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Entre sombras e lembranças

Entre sombras e lembranças

Autor:: Hayyru
Gênero: Romance
Após uma infância marcada por maus-tratos e perda, Tayler cresceu sem recordar a bondade que uma vez iluminou seus dias mais sombrios. Anos depois, ele se torna um homem forte e reservado, conhecido por sua habilidade como guarda-costas e sua lealdade inabalável. Seu próximo trabalho o leva de volta à cidade de sua infância, onde ele é designado para proteger uma jovem herdeira, Amy. Amy sempre foi uma alma bondosa, que nunca esqueceu o garoto magoado com quem dividiu alguns momentos preciosos na infância. Quando Tayler surge como seu protetor, ela o reconhece instantaneamente, mas percebe que o menino de olhos tristes e doces desapareceu, substituído por um homem endurecido pelas sombras do passado. Agora, enquanto Amy tenta reacender a chama das lembranças esquecidas de Tayler, eles se veem entrelaçados em um jogo perigoso de memórias e emoções. À medida que o perigo ao redor de Amy cresce, deve confrontar o passado que ele nunca soube que deixou para trás e descobrir se o amor pode florescer mesmo entre as sombras mais profundas. ---

Capítulo 1 Espero que sejamos amigos

Deitado sobre a mesa desgastada da sala de aula, meu olhar vagava pela janela, observando o sol se despedir do dia com seus últimos raios dourados. O sinal já havia soado há muito tempo, e a sala estava deserta, apenas eu e minha fiel companheira, a solidão. Com meros dez anos, órfão e vivendo de favor, eu me encontrava ali graças à piedade alheia, que me garantiu uma bolsa de estudos.

Embora me esforçasse para levar os estudos a sério, as dúvidas se infiltravam em minha mente. Será que realmente valia a pena? O que eu poderia me tornar? A sabedoria, por si só, seria capaz de mudar meu destino em um mundo onde apenas os herdeiros prosperam? Inspirando profundamente, levantei-me da cadeira, percorrendo a sala com o olhar. As lembranças dos colegas, sempre radiantes ao contar sobre suas viagens, presentes de aniversário ou as próximas grandes compras de seus pais, assombravam-me. Eu merecia essa felicidade?

Recolhi meus cadernos, colocando-os na bolsa, e comecei a caminhar em direção ao lugar que chamavam de "casa", uma palavra que para mim soava amarga e vazia.

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Ao atravessar a porta da frente, o relógio marcava dezenove horas. Subi as escadas em silêncio, como de costume. A casa estava mergulhada numa quietude total; Dona Izui já devia ter saído. Ela me acolhera em troca de serviços domésticos, uma barganha que eu aceitei sem hesitar, visto que qualquer coisa era melhor do que viver nas ruas.

Após um banho rápido, desci para a cozinha e preparei um pão com suco, o que me servia como uma modesta refeição. Perdi-me em pensamentos enquanto lavava a louça, até que um movimento súbito me trouxe de volta à realidade. Não percebi que alguém se aproximara. Na casa, além de mim, apenas Dona Izui deveria estar presente. Ao me virar, deparei-me com uma figura feminina que me observava silenciosamente. Ela tinha a pele pálida, olhos cor de mel e cabelos negros azulados que desciam até o quadril. Meu coração quase saltou do peito ao notar que ela se aproximava. Sem pensar duas vezes, corri para meu quarto, sem ousar perguntar quem ela era.

A realidade já me sobrecarregava com problemas suficientes, e sabia que, se Dona Izui não mencionara sua presença, certamente havia um motivo. Deitei-me no colchão, tentando afogar as preocupações no sono, o único refúgio onde podia encontrar uma felicidade ilusória. E assim, entreguei-me aos braços do esquecimento noturno, onde meus sonhos pintavam um mundo onde eu não era apenas um órfão, mas alguém que realmente importava.

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Pontualmente, como de costume, levantei-me às quatro da madrugada, guiado pelo rigor de minhas responsabilidades domésticas que precisavam ser cumpridas antes de ir para a escola. Desci rapidamente as escadas, com a mente já fixada na tarefa de completar meus afazeres o mais depressa possível. Hoje seria um dia diferente; teríamos uma excursão, e eu estava ansioso, quase eufórico. A escola era meu único refúgio, e qualquer oportunidade de escapar da rotina era um tesouro inestimável para mim.

Comecei varrendo e passando pano no chão, a urgência em meus movimentos refletindo minha ansiedade. Separei as roupas sujas e as coloquei na máquina de lavar. Felizmente, a louça já estava lavada desde a noite anterior, o que adiantava meu trabalho. Saí para o quintal e, com mãos ágeis, reguei o jardim e a horta, tirando o lixo e deixando tudo em ordem. Quando terminei, o relógio já marcava seis e quarenta e cinco. Sem perder um segundo, corri para me arrumar e sair.

O ônibus partiria às sete e quinze, e corri o mais rápido que pude pelas ruas ainda adormecidas, mas meus esforços foram em vão. Ao chegar ao ponto de encontro, vi apenas o vazio deixado pelo ônibus que já havia partido. A decepção desceu sobre mim como um manto pesado, e meu rosto não conseguia esconder o desânimo. Senti uma mão suave em meu ombro e me virei, encontrando o olhar compassivo da diretora Miranda Bowen.

- Sinto muito, Tyler, sei o quanto você queria ir - disse ela, sua voz carregada de sinceridade e empatia.

Miranda era uma das poucas pessoas que não me olhava com desprezo. Mesmo sendo herdeira da família fundadora da cidade, tratava-me com uma igualdade que aquecia meu coração. Sua gentileza contrastava fortemente com a indiferença que eu geralmente encontrava.

Sem outra opção, dirigi-me à biblioteca, meu santuário de conhecimento e histórias. Ali, entre as estantes repletas de livros, eu passaria o dia.

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Enquanto caminhava pelas fileiras de livros, uma melancolia suave invadia meu peito. A realidade do dia perdido ainda pesava sobre mim, mas ali, cercado pelo silêncio acolhedor da biblioteca, encontrava uma forma de consolo. Sentado em uma mesa isolada, abri um livro antigo e deixei que as palavras me transportassem para um lugar onde a decepção não podia me alcançar. Em meio ao turbilhão de pensamentos e emoções, permiti-me um breve sorriso. Naquele momento, no coração de tantas histórias, eu não estava mais sozinho.

Perdido no universo silencioso dos livros, não percebi a presença de alguém que me observava atentamente. Estava em meio ao meu quinto livro, ou ao menos fingindo lê-lo, pois na verdade apenas folheava as páginas, parando apenas quando algo realmente capturava meu interesse. Levantei os olhos por um instante e, para minha surpresa, encontrei um par de olhos mel fixos em mim, cheios de curiosidade.

Com um sobressalto, levantei-me, espantado ao vê-la ali. Seria ela alguma sobrinha ou neta de Dona Izui? Ela nunca mencionara nada sobre essa garota. Mas, novamente, Dona Izui raramente compartilhava algo comigo.

Tentei ignorá-la, caminhando em direção às estantes em busca do próximo livro. No entanto, senti sua presença como uma sombra, seguindo-me a cada passo. Continuando meu percurso, sentia-me cada vez mais incomodado e, ao perceber que ela ainda me seguia, virei-me de repente, encarando-a diretamente. Talvez, pensei, se ela se sentisse afrontada, iria embora.

Nossos olhares se cruzaram numa espécie de duelo silencioso. Seus olhos, tão serenos e profundos, eram impenetráveis. Senti um frio na espinha, uma sensação de vulnerabilidade sob aquele olhar inabalável. Não sei quanto tempo passamos assim, apenas nos encarando, mas para mim parecia uma eternidade. Eventualmente, minha determinação fraquejou e fui o primeiro a desviar o olhar. Aqueles olhos me davam arrepios, como se pudessem ver através de todas as minhas defesas.

Sentei-me novamente, fingindo retomar a leitura, mas minha mente estava uma tempestade de pensamentos e emoções. Quem era ela? O que queria de mim? O desconforto crescia, mas também uma curiosidade inquietante. Em meio à solidão habitual da biblioteca, a presença daquela estranha parecia quase surreal, um enigma que eu não sabia como resolver.

Enquanto tentava focar nas palavras diante de mim, sua imagem não saía de minha cabeça. Ela era uma intrusão em minha rotina cuidadosamente construída, um mistério que, de repente, eu sentia uma necessidade quase desesperada de desvendar.

Olhei para o relógio na parede e vi que já se passava das dezessete horas. Resolvi que era hora de voltar para casa. Hoje, Dona Izui sairia mais cedo para um destino desconhecido, então eu teria a oportunidade rara de chegar antes do habitual. Deixei para trás a garota, que continuava a me observar com aqueles olhos curiosos, e segui meu caminho.

Ao chegar, constatei que Dona Izui já havia saído, como esperado, e deixado uma pilha de louça na pia. Subi para meu quarto, e após um banho rápido, desci para lavar a louça. A água morna e o sabão eram um conforto simples, uma rotina que ajudava a silenciar os pensamentos tumultuados.

Já passava das vinte e duas horas quando terminei. Amanhã era sábado, e eu não precisava me preocupar com a escola nem com Dona Izui. Por algum motivo, ela sempre saía na sexta e só retornava no domingo à noite. Esses dias eram uma pausa silenciosa, uma chance para relaxar, claro, depois de deixar tudo em ordem.

Estava acostumado a viver sozinho. Não era algo tão ruim; muitas vezes, a própria companhia é a melhor que se pode ter. Respirei fundo, olhando a sala vazia, imaginando como seria se meus pais estivessem vivos. Será que estaríamos rindo juntos em uma sala como esta? Esses sonhos acordados eram minha fuga da realidade, uma forma de pintar um quadro onde a solidão não existia. Mas o problema dos sonhos é que, eventualmente, precisamos abrir os olhos.

E assim fiz. Porém, desta vez, algo era diferente. Havia alguém ali. A garota de antes, a mesma dos olhos mel, estava presente. Por que ela não havia ido com sua tia ou avó? O que ela fazia ali? Pensei em subir para meu quarto, mas, como se lesse minha mente, ela se adiantou e sentou-se na escada. Inclinando levemente a cabeça de lado e com um sorriso enorme, disse:

- Oi, sou Amy Harper

A surpresa paralisou-me por um instante. Sua voz era suave, mas carregava uma firmeza inesperada. A presença dela, naquele momento, quebrou a monotonia da minha solidão de uma forma que eu não conseguia entender. O sobrenome Harper ecoou em minha mente, trazendo uma mistura de curiosidade e apreensão.

- Tyler - respondi, quase automaticamente, sem saber o que mais dizer.

Amy sorriu ainda mais, e aquele simples gesto parecia iluminar o ambiente ao nosso redor. Aquele encontro, tão inusitado, acendeu algo em meu interior. Eu sabia que não poderia ter contato com ela; Dona Izui certamente não aprovaria. Talvez Amy não soubesse disso, então era melhor deixar claro para evitar problemas futuros.

- Senhorita Harper, eu não posso ter contato com você. Dona Izui não irá gostar, e eu já tenho problemas demais para lidar. Não estou afim de levar bronca da sua tia ou avó, seja lá quem for. Me perdoe se fui arrogante ou algo parecido.

- Oh - sua boca formou um perfeito "O", e logo ela soltou uma risadinha. Aquela risada me causou um frio na barriga, um frio bom, como se uma brisa fresca tivesse entrado na sala.

Seu riso, leve e cristalino, ecoou na sala vazia, quebrando a tensão que eu sentia em meu peito. Havia algo desarmante naquela simplicidade, algo que fazia meu coração bater mais rápido.

- Você não precisa se preocupar com isso - disse Amy, ainda sorrindo. - Eu não estou aqui para causar problemas. Apenas queria conhecê-lo. Tenho ouvido falar de você, e minha curiosidade foi mais forte.

Seus olhos brilhavam com uma sinceridade que eu raramente via. A sensação de desconforto começou a diminuir, substituída por uma curiosidade recíproca. Por que uma Harper, alguém de uma família tão importante, estaria interessada em um órfão como eu?

- Ouvido falar de mim? - perguntei, sem esconder minha surpresa.

- Sim - ela respondeu, sua voz suave como uma brisa de verão. - Ouvi dizer que você é muito inteligente e dedicado. Isso é raro, especialmente considerando tudo o que você passou.

As palavras dela me pegaram de surpresa. Eu não sabia que alguém notava ou se importava com meus esforços. Uma onda de emoções conflitantes tomou conta de mim - gratidão, confusão, e talvez até um pouco de esperança.

- Obrigado, Amy - disse, sentindo-me um pouco mais leve. - Eu... não sei o que dizer.

- Não precisa dizer nada - ela respondeu, levantando-se da escada. - Só queria que soubesse que há pessoas que percebem seu valor. Você não está tão sozinho quanto pensa.

Com essas palavras, Amy deu um passo em direção à porta, mas antes de sair, olhou para trás e acrescentou:

- Espero que possamos ser amigos, Tyler. Até logo.

Ela saiu, deixando-me sozinho na sala, mas agora com uma sensação diferente. A solidão habitual tinha sido substituída por uma nova perspectiva. As palavras de Amy ecoavam em minha mente, oferecendo um vislumbre de que talvez, só talvez, eu não estivesse destinado a viver sozinho para sempre.

Continua............

Capítulo 2 Fique longe da minha sobrinha

O sábado chegou, trazendo consigo uma breve sensação de liberdade. Desci para preparar algo para comer, mas ao chegar à cozinha, fui surpreendido por uma mesa elaboradamente posta. Havia várias iguarias que eu só podia imaginar o sabor. A ponta da mesa estava ocupada por Amy, que, ao me ver, soltou um sorriso radiante. Sem perceber, retribuí o sorriso, sentindo uma inesperada sensação de calor e aceitação.

No entanto, meu sorriso desfez-se abruptamente quando Dona Izui entrou na sala. Seus olhos estavam carregados de uma fúria que eu conhecia bem. Baixei a cabeça e a reverenciei, um gesto automático de submissão que fazia parte de minha rotina diária. Eu não sabia o que esperar, mas um pressentimento ruim se formava em meu peito.

O impacto veio sem aviso. Um tapa ressoou contra meu rosto, e fiquei paralisado, atônito. O grito de Amy foi o único som que quebrou o silêncio do momento. Antes que eu pudesse reagir, outro tapa me atingiu, seguido de um chute. A dor era intensa, mas a impotência de não poder fazer nada a tornava ainda mais aguda. Minha sorte era que Dona Izui estava envelhecendo, e seus golpes não tinham mais a força de outrora.

Ajoelhei-me no chão, esperando pela sequência inevitável de repreensões. Dona Izui permaneceu em silêncio, e esse silêncio era, de fato, mais angustiante do que qualquer castigo físico. Os minutos pareciam se arrastar como horas, e a tensão no ar era palpável.

Finalmente, ela rompeu o silêncio com uma voz carregada de desprezo e rancor.

- Não quero que chegue perto da minha sobrinha - ela começou, sua voz cortante como uma lâmina. - Ela é uma Harper, uma das famílias que mantém essa cidade viva, e você? Não passa de lixo. Então ponha-se no seu lugar.

As palavras dela eram como uma sentença, fria e cruel. Sentia-me encolhido sob o peso daquelas palavras, a humilhação misturada com uma dor física que parecia se fundir com a dor emocional. Amy, que antes havia representado uma promessa de algo melhor, agora estava associada ao meu sofrimento. A diferença de status entre nós, tão brutalmente exposta por Dona Izui, era um lembrete cruel da minha própria insignificância.

Enquanto Dona Izui se afastava, os olhos de Amy se encontraram com os meus. Havia uma tristeza profunda em seu olhar, um reflexo da dor que eu sentia. Em meio ao caos, o calor daquele sorriso agora parecia uma memória distante, quase uma ilusão. O silêncio que se seguiu era esmagador, e a solidão que me acompanhava parecia mais implacável do que nunca.

Passou-se um mês desde que Dona Izui, com sua autoridade implacável, me repreendeu severamente por minha ousadia. O peso de minha insubordinação dobrou a carga de meu trabalho, e como punição, só me é permitido adentrar a casa após as 22 horas. Desde então, vagueio pelas ruas desertas da cidade, um espectro solitário, observando o fluxo incessante da vida ao meu redor.

As noites são longas e cheias de visões transitórias: casais adolescentes de mãos dadas, adultos cansados retornando de seus labores diários, e até mesmo trombadinhas esgueirando-se pelas sombras. Cada figura é um lembrete cruel de uma normalidade que me foi negada.

Hoje, meus passos me conduziram até as barracas iluminadas do mercado noturno. O aroma inebriante de lamen fresco assaltou meus sentidos, evocando memórias há muito enterradas. Por um breve e doloroso instante, lembrei-me de minha mãe na cozinha, preparando aquela iguaria que aquecia tanto o corpo quanto a alma. Minha barriga roncou alto, um protesto de fome que ecoava minha desolação. Mas, desprovido de um único centavo, não pude saciar essa necessidade básica. Dona Izui, em sua severidade, retirou até o mínimo que me concedia como sustento.

Enquanto a fome e a melancolia se entrelaçavam em meu peito, arrependimento profundo tomava conta de mim. Lamentei ter me permitido abrir meu coração àquela garota. Agora, o preço de minha imprudência pesa sobre meus ombros como uma carga invisível, e cada noite vagando pela cidade é um lembrete cruel do erro cometido.

A lua, testemunha silenciosa, observava meu tormento, lançando sua luz pálida sobre minha figura solitária.

Enquanto a escuridão abraçava a catedral imponente, olho para o relógio: os ponteiros marcam 21:30. O sino distante ecoa na noite, lembrando-me do tempo que inexoravelmente avança. Viro-me, os passos pesados e arrastados traçam um caminho solitário de volta para "casa". Cada pisada ressoa nos becos desolados, acompanhada apenas pelo murmúrio do vento.

No trajeto, minha mente, inquieta e atormentada, vaga até ela. Sua imagem delicada e doce surge, perturbando minha consciência. Como estará ela agora? Será que também enfrentou algum castigo? A ideia de sua gentileza sendo esmagada por reprimendas por minha causa aperta meu coração como um punho de ferro. Sinto a culpa crescer em mim, uma sombra sufocante que me acusa silenciosamente: fui incoerente, precipitado.

Quem sou eu para exigir compaixão? Minha própria existência se dissolve em um mar de incertezas. Não vivo mais, apenas existo, arrastado pela correnteza do tempo, aguardando o momento em que serei libertado deste mundo. A perspectiva de minha partida não me entristece; ao contrário, há uma estranha paz em saber que não deixarei ninguém para trás, que meu desaparecimento será como a névoa dissipando-se ao amanhecer. Ninguém se lembrará de mim, ninguém chorará minha ausência. E isso, de certa forma, me consola .

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Cheguei ao meu destino e, ao abrir a porta, o silêncio dominava o ambiente com uma intensidade quase palpável. A ausência de louça na pia e a casa prontamente organizada me surpreenderam. Estranhei as luzes ainda acesas, um sinal de que algo estava fora do comum. Meu coração acelerou com um pressentimento desconfortável, uma sensação de que algo ruim estava prestes a acontecer.

Caminhei pelas sombras da casa, passando pela sala até chegar às escadas. Lá, um detalhe me chamou a atenção: malas estavam prontamente feitas, alinhadas e prontas para partir. O medo se solidificou em meu peito. Será que Dona Izui estava planejando viajar? O som dos meus passos parecia ecoar em um silêncio opressivo. Quando comecei a subir, uma presença ameaçadora fez-se sentir atrás de mim. Era como se um peso invisível tivesse se instalado sobre meus ombros.

Virei-me e vi Dona Izui, sua presença imponente como uma tempestade que se aproxima. Com um gesto automático, reverenciei-a, tentando ocultar a crescente inquietação.

- Pegue suas coisas - ela ordenou com uma frieza cortante. - Você irá para um internato.

As palavras dela soaram como um golpe físico, um choque que quase me fez vacilar. Meus olhos se arregalaram em choque, tentando encontrar alguma mentira, algum sinal de que aquilo não era verdade. Mas seus olhos, frios e implacáveis, não ofereciam nenhuma pista de desonestidade. Eram apenas a mais pura expressão da realidade que eu estava prestes a enfrentar.

- Senhora, eu prometo não ser mais imprudente - implorei, desesperado, caindo aos seus pés. - Não direi mais uma única palavra sem a sua permissão, minha senhora.

A resposta foi brutal e direta. Um chute me fez cair ao chão, a dor penetrando em meu corpo e alma.

- Não ouse implorar, seu verme - ela disse com desdém. - Alguns anos no internato serão ótimos para você.

Dona Izui se virou, a frieza de suas palavras pairando no ar como um veneno.

- Pense pelo lado bom, quando sair de lá, será agraciado pelo governo.

O peso das suas palavras esmagava meu coração. A ideia de ir para o internato, um lugar que eu sabia ser um verdadeiro inferno, era insuportável. A imagem das ruas frias em pleno inverno parecia agora uma opção mais aceitável, um refúgio comparado ao que estava por vir.

Com um sentimento de derrota total, peguei minhas malas e comecei a sair. Antes de deixar aquele lugar que, apesar de tudo, um dia considerei meu lar, me virei para dar uma última olhada. Na janela, com um olhar vago, estava Amy. Ela não me via, seus olhos perdidos em um mundo distante, talvez em um sonho ou uma realidade paralela onde eu não existia.

Eu sussurrei para mim mesmo, na esperança de que ela pudesse ouvir, mesmo que estivesse em outro universo: "Talvez um dia nos reencontraremos em uma vida onde sejamos compatíveis, minha Lua."

Com o coração pesado e uma sensação de que estava deixando para trás não apenas um lar, mas uma parte de mim mesmo.

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Parado em frente ao imenso portão do internato, sinto minhas pernas tremerem sob o peso do medo. O portão, robusto e imponente, ergue-se diante de mim como um muro intransponível de incertezas e temores. Meus olhos percorrem as suas barras de ferro forjado, cujas sombras parecem se estender e engolir a esperança que ainda tento manter acesa.

O medo me consome lentamente. Tudo o que sei sobre o internato são rumores distorcidos e fragmentos de histórias aterrorizantes que ouvi ao longo dos anos. Ninguém que tenha saído de lá voltou para contar o que realmente se passa dentro daqueles muros. As palavras de Dona Izui ainda ressoam em minha mente, uma sentença cruel que ecoa em meu coração: "Alguns anos no internato serão ótimos para você."

Tento buscar coragem em cada respiração profunda, cada inalação de ar frio que parece cortar meus pulmões como lâminas afiadas. A sensação de que a mudança é inevitável paira sobre mim, uma sombra ameaçadora que promete transformar a pessoa que eu sou. Mesmo sem ter encontrado a coragem que procurava, meus pés se movem, arrastando-me em direção ao portão que se abre lentamente, como se estivesse engolindo minha determinação.

A sensação de atravessar o portão é como adentrar um novo mundo, um lugar onde as regras são desconhecidas e o futuro é um mistério obscuro. O ar ao meu redor parece mais denso, carregado de uma expectativa sombria que me faz sentir como se estivesse entrando em um pesadelo ao qual não posso escapar.

Não sei o que me espera aqui dentro, mas uma sensação profunda e instintiva me diz que nada será como antes. O mundo que deixo para trás, com suas dores e esperanças, parece estar se fechando como um livro, e o que está por vir será escrito em páginas em branco, aguardando ser preenchido com experiências que me transformarão para sempre.

Com um último olhar para o mundo que conhecia, que ainda guardava fragmentos de uma vida que já se foi, avanço para o interior do internato. O que quer que me aguarde além desses portões, sinto que será uma jornada que moldará não apenas minha vida, mas também quem eu sou.

Continua..........

Capítulo 3 Guarda‐costas

15 anos depois

O sol estava no auge de seu domínio, pendendo majestoso no céu e lançando seus raios implacáveis sobre a arena. O suor escorria pelo meu corpo, cada gota uma testemunha do esforço e da determinação que pulsavam em minhas veias. Minha respiração era cadenciada e ritmada, cada inalação e exalação um reflexo da concentração que eu havia alcançado. Meus olhos fixavam-se intensamente em um único alvo, e a tensão no ar era quase palpável.

O disparo do sinal soou como uma trombeta de guerra, e eu avancei com a força de toda minha determinação, cada passo me aproximando da batalha que definiria meu destino. Meu adversário, igualmente preparado e feroz, aguardava-me na arena, e o confronto entre nós prometia ser uma verdadeira guerra de gigantes.

O barulho da plateia era ensurdecedor, uma cacofonia de gritos e aplausos que refletiam a divisão de opiniões sobre quem emergiria vitorioso. A excitação no ar era quase tangível, uma mistura de expectativa e ansiedade que envolvia cada espectador. Eu estava ali não apenas para competir, mas para triunfar. Cada músculo em meu corpo estava tenso, preparado para a colisão que se aproximava.

Quando nossos bastões se chocaram, o som ressoou como uma explosão. Os impactos reverberavam em meus braços, a força do golpe sendo um lembrete constante da intensidade da luta. Nossos olhares se encontraram no meio do tumulto, e o que vi nos olhos do meu adversário foi um espelho do que sentia: fúria, determinação e uma necessidade desesperada de vencer.

A luta não era apenas um teste de força física, mas também uma batalha de espíritos. Estávamos ali há anos, acumulando habilidades e experiências, e esta luta era nossa chance de conquistar a liberdade de um inferno que havia se tornado nossa prisão. As histórias de que o vencedor seria nomeado o guarda-costas oficial do governador eram um farol de esperança para todos nós, uma promessa de uma nova vida além dos muros opressivos da arena.

Não era apenas uma competição; era uma oportunidade de transformação, de sair das sombras da orfandade e se elevar a um status de prestígio e segurança. A chance de passar de um órfão sem futuro para um guarda-costas oficial, com todas as vantagens e respeito que isso implicaria, era uma motivação poderosa.

Com cada golpe, cada movimento calculado e cada respiração ofegante, a minha determinação se solidificava. A luta era minha chance de conquistar algo que, até então, parecia inalcançável. Eu não iria perder. Não poderia. Este combate era meu caminho para o triunfo, meu grito de vitória contra um destino que havia tentado me esmagar.

Meu oponente era um homem robusto, com músculos definidos e uma presença ameaçadora. Seu bastão era grande e pesado, um testemunho de sua força bruta. Eu, por outro lado, estava mais ágil, meu bastão mais leve e projetado para movimentos rápidos e precisos. O confronto entre nós prometia ser uma batalha entre força e agilidade, entre poder e precisão.

Meu adversário avançou com um rugido primal, o bastão balançando com uma força brutal. Eu me preparei, antecipando o golpe, e consegui me esquivar com um salto ágil. O bastão dele cortou o ar onde eu estivera, mas eu já estava em movimento, atacando com um golpe rápido que fez com que ele recuasse um passo.

A plateia explodiu em gritos e aplausos, a vibração da multidão era uma força adicional que parecia impulsionar ambos os combatentes. Meus movimentos eram rápidos e calculados, cada ataque uma tentativa de encontrar uma abertura em sua defesa robusta. O adversário, por sua vez, parecia imperturbável, sua força bruta permitindo-lhe resistir aos meus ataques e contra-atacar com golpes pesados que me forçavam a recuar.

No meio da luta, consegui desviar de um golpe particularmente forte, aproveitando o momento de desequilíbrio para desferir um ataque direto. Meu bastão encontrou sua costela, e ele vacilou, um gemido de dor escapando de seus lábios. A oportunidade estava diante de mim, e eu ataquei com uma série de golpes rápidos e precisos, cada um intensificando a pressão sobre sua defesa.

Ele tentou se recuperar, sua força aparentemente inesgotável, mas a exaustão estava começando a mostrar seus sinais. Seus movimentos estavam mais lentos, menos coordenados, e eu percebi que minha estratégia de desgaste estava funcionando. Aproveitei a abertura para aplicar um golpe decisivo, mirando em um ponto vulnerável que eu havia identificado durante a luta.

Com um movimento ágil, desferi um golpe poderoso em seu tórax o fazendo ir ao chão. A plateia prendeu a respiração, o silêncio que se seguiu era quase tão intenso quanto a luta. Eu mantive meu bastão em posição, pronto para qualquer reação, mas ele não se levantou. O juiz se aproximou, verificando a situação antes de erguer o braço em minha direção, declarando-me vitorioso.

O alívio e a exaustão tomaram conta de mim enquanto eu me mantinha em pé, o suor escorrendo pelo meu rosto e corpo, a respiração irregular após o intenso combate. A plateia explodiu em aplausos e gritos de aprovação, a vibração da multidão preenchendo a arena com uma energia renovada.

Olhei para o corpo derrotado de meu adversário, sua respiração irregular e a derrota evidente em seu semblante. A luta havia sido árdua e implacável, mas a vitória era minha. Sentia um misto de orgulho e alívio, uma sensação profunda de realização que se misturava com a exaustão.

Meu nome ecoava por toda a arena, ressoando de boca em boca como uma melodia encantadora. Ah, então é assim que é ser amado? Naquele instante singular, senti-me único, como se o universo inteiro tivesse conspirado para me oferecer esse momento de glória. O anúncio de que eu seria o novo guarda-costas oficial foi recebido por um silêncio inquieto, a euforia efêmera logo se dissipou. Murmúrios de medo e descontentamento começaram a surgir, espalhando-se como uma onda invisível entre a multidão.

De repente, algo colidiu com meu ombro, quebrando o encanto do momento. Ao me virar, percebi que era um tomate podre, seu cheiro ácido e pungente invadindo meus sentidos, mais outros vieram em minha direção. Em um piscar de olhos, os rostos antes sorridentes se transformaram em máscaras de desdém. A multidão, que há pouco me celebrava, agora me vaiava com fervor. Senti uma pontada de desespero e confusão, como se a própria essência de minha identidade estivesse sendo questionada.

Um homem se aproximou, murmurando algo ao juiz com um ar de urgência e preocupação. As palavras trocadas entre eles pareciam selar meu destino. O espetáculo foi encerrado abruptamente, e minha nomeação, que minutos antes parecia uma certeza, agora estava envolta em incerteza e rejeição.

Naquele percebi, com amarga clareza, que para eles eu não passava de um mero objeto de diversão, uma marionete cujos fios eram puxados para seu entretenimento cruel. Como ousavam, em sua arrogância, arrancar de mim minha vitória? O ódio crescia dentro de mim, rugindo como uma tempestade que ameaçava devastar tudo em seu caminho.

Era assim que eles me viam? Apenas um espetáculo grotesco para suas horas de ócio? A raiva fervia em meu sangue, queimando com uma fúria cega. O rancor, espesso como fumaça, enevoava meus pensamentos, enquanto uma tristeza profunda, quase palpável, envolvia-me como um manto pesado. Eu estava afogado num mar de emoções turbulentas, onde cada onda me puxava mais para o fundo.

Minha esperança de sair daquele internato, de deixar para trás aquelas paredes opressoras e, finalmente, conquistar um pouco de respeito como guarda-costas oficial, havia sido brutalmente esmagada. A última faísca de esperança que eu nutria, aquele brilho tênue de um futuro mais digno, fora cruelmente apagada, lançada ao mais profundo e escuro poço do desespero. Estava perdido, traído por aqueles que, por um momento fugaz, acreditei que poderiam me reconhecer.

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A inquietação que me dominava era palpável, manifestando-se em um constante andar de um lado para o outro, como se o movimento pudesse aliviar a tempestade que se formava em meu peito. Quase arrancando os cabelos, eu tentava compreender a situação, enquanto o juiz nos havia conduzido, a mim e a Klaus, para uma sala reservada. Klaus, meu adversário, observava-me com crescente irritação. A perplexidade dominava meus pensamentos: por que eles parecia encontrar tanto prazer em nos ver competir? Seríamos apenas uma fonte de entretenimento para eles? Seria esse o destino que me esperava pelo resto da vida? Tudo parecia bom demais para ser verdade, e a desconfiança corroía minha mente.

- Desse jeito, vai acabar abrindo um buraco no chão - disse Klaus, sua voz carregada de irritação, enquanto seus olhos acompanhavam meu incessante vai e vem.

- O que você esperava? Eu ganhei a luta e não vou aceitar entregar o prêmio a você - respondi, a frustração fazendo minha voz elevar-se enquanto avançava em direção a Klaus

- Talvez eles tenham visto que eu sou mais adequado do que você - desdenhou, seu tom carregado de arrogância.

- E por que acha isso, hein? - retruquei, a raiva começando a ferver sob a superfície.

Antes que a situação pudesse se agravar, o juiz adentrou a sala, seguido pelo homem que nos havia contactado no momento do anúncio oficial. Atrás deles, surgiu o governador, uma figura imponente e sombria que enchia o ambiente com uma presença quase palpável. Ao fitar seus olhos, algo se agitou em minha memória: olhos cor de mel? Onde eu já os tinha visto antes?

Perdido em meus pensamentos turbulentos, fui subitamente trazido de volta à realidade pela voz severa do juiz, que parecia cortar o ar como uma lâmina afiada.

- Existe um motivo muito sério para que você, Tyler, não possa assumir o cargo de guarda-costas - disse ele, olhando-me de cima a baixo com uma expressão de desdém.

- E que motivo seria esse? - retruquei, sentindo a exaltação crescer dentro de mim, a indignação prestes a transbordar.

- Você é um ra... - Sua fala foi abruptamente interrompida por um toque em suas costas. - Quero dizer, você é órfão.

- Exato - interveio o governador, sua voz carregada de uma autoridade fria. - Mas minha filha assistiu à luta, e ela não tolera injustiças, digamos assim.

- E o que isso quer dizer? - perguntei, arqueando uma sobrancelha, tentando decifrar a mensagem oculta em suas palavras.

- Que você será o guarda-costas oficial, mas está proibido de dizer qualquer palavra à minha filha que não seja "sim, senhora".

- Claro, meu senhor - respondi, inclinando-me em reverência, sentindo uma mistura de alívio e temor.

A ideia de desobedecê-lo nem passava pela minha mente, pois conhecia bem as consequências. Anos vivendo nesse inferno haviam me ensinado o preço da insubordinação. As memórias de punições passadas ainda queimavam em minha alma, lembranças de dor e humilhação que eu jamais desejava reviver.

Enquanto o governador se afastava, a sombra de sua presença permanecia, uma constante lembrança do poder que ele detinha sobre minha vida. A missão que me aguardava era tanto uma oportunidade quanto uma prisão, um caminho estreito onde cada passo errado poderia levar a um abismo ainda mais profundo.

Meu coração batia descompassado, os sentimentos em tumulto. A promessa de ser o guarda-costas da filha do governador era um misto de esperança e medo, uma chance de provar meu valor, mas também uma prova constante de minha vulnerabilidade. Eu sabia que minha sobrevivência dependia de minha obediência e discrição, e estava determinado a seguir essas regras, por mais que minha alma gritasse por liberdade.

O olhar do governador, frio e calculista, permaneceu gravado em minha mente. Aqueles olhos tão familiares e ainda assim tão distantes. A sensação de déjà vu era quase esmagadora, como se um fragmento perdido do meu passado estivesse prestes a se revelar, trazendo consigo respostas e talvez mais perguntas.

Continua........

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