Desci o morro, com o sol quente de agosto queimando minha cabeça. Tem dias que desço esse mesmo horário ainda, não sei o motivo.
– Oi Julinha, vai ver os cria? Olhei para a senhora sentada na calçada, sempre tem alguém que me conhece pra perguntar onde tô indo. No morro todo mundo conhece a irmã caçula do traficante.
Balancei a cabeça em afirmação e continuei andando, sem dar importância. Todo dia o mesmo
Parei perto dos moleques, que analisavam cada pessoa que entrava e saia do morro, cheguei perto de um deles e falei.
- meu irmão já desceu? ele balançou a cabeça negando, respirei aliviada, não ia precisar encontrar ele, pelo menos não agora, já tinha coisa de mais para me preocupar. Olhei para trás e lá estava
ele, descendo com sua mochila nas costas. Parecia um ser acima de todos que viviam aqui, ele me olhou com ternura sorri discretamente a dias fazíamos o mesmo.
- onde esse garoto vai todo dia? Perguntei para o mesmo moleque, que agora limpava sua arma
com a camiseta que minutos atrás estava em seu ombro.
- Ele vai para faculdade, minha avó disse que ele estuda direito na federal. Vive me falando como ele é obediente e temente a Deus. Queria que eu fosse igual ele. Gargalhei.
- Impossível, ele deu de ombros e volto para o que estava fazendo. Corri até ele, sem saber o que dizer, mas sei lá, eu poderia falar qualquer coisa. - Lucas? Ele olhou para mim. - É Lucas né?
- Sim, e você é a Julinha? Aném até ele. Afirmei. - Tudo bem?
- Tudo! Você vai para faculdade? Que pergunta patética. Ele sorriu.
- Vou, faço direito na federal. E você?
- To no último ano do ensino médio. Termino agora em dezembro. Por que nunca te vejo nos bailes?
- Eu não vou nos bailes. Sou da igreja, se quiser ir um dia está convidada.
- JULIA? QUE MERDA JULIA, ONDE TU SE ENFIOU? Merda, meu irmão
- Desculpa tenho que ir.
Fui andando devagar até meu irmão, enquanto Lucas seguia me olhando de longe,
respirei fundo esperando o sermão que viria
- CÊ TÁ ME TIRANDO, JULIA. PORRA. Ele segurou meu braço com força saiu me arrastando pra casa
- Para Igor, ta doendo tá louco. Eu não fiz nada.
- CALA A BOCA E ENTRA. Ele me jogou no portão senti uma pancada forte na cabeça, mas continuei olhando para ele parada no mesmo lugar. - ENTRA, TA SURDA? Ele me empurrou de novo, e entrei
esse cara é louco.
- Eu não fiz nada, Igor. Parei perto da porta olhando para ele, Igor estava vermelho de raiva se ele viesse me bater eu poderia sair correndo para a rua. - É serio, não fiz nada.
- Julia, tu acha de verdade que eu gosto de brigar com você. Permaneci calada. - RESPONDE.
Odeio quando Igor grita.
- Acho. Falei fechando os olhos, é agora. Esperei o tapa, mas ele não chegou, meu irmão apontou para o sofá, sentei.
- Eu pago a maior grana naquela escola boa, pra você ter um futuro melhor que o meu
e você faz isso Julia. Faltou três dias de aula, me chamaram pra ir lá. Tu sabe o risco que eu corro indo pro asfalto, tu não é mais criança, Julia
- Desculpa, irmão. Eu só queria me divertir um pouco, não sabia que ia da tanto b.o.
- Tu tem que saber se divertir na hora certa, agora tua maior preocupação é se formar pra sair desse morro, e ai você vai poder se divertir o tanto que quiser. Balancei a cabeça.
- Você sabe que não quero sair daqui, não quero te deixar. Igor sorriu, vindo até mim. Ele ajoelhou na minha frente.
Desde que minha mãe morreu ele cuida de mim, não somos irmãos da mesma mãe, o pai dele traiu a sua mãe com a minha.
Mas Igor nunca me culpou por isso. Ao contrário, quando minha mãe morreu ele me trouxe pra cá e cuidou de mim.
- Por que cê, tava falando com o filho do pastor? Dei de ombros. - Responde Julia.
- Nada, eu só queria saber onde ele estuda, só isso.
- Não quero te ve dando o papo para ninguém aqui do morro não ta. Afirmei saindo da sala, subi as escadas.
Respirei fundo ao entrar no quarto. Que horas ele chega da faculdade. Olhei a tela do meu celular, provavelmente só a noite. Peguei minha mochila jogada no canto. Melhor eu estudar para recuperar os dias perdidos, antes que Igor fique com mais raiva de mim, me sentei na mesinha com os cadernos olhando para o celular a cada minuto. Quando já não aguentava mais mandei uma mensagem para um, cria que ficava la na entrada.
" Me avisa quando Lucas subir."
Larguei o celular e voltei a atenção para meu caderno. Depois de 30 minutos chegou a resposta que eu queria.
"Ele já subiu, ta na igreja"
Peguei a chave da minha moto e saí, levei um susto quando encontrei Igor na sala.
- Aonde tu vai?
- Na farmácia. Olhei para os lados. - Vou à farmácia. Ele ficou desconfiado, mas não falou nada, aproveitei para sair correndo. Peguei a minha moto e fui até a igreja, assim que parei na porta vi ele, encostado na parede, como se tivesse me esperando. Sorri para ele. - Quer dá uma volta. Ele negou com a cabeça. - vamos.
- Desculpa, Julinha, mas eu não quero problema com seu irmão.
- Ele acha que eu tô na farmácia vamos. Te protejo. Lucas gargalhou. - Vai negar o meu convite assim?
- Você sabe mesmo dirigir essa moto? Afirmei com a cabeça. Ele olhou para os lados como se procurasse algo, ou alguém e subiu na garupa da minha moto. Sai arrancando até a parte mais alta do morro. Bem onde dava pra vê perfeitamente as costas do Cristo redentor. Nós descemos da moto e sentamos na grama, que estava seca devido ao clima.
- Oi eu sou a Julia. Olhei para ele estendendo a minha mão, ele pegou no que ele segurou, eu o puxei e dei um beijo em seus lábios.
- Julia? Ele se afastou assustado. - O que você ta fazendo? Sorri, enquanto Lucas me olhava sério.
- Me apresentando. Ele abaixou a cabeça aparentemente irritado. - Desculpa foi uma brincadeira.
- Julia, nós vivemos em mundos diferentes, acho que você não tem noção disso. Ele se levantou. - Me desculpa, mas eu não quero problemas.
- Lucas, que isso, cara? Você nunca deu um selinho não?
- Não! Ele não estava brincando, fiquei parada imóvel, vendo-o se afastar de mim, me sentindo idiota. Mal consegui me aproximar e já fiz ele ir embora.
- LUCAS. Gritei, mas ele olhou não olhou para trás. - LUCAS? Ele parou. Corri até ele. - Me perdoa, eu só achei que você também quisesse. Ele mordeu o lábio, de perto assim sinto ainda mais vontade de beijar ele, mas agora não.
- Eu sou cristão, estou esperando a pessoa certa em Deus. Olhei para ele com ternura, seu rosto coberto de pintinhas negras estava avermelhado, e o vento bagunçava seus cabelos negros. Segurei a mão dele
- Eu respeito isso. Podemos ser amigos então? Ele assentiu, me dando um abraço.
- Você é maluca! Sorri, levei ele de volta para a igreja e fui para minha casa. Como eu queria um beijo dele de verdade, mas desistir não está no meu sangue, afinal desde pequena aprendi a arte de insistir quando quero algo.
Lucas
Entrei em casa ainda sentindo meu rosto quente, e vermelho. Que menina louca, meu primeiro "beijo" não foi nem de longe como eu imaginei.
- Onde cê tava Lucas? Minha mãe estava parada na porta me olhando atentamente.
- É... Eu fui à farmácia. Gaguejei, lembrei de Julia, de novo.
- Na garupa da moto da Julinha? Essa mulher sabe de tudo como pode?
- Ela me pediu ajuda, na farmácia. Minha mãe me olhou desconfiada, abaixei a cabeça.
- A Julinha não é companhia para você, Lucas. Esse mundo que ela vive não é o teu.
- Mas a Bíblia fala para não virar as costas para nossos irmãos.
- Meu filho, é mais fácil ela te levar pro mundo dela do que ela vir para o seu. Olhei para minha mãe. - Se afasta dela, é um conselho que te dou. Permaneci calado, não sei se consegue ria me afastar agora de Julia.
Entrei no quarto, e deitei na cama. Meu celular tocou.
- Alô.
- Consegui seu número por aí. Sorri, era ela.
- Fala...
- Quer sair hoje a noite? Vamos em um restaurante.
- Não posso. Hoje tenho culto. Quer ir?
- Sim! Que horas?
- A.. As 19.
Gaguejei, ela vai mesmo? Me despedi e desliguei o telefone sem acreditar.
Terminei às 18 horas, passei mais um pouco de perfume, peguei meu celular, a Bíblia e fui caminhando para a igreja. Meu pai me pede para chegar cedo e esperar os irmãos, ele diz que assim vou aprender mais para me tornar um bom pastor no futuro, como ele mesmo diz: depois que eu me casar...
Será se Julia realmente vai? Parei na porta da igreja de cabeça baixa.
- E aí, cara? Levantei a cabeça.
- Oi, Igor tudo bem?
- Te vi hoje subir o morro com a minha irmã. Ele levantou a camisa me mostrando a ponta do 38 que estava em sua cintura.
- Você me conhece bem. Eu sou a última pessoa que colocaria um dedo nela. Ele balançou a cabeça afirmando e saiu andando devagar, passei as duas mãos na cabeça. Olhei para cima e vi Julia descendo a rua. Ela estava linda usando um vestido rosa de mangas longas que chegava perto dos seus joelhos. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque com alguns fios soltos. Meu coração acelerou quando a-vi chegando mais perto, ela realmente veio. Até me esqueci que Igor acabava de me ameaçar por esta perto dela. - Oi, Julinha. Falei sorrindo. - Você veio! Ela assentiu, me dando um beijo no rosto.
- Falei que viria. Olhei meu relógio já era (19:10). Conduzi-a para dentro da igreja, e nós sentamos em um dos últimos bancos. Coloquei ela mais afastada por medo dela se senti desconfortável com os olhares de julgamento, mas Julia parecia não se incomodar.
- Tô forçando a barra? Ela me olhou por um segundo e voltou a atenção para o púlpito.
- Não, eu gosto de esta com você. Apertei levemente a mão dela e soltei. Julia permaneceu em silêncio, mas vi que um sorriso se formou em seu lábio. No momento em que o coral começou a cantar vi Julia ficar atenta.
Eu vi que aquele louvor tocou ao coração de Julia, e me emocionei com ela.
Quando o culto acabou, Julia se despediu de mim com um abraço e foi embora, caminhando. Ela não tentou me beijar de novo, não me convidou para sair. Só me deu um abraço e falou:
- Obrigada por me convidar. Fiquei confuso, voltei para casa a todo momento verificando seu havia alguma mensagem, ou ligações. Tentei retornar para ela, mas a sua ligação foi de um número privado.
- Por favor me liga. Falei olhando para a tela do celular.
Já era quase 1:00 hora da manhã quando desisti de esperar... Quando me deitei na cama, e em poucos minutos eu já está a um sono profundo, sonhei com Julia chegando na igreja. Que cena perfeita...
Muito longe ouvia o toque do meu despertador, abri os olhos e peguei celular, desativei o alarme, mas ainda não tinha nenhuma mensagem de Julia, provavelmente ela desistiu de mim, é... eu deveria ter dado ouvidos a minha mãe. Que por acaso está parada na porta me olhando, ela vai brigar!
- Bom dia, mamãe. Me levantei, fui até ela, dei um beijo em sua bochecha e me afastei esperando o que estava por vir.
- Bom dia, filho. Fiquei sabendo que você levou a Julinha ontem na igreja, você sabe o que está fazendo, Lucas? Na realidade não, mas o que posso dizer? Julia é especial para mim, e não poderia deixar de convidá-la para a igreja. Acho que ele nunca foi em um culto, Jesus jamais perderia a oportunidade de levar sua palavra para uma alma. Minha mãe aguardava uma resposta.
- É só amizade mãe, eu só quero que ela conheça a palavra. Ela balançou a cabeça e saiu. Lembro bem de ter dito a Julinha que eu não queria problemas, e agora tenho dois: o irmão dela, e minha mãe. Melhor eu ir para a faculdade...
- Lucas? Ouvi a voz dela, enquanto descia o morro para pegar a condução, a voz dela estava tão suave aos meus ouvidos aquele momento, que até fui capaz de fingir que não ouvi só para ela falar mais nome mais uma vez com aquele lindo sotaque. - Lucas? Me virei sorrindo, possivelmente com a maior cara de bobo do mundo.
- Bom dia, Julinha. Ela sorriu, com seus lindos olhos brilhando. Julia estava dentro do carro do irmão dela, provavelmente indo para a escola. Aqui no morro todo mundo sabe da vida um do outro e todos dizem que o que Igor mais quer é que ela se forme para sair daqui. Já ouvi dizer que ele é super protetor com ela porque já juraram Julinha de morte, não por ela fazer algo, mas por saberem que ela é o único ponto fraco dele.
Julia
- Quer carona? Ele balançou a cabeça afirmando. Pela primeira vez não preciso insistir. Abri a porta do carro e Lucas entrou. - UFRJ né? Falei enquanto colocava no GPS do celular. Puts, 40 minutos acho que vou desistir dessa carona.
- É longe. Ele sorriu. Coloquei a mão na perna dele e vi todo o seu corpo ficar tenso. Tirei imediatamente. - Gostou do culto?
- Sim, foi ótimo, quero ir mais vezes. Lucas olhou para mim. - Quer sair hoje? Arrisquei.
- Aonde vamos? Uau, mais uma vez não precisei insistir. Ainda quero um beijo dele, um não vários, mas depois de ontem como posso pedir isso a ele? Seria de extrema falta de compreensão da minha parte. A.. Horrível não poder ter ele a todo momento, mesmo estando aqui tão perto. - Podemos ir ao restaurante que você falou ontem? Voltei ao presente.
- Sim. Vamos jantar! Que horas te busco? O celular dele tocou, ele me pediu um minuto e atendeu, fiquei em silêncio.
"Oi, Beatriz. Não, vou chegar um pouco mais cedo hoje. Sim... estou levando, ok. Tchau!"
Beatriz? Não vou perguntar, fiquei calada. O clima ficou pesado, estranho. Não estou com ciúmes, só foi estranho.
- Posso te levar? Ele falou, respirei fundo, acho que nem quero mais ir.
- Vamos adiar. Lucas me olhou sem entender, mas não questionou, talvez por perceber que fiquei cismada, ou talvez apenas por não fazer questão. Pisei acelerador, para acabar logo com o clima tenso entre nós, meu carro ficou do tamanho de uma lata de sardinha.
- Obrigada pela carona. Lucas tirou o cinto, se aproximou de mim, ele encostou seus lábios em meu rosto e eu fechei meus olhos, por um segundo achei que ele ia me beijar. - Julia... sua voz macia fez meu corpo arrepiar, seus lábios continuavam encostados em meu rosto, coloquei as mãos em seu cabelo, enrolando-os em meus dedos. Segurei seu rosto com às duas mãos, e encostei meus lábios nos dele. Lucas segurou em meu pescoço, deu continuidade ao beijo, que beijo esperado. Os lábios dele estavam quentes, macios e pareciam ansiar por esse beijo tanto quanto os meus.
- Desculpa. Fechei meus olhos encostando minha testa na dele, seria errado pedir a ele mais um beijo agora? Lucas colocou uma mecha de meu cabelo para detrás da orelha, e encostou seus lábios mais uma vez nos meus, ele pareceu ler o meu pensamento. Até me arrisco a dizer que estou me apaixonando, será?
- Posso te pegar para a gente ir jantar? Sorri, vai ser difícil me afastar dele agora. - As 19?
- Estarei te esperando. Lucas piscou para mim e saiu do carro. Vou passar o dia agora pensando nesse beijo, Igor não pode sonhar que isso está acontecendo, não gosto nem de imaginar o que ele poderia fazer.
Cheguei no colégio, cedo me sentei na escada da entrada, esperando chegar a hora. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Lucas.
"Te encontro na saída?"
Isso é muito coisa de adolescente, guardei celular e fui para a minha sala, primeira aula português, uma das minhas matérias preferidas. Atentei-me ao conteúdo e deixei de lado as banalidades do dia, se eu não recuperasse o que perdi nos últimos três dias Igor iria pegar muito no meu pé, e talvez até dá, um jeito de não me deixar sair de casa, e agora eu não posso me dá esse luxo. O meu período de aulas já estava chegando ao fim quando peguei meu celular para vê se havia alguma mensagem de Lucas, mas, na verdade, o que me chamou atenção foram as várias ligações perdidas de Igor. Atendi:
" - Julinha? pá pá pá... Julinha, tá me ouvindo?"
Meu coração acelerou.
"- Sim, pode falar."
"- pá pá pá... Não vem para cá, fica na escola, ou vai para casa de alguma amiga, que seja seguro. Não vem... pá pá pá "
Igor desligou, minhas mãos estavam tremendo, e meu coração acelerado, olhei para o céu e pedi a Deus para não acontecer nada com o meu irmão. Disquei o número de Lucas na tela do celular após alguns toques ele atendeu falei:
"- Lu...Lucas? Onde você está?"
Lágrimas estava presa em meus olhos e minha voz estava embargada pelo choro preso em minha garganta.
"- Saindo da faculdade, Julinha. O que houve?"
"- Me espera ai."
"- Ok."
Desliguei o telefone e dirigi até a faculdade de Lucas, ele me esperava no mesmo lugar que o-deixei de manhã, em poucos segundos ele já estava sentado no banco do carona. Ao perceber que eu estava tremendo ele rapidamente me abraçou.
- Minha mãe me ligou, falando para não voltar agora. As lágrimas começaram a descer sem que eu pudesse as segurar, Lucas me abraçou com mais força. - Não vai acontecer nada com o Igor, não é a polícia que está lá, é outra facção.
- Isso não reduz o meu medo. Me soltei do abraço dele limpando meu rosto. - Igor, não me disse o que estava acontecendo, só que não era para voltar.
- Minha mãe disse que alguns criminosos entraram lá para roubar armas. E aí virou isso, tô preocupado também, mas ela me falou que todos estão seguros em casa, só é perigoso sair ou entrar agora. Assenti olhando mais uma vez meu celular. - Vamos para algum lugar! Quer que eu dirija? Assenti, Lucas apertou minha mão enquanto me olhava com ternura, trocamos de lugar e ele saiu dirigindo sem rumo. Após alguns minutos ele parou em frente a praia do arpoador. - Tudo bem ficarmos aqui um pouco? Olhei ao redor, mesmo sendo uma quarta-feira a tarde haviam várias pessoas na praia, talvez aproveitando o clima quente de agosto, no rio 30 graus dava uma sensação térmica de 40, agradeci mentalmente por meu carro ter ar condicionado
- Sim, vamos esperar aqui por mais notícias. Coloquei minha cabeça no ombro de Lucas fechado meus olhos, ele segurou minha mão - São apenas vocês dois né? Balancei a cabeça em afirmação. - Julinha, você está com fome?
- Não. Sorri fraco para ele, a única coisa que eu queria agora é me deitar em uma cama com a certeza de que tudo esta bem.
- Estou cansada, quero deitar, dormir um pouco.
- Não podemos voltar ainda. Ele acariciou meu rosto, pegou minha mão e depositou um beijo, entrelaçou seus dedos nos meus,
enquanto encostava sua cabeça no banco, ele fechou os olhos. - Sonho com o dia que isso vai acabar, essa criminalidade, as mortes tudo.
- Quando meu pai morreu ele pediu para Igor deixar essa vida, mas ele já achava que não tinha mais escolha, por isso essa vontade tão grande que eu estude para sair de lá. Ele tem medo que eu acabe entrando nessa vida também. Sequei uma
lágrima que estava descendo pela minha bochecha, Lucas me olhava com carinho.
- E você o que quer? Sorri, fechando meus olhos também.
- Quero que isso tudo acabe bem, quero ajudar as crianças do morro a verem que elas têm mais opções que o crime.
E quero ajudar meu irmão a sair dessa vida. Nós só temos um ao outro... Meu celular começou a tocar.
" - Oi, Julia."
"- Igor? Como você está? Posso voltar? "
"- Tá tudo tranquilo já, pegamo uns vacilão aqui. Mas tu não é pra voltar não. Vai pra o Hotel, passa a noite.
Ainda tá perigoso pra entrar sair."
respirei fundo olhando para Lucas que esperava eu finalizar a ligação aparentemente ansiosa, deve querer voltar para casa nesse Momento tanto quanto eu.
"- Quero ir pra casa, Igor."
"- Me ouve Julia.
"- Tudo bem, mas só até amanhã de manhã, e por favor, me manda notícias.
Desliguei o telefone.
- Eu ainda não posso voltar, mas Igor disse que já está tudo bem lá. Vou te deixar mais perto.
- Não, ei, para onde você vai? Olhei ao redor.
- Em algum hotel por aqui. Onde você quer ficar?
- Com você! Hoje você não vai ficar sozinha. Vamos achar o hotel, e jantamos lá dentro para você não correr riscos. Balancei a cabeça, Lucas se aproximou de mim encostando nossos lábios em um selinho. - Não quero me despedir agora. Ele sorriu me dando vários beijos na boca.
- Eu quero você! Falei sussurrando, vendo-o sorrir.