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Entre teus lábios

Entre teus lábios

Autor:: Loree Bell
Gênero: Romance
Apenas segurei sua mão e deixei que ele me guiasse com um sorriso travesso e um olhar quente. Eu ardia. Éramos inflamáveis. Indomáveis. Eu não sabia o que o futuro nos reservava, e tinha certa ânsia da juventude de saber tudo o que podia e tudo o que queria, mas naquele instante, me bastava ter certeza de que jamais esqueceria aquele gosto de hortelã, canela e pecado...

Capítulo 1 ― Emily

Alguns anos antes...

Respirei fundo quando desci as escadas do colégio após o sinal anunciar o fim da última aula, corri uma pequena distância antes de chegar ao estacionamento e vê-lo.

Sorri quando percebi que Rob cantarolava baixinho ao som da música alta que vinha dos fones de ouvido presos ao redor da cabeleira loira e casualmente bagunçada que brilhava ao sol.

Tinha a jaqueta de couro jogada sobre os ombros, o jeans escuro rasgado, os coturnos rabiscados de tinta preta junto ao riso irônico que combinava perfeitamente bem com a maneira sensual que seus olhos azuis fitavam-me.

Me aproximei rapidamente quando ele abriu os braços e me agarrou pela cintura, tirei o cigarro aceso que pendia meio solto de sua boca e coloquei entre meus lábios de forma provocativa.

Sorri desafiadoramente enquanto tragava devagar e soltava a fumaça ainda mais lentamente.

― Se dona Ângela visse a santa garotinha dela agora...

― Ela te mataria com as próprias mãos por desviar a filha dela dos caminhos da moral e dos bons costumes... ― peguei o cigarro com as pontas dos dedos e perpassei deliberadamente a língua entre os lábios em um convite.

Ele nunca esperava demais para me beijar e eu amava a forma descontrolada que ele o fazia. Rob enroscou uma mão em minha nuca me puxando para mais perto, como se me beijar, me tocar, me consumir, nunca fosse o suficiente. E eu acho mesmo que não era.

Adorava sentir que éramos insaciáveis, queimando enquanto tudo ao redor se resumia ao toque de suas mãos em mim, seus olhos devorando-me com ardência e sua boca percorrendo minha pele quase com desespero.

― Vamos sair daqui? ― ele sussurrou em meu ouvido enquanto mordiscava a pele sensível.

Eu não precisei dizer. Eu nunca precisava dizer o quanto o queria para que ele soubesse. Apenas segurei sua mão e deixei que ele me guiasse com um sorriso travesso e um olhar quente.

Eu ardia.

Éramos inflamáveis.

Indomáveis.

Ele me beijou de um modo quase selvagem antes de chegarmos até seu carro naquela tarde, e eu pude sentir o gosto de hortelã e canela que vinha de seu hálito ao me roubar o fôlego.

Eu não sabia o que o futuro nos reservava, e tinha certa ânsia da juventude de saber tudo o que podia e tudo o que queria, mas naquele instante, me bastava ter certeza de que jamais esqueceria aquele gosto de hortelã, canela e pecado.

********

Senti o cheiro pungente do mar enquanto fechava os olhos e aproveitava os últimos momentos estirada na areia, o vento agitava as ondas que quebravam na praia e beijava minha pele com um sopro suave. Movi meus dedos dos pés e me estiquei ainda mais enquanto puxava meu cardigã junto ao colo, numa tentativa mal sucedida de me aquecer sentindo cada músculo protestar após mais um dia cansativo de trabalho.

Meio relutante, abri minha mochila surrada e peguei meu celular. A tela trincada, notificações de chamadas não atendidas e muitas mensagens na caixa postal. Eu não queria falar com ninguém, mas o problema é que isso já fazia algum tempo e quando você se isola há o perigo de não apenas habituar-se à solidão, mas de abraçá-la.

Meus dedos tremiam ao passo que dedilhava a tela a procura daquela maldita foto. Eu não sabia o por quê ainda me torturava, mas era quase consolador sentir a pontada de dor que me invadia ao olhar aquela lembrança de um dia feliz. Afinal, alguma prova deveria existir, de um tempo em que eu não era corroída por uma escuridão tão intransponível quanto a que vivia atualmente.

Não consegui desviar minha atenção dos seus olhos, eles sempre me tornaram cativa. Um tom de cobalto intenso que me trazia memórias incríveis e dolorosas na mesma proporção. Mesmo na foto, você me encarava de volta, como sempre fazia. Me desafiava a mostrar o pior de mim, e depois ria quando eu dava o meu melhor nisso.

Algumas lágrimas teimosas insistiam em rolar pelo meu rosto enquanto eu observava a garota sorrindo ao seu lado. Tinha os cabelos ruivos um pouco mais claros do que agora, e um sorriso muito mais convincente também. Os olhos castanhos se iluminavam quando encontravam os seus, bem como o semblante. E doía ver. Doía porque eu não me reconhecia mais naquela garota feliz da foto, apesar de ainda carregarmos o mesmo olhar avelã sonhador, hoje eu sabia que estes sonhos tinham raízes muito mais firmes no chão. Aterradas, para ser sincera.

Na imagem, eu me perdia em seus braços. Enquanto agora abraçava sozinha o buraco que você deixou me consumir de dentro para fora. Não era mais capaz de impedir as lágrimas àquela altura, e também não fazia sentido represá-las. Não agora, que tudo já havia se perdido.

― Rob, o que você fez comigo? ― mal reconheci minha própria voz esganiçada.

Apenas um sussurro breve de um nome pronunciado em um fiapo de voz, era o suficiente para deixar que as lembranças dele tornassem a me assombrar...

Estava tarde, precisava voltar para casa antes que fizesse alguma coisa ainda mais idiota. Não morava tão longe dali, mantinha um pequeno apartamento alugado bem próximo do prédio da Editora em que passava meus dias trancada em frente a um computador, com uma chefe regulando até minhas idas ao banheiro.

No entanto, não era de todo ruim, afinal eu morava perto o bastante do mar para fugir do caos da metrópole aos fins da tarde para assistir ao pôr do sol. O barulho das ondas quase sempre me acalmavam, e ultimamente eu precisava muito disso.

Dividia o minúsculo apartamento com Mirian, minha mais antiga colega de trabalho. Para ser franca, eu não precisava de ajuda financeira com o aluguel, mas ela sim, já que planejava se casar em breve e vivia reclamando que suas prestações e boletos se estenderiam pelos próximos dez anos. Mirian, definitivamente era meu total oposto.

Enquanto eu quase não tinha empolgação para sair, Mirian era a própria agitação em pessoa para me arrastar apartamento afora para os mais diferentes tipos de diversão, como ela mesma dizia. Apesar de eu preferir apenas pegar um cinema e comer algo legal em algum restaurante, na maioria das vezes minhas preferências pouco importavam pra ela, que sempre optava por lugares lotados com caras solteiros para poder ficar a noite toda bancando uma de cupido, até o cara escolhido da vez, perceber minha total falta de interesse e cair fora.

Eu não a culpava por tentar. Afinal, sempre soube que o problema era comigo. Qual mulher solteira de 27 anos não estava afim de se divertir um pouco? Eu era jovem, me considerava bonita ao meu modo e tinha certa lábia quando queria puxar assunto. Mas o problema era exatamente este, eu nunca queria. De alguma forma, talvez eu estivesse mesmo quebrada e despedaçada o bastante para qualquer tipo de conserto ou reparo.

Olhei para o relógio acima da porta da entrada e já marcava oito horas. Sabia que Mirian chegaria apenas mais tarde, devido às milhares de horas extras que estava cumprindo nesta semana. Então aproveitei para preparar o jantar, eu gostava de cozinhar apesar de não ser tão boa quanto deveria, já que fazia isso todos os dias. Mas, eu sobrevivia comendo razoavelmente bem.

Preparei uma rápida salada de macarrão e após um banho quente, coloquei meu prato vazio ao meu lado no sofá enquanto ligava meu notebook, já que ainda tinha alguns arquivos do trabalho para analisar. Não era muito a favor de levar trabalho para casa, mas isso passou a ajudar de certa forma. Desde que a insônia e os pesadelos começaram a alguns anos atrás, costumava redigir pautas e ler artigos enfadonhos até finalmente conseguir pegar no sono.

Meus dedos ágeis sobre o teclado foram ficando mais lentos à medida que um pequeno indício de dor de cabeça começava a dar sinais, levando uma das mãos às têmporas, fechei meus olhos lentamente abandonando aos poucos a consciência, sendo arrastada por pesadelos não tão irreais quanto pesadelos deveriam ser.

Após o que pareceu ser apenas alguns minutos, dei um pulo no sofá, me assustando com o barulho da porta da frente. Ignorei a umidade em meus olhos, e passei o dorso de uma das mãos para secá-los antes que pudesse ser flagrada. Certa vez ouvi dizer que poucas pessoas são capazes de chorar enquanto dormem, pelo menos são poucas que têm a experiência com tanta constância, e infelizmente eu era uma dessas desajustadas que tinha a cabeça perturbada o suficiente para isso. Nem o sono era o bastante para me poupar por alguns instantes de tudo o que minha mente carregava.

Ouvi a chave finalmente girando na fechadura, e logo em seguida vi uma Mirian entrando de forma desajeitada equilibrando perigosamente nas mãos duas bandejas pequenas com um lanche em cada uma, dois copos grandes de Coca-Cola ao lado de sua enorme bolsa de grife da qual tinha tanto ciúme.

― Emy, me ajuda com isso aqui! ― ela gritou e eu rapidamente corri em seu auxílio.

― Como conseguiu subir as escadas carregando tudo isso? ― falei enquanto pegava meu hambúrguer e retornava ao sofá.

― Foi quase impossível! Mas, não resisti desta vez, a dieta vai ter que ficar pra depois. ― ela deu uma grande mordida em seu lanche antes de se jogar no sofá ao meu lado ― Estou tão cansada! ― olhei pro seu rosto abatido e os claros cabelos longos terrivelmente desgrenhados.

― Você devia dar uma pausa em tantas horas extras. Se continuar assim, vai dormir nas trinta primeiras noites da lua de mel e Jered vai querer te devolver! ― vi quando ela finalmente sorriu, ainda exausta, mas agora pelo menos sorridente.

Ela se espreguiçou demoradamente e levou as embalagens vazias para a cozinha, enquanto eu desligava o computador. Peguei meus fones de ouvido em cima da mesa de centro, e fui pro meu quarto enquanto dava play na mesma playlist de sempre, com minhas músicas favoritas.

Encarei o espelho com frustração antes de pegar uma escova para tentar ajeitar o caos que era meu cabelo. Tinha de dar um jeito nele para que pudesse estar pelo menos apresentável na manhã seguinte.

Escovei as longas mechas acobreadas, apesar de ter o cabelo liso e fino, eram volumosos e me davam certo trabalho quando tentava mantê-los devidamente alinhados.

Observei meu rosto no espelho, uma face pálida de feições pequenas. Tinha a testa franzida, e notei para minha infelicidade, que as pequenas marquinhas na pele não estavam mais tão lisas quanto costumavam ser, e agora, havia dois minúsculos vincos entre minhas sobrancelhas. Que ótimo! Pensei de maneira sarcástica enquanto finalmente prendi os cabelos e caminhei até o interruptor para apagar a luz.

Eu sempre tive medo do escuro, mas a escuridão passou a me trazer certa dose de conforto junto ao silêncio. No entanto, agora eu não gostava mais tanto assim do silêncio nas madrugadas em que ainda estava acordada, porque o silêncio me deixava de certa forma vulnerável para escutar a mim mesma, e eu certamente não gostava disso. Eu não gostava porque na maioria das vezes minha mente era um tremendo emaranhado caótico de idéias absurdas demais para serem ditas em voz alta. E se eu não podia dizê-las, eu também não queria ouvi-las.

Havia acontecido tanta coisa comigo, que mesmo lutando bravamente para continuar sendo relativamente 'normal', ― e com normal eu quero dizer mentalmente e minimamente sã ― no fundo eu sabia que algo tinha dado muito errado no meio caminho. Sabia disso porque havia abandonado meus remédios para ansiedade havia menos de dois meses, por não estarem mais me ajudando.

Sabia porque eu não tinha mais medo do escuro como costumava. Pelo contrário, eu não era mais cautelosa como a maioria das pessoas costumam ser e este desprendimento me preocupava porque eu também sabia que é isso o que as tornam prudentes quando necessário. Na verdade eu não queria ser cautelosa, eu não queria me poupar e no meu íntimo uma voz que eu conhecia como traiçoeira dizia que isso era certo. Por isso colocava músicas que pudessem me distrair de mim mesma, e isso era bom, apesar dessas músicas me lembrarem um passado distante.

Um passado que eu me permitia reviver apenas em noites como aquela, em que sentia saudade da garota que eu costumava ser. Saudade o suficiente para querer relembrar, por mais que doesse. Um passado com gosto de hortelã, canela e tristeza, muita tristeza.

Capítulo 2 ― Emily

Queria poder dizer que os raios pálidos do sol entraram pelas frestas da minha janela, refletindo a terna e amarelada luz sob minhas cortinas e me acordaram suavemente. Mas, a realidade era bem diferente disso. Acordei com o despertador antigo tocando às cinco e meia da manhã, neste horário não havia nem vestígio do sol e estava muito gelado, o que dificultava ainda mais pra sair da cama.

Tive que lutar mentalmente para não cair em tentação e usar algumas das minhas desculpas já preparadas para faltar ao trabalho. Normalmente dentre as mais usadas estava uma incomum e urgente consulta ao dentista, mesmo não tendo nada de errado com meus dentes e deixando a Dra. Edna desconfiada, me lançando um indisfarçável olhar de fadiga a cada vez que me via apontar na recepção do seu consultório.

Às vezes sentia falta de quando morava com meus pais, a vida de fato era confortavelmente mais fácil e sem grandes responsabilidades. No entanto, quando lembro todo o tradicionalismo e as rédeas curtas que freavam quaisquer liberdade que eu quisesse ter, não sinto mais tanta falta do conforto que tinha e rapidamente me levanto da cama com a determinação renovada, lembrando das razões que me fizeram sair de casa aos dezessete anos.

Aquela manhã seria um dia importante na Editora, onde os funcionários seriam apresentados ao novo CEO da Nova Escala e respectivamente às suas novas normas para a empresa. Sendo assim, apesar de não ser tão vaidosa, eu precisava usar algo melhor que meu jeans velho e minha camiseta surrada do Star Wars, precisava passar uma boa impressão se não quisesse ser dispensada no primeiro dia com o novo chefe, que segundo boatos, era extremamente rigoroso.

Coloquei minha saia lápis-lazúli que estava um pouco justa demais no meu quadril, já fazia algum tempo que eu não a vestia, certamente tinha ganho uns quilos a mais ao longo dos últimos meses e observei minhas curvas sendo acentuadas pelo caimento do tecido. Coloquei uma camisa social branca para combinar com o terno preto que usava em dias mais 'sérios' do trabalho, e me encarei no espelho com uma expressão carrancuda.

Não estava bom, mas teria de bastar. Procurei meus sapatos de salto alto nude, e me senti elegante quando dei meia volta analisando meu reflexo friamente. Terminei de pentear meus cabelos, que milagrosamente estavam bonitos e reluzentes esta manhã, peguei um pente para alinhar a franja que caía espetada acima dos meus olhos. Nunca gostei muito dos meus cabelos ruivos, pois realçavam algumas poucas sardas em meu rosto, bem como as profundas e arroxeadas olheiras. Eu definitivamente não era a típica ruiva exuberante que vemos na tv. Durante toda a minha adolescência eu pintava os cabelos de preto, mas decidi deixá-los da cor natural desde que os cortei radicalmente há cerca de cinco ou seis anos atrás. Agora eles eram longas cascatas cor de cobre que desciam até o meio das minhas costas. Então, já que decidi usá-los soltos, peguei um pouco de rímel e passei um pouco de corretivo abaixo dos olhos.

Suspirei profundamente enquanto dava uma última olhada no espelho e, atrevidamente, abri os dois primeiros botões da minha camisa de linho. Sorri com a imagem no espelho, me sentindo um tanto ousada ao subir um pouco mais a saia, encurtando sutilmente seu comprimento e escolhendo um batom um tanto mais avermelhado do que eu costumava usar. Estava pronta!

Assim que cheguei na empresa, já estava piamente arrependida pela escolha dos sapatos, já que tive que subir quatro lances de escada pois o elevador tinha que ficar emperrado justo no dia em que estava com o pior sapato e a saia mais desconfortável para caminhar. Quando finalmente abri a porta da minha sala, arfante e certamente corada, já me deparei com uma pilha de papéis sobre a minha mesa e uma colega de trabalho bem irritada à minha frente.

― Será que não podia ter atendido o celular, Emily? Marlene me obrigou a refazer todo o artigo do acidente daqueles skatistas idiotas! Artigo que por acaso já estava feito e você ficou de me enviar ontem a noite! ― podia ver as veias da testa de Júlia saltando a cada palavra ríspida que ela me lançava. Júlia certamente nunca foi um sinônimo de gentileza.

― Eu sinto muito mesmo! Ia te enviar, mas estava tão exausta que acabei esquecendo ― já que a culpa cairia sobre mim de qualquer forma, não me restava outra alternativa a não ser me redimir do jeito que eu sabia que Júlia aceitaria, evitando assim, um estardalhaço desnecessário ― Farei seus próximos dois artigos pra te compensar ― disse, dando-me por vencida aos seus escândalos.

― Eu poderia falar para a Marlene, você sabe que ela não admite esquecimentos ― cuspiu a última palavra com um sorriso mesquinhos nos lábios ― Mas vou deixar passar desta vez, Emily ― me olhou com um ar pavoroso de superioridade ― Te envio por e-mail o tema dos artigos. ― Virou as costas sem sequer esperar uma resposta minha.

Revirei os olhos assim que o vislumbre dos pegajosos cabelos dourados de Júlia ficaram fora do meu campo de visão, ela sabia ser insuportável quando queria. Em geral eu sempre me dava bem com meus colegas de trabalho, mas Júlia abusava da minha paciência com as chantagens que vinha me fazendo ao longo das últimas semanas.

Mais uma vez, decidi ignorá-la e comecei trabalhar nos dois editoriais que estavam na primeira coluna à minha frente e enquanto estava imersa no trabalho, a manhã passou num piscar de olhos. Já tinha três rascunhos concluídos, dois artigos editados em um e-mail pronto para ser enviado ao designer e revisão final.

Guardei meu celular velho na bolsa antes de sair para o almoço, e enquanto caminhava devagar pelos corredores podia ver a agitação atípica do pessoal, que comentavam sobre os mais peculiares boatos a respeito da tão aguardada reunião com o novo CEO.

― Eu estou realmente com medo dessa reunião. E se pedirem pra mim dizer alguma coisa? ― Mirian me encontrou ao fim da escadaria, e nos dirigimos ao restaurante ao lado do escritório.

― Antes de tudo, respire ― notei que ela estava de fato muito apreensiva ― Eu acho que apenas o pessoal da liderança vai participar com opiniões, se não teríamos sido avisados. ― Dei de ombros enquanto sorria para a garçonete que se aproximava com nossos pedidos.

― Arroz, grelhado, salada e suco de laranja? ― assim que anunciou o pedido, Mirian estendeu as mãos, se identificando como a mais saudável da dupla ― Então o x-burguer e a Coca-Cola são seus. ― afirmou, me entregando a bandeja.

Agradeci enquanto Mirian criticava minha escolha de refeição, devia ser difícil pra ela, já que sempre estava de dieta, mesmo sendo bem mais magra que eu. Comecei a comer, rindo das carecas de Mirian enquanto eu fazia questão de exibir um gigantesco pedaço de bacon. Eu ria de suas expressões de repulsa enquanto eu mastigava toda aquela carne mergulhada em molho, e eu continuei sorrindo até que me dei conta de que Mirian agora olhava para mim verdadeiramente horrorizada.

Segui seu olhar, e antes que pudesse ver o que tinha acontecido, senti o molho quente escorregando pra dentro dos botões abertos da minha camisa, antes imaculadamente branca, agora terrivelmente manchada de mostarda.

― Ai meu Deus! Emily! ― Mirian pegou um guardanapo e tentou inutilmente me ajudar com a bagunça, mas seus esforços serviram apenas para piorar e aumentar a grande mancha amarelada.

― Isso está ficando pior! Tem mostarda pra todo lado e não está saindo! ― tentei umedecer um pano para me limpar, mas de nada adiantou. ― Eu vou precisar trocar isso... ― continuei esfregando enquanto checava as horas.

Ainda tinha cerca de meia hora, teria que dar tempo, pensei enquanto peguei minha bolsa e saía apressadamente.

― Qualquer coisa me liga, Emy! Eu te dou cobertura, invento alguma desculpa ― Mirian gritou às minhas costas enquanto eu saia correndo até o estacionamento.

Esbarrei em algumas pessoas que estavam paradas, ou melhor, empacadas pela calçada toda e quase caí umas três ou quatro vezes antes de chegar até o estacionamento e abrir a porta do meu velho Impala 67. Os sapatos não estavam ajudando muito e meus pés estavam doloridos, então os deixei de lado enquanto dava a partida e dirigia feito um ás no volante, agradecida por não ter pego trânsito.

A esta altura meu cabelo estava todo bagunçado, meu batom certamente borrado e minha expressão de desespero com certeza não estava sendo de ajuda. Eu acelerei um pouco mais, dando uma espiada nas horas que pareciam voar enquanto eu atravessava a principal avenida apenas há poucos minutos de casa.

Pisei ainda mais fundo no acelerador na última esquina antes do meu apartamento, e se àquela altura eu achava que o dia estava sendo um verdadeiro desastre, podia esperar pois ele acabaria ficando muito, muito pior mesmo.

Não me dei conta de que estava próxima demais do último semáforo, e muito menos percebi que o sinal acabara de fechar pra mim. Tudo o que eu pude perceber foi o chacoalhar violento e o barulho alto da batida no lado direto do meu carro. Senti todo meu corpo se retesar, paralisada enquanto tomei coragem para abrir os olhos que nem notara que os tinha fechado com tanta força.

Uma pressão estranha na cabeça fazia zunir meus ouvidos, mas aos poucos fui retomando os sentidos e comecei a ouvir as primeiras vozes do lado de fora. Ergui os olhos, piscando algumas vezes um pouco confusa, notando para minha total falta de sorte o magnífico, e absurdamente caro, Audi novo! O qual acertei em cheio e amassei toda a parte da frente da lataria.

― Mas que merda!

Soltei o cinto, observando pela primeira vez que havia um homem ao lado da minha porta batendo repetidas vezes no vidro tentando chamar minha atenção. Ele parecia furioso, e com razão, pensei enquanto finalmente consegui abrir minha porta e equilibrar-me no asfalto quente, lembrando tarde demais de que ainda estava descalça.

― Moça, você está bem? ― a tom hostil não combinava com a pergunta preocupada.

À medida que olhava ao redor, pude ver alguns espectadores curiosos me encarando enquanto conversavam e faziam perguntas sobre o ocorrido ao dono do Audi ― do Audi caro e novo que eu havia arruinado.

Ele ignorava a pequena multidão de curiosos enquanto ainda perguntava se eu estava bem, e depois da segunda ou terceira vez, eu consegui apenas assentir sem muita certeza de como eu realmente estava.

Percebi para minha desgraça que havia batido a porta na perna do homem que me olhava com uma fúria incontida, enquanto eu apenas me encolhia, mortificada de vergonha.

― O que te deu na cabeça pra fazer isso? O sinal estava fechado pra você! ― ele agora gritava enquanto era incentivado pela multidão que concordava com ele.

― Eu... bem...

― Podia ter se matado, sabia? Dirigindo feito uma louca do jeito que estava! ― Ele olhava para mim, os olhos queimando de raiva.

E foi naquele instante, tão rápido e de um jeito tão confuso, que eu o reconheci.

Meu coração deu um salto me deixando de repente sem reação quando de fato encarei seu rosto. O maxilar estava mais marcado e uma barba meticulosamente aparada agora desenhava o contorno do seu queixo, seus lábios continuavam os mesmos assim como os olhos.

Comecei a tremer, sentindo minhas pernas fraquejarem e minha boca tornar-se seca à medida que a realidade do que estava bem diante dos meus olhos me atropelava. Era ele. Parado bem na minha frente. Eu o reconheceria em um milhão de anos, e pelo lampejo em seus olhos naquele exato segundo, soube que ele também me reconheceu.

― Emily? ― foi ele quem quebrou o silêncio, parecendo tão afoito e desestabilizado quanto eu mesma estava.

Ele levou uma das mãos até o cabelo e deslizou os dedos entre as mechas douradas e curtas, um hábito antigo que eu costumava notar, e ele ainda fazia aquilo, do mesmo jeito, deixando-me ainda mais desestruturada. Ouvir sua voz era desconcertante, mas ouvir sua voz dizendo o meu nome, era demais pra mim.

Lutava contra as lágrimas e com a vontade que eu tinha de socá-lo bem no meio do nariz. Me concentrei apenas em respirar por alguns instantes, e me forcei a respondê-lo.

― E-eu vou pagar pelo conserto do seu carro, eu... ― peguei minha bolsa revirada no banco e comecei a vasculhar minhas coisas a procura do cartão com o número do meu seguro.

Eu vi quando ele ergueu as sobrancelhas em surpresa, se aproximando mais de onde eu estava.

― Mas o que? Não, não precisa... Você... ― ele colocou uma das mãos em meu braço, me fazendo parar no mesmo segundo.

Seu toque parecia tão igual, as mesmas mãos suaves e quentes que costumavam me derreter. Eu olhei para sua mão ainda segurando um dos meus braços e me desvencilhei de seu toque com raiva.

― ... Você não está me reconhecendo? ― ele me olhou, abaixando a cabeça para tentar perscrutar meus olhos também.

Havia sinceridade em sua pergunta. Ele estava intrigado, e parecia realmente furioso ao concluir que eu não o reconheceria, podia ver isso em seu olhar nos breves instantes em que eu erguia a cabeça em sua direção.

― Aqui está o telefone do meu seguro, eles vão consertar tudo e...

― Emily! ― Ele me segurou pelo pulso não muito delicadamente, virando-me em sua direção ― Pare e olhe para mim! ― ergueu a voz, soando ríspido, impaciente e talvez desapontado com minha reação.

― Tire as mãos de mim! ― Novamente movida pelo desespero de sair dali imediatamente, eu o empurrei bruscamente me afastando ― Eu tenho que sair daqui, agora!

Dito isso, me enfiei dentro do carro sem sequer ver os danos causados no meu próprio veículo. Eu estava prestes a chorar, odiosamente as lágrimas estavam muito perto de despencar e eu não podia aceitar que ele me visse desmoronar desse jeito. Prendendo um soluço no fundo da minha garganta bati a porta do carro com força e o deixei para trás enquanto acelerava para longe.

Eu tinha de fugir dali, fugir dele, fugir da dor que aquele homem me causava. Dentro do carro sozinha, foi impossível não me entregar ao choro. Eu queria gritar, gritar muito. Gritar com ele!

Por um momento a cortina de lágrimas me roubou a clareza, quase havia me esquecido de que estava indo para a casa trocar a roupa manchada. Então me obriguei a manter calma, mesmo que parecesse impossível, e continuei dirigindo movida pelo choque, pela fúria e confusão em que estavam meus pensamentos.

Quando entrei em casa de modo automático peguei a primeira blusa que encontrei na gaveta, e fui rapidamente ao banheiro jogar água fria em meu rosto, uma tentativa medíocre de melhorar minha aparência desastrosa. Teria mais alguns minutos para me recompor no caminho de volta, então me apressei e juntei forças que nem sabia que tinha para retornar.

Durante todo o trajeto mantive uma batalha árdua para não voltar a chorar. Patético! Meus sentimentos de dor e tristeza cedendo espaço à ira cega que nutria por aquele homem. Ele já havia arruinado minha vida uma vez, eu não podia permitir que destruísse o que restou dela.

Respirei fundo, e senti certo alívio ao deduzir que as chances de vê-lo novamente seriam nulas. Pelo menos neste mesmo dia. Ainda tinha que pensar em como entraria em contato com ele para tratar do conserto do carro, mas quando este dia chegasse eu não seria pega desprevenida outra vez.

E foi com essa postura determinada que entrei correndo na Editora, chegando à sala de reuniões bem na hora em que se iniciaria a próxima conferência.

Mirian estava sentada no fundo da sala, olhando para mim com um misto de espanto e alívio ao notar que apesar do infortúnio eu havia conseguido não me atrasar tanto.

― Ainda bem que você chegou, vem senta ao meu lado, o Daniel reservou um lugar pra gente aqui. ― apontou na cadeira vazia ao seu lado direito e na outra ponta, Daniel sorria ao me comprimentar.

Eu assenti de modo ligeiro, enquanto seu sorriso aumentava. Daniel era um dos funcionários mais respeitados dali, e foi de grande ajuda quando eu ainda estava em fase de adaptação e treinamento na Editora, e eu era grata por isso, apesar das gentilezas dele sempre me parecerem um tanto exageradas demais.

― Você está muito quieta... ― Miriam olhou para mim, me encarando.

Dei de ombros torcendo para que a maldita reunião começasse logo para impedi-la de fazer mais deduções.

― Você andou chorando? ― ela falou baixinho para que apenas eu escutasse.

― Está tudo bem. ― afirmei sem muita convicção.

Em qualquer outra ocasião ela teria me arrancado a verdade com muitas perguntas intrusivas, mas no instante em que ia abrir a boca para fazê-las, Marlene entrou na sala com sua postura imponente e logo o silêncio reinou enquanto ela anunciava a presença do tal presidente, mais conhecido como Sr. Grosseirão e também atrasado, visto que todos já estavam esperando a alguns minutos, como Miriam havia me contado.

Muitos boatos eram sussurrados a respeito do novo presidente, já que sua fama o precedia. Arrogante e prepotente foram alguns dos adjetivos mais mencionados naquela semana, mas para ser franca, eu não me importava com nada daquilo. Não mudaria em nada meu trabalho ou minha postura ali dentro.

E eu estava certa de que definitivamente nada mudaria e de que minha vida pacata e tranquila continuaria sendo a mesma, até erguer os olhos e ver de quem era a mão que Marlene apertava com tanta empolgação.

Meu coração acelerou de uma forma que não fazia mais há tanto tempo. De uma forma que só reagia quando ele o provocava. Foi impossível não soltar um suspiro, e revirar os olhos quando Rob me encontrou naquela sala. Mais uma vez seus olhos nos meus como se tivessem imãs nos conectando, mais uma vez eu me perdendo em seu olhar e pulando em um precipício que só ele me fazia saltar.

Capítulo 3 ― Rob

Alguns anos antes...

Era primavera, e as flores decoravam toda a paisagem ao meu redor. Era impossível não notá-las já que Emily as tinha penduradas atrás da orelha, mesclando-se ao seu cabelo.

Pequenas margaridas pendiam das mechas acobreadas enquanto ela caminhava em minha direção. Eu adorava vê-la ao sol, Emily tornava-se radiante, iluminada, ainda mais quente. Seu cabelo ruivo não era tão alaranjado, apesar dos fios claros, tinham um tom de marrom que me lembrava o Outono. Mais uma vez, quente. Sua pele era rosada, sem muito contraste ao tom dos cabelos. Seus lábios pequenos e preciosos agora sorriam para mim enquanto se aproximava.

Seus olhos... sem dúvida nada se comparava a eles. Ela sempre me dizia que eram castanhos, sem graça, comuns. Mal sabia ela que não tinha absolutamente nada de comum neles. Se seu cabelo e pele eram quentes, seus olhos eram fogo. Brasas vivas me incendiando a cada olhar. Como tudo nela, eram olhos de Outono. Carregavam uma cor avelã única, escura, profunda e que ao sol transformavam-se em um avermelhado perfeito combinando com todo o resto. Minha garota Outono.

― Oi... ― foi tudo o que deu tempo de dizer antes dela se jogar em meus braços.

Seu perfume de lavanda invadiu meus sentidos, e tudo o que pude fazer foi me embriagar nele. Segurei a ponta de seu queixo, provocando-a antes de beijá-la, vendo suas bochechas corarem antes de provar seus lábios. Beijá-la era minha perdição. Era quase impossível parar, eu sempre queria mais dela.

― Ei, Rob... ― murmurou em meus lábios, tentando chamar minha atenção.

Pude sentir o contorno de seu sorriso junto ao meu quando busquei seus lábios e me aprofundei no beijo. Podia sentir todo o meu corpo implorar por ela, sedento, desesperado. Levei uma das mãos à sua cintura, franzindo o tecido leve do seu vestido, erguendo apenas mais um pouco até encontrar a pele suave e tentadora. Soltei um suspiro quando ela ergueu-se na ponta dos pés em minha direção, pedindo silenciosamente que eu continuasse. Tracei um caminho lento dos lábios à pele sensível de seu pescoço, e sorri quando ouvi sua respiração descompassada, assim como a minha.

― Espere... ― ela tinha os olhos fechados, os lábios entreabertos e suplicantes.

Eu não a deixaria escapar tão facilmente. Deixei que meu corpo se amolda-se ao dela, impedindo-a de se desvencilhar enquanto uma das mãos ainda dedilhava a pele nua rumo a um caminho ainda mais tentador. Senti quando ela cedeu outra vez, desestabilizada com meu toque, desesperada por mais. Perpassei um dedo em seus lábios vermelhos e inchados pelo contato, e desci o indicador pelo queixo, passando pelo pescoço delgado e indo até o primeiro botão na parte da frente do vestido.

― Rob, eu tenho algo... ― abri um botão, e me abaixei para plantar um beijo bem ali.

Segui meu percurso, outro botão enquanto Emily descontroladamente me puxava para outro beijo. Um ainda mais ardente. E, menos um botão... eu a trazia para mim sentindo suas mãos em minha nuca, enrolando os dedos em meus cabelos tão perdidamente apaixonada quanto eu estava. Éramos loucos um pelo outro, e eu sentia que nada no mundo podia me fazer tirar as mãos de seu corpo naquele instante, até que ela o fez.

Emily saltou para trás, recobrando o fôlego que eu adorava tirar dela. Olhou para mim com um sorriso e fez um gesto para que eu não me aproximasse.

― Estou tentando dizer algo importante... ― mais um longo suspiro, outro riso perfeito nos lábios.

Ergui as mãos em sinal de rendição.

― Não percebi que eu estava atrapalhando... ― pisquei sedutoramente de uma forma que a divertia.

Ela me olhou com descrença antes de me abraçar. Sentamos debaixo de um velho carvalho na clareira deserta, o lugar em que costumava ser mais que apenas nosso ponto de encontro. Era um refúgio. Segurei sua mão entre as minhas, delicada e pequena.

― O que queria me dizer? ― indaguei, mas logo me arrependi ao ver a preocupação em seu rosto.

― Eu tomei uma decisão! ― disse, tentando esconder a apreensão com uma falsa empolgação.

Eu já sabia onde aquela conversa iria terminar. Por isso tentei evitá-la a todo custo.

― Emy, não tem o que decidir. Você vai embora, é assim que tem que ser. É o certo a fazer e você sabe disso.

Minhas palavras soaram mais ríspidas do que pretendi e me odiei ao ver o brilho em seus olhos sumir por minha causa. No entanto, era isso. Não havia escolha, nenhuma saída ou solução. Nenhuma luz no fim do túnel para nós. E naquele instante, tudo em que eu pensava era em aproveitar o que tínhamos, antes que tudo estivesse irrevogavelmente perdido.

― Então é assim? Você simplesmente vai se conformar? ― ela se afastou do alcance das minhas mãos ― Rob, eu vim decidida a ficar! Eu não sei... Posso me virar sem meus pais e a gente pode dar um jeito, eu só... eu...

Um soluço escapou de seus lábios, e uma lágrima desceu de seus olhos ao mesmo tempo em que meu coração se partia. Eu a abracei. Abracei com força, com amor, com dor. Pois eu sabia bem como aquilo terminaria.

Os pais da garota iriam deixar o país, e em parte eu sabia que um dos motivos era eu. O bad boy vagabundo que a filha exemplar de classe média namorava escondido. Se Emily ficasse, como havia suposto, de que maneira iria sustentá-la se não tinha sequer um emprego? Era apenas um estudante vindo de família humilde que se esforçava por uma bolsa para entrar na faculdade. Era ridículo pensar que poderíamos resolver aquilo de qualquer forma.

Não havia nada que eu pudesse fazer além de abraçá-la como se nunca fôssemos nos separar. Como se ela fosse minha de verdade. Como se as promessas que eu fazia fossem mesmo se cumprir. Sabia que não podia e nem tinha o direito de lhe prometer mais nada, mas quando Emily me encarou com seus olhos marrons cheios de lágrimas represadas, eu não pude evitar uma última promessa, mas esta eu sabia que cumpriria.

― Eu vou te amar pra sempre, Emy. Eu prometo.

********

Fiquei paralisado por alguns segundos enquanto aquela lembrança me arrastava com a força de uma correnteza. Já fazia muito tempo em que aqueles pensamentos não me torturavam mais. Afinal, eu não era mais o filho do meio que tinha que contar as moedas no final do mês para comprar o material escolar mais inferior. Não era mais o garoto desajustado da cidade pequena, o vagabundo. 'Este garoto é problema', diziam às minhas costas e faziam questão que eu ouvisse tais ofensas sobre mim e minha família, que apesar de serem os melhores pais do mundo, não tinham a condição financeira deles.

Atualmente eu era um dos empresários mais promissores do país, tinha uma linha de negócios bem sucedidos por cada estado e mais dinheiro do que eu ou minha família poderia gastar. Nunca mais havia me sentido o garoto pobre e vulnerável até aquele maldito instante em que a vi.

Por muito pouco não cancelei a reunião na Editora quando reencontrei Emily pela segunda vez naquele mesmo dia. Já bastava tê-la visto no acidente quando colidira com meu carro e logo em seguida ter me ignorado como se eu não passasse de um idiota qualquer. Talvez fosse exatamente isso o que eu era afinal, um idiota qualquer. Um idiota que ficou feliz em rever a garota que um dia amou, mas foi pisoteado uma vez mais pelo orgulhoso status familiar. Essa era a única explicação para ela ter reagido de uma forma tão indiferente. Ela não era do meu mundo, nunca havia sido. E se ela era fria o bastante para me tratar daquele jeito, eu também seria. Ou tentaria.

Apesar do reencontro com minha antiga namorada de adolescência quase desestruturar o homem inabalável que me tornei, decidi que iria fazê-la tomar do mesmo veneno.

Me obriguei a não olhar mais em sua direção, pois era arriscado. Muito arriscado, já que estava ainda mais linda do que em minhas lembranças. Seu cabelo havia escurecido sutilmente, um cobre mais intenso, ainda um marrom claro e outonal. Os lábios apesar de não sorrirem sequer uma única vez, ainda pareciam tão apetitosos quanto eu me lembrava e...

― Senhor? Senhor?

Que droga! Chacoalhei a cabeça tentando afastar o calor que tomava conta de mim, quando a voz aguda de Marlene me tirou dos meus devaneios mais idiotas.

― Pode apresentar o painel com as novas estratégias agora... ― ela sorriu um tanto constrangida com minha falta de atenção diante de todos os funcionários.

Eu podia sentir os olhos curiosos enquanto eu me esforçava para seguir com a palestra dos meus métodos e diretrizes, também podia ouvir alguns sussurros e especulações, certamente sobre minha postura digamos um pouco desatenta. No geral eu não me importava com tal atenção, estava habituado a ser o centro dela. Mas decididamente, não hoje. Hoje eu não queria estar ali na frente de todos fingindo que estava tudo bem, porque não estava. Para ser sincero, estava longe disso.

Foi preciso só um segundo de fraqueza, uma leve inclinação de cabeça e um rápido desvio de olhar para que meus pensamentos voltassem a me enlouquecer. Mas ela estava tão bonita...

Que merda! Seus olhos...sempre foram minha perdição, e por mais que eu não quisesse admitir, aquelas duas esferas castanhas ainda tinham o mesmo efeito sobre mim. Eram quentes. Me queimavam. Me faziam arder. Derreter. E naquele segundo, de alguma forma, me fizeram quebrar.

Eu nunca mais a tinha visto desde que mudara para longe com os pais. E revê-la agora, ainda tão parecida com a menina que fora antes, me atormentava de uma forma ridícula. Toda a situação era ridícula.

Eu devia ter perguntado como ela estava, quando a vi mais cedo após o acidente, devia ter perguntado por quê em todos esses anos ela não dera sequer um sinal de vida. Por quê não retornava meus telefonemas. Por quê todas as cartas que eu havia mandado tinham apenas o silêncio como retorno. Mas não. Eu apenas fiquei parado gritando seu nome, assustado demais com o fato de que talvez ela tivesse se esquecido de como costumava me ter em suas mãos.

Idiota! Idiota! Idiota!

Outro erro, olhei mais uma vez na direção dela. Desta vez flagrando seu olhar. Vi quando o tom carmesim tomou as maçãs de seu rosto, e fechei uma mão em punho com força, refreando a vontade deliberada que eu tinha de acolher seu rosto perfeito em minhas mãos. Ela desviou o olhar assim que nossa conexão se tornou constrangedora o bastante para que Marlene e todo o resto da sala nos encarasse. Eu fingi uma tosse, antes de me dar conta de que a co-editora estava a alguns segundos com a mão estirada em minha direção. Eu era um mesmo um idiota!

Apertei sua mão enquanto ela me dizia mais alguns detalhes de sua equipe, como eram pró-ativos e eficientes. Eu assenti tentando ao máximo prestar atenção em suas palavras, mas não podia deixar de questionar como Emily estava estranha. Havia algo de muito errado na maneira que ela olhava para mim, ora desesperada para me evitar, ora afoita para que eu retribuísse a atenção. E em alguns instantes uma curiosa expressão irritada crispava suas feições.

Parecia até que ela estava com raiva de mim. Mas isso era tão absurdo que me vi negando com a cabeça em um gesto veemente, deixando a co-editora, que ainda tagarelava sobre sua equipe, confusa com minha reação. Engoli em seco antes de finalizar a reunião, elogiar o bom desempenho que havia visto das equipes e a disposição de todos. Passei alguns formulários para Marlene, que mantinha um sorriso exagerado demais para mim.

Percebi quando a moça ao lado de Emily cutucou seu braço antes de cochichar algo em seu ouvido. Na verdade, era pra ter sido apenas um sussurro mas pude ouvir claramente quando disse exasperada: "Uau, é ele? O cara é lindo!" Eu quis rir daquilo no mesmo instante, afinal, então Emily tinha falado sobre mim. E independente dos detalhes, aquilo a fez corar até a raiz dos cabelos.

"Vai ficar sentada aí o dia todo?" Ouvi a garota do lado dela indagar, após levantar-se junto aos demais funcionários quando finalmente a reunião havia acabado. Observei quando Emily, ainda extremamente ruborizada, se levantou em um solavanco e rapidamente se dirigiu a porta junto da amiga que caminhava ao seu lado.

"Graças a Deus isso terminou!" Emily disse com um alívio que me pegou desprevenido. Eu também estava aliviado por a reunião ter terminado, mas sinto que por razões diferentes das que ela tinha. Meu suplício era estar em uma sala cheia de pessoas e ter de manter uma postura séria e impassível, quando tudo o que eu queria era ter um minuto a sós com Emily. Mas ela por sua vez, parecia aliviada em finalmente poder sair correndo para longe de mim.

Pensei em apenas permitir que ela fizesse o que claramente pretendia, fugir de mim. Mas, algo idiota o bastante dentro de mim me fez impedi-la, e quando meu dei conta, estava bem diante dela ocupando todo o espaço da porta, barrando-a sem nenhum escrúpulo de sair dali.

― Será que posso falar um minuto com você? ― fiquei surpreso ao ver que tive que reunir muita coragem para dizer aquelas simples palavras.

Ela continuava mirando a porta, parecendo fingir que não era com ela. Se a situação não fosse tão estranha eu teria rido ao ver sua expressão, quase se escondendo de mim.

― Emy, ele quer falar com você... ― a amiga interferiu, o tom de voz em uma nítida reprimenda.

Antes de me encarar, Emily olhou para Marlene que ainda juntava algumas pastas de papéis antes de sair dali. Eu não podia ler seu pensamento, mas àquela altura nem precisava lê-lo para saber que só não iria me ignorar pelo único fato de não poder fazer isso na frente de sua superiora. Eu senti um esboço de sorriso se atrever em meus próprios lábios, mesmo sendo ridiculamente cruel ao querer desesperadamente ignorar minha existência, Emily ainda era formidável.

Ela deu meia volta, parando bem na minha frente. E para minha surpresa, me encarava com uma determinação que há tempos eu não via em ninguém mais. Será que ela podia notar o quanto ainda me afetava? Será que podia ouvir meu coração implacável no peito? Ou apenas sabia que ainda podia me pôr numa coleira com um simples estalar de dedos? Puta que pariu! Eu ainda estava de quatro por ela, enfeitiçado e dobrado enquanto ela me olhasse daquela forma.

Ouvi a porta bater levemente quando Marlene nos deixou a sós, claramente notando que aquela conversa não a incluiria.

― O que você quer, Rob? ― apesar de ter soado ríspida, ouvir meu nome saindo dos seus lábios foi prazeroso.

― Ah, então agora lembrou meu nome? ― foi impossível não provocá-la com uma pontada de ressentimento na voz.

Ela revirou os olhos e pareceu ainda mais irritada do que antes.

― Olha, eu vou pagar o carro, está bem? Não se preocupe. Então não precisa falar mais comigo. Já estamos resolvidos! ― pôs a bolsa nos ombros, indo em direção a porta, numa segunda tentativa de fuga.

Uma tentativa frustrada já que me empurrei outra vez em seu caminho.

― Não quero que pague nada. Não preciso disso. ― sabia que não tinha a necessidade de ter sido tão grosseiro, mas ela despertava o lado mais irracional de mim.

― Então, o que quer?! ― agora ela quase gritava.

Estava nervosa. Abalada.

― Só quero saber a razão disso. ― dei de ombros, aquilo era óbvio demais ― Por que está fazendo isso, Emy?

Aturdida, ela baixou os olhos e por um instante parecia não ter forças para olhar para mim outra vez.

― Pare de me chamar assim... ― sua voz soou fraca, um murmúrio doloroso.

O silêncio tomou conta de nós uma vez mais. Eu não sabia o que dizer. Na verdade eu nunca soube reagir quando via tristeza em seu olhar. Em outras circunstâncias nada precisava ser dito, pois eu a acolheria em meus braços, apanharia suas lágrimas com as pontas dos dedos e a beijaria até que se esquecesse de tudo que a deixava triste. E ela aceitaria meu abraço, retribuiria meu beijo. Contudo, ali na minha frente agora, estava uma Emily acuada e apreensiva, fazendo de tudo para se manter o mais distante possível de onde eu estava.

― Eu não estou fazendo nada! ― ela respondeu, uma nova onda de fúria renovando sua determinação ― Pelo contrário, não sou eu quem está te seguindo! ― acusou, fechando o semblante com uma dureza que só ela sabia fazer.

― O que? Eu não estou seguindo você! Eu nem sabia que você trabalhava aqui. Não sei mais nada a seu respeito... aliás... ― um riso sarcástico e sem um pingo de humor pintou em meus lábios ― Já se esqueceu que quem me deixou sem notícia por todo este tempo foi você? ― retruquei com uma voracidade descontrolada.

Ela fazia isso comigo, sempre me fazendo perder qualquer tipo de controle.

― Não vou falar disso com você! ― afirmou apenas, dando a volta e indo em direção a porta outra vez.

E pela terceira vez a impedi. Desta vez fui mais incisivo. Petulante. Desesperado. Me aproximei, praticamente a encurralando entre a parede sobre suas costas, a deixando sem saída, sem outra opção a não ser erguer os olhos e me encarar de volta.

Fúria. Muita raiva incontida nos profundos olhos castanhos. Havia ódio, um ódio que eu não entendia mas estava ali, muito presente, palpável demais para ignorar. Contudo, também havia algo mais. Mais forte que a ira, mais perverso que o ódio. Fogo.

― Emy... ― eu ergui uma mão até seu rosto, ela parecia tão frágil.

Minhas mãos sequer a havia alcançado, e mesmo antes de encostar minha pele na dela, ela já havia tocado uma parte de mim há muito esquecida. Me assustei com o ímpeto das batidas do meu coração quando perpassei as pontas dos dedos em seu rosto. Ela fechou os olhos por um segundo muito rápido, como costumava fazer e eu me aproximei ainda mais.

Os lábios entreabertos, o peito subindo e descendo rapidamente enquanto me encarava com uma ânsia, uma necessidade que eu estava louco para sanar. Segurei seu queixo com uma das mãos sem nunca deixar seus olhos. Senti meu corpo todo pulsar e ascender quando inconscientemente ela mordeu o lábio inferior, suplicando em silêncio para que eu o fizesse também. Que eu os tomasse, mordiscando a pele rosada, devorando-a com...

― Me demita! ― as palavras saíram atropeladas, abarrotadas e me fizeram sair daquele transe.

― O que? ― eu sorri. E me surpreendi por fazê-lo.

Como ela ainda tinha o poder de me fazer sorrir tantas vezes? Com tanto abandono, com tanta espontaneidade.

― Eu sou sua funcionária. Exijo demissão, estou no meu direito e...

― Emy, não conte com isso. ― parei de sorrir quando percebi que ela definitivamente estava falando sério.

― É simples. Tudo o que tem que fazer é...

― Não vou dispensá-la, nem que me implore. Não tem nenhum fundamento nisso e... ― mais um sorriso, mas agora estava fazendo questão de provocá-la ― eu jamais lhe daria este prazer. ― conclui, convicto.

Ela bufou e bateu um dos pés no chão. Tão teimosa, pensei enquanto assistia ao espetáculo me segurando para não rir outra vez.

― Ah, não? ― decidiu me afrontar desta vez ― Bom, eu posso te acusar de assédio se continuar sendo tão intransigente comigo Robert! ― ameaçou em um tom mordaz.

Ouvir meu nome sendo pronunciado daquela maneira por ela foi meu ponto fraco. Emily só costumava me chamar de Robert em exclusivas ocasiões. Ocasiões das quais acho que ela também se lembrou naquele momento, já que as bochechas escarlates denunciavam seus pensamentos.

Sei que estava sendo imprudente e extremamente brusco, mas não resisti e cedi à atração quando ela ergueu-se na ponta dos pés à medida que eu a enlaçava pela cintura e a trazia para mim. Eu subi ambas as mãos por suas curvas, me deleitando da forma conhecida que Emily se derretia em meus braços, entre meus lábios.

― Se vou ser acusado, não será por algo que não cometi. ― provoquei.

Porque era irresistível demais provocá-la. E eu sempre amei a forma que ela reagia às minhas provocações. Os olhos arregalados em sobressalto, os lábios entreabertos em um brilho de desafio.

Eu estava sendo um cretino, eu sabia disso. E cretino ou não, eu iria beijá-la. A luxúria brilhava em seus olhos da mesma forma que eu sabia que brilhava nos meus, cheguei mais perto. Devagar agora, lentamente coloquei meus lábios sob os dela e a sensação de estar em casa me dominou antes mesmo que eu pudesse experimentá-la. Apenas um encostar de lábios, fora o suficiente para que eu perdesse a cabeça e também fora o bastante para Emily perder a paciência.

Senti apenas o ardor do tapa que ela desferiu no meu rosto. Não podia dizer que não mereci.

― Tente e veja o que eu faço! ― disse ela, se afastando com rapidez, praticamente se atirando para fora da sala praticamente correndo.

Ela quase bateu a porta no meu nariz, e não pôde escutar quando eu fiz outra das minhas promessas ridículas com um sorriso cafajeste nos lábios: "Eu vou tentar, Emy."

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