A Zona sul de São Paulo sempre teve esse clima peculiar no início da noite: prédios altos, ruas movimentadas, buzinas ao longe e aquele céu que nunca fica totalmente escuro por causa das luzes da cidade. Eu estava estacionada na Rua Alexandre Dumas, dentro do carro - meu companheiro fiel nas correrias do dia a dia do meu pequeno negócio de beleza.
Eu tinha acabado de encerrar uma entrega para uma cliente e mexia no porta-luvas, procurando um batom extraviado, quando ouvi a porta de uma garagem se abrir bem ao meu lado. Olhei pelo retrovisor e vi um homem que parecia ter saído de um filme de romance, de tão lindo que ele era. Ele estava em um carro preto luxuoso, daqueles que a gente só vê em comerciais. Apesar de sério ele parecia bem paciente esperando que alguém desse passagem para que ele pudesse entrar na via.
Sério, ele parecia ter saído de uma reunião importante. Ou de um filme.
Na hora não dei tanta atenção - até porque eu estava ocupada brigando com o tal batom.
O problema é que, no mesmo instante, uma moto acelerou forte e surgiu da esquina sem dar seta.
Tudo aconteceu tão rápido que meu corpo só reagiu: abri a porta do carro no impulso para sair e acabei fazendo a moto bater nela. O barulho ecoou alto pela rua estreita, misturando choque metálico e xingamento do motociclista.
- Meu Deus! - exclamei, pulando para fora.
- Cuidado aí! - o motoqueiro gritou, desviando por pouco e seguindo irritado.
Foi quando ele resolveu descer do carro, vestia uma camisa social azul clara e uma calça de alfaiataria impecável, mesmo já passando das oito da noite.
O dono do carro de luxo. O homem de camisa azul.
E o meu coração... bom, ele deu um salto. Do nada, sem permissão.
- Você se machucou? - ele perguntou, aproximando-se com uma preocupação tão genuína que me desarmou.
- Não, não... foi só um susto mesmo - respondi, rindo de nervoso. Acho que abri a porta na hora errada.
A luz amarelada do poste iluminou o rosto dele. Era sério, firme, com um olhar inteligente e um ar reservado. A mandíbula marcada e o cabelo um pouco bagunçado davam aquele charme natural que parece sem esforço.
- A culpa não foi totalmente sua - ele disse, analisando a rua. - Essa esquina é péssima, os motociclistas sempre passam voando.
- É São Paulo, né? - respondi, encostando na porta amassada do meu carro e suspirando. - Zona Sul sendo Zona Sul.
Ele deu um sorriso pequeno, quase discreto, mas que parecia raro, como se não fosse um homem que sorria muito.
- Marcelo - ele disse, estendendo a mão.
- Celina, respondi.
Quando toquei a mão dele, senti aquele impacto estranho... como se o toque tivesse durado meio segundo a mais do que deveria. Ele percebeu, eu percebi, o universo percebeu.
E ali, naquele instante...
A porta do prédio ao lado se abriu e uma mulher muito elegante de nome Helena, saiu apressada, usando salto fino, blazer bege e um perfume doce demais.
- Marcelo! Eu te liguei três vezes, por que você não me atendeu? - ela falou, vindo em direção a nós.
Ele fechou um pouco o rosto.
Eu senti imediatamente o ar ficar mais pesado.
- Eu estava ocupado - ele respondeu, simples, apontando para mim e para o carro. - Aconteceu um pequeno acidente aqui.
A mulher olhou para mim de cima a baixo como se estivesse avaliando uma concorrente que ela não aprovava.
- Acontece - ela disse, seca. - Mas a gente precisa ir, a reunião foi remarcada para amanhã cedo. O conselho quer falar com você antes das nove.
Conselho.
Reunião.
Nove da manhã.
Aí eu entendi: ele realmente devia ser alguém muito importante.
Marcelo, você é o CEO da H&V Technologies, você não pode perder tempo com coisas tão pequenas.
Eu corei.
Claro, ela está certa, não vou tomar seu tempo, disse olhando para figura bonita bem na minha frente. Ele parecia importante até respirando.
Olhei para ele, que sorriu novamente, aquele sorriso raro.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, senti minha perna tremer.
Adrenalina atrasada.
Tontura.
A rua girou um pouco.
Marcelo deu um passo à frente.
- Você tá bem?
- Acho que o susto bateu agora - respondi, piscando os olhos.
Helena revirou os olhos.
- Marcelo, vamos? Ela disse que tá bem.
Ele ignorou.
- Eu levo você até um hospital aqui perto. Só pra ter certeza - disse ele, firme, decidido.
E foi assim que começou.
Com uma motocicleta .
Um carro luxuoso.
Uma rua da Zona Sul.
Um acidente besta.
E o primeiro olhar de alguém que nunca imaginaria encontrar.
Marcelo insistiu para me ajudar a entrar no carro dele, um SUV preto impecável que parecia recém-saído da concessionária. Eu até tentei recusar, mas minha cabeça ainda estava girando e, sinceramente, o jeito como ele me olhava dava uma sensação estranha de segurança.
Helena, por outro lado, parecia prestes a explodir.
- Marcelo, isso é completamente desnecessário - ela disse, cruzando os braços. - Você não precisa se envolver.
Ele abriu a porta do passageiro pra mim sem nem olhar pra ela.
- Não vou deixá-la sozinha - respondeu, simples, como se fosse óbvio. Helena olhou incrédula pra ele, que não deu a mínima, e me conduziu até o carro.
Eu entrei meio sem jeito, tentando não encostar muito nos bancos impecáveis. Helena bufou tão alto que deu pra ouvir pela porta fechada.
Quando Marcelo entrou no carro, a primeira coisa que senti foi o perfume dele: amadeirado, sofisticado, caro. O tipo de fragrância que fica na memória. Ele ligou o motor e ajustou o ar-condicionado mais baixo, talvez achando que eu ainda estava tonta.
- Quer água? - perguntou, abrindo o compartimento central. Tinha garrafinhas novinhas.
- Não, obrigada. Já estou melhor - respondi, mesmo sabendo que não estava 100%.
- Me avisa se não estiver - ele disse, olhando rapidamente pra mim antes de arrancar.
Helena veio até a janela do motorista e se inclinou.
- Você vai me deixar aqui? Tem reunião amanhã cedo. E eu preciso te atualizar sobre o material que preparei.
Marcelo manteve os olhos na rua.
- Pega um carro por aplicativo. Te encontro amanhã cedo.
A expressão dela se transformou em um misto de incredulidade e raiva contida.
Era quase cômico... se não fosse um pouco assustador.
Ela finalmente saiu da frente, dando um passo pra trás. Marcelo acelerou suavemente e seguimos pela rua iluminada.
Silêncio.
Mas não foi desconfortável. Foi... tenso de um jeito bom.
- Sinto muito por isso - falei, quebrando o silêncio. - Não quis te colocar nessa situação com... a sua...
- Não se preocupe - ele disse. - ela não é minha namorada.
- Ah - respondi, sentindo o coração dar um pulinho bobo.
Ele continuou:
- Ela trabalha comigo. Tem um cargo importante na empresa, mas... costuma ultrapassar alguns limites.
Eu mordi o lábio, tentando não sorrir como uma adolescente.
- Ela parece gostar de você - soltei, antes de pensar.
Marcelo respirou fundo, como se essa conversa já tivesse acontecido mil vezes dentro da cabeça dele.
- Gosta da ideia de mim - corrigiu. - Não de quem eu sou de verdade.
Eu virei o rosto para a janela, vendo os prédios da Zona Sul passarem rápido, refletindo luzes nas vidraças.
São Paulo parecia mais bonita vista de dentro daquele carro.
- E quem você é de verdade? - perguntei, sem tirar os olhos da rua.
Ele demorou alguns segundos para responder.
- Alguém cansado - disse, enfim. - Cansado de fingir, de manter a postura perfeita, de lidar com gente querendo algo o tempo todo.
Eu me virei para ele.
- Então você é um CEO cansado da própria vida glamourosa.
Ele soltou um riso baixo - e meu estômago virou de um jeito inexplicável.
- E você? - ele perguntou, virando brevemente o rosto para mim. - O que cansa você?
Eu respirei fundo.
- A luta constante - respondi. - De trabalhar muito, de fazer tudo dar certo, de tentar sempre ser forte... mesmo quando ninguém tá vendo.
Ele ficou em silêncio, mas aquele olhar dele... era de alguém que realmente tinha entendido.
A gente entrou na Avenida Santo Amaro, e o hospital não estava muito longe dali. O trânsito estava mais tranquilo do que o normal, e por alguns instantes o mundo pareceu menor, só aquele carro, ele e eu.
- Você é mais forte do que pensa - ele disse de repente.
Eu senti meu peito apertar.
- Isso é algo que eu precisava ouvir - admiti.
Ele não respondeu. Só continuou dirigindo, mas percebi que seus dedos estavam relaxados no volante agora. Como se ele tivesse ficado mais leve também.
Quando chegamos ao hospital, ele estacionou na frente da entrada e saiu imediatamente para abrir minha porta.
Ninguém nunca tinha feito isso por mim antes.
- Consegue andar? - ele perguntou.
- Consigo, sim - respondi, mas a verdade é que minhas pernas ainda estavam um pouco bambas.
Ele colocou a mão nas minhas costas, firme, mas gentil, guiando meus passos até a recepção.
E foi ali, debaixo da luz forte do hospital, que percebi:
Aquele homem sério, distante e poderoso tinha um olhar doce quando me encarava.
E eu estava correndo um risco enorme de me perder nesse olhar.
O hospital tinha aquele cheiro característico de limpeza e ar-condicionado frio demais que sempre me deixava arrepiada. Marcelo caminhava ao meu lado, o passo firme contrastando com o meu, ainda um pouco hesitante. A mão dele repousava nas minhas costas de um jeito protetor, seguro... e perigoso para alguém com um coração tão impressionável quanto o meu.
Na recepção, as luzes brancas me fizeram piscar algumas vezes. A atendente levantou os olhos e, ao ver Marcelo, quase endireitou a postura como se estivesse diante de alguém muito importante.
- Boa noite. Em que posso ajudar? - ela perguntou, sorrindo.
- Ela sofreu um acidente leve - Marcelo respondeu antes de eu abrir a boca. - Precisamos que alguém a avalie. Ela ficou tonta e quase desmaiou.
Eu tentei protestar:
- Nem foi tão assim...
Ele me lançou um olhar de canto, firme, como se dissesse não discute.
E eu obedeci. Por quê? Nem eu sei.
Fui levada para uma sala de triagem enquanto Marcelo ficou na recepção, mas não antes de dizer:
- Qualquer coisa, me chama. Tô aqui.
A palavra "aqui" ficou ecoando na minha mente.
A enfermeira fez algumas perguntas, mediu minha pressão - que estava um pouco alta - e me pediu para aguardar. Sentei numa poltrona desconfortável perto das portas automáticas e fiquei observando pessoas entrando e saindo, carros estacionando, vidas acontecendo.
Uns cinco minutos depois, Marcelo reapareceu.
Só que não estava sozinho.
Atrás dele, com cara de poucos amigos e salto estalando no chão, vinha Helena.
Claro.
Porque a paz dura pouco quando a vilã usa blazer bege.
Ela se aproximou como quem ia exigir explicações, mas Marcelo parou ao meu lado antes dela avançar mais.
- Como você está? - ele perguntou, se inclinando levemente.
- Melhor. Acho que agora foi só o susto mesmo.
Helena cruzou os braços.
- Marcelo, você realmente precisava trazer ela ao hospital? Você tinha que se preparar para a reunião amanhã cedo. Isso é perda de tempo.
Ele nem olhou para ela.
- É meu tempo pra perder, Helena.
A forma como ele disse isso... firme, frio, definitivo.
Se fosse comigo, eu teria ido embora na hora.
Mas Helena não era do tipo que recuava.
Ela estreitou os olhos para mim, como se eu fosse uma intrusa roubando algo que pertencia a ela.
- Sabe, Marcelo - ela disse em voz alta, teatral - algumas pessoas fazem drama por qualquer coisa. Você é muito gentil... às vezes gentil demais.
Eu respirei fundo e mantive a compostura. Afinal, ela era só uma desconhecida com ciúme profissional - ou algo a mais, eu já nem sabia.
Marcelo então fez o impensável.
Ele se virou totalmente para mim, ignorando Helena por completo.
- Celina... quer comer algo depois daqui? Você parece fraca. Posso te levar a algum lugar leve, uma sopa, um lanche... o que quiser.
Helena arregalou os olhos.
- Como é que é? - ela sussurrou, chocada.
Eu quase respondi que não, que estava tudo bem, que ele não precisava... mas a verdade é que a forma como ele me olhava, como se eu fosse importante... me desmontava.
- Eu aceito - respondi, antes de pensar demais.
O rosto de Helena ficou rígido. Os lábios sumiram num fio fino de irritação.
- Certo - ela disse, respirando fundo para não perder a pose. - Então acho que vou indo. De qualquer forma, Marcelo, amanhã às nove.
- Antes das nove - ele corrigiu, ainda olhando para mim e não para ela.
Helena saiu sem se despedir. O salto dela ecoou tão alto que parecia anunciar uma guerra declarada.
Só quando ela sumiu pela porta giratória é que Marcelo soltou o ar, como se tivesse carregado um peso nas costas.
- Desculpa - ele disse. - Ela não sabe lidar com limites.
- Tá tudo bem - respondi. - Eu já lidei com gente pior.
Ele deu um meio sorriso, mas antes de responder, o médico chamou meu nome.
-Celina Veras?
- Sou eu - levantei.
Marcelo deu um passo atrás, mas ficou firme, aguardando.
- Pode entrar, mas somente a paciente - o médico disse.
Marcelo assentiu.
- Eu te espero aqui.
A consulta foi simples. O médico confirmou que eu estava só sob efeito do susto e da adrenalina, recomendou hidratação, descanso e cuidado ao abrir portas de carro - sim, eu ri.
Quando saí, Marcelo estava sentado, mas ao me ver se levantou na hora.
- E então?
- Só o susto mesmo - respondi.
Ele sorriu. Era um sorriso leve, mas... parecia genuíno.
- Que bom. Vamos comer algo?
Eu respirei fundo. Lá fora a noite estava fresca, com a garoa fina começando a cair, deixando o asfalto brilhando sob as luzes dos postes.
- Vamos.
Saímos juntos pela porta automática, e por um segundo tive aquela sensação estranha de que eu estava entrando em algo maior do que um simples pós-acidente.
Como se aquele momento fosse escrever o resto da minha vida.
Ele abriu a porta do carro pra mim - de novo - e entrou pelo lado do motorista. Ligou o motor, olhou para mim e perguntou:
- Quer um lugar tranquilo? Ou prefere algum restaurante específico?
Eu sorri, mordendo o lábio.
- Sinceridade? Hoje... eu topo qualquer coisa. Só não quero voltar pra casa ainda.
Marcelo encarou a rua por um instante, pensativo, como se estivesse tomando uma decisão importante.
- Então vamos pra um lugar que eu gosto - ele disse por fim. - Não é chique, não é caro... mas é verdadeiro.
- Combina comigo - respondi.
Ele olhou para mim de novo.
Havia algo diferente naquele olhar.
Algo que dizia que, para ele, eu não era só uma pessoa que ele ajudou por acaso.
E então ele dirigiu, silencioso, concentrado, até dobrar em uma rua menor, com árvores dos dois lados e algumas lojinhas iluminadas.
O carro parou diante de uma pequena lanchonete aconchegante, com luzes quentes e cheiro de pão fresco escapando pela porta entreaberta.
- É aqui - Marcelo disse.
Eu sorri.
- Perfeito.
E pela primeira vez naquela noite, eu senti que algo estava prestes a mudar definitivamente na minha vida.
Algo grande.
Algo que, de alguma forma... já era dele desde o primeiro olhar.