O salão de eventos fervilhava, mas eu, Duda, só queria sumir.
Meu chefe me arrastou para mais um desses eventos de "networking", onde me sentia um peixe fora d'água.
Então ele entrou. João Pedro.
Anos se passaram, mas a visão dele, lindo e bem-sucedido ao lado de Sofia, sua noiva perfeita, ainda me dilacerava.
Eu nunca o forcei a me amar, só queria que ele fosse feliz... mesmo que isso significasse vê-lo com outra.
Mas o destino é cruel.
De repente, meu chefe se aproximou, eufórico.
"A empresa do João Pedro quer você como advogada principal, Duda! Ele mesmo te indicou!"
Meu coração gelou. Ele estava me olhando do outro lado do salão, com um olhar que prometia vingança.
"Não", a palavra escapou antes que eu pudesse contê-la, "eu recuso o caso."
Meu chefe me olhou como se eu fosse louca, e eu soube que acabaria de vez com minha carreira.
Mas o que ele, ou qualquer um, não sabia, era o segredo por trás da minha rejeição.
Anos atrás, um pesadelo profético me fez fugir dele, me casar com outro homem para ter um filho, e desaparecer por cinco anos, para salvar a vida do homem que eu amava, e a minha alma de me tornar a vilã em sua história.
Eu acreditava que estava protegendo ele de um destino terrível.
Mas agora, ele sabia da minha filha, e eu era sua prisioneira, amarrada a uma teia de mentiras e um passado que se recusava a morrer.
Sofia me enviou uma mensagem provocadora: "Aproveite o show. É para mim que ele sempre volta."
Eu era apenas um peão em um jogo cruel.
Será que meu sacrifício foi em vão? Ou havia algo mais por trás de tudo isso, algo que eu ainda não entendia?
O salão de eventos estava lotado, o ar vibrava com o zumbido de conversas e o tilintar de taças de champanhe. Eu me sentia deslocada, uma peça que não se encaixava naquele quebra-cabeça de luxo e poder. Meu chefe, o Sr. Almeida, me arrastou para cá, insistindo que era uma oportunidade de networking que eu, como a mais nova advogada sênior do escritório, não podia perder. Eu odiava esses eventos, mas precisava manter meu emprego, por mim e por minha filha.
Ajeitei meu vestido preto, simples e profissional, sentindo os olhares curiosos sobre mim. Eu sabia que não pertencia àquele mundo, mesmo que minha família adotiva fizesse parte dele. Então, a porta principal se abriu e um silêncio momentâneo caiu sobre o local.
Era ele.
João Pedro.
Meu coração parou por uma batida, depois acelerou de uma forma dolorosa e familiar. Anos se passaram, mas o efeito que ele tinha sobre mim continuava o mesmo. Ele estava mais maduro, o rosto mais anguloso, o terno caro moldando um corpo que exalava sucesso e confiança. Ele se tornara um gigante no setor de tecnologia, um nome que todos pronunciavam com uma mistura de admiração e inveja.
E ao seu lado, como sempre, estava Sofia. Linda, radiante em um vestido que parecia feito de luz. Ela sorria para ele, e ele sorria de volta, um sorriso que eu nunca recebi, um que alcançava seus olhos e os iluminava. A mídia os chamava de "almas gêmeas", o casal perfeito do Rio de Janeiro. Vê-los juntos era uma tortura silenciosa.
Eles caminharam pelo salão, cumprimentando pessoas, e eu tentei me encolher, me tornar invisível. Mas o destino tem um senso de humor cruel.
De repente, Sofia tropeçou levemente no tapete grosso. Antes que qualquer um pudesse reagir, João Pedro já a segurava firmemente pela cintura. Sua expressão preocupada era palpável.
"Você está bem?"
Ele perguntou, a voz baixa e cheia de cuidado.
"Estou, meu amor, só um pequeno descuido."
Sofia respondeu, a voz doce como mel.
Ele tirou o próprio paletó e o colocou sobre os ombros dela, mesmo que o ar-condicionado não estivesse tão forte.
"Para você não sentir frio."
Ele disse, ajeitando o tecido com uma delicadeza que me fez sentir um nó na garganta. Ele nunca tinha feito isso por mim. Nos anos em que estivemos juntos, eu sempre sentia frio, mas ele nunca pareceu notar. Aquele gesto, tão pequeno e tão público, era a prova visual do abismo que existia entre o que ele sentia por ela e o que nunca sentiu por mim. A saudade de algo que nunca tive de verdade me atingiu com força.
Eu me virei, incapaz de continuar assistindo àquela cena. Fui até o bar e pedi um copo de água, tentando controlar a tremedeira em minhas mãos. Foi quando o Sr. Almeida se aproximou, o rosto iluminado de excitação.
"Duda, notícias fantásticas!"
Ele exclamou.
"A empresa do João Pedro, a Tech Solutions, quer contratar nosso escritório para uma grande fusão. E o melhor de tudo, ele fez um pedido específico."
Eu senti um calafrio.
"Que pedido?"
"Ele quer que você seja a advogada principal do caso. Ele mesmo te indicou!"
Meu sangue gelou. Eu olhei por cima do ombro do meu chefe e vi João Pedro me encarando do outro lado do salão. Seu rosto estava inexpressivo, mas seus olhos... seus olhos escuros pareciam me perfurar.
"Não."
A palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar.
"O quê?"
O sorriso do Sr. Almeida vacilou.
"Eu disse não. Eu recuso o caso."
Disse com firmeza, colocando o copo de água de volta no balcão com um baque surdo.
"Maria Eduarda, você ficou louca?"
Meu chefe sibilou, o tom de voz baixo e irritado.
"Este é o maior cliente que poderíamos conseguir! Recusar isso é suicídio profissional! Por que você faria uma coisa dessas?"
Eu mantive minha postura.
"Razões pessoais, Sr. Almeida. Eu não posso trabalhar com ele."
Minha recusa abrupta pairou no ar entre nós. O Sr. Almeida me olhava como se eu tivesse acabado de confessar um crime. Ele não entendia, ninguém entendia a história complicada que me ligava àquele homem. Para todos, ele era apenas um empresário de sucesso, e eu, uma advogada ingrata.
Ele respirou fundo, tentando se controlar.
"Vou ter que informar a ele sobre sua... decisão."
Ele se afastou, claramente furioso, e foi em direção a João Pedro. Eu não consegui desviar o olhar. Vi o Sr. Almeida falar, gesticular, e vi o rosto de João Pedro permanecer uma máscara de indiferença. Ele apenas assentiu uma vez, um movimento curto e frio, e depois se virou de volta para Sofia, como se eu não fosse nada, como se minha recusa não significasse absolutamente nada para ele.
Aquela frieza doeu mais do que qualquer palavra de raiva poderia ter doído. Era a confirmação de que, para ele, eu era apenas uma nota de rodapé em sua história, uma lembrança inconveniente que ele preferia ignorar. E eu, por outro lado, ainda estava presa nas páginas daquele capítulo terrível da minha vida.
Tudo começou há muitos anos. Eu era apenas uma adolescente quando minha família biológica, afundada em dívidas e desespero, recebeu a ajuda da família de João Pedro. Eles não apenas nos salvaram da ruína, como também me adotaram, me dando um sobrenome influente e uma vida que eu nunca poderia sonhar. Pedro e sua esposa me trataram como uma filha, mas eu sempre me senti uma estranha, uma peça emprestada naquele palácio de riqueza.
João Pedro era o filho deles, quieto, focado e com uma ambição que queimava em seus olhos. Ele era lindo de uma forma séria, com cabelos escuros e um olhar que parecia ver através das pessoas. Eu me apaixonei por ele quase que instantaneamente, com toda a intensidade desesperada de uma jovem que se sentia em dívida e queria pertencer.
Lembro-me do dia em que criei coragem para me declarar. Estávamos no jardim da mansão, o sol do Rio de Janeiro aquecendo minha pele. Ele estava lendo um livro sobre programação, totalmente absorto.
"João Pedro..."
Eu comecei, a voz trêmula.
Ele levantou os olhos, surpreso pela interrupção.
"Eu gosto de você. Gosto de verdade."
As palavras saíram apressadas.
Ele fechou o livro lentamente, sua expressão suavizando para algo que parecia pena.
"Duda, eu também gosto muito de você."
Meu coração deu um salto.
"Mas como uma irmã. Você é minha irmã."
Aquela palavra, "irmã", foi como um balde de água fria. Ele me colocou em uma caixa, uma categoria da qual eu não queria fazer parte. A rejeição, em vez de me fazer desistir, acendeu uma chama de teimosia dentro de mim. Eu não seria sua irmã. Eu seria sua namorada.
Eu sabia que ele se sentia responsável por mim, pela forma como sua família me acolheu. E eu usei isso. Comecei a me envolver nos negócios da família dele, usando a influência dos meus pais adotivos para abrir portas, para ajudar a empresa do pai dele a fechar negócios importantes. Eu me tornei indispensável, não apenas como "irmã", mas como um ativo. Eu forcei a minha entrada na vida dele, usando a gratidão e a obrigação como minhas ferramentas.
Ele cedeu. Começamos a namorar, mas era um relacionamento vazio. Ele estava presente fisicamente, mas sua mente e seu coração estavam sempre em outro lugar. E eu logo descobri onde.
Um dia, ele me levou para sua cidade natal, um lugar pequeno e charmoso no interior. Foi lá que eu a vi pela primeira vez. Sofia. Ela era a garota da casa ao lado, a amiga de infância dele, a pessoa com quem ele compartilhava todas as suas memórias. Eles se conheciam desde sempre. Todos na cidade falavam deles como se fossem uma coisa só.
"Eles são almas gêmeas, sabe?", uma senhora me disse na padaria. "Desde pequenos, não se desgrudam."
Naquela noite, a insegurança me corroeu. Eu o confrontei.
"Você ama a Sofia?"
Perguntei diretamente, enquanto estávamos sentados na varanda da casa antiga de seus avós.
Ele demorou a responder, olhando para as estrelas.
"Sofia é... importante para mim. Ela me entende."
A resposta não era um "sim", mas também não era um "não". Era uma evasão, uma confissão velada de que seu coração pertencia a ela. Mas eu estava cega pela minha obsessão. Eu me agarrei à possibilidade de que, com o tempo, eu poderia apagar a imagem dela e tomar seu lugar. Eu me enganei, escolhendo acreditar que minha persistência poderia, de alguma forma, criar um amor que não existia. Eu forcei um beijo, e ele não me afastou, mas também não correspondeu com a mesma paixão. Naquele momento, eu deveria ter entendido, mas não quis. Eu continuei forçando, empurrando nós dois para um caminho sem volta.