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Entre a lei e o crime: Isabel Oliveira

Entre a lei e o crime: Isabel Oliveira

Autor:: IVI SANTIAGO
Gênero: Romance
Isabel Oliveira cansou de ser a "mãe solo sem futuro" do interior da Bahia. Entre as humilhações no interior e o desejo de liberdade, ela se vai embora juntos com seus dois irmãos mais velhos para recomeçar no Rio de Janeiro. Mas o cenário paradisíaco logo se torna um campo de guerra. Isabel é ousada, desbocada e sabe usar o que tem para sobreviver, mesmo que isso signifique se envolver com o "Grego", o dono do morro que a trata como rainha. Porém, o perigo real não usa armas, ele usa um distintivo. O delegado Diogo Vitório é uma muralha de granito e olhos negros. Implacável e explosivo, ele está obcecado ele surge em sua vida, para solucionar o desaparecimento de Zaya, irmã de Isabel. Para Diogo, cada peça do quebra-cabeça aponta para Marcos Zamutt, o marido frio da sua irmã. Mas o seu maior obstáculo é Isabel, a mulher que o desafia em cada interrogatório, que o provoca em cada beco escuro e que testa o seu juramento à lei com um desejo proibido. Entre salas, estacionamento e corredores de hospital e depósitos de serviço, a tensão entre a costureira e o delegado escala para um jogo de poder onde o prazer é a arma e a verdade é o alvo. Em um mundo onde o "Grego" oferece o trono e Vitório oferece as algemas, Isabel terá que decidir, ela prefere ser protegida pelo crime ou ser rendida pela lei?

Capítulo 1 Prólogo

Isabel Silva

A noção de tempo era um luxo que eu havia perdido desde que deixamos o interior da Bahia. Naquela segunda-feira, o tempo não era um ponteiro de relógio; era o calor do sol trabalhando na minha pele. Diante do espelho, admirei a marquinha do biquíni ressaltada no bronzeado. Eu mal podia acreditar que a vida, depois de tanta surra, finalmente estava me resguardando dias de águas calmas e pele quente.

- Mãe? Já são sete horas. Não vai pra loja? - A voz de Beto, meu filho, cortou meu devaneio.

Acordei para o mundo. O susto me fez girar a chave na pressa, agoniada com os "olhão de gato" espantados. Não houve tempo para o banho demorado que o espelho pedia. Foi o tempo de vestir a roupa, ajeitar os meninos e voar para fora do apartamento.

No elevador, cruzei com Marcos. Ele levava os meninos dele, meus sobrinhos, focado, sério. Perguntei por Zaya, mas o tempo era curto e a resposta foi um aceno. No fundo, eu não me preocupava. Zaya era meu norte, minha matriz e como sempre, eu que sou a preocupação dela, ou melhor deles. À noite, o destino de todos nós era o mesmo, a cozinha de Zaya, a casa da minha irmã mais velha, sempre trouxe achego, acolhimento, o cheiro de tempero gostoso e as risadas que o dinheiro agora não podia comprar.

Passei a manhã no shopping, entre tesouras e agulhas. Labutar com seda e linha era um paraíso comparado aos tempos de enxada, jegue velho e balde de água na cabeça. Mas, ao meio-dia, o estômago roncou e um silêncio estranho vindo da minha bolsa me chamou a atenção. Meu celular não tinha tocado. Nem uma mensagem. Nem um "bom dia" no grupo.

- Que peste... se eu não ligo, ninguém liga - resmunguei para as paredes do ateliê agoniada, se eles não deram eu também não ia dar, de ruim, não dei mesmo.

Catei minha bolsa e fui direto para o restaurante de Zaya. Mas o lugar diferente de outros dias, neste estava um furdunço. Rosa, a gerente, parecia à beira de um colapso nervoso, já sem touca, panela no balcão, cliente esperando troco, prato demorando a sair, e até cliente esperando mesa tinha.

- Bell, cadê a Zaya? Ela sumiu! Ficou de mudar o cardápio hoje e nada!

Dei de ombros, servindo-me direto da panela, raspei o tacho com o dedo, um piraozinho de leite tinha sido feito ali. O cheiro estava divino. - Ah, Rosa, dá um desconto pra bichinha. Deve ter levado uma surra de pica ontem à noite e não conseguiu levantar da cama! - As meninas da cozinha gargalharam. Eu nunca tive papas na língua; se a fama de "vadia" me seguia desde o interior, eu a carregava com um sorriso no rosto. - Vi o Marcos saindo cedo com os meninos. Ele deve ter pegado ela de jeito.

Comi, liguei para ela, mas caiu na caixa postal.

Não estranhei. Zaya era intensa. Quando decidia criar um prato, ela esquecia o mundo, se desligava de todos, apesar de socorrer a todo mundo como uma maezona que é.

Mas a tarde caiu, e o ateliê ficou frio. O vestido de noiva que eu moldava parecia errado, pesado demais. Tentei ligar para Mário, nosso irmão, que não sabia de nada. Liguei para o cunhado.

- Oi, cunho... cadê minha irmã? Que exagero foi esse dessa vez que ela não atende o celular? - Brinquei, ouvindo o som do carro dele.

- Todo mundo está atrás dela, Bell - a voz de Marcos veio grave, sem espaço para piadas. - Ela não está no restaurante, nem no shopping. Estou voltando para casa agora.

- Ih, cunho... ela fugiu de tu! Fugiu e largou a gente aqui! - Tentei rir, mas minha própria risada soou oca, ele não riu do outro lado, a verdade é que meu cunhado nunca foi muito nervoso, rs, acho que não, mas nesta hora, ele tava, mas no fundo eu sabia, Zaya nunca nos deixaria. Jamais.

Quando a noite fechou de vez sobre a cidade, eu já estava na porta do apartamento dela. O cenário era o caos. Os meninos jogados, Mário andando de um lado para o outro com os olhos vermelhos, e o ar... o ar estava pesado.

Marcos chegou logo em seguida. A blusa azul aberta no peito, o cabelo preto bagunçado. Eu sempre notei o "homão" que ele era, não que eu o quisesse para mim, mas era impossível não admirar, um homem bonito da gota, sem contar o que ele fazia com Zaya. Ele era o único capaz de apagar o fogo dela. Mas, naquele momento, o fogo parecia ter se tornado cinzas.

- Quem de vocês falou com ela hoje? - Marcos perguntou, a voz gelada, os cabelo pretos desgrenhado, e os olhos percorrendo cada um de nós, como um inquisidor e como se um de nós tivessemos engolido a esposa dele

O silêncio que se seguiu foi a coisa mais assustadora que já ouvi na vida. Ninguém. Ninguém tinha visto Zaya.

- Ela não some assim - concluí, sentindo um calafrio que nem o sol da Bahia seria capaz de esquentar.

Mário começou a soluçar, uma "manteiga derretida" de agonia. Fomos atrás de cada pista, cada canto de amigas, cada rastro de fumaça. Até que o brilho do dia se apagou completamente e fomos parar diante das luzes frias e azuis da delegacia.

Ali, entre o cheiro de café requentado e o barulho de máquinas de escrever, eu temi que o sonho de paz tinha acabado.

A delegacia era um lugar cinzento, barulhento e com cheiro de papel velho e suor. Eu sentia que ia desmoronar a qualquer momento, até que a porta de uma das salas internas se abriu com um estrondo.

- Se não tiverem o número do protocolo, não me façam perder tempo! - A voz era um trovão, rouca e impaciente.

Meus olhos se ergueram e, por um segundo, o ar fugiu dos meus pulmões. Não por medo, mas por um choque sensorial que eu não esperava sentir naquela noite de desespero.

O homem que saiu da sala parecia grande demais para aquele corredor estreito. O delegado Diogo Vitorio não caminhava, ele dominava o espaço. Ele usava uma camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços robustos e venosos que terminavam em mãos grandes, mãos de quem sabia exatamente como segurar um culpado ou qualquer outra coisa. Desviei o olhar, não era momento para isso, foca na tua irmã desaparecida, desgramada, teu macho, Grego, é, porque não falei já com Grego?

Mas os meus olhos estava ali, nele, e ele era o tipo de homem que exalava um magnetismo bruto, quase primitivo. O rosto tinha ângulos duros, uma mandíbula marcada por uma barba por fazer que lhe dava um ar perigoso, e olhos que pareciam duas pedras de obsidiana, brilhando com uma inteligência agressiva.

- Delegado, por favor... é sobre o desaparecimento de Zaya Oliveira - Mário gaguejou, mas Diogo sequer olhou para ele.

Seus olhos caíram sobre mim. Ele me varreu de cima a baixo com um desdém que me fez arrepiar. Não era o olhar de quem admirava uma mulher; era o olhar de quem lia um prontuário. Senti meu sangue ferver. A ignorância dele era quase palpável, uma barreira de gelo que me desafiava.

- Mais uma mulher que cansou do marido e foi dar uma volta? - Ele perguntou, a voz carregada de um sarcasmo ácido. Ele parou na minha frente, e o cheiro dele me atingiu, sândalo, café forte e algo que lembrava metal quente. Era um perfume viril, perturbador.

Eu dei um passo à frente, ignorando o cansaço. A atração que senti foi um soco no estômago, um calor súbito que subiu pelas minhas pernas e se alojou no baixo ventre, me fazendo odiar cada centímetro daquela arrogância dele, como se meu corpo tivesse esquecido de cada vestígio, cada metida bruta de Grego na noite anterior, minha boceta nem reclamava mais.

- Minha irmã não é de "dar voltas", delegado - respondi, sustentando o olhar, notando como o peito dele subia e descia sob o tecido fino da camisa. - E se o senhor fosse metade do profissional que a sua fama diz, estaria fazendo perguntas em vez de dar palpites idiotas.

O corredor silenciou. Diogo inclinou a cabeça levemente, os olhos semicerrados, focando na minha boca por um milésimo de segundo antes de voltar para os meus olhos. Houve um estalo no ar, uma tensão elétrica que nada tinha a ver com a investigação. Ele era um ignorante, um bruto que parecia não ter um pingo de paciência para o sofrimento alheio, mas era, sem dúvida, o homem mais letalmente sexy que já cruzou o meu caminho, esquecendo-se de Grego por hora.

- Atrevida - ele murmurou, e o canto de sua boca se moveu em algo que poderia ser um começo de sorriso ou um aviso de tempestade. - Entra na minha sala. Agora.

Ele deu as costas, e eu não pude deixar de notar o ajuste perfeito da calça no quadril estreito e a largura dos ombros que pareciam carregar o mundo. Eu sabia que aquele homem seria o meu maior problema, mas, naquele momento, eu estava disposta a entrar naquela sala e enfrentar qualquer fera que ele escondesse sob aquele distintivo.

Capítulo 2 Ponto de vista

Diogo Vitorio

A minha paciência para as segundas-feiras terminava exatamente às dezoito horas. Depois disso, o que restava era um resíduo de café amargo no estômago e o peso de um distintivo que parecia cada vez mais difícil de carregar. O corredor da delegacia estava um caos, um zumbido de vozes que eu pretendia silenciar com um único olhar.

- Se não tiverem o número do protocolo, não me façam perder tempo! - Rosnei, abrindo a porta da minha sala com força suficiente para fazer o trinco reclamar.

Eu estava pronto para despachar qualquer um que estivesse ali, até que os meus olhos encontraram os dela.

No meio de um grupo de pessoas desesperadas, ela sobressaía como uma labareda num campo de cinzas. Pele bronzeada pelo sol, um sol que não entrava nesta esquadra há anos, cabelos que pareciam ter vida própria e um olhar que, em vez de se desviar por medo da minha autoridade, fixou-se em mim com uma intensidade quase física.

Senti uma descarga elétrica percorrer a minha espinha, algo que não acontecia há muito tempo. Mas eu não era homem de me deixar levar por impulsos. Analisei-a. Ela estava exausta, os olhos levemente inchados, mas havia uma dignidade naquela postura que me irritou profundamente. Porque a atração, quando vem desacompanhada de controlo, é apenas um obstáculo.

- Delegado, por favor... é sobre o desaparecimento de Zaya Oliveira - um sujeito ao lado dela gaguejou.

Zaya Oliveira. O boletim que eu tinha em cima da mesa. O marido suspeito, os detalhes que não batiam. Olhei para a mulher à minha frente novamente. O meu instinto de polícia disse-me que ela era a chave; o meu instinto de homem disse-me que ela seria o meu inferno.

- Mais uma mulher que cansou do marido e foi dar uma volta? - Soltei a frase com o máximo de desdém que consegui reunir. Era uma técnica. Eu precisava de uma reação. Precisava de ver quem ela era sob pressão.

E ela não me decepcionou.

A mulher deu um passo em frente, invadindo o meu espaço pessoal. O cheiro dela, algo doce, como fruta madura, misturado com o calor da pele atingiu-me como um murro. Vi o brilho de desafio nos seus olhos. Ela era atrevida, desbocada e possuía uma boca que, por um segundo pecaminoso, eu desejei silenciar de uma forma que nada tinha a ver com a lei.

- Minha irmã não é de "dar voltas", delegado - ela retorquiu, a voz firme, embora eu pudesse ver a veia no seu pescoço pulsar rapidamente. - E se o senhor fosse metade do profissional que a sua fama diz, estaria fazendo perguntas em vez de dar palpites idiotas.

O silêncio no corredor tornou-se denso. Ninguém falava assim comigo na minha unidade. Inclinei a cabeça, medindo a distância entre nós, sentindo a tensão sexual vibrar no ar como um fio de alta tensão prestes a partir. Ela era insolente, mas tinha razão. E aquela combinação de coragem e vulnerabilidade era a coisa mais perigosa que eu já tinha visto.

- Atrevida - murmurei, apenas para ela ouvir.

Apertei a mandíbula para não deixar transparecer que o meu coração tinha decidido acelerar. Dei-lhe as costas, sentindo o peso do olhar dela nas minhas costas, o que só serviu para me deixar ainda mais tenso. Eu precisava de manter a distância. Se eu me aproximasse demais daquele fogo, acabaria por me queimar e eu tinha um caso para resolver.

- Entra na minha sala. Agora. - Ordenei, sem olhar para trás.

Eu sabia que, assim que aquela porta se fechasse atrás dela, o interrogatório não seria apenas sobre o desaparecimento de Zaya. Seria sobre o quanto eu conseguiria resistir antes de perder o controlo que tanto me esforçava por manter.

Capítulo 3 O peso da ausência

Isabel Silva

Vinte e quatro horas. Para o mundo, era apenas um dia; para nós, era uma eternidade de agonia.

Eu estava na delegacia, sentindo meu sangue ferver. Aquele delegado, o Diogo, nos olhava com uma calma que me dava vontade de virar a mesa. Mário tentava explicar, com a voz embargada, que Zaya não era mulher de sumir sem dar notícia, mas o homem parecia blindado.

- Esperar? O que o senhor quer esperar? Que a minha irmã morra? - Bati na mesa com força, as mãos tremendo de ódio.

Eu não sou de levar desaforo, e ver o descaso naqueles olhos escuros do delegado me cegava. Marcos, tentando manter o que restava de juízo, me segurou. Ele estava calmo, mas era a calma de quem está segurando um terremoto no peito. Saímos de lá com o "amanhã" servido como uma afronta.

- Você está calmo demais, Marcos - disparei quando entramos no carro, a dúvida corrosiva me atingindo por um segundo.

- Tu não matou minha irmã com teus ciúmes da peste, não é?

Marcos me olhou dentro do meu olho, e o silêncio dele doeu mais que um grito. - Claro que não, Bell. Que conversa é essa? - A voz dele era um sussurro de dor.

Me arrependi no mesmo instante. Eu sabia quem era Marcos. Ele era o porto de Zaya, o homem que ela amava com uma intensidade que eu via em poucos. Se ele estava de pé, era pelos meninos. Se ele estava calmo, era para não nos ver desmoronar.

A noite em casa foi um inferno de silêncios e choros abafados. Dalton na porta, os meninos agoniados, e Grego e Paçoca chegando para dar o suporte que a polícia se recusava a dar. Marcos assumiu o comando, mesmo com os olhos fundos. Ele falou em sequestro, pediu para conferir as contas. Cinco milhões. Um valor que me fez perder o chão por um segundo, porra minha irmã tinha tudo isso só numa conta? Nem sabia que comida dava tudo isso, meus olhos se esbulhagou quando ouvi.

- Bell, você é amiga da síndica, vê se traz as filmagens - ele pediu.

Fiz o que precisava ser feito. Rodei a cidade com ele e Grego, refazendo rotas, olhando cada beco, cada esquina escura. Nada. O carro de Zaya parecia ter evaporado. Quando as filmagens chegaram, meu coração apertou: lá estava ela, linda, com a blusa de renda rosa que o Marcos tinha dado, saindo de casa falando ao celular. Bem. Saudável. Sem saber que o mundo ia acabar minutos depois.

De madrugada, o cansaço venceu o corpo, mas não a mente. Vi Marcos chorar escondido no quarto, sentindo o cheiro das roupas dela. Me aproximei e apoiei a cabeça no ombro dele. - Desculpa por mais cedo, cunho. Eu sei que ela é sua vida.

- Ela é tudo o que eu tenho de melhor, Bell - ele confessou, a voz quebrada, braços caindo no corpo, ele estava cedendo ao desespero que não queria.

No dia seguinte, a cena na delegacia se repetiu, mas dessa vez eu fui com o cão no couro. O delegado não tinha chegado e eu quase derrubei o balcão. - Eu quero ele aqui agora! Minha irmã tá sumida e eu pago o salário de vocês!

Quando Diogo saltou da viatura, o ar entre nós estalou de novo. Ele me olhou como se eu fosse um problema a ser resolvido, e eu o encarei como o ignorante que ele era. Ele começou o interrogatório, e a cada pergunta, parecia que ele tentava encurralar o Marcos. Aquilo me dava asco. Como ele podia olhar para um homem naquele estado e ver um culpado?

- Você é um bruto, delegado - pensei, enquanto ele anotava endereços e mandava revistar tudo.

A polícia invadiu nossa privacidade, revirou gavetas, cheirou as roupas de Zaya como se fôssemos criminosos. Marcos se tornou o suspeito principal. Uma injustiça que fazia meu estômago revirar. Levei os meninos para minha casa, tentando protegê-los daquela invasão, enquanto Marcos, Vitória, a ex dele que apareceu para ajudar com Arthur, e todos nós tentávamos respirar.

Até que o telefone tocou. Era Paçoca. - Marcos, chega na doze. Os maloca encontrou o carro... mas não se anima, coroa. Tá queimado. - Ele já tava tão surtado que atendeu no viva-voz.

O chão sumiu. Olhei para Marcos e vi o momento exato em que a esperança dele se transformou em puro pavor. O carro estava queimado. E se o carro estava assim... onde estava a minha irmã?

A notícia do carro queimado tinha sido um soco no meu estômago, mas o que veio depois foi pior. Diogo me puxou para a sala de tv, embora mais reservada, longe de Marcos e dos outros que como ainda estavam em choque. Ele fechou a porta com força e se virou para mim, a expressão mais dura do que nunca.

- Quem é Paçoca, Isabel? E esse tal de Grego é o chefe da treze não é? - Ele cuspiu os nomes como se fossem veneno, encurtando a distância entre nós. - Você conhece esses caras? Qual é o seu nível de envolvimento com a malandragem da área?

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, ah se ele soubesse que eu não apenas conheço, mas como sou a namorada de Grego, sim, o chefe da treze, mas neste momento, eu só conseguia pensar que minha irmã poderia estar dentro de um carro carbonizado e ele estava preocupado com os meus contatos?

- Você está de brincadeira com a minha cara, não está? - Dei um passo à frente, batendo com a mão no peito dele. O músculo sob a camisa era como pedra. - Minha irmã está desaparecida! O carro dela foi encontrado queimado, Diogo! E você quer saber quem são meus amigos? Vá para o inferno!

- Eu quero saber quem você é, Isabel! Traficante também? Marmita de bandido também? - Ele segurou meus pulsos, as mãos grandes me prendendo com uma força que não machucava, mas dominava. - Se você está andando com gente que incendeia carros, você é cúmplice! Uma bandida também.

- Cúmplice de quê, seu bruto? Eles são os únicos que estão ajudando enquanto você fica aqui sentado, com essa cara de ignorante, brincando de ser Deus! - Eu gritava, as lágrimas de ódio começando a descer. - Você não tem coração? Não vê que a minha família está morrendo por dentro?

- Eu vejo uma mulher que me desafia a cada segundo e que esconde segredos atrás dessa marra toda! - Ele rugiu, puxando-me para mais perto, até que nossos corpos se chocassem.

O impacto me fez perder o ar. A raiva era imensa, mas o calor que emanou dele naquele momento foi mais forte. Eu estava colada ao peito dele, sentindo a respiração pesada de Diogo contra o meu rosto. O cheiro de café, suor e aquele perfume viril me entonteceu. Meus olhos caíram para a boca dele, lábios firmes, perigosos. Ar viril de macheza bruta.

Eu queria dar um tapa na cara dele e sair arranhando em seguida, sempre fui boa de briga, me senti desafiada.

Eu queria esmurrá-lo por ser tão insensível. Mas, ao mesmo tempo, o desejo me traiu de uma forma violenta. Naquela proximidade, com a adrenalina no topo, tudo o que eu queria era que ele calasse a minha boca com um beijo. Que ele usasse toda aquela força bruta para me tirar daquela realidade de dor, nem que fosse por um segundo.

Eu o desafiei com o olhar, a respiração curta, os lábios entreabertos. - Então me prenda, delegado - sussurrei, a voz trêmula de luxúria e fúria. - Me prenda, me revista, faça o que quiser... mas pare de perder tempo e encontre a Zaya.

O olhar de Diogo escureceu. Ele desceu os olhos para a minha boca e eu vi o controle dele se estilhaçar. A mão que prendia meu pulso subiu para a minha nuca, os dedos se enterrando no meu cabelo, puxando minha cabeça levemente para trás.

O silêncio na sala era ensurdecedor, preenchido apenas pelo som das nossas respirações descompassadas. Eu estava entregue, desejando aquele toque como nunca desejei nada na vida. Se ele me beijasse agora, eu não saberia se o mataria ou se me perderia nele de vez.

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