Sai do quarto apressada, peguei minha bolsa e dentro dela estava o meu romance favorito.
Era manhã de uma segunda-feira e eu tinha que ir trabalhar. Acordei bastante cedo, porque não estava disposta a ouvir o meu chefe reclamar que cheguei atrasada novamente.
Não queria dirigir. Então tudo que fiz foi pegar o ônibus, colocar meu fone de ouvidos, ouvir músicas que me acalmavam... e comecei a ler.
Estranhamente, naquela manhã eu estava calma. E eu estava acreditando que tudo seguiria assim.
Afinal: alguma coisa acontecia dentro de minha velha e entediante rotina constante?
O ônibus parou em um ponto antes da empresa que eu trabalhava, e eu segui em passos rápidos até lá.
Quando as portas do elevador se abriram, eu olhei o espaçoso coração da empresa. As paredes eram de um marrom-madeira, três mesas presentes para mim e outras duas para minhas colegas de trabalho.
Nenhuma havia chegado ainda. E eu agradeci.
Não era que eu fosse solitária, nem mal-humorada. Eu só não gostava de conversar tanto com pessoas diferentes de mim. Se bem que todos eram diferentes de mim...
Eu era uma mulher de vinte e dois anos, no entanto, eu não vivia como uma. Paloma, minha amiga, insistia em me lembrar disso.
Mas ela não poderia me culpar. Eu gostava da calmaria, gostava da paz e do meu cotidiano. Por que atrapalharia isso?
Eu já chorei demais um dia. Já tive sonhos demais um dia. E esses "demais" já alcançaram sua meta.
Eu estava perdida em pensamentos e nem notei quando Letícia e Josi se acomodaram em suas mesas ao meu lado. Josi sorriu de leve para mim. Letícia, não. Ela nunca foi com minha cara e, bem, eu nunca me incomodei com isso.
Dei uma pausa ao que estava olhando em frente ao computador e segui até o escritório do meu chefe pra lhe entregar os relatórios pendentes que eu fiquei de terminar em casa.
- Licença - eu falei ao entrar na sua sala cheia de pilhas de papéis no meu braço.
- Precisa de ajuda? - a voz dele estava animada.
O ignorei.
- Vim entregar os relatórios que ontem o senhor me pediu. - Levei até sua mesa.
- Obrigado, Melissa. - Ele lançou o olhar verde para as folhas em sua frente.
- De nada. Licença, seu Marcelo.
Eu já estava de retirada quando sua voz me chamou de volta.
- O horário hoje será um pouco mais curto. Vou precisar usar a empresa para fazer um trabalho, então não precisaremos de alguns funcionários.
Não pude evitar o arquear de sobrancelha e a excitação em minha voz ao saber que eu poderia voltar pra casa e dormir.
- Depois do horário do almoço? - perguntei.
- Sim. - Ele levou a mão até o castanho claro dos cabelos. - Pode avisar suas colegas de trabalho.
Assenti.
- Precisa de mais alguma coisa?
- Não. Obrigado. - Ele cruzou as mãos sobre a mesa. - Às doze, poderá seguir.
- Ok. – Saí da sua sala e contei cada instante até sair daquela empresa.
***
Cheguei no meu apartamento às doze e meia da tarde. Joguei minha bolsa sobre o sofá e, enquanto o meu congelado estava no microondas, eu fui procurar alguma coisa pra vestir na bagunça do meu quarto.
Eu voltara pra sala quando notei o vibrar de meu celular em cima da bancada da cozinha.
Era Paloma.
- Melissa? - A voz de minha amiga estava animada.
- Que foi? - sentei-me em frente à mesa e comecei a comer.
- Acabei de ver seu chefe passar e pensei que você teria saído cedo.
- Tô em casa. Por quê? - não deixei de transparecer a desconfiança em minha voz. Quando se tem uma amiga como a Paloma, você tem que esperar de tudo.
- Eu e o Matheus estávamos pensando em ir à praia, e como você está livre, quero que vá conosco. - Em nenhum momento foi uma pergunta.
- Que horas? - soltei um longo suspiro.
- Hoje às três e olha... - ela fez uma pausa. - Chamei o Gustavo pra ir com a gente.
O tom de sua voz me fez semicerrar os olhos, mesmo que ela não pudesse ver.
Eu sabia que tudo isso não passava de mais um arranjo pra ela tentar me tirar do meu "passado obscuro depressivo" - como ela julgara. Mas ela sabia que isso nunca daria certo. Já se passaram quase cinco anos desde que ninguém atravessava as barreiras do meu coração. Por que seria logo agora, naquela tediosa segunda-feira que cada passo meu se dava como um robô, que isso iria acontecer?
- Quem é Gustavo? - minha voz estava severa ao perguntar estridentes.
Paloma não percebeu nada - ou não me deu bola. Simplesmente, com a animação que ela tinha, começou a falar:
- Um amigo nosso. Ele é muito bonito, Melissa, e muito gente boa. Se você gostar dele até...
- Sério, Paloma? - interrompi. - Já falei que não quero conhecer ninguém, e estou muito bem sozinha. - Repeti meu mantra de sempre.
Não conhecer ninguém.
Bem sozinha.
Sem ninguém...
Sem lágrimas e decepções.
Tudo estava dando certo.
- Não tá não. - a voz de minha amiga ecoou sobre meus pensamentos. - Você tem que conhecer alguém, Melissa. Alguém de verdade. Não só esse dos livros. Ser feliz e esquecer o seu maldito passado obscuro depressivo.
Soltei um longo suspiro e consegui sorrir de leve. Não valeria a pena levar aquela discussão adiante. Não valeria a pena falar aquilo com a Paloma. Ela sempre sairia com razão - ao menos era isso em que ela acreditava.
- Tá bom, Paloma. - Me rendi. - Eu vou. Até mais.
Quando meu despertador tocou às duas horas, eu pensei seriamente em não ir.
Não queria ter que conhecer mais ninguém.
Não quero ouvir um "e aí, gata, vai rolar?"
Quase vomitei com meu próprio pensamento.
Eu havia acabado de sair do banho e já estava quase pronta ao me olhar no espelho. Vestia um short jeans e uma blusa branca um pouco folgada por cima do biquíni preto. Ao observar minha imagem no espelho, os grandes olhos azuis em contraste com a pele pálida me fizeram relembrar que, de fato, eu precisaria pegar uma cor.
Fui até minha cômoda, peguei minha maquiagem. Passei base que também servia como protetor solar, rímel e um batom rosa claro. Fiz um rabo de cavalo no cabelo dessa vez e segui até a casa de Paloma.
A tarde estava muito bonita. Andei três quadras até chegar na casa da minha amiga.
Toquei a campainha. E não foi ela, nem o Matheus quem atendeu.
Foi um cara alto. Cabelos castanhos claros, olhos verdes... e muito bonito.
Pensei que poderia ser o tal Gustavo que minha amiga falou, e eu esperei o momento que ele me chamaria de "gata".
Mas, ao contrário disso, ele permaneceu olhando pra mim, com a testa franzida e os lábios entreabertos - como se me conhecesse de algum lugar.
De forma confusa, eu também lhe observei. Eu queria guardar sua imagem pra encher de defeitos, caso meu coração me traísse do jeito que ele batia fortemente agora.
Mas eu não encontrei nenhum defeito.
Droga. Isso sempre funcionava.
- Oi - ele finalmente falou.
Meus lábios se abriram de leve ao ouvir sua voz. Era um sussurrar suave. Um sussurrar que fez os pelos do meu corpo se arrepiarem.
Ele estava sorrindo. Um sorriso bonito e cheio de dentes.
Não. Não...
- Oi, a Paloma está? - me livrei dos pensamentos e fiz uma força enorme pra que ele não notasse a maneira desconcertante que sua voz e sorriso me abalaram.
Antes que ele respondesse minha pergunta, a minha amiga apareceu e gritou:
- Melissa, entra!
O cara que estava entre a porta - que eu ainda não sabia o nome - se afastou, e eu entrei.
Corri e fui abraçar minha amiga. Eu sentia falta dela. Eu trabalhava oito horas por dia, e às vezes quando chegava ainda tinha que preparar os relatórios do dia seguinte, e isso fazia com que raramente a visse.
Ela era a única pessoa próxima de mim. Há de anos atrás e que ainda permanecia. Afinal, amizade era isso: permanecer nos tempos difíceis e de tempestade. Porque digamos que nós atravessamos inúmeros vendavais.
- Olha... - ela começou assim que me soltou. - Esse é o Gustavo. - Ela olhou para o cara que atendeu a porta e voltou a visão para mim.
É. Era ele.
Mas eu não me vi querendo vencer uma luta ao olhar o brilho verde em seus olhos.
Eu me vi sorrindo pra ele.
Eu só me vi focando no agora.
E ele também sorriu para mim.
Paloma deu um sorriso malicioso que eu já sabia o que significava.
Eu ignorei.
- Prazer - ele falou estendendo sua mão até a minha.
Apertei sua mão e, de uma forma estranha, aquele toque me causou arrepios pela coluna. Pareceu enviar choques por todo o meu corpo.
Que sensação estranha.
- Prazer também, Gustavo. - Sorri e soltei sua mão rapidamente, tentando me livrar de tamanhas sensações.
- Cadê o Matheus? - perguntei a Paloma, tentando desviar meus pensamentos.
- A maravilha em pessoa. - Matheus apareceu com seu jeito único e totalmente espontâneo que eu jamais seria.
De repente, um silêncio se instalou. E percebi que Matheus e Paloma estavam inquietos.
Eu e o Gustavo percebemos. Olhamos um para o outro e depois para Matheus e Paloma, que agora estavam lado a lado.
- O que foi? - perguntei, quebrando o silêncio.
- É que... - Paloma começou indecisa e mexeu nas mãos. - Eu e o Matheus já marcamos a data do casamento.
Uma felicidade nova.
Isso. Tudo o que eu precisava.
- Ai, Paloma. - Corri e abracei minha amiga.
Sim, ela estava noiva há dois anos. O caso de amor dela e Matheus era antigo, mas a chama ainda estava presente nos dois.
A esperança em um amor... era o que eu invejava nela.
- Você não imagina o quanto estou feliz por vocês. - Eu disse ao soltá-la.
Percebi que o Gustavo se aproximou do Matheus e, em um aperto de mão e um abraço distante, ele falou:
- Felicidades, seu idiota.
Paloma e Matheus olharam um para o outro e sorriram. Depois de um respirar fundo, ela pegou sua bolsa no sofá.
- Vamos? - disse ela.
E seguimos.
O movimento na praia estava diferente dos outros dias. Não tinha tantas pessoas quanto imaginei. Talvez por ser segunda-feira e todos estarem trabalhando, pensei. De todas as formas, eu nunca curti praia cheia, então meu humor já deu uma levantada.
Nós viemos todos juntos. Eu e Gustavo em silêncio em grande parte do tempo. Porque, de maneira confusa, eu me via tímida perto dele. Eu me via tentando traduzir todo aquele alvoroço em minhas entranhas.
E, óbvio, eu estava me protegendo.
O sol naquela tarde não parecia tão forte. Foi bem mais fácil encontrar um lugar para ficarmos. Matheus foi procurar um guarda-sol, então ficamos só eu, o Gustavo e Paloma.
- Droga! - o xingamento na voz de minha amiga me fez a encarar.
Ela estava com a cabeça cheia de cabelos loiros com formato de anéis nas pontas dentro da sua bolsa.
- Esqueceu alguma coisa. - Apontei.
Era quase sempre assim. Paloma tinha apenas vinte e seis anos e já parecia sofrer de Alzheimer.
- Sim. - Revirou os olhos. - O protetor solar. Você trouxe o seu?
Neguei com a cabeça.
- Minha base já tinha proteção. Foi mal. - dei de ombros.
- Tudo bem. - Ela soltou um longo suspiro.
- E você, Gustavo, trouxe? - Olhei pra ele e percebi que não. - Ah, nada não. - Sorri e ele também sorriu.
Estava gostando dele. Ele era bem diferente dos caras que eu costumava conhecer. Não tinha nenhuma atitude machista à primeira vista, era calado e sorria mais do que fazia careta.
Seríamos bons amigos! Nós só precisávamos conversar...
- Vou comprar o protetor. - Paloma disse por fim. Se levantou da areia e seguiu.
Olhei para a tranquilidade do mar e só então percebi que ficaria a sós com o Gustavo.
Cacete! Era isso que ela queria.
Sorri comigo mesma porque sabia que se olhasse na bolsa da Paloma iria encontrar um protetor solar ali dentro.
Assim que ficamos a sós, a inquietude transpareceu ao meu brincar com as próprias mãos e o Gustavo percebeu. Não sabia ao certo porquê, mas óbvio que era embaraçoso estar ao lado de quem sua amiga armou pra ficarem juntos.
Mas mais estranho ainda era o dejavu que queimava em minha mente.
Olhei pra ele e vi que ele estava sorrindo.
- Qual foi? - perguntei sem tanta educação.
- Não é nada. - Ele disse ainda sorrindo e olhando pra mim. - Não precisa ficar assustada. Eu sou tranquilo. - Deu uma piscadela de olho.
A voz dele era tão suave que me fez arrepiar por inteira outra vez.
E antes que eu falasse qualquer coisa, o Matheus apareceu com o guarda-sol. Graças aos céus, porque eu não sabia o que responder.
- Cadê a Paloma? - perguntou.
- Estou aqui, meu amor. - Minha amiga apareceu e se jogou sobre Matheus. Ela olhou pra mim. - E aí, Melissa, tudo certo? - arqueou sua sobrancelha, com a cara de "quero que me conte tudo" como se qualquer coisa tivesse acontecido em três minutos.
- Claro. Por que não? - a encarei com sarcasmo.
Gustavo, por fim, falou:
- Vamos dar um mergulho.
Só então percebi que ele era bastante tímido, ou ao menos era o que o seu personagem mostrava. Seu sorriso doce estava curto e seus olhos me fitavam de maneira desconcertante. Me forcei a parar de observá-lo.
- Vamos sim. - disse Matheus.
Eu levantei tirando a minha blusa e o short.
- Que corpão, hein? - Paloma deu um assovio.
Eu sorri e fiquei sem graça porque o Gustavo estava olhando pra mim - e com um maravilhoso sorriso assim que me viu de biquíni.
Paloma também tirou seu vestidinho e tinha um corpo que qualquer mulher queria ter. Matheus também tirou a camisa. Assim que Gustavo viu que só faltava ele pra entrarmos, levantou-se e...
Minha boca se abriu involuntariamente.
Ele tinha um corpo perfeito. Pele levemente bronzeada, bíceps largos e bem definidos, abdômen tão bem torneados...
Aí, meu Deus!
Paloma percebeu minha admiração.
- Essa praia promete. - gritou e saiu correndo.
Fizemos o mesmo. Mas antes soltei o cabelo. O vento balançava suavemente meus cabelos negros e eu adorava aquele abraço da maresia.
Mas no momento que cheguei perto da água, vacilei.
Fria, fria, fria, fria!
A água estava muito gelada e havia encostado apenas as pontas dos dedos dos pés e já estava desistindo. Porém, Gustavo já estava dentro e me pediu com a voz doce:
- Entra, Melissa! Logo mais esquenta.
Assenti meio rindo porque aquela última frase fez minha imaginação voar...
Como eu era idiota.
As águas bateram contra meu corpo assim que entrei e senti meus sentidos relaxarem. Que saudades do mar! Ao me aproximar de todos eles, observei Paloma e Matheus em beijos e fortes amassos dentro da água.
- Dá pra parar? - Disse em um tom alto.
Ela e o Matheus riram e afastaram.
- Tá bom. Sabe o que estava pensando? - Paloma começou. - Lembra daquelas brigas de galo que eu, você, Matheus e o Pe... - Ela parou assim que olhei brava pra ela antes que ela terminasse aquela frase e lembrança infeliz.
- Bom, briga de galo? - Matheus falou animado, fugindo do embaraço.
Eu estava pra negar e ser a tal estraga-prazeres e falar que isso não daria certo no mar. Porém, olhei para o Gustavo e vi que ele também estava em total animação e, ao menos uma vez na vida, quis ser gentil.
- Então vamos. – Cedi.
Paloma logo subiu nos ombros de Matheus. É... eu teria também que subir nos ombros de alguém.
Gustavo se aproximou e, ignorando qualquer protesto do meu corpo e mente, também subi em seus ombros. E ele parecia ser bem forte porque não se abalou nem um pouco com meu corpo sobre o dele. Tudo que o Gustavo fez foi encostar sua mão timidamente em mim, segurando minhas coxas.
Senti um arrepio assim que ele me tocou. Ele percebeu e sorriu.
Pronto, era só o que faltava!
- Hoje você perde, Melissa! - Paloma falou.
- Vamos ver. - Falei a desafiando porque eu sempre ganhava nessas lutinhas bobas com minha amiga.
- Mulheres... - Matheus e Gustavo falaram juntos, revirando os olhos como se aquilo fosse uma piada entre eles.
- Que vença a melhor! - Gustavo exclamou.
E como eu pressenti... Paloma já havia caído duas vezes. E na última rodada, ela me fez uma proposta:
- Mel?
- Fala.
- Essa rodada que será a última. Se você cair, eu venço mesmo assim, beleza? Você sempre ganha, poxa.
Eu ri e assenti concordando. Porque dessa vez ela também iria cair, porque eu conseguiria vencer a minha amiga de olhos fechados.
No entanto, em um trágico segundo, eu dei uma rápida olhada para o Gustavo e acabei me desconcentrando.
E foi nesse exato momento que perdi.
Merda!
Antes de me afundar por completa na água, Gustavo foi mais rápido e me puxou pela cintura, me segurando firme contra o seu corpo.
E bem quando eu iria agradecer, estávamos tão próximos um do outro que eu podia até sentir a sua respiração. Seus olhos verdes estavam descortinando os meus e, de uma maneira estranha, eu me perdi naquilo e nos seus lábios rosados a centímetros do meu.
E foi quando escutei um sussurro bem baixinho atrás de nós:
- Vai rolar! Vai rolar! - Paloma e Matheus estavam bastante entusiasmados pra que eu beijasse o Gustavo, ou para alguma coisa que envolvesse algum contato além do que já estávamos tendo.
E isso me irritou.
Ele me soltou, sem entender nada sobre o que minha amiga e o seu noivo estavam falando porque ele parecia totalmente disperso, sem notar o circo ao seu redor.
Mas eu entendia aquilo muito bem.
E bufei.
- Tô com fome e com frio, vou sair. – Avisei, já indo em direção à areia.
- Eu também estou morta de fome. Vamos comer!
Paloma pareceu não entender minha irritação. Ela pensava que tudo estava bem, mas não estava. Dessa vez, por alguma razão, eu me sentia mil vezes mais incomodada com aquela armação. Porque eu nunca havia deixado nada parecido surtir efeito em mim.
Mas daquela vez... algo estava acontecendo.
No entanto, preferi não falar nada para minha amiga e escolhi me calar.
Então saímos. Peguei a toalha e me enxuguei. Dei uma rápida olhada novamente para o Gustavo e vi que ele iria pôr a camisa sem estar totalmente seco - porque, como todo homem, ele não havia trazido nada para a praia.
- Toma, senão vai molhar toda a sua camisa. – Resmunguei estridentes.
- Obrigado, Melissa! - ele sorriu, alheio ao meu humor, e pegou a toalha de minha mão.
E naquele sorriso eu esqueci toda a irritação que me atingiu.
Mas que diabos estava acontecendo?
Ah, como os homens dependiam das mulheres para absolutamente tudo, conclui quando olhei e vi a Paloma entregando uma toalha para o Matheus também - porque óbvio que ele não havia trazido.
Então, pus meu short e minha blusa. Gustavo me entregou a toalha e guardei na minha bolsa.
- Tem uma lanchonete ali, vamos? - Paloma chamou.
Fomos a uma lanchonete perto de uns quiosques que tinham ao nosso redor. Pedimos coxinha. Afinal, coxinha era vida!
E ao final da tarde, quando estávamos indo embora, Paloma e Matheus ficaram em seu apartamento. Eles eram praticamente casados, mas minha amiga - muito romântica que era - queria oficializar, então...
Gustavo me acompanhou até em casa porque ele morava na minha direção. Durante o caminho, ele me falou que morava em uma avenida depois da minha e pediu pra me acompanhar. Apenas aceitei porque sua companhia não era tão ruim assim e eu não podia impedir que ele andasse naquelas ruas.
Nada além disso.
Não porque eu gostei dele. Não porque queria sua companhia. Não porque queria conversar.
Absolutamente nada dessas coisas.
Porque...
Não conhecer ninguém.
Bem sozinha.
Sem ninguém...
Sem lágrimas e decepções.
Tudo estava dando certo.
Me despedi de Gustavo e entrei no meu apartamento.
Joguei a bolsa em cima do sofá e fui correndo pro banho - a água salgada da praia já me incomodava.
Assim que terminei o banho, sequei o cabelo, vesti uma camisola e me deitei.
Sério que ainda era segunda-feira?
Uma semana inteira de trabalho pela frente?
Ah, não...
Fechei os olhos e tentei não pensar em nada. Mas, como sempre, minha mente resolveu me trair.
O rosto do Gustavo apareceu do nada. Aquele sorriso. Aquele olhar verde me encarando como se quisesse ler cada pensamento meu.
Para com isso, Melissa.
Virei de lado e enterrei o rosto no travesseiro.
E com esse pensamento - mais uma vez reclamando da vida - eu peguei no sono.
***
Quando dei por mim, o despertador me acordava no dia seguinte.
E só então percebi que era a soneca.
- Não, não, não! - gritei sozinha dentro do quarto.
Sai da cama correndo. Tomei um banho super-rápido. Vesti uma calça jeans preta e uma blusa social. Passei rímel correndo, escovei os dentes enquanto pegava o celular e corri para o estacionamento.
Peguei meu carro e segui ao trabalho.
Por minha sorte, cheguei alguns minutos antes das oito. Respira, Melissa.
Cumprimentei minhas colegas de mesa e fui até a minha. Mal sentei, o computador nem tinha terminado de ligar direito, e já ouvi a voz que eu menos queria escutar no momento.
- Melissa, pode vir aqui? - Marcelo, da porta da sala dele.
Pois não...
Suspirei fundo antes de levantar.
- Pois não... - falei, entrando em sua sala.
- Melissa, irei viajar quinta-feira para o exterior para vermos os novos modelos de joias. - Ele nem olhou para mim direito, só folheava papéis. - Meu filho ficará no meu lugar durante a sexta. Avise suas colegas. E bom trabalho.
- Certo. Obrigada.
Eu nunca entendi o porquê sempre tinha que ir até a sua sala. Por que ele simplesmente não me ligava?
Bufei baixinho e voltei para a minha mesa.
- Aviso às meninas - falei seca, me sentando.
E então elas começaram:
- Será que é bonito?
- Será que é novinho?
- Será que é casado?
Revirei os olhos.
Era assim com a grande maioria dos homens que começavam a trabalhar na empresa. E eu era a excluída - porque não enxergava assuntos como esses discutíveis.
Enquanto isso, meu único romance era entre as páginas de um livro.
Assim que deu doze horas, fui almoçar no shopping que ficava em frente à empresa.
Comi sozinha. Como sempre. Olhando pela janela do food court, vendo casais rindo, grupos de amigas conversando animadas.
Eu já tive isso um dia.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento.
Quando terminei o almoço, peguei o celular para ver o horário - e Paloma estava me ligando.
- Oi, Paloma - atendi enquanto voltava para a empresa.
- Mel, falta apenas uma semana para o meu casamento e preciso muito da sua ajuda. - A voz dela tremia de ansiedade.
- Pode falar. - Eu disse, mesmo sem saber como ajudar em nada.
- Hoje, assim que sair do trabalho, pode passar aqui?
- Posso sim.
- Ah, obrigada, minha amiga. Você é a única que não me deixa louca nessa reta final.
- De nada. Agora vou ter que desligar. Voltei ao meu horário de trabalho. Beijos, até mais!
Desliguei e guardei o celular.
No fundo, eu sabia que ajudar nos preparativos do casamento dela ia mexer comigo. Ver a felicidade dela de perto. Lembrar do que eu mesma um dia sonhei.
Mas isso foi em outra vida.
A tarde passou bastante rápida. Bem mais do que eu esperava.
Os relatórios estavam todos atrasados. Tive que refazer três planilhas porque o sistema travou. E ainda ouvi Letícia reclamando do meu lado sobre o barulho do meu teclado.
Respira, Melissa.
Assim que terminei tudo por lá, desliguei o computador e arrumei a minha mesa. Peguei minha bolsa, coloquei o casaco na cadeira e saí sem olhar para trás.
Segui até o apartamento da Paloma.
Toquei a campainha.
Ela abriu a porta com um sorriso tão largo que parecia que ia rasgar o rosto.
Era assim que eu seguia: em meu piloto automático.
- Sábado vamos provar os nossos vestidos! - ela gritou eufórica, me puxando para dentro.
- Vamos? Nossos? - indaguei, me sentando no sofá da espaçosa sala dela.
- Claro. - Paloma falou, sentando-se em minha frente. Ajeitou o cabelo atrás da orelha - um sinal de que ela ia falar algo sério. - Você é tipo uma irmã pra mim, Melissa. Não tenho ninguém tão próximo a mim como você. Então você será minha madrinha.
O silêncio pairou por um segundo.
Senti um aperto no peito. Mas um aperto bom. Daqueles que a gente sente quando percebe que, mesmo depois de tudo, ainda existe alguém que realmente se importa.
Fiquei feliz pelo convite. Pela consideração que ela me tinha.
- Tá bom então. - Sorri de verdade pela primeira vez no dia.
Mas só então lembrei.
- Quem será o meu par? - arqueei as sobrancelhas.
Paloma desviou o olhar rápido demais.
- Isso já é com o Matheus. - E deu uma risada meio nervosa.
Vinha coisa por aí.
Eu sabia.
- O que eu não faço por você, minha amiga? - Levantei do sofá e lhe dei um abraço. Apertei forte. - Mas se ele for um mala, você vai ser madrinha de novo no meu próximo casamento.
Ela riu e me apertou de volta.
Eu já estava indo embora quando perguntei:
- Cadê o Matheus?
- Ele foi fazer o convite ao seu par. - Ela riu de novo.
Lancei um olhar desconfiado para ela.
Paloma, o que você aprontou?
- Então sábado, às oito, passo aqui.
Entrei no elevador e desci. Peguei meu carro e segui para o meu apartamento.
No caminho, o trânsito estava parado. Aproveitei para olhar o céu escurecendo. As luzes da cidade acendendo uma a uma.
Quantas pessoas ali estavam voltando para alguém? Quantas tinham um "bem-vindo" esperando em casa?
Cheguei bastante cansada.
E, como sempre: banho e cama.
Deitei, olhei para o teto branco do meu quarto e senti o silêncio me abraçar.
E essa era a minha vida. Minha rotina.
Cheia de vazios.
Mas sem sofrimentos.
Pelo menos era o que eu repetia para mim mesma todas as noites.