A tarde escaldante prenunciava a tempestade que viria mais tarde, o céu cinzento nublava os pensamentos de Melissa Palácio que limpava a casa quando sua mãe entrou debochando de sua aparência masculina, comparando-a negativamente a sua irmã Mariah. Por mais que fosse frequente, sempre machucava de um modo diferente e ela se perguntava por que a mãe a odiava tanto, de modo que seu maior divertimento era diminuí-la.
Mariah descia as escadas desfilando, exibindo seu vestido de casamento e sua mãe fingia estar emocionada entre risos, era como se Melissa fosse invisível para elas. Sentindo as lágrimas prestes a brotar, nossa cinderela baixou a cabeça e continuou limpando, engolido o choro.
- Mamãe você não acha que precisa de ajuste na cintura? indagou Mariah com um giro pela sala. Falta só mais uns dias.
- Não querida. está perfeito! Respondeu a mãe segurando suas mãos e levando-a até o sofá pisoteando onde Melissa havia limpado.
- Mamãe não quero esse espantalho no meu casamento, dizia Mariah apontando para Melissa.
- Ela não irá querida! Melissa é a vergonha dessa família. Sussurrou a mãe fingindo decepção e recebendo aplausos da futura noiva.
As duas continuaram decidindo os detalhes do casamento por horas. Melissa que habitava um cubículo minúsculo que não passava de um quartinho para material de limpeza, encolhia-se no canto da parede aos prantos.
Melissa nunca soube o que era presente, nunca se quer recebeu um feliz aniversário, sua mãe sempre falava dela como a ruína dos Palácio. Ia pra escola com roupas surradas que sua mãe comprava por centavos no Bazar da Rua 15 de Novembro, pois Mariah não a considerava digna de usar seus trapos. O que ela mais amava era seu cabelo, era longo, liso e negro diferente dos de Mariah que eram loiros e lembravam palha desbotada. Quando sua mãe percebeu os elogios dos vizinhos, cortou eles, mal cabia atrás da orelha e quando questionada Mariana falava que cortou os cabelos da filha porque não aguentava mais tanto piolho. O que fez com que Melissa fosse ainda mais evitada na escola. Para Melissa ir a escola era pior do que ficar em casa.
A noite chegava, Melissa não conseguiu descer para comer. Estava se sentindo desolada e queria evitar ao máximo a presença do padrasto que sempre bebia e lhe insultava, principalmente quando voltava do Hall, um clube vip de apostadores, onde ele ia pra perder o pouco que ganhava vendendo imóveis o mês inteiro. Entretanto, não conseguia evitar ouvir a gritaria por volta das 20:00 horas;
- Aquele maldito Noah Avelar, me venceu nas cartas, levou tudo que eu tinha. Ele me disse que se ganhasse dele, perdoaria minhas dívidas passadas e daria 1 milhão de dólares por cada As que eu jogasse, mas se eu perdesse a minha filha mais velha seria dele como pagamento, aquele moleque maldito já tinha o jogo ganho quando fez a proposta. Melissa irá com ele ainda hoje.
- Como você teve coragem João Pedro? E agora quem vai limpar essa casa, lavar roupas, a louça? Gritava Mariana lhe dando tapas.
- Meu Deus, o que eu fiz de mal? Questionava a menina entre soluços. Melissa sequer podia acreditar no que ouvira e pior como sua mãe a resumia em uma simples empregada doméstica.
Sem ser notada Melissa pulou a janela e dirigiu-se a pracinha, a acalmava observar os pombos vindo até ela pelas migalhas de pão que lhes oferecia. Ela chorou por horas imaginando qual seria o velho que colocaria as mãos nela. Se antes ela pensava não haver maneira de sofrer mais, descobriu que havia.
Era mais de uma hora da madrugada quando ela voltou para casa, imaginava que sequer sentiriam sua falta, a rua deserta pouco a assustava, entretanto surpreendeu-se ao chegar a sua residência e encontrar um bilhete que lhe tirou o chão:
- Melissa já fizemos muito te criando, infelizmente temos que ir para o exterior imediatamente, o noivo de Mariah decidiu que o casamento será em sua terra natal repentinamente, há muito o que fazer. Possivelmente não regressaremos mais ao Brasil, por favor desocupe seu quarto ainda hoje, pois amanha cedo os novos inquilinos virão. - Ah, já ia esquecendo! você é responsabilidade de Noah Avelar, se tiver sorte ele pode mudar esse seu jeito ruim. Acho que te mimamos demais! - Cuide-se!
- Eu não consigo parar de me surpreender com vocês mamãe! Sussurrou Melissa enquanto adentrava o apartamento vazio e juntava seus poucos pertences em uma mala de mão, preparando-se pra fugir antes que o seu dono viesse buscá-la para usá-la do modo que julgasse melhor. Ela olhou em volta esperando sentir alguma coisa mas era inútil pensar que algum dia foi feliz ali.
Fechou a porta de seu quartinho e saiu, mais de 1 hora da madrugada, sem destino, sem dignidade alguma e sozinha, se quer, refletia sobre os perigos de sua caminhada noturna. Não haviam movimento nas ruas, nem conversas, somente barulho do vento açoitando as árvores e do arrastar de seus chinelos de dormir na avenida. Ela se sentou no banco da praça e começou a respirar o cheiro de chuva.
- Clássico. Como nos filmes tinha que ter chuva! Você é patética Melissa. Rindo da sua própria desgraça. Decidiu voltar para o apartamento e esperar que amanhecesse para ir embora. - Sabe por um momento pensei que fosse meus pés pesando, mas é só meu coração mesmo. Sussurrou para si mesma. a chuva estava cada vez mais forte, os pingos de água doíam em seu rosto. mas ela estava imóvel. Era o choque de realidade. - Ele veio mesmo, repetia olhando para o BMW estacionado à sua frente. Suas pernas vacilaram sua vista escureceu e o chão sumiu, quando Melissa olhou para o idoso que descia do veículo. Naquele mesmo momento ela desmaiou, só conseguia ouvir alguém perguntando se ela estava bem.
- Escuta! a menos que você faça parte da liga da justiça e saia para combater o crime a essa hora seria possível justificar tamanha loucura. Um homem com tom de deboche a repreendia enquanto o médico a examinava.
- Quem é você por acaso e por qual motivo eu estou vestida assim? Falou Melissa assustada, ao notar que só trajava uma camisa masculina de mangas longas.
- Hermes, guie o Doutor Fonseca até a saída. Sussurrou o homem com tom de voz imperativo.
- Sim Senhor! E com passos medidos e formais o idoso retirou-se do quarto.
- Se eu estiver certo você é Melissa Palácio, correto?
- Sim. Sussurrou Melissa virando-se na cama de modo que não tivesse que encarar a figura a sua frente. Seria ele, aquele que a comprou? sua cabeça zumbia como se tivesse um relógio cuco na cabeça.
- Sou Noah. Noah Avelar. Sua família se quer pensou duas vezes antes de te vender para mim, mas, isso não vem ao caso agora. - Precisa comer, o Dr. Fonseca veio a essa hora porque eu implorei, não espere que eu faça isso futuramente. Eu nem sei o que teria ocorrido se alguém com más intenções tivesse te encontrado desmaiada. Seja menos inconsequente.
- Tanto faz. - Em um só dia eu fui humilhada, vendida, expulsa de casa e percebi que nunca fui amada. Então a julgar pelas suas roupas, esse apartamento e o seu mordomo particular, não pense que pode me advertir. Você não passa de um riquinho mimado e idiota, um playboyzinho de merda que sempre teve tudo.
- Melissa, não pense que pode agir como se tivesse vontade própria, vire-se! Salvei sua vida no mínimo fale comigo olhando nos meus olhos. - Não se esqueça que você é minha.
- Não pense que vou facilitar pra você. Respondeu a menina soluçando, se você me forçar eu mato você lentamente enquanto dorme.
- Você ameaça todo mundo que conhece garota? Noah pronunciou em tom de divertimento e apontou para a bandeja. - Coma.
- Hermes? Trouxe a muda de roupa que eu pedi?
- Sim senhor. E trouxe um pijama para a senhora.
- Isso me faz pensar em que foi que me trocou? Questiona Melissa indignada, mas presumindo que foi Noah já que ele está sem a camisa e ela vestida em uma camisa masculina.
- Um mal necessário. Eu troquei. Preferia pegar uma pneumonia e me dar mais trabalho? - Vou tomar banho no banheiro lá de baixo, use o desse quarto e tome banho. falou Noah jogando o pijama rosa bebê sobre a cama e duas pantufas de coelhinho.
- Que sujeito prepotente. Sussurrou. era melhor obedecer, Noah não parecia muito, do tipo que se pode contrariar. À contra gosto, Melissa marchou até o banheiro e enquanto a àgua caía se permitiu relaxar, pelo menos ele não era o velho. Era o homem mais sedutor que havia visto, do tipo capa de Revista da Forbes, daqueles que mandam e não costumam ouvir nãos.
O Sol emergia, quando Melissa despertou e encontrou Noah observando-a sentado em um sofá de frente para a cama, imaginou que ele se quer tivesse tirado um cochilo. Talvez a ideia de dormir no mesmo quarto que ela o atormentasse. Quem ele pensava que era? Ela deveria se sentir enojada por respirar o mesmo ar que ele. Ele a comprou só pra se divertir. Só para debochar de seu padrasto.
- Você mora aqui? Perguntou encarando-o.
- Você acorda sempre tão arisca e rebelde? Debochou Noah.
- Por quê me comprou, pra se divertir me torturando? Minha família já fazia isso com frequência. Melissa parecia indignada - Família! A quem estou querendo enganar, eles nunca se importaram. Sorriu virando o rosto e escondendo as lágrimas. Não daria a Noah o prazer de vê-la ainda mais humilhada.
- Não moro aqui, pra ser sincero não sabia o que fazer e o Hotel Esplendor pareceu a ideia mais viável para alguém carregando uma maluca desmaiada. Ria Noah pensando na situação. - Liguei para o Dr. Fonseca porque confio em sua discrição e sabia que isso não viraria um escândalo de primeira página nos sites e revistas de fofoca. Ele concordou em atendê-la aqui e o resto você pode completar. E te aceitar como pagamento, foi uma ideia de momento. Pensei que você seria mais divertida... Mas...
- O que vem agora? Vai me prender numa coleira como um cachorrinho? Refutou Mellisa com desdém.
O telefone de Noah vibrou sobre a mesa e ele se levantou do sofá que estava de frente para a cama onde Melissa o encarava agora sentada sobre a cama e mal humorada.
- Cancele tudo Morgana, avise que estou indisposto e não irei a empresa hoje. E desligando o celular voltou a olhá-la.
- Mentir é um hábito para você "Senhor eu mando em todo mundo"?
- Já experimentou carregar um saco de batatas desacordado? Minhas costas doem, precisaria de um guindaste e 10 homens pra te levantar. Noah divertia-se com Melissa.
- Poderia ter mandado seu motorista me carregar. Gritou ela com raiva.
- E como eu poderia jogar na sua cara que fui eu que te carreguei? Ria Noah.
- Quero voltar pra casa. Posso trabalhar para você até quitar a dívida do meu padrasto. Eu já acabei o ensino médio. Propôs Melissa.
- Imagino que nem em um milhão de anos pagaria o que ele me deve. Ele perdia todas as noites. Só lhe restava as filhas para apostar... Respondeu Noah em tom sério. Se dirigindo à porta da suíte e trancando-a.
- O que está fazendo? Abra a porta. Gritou melissa assustada levantando e correndo até a porta.
- Não se canse gritando, todos nesse Hotel obedecem às minhas ordens, sou sócio majoritário. Noah calmamente sorriu e tomou uma dose de whisky, que descansava com cubos de gelo sobre uma mesa de canto. - Se quiser a chave pegue-a aqui! E com divertimento colocou a chave dentro de sua cueca box.
Melissa enfurecida investia contra ele em busca da chave, como não conseguia deu-lhe um tapa, então ele segurou seus pulsos firmemente e a jogou sobre a cama. Ela o encarava com medo engasgando em sua garganta, examinando Noah, que parecia furioso.
- Nunca mais repita isso. Disse em tom baixo ficando de costas para Melissa. - Se eu disser para você ficar de joelhos, você fica; se eu mandar você beijar meus pés, você fará, entendeu? Sua vida está nas minhas mãos, não vai querer me ver de mal humor.
Melissa se encolhia à medida que Noah a olhava. Com seu corpo musculoso e ágil, aqueles olhos gélidos, a voz compassada e emoções oscilantes a fizeram questionar sobre o que ele seria capaz de fazer com ela se ela o irritasse novamente. Seus pulsos ainda doíam e estavam vermelhos onde Noah havia apertado. Lágrimas brotaram em seus olhos. Por fim assentiu: - Sim, Senhor.
Noah voltou a encará-la e então notou uma cicatriz enorme e profunda em seu rosto que descia da orelha até o queixo. O estresse das últimas horas impediu que ele notasse uma marca tão visível. Ele sentou-se ao lado dela na cama e ela se distanciou.
- Como conseguiu essa cicatriz? Questionou Noah curioso.
Melissa continuou em silêncio agora de cabeça baixa, de modo que Noah mal conseguia ver seu rosto. Apenas podia ver as lágrimas que molhavam o colchão da cama, as pequenas mãos trêmulas e o semblante pálido de Melissa indicavam que ele tinha entrado numa zona perigosa, mas ele era do tipo que estava preparado para qualquer ataque de raiva da moça.
- Responda Melissa.
- Foi Mariah. Minha irmã. Eu tinha 9 anos e ela tinha 8, estávamos brincando na escada da nossa casa no interior. Mariah queria o meu espelho e eu me negava a dar meu único brinquedo a ela. Ela sempre tinha tudo. Mariah ficou furiosa e me empurrou escada abaixo eu cai e bati a cabeça no degrau, e o espelho se partiu em vários pedaços se soltando da moldura. Mariah viu o sangue escorrendo do meu rosto, ela pegou um dos cacos de espelho e disse que eu nunca seria tão bonita quanto ela, então ela desfigurou meu rosto. Não fui ao hospital, mamãe temia que fizessem perguntas, alguns cortes não foram tão profundos e curaram com o tempo, mas esse... não podíamos pagar por uma cirurgia plástica e com o tempo mamãe e Mariah, pareciam ter esquecido e até se divertiam me culpando por não ter dado o brinquedo e fazendo piadas sobre a cicatriz.
- Ainda dói? Questionou Noah tocando levemente a cicatriz.
- Não fisicamente. Não, agora já não dói tanto. Antes sim. Ninguém queria fazer amizade com uma criança marcada como eu. Todos sussurravam baixinho quando eu passava. Na escola zombavam de mim e com o tempo deixei de ser Melissa e passei a ser Frankeinstein. Sussurrou Melissa de cabeça baixa e as lágrimas ainda fluíam. - Quando eu chegava em casa chorando mamãe me castigava e me chamava de monstrinho.
- Noah levantou o rosto de Melissa, ele agora exibia uma expressão visível de tristeza.
- Não pense que eu quero sua pena, essa é a expressão que mais me maltrata, as pessoas na rua sempre que me viam comentavam que eu seria tão bonita sem essa cicatriz, eu jurei que nunca mais deixaria que sentissem pena de mim. Nunca mais passaria os dias trancada no banheiro chorando e me atormentando.
Melissa se desvencilhou da mão de Noah que repousava em seu rosto e seguiu para o banheiro. Contemplou sua imagem destruída refletida no espelho. Fazia tanto tempo que ela evitava espelhos, que se quer percebera o quanto o tempo havia passado. Seu corpo havia mudado. E ela percebeu que não se parecia em nada com o corpo franzino de Mariah, ela tinha curvas e até mesmo o pijama as enfatizava. Ela se quer percebera antes por que sua mãe fazia questão de comprar roupas velhas em um bazar, geralmente eram feias e folgadas. Abriu a torneira da pia e deixou que o barulho de água abafasse seus soluços. Ela jamais se perdoaria por ter contado a Noah sobre a cicatriz. Ele usaria isso para torturá-la como todos faziam.
- Hermes, providencie roupas e produtos de higiene para Melissa. Ordenou Noah ao telefone desviando o olhar de Melissa que saía do banheiro como uma flor que acabava de murchar.
- Não quero nada seu. Sussurrou Melissa temendo contrariá-lo.
- Serei sincero mais uma vez, não pense que está em posição de opinar, não espere que eu desenvolva sentimento algum, não crie expectativas, e o único motivo pelo qual eu aceitei você foi para provocar meu avô, me livrar de Helen Rivas e abafar meus últimos escândalos na mídia, será uma jogada única para abater 3 coelhos de uma vez. Enquanto estiver ao meu lado não lhe faltará nada, entretanto sua vida não será fácil. Nos casaremos em 1 hora no cartório da rua Rivera, nós não teremos nenhum tipo de relação, eu estarei com quem quiser e quando quiser, não se iluda imaginando ter direitos sobre mim.
- Por que eu Noah?
Batidas à porta, distraíram Noah. - Entre Hermes. Ordenou Noah com uma entonação agressiva.
-Aqui está Senhor! Com sua licença vou aguardar no carro. Falou Hermes colocando algumas caixas sobre a cama e como se estivesse pisando em brasas saiu às pressas, temendo um ataque de fúria do chefe.
- A resposta é simples, porque você é o oposto de Helen em todos os aspectos, e meu avô odiaria tudo em você. Eu tornarei seus dias perturbadores, e espero que me odeie, por que assim será mais fácil. Respondeu ao questionamento de Melissa aproximando-se dela.
- Eu nunca pensei que fosse casar e jamais nessas circunstâncias. Eu não posso aceitar. Você é repulsivo Noah. Gritou Melissa em tom agressivo. Respirar o mesmo ar que Noah era exaustivo, nem em sonhos ela tinha idealizado estar em uma conversa com alguém como ele. E agora ela o veria com frequência, seria a esposa dele e isso estava provocando certo mal-estar. Poderia argumentar que não tinha idade para casar, mas seria uma mentira, pois ela havia completado 18 anos 3 dias antes. Como escaparia dessa situação? - E se eu me recusar? Questionou com rispidez.
Noah chegou ainda mais perto, fazendo Melissa gelar. Sem expressão alguma ele começou a tocar os botões do pijama rosa que melissa trajava e puxou com agressividade exibindo seus seios volumosos, continuou rasgando enquanto Melissa pedia que ele parasse. Jogou-a sobre a cama e começou a abrir as caixas que Hermes havia deixado lá.
- Pare, por favor! Gritava Melissa em meio as lágrimas. Nua e constrangida. Então esses seriam os seus dias a partir de agora? Se questionava internamente temendo o que Noah faria com ela. Ela sabia que ele já a tinha visto nua, porque tinha trocado suas roupas enquanto estava desmaiada, mas agora era ainda pior.
- Vai se vestir ou prefere que eu faça? Perguntou Noah jogando as roupas sobre ela. - Estamos sem tempo Melissa.
Melissa assentiu à contragosto. - Eu faço. Mas eu não estou com meus documentos, acho que foram nas coisas da minha mãe e ela está no exterior.
- Estão comigo. Seu padrasto me entregou junto com o endereço. Acho que queriam se certificar de que você não iria atrás deles. Argumentou Noah, se suavizando.
- Eles sabem do casamento?
- Não mesmo. Riu Noah após responder ao questionamento de Melissa.
Melissa entrou na lingerie clara, depois no vestido branco às pressas e colocou um par de sapatos baixos ao invés dos de salto alto que estava numa das caixas, o vestido não era extravagante, era discreto, se limitava nos joelhos e ajustava-se as suas curvas recém descobertas, não haviam detalhes, mas destacava seus seios fartos. Quanto ao cabelo ela não podia fazer muito. Estava crescendo a alguns meses, entretanto não passavam do pescoço, sua mãe nunca permitia que crescessem para não ficarem mais bonitos que os de Mariah. Ela apenas fez um coque e decidiu não perder tempo com maquiagem, ela nunca usou nem mesmo um batom, sentia vergonha só por estar em um vestido. Hermes tinha trazido tantas caixas que ela se quer conseguiu abrir todas.
O brilho dourado de uma sacola chamou sua atenção, ela abriu e encontrou um perfume. Depois de sentir a fragrância decidiu usá-lo e se deliciar com o cheiro doce. Isso afugentava seus temores sobre a ideia de Noah querer consumar o casamento. Ela nunca beijou ninguém, e agora estava noiva de alguém que nem conhecia, um noivado e casamento instantâneos. A mãe dela preparou por meses Mariah, e ela teria que lidar sozinha com todo esse caos, sendo que ela nunca pediu por isso. Ela cofiaria nas palavras de Noah sobre não haver nada entre eles? Isso seria o bastante? Passar a vida como Noah a aterrorizava.
Antes de saírem do quarto Noah subiu a camisa revelando um revólver preso à calça social e sussurrou: - Não me irrite hoje. Você dirá sim e será a esposa mais doce do universo. Acha que pode ser convincente?
- Si.. si.. quero dizer, sim senhor... Afirmou a moça tremendo e gelada, fitando o brilho cintilante da arma que ele agora girava na mão dele. Era incrível como ele ficava sedutor e ao mesmo tempo diabólico. Seus olhos azuis gelados, eram tão penetrantes que pareciam perfurar qualquer coisa. Melissa se sentia tão simples perto dele, seus olhos eram verdes, mas quem repararia em seus olhos com uma cicatriz tão grande no rosto? Seu cabelo negro que na infância era invejável, agora era curto e sem vida. Ela respirou fundo enquanto observava a paisagem a sua volta, São Paulo com seus prédios imponentes, o centro da cidade, ela nunca esteve ali, sua mãe sempre evitava que ela saísse de casa. O bairro que Melissa morava era quieto, as vezes ocorriam assaltos, porém não eram frequentes. O centro da cidade era caótico e a fachada do cartório já podia ser avistada. Seu coração saltava à ponto de rasgar o peito e quando pensava em olhar pra Noah seus olhos instintivamente se fixavam nos seus pés.
No carro Noah não disse uma única palavra e Melissa não estava disposta a irritá-lo. Não entendia de calibre de armas de fogo, mas se ele tinha uma, saberia usar. Ela não serviria de alvo. O plano seria obedecê-lo e fugir quando surgisse a chance. O cartório estava vazio quando eles chegaram e as testemunhas foram os seguranças de Noah. Melissa mal conseguia se concentrar nas palavras da juíza e evitou não rir ao ouvir o discurso de "o que Deus uniu ninguém separe e blá blá blá. Mas ao final disse sim. Ela e Noah colocaram as alianças e Noah a beijou no rosto.
A juíza parecia tão cansada quanto eles, que sequer notou o clima nada feliz da noiva. Na certa deve ter imaginado que o casamento era pra esconder uma gravidez indesejada ou já havia ouvido tanto sim em um dia, que pouco importava o sorriso da noiva em questão.
A ideia de retorno com seu esposo fazia a bile subir até sua garganta, o medo crescia e fazia ondas em seu sangue, à medida que o carro parava no sinal, ela sufocava.
Noah estava quieto, Melissa não pensou duas vezes, assim que o carro parou, ela abriu a porta e correu para o outro lado da avenida, na direção de uma pracinha. Ela correu, tanto que por um momento quase caiu. Conseguiu entrar em um bosque de árvores e sentou no chão. E então se permitiu desabar. Vomitou tanto que se sentia fraca. Sua mente não processava nada, aquela situação tinha a levado ao limite. Não conseguia nem mesmo fugir, suas pernas a traíram, seu coração doía tanto que por um segundo desejou um infarto fuminante. - Você é ridícula Melissa. Repetia para si mesma. Era a sua chance de ir embora, e daí se precisasse dormir na rua e pedir esmolas pra comer? - Vamos Melissa, corra, fuja! Sem sucesso ela tentava comandar suas pernas, se Noah a pegasse seria castigada e morrer não estava nos seus planos mesmo tendo uma vida tão medíocre.
- Você agora é Melissa Avelar, devia se sentir orgulhosa, muitas queriam estar no seu lugar. Ser a esposa de um dos homens mais ricos do mundo. Helen vai querer matar você, ela tem se tornado uma pedra no meu caminho, me perseguindo em todos os eventos, uma única noite de sexo fez ela pensar que seria a senhora Avelar. Disse Noah com desdém se inclinando e tocando levemente em seu ombro.
- Qual a vantagem disso, eu deveria marchar sorrindo ao inferno? Sussurrou e vomitou novamente. - Me deixa com um dos seus seguranças ou sozinha. Não tenho para onde fugir, só não me faça ter que olhar pra você, ouvir, não suporto suas mãos em mim. Segundos atrás me senti patética, só agora percebo que você é ainda mais. O grande Noah Avelar, pra mim não passa de um idiota sujo, arrogante e inescrupuloso que brinca com a vida das pessoas para se sentir superior. Sussurrou Melissa admirada de sua própria coragem, ela se quer havia percebido Noah chegar e logo após vinham os dois seguranças que haviam testemunhado o seu fracassado casamento.
Noah ignorou um casal de idosos que passava com roupas de caminhada e uma garrafinha de água. Levantou Melissa que protestava aos gritos e a carregou nos braços até o carro que agora esperava no acostamento com Hermes buzinando freneticamente.
- Noah seu cretino! Repetia Melissa enquanto estapeava as costas de Noah que parecia estar levando uma pena sobre os ombros.
- Você não imagina o que te aguarda. E jogando-a no carro, sem nenhum esforço ou expressão no rosto, fechou a porta e ordenou que Hermes seguisse para o hotel.
O trajeto parecia que duraria uma eternidade, Melissa agora olhava para Noah, que encarava o relógio. E quando não estava atento ao relógio, olhava as notificações no celular. Parecia tão cansado quanto ela, ainda assim sua postura aristocrática era invejável. Os bancos de couro pareciam realçar seu terno preto, e a gravata vermelha de seda combinava com a expressão de raiva cada vez que olhava para Melissa, que agora havia quase desistido de lutar.
O dia foi estressante e passou rapidamente enquanto ela enchia Noah de perguntas, se quer almoçaram. O casamento ocorreu as 16 horas. E já eram 18 horas quanto retornaram ao hotel Esplendor.
Enquanto subiam o elevador com destino à cobertura, Noah parecia estar distraído, seus seguranças e motorista se divertiam com os últimos acontecimentos, algo que podia ser notado pela forma que se entreolhavam. Ao retornar ao apartamento o silêncio foi quebrado, Noah abriu porta e ordenou que deixassem-no sozinho com Melissa. Tirando o terno, atirou sobre o sofá da sala no andar de baixo. Desabotoou o relógio e lançou sobre o balcão do mini bar juntamente com o relógio e o revólver que puxou da calça. Pegou um copo, colocou whisky, gelo e virou de uma vez. A irritação era visível, ninguém jamais o contrariou como Melissa fez nas últimas horas.
Melissa esperava seu castigo como um coelho encurralado por um cão de caça. Noah veio até ela e com violência a puxou pela cintura, atirou-a no chão do quarto, abriu a porta do armário de roupas, e verificou o espaço, Melissa cabia ali perfeitamente. Quando ela levantava-se com os olhos marejados, seu esposo a jogou no armário e trancou. Por horas a moça bateu socou a porta de madeira pesada do armário e se quer se movia, fraca, com fome e sem forças ela adormeceu, a noite passava e ela sequer tinha noção das horas e tudo que havia comido foi na noite anterior. Ela despertou com o calor dentro do armário escuro, parecia estar sufocando, o ar-condicionado não entrava no seu confinamento, sua barriga roncava, ela se permitiu dormir novamente e não ouvia nem sussurros de Noah.
- O que quer? Estou ocupado agora. Noah falava com rispidez com o avô ao telefone. Desde que chegara do seu trágico casamento entrou numa sucessão de vídeo conferências para compensar as reuniões canceladas.
- Estava me perguntando em que tipo de escândalo você estaria metido agora. Prostitutas; drogas ilícitas; apostas? Inqueriu o avô.
- Nenhuma das hipóteses. Agora me deixe beber em paz. E Sem mais motivos para continuar o diálogo Noah desligou. E Voltou a beber outro copo de Whisky. Estava quase adormecendo quando ouviu gritos, eram os gritos de Melissa, mas havia algo diferente. Ele deixou o copo sobre a mesinha de revistas e seguiu para o quarto. Havia esquecido que a trancara no armário.
Quando abriu a porta. A moça estava encolhida no canto, e chorava desesperadamente, seu cabelo estava suado e colado na testa, ele tentou tirá-la do armário mas ela se debatia, febril, delirava e repetia coisas que fizeram Noah sentir que exagerou no castigo.
Ele esqueceu que não haviam tido refeição alguma o dia inteiro, e que na noite anterior o médico havia dito que ela estava anêmica e desidratada. Sem hesitar tomou o corpo da garota nos braços e colocou-a sobre a cama. Havia hematomas em suas mãos provavelmente ela teria dado murros para tenta sair do armário.
- Mamãe, eu tenho medo, por favor me tire do freezer, está frio e escuro. Mamãe eu prometo que não trarei nenhuma amiga aqui, por favor mamãe. Estou congelando! Os gritos aumentavam e chegavam a ser insuportáveis. - Mamãe por que você está me chutando? Mamãe você me odeia? Mamãe o meu nariz está sangrando... Repetia Melissa em seus delírios e apertava os braços ao redor de Noah que não sabia o que fazer. Ele sentou na cama, envolveu-a nos braços abraçou forte.
- Tudo bem Melissa! Você está segura. Noah sussurrou em seu ouvido diversas vezes e os gritos pareciam se dissipar.
Pela primeira vez em anos ele sentiu compaixão, esse sentimento o deixava vulnerável e ele já não se sentia tão humano desde que foi morar com seu avô aos 7 anos, após a morte de sua mãe. Raissa era uma professora de música clássica e seu avô nunca aceitou que o filho Felipe Avelar abandonasse tudo para casar com ela, por 7 anos se esconderam de seu avô Fernando Avelar, até que uma noite ele encontrou o filho trabalhando em uma lanchonete no subúrbio. Desesperado para ir até a família o pai de Noah fugia dos seguranças no carro da lanchonete quanto capotou e veio à óbito. Sua mãe desesperada foi até o rio próximo da sua casa e se afogou, Noah foi levado até o avô pelos seguranças e desde então preparado para assumir o lugar de seu pai. Agora sua maior vingança era repetir os passos de seu pai, casando com uma moça pobre e estava jogando tão sujo que se quer considerou os sentimentos da garota.
- Eu espero que um dia você me perdoe, Melissa por te arrastar para toda essa bagunça. Está certa em tudo, serei o seu maior inferno. Você é tão bonita mesmo com essa cicatriz, mas não teve muita sorte na vida. Sussurrou tirando a franja do rosto dela e colocando atrás da orelha. Acomodou a cabeça dela no travesseiro e ligou para o médico, que parecia levemente irritado por ter sido incomodado fora de horário novamente.
Após o Dr. Fonseca administrar o medicamento antitérmico injetável, Noah retornou a sala. Não queria discutir novamente com ela e seus olhos pesavam. Ordenou que trouxessem uma refeição ao quarto da garota, se jogou no sofá, sentiu as chaves incomodando no bolso, tirou o molho de chaves e jogou sobre a mesa de centro à frente do sofá.
Melissa acordou e olhou para o relógio do criado mudo marcando 3 horas da manhã, observando à sua volta, encontrou comida e água no quarto. Ela juntou alguns produtos de higiene e decidiu tomar banho, seu cabelo emplastado exalava o odor de suor e sua cabeça doía. Ela olhou para uma receita médica sobre a cama, mas logo ignorou e seguiu para o banheiro. A sensação de limpeza era maravilhosa e relaxante. Quando saiu do banho vestiu uma camisola preta de seda que estava sobre a cama e comeu a refeição deixada para ela. Depois de escovar os dentes desceu as escadas da suíte a procura de Noah para saber como ela saiu do armário e dizer pra ele que fugiria na primeira oportunidade. Na verdade, ela estava inquieta e precisava de respostas.
Ele descansava no sofá com uma calça moletom e camisa branca. Daquele jeito não parecia nada com o mar tempestuoso que era. Por minutos ela observou sua respiração, se aproximou, e sentiu seu perfume que lembrava madeira e chuva. Então veio a imagem dele beijando seu rosto no cartório ela se aproximou dele, olhá-lo assim tão sereno era algo que despertava sua curiosidade.