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Entre Sangue e Dever

Entre Sangue e Dever

Autor: LibriAna1998
Gênero: Máfia
Em uma cidade fraturada por disputas de poder, impérios clandestinos e alianças sangrentas, Kellian Hakim é o homem que carrega o peso de um sobrenome marcado pela violência. Após a derrocada da liderança de sua família, Kell assume o controle do conturbado Setor Sul com um único objetivo implacável: proteger o que restou de sua casa e erguer um novo domínio sobre as ruínas do antigo império. No entanto, o trono das ruas cobra um preço caro. Cerceado por conspiradores da própria sangue - todos dispostos a tudo para reaver a hegemonia -, Kell se vê forçado a jogar uma partida de xadrez de alta volatilidade. Para sobreviver, ele precisará firmar acordos perigosos com uma gélida e influente família russa dona da multinacional "Vanguard", cuja a herdeira é a enigmática Yekaterina Polotsviere – que se torna para ele uma atrativa incógnita – além de encarar as cobranças de honra e sangue da família Moretti da máfia italiana. Entre emboscadas no asfalto, traições familiares, segredos do passado e um desejo inegociável de manter as pessoas que mais ama longe da guerra que se aproxima, Kellian descobre que a maior batalha não é apenas contra os inimigos que cercam o perímetro... mas contra a própria fúria que ameaça consumi-lo.
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Capítulo 1 Noite Sombria

A porta bateu com força contra a parede do meu quarto. Lucius, o pai dele entrou desesperado e ligou a luz, começou a remexer e pegar algumas coisas das gavetas atirando-as para uma mochila preta que havia acabado de jogar ao chão.

"O que está acontecendo?"

Perguntou o adolescente ainda sonolento e esfregando os olhos. De relance avistou o visor do despertador em cima do móvel ao lado esquerdo da cabeceira da cama e ainda eram apenas 02:14 da madrugada.

"Filho, me escute com atenção pois não temos tempo. Você vai precisar se lembrar de tudo o que te ensinei."

Naquele momento, não compreendeu muito bem. Na verdade, se fosse parar para pensar, até hoje não compreendia. Seu pai não fez questão de explicar do que se tratava aquilo tudo, simplesmente o entregou uma das suas medalhas douradas e em seguida o empurrou para a porta. Sem despedidas. Sem nem olhar para ele direito.

"Agora, pegue Queen e corra até o carro. A partir daqui, você está sozinho."

E dizendo isto ele jogou a mochila e as chaves do carro para o filho. O garoto olhou para aquilo, ainda sem entender e apenas se prontificou a obedecer. Ele não sabia o suficiente sobre o trabalho do seu pai, mas desconfiava que isso tinha a ver com ele. Senão, por qual outro motivo estariam saindo furtivamente no meio da madrugada?

"Kellian." Lucius chamou o filho e este se virei na mesma hora para olhá-lo. "Proteja Queen com a sua vida. Me entendeu?" Ao ouvir a ordem, o jovem fez que sim, ainda que hesitante. Seus olhos vagueavam pelo chão. "Kell, é sério. Não hesite. Prometa que não deixará que nada aconteça à ela. Prometa que não a abandonará nunca." Ele ss encheu de coragem, afinal, não era sempre que assumia o peso da responsabilidade e tinha uma sensação de que acabara de receber uma nobre missão, um propósito. Ele estufou o peito antes de confirmar que o faria. "Eu confio em você para fazer isso, filho."

Tentou não tremer quando o pai o dispensou e foi até o quarto de Queen no final do corredor à esquerda. Sacou a lanterna que estava no bolso externo da mochila, deu uma olhada lá dentro antes de abrir totalmente a porta. Uma pequena silhueta estava enrolada no cobertor parada em pé de frente para porta de vidro que dava para a sacada, que ao se virar para olhar, possibilitou que ele visse vários pequenos pontos vermelhos se destacando em seu pijama.

Saltou em um mergulho rápido até lá gritando para que ela se abaixasse. Tudo o que Queen fez foi uma careta de confusão. Kell a tomou em meus braços puxando-a para perto da porta enquanto a protegia com seu próprio corpo. Não conseguiram chegar até lá.

Os dois rolaram pelo chão até o mais próximo possível do banheiro depois que uma chuva de tiros começou a invadir o quarto, atravessando e quebrando a porta de vidro, atingindo os móveis, as paredes, o chão, tudo. Absolutamente tudo ali parecia participar de uma confusão barulhenta com estilhaços voando para todo o lado.

Ainda com Queen em seus braços, ele a apertou ainda mais contra si na tentativa de abafar o som alto dentro do quarto. Ela gritava e chorava tanto que chegava a soluçar em arrancos desesperados. Rapidamente o garoto vasculhou o perímetro e avistou a basculante do banheiro.

Por um momento deixou Queen ali no chão, ela então passou a se agarrar aos pés do lavabo. Levantou, enrolou o braço em uma toalha e começou a socar a pequena janela. Quando finalmente conseguiu retirar o máximo de cacos para passar a garota, escutou alguém do lado de dentro da casa revidando o ataque. Era seu pai, é claro.

Por um momento pensou em ir até lá ajudá-lo, no entanto, lembrou do que havia prometido e voltou sua atenção à Queen. Enrolou a menina em seu próprio cobertor estampado com princesas de desenho animado para que não se ferisse com o resto do vidro e a empurrou pela basculante, com sorte, ela caiu no telhado da parte de trás que dava para um beco e conseguiu se segurar.

Ela foi logo depois, fazendo muito mais esforço para passar no espaço e até se escoriando no processo. Uma vez que conseguiu, segurou a pequena mão fria que tremia e pediu silêncio com o dedo indicador contra os lábios, ela assentiu tremendo e tentando engolir o choro com uma carinha molhada que denunciava o quanto estava com medo. Escalaram para a próxima janela que era a do quarto dele e sem muitos problemas alcançaram a escada que ligava os dois andares da casa.

"Kell!"

Ele ouviu seu nome ser chamado outra vez e parou. O chamado vnha do escritório do seu pai, um dos lugares em que ele não tinha permissão para entrar. De mãos dadas com Queen, ele a puxou para trás de si. Seu pai o olhou e lançou uma arma que deslizou pelo chão e que ele pegou do outro lado do corredor. Ficou um pouco espantado. Seja lá o que fosse, não era simulação e apenas o olhar sinalizava o que ele pretendia.

O garoto respirou profundamente e acenou afirmativamente. Lucius, seu pai, não disse nada, mas fez um sinal com a mão que o ordenava a descer para o primeiro andar e logo voltou o foco à sua mira. Kell guardou a arma na cintura da calça e continuou correndo com Queen para a garagem. Continuaram ouvindo tiros e vozes enquanto buscavam a saída. Pretendiam invadir a casa. Ele olhou pela janela e viu a movimentação pelo jardim, precisava agir depressa.

"Queen! Pula aqui." Ela pulou em seu colo com os braços ao redor do seu pescoço e as pernas circundando seu tronco. "Agora, você tem que ficar quietinha, tudo bem?"

Lançou mão da arma que guardava na cintura. Não queria decepcionar seu pai então foi com a garotinha para a saída estratégica que se abria atrás de um dos armários da cozinha e enquanto realizavam esse movimento conseguiram ver quando o grupo invadiu a casa com seus uniformes pretos, rostos cobertos e as armas em punhos que eram muito maiores do que aquela que ele carregava consigo.

Eles estavam indo para diversos cômodos da casa, inclusive para o andar de cima onde se encontrava seu pai. Esperaram. Ele decidiu que era a hora e atravessaram o fundo falso do armário, se encerrando para dentro das paredes da casa que depois de um tempo se arrastando lá desembocavam dentro de outro armário na garagem.

Kell encheu seus pulmões de ar para ganhar coragem de abrir a porta com tudo e saltar para fora com a arma apontada. Não havia ninguém ali. E foi quando ouviram uma explosão. Queen deu um grito e tampou os ouvidos. Ele preferiu acreditar que era o seu pai explodindo alguém do que sendo explodido e correu com a Queen para o carro dele.

"Fica abaixada, ok?"

"O que está acontecendo? Quem são essas pessoas? Onde a gente está indo? Cadê o tio Lucius? Não vamos esperar por ele?"

"Eu não sei, tudo bem?" Respondeu com irritação. Não contra ela. A garota tentou engolir o choro. "Eu não sei, mas você tem que ficar quieta para eu poder pensar. Pode ser?"

Ela continuou chorando, embora tivesse entrado e se encolhido na parte da frente ao pé do banco. Jogou seu cobertor por cima cobrindo-lhe completamente. Ele sabia que ligar o carro e abrir o portão chamariam atenção dos invasores para a garagem, então precisava ser rápido e também sabia que seu pai estava apenas tentando ganhar algum tempo para eles fugirem.

"Me desculpe, não queria ter gritado com você. Eu prometo que vou tirar a gente daqui, mas para isso você e eu vamos colaborar um com o outro."

Ela apenas balançou a cabeça positivamente. Suas lágrimas ainda descendo o rosto assustado. Ainda era possível ouvir tiros na parte de dentro da casa. Ele precisava disso para disfarçar o motor do carro. Então, esperou. Olhou para suas mãos, ainda trêmulas no volante e achou engraçado que a primeira vez seu pai tivesse confiado nele para dirigir sozinho tenha sido em uma situação como aquela.

Ouviu um estrondo bem mais alto e as paredes tremeram. Granadas de mão. Ele sabia identificar, mas não entendeu qual a finalidade de usá-las ali. Esperou por mais um estrondo. A respiração entrecortada. Ele veio. Ligou o carro e esperou por mais barulhos. Pessoas gritavam lá dentro repassando ordens em um idioma que ele não compreendia e se ouviam passos apressados em deslocamento.

Silêncio. Mais espera. Era como se aquilo nunca terminasse. De repente, no susto, apertou o botão que abria o portão ao mesmo tempo em que ouviu mais tiros disparados. Deu partida. Não sabia se pelas aulas de direção que teve com seu pai ou pela urgência de sair dali, mas não pareceu tão difícil quanto achava que seria não ter um co-piloto.

Aquela, sem que soubesse, fora a última vez que viu seu pai. Embora sentisse sua presença constantemente o lembrando da promessa e o culpando por falhar.

HORAS DEPOIS...

A campainha estava quebrada, o melhor seria bater na porta ou chamar. Ele deveria ter feito isso mas estava com medo do que Dona Jocelyn diria quando os visse ali, não atoa esteve dando voltas no quarteirão por meia hora. Deu um passo para trás. Girou sobre os calcanhares.

Queen colocou a cabeça para fora da janela. Kell respirou. Batsu na porta. Uma, duas, três vezes. E como o esperado, a própria Dona Jocelyn quem o atendeu.

"Ah, eu sabia que isso não duraria muito e que você voltaria correndo para a vovó Jo pedindo ajuda para sobreviver ao seu pai."

Ela deu vários tapinhas na bochecha do neto enquanto falava com sua voz estridente e falsamente doce. Olhando de longe até parecia uma avó comum.

"Não foi bem isso o que aconteceu. E sim, eu preciso de ajuda."

"Claro que sim, vem aqui." Jocelyn abriu a porta para que ele entrasse. "Eu ainda tenho aquele trabalho para você, é um esquema novo em que seus primos estão envolvidos."

"Vó, a Queen..."

Ela fez um sinal que o neto conhecia bem. Parou de falar e ela fez o mesmo por alguns instantes. Seus olhos agora se estreitando. A mulher colocou as mãos nos quadris e começou a bater o pé direito no chão.

"Não me diga que essa garota está aqui?"

"Sim, ela vai ficar comigo."

"Não. Não na minha casa."

"Não estou pedindo." Empurrou a porta forçando-a para trás. "A Queen vai ficar aqui."

"E quem é que vai ser responsável por ela? Eu que não serei. Além disso, essa garota dá muita despesa, se acha uma princesa."

"Eu vou trabalhar e cobrir todos os gastos dela."

Sibilou entredentes olhando para os próprios pés. As botas sujas de lama e mal amarradas.

"Talvez tenha se esquecido que você trabalha para mim e em troca sou eu quem te dá tudo o que você precisa para viver."

"Eu arrumo outro emprego. Já disse, eu vou cobrir as despesas e me responsabilizar por ela. Sem discussão."

Alterou a voz. Aquela presunção o irritava. Ele não viveria ali de favor, nunca viveu. O preço era sempre muito alto. Não era como se, de repente, isso fosse mudar. Ela o encarou por mais alguns instantes, pensativa.

"Ótimo! Venham."

Kell sinalizou para Queen que foi correndo até a casa. Ele a passou para sua frente e joguou a mochila nas costas enquanto pegava o casaco dela e indicava seus pés para retirar as pantufas sujas antes de entrar. Não era o melhor lugar do mundo para ele, na verdade, trazia péssimas lembranças, mas era o único lugar que ele tinha para ir naquele momento.

"Então você voltou para nós?"

Na poltrona da sala, sentado com um charuto enorme entre os dedos, estava alguém que ele não esperava encontrar nem tão cedo. A voz era dele.

"Tio Isaac." Parou e respondeu, sibilando, antes de virar. "Não era a minha intenção, mas..."

"E essa menininha aí?"

Notou como os olhos nojentos dele recaíram sobre Queen. Com o histórico dele, não era de surpreender. Seus olhos vasculharam os arredores tentando encontrar Dona Jocelyn. Não a achou, então passou a garota para trás de si e esperou que esse gesto fosse capaz de passar a mensagem.

"Cadê os outros?"

"Você sabe onde estão, garoto. Mas ainda não respondeu a minha pergunta."

"Achei que o senhor ainda estivesse na cadeia."

O cortou tentando ser mais incisivo. Naquele momento sua expressão mudou. Talvez ele tivesse entendido, Kell preferia acreditar que sim, pois se Isaac encostasse em um fio de cabelo de Queen, eles teriam um problema. Melhor dizendo, ele teria um problema.

O silêncio na sala ficou pesado, cortado apenas pelo crepitar da ponta acesa do charuto do Tio Isaac. O cheiro forte de tabaco queimado parecia impregnar a tapeçaria gasta do casarão. Ele deu uma tragada lenta, os olhos fixos na garota encolhida atrás das pernas do garoto.

Sentiu a mão de Queen apertar o tecido da sua calça com força, o corpo dela tremendo contra o seu. O reflexo foi imediato: Kell deu um meio-passo à frente, bloqueando totalmente a visão que ele tinha dela, e passou a mão velada por baixo do casaco, pousando os dedos sobre o cabo frio da pistola na cintura. Não puxou a arma, mas fez questão de deixar o movimento claro.

"Eu fiz uma pergunta, Kell." Isaac disse, a voz arrastada, soltando uma fumaça densa para o teto. "Achei que seu pai tinha te ensinado a ter modos com a família."

"O meu pai me ensinou a proteger o que é meu." Respondeu, mantendo o tom baixo, duro, encarando-o diretamente nos olhos. "E a Queen está sob a minha responsabilidade. Você não chega perto dela. Nem olha pra ela."

Isaac arqueou uma sobrancelha, um sorriso irônico e nojento surgindo no canto dos lábios. Ele fez menção de se levantar da poltrona, mas antes que a tensão explodisse, o som de passos firmes ecoou pelo corredor de madeira. Dona Jocelyn retornou, segurando um molho de chaves antigas.

"Já chega, Isaac." A voz da matriarca cortou o ar como uma lâmina. Ela sequer olhou para ele; seus olhos secos caíram direto sobre o neto mais novo. "O garoto voltou porque sabe qual é o lugar dele. E se ele diz que vai cobrir os custos dessa menina, ele vai. Não preciso de você intimidando meu único elo operacional com o lado do traidor do Lucius."

Isaac soltou um estalo com a língua, mas voltou a se encostar na poltrona, embora seu olhar não tenha perdido a malícia.

"O quarto no final do corredor do segundo andar está vago" Jocelyn disse, jogando uma das chaves prateadas na direção de Kell. Ele pegou no ar. "Tome um banho e limpe a sujeira. Às oito em ponto quero você no escritório. Seus primos Joshua e Eidel já estão cientes do serviço de amanhã. Você vai mostrar se o tempo que passou com o traidor do seu pai serviu pra alguma coisa."

Não houve resposta. Ele apenas pegou na mão de Queen e a puxou com pressa em direção à escadaria principal, sentindo o olhar de Isaac queimando em suas costas a cada degrau subido.

Capítulo 2 Predadores

O quarto cheirava a mofo e a poeira acumulada de anos. Assim que entraram, Kell fechou a porta de madeira maciça e girou a chave na fechadura. Não satisfeito, arrastou uma cadeira pesada de carvalho e deixou debaixo da maçaneta, criando uma barricada improvisada.

Queen continuava imóvel no meio do cômodo, ainda envolta no cobertor sujo de poeira e pequenos vestígios de vidro que tinham ficado presos ao tecido. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados, a pele clara e o cabelo preto como a noite manchados de fuligem da explosão.

"Kell..." A voz dela saiu num sussurro quase inaudível, quebrada pelo choro represado. "Cadê o tio Lucius? Ele... ele vai vir buscar a gente?"

Ele apertou os dentes com tanta força que a mandíbula doeu. A imagem do pai no final do corredor, apontando a arma para os invasores enquanto a casa caía aos pedaços, veio com força total. Teve que engolir o nó na garganta para não desabar na frente dela. Lembrou do peito estufado, da promessa que fez a ele poucas horas atrás.

"Ele está fazendo o trabalho dele, Queen." Mentiu, se ajoelhando na altura dos olhos dela e segurando seus ombros com firmeza. "E o nosso trabalho agora é ficar em segurança aqui. Você confia em mim?"

Ela assentiu devagar, enxugando uma lágrima com a manga do pijama de princesas.

Ele ajeitou uma das camas solteiras, limpou os cacos microscópicos que ainda estavam em seus braços e se certificou que ela estivesse coberta até o pescoço. Tirou a pistola da cintura e a colocou exatamente na primeira gaveta da mesinha de cabeceira antes de se deitar ao pé da única cama que havia ali.

Quando a respiração dela finalmente pesou, indicando que tinha adormecido pelo exaustão, Kell ficou encarando o teto escuro. O casarão estalava com o vento da madrugada, e cada passo rangendo nos corredores distantes parecia uma ameaça.

A morte de seu pai nem tinha sido processada, mas ele já sabia que o luto teria que esperar: no andar de baixo, uma família inteira de predadores esperava pra usá-lo, sem saber que no seu quarto ele guardava o grande segredo que seu pai não havia revelado nem mesmo para ele e que mais tarde se revelaria o caos no submundo.

A madrugada no casarão não trazia descanso; trazia apenas sombras maiores.

O silêncio da casa era denso, pesado, cortado esporadicamente pelo estalar da madeira antiga se contorcendo sob o vento frio do fim de dia. Kell não conseguia dormir. A imagem da casa do pai em chamas e o peso do ferro frio da pistola na gaveta mantinha seus sentidos em alerta máximo.

Seus passos nos corredores eram quase invisíveis, guiados pela memória muscular de quem cresceu aprendendo onde a tábua do assoalho rangia e qual canto da parede projetava a sombra primeiro. Naquele lugar, mover-se sem ser notado não era um hábito, era um mecanismo de sobrevivência.

Quando alcançou o topo da escada da cozinha no andar térreo, notou o filete de luz amarelada que vazava pela fresta da porta. Parou. Prendeu a respiração por dois segundos, avaliando o ambiente antes de avançar.

Sahama estava lá.

A esposa de Abraham estava encostada na bancada de granito escuro, vestindo um robe de seda escura que deslizava pelos ombros. Segurava um copo baixo de uísque, o gelo estalando suavemente contra o vidro enquanto ela o girava com preguiça. Ela não se virou quando ele entrou, mas os olhos dela acompanharam o reflexo dele na janela embaçada pela névoa da noite.

"O sono é um luxo raro para quem carrega fantasmas, não é, Kell?" A voz dela saiu aveludada, quase um sussurro, sem qualquer surpresa pela presença dele.

Kell manteve o rosto impassível. Foi direto para a pia, pegando um copo de vidro comum do armário.

"Só vim buscar água" Respondeu, a voz seca.

O som da torneira aberta enchendo o copo pareceu alto demais no silêncio sufocante do cômodo. Ele bebeu em goles pausados, sentindo o líquido gelado descer cortando a garganta seco de ansiedade, mas mantendo a visão periférica cravada na mulher a poucos passos de distância.

"Você anda tenso" Ela continuou. O som do vidro contra o granito ressoou quando ela apoiou o copo na bancada. "Se movendo pelos corredores como um animal acuado, sempre olhando por cima do ombro... sempre fugindo de algo. Ou seria de alguém?"

Kell terminou a água. Colocou o copo devagar sobre a pia, calculando a distância até a saída.

"Talvez eu esteja."

Ela deu um sorriso lento. Um sorriso arrastado, desprovido de qualquer calor genuíno. Um sorriso perigoso.

"Ou talvez esteja procurando."

O ar na cozinha mudou instantaneamente. A temperatura pareceu cair. O instinto que seu pai havia lapidado com tanto rigor apitou no fundo de sua mente: ameaça. Mas não era o tipo de ameaça contra a qual se podia sacar uma arma; era um jogo psicológico, uma teia invisível para onde ela sempre tentava arrastá-lo.

"Eu não estou procurando nada, Sahama."

"Certeza?" - Ela deu dois passos à frente. Sem pressa. Sem hesitação. O cheiro de perfume doce e caro mesclado ao álcool invadiu o espaço entre eles, sufocante. "Nem uma aliança? Nem alguém que te entenda nessa casa de monstros?"

Ela estava perto demais. Perto o suficiente para que Kell sentisse o calor que emanava do corpo dela. Ele não recuou - dar um passo para trás seria entregar sua fraqueza -, mas também não avançou. Ficou imóvel, como uma estátua de pedra, sentindo os batimentos cardíacos acelerarem contra as costelas.

"Você é filho do Lucius..." Ela murmurou, inclinando levemente a cabeça para observá-lo sob a luz fraca. Os olhos dela percorreram as cicatrizes recentes no rosto dele, os nós dos dedos machucados. "Sempre observei isso com uma fascinação quase doentia."

"O quê?"

"Como alguém tão embrutecido e cruel quanto o seu pai conseguiu... esculpir algo como você."

Aquilo não era um elogio. Era veneno destilado. Era a tentativa de minar a única referência que lhe restava, a figura do pai que ele acabara de perder e que ainda sangrava em sua memória. Mas era algo além disso. Não era a primeira vez que Sahama tentava se jogar para o sobrinho.

"Você devia medir esse tipo de conversa." A voz de Kell desceu um tom, perigosamente grave. "Meu tio não está aqui, mas você deveria respeitá-lo."

Sahama soltou uma risada baixa, um som leve e divertido que ecoou pelas paredes do cômodo.

"E quem vai me fazer medir as palavras? Você?"

O silêncio que se seguiu foi elástico, tenso a ponto de quase rasgar. Lentamente, Sahama ergueu a mão. Os dedos de unhas bem feitas e anéis pesados tocaram a linha do maxilar dele. A pele dela era quente, contrastando de forma violenta com o frio que dominava o corpo de Kell.

Kell travou. Não por medo físico, mas por uma súbita e aterradora falta de chão. Ele fora treinado para desarmar invasores, para identificar saídas de emergência e empunhar uma pistola sob tiroteio, mas ninguém o havia preparado para a manipulação íntima e sórdida dos adultos daquela família. Por uma fração de segundo - um piscar de olhos imperceptível -, a carência de um abraço ou de um refúgio fez o veneno doce parecer tentador. E essa hesitação foi a coisa mais aterrorizante que ele já sentira.

"Você é bonito demais para ser destruído no jogo da sua avó, garoto..." Ela sussurrou, a farsa da compaixão brilhando em suas pupilas.

A clareza voltou como um soco no estômago. Antes que ela pudesse mover os dedos em direção ao seu pescoço, Kell reagiu. A mão dele subiu como um raio, interceptando o pulso de Sahama no ar. A fivela do aperto dele foi firme, precisa, travando os ossos dela sem quebrá-los, mas exercendo a pressão exata para deixar claro quem estava no controle.

Ele puxou a mão dela para longe do seu rosto, sem desviar o olhar nem por um milissegundo.

"Não faça isso de novo. Nunca mais."

A voz dele não saiu alta, mas veio carregada de uma densidade que fez o sorriso de Sahama vacilar pela primeira vez. A surpresa piscou no rosto dela, rapidamente substituída por uma nova camada de interesse sórdido.

"Você é mais forte e mais esperto do que o seu pai achava." Ela murmurou, tentando puxar o pulso com sutileza, mas ele só a libertou quando quis.

"Não." Kell respondeu, dando meio-passo para trás e criando o espaço que precisava. "Eu só aprendi desde muito cedo a reconhecer quando alguém está tentando me colocar numa armadilha."

Ele se virou e caminhou em direção ao corredor escuro, os passos pesados e sem olhar para trás. Sahama continuou na cozinha, ajustando o robe e dando mais um gole no uísque, mantendo o olhar fixo na silhueta do garoto que desaparecia na escuridão.

Kell subiu as escadas com o peito queimando. Ele tinha vencido o embate, mas ao trancar a porta do quarto e ouvir a respiração suave de Queen dormindo, soube a verdade: naquele casarão, ninguém saía de uma conversa ileso.

HORAS DEPOIS...

Às oito da manhã, o casarão já estava pulsando. Pelas frestas da porta do escritório de Dona Jocelyn, dava para ouvir o murmúrio de vozes pela casa - seus tios Gavrel e Abraham discutindo sobre rotas de remessa e a movimentação dos seus primos no andar térreo.

Queen tinha ficado no quarto, sob ordens estritas de não abrir a porta para absolutamente ninguém.

Ele entrou no escritório. A luz da manhã entrava fraca pelas persianas semiabertas. Dona Jocelyn estava sentada atrás de uma mesa de imbuia maciça. Em pé, encostados na parede ao lado, estavam seus dois primos: Joshua, o filho mais velho de Gavrel, com seu ar debochado de sempre, e Eidel, filho de Abraham, que o encarava com uma frieza calculada.

"Olha só quem resolveu dar as caras." Debochou Joshua, cruzando os braços. "O filho do desertor. Veio pedir esmola para vovó?"

"Silêncio, Joshua!" Ordenou Jocelyn, sem levantar o tom de voz, mas com autoridade suficiente para fazê-lo calar a boca imediatamente. Ela virou a atenção para o outro neto. "O Kell tem mais treinamento de campo do que você e o Eidel juntos. Lucius pode ter sido um traidor para a nossa família, mas não dá pra negar que ele sabia como preparar um soldado."

Eidel deu um passo à frente, ajustando a jaqueta de couro.

"Qual é o plano então?"

Jocelyn abriu uma pasta de couro preta sobre a mesa, revelando mapas e fotos de uma instalação de armazenamento nas docas da cidade.

"A família para a qual o Lucius estava prestando serviço abriu uma nova rota de distribuição. Eles estão estocando uma carga de armamento pesado e documentos de inteligência no galpão quatro antes da redistribuição de quinta-feira."

O coração dele deu um pulo no peito, mas fez o possível para manter a expressão neutra. Era a mesma família a qual Queen pertencia, pensou.

"O esquema é simples!" Continuou Dona Jocelyn, batendo o indicador sobre o mapa. "Invadir, neutralizar os guardas de forma silenciosa e extrair o lote principal antes que a segurança privada deles perceba. Joshua e Eidel vão cuidar do perímetro externo e do transporte. Você, Kell, vai liderar a invasão e o arrombamento do cofre interno. Você conhece a estrutura e organização deles melhor do que qualquer um de nós, por causa do seu pai."

"Se eu fizer isso..." Disse ele, encarando Jocelyn nos olhos "A dívida do teto e da comida da Queen está paga por quanto tempo?"

Dona Jocelyn deu um sorriso frio, quase sem dentes.

"Isso paga a entrada de vocês. Mas lembre-se, Kell: enquanto estiver sob o meu teto, a sua lealdade pertence a esta casa. Se falhar, ou se eu perceber qualquer sinal de que você ainda guarda lealdade aos contatos do seu pai... a sua garotinha perde a proteção da vovó Jo."

O mais novo olhou para Joshua e Eidel. Os dois sorriam de canto, cientes de que ele estava preso no jogo deles. Kell não tinha escolha a não ser aceitar a missão, usar o trabalho para descobrir quem tinha atacado a casa de seu pai e, acima de tudo, manter o segredo sobre a identidade da Queen bem enterrado.

Capítulo 3 Contraste

A manhã começou cinzenta. O contraste entre a calmaria do lado de fora do casarão e a podridão do lado de dentro parecia cada vez mais violento.

Kell acompanhou Queen até a portaria do colégio particular a poucas quadras dali – uma escola cara, mas que mantinha a garota longe dos olhos de sua família por algumas horas. Ele se ajoelhou na altura dela na calçada, ajeitando a mochila nas costas pequenas do casaco azul marinho profundo de uniforme."

"Presta atenção em mim, Queen." Kell disse, mantendo a voz calma, embora seus olhos vasculhassem a rua sem parar. "Não fale com estranhos, não aceite carona de ninguém e, se vir alguém da família do meu pai ou qualquer outro além de mim e das professoras tentando se aproximar ou levar você, grita, corre e avisa a diretora. Eu venho te buscar na mesma hora, certo?" Ela fez um sinal positivo com a cabeça. "No final da aula estarei aqui. Prometo."

Ela assentiu, apertando a alça da mochila com as mãozinhas trêmulas.

"Você promete mesmo, Kell? O tio Lucius sempre prometia..."

O nome do pai fez o peito de Kell apertar de novo, mas ele engoliu o nó na garganta e deu um leve carinho no queixo dela.

"Eu prometo. Agora vai."

Ele esperou até que o portão reforçado do colégio se fechasse atrás dela antes de olhar ao redor e mapear todas as câmeras de segurança que encontrasse ao redor. Depois girou sobre os calcanhares e caminhou rápido.

O trânsito matutino e a necessidade de fazer um trajeto mais longo para checar se não estava sendo seguido custaram caro. Quando Kell cruzou os portões de ferro do casarão, já passava das nove e quinze.

No pátio de paralelepípedos, uma picape preta já estava com o motor ligado, soltando uma fumaça densa pelo escapamento. Encostados na caçamba, Joshua e Eidel o esperavam. Joshua checava o relógio de pulso com impaciência, enquanto Eidel girava uma chave de fenda entre os dedos.

"Olha só se não é o pequeno soldado." Debochou Joshua assim que Kell se aproximou. "Achou que estava de férias, garoto? A vovó tá possessa lá dentro."

Kell nem respondeu. Passou direto por eles e subiu os degraus da varanda, pisando fundo até o escritório.

Dona Jocelyn estava de pé ao lado da janela, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ao ouvir a porta se abrir, ela se virou lentamente. O olhar que lançou a Kell era capaz de congelar o sangue.

"Quinze minutos de atraso, Kell" A voz dela veio baixa, cortante como navalha. "No nosso meio, quinze minutos é a diferença entre terminar um serviço limpo ou sair num saco de lixo. O seu pai não te ensinou disciplina?"

"Eu tive que levar Queen até a escola." Kell respondeu, mantendo o queixo erguido, embora sentisse a pressão no ambiente.

"A sua única prioridade nesta casa é a missão que eu te dou!" Retrucou a matriarca, dando dois passos à frente e apontando o indicador para o peito dele. "Se a garota der trabalho ou atrapalhar o seu rendimento, eu mesma dou um jeito nela. Não se esqueça de quem está pagando a conta da sua permanência aqui. Se você falhar hoje porque estava bancando a babá, não vai ter segunda chance. Entendeu?"

Kell apertou os punhos ao lado do corpo, sentindo a raiva queimar no estômago, mas apenas assentiu.

"Entendi."

"Ótimo!" Ela virou-se de costas, dispensando-o com um gesto vago de mão. "As armas já estão sob o banco da picape. Joshua tem os mapas do galpão. Traga a carga inteira e sem estardalhaço. Agora suma da minha frente."

Kell saiu do escritório sem dizer mais nada. Ao passar pelo corredor, sentiu a presença incômoda de Tio Isaac observando da sombra da sala de estar, mas não deu o gosto de olhar para trás.

Lá fora, pulou para o banco de trás da picape. Joshua acelerou com força, fazendo os pneus cantarem no calçamento, enquanto Eidel ajustava o retrovisor para encarar Kell.

"Vamos ver se você é tão bom quanto o traidor do seu pai dizia." Provocou Eidel, soltando uma risada seca.

Kell apenas puxou o capuz do casaco sobre a cabeça e checou a trava da pistola escondida na cintura. O jogo tinha começado.

O cheiro de maresia e óleo queimado impregnava o ar na zona portuária. A picape preta ficou estacionada a duas quadras do Galpão 04, escondida atrás de uma fileira de contêineres enferrujados.

Kell ajustou o capuz escuro e puxou a gola da jaqueta para cobrir metade do rosto. Sob o banco da picape, puxou a submetralhadora compacta com silenciador adaptado e checou o carregador. Joshua e Eidel faziam o mesmo, embora o nervosismo dos dois ficasse evidente pela pressa desordenada nos movimentos.

"O perímetro tem quatro guardas." Disse Kell, mantendo a voz num tom baixo e preciso, apontando para a planta desenhada na tela de um celular. "Dois na guarita principal, dois fazendo a ronda pelos fundos a cada oito minutos. Eu desativo as câmeras do setor oeste, entro pelo duto de ventilação e abro a doca três por dentro. Vocês dois só entram quando eu der o sinal no rádio. Sem tiros, sem mortes desnecessárias."

"Olha só ele, parecendo um general." Debochou Joshua, tentando disfarçar a tensão enquanto destravava a pistola. "Vamos ver se lá dentro o soldadinho não amarela."

Kell ignorou. Pegou o equipamento e deslizou pelas sombras das pilhas de carga, movendo-se com a agilidade e o silêncio que o pai lhe ensinara. Chegou à parede lateral do galpão, escalou a estrutura de ferro de uma escada de incêndio e usou o alicate para cortar a grade de proteção do duto.

Lá dentro, o ar era abafado. Desceu suavemente sobre uma viga metálica no teto do galpão, observando o pátio interno. Caixas de madeira com o brasão da família rival, os Polotsviere, donos da Vanguard, estavam empilhadas até o teto. Dois guardas armados conversavam perto do cofre de segurança.

Calculando os segundos do ciclo das câmeras, Kell saltou da viga para cima de um contêiner e caiu em pé atrás do primeiro guarda. Um mata-leão rápido e preciso apagou o homem em segundos, sem um único som. Antes que o segundo guarda percebesse a ausência do parceiro, Kell surgiu do ponto cego e o atingiu com uma coronhada firme da arma na base do crânio. O homem caiu desacordado.

Ele correu até o painel da doca três e acionou o portão rolante, que subiu com um ruído abafado. Joshua e Eidel entraram apressados, empurrando um carrinho de transporte pesado.

"Demorou, hein?" Murmurou Eidel, olhando o próprio relógio e verificando que não passavam de três minutos da ação do "soldadinho". Impressionado apesar de si mesmo.

"Menos conversa, mais carga." Cortou Kell, já ajoelhado em frente ao cofre da parede.

As mãos de Kell trabalhavam rápido no decodificador eletrônico. As memórias das aulas do pai vinham como flashes rápidos: "Você vai conviver com pressão constante, Kell. O pânico faz a mão tremer, a precisão exige sangue frio e firmeza."

Um bip verde soou. A tranca pesada do cofre cedeu. Dentro, várias pastas de inteligência revestidas em couro e maletas com armamento de alta precisão.

"Peguem as maletas pretas e as pastas de couro escuro. Esqueçam o resto." Ordenou Kell.

Em menos de dez minutos, a carga estava acomodada na caçamba da picape sob uma lona grossa. Joshua acelerou saindo das docas enquanto a sirene de alarme do galpão finalmente começava a tocar ao longe - tarde demais.

Assim que pularam para fora do veículo no pátio do casarão, Eidel correu para entregar as maletas para Dona Jocelyn. Kell, no entanto, puxou o fôlego e olhou para o relógio no pulso: *12:40 p.m*.

Um arrepio frio correu pelas suas costas.

"A escola."

Ele tinha combinado de buscar Queen às 13:00 e, mais do que isso, havia agendado uma reunião com a diretora sobre a inclusão da criança em atividades extracurriculares. A ideia era simples, mas vital: quanto mais tempo Queen passasse na escola, - em aulas de artes, esportes ou reforço - menos tempo ficaria exposta ao ambiente podre e aos olhos do Tio Isaac no casarão.

Limpou a graxa e o suor do rosto no banheiro do térreo, vestiu uma jaqueta limpa para esconder as marcas da invasão e saiu apressado a pé, quase correndo pelas calçadas.

Chegou à escola exatamente às 12:58 p.m. Queen estava sentada em um banco de madeira na recepção, abraçada à sua mochila. Ao ver Kell entrar, o rosto dela se iluminou e ela correu para abraçar sua cintura.

"Você veio!" Ela sussurrou, aliviada.

"Eu disse que viria." Kell respondeu, acariciando o cabelo dela antes de se dirigir à mesa da diretora, Dona Helena, uma mulher de meia-idade com olhar que contrastava entre cansado e gentil e uma postura severa.

"Boa tarde, Kell" - disse a diretora. "Queen se comportou muito bem hoje. Sobre o que conversamos mais cedo, separei a grade do programa de tempo integral. Inclui acompanhamento pedagógico, aulas de música, ballet, pintura e esportes até as 18:30 todos os dias. Vou preparar a planilha financeira com a mensalidade adicional e te envio por mensagem no fim da tarde de hoje, tudo bem?"

"Perfeito, Senhora Helena. Eu fico no aguardo. Muito obrigado."

HORAS DEPOIS...

Ao cair da tarde, o casarão já estava imerso em sua habitual atmosfera tensa. Queen estava no quarto, entretida desenhando no chão sob a vigilância atenta de Kell, que mantinha a porta trancada como de costume.

O celular dele vibrou no bolso. Era uma notificação de mensagem da secretaria da escola. Kell abriu o arquivo PDF anexo com a proposta do orçamento. Os olhos dele percorreram as linhas digitadas até chegarem ao valor total no rodapé da página: taxa de matrícula estendida, material especial, taxa de seguro e mensalidade integral.

O valor era quase três vezes maior do que a quantia que ele trazia guardada no bolso e o pequeno valor que a avó lhe prometera por comissões futuras.

Kell encostou a cabeça contra a parede fria do quarto, soltando o ar devagar.

A matemática não fechava. Para manter Queen segura e longe daquele lugar, ele precisaria de muito mais dinheiro. E na estrutura da família, a única forma de conseguir mais dinheiro era aceitando missões cada vez mais perigosas, sangrentas e profundas no submundo e aos interesses de Dona Jocelyn - exatamente o tipo de vida de onde seu pai tentou tirá-lo.

Ele olhou para a garotinha concentrada em seus lápis de cor no chão, sentindo o nó na garganta apertar. O relógio estava correndo, e o preço para protegê-la estava ficando alto demais.

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