O livro de Direito permanecia aberto na mesma página por horas, mas as palavras pareciam dançar fora de foco. Tudo o que ela conseguia lembrar era daquele olhar.
O que ele quis dizer com aquilo?
Era uma pergunta que não deveria estar em sua mente. Ethan Hayes era seu professor. Alguém fora de seu alcance, inalcançável de todas as maneiras possíveis. E ainda assim, havia algo naquele momento que parecia diferente. Não era como os olhares que ele lançava aos outros alunos. Com ela, havia uma intensidade que não sabia se estava imaginando ou não.
Talvez ele estivesse apenas cansado. Ou distraído.
Olivia tentou se convencer, mas mesmo em seus esforços, uma parte dela - a parte que ela não gostava de admitir - queria que fosse algo mais.
Ao fechar os olhos, ela se lembrou da maneira como ele havia dito seu nome, como se fosse algo especial, algo a ser notado. E contra sua vontade, uma onda de calor subiu por seu corpo.
Não pense nisso, Olivia.
Mas era tarde demais. A ideia já havia se infiltrado em sua mente, e agora parecia impossível apagá-la.
Ela apagou a luz e se deitou, o coração ainda acelerado. Quarta-feira parecia muito longe.
Na quarta-feira, às cinco em ponto, Olivia estava parada diante da porta da sala de Ethan. O número "407" gravado na madeira parecia mais intimidador do que deveria. Respirou fundo e alisou a saia preta, um hábito inconsciente que fazia quando estava nervosa.
Você consegue, Olivia, sussurrou para si mesma antes de bater.
"Entre", veio a resposta firme do outro lado.
Ela abriu a porta devagar, encontrando Ethan sentado à mesa, cercado por pilhas de livros e papéis. Ele parecia distraído, mas ao levantar o olhar, sua expressão mudou.
"Ah, Olivia. Pontual. Isso já é um bom começo."
Ele gesticulou para que ela se sentasse na cadeira à sua frente. O ar na sala parecia mais pesado, quase sufocante, mas ela tentou manter a compostura.
"Trouxe seu resumo da aula sobre jurisprudência?" ele perguntou, ajustando os óculos enquanto lia algo em um dos livros.
"Sim, professor," respondeu, entregando um caderno organizado, com anotações detalhadas e sublinhados.
Ele analisou por alguns segundos antes de olhar para ela novamente. "Você é dedicada, mas precisa aprender a ir além da superfície. Direito Constitucional não é apenas sobre decorar precedentes, Olivia. É sobre entender o impacto deles no mundo real."
Ela assentiu, mas seu olhar vacilou para suas mãos enquanto ele falava.
Ethan tinha uma maneira de usar as palavras que fazia tudo parecer pessoal, como se ele estivesse falando diretamente com algo dentro dela.
"Entendi, professor. Vou me esforçar mais."
"Ótimo. Vamos começar."
A sessão de tutoria começou de maneira formal, com Ethan explicando conceitos complexos e Olivia tentando acompanhar suas anotações. Mas conforme a tarde avançava, algo no ambiente mudava.
Havia momentos em que ele se inclinava para mostrar algo em seu caderno, a proximidade fazendo seu perfume amadeirado chegar até ela. E momentos em que seus olhares se cruzavam, como se ambos estivessem cientes de algo que não era dito.
"Você tem uma mente brilhante, Olivia," disse ele em certo ponto, fechando o livro. "Mas às vezes me pergunto se você realmente acredita nisso."
Ela ficou surpresa. "Por que diz isso?"
"Você tem essa... hesitação. Como se estivesse tentando provar algo, mas não para si mesma."
Ele não estava errado. Olivia sempre sentiu que precisava provar seu valor - para sua família, seus colegas, até para si mesma. Mas ouvir isso de Ethan a desarmou.
"Talvez você esteja certo," admitiu, sua voz mais suave do que pretendia.
Ethan inclinou a cabeça, estudando-a por um momento antes de falar novamente. "Você tem mais controle do que pensa, Olivia. Use isso a seu favor."
Havia algo no tom de sua voz - um desafio sutil, talvez até uma provocação. E por um instante, ela sentiu que ele não estava apenas falando sobre Direito.
Quando a tutoria chegou ao fim, Ethan recolheu os papéis e se levantou.
"Foi uma boa sessão. Vamos marcar outra na próxima semana."
"Claro, professor," respondeu, pegando suas coisas.
Enquanto ela se dirigia à porta, sentiu a necessidade de dizer algo. Não sabia o que exatamente, mas a ideia de simplesmente sair parecia errada.
"Obrigada, professor. Não apenas pela ajuda, mas... por acreditar em mim."
Ele sorriu, e dessa vez o sorriso parecia mais genuíno, menos controlado.
"Não é difícil acreditar em você, Olivia. Você tem um potencial incrível."
Ela saiu da sala com o coração batendo forte, e uma pergunta persistente em sua mente: ele estava apenas sendo gentil... ou havia algo mais naquelas palavras?
De volta ao seu apartamento, Olivia tentou focar em seus estudos, mas a concentração a abandonava sempre que a imagem de Ethan surgia em sua mente. Ele parecia tão seguro de si, tão inatingível, e ainda assim havia momentos em que ela jurava que via algo diferente em seus olhos.
Deitada na cama, ela encarou o teto. As palavras dele ecoavam em sua mente.
"Você tem mais controle do que pensa."
Ele estava falando sobre Direito, com certeza. Mas a forma como disse aquilo parecia sugerir algo mais. E enquanto sua mente vagava por possibilidades que ela sabia serem erradas, um pensamento persistente se enraizava em sua mente:
E se ele também estivesse pensando nela?
Na semana seguinte, Olivia entrou novamente na sala 407 com a mesma mistura de ansiedade e excitação que a dominara antes. Era impossível ignorar o impacto que Ethan Hayes tinha sobre ela. E, embora tentasse agir de forma profissional, sentia que cada sessão de tutoria tornava mais difícil manter o autocontrole.
"Olivia," ele cumprimentou com um sorriso contido, enquanto arrumava alguns papéis sobre a mesa. "Espero que tenha revisado os conceitos da última aula."
"Sim, professor," respondeu, sentando-se na cadeira à sua frente.
Mas, enquanto ele explicava um caso judicial, ela se pegou mais uma vez estudando seus traços. Os olhos castanhos que pareciam observar tudo, a linha forte do maxilar e o leve toque de barba que ele deixara crescer. Cada detalhe parecia feito para distraí-la.
"Olivia."
A voz dele a trouxe de volta à realidade. Ele estava olhando diretamente para ela, um sorriso ligeiro nos lábios.
"Sim, professor?"
"Eu perguntei o que você acha da interpretação do tribunal nesse caso. Mas parece que sua mente está em outro lugar."
Seu rosto ficou quente. "Desculpe, professor. Eu... estava pensando na aplicação do conceito."
Ele inclinou a cabeça, claramente não convencido. Mas, em vez de pressioná-la, apenas sorriu e continuou explicando.
Depois de uma hora, Ethan fechou o livro.
"Vamos fazer uma pausa."
Olivia assentiu, grata pela chance de respirar. Ele se levantou e foi até uma pequena mesa no canto da sala, onde pegou uma garrafa de água.
"Então, Olivia," começou ele, casualmente. "Por que Direito?"
A pergunta a pegou de surpresa. "Eu... sempre quis ajudar as pessoas. Minha mãe é advogada, e cresci admirando o trabalho dela."
Ethan assentiu, parecendo genuinamente interessado. "E você acha que está no caminho certo?"
"Sim. Quer dizer, é desafiador, mas eu gosto disso. Gosto de sentir que estou aprendendo algo importante."
Ele a estudou por um momento antes de responder. "Você tem paixão. Isso é algo que não se ensina. Mas às vezes, paixão sem foco pode ser perigosa."
"Eu entendo, professor. Vou trabalhar nisso."
Houve um silêncio carregado entre os dois. Ele parecia prestes a dizer algo, mas mudou de ideia e voltou para a mesa.
Naquela noite, Olivia não conseguia parar de pensar na conversa. As palavras de Ethan ecoavam em sua mente, mas o que mais a perturbava era o olhar. Um olhar que parecia carregar algo mais do que simples interesse acadêmico.
Na manhã seguinte, ao abrir seu e-mail, ela encontrou uma mensagem de Ethan.
"Olivia,
Você está fazendo progresso, mas acredito que podemos intensificar suas habilidades de análise. Se estiver disposta, podemos aumentar as sessões de tutoria para duas vezes por semana.
E. Hayes."
Ela leu a mensagem várias vezes, tentando decifrar o subtexto. Ele realmente acreditava em seu potencial ou havia algo mais?
Com os dedos hesitantes, digitou uma resposta:
"Claro, professor. Agradeço a oportunidade. Aguardo instruções para o próximo horário."
O simples ato de enviar a mensagem fez seu coração acelerar. Enquanto aguardava a resposta, percebeu que estava cruzando uma linha invisível - uma linha que sabia que poderia mudar tudo.