueceria daquela cena: Gleda entrando no quarto e os surpreendendo seminus na cama. E agora Sloan lhe pedia que representasse uma farsa para ajudá-lo, mas como conseguir isso se estava perdidamente apaixonada por ele?

Capítulo 1 1

Whitney lutava com todas as forças para impedir que uma esperança se instalasse em seu coração. Precisava ser realista! Como alimentar a ilusão de que Sloan poderia amá-la se ela destruíra o noivado dele? Jamais se esqueceria daquela cena: Gleda entrando no quarto e os surpreendendo seminus na cama. E agora Sloan lhe pedia que representasse uma farsa para ajudá-lo, mas como conseguir isso se estava perdidamente apaixonada por ele?

CAPÍTULO I

A vida tinha estado um tanto monótona ultimamente. Whitney Lawford não conseguia se divertir naquela festa e pela centésima vez desejou ter recusado o convite de Toby Keston para acompanhá-lo. Afastando-se do barulho, refugiou-se no vestiário e considerou que talvez devesse se sentir feliz com sua existência tranqüila.

- Vamos - ele implorara. - Sei que você tem motivos para não querer se envolver com os homens, mas prometo que não vou aborrecê-la.

Trabalhavam na mesma firma, tinha vinte e três anos, mas para Whitney parecia que ele era bem mais novo. Todos gostavam desse rapaz simpático que estava sempre disposto a ajudar e a agradar as pessoas.

- Por favor - Toby insistiu, e Whitney já começava a aceitar a idéia quando, parecendo um menino perdido, ele continuou com voz assustada: - Val prometeu apresentar-me a uma de suas amigas se eu não comparecer acompanhado.

Não sabia por que Toby não queria conhecer uma amiga da irmã; ficou comovida e concordou:

- Está bem, eu irei. Em que bairro de Londres sua irmã mora? - Whitney percebeu que Toby ficara aliviado e que ela já estava irremediavelmente comprometida.

- A festa não é na casa de Val.

- Não?

Ele balançou a cabeça.

- É uma espécie de festa-surpresa para o noivo de uma garota chamada Gleda Caufield, que está voltando à Inglaterra depois de três meses no exterior. Ele é um magnata da indústria e tem negócios em quase todos os países. Gleda e minha irmã estão se esforçando para recebê-lo com uma festa de arromba!

- Será que ele vai gostar? - Whitney perguntou. Em sua opinião, qualquer homem que estivesse três meses longe da noiva, gostaria de encontrá-la a sós quando regressasse.

- Gleda acha que sim, e Val também - Toby respondeu. - E a governanta de Heathlands vai ajudar.

- Heathlands? - Whitney repetiu.

- A casa de Sloan Illingworth, em Berkshire - o rapaz informou de imediato.

O nome do proprietário não lhe chamou a atenção, mas ela ficou preocupada com a distância.

- Berkshire!

- Não fica longe indo pela rodovia - ele assegurou-lhe. - E Val vai nos levar em seu carro até lá. Assim não precisarei controlar a bebida...

Whitney escolheu um vestido leve, decotado, com alças bem finas, para usar nessa noite quente de maio.

Quando Toby e a irmã vieram buscá-la, ela percebeu que não havia semelhança alguma entre os dois. Além de serem diferentes fisicamente, o rapaz era caloroso e gentil, enquanto Valerie Keston parecia ter saído do congelador. Chegaram a Heathlands sem que Whitney mudasse de opinião.

- Fiquem à vontade - ela falou ao irmão, assim que chegaram. Em seguida gritou: - Querido! - e foi em direção a um homem corpulento que se aproximava. Apoiando-se em seu braço, afastou-se e deixou que Toby apresentasse Whitney à dona da festa.

- Que prazer recebê-los! - Gleda, uma loira muito elegante, sorriu para Whitney. Em sua mão esquerda se destacava um magnífico anel de noivado com safiras e brilhantes incrustados. Ela acenava em todas as direções para pessoas que se serviam de bebidas. Quase ao mesmo tempo se voltava para mais alguém: - Querido, que prazer em recebê-lo!

Whitney ouviu o refrão.

- Que prazer recebê-los! - e fez uma careta em frente ao espelho do toalete. Tinha a impressão de que se passara um século desde que ouvira Gleda Caufield recitar sua fútil saudação. Mas fazia apenas três horas...Rezou para que o tão esperado industrial logo aparecesse e ela pudesse manifestar o desejo de voltar para casa. De repente, verificou que não ficaria escondida por muito tempo. Alguém entrou no toalete e Whitney tocou seus longos cabelos castanhos com os dedos, como se acabasse de penteá-los.

Esforçando-se por colocar um pouco de alegria nos grandes olhos verdes, cumprimentou a outra pessoa e voltou à festa. Suspeitou que todos já estivessem bêbados.

Agora as pessoas aglomeravam-se num enorme hall. Não viu sinal de Toby. Deveria estar no toalete. Com a intenção de procurá-lo, caminhou e se afastou para dar passagem a um carrinho de bebidas que vinha em ziguezague. Ficou irritada. Aquelas pessoas só se divertiam espremendo-se umas contra as outras.

O homem que empurrava o carrinho estendeu-lhe uma mão trêmula com um copo.

- Obrigada, já experimentei. - Ela pretendia ser gentil.

- Este não, tem sabor de caramelo - ele gaguejou, ofendido, e seguiu, quase atropelando as pessoas.

Então Whitney enfrentou uma verdadeira maratona. Cinco minutos depois ela ainda estava tentando abrir caminho entre a massa humana que dançava ao som que vinha de algum tape-deck.

Alguns homens, bem alegres, dirigiram-lhe gracejos. Contudo, sua irritação atingiu o limite quando, encontrando um espaço livre e tentando passar por ele, foi agarrada por um indivíduo com a face vermelha e suada.

- Ei, doçura, vamos dançar? - Ele a olhou maliciosamente e colocou as mãos úmidas e pegajosas em seus ombros nus, fazendo-a sentir-se mal.

Só depois de alguns segundos conseguiu desvencilhar-se ao atingi-lo no estômago com o cotovelo, fazendo-o urrar de dor. Vendo-se livre, fugiu sem se desculpar.

Whitney se chocou com alguns pares que dançavam. Ao se afastar da multidão, chegou perto de uma escada onde não havia ninguém. Então percebeu que a luta contra o bêbado teve uma conseqüência: a estreita alça do vestido sobre seu ombro direito estava solta.

Para sua surpresa, o acesso à escada estava bloqueado por barreiras. Lembrou que a governanta ajudaria na recepção e tivera a preocupação de isolar o andar superior. Achou que fora uma boa idéia. Poucos convidados, àquela hora, mantinham-se firmes e teriam condições de enfrentar os degraus.

Tentou colocar a alça arrebentada para dentro da blusa. Deu alguns passos, espreitou a festa e viu que a animação era geral. Esperava localizar Toby, mas, para seu desânimo, foi um palhaço com rosto vermelho e suado que se destacou em primeiro lugar. - Oh, que droga! - praguejou, percebendo que ele procurava alguém. - Não serei sua vítima de novo. Prefiro qualquer outra coisa. Só não quero aquelas mãos pegajosas me segurando outra vez. Então retrocedeu e contornou o canto da escada. Silenciosamente, desviou-se das barreiras e começou a subir os degraus.

Atingindo o andar superior, permaneceu num canto mal iluminado e reviu a situação.

- Aqui está bem melhor - falou para si mesma. - Não há nenhuma pessoa com quem eu gostaria de conversar. Até Toby já estava diferente quando o vi pela última vez.

Descansando seu corpo contra a parede, desejou de todo o coração que Sloan Illingworth chegasse o mais rápido possível.

Ela não saberia dizer quanto tempo permaneceu ali.

Se demonstrasse desejo de voltar para casa, com certeza Valerie Keston a consideraria louca. Heathlands estava situada numa região isolada e, sem condução própria, teria de esperar até que a irmã de Toby resolvesse ir embora.

Cansaço e chateação tomaram conta dela.

Já passava de seu horário de dormir e Whitney voltou-se para olhar a porta de um quarto do outro lado do corredor.

- Deve haver um banco ou uma cadeira lá dentro - pensou. Ela se esforçava para resistir à tentação de abrir a porta. Certamente a governanta chaveara os quartos como fizera com outros cômodos no andar inferior.

Sua educação determinava que ela não poderia ficar escondida até ouvir alguém gritar: "Surpresa! Surpresa!" Suspirou e afastou-se da parede com a intenção de juntar-se à algazarra. Porém, contra sua vontade, viu sua mão segurar o puxador da porta do quarto. Seus dedos foram incapazes de soltá-lo antes de experimentar e... ele não estava trancado. Abriu a porta vagarosamente; apenas a luz da escada iluminava o aposento. Nessa semi-escuridão, não conseguia observar todos os detalhes do quarto. Mas, bem no centro, havia uma cama.

- Uma cama! - lembrou saudosa, e tentou dominar o impulso de entrar e passar ali alguns momentos calmos. De repente, uma risada estridente ecoou pelos ares, anunciando que a festa continuava ainda mais selvagem.

Whitney agiu instintivamente, e depois de alguns segundos refugiava-se naquele quarto. "Vou dar um tempo. Farei uma pausa", pensou. "Não sei a quem pertence este quarto, mas ficarei só alguns minutos... ninguém vai saber..."

Deixando a porta encostada, entrou e sentou numa extremidade da cama para espairecer por alguns minutos.

Era agradável sentir a escuridão calma. Tardiamente concluiu que nunca deveria ter concordado com Toby. A movimentação que acontecia no primeiro andar parecia mais uma anarquia do que o tipo de festa que costumava freqüentar.

Inconscientemente, tirou os sapatos e colocou os pés sobre o colchão. Outros pensamentos assaltaram sua mente: a culpa dessa situação seria da festa ou dela mesma? Seria diferente se estivesse acompanhando Dermot, e não Toby?

Dermot...

Suas lembranças pousaram em fatos ocorridos há seis meses, quando ainda trabalhava na empresa Implementos Hobson. Numa segunda-feira, fora apresentada a Dermot Selby. Ao cumprimentá-lo, Whitney ouviu:

- Tenho certeza de que vamos nos entender bem!

Ela soube por intuição que sua vida nunca mais seria a mesma. E estava certa. Em pouco tempo ela e Dermot estavam saindo juntos, regularmente, conforme ele determinava. E justificou:

- Se não fosse por este novo emprego e pelo fato de que ainda tenho muito a aprender, eu a veria todas as noites, querida, mas...

- Não precisa dizer nada, eu posso entender - ela interrompeu. Estava satisfeita encontrando-o duas vezes por semana. Além disso, gostaria de ser sua secretária para trabalhar com ele até mais tarde. Simplesmente, já o amava.

Já se viam há dois meses e um dia. Aproveitando a hora do almoço, Whitney fora fazer algumas compras. Entrava numa galeria quando viu Amanda Clarice, a mulher que tinha a sorte de ser a secretária de Dermot. Elas não se conheciam muito bem e Whitney cumprimentou-a com um movimento de cabeça. Percebeu que Amanda hesitava, e parou para saber o que ela tinha a dizer. O que ouviu deixou-a completamente abalada:

- É verdade que você tem se encontrado com Dermot Selby? A primeira idéia que lhe veio à cabeça foi de que a secretária estivesse com ciúme.

- Sim, já saímos juntos algumas vezes.

Whitney procurava palavras que pudessem aliviar alguma dor que Amanda sentisse. Contudo, para sua surpresa, ouviu-a dizer:

- Não pense que estou enciumada. Estou preocupada, e preocupada com você.

A princípio, Whitney nada entendeu, mas a secretária de Dermot continuou:

- Você sabe que ele é casado, não sabe?

- Casado? - Essa pergunta revelava que ela desconhecia o fato. - Não pode ser! Você está enganada. Você...

- Então pergunte a ele - Amanda interrompeu com calma, e saiu.

Atordoada, Whitney não queria acreditar naquelas palavras.

De volta ao escritório, não conseguiu se concentrar no serviço.

"Ele não pode ser casado", continuou pensando. "Talvez tenha se casado, mas agora está divorciado."

Sabia que Dermot passaria a tarde toda fora, senão iria lhe perguntar diretamente. Teria de esperar até a noite, quando se encontrariam para jantar.

Mais tarde, em seu apartamento, Whitney recordou os últimos tempos. Certa vez comprara dois ingressos para um show que ele pretendia assistir. Queria lhe fazer uma surpresa, mas fora ela quem ficara surpreendida com sua reação:

- O que você está pensando? - Dermot quase gritava. - Já tenho compromisso. Sábado vou buscar minha tia no aeroporto.

Agora ela se lembrava de que nunca ouvira falar dessa tia antes. Será que um homem solteiro, com trinta anos, ocuparia suas noites de sábado esperando por uma tia no aeroporto? Ou não saía nos fins de semana porque tinha uma esposa?

Whitney sofria com esses pensamentos. Em outra ocasião, quando se despediam, ele exclamou, alarmado:

- Não deixe minha camisa marcada de batom!

- Ora, você é um rabugento. Eu nem estou usando batom agora.

Sem dar conta de seus atos, Whitney saiu da beirada da cama onde estava sentada, em Heathlands, e deitou-se com a cabeça sobre o travesseiro; seus pensamentos voltaram àquela noite quando abriu a porta para Dermot.

- Boa noite, querida - ele a cumprimentou. - Você está tão pálida!

- Entre - ela convidou. Não esperou chegar até o apartamento e, escapando das mãos que queriam abraçá-la, perguntou bruscamente: - Você é casado?

- O quê?... Quem foi que te falou...

- Adeus, Dermot - ela se expressou com voz fria e manteve a porta aberta.

Quando se recuperou, ele falou:

- Não é como você está pensando.

- Você é ou não é casado? - ela persistiu na pergunta. E essa moça que falava friamente era uma estranha para ela, pois Whitney sempre se mostrava calma e compreensiva.

- Sim... sou casado - Dermot foi forçado a admitir. - Mas eu amo você!

As pernas de Whitney tremiam. Ela desejara que Dermot a amasse. Ouvir essa declaração seria o coroamento de todos os seus sonhos.

- E você ainda vive com sua mulher? - a voz soou menos seca. Talvez o aceitasse se ele e a esposa estivessem separados.

Mas a resposta de Dermot não foi aquela que esperava ouvir:

- Eu preciso viver com ela por enquanto...

- Precisa?

- As crianças ainda são muito pequenas - ele argumentou, chocando-a mais ainda. Não passara pela sua cabeça que ele tivesse filhos. - Mas logo que elas crescerem, eu a deixarei e nós...

Whitney procurou se controlar. Desapontada, interrompeu-o antes que tentasse qualquer outra explicação:

- Nós... coisa nenhuma. Nunca! - ela gritou, ofendida. Abrindo mais a porta, recusou-se a ouvir mais detalhes.

Aquela noite, chorara por um homem que não merecia suas lágrimas.

Mais tarde imaginou se essas lágrimas foram derramadas porque terminara com Dermot ou se, por causa dele, recordara-se do sofrimento de sua mãe.

Quando tinha vinte anos, morava com os pais e eram muito felizes. Certo dia, atendeu à porta e cumprimentou uma mulher de aproximadamente trinta e cinco anos. Mandou-a entrar quando soube que ela desejava ver o sr. Lawford.

- Desculpe-me, mas não ouvi seu nome - Whitney lembrou quando ia apresentá-la à mãe.

- Meu nome não é importante - ela replicou, e deixou as duas sem fala ao informá-la de que, há cinco anos, ela era a sra. Lawford.

A princípio, Whitney se recusou a acreditar e ia indicar a porta para que a mulher se retirasse. Nesse instante, Lawrence Lawford entrou na sala e três pares de olhos voltaram-se para ele.

- O que... - começou a esbravejar. Seus olhos moviam-se da estranha que dizia ser sua amante até a face muito pálida da esposa.

- Eu tinha de vir...

Whitney ficou horrorizada. A expressão daquela mulher revelava que seu pai prometera abandonar a família e ela não queria esperar mais.

Mas as coisas não aconteceram assim. Lawrence Lawford não tinha a intenção de deixar sua confortável casa.

Whitney nunca conseguiu saber o que acontecera entre os pais depois daquele dia. Sua mãe tornara-se uma pessoa fechada e distraída, que nunca concluía as coisas que começava a fazer. Certo dia, quando dirigia o carro, sem nenhuma razão aparente, chocou-se com um caminhão parado. Nunca mais se recuperou, e veio a falecer. Ela não havia superado o choque, nem conseguira esquecer a traição do marido.

Whitney ainda amava o pai, mas esse fato afastou-os um pouco. Tempos depois ele se casara novamente, mas não com a antiga amante. Ela então saiu de casa.

Em Londres foi morar num pensionato e conseguiu um emprego na firma Implementos Hobson. Estava lá havia quatro meses quando se instalou no apartamento. Ao terminar com Dermot, pediu demissão. Um mês após era admitida na Plásticos Alford e logo conheceu o inofensivo Toby Keston.

- Vai fazer alguma coisa esta noite? - ele quis saber logo no primeiro fim de semana.

- Vou. - Ela fora agressiva, sem se importar se feria os sentimentos do rapaz.

Essa indelicadeza não a deixou satisfeita. Agredindo-o, agrediu a si mesma. Começou a entender que nem todos os homens eram iguais.

Com Toby em seu pensamento, Whitney imaginou se não deveria enfrentar a festa e procurar por ele. Entretanto, sentia-se mais confortável ali, sozinha, do que em qualquer outro lugar da casa.

Não saberia dizer quanto tempo se passou. Calculava que já fossem mais ou menos duas horas da manhã. E o barulho continuava intenso no andar inferior.

Uma sonolência tomou conta dela quando fechou os olhos para se decidir procurar o rapaz. Mas, se não descesse, não presenciaria a chegada do noivo.

Sentindo frio, puxou inconscientemente um acolchoado e acomodou-se sob ele.

- Que delícia! - sussurrou, e anotou mentalmente que precisava alisar a coberta antes de deixar o quarto.

E onde estaria Sloan Illingworth? Seu vôo estaria atrasado?

A idéia de vôo lembrou-lhe Dermot esperando a tia no aeroporto. De repente, começaram a passar pela sua cabeça as figuras de seu pai, de sua mãe, de Dermot, e de um desconhecido Sloan Illingworth. Uma imagem seguia a outra rapidamente ao som de uma música longínqua e Whitney adormeceu.

Despertou do sono acreditando que estava no meio de um pesadelo. Primeiro, uma voz aguda e penetrante gritava:

- Venha, idiota, você sabe que não pode ir à parte superior da casa!

Depois, antes que fizesse idéia de onde pudesse estar, alguém invadiu o quarto, encontrou o interruptor e iluminou o cômodo inteiro. A claridade fez com que ela acordasse de uma vez. E foi quando o pesadelo começou.

Deitada de um lado da cama, subitamente viu um braço nu que surgia de baixo do mesmo acolchoado que a cobria. Então, abriu bem os olhos. Não soube como, mas não estava sozinha naquela cama.

Antes que pudesse relaxar os músculos, o companheiro, visivelmente irritado, resmungou e sentou.

Whitney estava para se sentar também quando uma voz vinda da porta atingiu-lhe os ouvidos. Seus olhos perceberam seu próprio braço nu. Com as idéias confusas, não foi capaz de saber se estava totalmente sem roupas, como aquele homem parecia estar. Ela se voltou vagarosamente para a porta e viu a gritaria começar:

- Seus cretinos! Miseráveis! - Uma multidão contemplava os dois na mesma cama. - Pensar que durante todos esses meses eu confiei em você - a voz reclamava outra vez.

Então Whitney se arrepiou. À frente do grupo, a mulher que ralhava com o homem a seu lado não era outra senão Gleda Caufield! Ela ainda não conhecera seu noivo. Porém, ao observar o homem com trinta e poucos anos, de boa aparência e que balançava a cabeça para espantar o sono, teve a certeza de que estava acabando de ter o prazer de conhecê-lo...

Capítulo 2 2

Whitney não teve muito tempo para analisar seu anfitrião de cabelos lisos e olhos cinzentos. Gleda Caufield parou de importuná-lo, mas começou a lançar sua fúria contra ela.

- E quanto a você, sua sem-vergonha - insultou-a com a voz bem alta -, espero que esteja satisfeita, agora que meu noivado terminou.

Whitney tinha certeza de que não fizera nada errado. Devia ser mesmo um pesadelo.

Para seu alívio, Sloan Illingworth vestiu um roupão que misteriosamente aparecera ao pé da cama e levantou-se para resolver a situação.

Ela o fitava, ainda atordoada, quando ele se dirigiu à noiva. Como por milagre, as pessoas haviam sumido. Segurando o braço de Gleda, ele a conduziu para fora do quarto.

Verificando que, como era seu desejo, estava totalmente vestida, saltou da cama também. Entretanto, para onde iria? Sloan com certeza estaria fazendo a noiva entender que as aparências enganavam. Se alcançasse seu objetivo, não haveria problema em encarar Gleda Caufield outra vez. Seu rosto parecia pegar fogo; resolveu esfriá-lo no banheiro particular cuja porta estava entreaberta.

Dez minutos depois ela já recuperara sua abandonada compostura. Não sabia se deveria aparecer antes que Gleda e o noivo tivessem esclarecido as coisas; já havia feito muito por uma noite.

Por um momento ficou cismada com o fato de Sloan Illingworth ir para a cama quando sua noiva o esperava com uma festa. Então lembrou-se de que Valerie dissera alguma coisa sobre negócios no exterior.

"Ele deve ter enfrentado um vôo prolongado, por isso chegou atrasado. Quis dormir porque se sentia exausto."

Agradeceu aos céus por não ter visto Toby nem a irmã dele na porta do quarto. Contudo, era certo que logo eles tomariam conhecimento do fato.

Whitney ficou no banheiro por mais dez minutos. Era tempo suficiente para Sloan convencer Gleda de que não a estava traindo. Curiosa, abriu uma fresta na porta para ouvir alguma coisa.

Ali reinavam uma paz e um silêncio impressionantes. Não acreditando que a casa pudesse ter se tornado esse paraíso depois de parecer uma torre de Babel, ela abriu a porta um pouco mais. E alguém rompeu o silêncio:

- Se você pretende sair desse banheiro, por favor, saia logo. Eu gostaria de dormir agora!

Whitney abriu totalmente a porta e, com os nervos à flor da pele, respirou fundo antes de enfrentar o dono daquela voz agressiva.

- Você é... Sloan Illingworth? - indagou, tomando ciência do peito largo, peludo e nu do homem que estava sentado na cama.

- Em carne e osso - ele retrucou sem nenhum humor. Seu olhar percorreu o corpo de Whitney do alto de sua cabeça morena até os dedos de seus pés descalços. - Vejo que conseguiu encontrar suas roupas.

Whitney levou um susto, mas um segundo depois conseguiu responder:

- Elas não estavam perdidas. - Rapidamente compreendeu que ele a analisara, concluindo que estivera tão nua quanto ele. E acrescentou: - Na verdade, um sujeito indecente arrancou a alça do meu vestido esta madrugada. Mas eu não me separei de minhas roupas enquanto estive aqui. Apenas de meus sapatos.

- Você está se vangloriando ou se lamentando? - ele zombou.

Ela não gostou de Sloan Illingworth. Tentou ignorá-lo e começou a procurar os sapatos. Encontrou-os sob a cama e calçou-os imediatamente. Era um pouco mais alta que a maioria das moças, mas diante daquele homem, mesmo sentado, sentiu-se melhor com uns centímetros a mais.

Ele só esperava que ela saísse do quarto para tornar a dormir, mas Whitney lembrou que lhe devia desculpas.

- Sinto muito - dirigiu-se a ele com sinceridade, e acrescentou enquanto caminhava para a porta: - Sei que não deveria ter vindo aqui e me deitado em sua cama, mas...

- Você estava sozinha? - ele interpelou-a, olhando-a de um modo devastador.

- Claro que estava sozinha - ela se defendeu.

- Não estava se divertindo na festa?

- Não... é o tipo de festa que costumo freqüentar - ela explicou de um modo polido, uma vez que fora sua noiva quem organizara a recepção.

- E por isso você resolveu ir para a cama?

- Não tive intenção - negou. - E não ouvi você entrar...

- Não quis incomodá-la - ele gracejou.

Whitney poderia jurar que vira um sorriso ao final de sua irônica observação.

- Você sabia que eu estava deitada - ela exclamou, dando um sentido real àquela ironia.

- Honestamente, não! - ele exclamou.

Whitney se espantou. Ele devia estar pensando que ela era uma pessoa insensível, que não percebera seu humor.

- Bem, de todo modo - ela dava um outro passo em direção à porta -, sinto muito sobre isso. E é natural que Gleda tenha ficado furiosa. Agora que tudo já está esclarecido e vocês estão noivos outra vez, eu...

- Agora... - Sloan interrompeu-a - De onde você tirou essa idéia? Pensa que ainda estou noivo e que vou me casar?

- Você não está? - Whitney gaguejou, detendo-se bruscamente e voltando um passo para dentro do quarto.

Ele balançou a cabeça:

- Não!

Ela ficou angustiada. Com certeza Gleda se aborrecera e não quis ouvir suas explicações.

- Sinto muito mesmo. - Whitney poderia ficar repetindo que sentia muito até não ter mais voz, mas isso não faria Gleda reatar o noivado. - Irei falar com Gleda. Ela ficará sabendo que você não tem culpa de nada, que nem sabia que eu estava na cama... - Diria isso à mulher que era apaixonada por ele?, pensou. - Agora vou me retirar - falou com firmeza e voltou-se em direção à porta.

- Posso saber aonde você vai? - a voz de Sloan Illingworth era baixa.

- Para o andar térreo, naturalmente. Falarei com Gleda e...

- Se acha que vai encontrar minha ex-noiva lá embaixo, receio que fique desapontada - ele a interrompera outra vez. - Ela já foi embora...

- Foi? - Whitney ficou atônita. - Mas...

- E todos os seus amigos também.

- Todos? - ela gaguejou, pois isso a afetava diretamente.

- A festa, como diz aquela canção - ele falava-lhe com calma - a festa acabou!

- Acabou?

- E, por favor, pare de parecer um papagaio! - Sloan murmurou sarcasticamente.

Só então Whitney se deu conta de que repetia todas as suas palavras. Então quis mostrar que não era ingênua. Ele não era tão esperto quanto pensava.

- Nem todos devem ter saído. As pessoas que me trouxeram devem estar me esperando para voltarmos a Londres.

Sloan Illingworth nem desejou saber com quem ela viera.

- Acredite-me. Não há mais ninguém - ele usou um tom baixo em resposta a suas maneiras petulantes.

- Como você pode ter certeza? - ela o questionou com hostilidade.

- Eu vi o último carro partir! - ele finalizou.

Ele deixou de ser amável, Whitney pensou. Agora está demonstrando uma impaciência que até posso compreender. Afinal, ela tinha sido a causa do rompimento de seu noivado. Mas, para o momento, Whitney tinha um problema mais urgente.

- Então - gritou -, se Toby e sua irmã já foram, como poderei voltar para casa?

O olhar que recebeu de Sloan Illingworth lhe informava que ele não era responsável por Toby, ou por sua irmã, ou por ela mesma. Deixou claro que seu apuro nada tinha a ver com ele. O sono dominava-o.

- Pelo amor de Deus - estava irritado ao máximo. - Eu quero dormir. - Conscientizando-se de que ele mesmo teria de encontrar a solução para o problema, deu um último conselho: - Vá fazer qualquer coisa. Ouça música, caminhe pelo jardim. Ou, melhor ainda, limpe tudo. Acabe com os vestígios da festa. Quando acordar, pensarei em seu caso.

- Você está sugerindo que eu faça uma limpeza?

- Não vejo por que ela deva ser feita só pela minha governanta.

Desanimada, Whitney concluiu que não iria a lugar nenhum antes que aquele bruto dormisse e descansasse. Nem passara pela sua cabeça que teria de limpar a casa quando aceitou o convite de Toby. A aurora já começava a invadir o céu escuro quando ele ordenou:

- Apague a luz quando sair. - Virou-lhe as costas, encerrando a conversa. Estirou-se e com certeza fechou os olhos.

A esperança de Whitney era que ele acordasse com bom humor.

- Idiota - murmurou entre dentes.

As barreiras colocadas na escada tinham sido removidas. Com certeza foram afastadas por ele quando entrou, ela imaginava enquanto descia os degraus.

Whitney ficou espantada com o estado da casa, agora que a festa terminara. Claro que não pretendia limpar nada. Mas teve de concordar com o bruto que agora dormia: nenhuma governanta teria obrigação de pôr ordem numa confusão daquelas. Não havia um só espaço sem que se encontrassem sobras da folia daquela noite.

Verificou que um corredor levava até a cozinha. Então encontrou um carrinho e começou a reunir copos, pratos usados e guardanapos amassados.

Durante aproximadamente uma hora, o estado de espírito de Whitney sofreu várias transformações. Pensou em Sloan Illingworth como uma miserável criatura. Depois de três meses de ausência, rompera o noivado na própria festa de boas-vindas e não demonstrava a menor preocupação com o fato.

Quando acabou de organizar os cômodos onde os convidados se divertiram, Whitney decidiu lavar os pratos e os copos na cozinha. Não ligara a lava-louças, pois temia apertar errado algum botão e deixá-la encrencada.

Estava com espuma até os cotovelos quando começou a sentir-se inconformada outra vez. Quem, em seu juízo perfeito, ficaria junto a uma pia de cozinha às cinco horas da manhã de um domingo? Pensando assim, passou as mãos pela água da torneira e enxugou-as.

Depois de cinco minutos, ela se encharcava de espuma novamente.

Bem que gostaria de castigar Sloan lllingworth e deixar que ele mesmo lavasse a louça...

Não havia sinal da governanta, mas Whitney poderia apostar que a limpeza sobraria para ela se tudo não estivesse no lugar. E, como aquele indivíduo que dormia lá em cima havia declarado, por que só a governanta deveria se encarregar disso?

Whitney também não via motivo para ela mesma assumir a tarefa. Talvez fosse porque, além do antagonismo, havia um forte sentimento de culpa. Foi por sua causa que Sloan Illingworth perdera a mulher que amava. E ela sabia como era doloroso perder a pessoa amada. Só que ela mandara Dermot embora, e Sloan fora desprezado pela noiva... De qualquer modo, uma separação era sempre triste.

Já estava tudo lavado e Whitney começou a trabalhar na sala de visitas. Removeu o último sinal deixado por um copo molhado numa mesa, levantou a cabeça e admirou a mobília da sala. Estranhou que a governanta permitisse que aquele pessoal mal-educado circulasse livremente naquele ambiente fino. Porém, imediatamente lembrou que ela não tinha escolha. Se as coisas continuassem como estavam, Gleda Caufield seria a dona de Heathlands. Ela daria as ordens e a governanta teria de acatá-las.

Faltavam dez para as oito quando Whitney foi à cozinha preparar um chá. Tomava sua primeira xícara quando uma mulher de mais ou menos cinqüenta anos entrou inesperadamente. Ao ver a jovem saboreando a bebida com tranqüilidade, parou assustada.

- Bom dia - Whitney sorriu. - Espero que a senhora não se importe por ter me utilizado de sua chaleira. Meu nome é Whitney Lawford.

- Prazer em conhecê-la - a mulher respondeu e também se apresentou: - Sou a sra. Orton, governanta do sr. Illingworth. - E, cautelosamente, interrogou: - Há ainda outros... convidados aqui?

- Não, apenas eu - ela se apressou a acalmar a governanta. Para disfarçar o que havia acontecido, acrescentou: - Todos se retiraram e se esqueceram de mim...

- Eu entendo - a sra. Orton murmurou, dando a impressão de que não acreditava.

Whitney quis dar uma satisfação:

- O sr. Illingworth prometeu me levar para casa depois que descansasse um pouco.

- Ele é realmente um homem muito gentil.

Talvez ele tratasse sua governanta com gentileza, Whitney ponderou, e resolveu mudar de assunto:

- Eu quis tomar uma xícara de chá antes da limpeza...

- Oh, não posso deixar você fazer isso - a sra. Orton protestou, sem saber que essa tarefa já estava sendo feita havia três horas. - Além disso, acabei de dar uma olhada e a casa não está tão desarrumada como eu imaginava.

Demonstrando que ficaria mais feliz se estivesse sozinha na cozinha, começou a colocar os pratos limpos no lugar.

- Tomarei meu chá na sala de visitas - Whitney avisou. Não queria perturbar a governanta.

- Posso lhe preparar o café da manhã? - a sra. Orton estava mais simpática.

- Obrigada, sra. Orton - Whitney replicou. - Não tenho vontade de comer nada.

Tudo o que queria eram oito horas de sono! Terminou o chá e sentou-se no confortável sofá. De repente sentiu um cansaço enorme. Colocou a xícara e o pires numa mesinha, tirou os sapatos e estendeu-se no sofá. A sra. Orton estaria ocupada em outro lugar e Sloan Illíngworth não deveria aparecer antes do meio-dia. Portanto, não havia razão para não tentar dormir um pouco também.

Desta vez, quando acordou, não observou ombros largos e nus a seu lado. Viu uns olhos cinzentos que a fitavam intensamente. Aquele homem parado, alto, com os ombros cobertos por uma camisa xadrez, fez seu coração acelerar.

- Que horas são? - desejou saber enquanto se sentava e empurrava os pés para dentro dos sapatos. Sentiu uma perturbação muito grande ao vê-lo vestido. Nem fora capaz de consultar seu próprio relógio.

- Falta pouco para as dez.

Whitney achou que ele estava sendo amável, considerando que ela havia arruinado seu futuro.

- Gleda, sua noiva, ou ex-noiva, já telefonou?

- E por que ela deveria telefonar? - ele zombou. Ela pensou que ainda não estivesse bem acordada.

- Sinto muito - desculpou-se.

Imediatamente ficou irritada consigo mesma e com ele também. Tinha a impressão de que ele gostava de vê-la se desculpando o tempo todo. E, para evitar algum comentário que pudesse humilhá-la, ela arriscou sem rodeios:

- Agora podemos ir?

- Ir para onde? - ele perguntou, também sem rodeios.

- Você me prometeu uma carona...

- Agora eu vou tomar café. - Caminhava a passos largos quando acrescentou: - É melhor você fazer o mesmo. Vamos!

Whitney estava a ponto de lhe dizer que não queria café nenhum.

Ele se aproximou, tomou-lhe o braço, obrigando-a a acompanhar seus passos rápidos. Sua respiração começou a falhar e ela estava consciente de que ele a dominava.

No momento em que recuperou seu equilíbrio, eles atravessavam o corredor. Whitney sentiu fome e desistiu de mandá-lo tomar o café sozinho.

Entraram numa saleta que ficara trancada durante a noite.

Para sua surpresa, Sloan Ilingworth tornara-se muito amável. Puxou-lhe uma cadeira e esperou que ela se acomodasse.

- Obrigada - Whitney agradeceu em voz baixa.

A sra. Orton trouxe-lhes dois pratos com ovos e bacon e retornou à cozinha. Agora ambos saboreavam uma deliciosa refeição.

Pouco antes, ao se referir à carona, Whitney o deixara nervoso. Levá-la a Londres não estava em seus planos. Dali para a frente seria bem diplomata.

- Posso? - perguntou gentilmente, oferecendo-se para colocar café em sua xícara.

Ele concordou com um simples movimento de cabeça. Ficou mais difícil tentar um diálogo. Whitney detestava pedir favores. Não queria ficar mais tempo naquela casa e com certeza ele não a queria por perto. Esforçando-se para sorrir, entregou-lhe a xícara com café.

- Sr. Illingworth - sua voz era tão suave que ele se surpreendeu.

Os olhos cinzentos se estreitaram e se fixaram em seu rosto. Um brilho diferente tomou conta deles.

- Sr. Illingworth - repetiu especulativamente. Ele não era bastante conhecido para receber um tratamento menos formal. Mas ficou espantada quando, imitando seu tom de voz, ele quase murmurou:

- Mesmo depois de dormir comigo continuo sendo "sr. Illingworth" para você?

- Você... eu... - Nesse momento ficou satisfeita porque ninguém estava ouvindo aquela conversa.

- Ora, vamos, srta... Desculpe-me, estou sendo negligente. Diga-me, qual é o nome da mulher com quem recentemente tive o prazer de compartilhar minha cama?

Aquele brilho estranho ainda permanecia nos olhos cinzentos! Para Whitney ele só tocava nesse assunto por vingança. Gleda não devia sair de sua cabeça! A idéia da noiva parada à porta do quarto, assustada e ofendida, devia mexer com todos os seus nervos. Ela havia organizado uma festa-surpresa para ele, mas a surpresa fora encontrá-lo na cama com uma das convidadas.

- Meu nome é Whitney Lawford - informou-lhe com voz grave. Tentou se dominar e não apresentar mais nenhuma desculpa. Acabou dizendo: - Eu realmente sinto muito.

- Você sente muito porque achou a festa insuportável? Porque se decidiu esconder onde pensou que ninguém fosse encontrá-la?

Whitney ficou vermelha de raiva. Ela se desculpara pelo choque que causara a sua noiva. Todavia, ele fizera uma observação que estava bem próxima da verdade.

- Eu não pretendia dormir - falou um pouco envergonhada -, e também não sabia de quem era aquele quarto.

- Você não teve a menor preocupação em saber de quem era aquele quarto - Sloan replicou com desprezo na voz. - Nem com as conseqüências que poderiam resultar de seu ato.

Novamente lembrou seu sofrimento quando rompera com Dermot. Ela não tinha defesa e baixou os olhos. Não era sua culpa, porém o amor havia acabado para ele.

Whitney pretendia apresentar arrependimento, e responsabilizou seu orgulho por ter levantado os olhos sem humildade:

- Sei que meus atos resultaram num desastre para você. Por isso não me queixo por você obviamente ter segundas intenções quanto a me ajudar a voltar para Londres. - Devagar e com dignidade ela colocou o guardanapo sobre a mesa. - E como amanhã cedo serei novamente uma secretária, eu... agradeço a hospitalidade e vou...

- Eu disse que tinha segundas intenções? - ele cortou sua frase.

- Não, mas...

- Então, por favor, tenha a gentileza de não tirar conclusões sobre o que penso, ou como penso, ou qualquer coisa a mais sobre mim - ele redargüiu com voz firme. - Eu lhe falei que encontraria um modo de você voltar para casa. Essa é a minha única intenção.

Whitney não gostou da sensação de que acabara de ser repreendida pelo atrevimento.

- Certo - ela falou meio sem jeito. - Mas ontem à noite, quando escolhi este vestido, não pensei que passaria o domingo todo com ele. Por esse motivo, você poderia, por favor, me dar uma idéia de quanto tempo ainda precisarei para chegar em meu apartamento, tomar um banho e trocar de roupa?

A resposta de Sloan foi atirar seu guardanapo sobre a mesa também. Não parecia amigável.

- Dê-me dez minutos para apanhar uns papéis, e sairemos daqui!

- Você vai a seu escritório! - ela exclamou.

Sem dizer mais nada, Sloan Illingworth deixou a sala.

Whitney voltou a seus pensamentos amargos. Levantou-se e ficou andando pelo hall.

Como havia prometido, Sloan voltou em dez minutos. A pasta de couro confirmava que iria ao escritório depois que a deixasse em casa. Saíram mudos, e silenciosamente ele abriu a porta do seu magnífico carro preto.

Em pouco tempo Heathlands ficava para trás. Whitney esperava esquecer os acontecimentos dessa noite desagradável.

Apenas um profundo silêncio vinha do homem atrás do volante, e ela não tinha como censurá-lo. Além do mais, ele estava resolvendo o problema de uma pessoa desconhecida e impertinente como ela.

Ao se aproximarem de Londres, Whitney forneceu-lhe o endereço, sem ouvir nenhum comentário. Whitney olhou para fora da janela e esforçou-se para odiá-lo. Um sentimento de culpa a invadia e não conseguia desprezá-lo.

Achava que, embora não demonstrasse, Sloan estava sofrendo por Gleda. Seu próprio sofrimento fez seu coração entristecer-se por ele.

Ainda sofria por ele quando, depois de indicar-lhe algumas direções, Sloan encostou o carro em frente a seu apartamento. Podia ler-lhe no rosto que ficaria agradecido se Whitney se apressasse em saltar.

- Sloan - sussurrou. O "sr. Illingworth" se perdera em algum lugar.

Friamente ele voltou a cabeça para olhá-la.

- Sloan - repetiu, e, com voz emocionada, quase implorou: - Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

Com uma sobrancelha levantada, ele respondeu secamente:

- Garanto-lhe, srta. Lawford, que você já fez muito mais do que possa perceber.

Capítulo 3 3

Toby Keston esperava por Whitney no escritório na segunda-feira. Sentia-se envergonhado e precisava pedir desculpas por tê-la abandonado na festa.

- Posso jurar que não pretendi fazer isso - afirmou com sinceridade. - Não sei lhe dizer quanto bebi. Algum idiota teve a idéia de completar meus drinques a todo instante. Ontem à tarde, quando acordei em meu apartamento, nem conseguia me lembrar direito da festa.

- Você deve ter ficado numa situação... - Whitney murmurou cuidadosamente. Imaginava se ele ficara sabendo que Sloan Iilingworth não estava mais noivo, e por sua culpa.

-- Fiquei desesperado ao saber que vim para casa com minha irmã, e você não voltara conosco. Senti-me um imbecil quando Valerie explicou que chamara alguém para me colocar dentro do carro. Você havia desaparecido e ela achou que estivesse com outra pessoa. Você não teve problema, teve? - perguntou ansioso.

- Não, nenhum - Whitney respondeu, ainda imaginando se ele sabia alguma coisa.

- Ainda bem! - Ele sentiu um alívio e acrescentou: - Quase fui até sua casa para ver se estava tudo bem. Mas, para falar a verdade, fiquei com uma terrível dor de cabeça e não tinha certeza se você me receberia com prazer. - Toby fez uma pausa. Em seguida, para assegurar o próprio sossego, indagou: - O sujeito que lhe ofereceu carona foi correto, não foi? Quero dizer... ele não tentou...

- Ah, sim, ele foi ótimo - Whitney tranqüilizou-o. Resolveu não informá-lo de que voltara para Londres com o dono da casa onde acontecera a festa. - A que horas você saiu de Heathlands? - tentou descobrir mais alguma coisa.

- Não sei ao certo. Deve ter sido antes da chegada do noivo. Ontem fui obrigado a ouvir um sermão. Segundo Valerie perdemos a melhor parte da festa por minha culpa.

- Quê! - Whitney ficou decepcionada. Não seria capaz de perguntar o que a irmã quis dizer com aquilo. Será que "a melhor parte da festa" fora a chegada do noivo? Ou teria sido quando o homenageado fora surpreendido na cama com outra mulher?

Nesse momento o chefe de Whitney passou por eles.

- Bom dia, sr. Parsons - Toby cumprimentou-o com o tom normal que usava com todas as pessoas. - Falo com você mais tarde - sorriu para Whitney. Deixou a sala, pois o sr. Parsons não apreciava funcionários que perdiam tempo em longas conversas.

O trabalho que Whitney desenvolvia para a empresa era agradável, porém não lhe exigia muito esforço. Naquela segunda-feira ela teve muito tempo para deixar a imaginação voar. A cada instante os acontecimentos do fim de semana retornavam a sua mente.

Estava curiosa para saber se Sloan Illingworth fizera as pazes com a noiva. Porém, não tinha como se informar, a não ser que lhe perguntasse diretamente. Ela não iria fazer isso e continuou aflita. Duas pessoas que se amavam agora estavam separadas devido a seu procedimento imprevidente!

Às onze horas da noite, quando se preparava para dormir, ela ainda pensava no assunto. Mas uma vizinha bateu à porta com o toque característico que usava.

Érica Fane estava sempre bem-humorada. Tinha trinta e dois anos, um ótimo emprego, e à noite fazia um curso de graduação na universidade. Embora fosse eficiente em seu trabalho e em seus estudos, ela se preocupava menos com outros assuntos.

Whitney já se acostumara com o horário especial de Érica e foi abrir-lhe a porta.

- O que... - começou, mas parou quando a vizinha levantou uma lata de sardinhas no ar.

- Não tenho aula esta noite...

- Entre, já que está livre.

Foram até a cozinha onde Whitney preparou duas xícaras de chocolate.

- Estou louca para descobrir onde você esteve sábado quando, com estas sardinhas na mão, vim bater a sua porta e...

- Bem, sente-se, que vou lhe contar.

- Céus! - Érica exclamou depois que Whitney lhe fez um minucioso relatório. Agora já sabia como a amiga fora descoberta na cama com um industrial milionário. - Você não é desse tipo!

- Fico muito lisonjeada com isso - Whitney ironizou. - Mas o que posso fazer?

- Nada. Absolutamente nada, querida. Você se ofereceu para fazer tudo o que fosse possível. Honestamente, se eu encontrasse meu noivo na cama com outra mulher, a última pessoa que eu desejaria ver seria essa mulher. Esqueça isso - Érica aconselhou.

Ela fora a única pessoa para quem Whitney fizera confidências sobre Dermot. E concluiu:

- O amor, você sabe, é uma emoção poderosa. Eles estarão juntos novamente, tenho certeza, se já não estiverem.

Whitney não se esquecera do conselho da amiga quando foi trabalhar na manhã seguinte. Tentava se convencer de que tudo voltara ao normal com Sloan e Gleda. Às onze horas foi até a máquina de café e encontrou Toby, que lhe enviou um sorriso:

- Preciso falar com você.

A consciência pesada advertiu-a de que o rapaz já tinha conhecimento de que Sloan Illingworth a surpreendera.

- Gostaria de sair novamente com você, só receio que não aceite meu convite.

O alívio que sentiu foi responsável por sua resposta:

- Se você não estiver pensando em convidar-me para outra festa...

A face de Toby acendeu-se como uma fogueira, e ele vibrou entendendo que era uma resposta positiva.

Saíram juntos várias vezes nas duas semanas seguintes. Ele somente tentou beijá-la na despedida do terceiro encontro. Whitney, entretanto, desviou a cabeça e o beijo pousou em sua face.

- Não? - ele perguntou.

- Não, Toby - ela repetiu com firmeza. - Eu lhe disse...

- Sim, eu sei que por enquanto você não quer se comprometer com nenhum homem. Mesmo assim eu quis tentar - ele confessou e continuou, desajeitado: - Você pode me perdoar e sair comigo outra vez se eu lhe prometer me comportar?

Whitney soube então que gostava muito de Toby. Ele não perguntou por que ela evitava os homens; ele a aceitava como ela era.

- Quem consegue resistir a você? - ela sorriu.

- Minha mãe diz que eu sou uma gracinha - ambos riram.

No encontro seguinte, Toby tentou apenas segurar-lhe a mão. Ela percebeu que, de um modo fraternal, estava gostando cada vez mais dele.

Três semanas após a festa, numa manhã de sexta-feira, ela pôs de lado um documento que acabara de datilografar. Em seguida fixou o espaço a sua frente. Começava a pensar que aquele incidente iria perturbá-la até o último de seus dias. Aquele industrial não lhe saía da cabeça. Esforçando-se para expulsá-lo dos pensamentos, ela se dedicou ao trabalho novamente. Puxa! Ele tivera tempo para explicar o caso a Gleda pelo menos uma dúzia de vezes! Nesse momento tudo já devia estar esclarecido entre eles. Whitney jurou que não perderia mais um segundo pensando nele.

Uma hora depois, Slon Illingworth não povoava mais seus pensamentos.

Quando o telefone tocou, ela estava mais preocupada em fornecer informações do que em saber quem estava do outro lado da linha.

Subitamente, tudo sumiu da sua frente. O tom profundo de uma voz masculina balançou-a quando perguntou:

- Como vai, Whitney?

Nunca antes conversara com ele pelo telefone, mas nem por um segundo duvidou de quem era aquela voz.

- Eu... eu vou bem! - replicou tão serenamente quanto seus sentidos abalados permitiram.

- Ótimo... Aqui é Sloan Illingworth. - Ele se apresentou e foi direto ao assunto: - Gostaria de me encontrar com você!

- Oh! - ela exclamou. Ainda não conseguira se refazer completamente e já balançava outra vez. - Você quer dizer... - A voz desaparecera. Suas idéias se confundiam. Se ele queria vê-la, e não falar-lhe por telefone, o assunto devia ser estritamente pessoal. Só poderia se referir ao noivado desfeito. E, num piscar de olhos, veio-lhe à lembrança o compromisso de ajudá-lo. Portanto, não poderia recusar o convite. - Tudo bem, eu... - Ia explicar que estava livre na hora do almoço, da uma às duas horas, mas não teve oportunidade. Sloan Illingworth era um homem de negócios muito ocupado. Não perdeu tempo e interrompeu-a assim que ela concordou.

- Então encontro você às oito. Jantaremos em algum lugar.

Um instante depois Whitney estava boquiaberta. Não conseguia acreditar no que havia acontecido. O fone estava mudo em sua mão. "- Meu Deus! - exclamou em voz alta, e recolocou o fone no lugar. Com os pensamentos já organizados, percebeu que havia recebido uma ordem. O sr. Illingworth nem quis saber se ela estaria livre. "Encontro você às oito", repetiu mentalmente. No íntimo ela fervia de raiva. - Que sujeito presunçoso! - enfureceu-se. Mas o que poderia fazer? Ela mesma o deixara em maus lençóis com a noiva. Porém ele ficaria sabendo que estava arruinando um romance que surgia em sua vida.

Um romance... Essas palavras remeteram-na até Dermot. Ele havia sido seu caso mais sério, e ela não se achava em condições de partir para uma nova experiência.

Whitney pegou o fone para chamar o ramal de Toby. Não podia fazer diferente. Sloan Illingworth não daria a mínima importância a um "possível romance" em seu horizonte.

- Toby, é Whitney.

- Alô! - ele exclamou. - Ela podia sentir satisfação em sua voz.

- É sobre hoje à noite - começou a falar e hesitou. Já o conhecia suficientemente bem para saber que ele não mencionaria o fim do noivado de Sloan Illingworth e o papel que ela representava no caso. Mesmo assim achou melhor não lhe contar por que não iria a seu encontro. - Desculpe-me, Toby. Algo aconteceu e não poderei vê-lo esta noite.

- Você não está com problemas, está?

Essa preocupação fez com que Whitney gostasse ainda mais desse rapaz que sempre pensava primeiro nos outros.

- Não há nada errado - rapidamente ela respondeu. Ficou constrangida por não explicar a verdade, e por isso acabou dizendo: - Sinto por hoje, mas amanhã é sábado e, se você estiver livre, gostaria que fosse jantar em meu apartamento.

- Que maravilha! - Toby pulava de alegria. - Por um minuto imaginei que você não quisesse me ver nunca mais!

- Você está muito sensível por causa da sua avançada idade - brincou com ele, e aproveitou a ocasião: - Por acaso você sabe como posso entrar em contato com Sloan Illingworth?

- Ora, você sabe onde ele mora - respondeu animado, e acrescentou: - Conhece a Illingworth International? Experimente ligar para lá. Ele é o presidente da empresa.

Whitney colocou o fone sobre o aparelho em estado de choque. Sloan Illingworth era presidente daquela vasta companhia multinacional! E ela iria encontrá-lo à noite...

À hora do almoço ela ainda não se havia recuperado totalmente. Embora soubesse que ele era um grande industrial, não relacionara seu nome com a poderosa Illingworth International.

À tarde, voltou para casa lembrando as informações de Toby. Ela vibrava com suas descobertas.

De repente como um raio caindo do céu, uma pergunta sem resposta deixou-a preocupada: ela descobrira onde o sr. Illingworth trabalhava, mas como ele havia conseguido o telefone da firma onde ela trabalhava?

Meia hora mais tarde, sua imaginação ainda funcionava enquanto se ensaboava sob o chuveiro. Ela se lembrava muito bem sobre o que haviam conversado. Contara-lhe que era secretária, mas não mencionara o nome da firma.

- O que importa isso agora? - perguntou a si mesma quando saiu do banho. - Sloan podia não saber onde trabalho, mas sabia onde moro. Teria me encontrado com facilidade...

E ele não esquecera onde ficava seu apartamento. Iria buscá-la em casa à noite e não pedira o endereço quando falaram ao telefone.

Escolhia a roupa que iria usar quando um corpo alto e um belo rosto vieram-lhe à mente. Whitney subitamente foi tomada por uma sensação peculiar, uma ansiedade desconhecida.

- Ridículo - falou baixinho. - Não estou nervosa só porque vou sair em sua companhia - concluiu. Alisou as pregas da saia do vestido de seda cor de creme e calçou os sapatos de saltos bem altos. Caprichou na maquiagem, respingou um perfume suave e colocou suas belas bijuterias de marfim e prata.

Às oito horas já estava sentada esperando por ele. Às oito e cinco a campainha da porta do prédio soou. No mesmo instante ela se levantou e pegou a bolsa. Saiu do apartamento, fechando a porta com a chave; respirou fundo, desceu a escada e chegou à porta do prédio. Respirou novamente para manter o controle antes de alcançar a maçaneta.

- Que mulher pontual! - Sloan elogiou antes que ela o cumprimentasse. Pelo modo como Whitney segurava a bolsa, ele percebeu que não seria convidado a entrar. - Uma mulher bela e pontual - repetiu o elogio.

Como ela estava satisfeita, essas palavras não lhe pareceram falsas.

Sloan segurou seu cotovelo e conduziu-a até o luxuoso carro estacionado em frente. Aquela sensação peculiar apoderou-se dela novamente.

"Tudo bem", ela pensou, e tentou se acalmar, quando já estava dentro do carro. "Talvez eu esteja mesmo ansiosa, mas o que está errado?"

Então dirigiu-se a ele fazendo uma pergunta que logo depois acharia muito idiota.

- Aonde vamos? - Ficou deprimida quando reconheceu que só se sentira daquela maneira quando saía com Dermot.

Sloan dirigia com atenção e pronunciou o nome de um restaurante elegante e muito caro.

- Está bem para você?

- Para mim está ótimo - Whitney replicou. Teve a impressão de que, se dissesse uma palavra contra, ele a levaria a um outro lugar.

Era o homem mais sofisticado e atencioso que já conhecera! Ele a fizera compreender que poderia escolher outro restaurante sem falar abertamente sobre o assunto.

Whitney estava se sentindo bem naquele ambiente luxuoso e em sua companhia.

"Acho que faz parte da educação dele deixar as pessoas à vontade", ela pensou, quando já estavam frente à frente na mesa redonda, num dos cantos do restaurante.

Mas não era ingênua. Ele estava sendo polido apenas para que falasse bastante sobre si mesma e lembrasse que prometera ajudá-lo e a Gleda também. Whitney não viu problemas em lhe dar satisfação:

- O que posso lhe dizer? Trabalho na Plásticos Alford, onde sou secretária do sr. Parsons. - Subitamente parou e mudou de assunto: - A propósito, como você ficou sabendo que eu trabalho lá? Tenho certeza de que nunca lhe disse...

- Realmente, você não disse - Sloan confirmou. - Você apenas se referiu a Toby e sua irmã.

- Você conhece Toby Keston? - perguntou e imaginou por que ele não dissera que Sloan pedira o número do telefone de seu serviço. E ela lhe fizera quase a mesma pergunta: "Onde posso encontrar Sloan Illingworth?"

Mas não fora Toby quem informou onde Whitney poderia ser encontrada.

- Conheço o jovem Keston tão bem quanto sua insípida irmã - Sloan contou-lhe, e Whitney ficou admirada quando ele explicou: - Imagino que Valerie Keston não faça parte de seu círculo de amigos. Então só lhe resta ser amiga do irmão dela. E onde, eu me perguntei, poderia um homem como ele encontrar uma mulher como você?

- E concluiu que ele me encontrara no lugar onde trabalhava? - ela sugeriu levemente. - Você lhe telefonou...

- Eu concluí que vocês dois deviam trabalhar juntos. O problema foi lembrar em qual firma.

- Então você ligou para perguntar...

- Eu liguei para a Plásticos Alford e pedi para falar com a srta. Whitney Lawford.

Depois de pensar no que acabara de ouvir, ela encarou-o e, com um sorriso, falou:

- Não é de admirar que você seja a pessoa mais importante de uma empresa internacional!

- Penso que isso é um elogio, mas não tenho certeza - ele retrucou com bom humor, e pela primeira vez Whitney observou um sorriso encantador.

Seus olhos se abaixaram, e, nesse momento, o garçom veio até a mesa. O prato já havia sido servido quando ela encarou Sloan novamente:

- Por que você acha que não sou amiga de Valerie Keston? A princípio Whitney pensou que ele não fosse responder. Mas um olhar afetuoso surgiu nos olhos cinzentos que fitavam sua face:

- Vocês são tão diferentes quanto um anão e um gigante - replicou com seriedade.

Whitney também o fitava e, encorajada por aquele olhar, não resistiu e retrucou:

- Acho que isso é um elogio, mas não tenho certeza... Estranhamente seu coração vibrou quando Sloan deu uma gargalhada.

- Você tem razão - Sloan concluiu. E, enquanto Whitney se alegrava por ele achá-la diferente da fútil Valerie Keston, ele continuou:

- Nenhuma outra mulher naquela festa estragaria as unhas pintadas para limpar tudo como você fez.

Agora ele a atingia duas vezes. Primeiro, ele se referia as outras mulheres, menos a sua ex-noiva. Segundo, se a própria governanta não sabia da limpeza que ela fizera, como foi que ele ficara sabendo? Morta de curiosidade, interpelou-o:

- Sem considerar as ordens expressas que recebi para não deixar que a sra. Orton fizesse tudo sozinha, como você soube que eu arrumei sua casa?

- Primeiramente, considerei que, se você quisesse, teria me falado o que fazer com minhas "ordens expressas". Mas soube que você trabalhara bastante quando a sra. Orton me informou que os convidados da srta. Caufield deixaram tudo em ordem antes de partirem...

Era a primeira vez que ele mencionara a ex-noiva, e Whitney continuou ouvindo-o:

- Depois que todos foram embora, parecia que minha casa tinha sido varrida por um furacão. Ninguém deixara nada em ordem.

- Oh! - ela murmurou quando compreendeu a dedução. Então procurou uma justificação para desculpar sua atitude: - Bem, eu não podia deixar tudo para a sra. Orton fazer...

- Percebe o que eu quero dizer? - ele sussurrou, e Whitney entendeu que ele reforçava o elogio. Valerie Keston nunca levantaria uma pena para ajudar a governanta.

Em seguida Sloan indagou:

- Agora você trabalha na Plásticos Alford. E antes?

Ele voltava no tempo como se estivesse mesmo interessado em saber tudo sobre sua vida.

- Antes eu tinha um emprego na firma Implementos Agrícolas Hobson - ela informou com vivacidade. - E antes ainda eu morava em Cambridge com minha família. Apenas... - sua voz falhou - quando minha mãe faleceu e meu pai tornou a se casar, achei que era hora de me sustentar com meu próprio esforço. E vim para Londres.

- Você não se dá bem com sua madrasta? - ele quis saber. De repente Whitney parou. Ela não sabia o que havia com Sloan Illingworth. Sempre fora uma pessoa discreta, e agora relatava toda sua história.

- Eu me dou muito bem com ela, sim! - respondeu-lhe friamente. - Mas - suavizou a voz - nossa casa nunca mais foi a mesma...

Ela falava e ao mesmo tempo não acreditava que estava falando. Apenas Érica havia sido sua confidente até aquele jantar. Encerraria suas informações pessoais e perguntaria como poderia ajudá-lo no problema com a ex-noiva. Entretanto, nesse instante Sloan a surpreendeu com uma observação:

- Quem era ele?

- Ele? - Whitney hesitou, e ficou mais confusa quando ouviu a resposta:

- O homem que trabalha na Implementos Hobson e que machucou você...

- Como você sabe? - ela começou a enrubescer. Mesmo admitindo que ficara machucada, levantou o queixo orgulhosamente: - Quem ele era não tem importância. Não o vi mais desde que deixei aquela firma e...

- Gostaria de vê-lo novamente? - Sloan questionou com voz áspera.

- Não - ela negou com firmeza. Melancolicamente lembrou que já amava Dermot quando descobriu mais coisas sobre ele. Voltou sua raiva contra Sloan, explicando no mesmo tom: - Descobri muito tarde que já era casado e que morava com a família. Como poderia querer um homem como ele? Eu vi como minha mãe sofreu com a traição de meu pai. - "Oh, Deus!" Whitney pensou. "O que há com este homem que acabo lhe revelando meus segredos mais íntimos?" Ela lançou-lhe um olhar, mas não pôde ler nada em sua face rígida.

- Você deixou o emprego na Hobson por causa dele? - ele quis saber com uma voz tão fria quanto seu olhar.

- Naturalmente - ela replicou, tentando emitir uma voz tão fria quanto a dele.

- Há quanto tempo você está na sua firma atual?

- Não tenho visto Dermot há quatro meses, se é isso que você quer saber - Whitney disparou, e devia ter mordido a língua antes. Ela continuava falando demais. Agora ele já sabia até o nome do homem que ela amava.

- E onde entra o jovem Keston no seu esquema? - Sloan perguntou, e sua voz estava rouca.

Agora ele já sabia sobre Dermot, e seu orgulho determinou que não devia deixá-lo pensando que ainda estava sofrendo pelo ex-namorado casado.

- Toby - ela falava devagar - tornou-se em pouco tempo um amigo muito querido. Tanto que agora vamos praticamente a todos os lugares juntos.

Fitando Sloan com o canto dos olhos, achou que ele já estava cansado daquela conversa. E, esperando aborrecê-lo mais um pouco, recomeçou:

- Foi por isso que ele me convidou para acompanhá-lo à festa em sua casa.

- E foi por isso - Sloan retrucou com ironia -, porque vocês praticamente vão a todos os lugares juntos, que ele não se lembrou de levá-la de volta a Londres quando deixou a festa...

Whitney esquecera-se de que Toby não tinha condições de se recordar de nada daquela noite. Valerie o levara para casa, mas, convenientemente, a deixara em Heathlands.

O garçom veio servir o último prato e os dois permaneceram em silêncio. Whitney ficou pensando nesse detalhe que acabara de lembrar e imediatamente começou a mudar de idéia. Sloan conhecia Valerie muito bem. Agora podia entender por que ele parecia tão amargo. Estava se esforçando para proporcionar-lhe uma noite agradável! Toda a raiva se transformou em simpatia.

Contudo, não devia ser fácil para ele solicitar seu auxílio.

- Tem visto a srta. Caufield ultimamente? - Whitney tocou no assunto para facilitar-lhe as coisas.

- Não! - A resposta foi seca, e Sloan encarou-a como se perguntasse: o que lhe interessa quem eu vejo ou deixo de ver?

Como ela sabia o que era ter o orgulho ferido, não ficou ofendida. Iria falar com Gleda ou fazer qualquer outra coisa que ele precisasse.

- Sloan - disse suavemente. Talvez fosse melhor dizer sr. IIlingworth, mas já era tarde. - Estou aqui com você porque... se eu puder fazer alguma coisa para ajudar... - Observou a surpresa que sua boa vontade causou. Sorriu e continuou: - Você não vai me dizer por que me convidou para sair?

- Por que não poderia convidá-la simplesmente para vê-la outra vez? - ele a interrompeu friamente.

Whitney tentou não dar importância ao rubor que as palavras dele trouxeram a sua face. Sloan Illingworth era o homem mais orgulhoso que ela já conhecera. Por um lado, devia ser contra seus princípios pedir qualquer favor; por outro, devia estar desesperado para voltar para Gleda.

- Porque tenho a impressão de que você nunca faz nada sem um motivo. Sei que sou culpada por Gleda ter terminado o noivado. Foi só por isso que você quis se encontrar comigo. E se eu puder fazer alguma coisa...

Sloan encarou-a por um longo tempo. Whitney não podia saber o que ele estava pensando, mas ficou feliz por não ter misturado as coisas. Teve a impressão de que foi depois de um século que ele resolveu admitir isso.

- Você tem razão - concordou com um sorriso fraco. - Na verdade, eu quis vê-la por razões que, bem, são um pouco diferente do normal.

- Gleda... - ela interferiu, já pronta para ajudá-lo.

- Não, não é Gleda! - Sloan balançou a cabeça para apresentar-lhe alguma novidade.

Whitney ficou totalmente confusa, e ele esclareceu:

- Tenho de admitir que minha ex-noiva e eu não significamos mais nada um para o outro, e...

- Mas... -ela iniciou um protesto. - Não pode ser! Vocês pertencem um ao outro. Se não acontecesse aquele lamentável incidente, vocês ainda estariam noivos.

- Pode acreditar, srta. Lawford, quando digo que Gleda Caufield e eu nunca nos casaremos.

- Mas... - ela tentou replicar, e ele não a deixou continuar.

- Não tenho mais uma noiva, porém tenho outra preocupação maior.

- Qual? - ela quis saber instantaneamente.

Sloan meneou a cabeça parecendo hesitar, e então, calmamente, falou:

- Minha mãe!

- Sua mãe? - Os olhos de Whitney se arregalaram. Ele contraiu os lábios antes de explicar:

- Minha mãe ficou tão feliz quando lhe contei sobre meu noivado que eu não tenho coragem de lhe dizer que está tudo terminado.

Whitney achou que deveria haver pouca coisa que ele não tivesse coragem de fazer e ficou atônita por um segundo.

- Quer dizer que sua mãe gostava muito de Gleda e...

- Na verdade - Sloan a interrompeu -, as duas nunca se encontraram. Mas minha mãe espera há tanto tempo por uma filha que ficaria muito desiludida comigo. - Fez uma pausa e prosseguiu: - O problema, Whitney, é que um dia antes de minha volta à Inglaterra ela... sofreu um acidente de carro...

- Oh, sinto muito - lamentou. Pelo modo hesitante com que ele falava, devia ser difícil tocar no assunto. E, lembrando do acidente de sua mãe, ela começou nervosamente: - E como ela está?

- Ela está se recuperando fisicamente - ele apressou-se a explicar. - Mas, como sei que ficará preocupada quando souber que não estou mais noivo, eu... não vou lhe contar. Pelo menos por enquanto.

- Claro, não deve mesmo - Whitney afirmou. Seu coração se entristeceu não apenas por Sloan, que enfrentava um problema por sua culpa, mas também por sua mãe.

Então lembrou que ainda estava sem saber por que Sloan a convidara para jantar. Ele não precisava de sua ajuda para voltar para Gleda e tinha razões diferentes das normais.

- Sloan - falou vagarosamente e viu que ele olhava diretamente para ela -, por que, se posso saber, você me convidou para sair esta noite?

Por um longo momento, ele continuou com o olhar fixo nela. Então replicou com firmeza.

- Preciso de uma noiva para apresentar a minha mãe quando ela sair do hospital. E como foi você, Whitney, quem me fez perder uma noiva legítima, eu proponho que você tome o lugar dela...

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