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Entre o silêncio e a lua

Entre o silêncio e a lua

Autor:: M.lilica
Gênero: Lobisomem
Quando Lívia Monteiro se mudou para a pequena cidade de Sierra Creek, tudo o que ela queria era recomeçar. Nova escola, novos rostos, e uma chance de deixar para trás os traumas de um passado que ainda doía. Mas nada poderia prepará-la para Noah Blackwood - o aluno novo e misterioso que apareceu no colégio uma semana depois dela. Silencioso, intenso e com olhos cinzentos que pareciam enxergar a alma de quem o encarava, Noah carregava um segredo que o mantinha afastado de todos. Rumores o cercavam. Alguns diziam que ele era perigoso. Outros, que ele simplesmente não pertencia àquele lugar. Mas quando Lívia o vê nas sombras da floresta, sob a luz prateada da lua, percebe que há algo mais... algo impossível de explicar. Ele tenta avisá-la para ficar longe. Ela promete não se aproximar. Mas o destino - e a lua cheia - têm outros planos. Enquanto uma antiga maldição desperta, e o sangue dos lobos volta a correr pelas colinas de Sierra Creek, Lívia descobrirá que amar Noah é tão proibido quanto inevitável. E que, entre a luz e a escuridão, o coração sempre escolhe o que não pode ter.

Capítulo 1 O Aluno Novo

Lívia

O ônibus balançava pelas ruas estreitas de Sierra Creek, e o som do motor era o único ruído que preenchia o silêncio desconfortável.

Com o rosto apoiado na janela fria, eu observava a névoa subir entre as árvores, engolindo as casas antigas e os postes de luz.

Tudo aqui parecia... quieto demais.

Assustador demais.

- Última parada! - gritou o motorista, interrompendo meus pensamentos.

Peguei minha mochila gasta e desci, inspirando o ar gelado da manhã. O frio aqui era diferente - cortante, como se tentasse arrancar um pedaço de mim.

Nova cidade, nova escola, nova chance de recomeçar.

Ou pelo menos era isso que eu tentava acreditar.

A Sierra Creek High School se erguia à frente, um prédio de tijolos escuros cercado por árvores altas.

Parecia saída de um filme antigo.

Os alunos se aglomeravam na entrada, rindo, conversando, e... me observando.

A nova garota sempre chama atenção, mesmo quando tenta desaparecer.

- Você é a nova, né? - perguntou uma menina de cabelo loiro trançado. - Sou a Maya. Se precisar de ajuda, é só me chamar.

Sorri, aliviada por um pouco de gentileza naquele mar de estranhos.

Mas antes que eu pudesse responder, a conversa morreu no ar.

Um silêncio leve, quase imperceptível, espalhou-se entre os alunos.

Foi então que eu o vi.

Ele atravessava o portão devagar, como se o tempo se curvasse ao redor dele.

Jaqueta preta, mochila pendurada em um ombro só, e olhos cinzentos - frios, mas hipnotizantes.

Por um segundo, juro que o ar pareceu mudar.

- Esse é o Noah Blackwood - sussurrou Maya, inclinando-se perto de mim. - Ele chegou faz poucos dias... ninguém sabe muito sobre ele.

Noah.

O nome ficou preso na minha mente como uma canção que a gente não consegue parar de ouvir.

Quando ele passou por mim, seus olhos cruzaram os meus.

Foi rápido, mas intenso o suficiente para fazer meu coração tropeçar.

E, por um instante, eu tive certeza de que já o tinha visto antes... talvez em um sonho, talvez em algum lugar que minha memória não alcançava.

Mas o que mais me assustou não foi o olhar.

Foi a sensação que veio depois.

Como se algo dentro de mim - algo que eu nem sabia que existia - tivesse despertado.

Noah

Ela chegou.

Eu senti antes mesmo de vê-la.

O cheiro suave, o som leve dos passos... como se a floresta tivesse sussurrado o nome dela para mim antes que ela cruzasse o portão.

E quando nossos olhares se encontraram, meu controle vacilou.

A lua ainda não estava cheia, mas a fera dentro de mim rosnou baixo, inquieta.

Eu não podia me deixar envolver.

Não de novo.

Lívia Monteiro.

A nova garota de Sierra Creek.

E, sem saber, o maior perigo que eu já conheci.

- Você está ficando descuidado, Blackwood - murmurou Dylan, meu primo, que caminhava ao meu lado. - Quase deixou os olhos mudarem de cor.

Respirei fundo. Controle. Sempre controle.

- Eu sei o que estou fazendo - menti.

Mas eu não sabia.

Desde que minha família me mandou pra essa cidade esquecida, tudo que eu queria era passar despercebido.

Só mais um aluno comum.

Sem caçadas, sem sangue, sem lembranças da noite em que tudo deu errado.

E então ela apareceu.

A garota com cheiro de jasmim e medo.

A única capaz de fazer o lobo em mim acordar.

Lívia

As aulas passaram devagar.

Entre cadernos novos e olhares curiosos, eu tentava me concentrar, mas a imagem dele não saía da minha cabeça.

Noah não falava com ninguém. Sentava no fundo da sala, perto da janela, sempre com fones de ouvido e o olhar perdido lá fora.

Mas toda vez que eu olhava sem querer na direção dele...

ele já estava olhando pra mim.

Na hora do intervalo, decidi ir até o bosque atrás da escola - um lugar que os alunos pareciam evitar.

O ar ali era diferente, mais úmido, cheio de cheiro de terra molhada e folhas.

Pisei em um galho, e o estalo ecoou alto demais.

Foi quando ouvi.

Um uivo.

Distante, mas intenso.

Assustador, e ao mesmo tempo... bonito.

Meu coração disparou. E, por um segundo, eu achei ter visto uma sombra entre as árvores. Grande. Ágil.

Mas quando me virei, Noah estava lá.

- Você não devia estar aqui - disse ele, a voz rouca, firme.

- Eu só queria um lugar calmo pra pensar - respondi, sem entender por que minhas mãos tremiam.

Ele deu um passo à frente.

Seus olhos estavam diferentes - mais escuros, quase prateados.

Por um momento, pensei ter visto algo impossível refletido neles... como o brilho de um animal selvagem.

Mas quando piscou, já era só o garoto misterioso outra vez.

- Sério, Lívia. É perigoso andar por aqui sozinha. - Ele abaixou o tom de voz. - Principalmente à noite.

Como ele sabia meu nome?

Antes que eu pudesse perguntar, ele se afastou, desaparecendo entre as árvores.

E eu fiquei ali, com a respiração acelerada, o coração batendo alto demais e uma certeza que não fazia sentido:

Aquele garoto escondia algo que podia mudar tudo.

Capítulo 2 Sob a Névoa da Floresta

Lívia

O vento frio cortava meu rosto quando voltei para casa naquele fim de tarde.

A imagem de Noah sumindo entre as árvores ainda girava na minha cabeça.

Quem ele era de verdade?

E por que parecia me conhecer antes mesmo de ouvir meu nome?

As perguntas me acompanharam até o pequeno chalé que eu dividia com minha tia, Helena, na beira da cidade.

A casa cheirava a café e canela - aconchego em meio àquele lugar estranho.

Mas nem o calor do fogão conseguiu afastar a sensação de que algo me observava do lado de fora.

Depois do jantar, me sentei na cama com o laptop.

A internet em Sierra Creek era lenta, mas bastou digitar "família Blackwood" para encontrar... nada.

Nenhum registro, nenhuma rede social, nada.

Como se ele não existisse.

Uma rajada de vento fez a janela bater.

Olhei para fora - o bosque escuro balançava ao longe, e uma névoa começava a subir, iluminada pela lua.

Então ouvi de novo.

O mesmo uivo.

Baixo, distante, mas impossível de ignorar.

Meu corpo reagiu antes que eu pensasse.

Peguei o casaco e saí, seguindo o som.

Os galhos estalavam sob meus pés enquanto eu me embrenhava na floresta, o coração acelerando a cada passo.

De repente, algo passou rápido à minha frente - uma sombra grande, veloz, que desapareceu entre as árvores.

Tentei dar um passo atrás, mas escorreguei.

E antes que pudesse cair, mãos fortes me seguraram pela cintura.

- Eu disse pra você não vir aqui sozinha - a voz dele soou grave, perto demais do meu ouvido.

Noah.

O calor das mãos dele atravessava o tecido do meu casaco.

Por um instante, fiquei sem ar.

- O que... o que era aquilo? - perguntei, tentando recuperar a voz.

- Um lobo - respondeu, sem hesitar. - Eles aparecem quando a lua está quase cheia. Você devia ter ficado em casa.

Mas havia algo estranho no jeito como ele falava - como se não estivesse apenas me alertando, mas também lutando contra algo dentro dele.

Seus olhos, sob a luz prateada, pareciam brilhar.

- Por que se importa tanto comigo, Noah? - ousei perguntar.

Ele me soltou devagar, recuando um passo, o olhar duro.

- Porque há coisas aqui que você não entende.

- Então me explica.

O silêncio se estendeu.

Só o som da respiração dele - profunda, contida - preenchia o ar.

Quando finalmente falou, sua voz era um sussurro:

- Eu não posso... não ainda.

E, como antes, ele se virou e desapareceu na névoa.

Deixando para trás o eco do seu perfume - madeira, chuva e algo selvagem.

---

Noah

Eu a senti antes de vê-la.

O batimento acelerado do coração dela ecoava entre as árvores, puxando o lobo dentro de mim para a superfície.

Ela era imprudente.

Curiosa demais.

E linda demais para o meu próprio bem.

Quando a segurei, o calor do corpo dela atravessou minhas barreiras.

Meu controle vacilou.

Por um instante, o mundo sumiu, e só existia o som da respiração dela - suave, trêmula, perigosa.

Eu devia tê-la deixado ir.

Mas a cada vez que ela me olhava, algo em mim mudava.

O lobo reconhecia algo que eu não queria admitir.

De volta à clareira, o cheiro de sangue me fez parar.

Um coelho morto. Rasgado.

Eles estavam caçando de novo.

Outros da minha espécie.

- Ainda tentando fingir que é humano, primo? - a voz rouca de Dylan soou atrás de mim.

- Não é fingimento - respondi sem olhar. - É sobrevivência.

Ele riu, um som baixo e sombrio.

- A garota está te mudando.

- Fica longe dela - rosnei.

Mas ele só sorriu, mostrando um brilho ameaçador nos olhos.

- Se você não contar a verdade, Noah, a lua cheia vai fazer isso por você.

E quando ela descobrir o que você é... será tarde demais.

Fiquei ali, sozinho, com o gosto metálico da noite na boca.

A fera em mim pulsava, exigindo sair.

E, no fundo, eu sabia que Dylan estava certo.

Eu podia tentar enganar a mim mesmo.

Mas não à lua.

E nem a ela.

---

Lívia

Na manhã seguinte, os corredores da escola estavam cheios de murmúrios.

Um animal selvagem havia atacado uma casa próxima ao bosque.

Ninguém sabia o que era.

Mas quando Noah passou, o burburinho parou - como se todos soubessem que ele carregava algo que ninguém entendia.

Ele não olhou pra mim.

Mas eu senti.

O mesmo frio na espinha, o mesmo arrepio na pele.

E uma certeza:

Entre nós, algo já estava acontecendo.

Algo que nem o tempo, nem o medo, e nem a lua seriam capazes de deter.

Capítulo 3 O Segredo dos Blackwood

Lívia

A segunda-feira amanheceu com o céu coberto de nuvens espessas, o tipo de dia em que o sol parece desistir antes mesmo de tentar.

Eu não dormi direito - cada vez que fechava os olhos, via Noah entre as árvores, os olhos dele brilhando, a voz rouca me mandando fugir.

Mas o que realmente me deixava sem ar era a sensação de que, mesmo longe, ele ainda me sentia.

Como se houvesse algo invisível nos ligando.

Quando cheguei à escola, percebi que algo estava diferente.

Os alunos cochichavam pelos corredores, olhares desconfiados se cruzando.

Uma notícia corria: um morador havia sido encontrado ferido perto da floresta.

Diziam que fora um ataque de animal.

Mas quando passei por Noah no corredor - e vi o arranhão em seu braço -, entendi que talvez o ataque não fosse apenas um rumor.

- O que aconteceu? - perguntei, parando diante dele.

- Nada - respondeu sem me encarar.

- Noah, você está sangrando.

- Não é o meu sangue.

O modo como ele disse aquilo me gelou.

Antes que eu pudesse insistir, ele já tinha se afastado, deixando para trás um silêncio denso e o eco do meu próprio coração acelerado.

Durante a aula de História, não consegui prestar atenção em nada.

Noah estava no fundo, olhando fixamente pela janela, os dedos tamborilando sobre a mesa como se contassem os segundos para algo acontecer.

A cada vez que eu desviava o olhar, o instinto me forçava a olhar de novo.

E então, no meio da explicação do professor, ele levantou-se e saiu.

Sem pedir permissão.

Sem dizer uma palavra.

Algo em mim me mandou segui-lo.

Saí alguns minutos depois, o corredor vazio e o som dos meus passos ecoando.

Quando abri a porta que dava para os fundos da escola, vi Noah parado ali, encostado no muro, com a cabeça baixa e o punho fechado.

- Por que você me seguiu? - perguntou, sem olhar.

- Porque... eu me preocupo.

Ele ergueu o olhar - e por um segundo, eu quase recuei.

Os olhos dele estavam cinzentos demais, como metal líquido.

Bonitos e assustadores ao mesmo tempo.

- Você não devia se aproximar de mim, Lívia.

- Então por que você sempre aparece quando eu preciso? - devolvi.

O silêncio entre nós ficou carregado.

O vento levantou os cabelos dele, e eu percebi a tensão no maxilar, o esforço para manter o controle.

- Você não entende... o que eu sou, o que eu carrego, o que eu posso fazer com você.

- Então me explica, Noah. - minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Me deixa entender.

Ele deu um passo à frente.

Depois outro.

Até que o espaço entre nós desapareceu.

O cheiro dele - madeira, chuva e algo selvagem - me envolveu.

- Se eu te contar, você nunca mais vai me olhar do mesmo jeito.

- Já é tarde pra isso.

Por um instante, o tempo parou.

Os olhos dele desceram até minha boca, e o ar ficou denso, pesado.

Era como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquela respiração compartilhada.

Mas então ele se afastou bruscamente.

Como se algo dentro dele o puxasse de volta.

- Os Blackwood não são o que parecem - disse ele, a voz rouca. - Fique longe da floresta. Fique longe de mim.

E foi embora, me deixando sozinha com um coração descompassado e uma nova certeza:

quanto mais ele tentava me afastar, mais eu queria entender o que o prendia à escuridão.

---

Noah

Ela não faz ideia do que está pedindo.

Se soubesse o que vi nas últimas luas, o que fiz pra manter o lobo sob controle, ela fugiria sem olhar pra trás.

Mas em vez disso, ela me encara com aqueles olhos castanhos - quentes, curiosos - e tudo dentro de mim se parte.

O humano tenta falar mais alto, mas o lobo sussurra: Ela é sua.

Eu não posso deixá-la se aproximar.

Não quando o instinto começa a crescer dentro de mim como fogo.

A marca no braço latejava.

O sangue do ataque ainda estava ali, misturado com o meu.

Era sinal de que eles estavam perto.

A matilha que eu deixei pra trás.

Os mesmos que fariam de tudo pra me caçar... e agora, talvez, caçar ela também.

Voltei pra casa antes do pôr do sol.

A casa dos Blackwood ficava afastada, entre colinas e árvores antigas.

Por fora, parecia abandonada. Por dentro, era o único lugar onde eu podia deixar o lobo respirar.

No porão, um espelho quebrado refletia meu rosto cansado.

Aos poucos, os olhos mudaram de cor - do cinza para o âmbar profundo.

E as veias sob minha pele começaram a brilhar como prata líquida.

O rugido veio sem aviso.

Um som rouco, primal, que fez as paredes tremerem.

E no meio do caos, uma imagem atravessou minha mente:

Lívia.

Sozinha. No bosque. Me chamando.

Eu sabia o que isso significava.

A marca estava se formando - o laço entre nós, o mesmo que destruiu meus pais.

E a cada batida do meu coração, a fera dentro de mim sussurrava uma verdade que eu não podia aceitar:

Você pode tentar fugir do destino, Noah... mas ela já é sua lua.

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