Ximena Griffin não sabia quantas vezes havia discado o número de Ramon Mitchell na última hora, mas todas as tentativas foram em vão.
Ela acabara de dar à luz o filho dele. Como ele podia ser tão insensível?
O cobertor branco do hospital se amassava em suas mãos, a visão embaçada. Ela mordeu o lábio inferior com tanta força, de tanta exasperação, que a pele se rompeu e o sangue apareceu. Lá fora, ouvia-se fracamente alguém exigindo que o médico mantivesse o bebê vivo. Naquele momento, lembrou-se: hoje era o casamento dele com outra mulher.
Sabia que Ramon só queria ficar com a criança, não com ela.
Ele já tinha até um nome para o recém-nascido e uma nova mãe para substituí-la.
Que absurdo!
Segurando as lágrimas e suportando a dor excruciante que tomava conta do corpo, Ximena apertou o bebê contra o peito.
De repente, a porta da sala de parto se abriu pelo lado de fora. Um grupo de pessoas invadiu o ambiente, entre elas, Melanie Griffin.
A cor desapareceu do rosto de Ximena. Ela puxou o filho para mais perto e lançou um olhar de fúria para as pessoas à sua frente.
Melanie a encarou com desdém e falou, pontualmente: "Me dê o bebê, Ximena. É o que você deve à minha irmã. Se algo acontecer com essa criança, Ramon vai matar você."
"Eu não fiz nada contra a Lyla!" Ximena retrucou, a voz carregada de força.
Impávida, Melanie zombou: "Isso não importa mais. Se Ramon acredita que a culpa é sua, então a culpa é sua! Me entregue o bebê. Ele vai ajudar Lyla a entrar para a família Mitchell e se tornar a esposa dele. Minha família vai comemorar. Quanto a você... vai apodrecer na cadeia pelo que fez com ela!"
"Não! Não tenho nada a ver com o que aconteceu com sua irmã! Você não pode levar meu filho!" Ximena se recusou, veemente.
Ela era inocente! Por que Ramon acreditaria naquela bobagem e a castigaria assim?
Era uma injustiça! Carregara a criança em seu ventre por nove meses e a amava de todo o coração. Nunca permitiria que a levassem.
Com as mãos trêmulas, Ximena pegou o celular e discou o número de Ramon repetidamente, sem sucesso. Por fim, a linha dele foi desligada.
Melanie escarneceu: "Acha mesmo que Ramon vai atender? Pare de sonhar. Você nunca passou de uma ferramenta para ele. Agora que cumpriu seu papel e teve o bebê, ficou inútil. Ramon se divorciou de você porque sentia nojo, e prefere se casar com Lyla, mesmo ela vegetando, a ficar com você. Acorde, Ximena. Ramon nunca a amou."
As palavras de Melanie fizeram o coração de Ximena se estilhaçar. Não conseguia acreditar que Ramon fosse capaz de tanta crueldade. Os dois anos de casamento não significaram nada para ele, e ela não passara de um degrau para Lyla ascender à família Mitchell!
Subitamente, uma dor aguda se espalhou pela parte inferior do abdômen. Ximena gemeu, entre o horror e o choque. Parecia que seu corpo todo estava sendo rasgado. Então, sentiu o sangue escorrer pelas coxas, descendo pelas pernas até manchar o piso branco. A respiração ficou ofegante, como se fosse desmaiar a qualquer instante.
A enfermeira deu um suspiro ofegante e gritou, em pânico: "Ela está tendo uma hemorragia!"
Melanie apenas observou Ximena desfalecer lentamente no chão e ordenou: "O que estão fazendo aí paradas? Peguem o bebê! Rápido, ou todos vão se arrepender!"
A criança nos braços de Ximena foi arrancada às pressas.
Ximena desmaiou e caiu no chão, o sangue formando uma poça ao seu redor, mas ninguém do grupo que invadira a sala pareceu importar-se.
Informados sobre o estado de Ximena, a equipe cirúrgica do hospital correu para preparar um termo de consentimento para operá-la, mas ninguém se dispôs a assinar.
Todos sabiam que Ramon não amava Ximena. Ela e o filho eram apenas peões para ajudar a amada de Ramon, Lyla Griffin, a casar-se com um Mitchell.
Ninguém se importava com a segurança dela, pois Ramon já a tinha descartado. Para aquelas pessoas, sua morte seria um desfecho muito mais conveniente.
Pouco depois de Ximena ser levada à sala de emergência, o médico saiu e anunciou, com desânimo, que ela não tinha mais sinais vitais. Melanie não pareceu surpresa e saiu imediatamente com o bebê.
As luzes fortes do corredor acentuavam o vermelho do sangue de Ximena no chão.
Ao lado, jazia o termo de consentimento negligenciado, manchado de sangue.
Contudo, mal Melanie e os outros se foram, o atendente médico saiu correndo da sala de emergência e disse ao doutor: "Temos um problema, doutor! A paciente... ainda há mais dois bebês no útero dela..."
Quatro anos após aquele dia fatídico, um menino adorável estava sentado em silêncio em seu quarto, na mansão da família Griffin.
O garoto tinha olhos profundos e uma expressão fria, o que lhe dava um ar de maturidade além da idade. Tudo em seu rosto parecia perfeito, exceto pela marca tênue de um tapa na bochecha.
A porta subitamente se abriu, revelando Melanie com um vestido vermelho de alta-costura e saltos finos.
A maquiagem impecável não escondia a irritação ao ver o menino ainda sem trocar de roupa para o evento. "Os convidados estão aqui, Neil. Vista sua roupa social agora e venha comigo."
"Não vou sair", respondeu Neil Mitchell, com frieza.
Melanie franziu a testa, aproximando-se do garoto com passos zangados. "Eu disse para você vestir a roupa agora!"
"Não quero!" Neil encarou-a, a face inchada bem visível.
Melanie ferveu de raiva. Seu olhar ardente caiu sobre o castelo de Lego que Neil construíra, e ela o derrubou com a mão, provocando um estrondo.
Neil observou, incrédulo, enquanto o brinquedo se esfacelava no chão. Lágrimas brotaram instantaneamente em seus olhos. Enxugando-as, ele gritou: "Tia Melanie! Passei a noite toda montando isso. Por que você derrubou?"
Ouvir a palavra "tia" deixou Melanie ainda mais furiosa. Era um lembrete constante de que tudo o que conseguira até ali devia-se a Neil.
Com os olhos gelados, ela disse: "É o que você merece por ser teimoso. Agora, desça."
"Eu odeio você!" Neil sibilou, pegando as roupas sociais do chão e arremessando-as na direção de Melanie.
Imediatamente, ela agarrou seu pulso e encarou-o nos olhos. "Ouça bem, Neil. Você estaria num orfanato se não fosse por mim. Então, não me importo se você me odeia, mas vai ter que aguentar até o fim da festa e até o último convidado ir embora. Caso contrário, vou mandá-lo direto para o orfanato!"
Era a primeira vez, em quatro anos, que Ramon organizava uma grande festa de aniversário para Neil.
Mas, para Melanie, aquela era uma oportunidade preciosa de se aproximar dele depois de tanto tempo. Jamais permitiria que aquele garoto teimoso estragasse seu futuro.
"Se não quer descer, então fique aí para sempre e não apareça mais!" Melanie saiu do quarto em um rompante e trancou a porta por fora.
Imediatamente, o medo tomou conta do rosto de Neil. Da última vez que fora trancado, ficara apavorado porque tudo era escuro e assustador, e só tinha ratos como companhia. O trauma foi tão grande que ele desenvolveu fobia de ficar sozinho e no escuro.
O pobrezinho correu até a porta fechada e começou a bater nela com as mãozinhas, chorando e suplicando: "Tia Melanie, me desculpe! Por favor, abra a porta! Não quero ficar sozinho! Estou com medo! Eu prometo me comportar! Tia, por favor!"
O choro alto e lamentoso de Neil ecoou por toda a mansão, deixando a família Griffin extremamente irritada.
"Quando esse pirralho vai parar de chorar?", perguntou Tracy Griffin, revirando os olhos com impaciência. "Ele é um lixo inútil, igual à mãe morta dele. Que irritante do caralho."
Melanie franziu a testa. "Mãe, não se lembra? Neil é filho da Lyla. O que ele tem a ver com aquela mulher desprezível?"
Os olhos de Tracy se arregalaram. Ela cobriu a boca rapidamente, percebendo o que dissera, e olhou ao redor. Felizmente, não havia mais ninguém por perto. "Quando o Ramon vem buscar você e o pirralho?"
"Já está a caminho, mas o Neil não quer ir conosco", respondeu Melanie.
Entre dentes cerrados, Tracy retrucou: "Pois bem, ele não para de chorar. Arraste-o para fora e dê uma surra, para que aprenda o lugar dele."
"Nem pensar. Se me virem batendo numa criança, imagine o que vão dizer! Mesmo que o Ramon não goste da Ximena, o Neil ainda é filho dele."
Apesar de não gostar do menino, Melanie sabia que ele era o único filho de Ramon e que sua família contava com ele para conquistar o favor dos Mitchell. Se quisesse ficar com Ramon, ainda precisaria usá-lo como trunfo.
Por ora, poderia poupá-lo. Se não se comportasse no banquete de aniversário, lidaria com ele depois.
Enquanto Melanie e Tracy conversavam, Neil conseguiu escapar pela janela do quarto no andar de cima...
De repente, um barulho alto ecoou pela mansão, e todos se assustaram.
"Que barulho foi esse?", perguntou Melanie, apreensiva.
Como se respondesse à pergunta, os guardas lá fora começaram a gritar: "O Neil caiu do prédio!"
O rosto de Melanie empalideceu na hora. "O quê? O Neil caiu?!"
Mal saiu correndo, sua atenção foi atraída por um menino deitado numa poça de sangue. Era Neil.
"O Ramon está vindo buscá-lo! O que eu faço?!", gritou Melanie em pânico.
Naquele momento, dois faróis brilhantes surgiram à distância: o comboio da família Mitchell se aproximava da mansão dos Griffin.
A família olhou para Neil, imóvel na poça de sangue, paralisada de medo. Ninguém sabia o que fazer.
Melanie sentiu o suor frio escorrer pela testa, suas mãos trêmulas. Apesar do pavor, reuniu coragem para correr e parar o comboio, colocando-se bem à sua frente.
"Ramon, aconteceu uma coisa! O Neil caiu da janela!"
Imediatamente, o comboio parou e o pânico tomou conta de todos.
Mal viu Ramon, lágrimas brotaram nos olhos de Melanie.
"Não sei como aconteceu. O Neil insistiu em se trancar no quarto; nunca imaginei que fosse tão descuidado a ponto de cair. Sinto muito, Ramon. A culpa é toda minha. Não cuidei direito dele e -"
"Onde ele está?" Ramon a interrompeu, sem lhe dar outra chance. Sua voz estava carregada de pura raiva.
As mãos ainda trêmulas, Melanie apontou para Neil, coberto de sangue e imóvel.
Os olhos de Ramon ficaram injetados de sangue quando agarrou Melanie pela gola e gritou: "Se algo acontecer com ele, você vai pagar!"
Os olhos de Melanie se arregalaram, em choque. O medo foi tanto que as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
Ignorando tudo, Ramon levou Neil às pressas para o hospital.
O diretor do hospital não perdeu tempo, permitindo que Ramon entrasse com o filho. Neil estava gravemente ferido e precisava de cirurgia imediata. Felizmente, muitos médicos estavam de plantão naquela noite. No entanto, devido à influência dos Mitchell, o diretor decidiu que uma médica renomada, contratada a peso de ouro no exterior, realizaria a cirurgia.
"Doutora Griffin, seu paciente hoje é um menino de três anos. É o único filho do senhor Mitchell, então tenha extremo cuidado durante a cirurgia. Precisa ser bem-sucedida a qualquer custo", exigiu o diretor. "Caso contrário, a morte dele trará sérios problemas ao hospital."
Ximena amarrou o cabelo com indiferença antes de olhar os resultados do raio-X. "Claro, farei o possível para salvar qualquer paciente, seja quem for. Mas espere... senhor Mitchell? Qual?"
"Ramon Mitchell, o homem mais poderoso de Fairedge. Você deve ter ouvido falar dos Mitchell, não?"
Ela cerrou os punhos instintivamente. Mesmo de máscara, a expressão de espanto em seu rosto era evidente. Não esperava encontrar Ramon tão logo após começar a trabalhar naquele hospital. Mas o mais importante: como ele poderia ter um filho?
"O Ramon tem um filho?", perguntou Ximena, surpresa.
"Sim, um menino. Tem três anos.", confirmou o diretor, acenando. "Não lhe falei da situação da criança agora mesmo?"Ximena arqueou uma sobrancelha.
"A ex-mulher do Ramon já faleceu. De onde veio essa criança? Se fosse filho dela, já teria quatro anos."
"O menino é filho da Lyla Griffin. Pouco depois que a ex-mulher do Ramon faleceu, há quatro anos, a Lyla recuperou a consciência. Um ano depois, deu à luz um filho, Neil Mitchell. O menino acabou de fazer três anos."
Ao ouvir aquilo, Ximena sentiu uma pontada aguda no peito. O brilho em seus olhos se apagou no instante em que percebeu que o menino era filho de Lyla.
Ela deixou o avental cirúrgico sobre a mesa e olhou para o diretor. "Senhor, sinto muito, mas não posso realizar essa cirurgia."
Os olhos do diretor se arregalaram. "Por quê? Você acabou de prometer! Por que não pode?"
"Acabei de voltar do exterior e não estou me sentindo bem. Peça ao doutor Young que faça a cirurgia", respondeu Ximena, tentando se acalmar.
Ela não era uma pessoa complacente. Operaria qualquer um, menos o filho de Lyla.
Dito isso, Ximena se virou e saiu. Imediatamente, o diretor saiu atrás dela.
Enquanto isso, Ramon aguardava ansioso do lado de fora da sala de cirurgia pela médica. A demora fez sua raiva atingir o limite.
Quando soube que a cirurgiã-chefe queria desistir, não conseguiu mais se conter e ordenou que os seguranças a seguissem e a confrontassem.
A tensão pairou no ar enquanto Ximena permanecia imóvel no corredor silencioso.
Sentiu um olhar gelado nas costas, perfurante como uma lâmina. Tinha quase certeza de que, se saísse agora, o homem ali atrás não hesitaria em lhe dar uma lição.
Mas e daí?
Há quatro anos, ligara para Ramon inúmeras vezes, e ele se recusara a vê-la pela última vez. E agora, apesar de tudo, ele queria que ela salvasse o filho?
Que ridículo!
Tomada pela raiva, o corpo de Ximena tremeu ligeiramente. Mal se virou, seus olhos encontraram o olhar feroz de Ramon. Ele estava igual a antes: arrogante e insensível. Ela havia esquecido o quanto amara aquele homem outrora. Naquele momento, tudo o que sentia por ele era puro ódio.
"Senhor Mitchell, não estou me sentindo bem hoje, portanto não poderei operar seu filho. Não se preocupe, o doutor Young é um cirurgião experiente. Vou procurá-lo agora", declarou ela com frieza.
Ao ouvir sua voz, o coração de Ramon deu um salto.
Um lampejo de surpresa apareceu em seus olhos enquanto ele caminhava lentamente em direção à mulher, o olhar fixo nela.
Ela usava uma máscara que cobria quase todo o rosto. Apesar do cheiro de desinfetante no ar, Ramon percebeu um odor vago e familiar vindo dela.
"E se eu insistir para que você faça essa cirurgia hoje? O que fará?", exigiu Ramon.
Mal terminou a frase, seus seguranças cercaram Ximena.
A respiração de Ximena se acelerou enquanto franzia a testa e cerrava os punhos. "Não farei essa cirurgia, não importa o que diga. Pode até me matar, mas nada mudará."
O diretor quase perdeu a paciência. Mal podia acreditar que a médica a quem pagava um salário considerável ousasse dizer uma coisa dessas.
Quanto a Melanie, jamais imaginara encontrar alguém mais audacioso que a falecida Ximena.
Olhando para a médica à sua frente, cruzou os braços sobre o peito e franziu a testa. "Quem é você para se achar? Operar o filho de Ramon é um privilégio! Saia desse seu pedestal. Se ousar fazer algo que ponha a vida dele em risco, vai pagar caro pelo resto da vida."
"Se é um privilégio tão grande, faça você mesma", retrucou Ximena sem hesitar.
Melanie não acreditou no que ouvira. Agarrando a mão de Ramon, queixou-se: "Ramon, você ouviu o que ela disse? Se algo acontecer com Neil, a culpa é toda dela."
Ximena soltou uma gargalhada. "Que absurdo! Por acaso fui eu quem o empurrou do prédio? Como pode ser culpa minha?"
As palavras atingiram Melanie em cheio, e seu rosto empalideceu. "Pare de dizer bobagens", disse ela, apressada. "Neil caiu sozinho! Ninguém o empurrou. Você é médica ou não? Não fez o juramento de Hipócrates? Como pode ficar aqui perdendo tempo enquanto um paciente está morrendo na sala de cirurgia? Que rancor você tem contra Neil?"
Virando-se para o diretor do hospital, prosseguiu: "Vocês não fazem triagem ao contratar médicos? Como essa mulher conseguiu trabalhar aqui? Se algo acontecer com Neil, vou processar todo mundo!"
Tremendo de medo, o diretor desculpou-se repetidamente a Melanie e a Ramon. Imediatamente providenciou que o doutor Young realizasse a cirurgia.
No entanto, quando o doutor Young estava prestes a entrar na sala, Ramon o deteve.
Seu olhar feroz então se voltou para Ximena. "Você é quem vai fazer esta cirurgia", ordenou, num tom baixo e perigoso.
Bufando de desdém, Ximena virou-se para ir embora.
Foi esse gesto que finalmente fez Ramon perder a paciência. Com um passo rápido, colocou-se à sua frente e agarrou-a pelo pescoço.
"Ramon Mitchell, seu maldito, me solte!" Ximena xingou, arranhando a mão dele.
Um brilho gélido surgiu nos olhos de Ramon. Poucas pessoas no mundo ousavam falar com ele daquele jeito. Uma delas era sua falecida ex-esposa.
Enquanto encarava a mulher que se debatia diante dele, a fúria ardendo em seus olhos, ele parou por um instante, e a imagem da ex-esposa veio à sua mente. Lembrava-se bem de que Ximena tinha um par de olhos marcantes e belos, exatamente como os dessa médica tão feroz.
Os lábios de Ramon curvaram-se num sorriso sem humor. "Se algo acontecer a Neil hoje, a responsabilidade será sua. Este hospital inteiro vai pagar por isso!"
Como para deixar claro, empurrou a médica para o chão, soltando-lhe finalmente o pescoço.
Sentada no chão, Ximena tossiu algumas vezes. Ainda sentia a dor latejante em seu pescoço, como um aviso persistente. Quando ergueu o olhar para Ramon, os olhos se encheram de lágrimas de rancor.
Apoiando a mão na parede, levantou-se cambaleante e disse, com a voz rouca: "Você vai se arrepender disso!"
Em seu coração, só havia ódio puro por aquele homem e, por consequência, nenhum sentimento positivo pelo garoto na sala de cirurgia.
Porém, ao entrar na sala, seu profissionalismo falou mais alto, forçando-a a pôr de lado os sentimentos pessoais. Não queria direcionar todo aquele ódio a uma criança inocente.
Respirou fundo para se acalmar e olhou para o menino inconsciente na mesa. Seu rostinho estava inchado e ensanguentado pelo impacto, mas tinha um estranho ar familiar.
Claro, Ximena não tinha tempo para divagações. O garoto tinha várias fraturas que precisavam de tratamento imediato.
Três horas depois, a operação terminou.
A cirurgia foi um sucesso, e a equipe médica estava eufórica - todos, exceto Ximena.
Como o garoto era filho de Ramon, não parecia adequado deixá-lo coberto de sangue seco. A equipe insistiu em limpá-lo um pouco antes de levá-lo para fora. Coube a Ximena limpar seu rosto.
Relutantemente, ela pegou um chumaço de algodão úmido e passou no rosto de Neil. Nem percebeu que mantinha os dentes cerrados - tamanho era seu ódio por Ramon e, por extensão, por Neil. Mas, ao limpar as manchas de sangue do rosto do menino, ela parou, congelada.
Com as mãos trêmulas, terminou de limpar o resto daquele rosto pálido. Mesmo após terminar, uma descrença atordoada a invadiu. Como era possível?
"Quem é este menino?", perguntou Ximena, sem fôlego, agarrando a assistente ao lado.
"É Neil Mitchell, filho de Ramon Mitchell, o herdeiro da família Mitchell", respondeu a assistente.
"Neil Mitchell... Impossível!" O rosto de Ximena ficou mortalmente pálido.
O garoto na mesa era idêntico ao seu filho! Como duas crianças poderiam ser tão parecidas?
Seu irmão dissera claramente que ela tivera gêmeos, Shawn Griffin e Alina Griffin, ambos criados por ela. E, no entanto... Como poderia existir um menino tão parecido com seu filho?
Se não eram gêmeos, como teriam uma semelhança tão impressionante?
Ximena sentiu o ar faltar. Só se lembrava de que seu primeiro filho era um menino, que deveria ser Shawn. Mas teria ela dado à luz três bebês?
O suposto herdeiro dos Mitchell seria na verdade seu filho? Seu irmão teria mentido?
Mas por quê?
Baixou o olhar para o menino na mesa. Embora a equipe estivesse limpando as manchas de sangue de seu corpo, era óbvio que ele estava gravemente ferido. Ximena mal suportava vê-lo naquele estado.
Ramon a odiava tanto. Se Neil fosse mesmo seu filho, como poderia ser tratado com bondade por ele?
Ximena apertou o bisturi com força, incapaz de conter a fúria em seu peito. Com os olhos injetados de sangue, saiu correndo da sala de cirurgia.
"Doutora, como está o Neil?" Melanie chorou, correndo e bloqueando o caminho de Ximena.
"Saia da minha frente", rosnou Ximena, em voz baixa.
Só então Melanie notou o bisturi ensanguentado. Deu um grito e recuou instantaneamente, tomada pelo medo.
O olhar de Ximena caiu então sobre Ramon. Fazia apenas quatro anos desde o último encontro, mas ele parecia não reconhecê-la.
Bem, não era surpresa. Dois anos de casamento não haviam sido capazes de se comparar a uma única palavra de Lyla. Se Lyla quisesse algo, mesmo que fosse seu filho, Ramon lho arrancaria sem hesitar. E agora ele tratava seu filho assim. O homem era verdadeiramente sem coração!
Porém, Ximena era perspicaz. Ao olhar em volta, percebeu que estavam cercados pelos seguranças de Ramon.
Reprimindo a indignação, anunciou: "A cirurgia foi um sucesso, mas o menino está com febre. Se a febre baixar em 24 horas, ele estará fora de perigo. Até lá, ficará na UTI. Não são permitidas visitas, nem mesmo de familiares!"
Ximena pediu a uma enfermeira que levasse Neil para a UTI.
O diretor acenou aprovador. "Bom trabalho. Com você aqui, não preciso me preocupar."
"Sou médica. Só estou fazendo meu trabalho." Com essa resposta seca, Ximena virou-se e saiu.
Os olhos sombrios de Ramon fixaram-se em suas costas enquanto ela se afastava. Por alguma razão, o modo como o largo avental cirúrgico caía sobre a figura da médica fez-lhe lembrar a mulher de sua memória...
Melanie seguiu seu olhar e franziu a testa. "Há algo errado com essa médica?"
"Quem é ela?", perguntou Ramon, sem desviar os olhos da figura que se distanciava.
Melanie encolheu os ombros. "O diretor disse que a recrutou no exterior. Ramon, por que está olhando para ela assim? Está interessado? Já esqueceu minha irmã?"
"Chega." Ramon finalmente desviou o olhar, e seu rosto escureceu.
Melanie calou-se, sentindo como se um balde de água fria tivesse sido derramado sobre ela.
"É melhor rezar para que Neil acorde logo. Agora, suma daqui!", rosnou ele.
Melanie rompeu em lágrimas. "Ramon, juro que não foi culpa minha. Você sabe que Neil é arteiro. Eu só quis o melhor para ele. Cuid dele de todo o coração todos esses anos, tratei-o bem, na esperança de que não se afastasse de Lyla. Por causa dela, dei a Neil todo o amor que pude, tratando-o como um filho. Nunca quis que nada de mal lhe acontecesse."
"Pode ir."
Sem sequer olhar para ela ou dar atenção ao seu discurso, Ramon afastou-se com passos largos.
Ao avistar uma enfermeira no corredor, segurou-lhe o braço e perguntou: "Onde fica o consultório da médica?"
A enfermeira sorriu educadamente. "Senhor Mitchell, está procurando a médica que operou seu filho?"
"Sim."
"Siga em frente. O consultório dela é logo ali na esquina."
Ramon soltou-a e caminhou rapidamente em direção ao consultório, sem sequer perceber a velocidade de seus passos.