Minha primeira vida terminou como num pesadelo.
Morri sozinha, consumida por uma doença, meu corpo traído pela enfermidade e minha alma pela ganância do meu próprio filho.
Pedro, meu Pedro, para quem dediquei cada segundo, cada centavo, me deixou definhar depois de esvaziar minhas economias com a namorada que, eu pensava, o manipulava.
A dor da traição.
A vida inteira de sacrifícios, diluída pelo desprezo.
Mas então, eu pisquei, e o cheiro de antisséptico foi substituído pelo de café fresco.
Eu estava de volta.
No meu sofá, minhas mãos fortes, seis meses antes do diagnóstico fatal.
E foi então que ouvi a voz dele, doce ao telefone com Camila, mas um sussurro cruel em minha mente, revelando que Camila era apenas uma desculpa para arrancar mais dinheiro para sua verdadeira amante, Juliana.
Meu filho, o monstro que eu criei, manipulava a todos, usando o nome de uma garota inocente para financiar seus caprichos e mentiras.
Eu o havia amado cegamente, e ele me deixou para morrer.
A raiva e a vergonha me consumiram.
Minha morte solitária não era o fim, mas um aviso.
Eu tinha uma segunda chance, não para salvá-lo, mas para me salvar.
E para fazer justiça a outra vítima de suas mentiras: Camila.
O jogo tinha mudado.
E desta vez, Pedro não seria o vencedor.'}]
A morte foi um alívio frio, um silêncio bem-vindo depois de uma vida de ruído e sacrifício. Na minha primeira vida, eu, Maria da Graça, morri sozinha numa cama de hospital estéril, com o corpo consumido por uma doença que meu dinheiro, roubado pelo meu próprio filho, não pôde tratar. A última coisa que senti foi a dor da traição, mais aguda que a da doença. Meu filho, Pedro, o menino para quem dediquei cada segundo, cada centavo, me deixou para morrer depois de esvaziar minhas economias com a namorada dele, Camila.
E então, eu pisquei.
O cheiro de café fresco, e não de antisséptico, encheu minhas narinas. O som da televisão na sala, e não o bipe monótono de uma máquina, chegou aos meus ouvidos. Eu estava sentada no meu sofá, o sofá velho e confortável que eu conhecia tão bem. Meu corpo não doía. Olhei para as minhas mãos, elas não eram frágeis e manchadas, mas fortes, as mãos de uma mulher de meia-idade que ainda tinha vida pela frente.
Um calafrio percorreu minha espinha. Não era um sonho. Eu tinha voltado. O calendário na parede marcava uma data de seis meses antes da minha morte. Seis meses antes do diagnóstico.
Do quarto, ouvi a voz do meu filho, Pedro. Ele estava ao telefone, falando com Camila. A voz dele era doce como mel, cheia de promessas e carinho.
"Amor, claro que eu quero te ver. Só estou um pouco ocupado ajudando minha mãe com umas coisas."
Mas então, algo estranho aconteceu. Por baixo da voz dele, ouvi outra coisa. Uma voz diferente, silenciosa, mas clara como cristal na minha mente.
Que saco essa garota. Tenho que manter a farsa até conseguir o que quero. Preciso de mais dinheiro para a Juliana, e a Camila é a desculpa perfeita.
Eu congelei. Que voz era aquela? Parecia vir de dentro do próprio Pedro, uma mensagem cruel e direta do seu coração.
Na minha primeira vida, eu desprezava Camila. Acreditava nas histórias de Pedro, que ela era interesseira, que o pressionava por uma vida de luxo que ele não podia bancar. Eu a via como a fonte dos problemas financeiros dele, a vilã que o estava levando para o mau caminho. A raiva que senti dela me cegou para a verdade.
Pedro continuou falando ao telefone.
"Sim, meu amor, eu sei que seu aniversário está chegando. Estou preparando uma surpresa especial."
E a voz interior, cruel e zombeteira, sussurrou em minha mente: Surpresa especial para a Juliana, você quer dizer. Essa idiota da Camila vai se contentar com qualquer porcaria que eu comprar na lojinha da esquina.
Meu estômago se revirou. Era uma habilidade? Um presente desta segunda chance? Eu podia ouvir os pensamentos verdadeiros das pessoas?
Tudo o que Pedro dizia era uma mentira polida. E Camila, do outro lado da linha, eu não podia ouvir seus pensamentos, mas a julgar pela forma como Pedro a respondia, ela estava sendo completamente enganada, acreditando em cada palavra dele. A lembrança do meu ódio por ela me encheu de vergonha. Eu a julguei, a condenei, enquanto o verdadeiro monstro dormia sob o meu teto.
Naquela tarde, Pedro entrou na sala, com um sorriso charmoso no rosto, o mesmo sorriso que ele usava para conseguir tudo o que queria.
"Mãe, preciso de uma ajuda."
Eu o encarei, meu coração batendo forte. "O que foi, meu filho?"
"É a Camila. Ela está me pressionando por um presente de aniversário caro, um anel de ouro. Eu não sei o que fazer, não tenho todo esse dinheiro agora."
A mentira era tão descarada que me deixou sem ar. Enquanto ele falava, a voz interior dele gritava em minha cabeça: Preciso de quinhentos reais. A Juliana quer aquele perfume importado. Vou dizer que é para a Camila, a velha sempre cai.
Eu senti um nó na garganta. Ele não estava apenas mentindo, estava me manipulando, usando o nome de uma garota inocente para financiar seus casos e seu estilo de vida. Na minha primeira vida, eu teria dado o dinheiro sem pensar duas vezes, repreendendo Camila em silêncio.
"Um anel de ouro?", perguntei, mantendo minha voz calma. "Ela te disse isso?"
"Sim, mãe. Ela fica vendo essas coisas na internet e me mandando fotos. Me sinto um péssimo namorado por não poder dar o que ela quer."
A voz interior dele riu: A trouxa da Camila nunca pediu nada além de um jantar. Mas a mamãe precisa acreditar que ela é uma megera interesseira. Facilita tudo.
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha de veludo barata. Abriu-a, revelando uma pulseira de metal fino, com pedrinhas de plástico que imitavam diamantes. Custava, no máximo, vinte reais.
"Eu só consegui comprar isso para ela. Ela vai me odiar, mãe."
Era a jogada final. A isca. Ele queria que eu sentisse pena dele e raiva dela. E então, eu daria o dinheiro.
Mas desta vez, eu via o jogo. A pulseira barata não era um presente para Camila. Era um adereço no teatro dele, uma prova da "ganância" dela e da "pobreza" dele. Ele planejava me mostrar a pulseira, pegar meu dinheiro para o suposto "anel", dar o perfume para Juliana e, talvez, nem entregar a pulseira para Camila, para que ela parecesse ainda mais ingrata.
Confirmei minha nova habilidade. Eu não estava louca. A voz era real. E revelava uma escuridão no meu filho que eu nunca imaginei ser possível. Meu Pedro, meu menino, era um manipulador frio e calculista.
E eu, que morri por causa dele, agora tinha uma segunda chance. Não para salvá-lo. Mas para me salvar. E talvez, para fazer justiça por outra vítima inocente de suas mentiras: Camila.
A confiança que eu tinha em Pedro, construída ao longo de uma vida inteira de amor e sacrifício, se estilhaçou em um único instante. Cada palavra carinhosa que ele já me disse agora soava como um eco de suas mentiras. A lembrança da minha morte solitária era um fogo que queimava dentro de mim, me dando uma força que eu não sabia que possuía. Desta vez, seria diferente.
Eu olhei para a pulseira barata na mão dele, depois para o rosto dele, um rosto que eu amava, mas que agora parecia a máscara de um estranho.
"Pedro", comecei, com a voz mais firme do que eu esperava. "Essa pulseira parece simples. Por que você precisaria de tanto dinheiro para um anel de ouro se ela ficaria feliz com algo assim?"
Ele foi pego de surpresa. Seus olhos piscaram, a confusão momentânea quebrando sua fachada de menino triste.
"Mãe, você não entendeu. Isso é o que eu posso dar. O que ela quer é outra coisa. Ela vai ficar desapontada com isso."
A voz na minha cabeça zombou: Droga, ela está questionando. Rápido, vire o jogo. Faça ela se sentir culpada.
Imediatamente, a expressão dele mudou para uma de mágoa profunda.
"Você não confia em mim? Eu sou seu filho. Estou passando por um momento difícil, tentando construir um futuro, e você me questiona por tentar fazer minha namorada feliz?"
A chantagem emocional. Tão familiar, tão eficaz na minha primeira vida. Mas não mais.
"Não é uma questão de confiança, Pedro. É uma questão de lógica", respondi, calmamente. "Camila me parece uma moça simples. Tenho certeza de que ela valoriza o gesto, não o preço."
A voz interior dele rosnou: Essa velha está mais esperta hoje. Preciso acabar com isso. Vou fazê-la se sentir uma péssima mãe.
"Você sempre implica com a Camila!", ele explodiu, elevando a voz. "Você nunca gostou dela! Só porque ela vem de uma família humilde, você acha que ela é interesseira! Você quer me ver infeliz?"
As acusações me atingiram, mas não da forma que ele pretendia. Elas eram um espelho do meu comportamento passado, das minhas suspeitas injustas. Ele estava usando minhas próprias falhas contra mim.
Mas agora, eu sabia a verdade. E a verdade era minha armadura.
"Isso não é verdade, Pedro. Eu só quero entender."
Decidi testá-lo. Decidi jogar o jogo dele, mas com as minhas regras.
"Sabe de uma coisa?", eu disse, mudando meu tom para um mais suave, mais conciliador. "Você está certo. Eu talvez tenha sido um pouco dura. Se é importante para você, eu vou ajudar."
Um brilho de triunfo passou pelos olhos dele. A voz interior dele comemorou: Isso! Ela caiu. A grana é minha.
"Sério, mãe? Você faria isso por mim?"
"Claro, meu filho. Quanto você precisa para o anel?"
"Quinhentos reais seriam o suficiente", ele disse rapidamente.
Peguei minha bolsa. Abri minha carteira e tirei as notas. Enquanto eu contava o dinheiro, a voz dele na minha cabeça já estava gastando. Perfeito. Vou pegar o perfume para a Ju hoje mesmo. E ainda sobra para um jantar. A velha é uma idiota mesmo.
Eu estendi o dinheiro para ele. "Aqui está. Mas quero que você faça uma coisa por mim."
"Qualquer coisa, mãe."
"Quero que você entregue esta pulseira para ela também", eu disse, apontando para a caixinha de veludo. "Diga a ela que foi um presente meu. Um pequeno gesto de boas-vindas à família."
O pânico brilhou nos olhos dele por uma fração de segundo. A voz interior dele gritou: Merda! E agora? Se eu entregar a pulseira, a Camila vai achar estranho. E se ela comentar com a velha? Plano arriscado.
Ele se recuperou rapidamente. "Claro, mãe! Que ótima ideia! Ela vai adorar!"
Ele pegou o dinheiro e a pulseira.
"Agora, se me dá licença, preciso ir ao banco resolver umas coisas", eu disse, me levantando. Era uma mentira. Eu não ia a banco nenhum. Eu ia começar a minha investigação.
"Tudo bem, mãe. E... obrigado. De verdade."
Ele me abraçou. Foi um abraço frio, vazio. A única coisa que senti foi o desprezo que emanava dele, a voz em sua cabeça já planejando os próximos passos.
Preciso me livrar dessa pulseira ridícula. Talvez eu a jogue no lixo no caminho.
Quando ele saiu, eu fiquei parada no meio da sala, o cheiro do perfume barato dele pairando no ar. A dor da traição era real, mas desta vez, estava misturada com uma nova sensação: determinação. Ele achava que tinha me enganado. Mal sabia ele que o jogo estava apenas começando. E desta vez, eu não seria a única a perder.