O ar estava carregado com o cheiro metálico da chuva que acabara de cair, envolvendo a cidade em uma bruma cinzenta que parecia refletir o humor de Ethan Blackwood. De pé diante da imensa janela de seu escritório, ele observava o horizonte de arranha-céus que havia ajudado a construir. A cidade era sua. A empresa, seu império. Tudo estava sob seu controle. Pelo menos era o que ele gostava de acreditar.
O escritório refletia sua personalidade: prático, organizado e sem excessos. Móveis de madeira escura polida e aço inoxidável preenchiam o espaço com uma sensação de poder e seriedade. Mas, apesar de toda a imponência, Ethan sentia o vazio silencioso que aquele ambiente representava. Era como se sua vida estivesse reduzida a números e conquistas, enquanto o resto permanecia em um segundo plano.
Atrás dele, sua assistente pessoal, Claire, entrou discretamente na sala. Ela hesitou ao vê-lo imóvel, com as mãos cruzadas atrás das costas.
- Senhor Blackwood, sua próxima reunião está em cinco minutos.
Ethan assentiu sem se virar.
- Adie para amanhã.
Claire ergueu ligeiramente as sobrancelhas, surpresa.
- Mas... é com o conselho de administração.
Ele finalmente se virou, fixando-a com um olhar que não deixava dúvidas.
- Amanhã, Claire.
- Claro, senhor - respondeu ela, antes de sair apressada.
Ethan suspirou e voltou a encarar a cidade. Mesmo com o mundo aos seus pés, havia algo fora do lugar. Algo que ele não conseguia nomear.
Do outro lado da cidade, em um bar pequeno e lotado, Lucas Blackwood inclinava-se contra o balcão, girando um copo de uísque na mão. O ar ali era opressivo, uma mistura de suor, álcool e música alta. O barulho das conversas e risadas parecia ser um pano de fundo para os pensamentos que ecoavam em sua mente.
Seu sorriso fácil e olhar provocador atraíam atenção, mas Lucas estava focado em outra coisa: a televisão pendurada acima do balcão. Ela transmitia uma reportagem sobre seu irmão.
"Bilionário visionário, líder implacável..."
Lucas bufou, soltando um riso amargo enquanto girava o copo entre os dedos.
- Implacável é pouco - murmurou para si mesmo, antes de esvaziar o copo em um único gole.
Ao seu lado, uma mulher ruiva sorriu para ele, tentando iniciar uma conversa. Mas ele não estava interessado. Era a primeira vez em anos que estava de volta à cidade, e desta vez, não pretendia passar despercebido. Ethan estava prestes a pagar por tudo.
Mais tarde, naquela noite, Sophia Carter estava em casa, sentada no sofá com o laptop no colo. A luz suave do abajur ao lado destacava suas feições delicadas, mas seus olhos estavam fixos na tela com preocupação. O relógio marcava quase 11 da noite, e Ethan ainda não havia voltado.
Era o terceiro dia consecutivo em que ele não aparecia para jantar. Ele sempre enviava mensagens, desculpando-se com promessas de que as coisas ficariam mais calmas em breve, mas Sophia começava a duvidar. Ela fechou o laptop com um suspiro pesado. Amava Ethan, mas às vezes se perguntava se ele sentia o mesmo por ela ou se apenas a via como um item em sua vida perfeitamente organizada.
O som de uma mensagem interrompeu seus pensamentos. Pegando o celular ao lado, leu rapidamente:
"Desculpe, não voltarei esta noite. Precisamos conversar amanhã."
As palavras foram como uma pedra no peito. "Precisamos conversar" era uma frase que ninguém queria ouvir. Sophia apertou os lábios, tentando afastar os pensamentos ruins. Talvez ele só quisesse falar sobre o casamento, que estava cada vez mais próximo, mas que parecia ser o menor de seus interesses ultimamente.
Enquanto colocava o celular na mesa, ele tocou novamente, desta vez anunciando uma ligação. Ela atendeu sem verificar quem era, pensando que poderia ser Ethan.
- Sophia... que tal uma noite para relaxar? Estou de volta à cidade.
A voz era familiar, mas inesperada.
- Lucas? - perguntou, surpresa.
- Ora, fico feliz que ainda se lembre de mim - respondeu ele, com aquele tom charmoso e despreocupado que sempre usava.
Sophia franziu o cenho, incerta sobre como responder. Lucas, o irmão mais novo de Ethan, era uma figura complicada. Ele sempre a tratara bem, mas havia algo nele que a deixava desconfortável. Algo nos olhos dele, como se estivesse sempre avaliando as pessoas, procurando uma fraqueza.
- O que você está fazendo de volta? - ela perguntou, tentando soar casual.
- Ah, senti falta da minha família, claro. E de pessoas especiais... como você. Que tal uma conversa? Só eu e você.
Sophia hesitou, sentindo uma pontada de desconfiança. Não havia nada de errado em conversar com Lucas, certo? Mas algo em sua oferta parecia mais do que inocente.
- Acho que vou passar, Lucas. Está tarde.
- Entendo. Bem, espero que a gente se veja em breve - disse ele, com um tom de voz que fazia sua pele arrepiar.
Ela desligou e ficou olhando para o telefone, sentindo-se desconfortável. Lucas estava de volta. E isso nunca significava coisa boa.
Ethan, ainda em seu escritório, revisava papéis sem prestar atenção. Sua mente vagava para Sophia. Ele sabia que estava falhando com ela, mas não sabia como parar. O trabalho era tudo o que conhecia. Tudo o que sabia fazer.
Mas uma mensagem em seu celular o tirou do devaneio. Era de Lucas.
"Espero que esteja preparado, irmão. Estou de volta."
Ethan estreitou os olhos e jogou o celular na mesa. Lucas sempre voltava quando queria algo. E Ethan estava cansado de lidar com as consequências disso.
Ele se levantou e olhou novamente para a cidade. Desta vez, no reflexo do vidro, ele viu algo diferente. Não era apenas a preocupação com o trabalho ou com Sophia. Era a sombra do passado que agora estava de volta à sua vida.
Ethan acordou cedo naquela manhã. Após uma noite no escritório, a única companhia que teve foi o silêncio cortante e o brilho das luzes da cidade que nunca dormia. Ele costumava encontrar conforto em sua rotina, mas agora havia uma inquietação dentro dele que não conseguia ignorar. Lucas estava de volta. E isso nunca significava nada bom.
Com passos firmes, ele entrou na sala de reuniões da empresa, carregando uma pilha de relatórios. Os executivos se levantaram ao vê-lo, mas o silêncio era pesado, indicando que algo estava errado. Claire, sua assistente, aproximou-se e sussurrou:
- Senhor Blackwood, recebemos uma denúncia sobre irregularidades no contrato com o grupo Orion.
Ethan franziu a testa. Orion era um dos maiores clientes da empresa, e perder aquele contrato seria um golpe fatal. Ele percebeu que aquilo só poderia ser obra de Lucas. Mesmo longe, o irmão sempre encontrava maneiras de plantar o caos.
- Quero que você investigue isso imediatamente, Claire. E ninguém mais.
- Sim, senhor - respondeu ela, antes de sair apressada.
Ethan olhou ao redor da sala, com o olhar fixo nos rostos nervosos dos executivos. Ele não confiava em ninguém além de si mesmo, e essa denúncia era apenas mais um lembrete disso.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Lucas estava em um café ao ar livre, saboreando lentamente sua xícara de café. Ele observava as pessoas passando, cada uma presa em sua própria rotina monótona. Ele adorava a sensação de estar fora desse padrão, de ser o caos em meio à ordem.
Seu telefone vibrou, e ele atendeu com um sorriso no rosto.
- Lucas Blackwood falando.
Do outro lado da linha, uma voz séria respondeu:
- Está feito. Os documentos foram entregues. Ethan deve estar em pânico agora.
Lucas soltou uma gargalhada.
- Excelente. Continue com o plano. Quero que ele sinta o gosto do fracasso pela primeira vez.
Desligando o telefone, Lucas virou-se para ver Sophia entrando no café. Ela parecia distraída, mexendo no celular enquanto procurava um lugar para sentar. Lucas sorriu, ajustando sua postura para que ela o visse.
- Sophia! - ele chamou, levantando-se como se o encontro fosse puro acaso.
Sophia o viu e hesitou por um momento, mas logo forçou um sorriso e caminhou em sua direção.
- Lucas, o que você está fazendo aqui?
- Apenas aproveitando a manhã. E você? Precisa de companhia?
Ela balançou a cabeça, mas acabou se sentando. Lucas sempre tinha essa maneira de fazer as pessoas cederem, mesmo quando sabiam que não deveriam.
- Como você está? - perguntou ele, com um tom genuíno que a desarmou.
- Bem, eu acho. As coisas estão um pouco complicadas com Ethan, mas... - ela parou, percebendo que não queria compartilhar demais.
Lucas arqueou uma sobrancelha.
- Ele está te deixando de lado, não está? Isso é típico dele. Sempre priorizando o trabalho.
- Não é isso... - ela começou, mas Lucas a interrompeu.
- Sophia, você merece alguém que te veja como a prioridade. Não como uma obrigação.
As palavras dele ecoaram na mente de Sophia, mesmo enquanto ela tentava afastá-las. Ethan era complicado, sim, mas ela sabia que ele a amava... ou pelo menos queria acreditar nisso.
De volta ao escritório, Ethan estava mergulhado em relatórios, tentando encontrar uma maneira de resolver a situação com Orion. Mas sua mente continuava voltando para Sophia. Ele sabia que a estava negligenciando, mas não sabia como conciliar tudo. Seu telefone tocou, e ele atendeu imediatamente.
- Ethan? - a voz de Sophia soou do outro lado, suave, mas hesitante.
- Sophia, eu... sinto muito pela noite passada. Eu deveria ter voltado para casa.
- Você sempre diz isso, Ethan. Mas nada muda.
Ele respirou fundo, sentindo o peso de suas palavras.
- Eu prometo que vou melhorar. Nós precisamos conversar hoje à noite.
- Tudo bem. Vou esperar por você. - Ela desligou antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Ethan ficou parado, segurando o telefone. Ele sabia que não tinha muito tempo antes que Sophia começasse a se cansar de suas promessas vazias. E com Lucas na cidade, ele sentia que as coisas só ficariam mais complicadas.
Naquela noite, Sophia estava sentada no sofá, esperando por Ethan. A TV estava ligada, mas ela mal prestava atenção no que estava passando. A conversa com Lucas continuava ecoando em sua mente, plantando dúvidas que ela não queria admitir.
O som da porta se abrindo a tirou de seus pensamentos. Ethan entrou, parecendo cansado, mas determinado. Ele sentou-se ao lado dela e segurou suas mãos.
- Sophia, eu sei que tenho falhado com você. Mas eu quero mudar isso.
Ela olhou para ele, surpresa com a sinceridade em seus olhos.
- Ethan, eu só quero sentir que sou importante para você. Que não sou apenas mais um compromisso na sua agenda.
- Você é mais do que importante. Você é tudo para mim.
Sophia sentiu as lágrimas se formando, mas antes que pudesse responder, o telefone de Ethan vibrou. Ele olhou para a tela e sua expressão endureceu.
- O que foi? - ela perguntou.
- Lucas. Ele quer me encontrar amanhã.
Sophia sentiu um frio na espinha. Algo estava acontecendo, e ela sabia que Lucas estava no centro disso.
Ethan chegou cedo ao restaurante luxuoso onde Lucas marcara o encontro. Ele escolheu uma mesa próxima à janela, com vista para as luzes vibrantes da cidade, mas sua mente estava longe da paisagem. Os dedos tamborilavam na mesa de mármore, um hábito que revelava sua impaciência, enquanto ele revisava mentalmente o que poderia esperar de Lucas.
Quando o garçom se aproximou, Ethan dispensou qualquer bebida. Não estava ali para se distrair. Ele precisava estar alerta. E, como sempre, Lucas fazia questão de se atrasar.
Finalmente, ele apareceu. Usava uma jaqueta de couro e um sorriso preguiçoso, parecendo mais um convidado casual em uma festa do que alguém prestes a ter uma conversa séria.
- Ethan, meu querido irmão - disse Lucas, abrindo os braços como se esperasse um abraço.
Ethan permaneceu imóvel, sua expressão impassível.
- Lucas. Sente-se.
Lucas riu baixinho e ocupou a cadeira à frente de Ethan, inclinando-se como se estivesse totalmente à vontade.
- Que frieza. Não está feliz em me ver?
- Corta o teatro, Lucas. O que você quer?
Lucas sorriu, pegando o menu e o folheando sem pressa.
- Que pressa, irmão. Não podemos simplesmente conversar como nos velhos tempos?
Ethan estreitou os olhos.
- Os velhos tempos? Você quer dizer quando você arruinava tudo e eu tinha que consertar? Ou quando você desaparecia e deixava os problemas para mim?
Lucas soltou uma risada forçada.
- Sempre tão dramático. Mas já que quer ir direto ao ponto... estou de volta porque percebi que sinto falta da família.
- Família? - Ethan soltou uma risada fria. - Você só se importa consigo mesmo. Então, pare de perder meu tempo e diga qual é o seu verdadeiro motivo.
O sorriso de Lucas desapareceu por um momento, mas logo voltou, agora mais desafiador.
- Talvez eu tenha voltado para colocar as coisas em ordem. Sempre foi tudo sobre você, Ethan. O queridinho do papai, o herdeiro perfeito. Mas adivinha? Eu ainda sou um Blackwood. E isso significa que eu também tenho direito a uma parte desse império.
Ethan cruzou os braços, seu olhar penetrante fixo no irmão.
- Você nunca quis nada com essa empresa. Quando teve a chance, você jogou tudo fora. Não venha agora agir como se merecesse algo.
- Talvez você esteja certo - respondeu Lucas, inclinando-se para frente. - Mas as coisas mudaram. E eu estou cansado de viver à sombra do seu sucesso.
Ethan percebeu o brilho perigoso nos olhos de Lucas e soube que ele não estava blefando. O irmão sempre soube como atacar onde doía, e agora parecia determinado a causar estragos.
Enquanto isso, Sophia estava em casa, sentada na cama com seu laptop no colo. Ela tentou trabalhar em alguns documentos, mas sua mente estava inquieta. Desde a conversa com Lucas no café, ela sentia um desconforto crescente. Havia algo nele, algo que ela não conseguia definir, mas que parecia errado.
Ethan havia mencionado o encontro com Lucas, mas não dera muitos detalhes. E isso só aumentava sua ansiedade. Ela pegou o celular e hesitou por um momento antes de enviar uma mensagem:
"Como está indo a conversa com Lucas?"
A resposta veio rapidamente:
"Intensa. Mas estou lidando com isso. Voltarei para casa mais tarde."
Sophia largou o telefone com um suspiro. Algo lhe dizia que aquela reunião não era apenas um reencontro amigável.
De volta ao restaurante, Ethan e Lucas continuavam o confronto. A tensão entre os dois era palpável, e as palavras cortavam como lâminas.
- Você sempre foi assim, Ethan. Frio, calculista, incapaz de relaxar. É por isso que você está perdendo Sophia, sabia? - provocou Lucas, sorrindo ao ver o irmão tenso.
Ethan ficou imóvel por um instante, mas seus olhos traíram a raiva que crescia dentro dele.
- Sophia não é da sua conta.
- Ah, mas é, Ethan. Você a trata como trata todo o resto: como uma obrigação. E ela merece mais do que isso. Merece alguém que realmente a enxergue.
Ethan se levantou abruptamente, inclinando-se sobre a mesa.
- Fique longe dela, Lucas. Isso não é um pedido.
Lucas também se levantou, mas sua expressão era de diversão, não de medo.
- Talvez seja tarde demais para isso.
Ethan cerrou os punhos, mas se conteve. Ele sabia que Lucas queria provocá-lo, levá-lo a perder o controle. Com um último olhar de advertência, Ethan saiu do restaurante, deixando Lucas sozinho com seu sorriso satisfeito.
Quando Ethan chegou em casa naquela noite, encontrou Sophia adormecida no sofá. Ela parecia tranquila, mas ele sabia que a tensão entre eles estava se acumulando. Ele a cobriu com um cobertor e sentou-se ao lado dela, observando-a por um momento.
"Eu não vou deixar Lucas arruinar isso", pensou. "Eu não vou perder você."
Sophia abriu os olhos lentamente e viu Ethan ao seu lado.
- Você está bem? - perguntou ela, sonolenta.
Ele hesitou antes de responder.
- Estou. Só... pensando em como posso melhorar as coisas.
Ela sorriu levemente, embora ainda houvesse incerteza em seus olhos.
- Isso já é um começo.
Ethan segurou sua mão, prometendo a si mesmo que protegeria Sophia - de Lucas e de si mesmo.