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Entregue Ao Mafioso

Entregue Ao Mafioso

Autor: ClaraM
Gênero: Máfia
Cleo era uma modelo famosa, desejada por homens que jamais conseguiram alcançá-la. Até um acidente destruir sua carreira e parte de sua visão. De volta ao Brasil, após a morte da mãe, descobre que o padrasto é um traficante endividado. A dívida precisa ser paga. E ele encontrou a moeda perfeita: Cleo.
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Capítulo 1 A Última Noite

ℙ𝕒𝕣𝕚𝕤, 𝔽𝕣𝕒𝕟𝕔̧𝕒 - 𝟚𝟙 𝕕𝕖 𝕆𝕦𝕥𝕦𝕓𝕣𝕠 𝟘𝟚:𝟜𝟟

O flash ainda queimava atrás das pálpebras de Cleo quando ela arrancou o último grampo do cabelo e o atirou contra o espelho do camarim.

"Merde", murmurou, sem saber por que xingava em francês. Talvez porque o cansaço tivesse dissolvido seu português. Talvez porque Paris exigisse performance até no colapso.

O desfile terminara havia quarenta minutos, mas as luzes da passarela ainda pulsavam em sua cabeça.

Saint Laurent. Primavera-Verão.

Ela fora o rosto de encerramento: o vestido preto que cortava a silhueta, os saltos que desafiavam a gravidade, o olhar que dizia eu sei que você me quer e você nunca vai me tocar sem precisar mover um único músculo facial.

Anna Wintour aplaudira de pé. Anna nunca aplaudia de pé.

Cleo puxou o zíper do vestido emprestado -devolveria amassado, que se fodessem - e vestiu a camiseta larga que cheirava a cigarro.

Alguém batera à porta do camarim três vezes nos últimos dez minutos.

A primeira, um jornalista da Vogue Italia querendo uma palavra sobre o futuro da moda brasileira.

A segunda, um fotógrafo implorando por apenas um clique sem maquiagem, para a posteridade.

A terceira...

"Cleo?", A voz era masculina, grave, com o tom de quem estava acostumado a conseguir o que queria. "Sei que está aí. Vi você entrar."

Ela reconheceu o sotaque. Italiano. Milionário. Casado.

"E eu vi você sair da minha lista de prioridades", respondeu, sem abrir a porta. "Arrivederci, Giancarlo."

Os passos dele se afastaram, hesitantes, como se ainda considerasse insistir. Não insistiu.

Eles nunca insistiam depois que ela estabelecia o tom. Esse era o truque: tratá-los como cães. Um comando firme e eles se sentavam.

Os homens que a desejavam formavam uma fila silenciosa que se estendia por continentes, e Cleo aprendera, aos dezessete anos, que o poder não estava em aceitá-los, mas em fazê-los esperar eternamente.

Você é a Gisele Bündchen da nova geração, dissera a Forbes no mês passado, estampando seu rosto na capa. Mas com mais atitude e menos sorrisos.

Cleo não sorria para câmeras. Sorria para sua mãe, quando ninguém estava olhando. Sorria para seu reflexo, às vezes, quando o cansaço não a consumia. Sorria para os poucos amigos que sobraram antes da fama engolir sua agenda.

Porém, para o mundo, oferecia apenas o olhar, o olhar que Anna Wintour aplaudira, o olhar que dizia sou inalcançável e fazia os homens desejarem escalar o impossível.

Pegou o celular.

Trinta e sete notificações. Marcas querendo renovações de contrato. A agência em Milão pedindo confirmação para o voo de amanhã. Uma mensagem de áudio da mãe, enviada às onze da noite, que ela ainda não ouvira.

O estômago revirou. Não era fome, era a vodca barata da afterparty, misturada com o champanhe caro do desfile, formando um coquetel químico que seu corpo ainda processava.

A boca seca. A luz fluorescente do camarim agredindo suas retinas. Latejava uma veia na têmpora direita, insistente, punitiva.

"Idiota", sussurrou para si mesma, massageando as pálpebras com a ponta dos dedos. "Bebeu como uma universitária na noite anterior ao desfile mais importante da temporada."

Mas conseguira. Conseguira porque era Cleo Vasconcellos, e Cleo Vasconcellos não falhava. Nem com ressaca. Nem com três horas de sono. Nem com o coração acelerado pela ansiedade que ninguém via por trás da máscara de confiança absoluta.

O celular vibrou.

MÃE, dizia a tela.

Cleo atendeu no terceiro toque, massageando a nuca com a mão livre.

"Alô?"

"Você chegou?" A voz de Dona Fátima era um calmante, mesmo à distância. Sempre tranquila. Sempre preocupada. Sempre carregando o sotaque mineiro que o tempo no Rio de Janeiro não conseguira apagar.

"Ainda não, mãe. Tô saindo do desfile agora."

"Agora? Filha, são quase três da manhã."

"Três da manhã em Paris", corrigiu Cleo, um sorriso cansado escapando-lhe dos lábios. "Em São Paulo são... onze da noite? Dez? Sei lá. Não me confunde com fuso horário, que minha cabeça já tá confusa o suficiente."

"Você bebeu." Não era uma pergunta.

"Um pouco" admitiu Cleo, porque mentir para a mãe era inútil. Dona Fátima possuía um radar sobrenatural para as fraquezas da filha. "Mas não o suficiente para não conseguir dirigir."

"Cleo..."

"Mãe, eu sobrevivi a três horas de salto agulha numa passarela de quinze metros. Acho que sobrevivo a quinze minutos de carro até o hotel."

Do outro lado da linha, um suspiro. Depois, o silêncio que precedia as perguntas difíceis.

"Filha... você consegue mandar mais cinquenta?"

Cleo franziu a testa. O rubi no dedo indicador, presente de um sheik que tentara cortejá-la em Dubai, brilhou sob a luz quando seus dedos se apertaram ao redor do celular.

"Cinquenta?"

"Mil" corrigiu a mãe, a voz murchando na última sílaba.

Silêncio.

Cleo encostou-se à bancada do camarim, o mármore frio contra as costas.

Cinquenta mil. Mandara cinquenta mil na semana passada. Na semana passada. E vinte mil no mês anterior. E trinta mil antes disso. Para onde estava indo todo aquele dinheiro?

A mansão no Rio de Janeiro estava quitada. A mãe não tinha vícios. Não viajava. Não comprava joias. Vivia uma vida modesta, quase monástica, enquanto a filha acumulava contratos milionários nas passarelas da Europa.

"Mãe...", começou, mas interrompeu-se. Não queria brigar. Não às três da manhã, não com o crânio latejando, não com a boca seca e o estômago embrulhado. "Tá. Eu mando."

"Obrigada, filha. Você não sabe como..."

"Sei. Sei sim." A mentira era automática, ensaiada. Ela não sabia. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Mas a exaustão pesava mais que a curiosidade. "Escuta, vou dirigindo pro hotel. Te ligo quando chegar, tá?"

"Cleo?", A voz da mãe hesitou. "Seu padrasto está aqui."

O corpo de Cleo enrijeceu-se.

Padrasto. A palavra sempre lhe causara urticária. Humberto entrara na vida delas quando Cleo tinha quatorze anos, carregando promessas e um sorriso fácil demais. Ele nunca a machucara, não fisicamente. No entanto, havia algo nos olhos dele, algo na forma como observava o sucesso da enteada, que a fazia sentir-se como um ativo sendo avaliado.

"Ele quer falar comigo?" perguntou, a voz perdendo o cansaço e ganhando um fio de alerta.

"Boa noite, Cleo." A voz de Humberto surgiu na linha, grave. Sempre controlada demais.

"Você está com minha mãe?"

"Estou."

"Aconteceu alguma coisa?"

A pausa foi mínima. Quase imperceptível. Porém, Cleo a notou.

"Nada que você precise se preocupar.", E então, como se lesse o desconforto dela através do Atlântico: "Sua mãe só está cansada. Mande o dinheiro quando puder. Boa viagem de volta."

A ligação caiu.

Cleo ficou olhando para a tela por longos segundos, o polegar pairando sobre o contato da mãe.

Algo estava errado. Algo estava muito errado. Contudo, a ressaca pulsava em suas têmporas, e o cansaço pesava em seus ossos, e Paris estava fria e escura lá fora, e tudo o que ela queria era uma cama de hotel e doze horas de inconsciência.

A mensagem chegou quando ela já estava saindo do camarim, a bolsa pendurada no ombro, os saltos na mão.

MÃE: Te amo. Me liga quando chegar.

Cleo visualizou. Guardou o celular no bolso. Não respondeu.

O estacionamento do Grand Palais estava vazio, exceto pelo Audi preto que a agência disponibilizara - um carro bonito demais para uma motorista cansada demais.

Cleo jogou a bolsa no banco do passageiro, atirou os saltos para o banco de trás e sentou-se ao volante com os pés descalços. O couro frio do assento arrancou-lhe um arrepio.

Devia ter pedido um motorista, pensou, girando a chave na ignição. Devia ter deixado o Giancarlo me levar. Devia ter...

Porém, Cleo Vasconcellos não pedia. Não aceitava. Não dependia. Era essa a sua maldição.

O rádio ligou-se automaticamente, alguma estação francesa tocando uma balada melancólica que ela não reconhecia. As ruas de Paris deslizavam pela janela, molhadas pela garoa recente, refletindo as luzes âmbar dos postes. Quase vazias. Quase pacíficas.

A visão estava pesada. Cleo piscou, tentando afastar o cansaço que se acumulava atrás dos olhos. A boca seca. O estômago embrulhado da bebida. A luz dos faróis dos carros na direção contrária agredindo suas pupilas.

"Devia ter dormido no camarim", murmurou para o retrovisor. "Devia ter..."

O celular vibrou no banco ao lado. Ela olhou.

Apenas um segundo.

Apenas uma notificação qualquer, um email da agência, uma mensagem de um contato desconhecido, nada importante, nada que justificasse o gesto. No entanto, foi o suficiente.

Os faróis surgiram na curva.

Pneus cantando no asfalto molhado.

O freio - tarde demais.

Metal. Vidro. Silêncio.

O silêncio era pior que o barulho. Porque o barulho ela podia entender: o estrondo da colisão, o estilhaçar do vidro, o grito que não sabia se era dela ou do outro motorista. Mas o silêncio era um vazio, uma ausência, um nada que a engolia como uma boca escura.

Sirenes. Distantes, depois próximas.

Alguém gritando em francês - appelez une ambulance, vite, elle perd du sang - e Cleo tentava abrir os olhos, mas algo estava errado, algo estava muito errado, porque um lado do mundo respondia e o outro...

O outro era apenas escuridão.

"Mademoiselle? Vous m'entendez?"

Sim, ela ouvia. Porém, não conseguia responder. Sua boca estava cheia de alguma coisa - sangue, talvez, ou vidro, ou o gosto metálico do pânico.

"Minha...", tentou, e a palavra saiu pastosa, deformada. "Minha mãe..."

Alguém pressionava algo contra sua testa. Gaze. Um pano. Ela não sabia. Só sentia o latejar, a dor que explodia em ondas por trás do olho direito, o olho que não enxergava, o olho que...

"Ne bougez pas, mademoiselle. Les secours arrivent."

Só que ela precisava se mover. Precisava pegar o celular. Precisava ligar para a mãe e dizer cheguei, estou bem, não se preocupe, porque a mãe sempre se preocupava, a mãe sempre esperava, a mãe sempre...

A mensagem.

A mensagem que ela visualizara e não respondera. "Te amo. Me liga quando chegar."

Cleo tentou alcançar o banco do passageiro, onde o celular devia ter caído, mas sua mão não obedecia, seu braço estava preso em alguma coisa, e a escuridão estava avançando, comendo as bordas da sua consciência.

"Elle perd connaissance!"

A última coisa que viu - com o olho que ainda funcionava - foi o céu de Paris através do para-brisa estilhaçado. As estrelas estavam apagadas. Ou talvez fosse ela que estivesse apagando.

E então, nada.

Capítulo 2 Seus Olhos

ℍ𝕠̂𝕡𝕚𝕥𝕒𝕝 𝕕𝕖 𝕝𝕒 ℙ𝕚𝕥𝕚𝕖́-𝕊𝕒𝕝𝕡𝕖̂𝕥𝕣𝕚𝕖̀𝕣𝕖 - 𝟚𝟚 𝕕𝕖 𝕠𝕦𝕥𝕦𝕓𝕣𝕠, 𝟘𝟞:𝟙𝟜 𝕕𝕒 𝕞𝕒𝕟𝕙𝕒̃

A luz era a primeira coisa que doía.

Branca. Fria. Fluorescente. Agredindo sua retina como mil agulhas simultâneas.

Cleo tentou abrir os olhos.

Um obedeceu.

O outro...

''Mademoiselle Vasconcellos?'', A voz vinha de algum lugar acima dela, flutuando, ancorada em um sotaque francês carregado. ''Vous m'entendez? Consegue me ouvir?''

Ela tentou responder, mas sua garganta era um deserto. Alguém aproximou um copo d'água de seus lábios, e ela bebeu com a avidez de quem não bebia há dias - embora não soubesse há quanto tempo estava ali. Horas? Dias? Séculos?

''Minha...'' A voz saiu rouca, irreconhecível. ''Minha mãe sabe?''

Ela forçou o olho direito a focar. O esquerdo... o esquerdo era um borrão cinzento, uma névoa, uma ausência. Como se alguém tivesse desligado metade do mundo.

A enfermeira, uma mulher de rosto anguloso e olhos azuis, trocou um olhar com o médico ao lado. Um olhar que Cleo conhecia bem. O olhar que as pessoas davam quando não queriam dizer a verdade.

''Votre mère... '', começou a enfermeira, e hesitou. ''Sua mãe está...''

O médico tocou-lhe o ombro, interrompendo-a. Era um homem mais velho, de cabelos grisalhos e uma expressão que tentava ser neutra, mas carregava o peso de más notícias.

''Senhorita Vasconcellos'', disse ele, em um português lento e sotaque carregado. ''Há algumas coisas que precisamos conversar. Sobre seu acidente. Sobre sua visão. E sobre...''

Ele não terminou a frase.

Não precisava.

Cleo fechou o olho que ainda enxergava e deixou a escuridão levá-la de volta.

✦ ── 🥀 ── ✦

O olho esquerdo morreu sem despedida.

Os médicos usaram palavras mais suaves - neuropatia óptica traumática, perda permanente, prognóstico reservado, mas Cleo as traduziu para a única língua que importava: nunca mais.

Ela buscou o mundo inteiro nos meses que se seguiram. Não aceitou a sentença. Recusou-se a acreditar que uma colisão de dois segundos pudesse arrancar metade de sua visão para sempre.

''Existem especialistas em Basileia'', dissera uma médica em Paris, com a voz calma, tentando entregar consolo. ''E em Tóquio, e em Boston. Mas, senhorita Vasconcellos, o nervo óptico não se regenera.''

Cleo não ouviu.

Ela voou para a Suíça com o rosto ainda marcado pelos pontos, a pálpebra esquerda inchada, a visão direita embaçada pela fadiga.

Consultou neuroftalmologistas que cobravam mais por uma hora do que a maioria das pessoas ganhava em um ano. Recebeu a mesma resposta com sotaques diferentes.

''Impossível.''

''Irreversível.''

''Temos terapias experimentais, mas as chances são mínimas.''

Ela tentou as terapias experimentais. Passou semanas em clínicas frias, com luzes reguladas e enfermeiras que falavam baixo demais. Acupuntura. Estimulação magnética. Células-tronco em uma clínica particular em Frankfurt.

Ela mandou buscar a mãe.

Dona Fátima chegou a Paris em uma manhã de novembro, carregando uma mala surrada e o cheiro familiar de lavanda e café. Não chorou na frente da filha - não nas primeiras horas. Apenas segurou-lhe a mão e disse:

''Nós vamos dar um jeito, filha. Mãe sempre dá um jeito.''

Cleo acreditou. Porque precisava acreditar. Porque a alternativa - a escuridão, a dependência, o fim - era insuportável.

Humberto não veio.

''Ele ficou cuidando da casa'', explicou Dona Fátima, ajeitando o cobertor sobre as pernas da filha. ''Alguém precisa manter as coisas em ordem por lá.''

Cleo não perguntou que ordem era aquela. Não queria saber. O alívio de não ter aquele homem por perto superava qualquer curiosidade.

Os meses na Europa foram um carrossel de consultas e desilusões. Cleo perdeu a conta dos médicos que a examinaram, dos exames que fez, dos tratamentos que tentou. Cada novo especialista acendia uma fagulha de esperança que se apagava antes do fim da consulta.

''Seu olho esquerdo está morto, senhorita'', dissera um cirurgião em Londres, com a brutalidade de quem não tinha tempo para metáforas. ''O direito pode ser salvo. Por ora. Mas não há garantias.''

O dinheiro que essa mulher gasta em uma semana daria para sustentar meu consultório por um ano, pensou o cirurgião, observando o anel de rubi que Cleo ainda usava no dedo.

Ela o vendeu na semana seguinte.

O sheik de Dubai nunca soube que seu presente acabara em uma casa de leilões em Londres, convertido em libras que pagariam mais uma rodada de exames inúteis.

A agência em Milão ligou três vezes. Na quarta, Cleo mandou a secretária dizer que estava se recuperando. Na quinta, a secretária não ligou mais.

O estilista francês que a chamara de musa enviou flores uma vez. Depois, substituiu-a por uma garota de dezesseis anos vinda de Novosibirsk.

O mundo da moda fechava suas portas com a discrição de quem troca um vestido por outro.

E Cleo, sentada em quartos de hotéis que pagara com o dinheiro de uma vida que não existia mais, começava a entender o que significava ser só mais uma história bonita demais para durar.

Capítulo 3 De Volta à Terra Natal

ℝ𝕖́𝕧𝕖𝕚𝕝𝕝𝕠𝕟, ℍ𝕠𝕥𝕖𝕝 ℂ𝕠𝕡𝕒𝕔𝕒𝕓𝕒𝕟𝕒 ℙ𝕒𝕝𝕒𝕔𝕖 - ℝ𝕚𝕠 𝕕𝕖 𝕁𝕒𝕟𝕖𝕚𝕣𝕠, 𝔹𝕣𝕒𝕤𝕚𝕝 - 𝟛𝟙 𝕕𝕖 𝕕𝕖𝕫𝕖𝕞𝕓𝕣𝕠, 𝟚𝟛:𝟜𝟟 𝕕𝕒 𝕟𝕠𝕚𝕥𝕖

O Brasil a recebeu com calor e indiferença.

Cleo desembarcou no Galeão em uma tarde de dezembro, usando óculos escuros que cobriam metade do rosto. A mãe caminhava ao seu lado, carregando a própria mala e a da filha, insistindo que estava tudo bem, que não pesava, que a filha não precisava se preocupar.

"Mãe, deixa eu..."

"Fica quieta, menina. Eu sou forte."

E era. Dona Fátima sempre fora forte. Forte o suficiente para criar uma filha sozinha depois que o pai de Cleo fora embora. Forte o suficiente para trabalhar em três empregos enquanto a menina desfilava em concursos infantis. Forte o suficiente para aceitar Humberto em suas vidas, anos depois, quando a solidão apertara demais.

Cleo nunca conheceu o pai. Sabia apenas que ele a abandonara quando era bebê. A mãe nunca falava dele. Uma fotografia antiga, escondida no fundo de uma gaveta, mostrava um homem de sorriso torto e olhos claros. Nada mais.

A mansão ficava no Jardim Botânico, um bairro nobre cercado de verde, onde as casas respiravam dinheiro velho e frescor tropical.

Cleo a comprara meses atrás, no auge da carreira, com o dinheiro de três desfiles e uma campanha de perfume. Presente para a mãe. Presente que Humberto agora ocupava como se fosse dono.

"Vem ficar com a gente, filha", insistiu Dona Fátima, pela décima vez desde o desembarque. "É a sua casa."

"Vou ficar no hotel, mãe. Já reservei."

"Mas por quê? Tem tanto quarto vazio..."

Cleo não respondeu. Não olhou para a casa. Não olhou para a mãe. Manteve os olhos fixos no muro alto, coberto de hera, atrás do qual aquele homem aguardava.

"Porque eu preciso de silêncio", mentiu. "E o hotel tem os fisioterapeutas perto."

Era uma desculpa esfarrapada. A fisioterapia era duas vezes por semana. O hotel ficava a quarenta minutos da clínica. Mas Dona Fátima aceitou. porque aceitava tudo o que a filha dizia, porque o amor a fazia cega para as mentiras mais óbvias.

Humberto apareceu na varanda da mansão, acenando.

Cleo viu apenas um vulto escuro, borrado, uma mancha parada atrás do gradil.

Foi o suficiente para que seu estômago se contraísse.

"Vamos, filha", chamou Dona Fátima, tocando-lhe o braço. "Ele quer te ver."

"Eu preciso descansar."

A desculpa soou fraca até para seus próprios ouvidos.

Porém, a mãe assentiu, e o táxi as levou para o Copacabana Palace, onde Cleo se trancou em uma suíte com vista para o mar que ela não conseguia ver direito.

Passou a virada do ano sozinha.

A mãe ligou às onze e quarenta e sete.

"Feliz Ano-Novo, filha!", A voz de Dona Fátima estava alegre demais, carregada demais, como se tentasse compensar a ausência. "O Humberto fez uma ceia maravilhosa. Você tinha que ver."

"Não como peixe, mãe."

"Eu sei. Fiz peru assado. Sua receita favorita."

Cleo ouviu a voz de Humberto ao fundo, algo sobre abrir o champanhe. Imaginou-o servindo a mãe, tocando-lhe o ombro, sorrindo aquele sorriso de bom marido que Cleo nunca conseguiu acreditar.

"Te ligo amanhã, mãe."

"Cleo..."

"Feliz Ano-Novo."

Desligou antes de ouvir a resposta.

A queima de fogos em Copacabana explodiu lá fora, transformando o céu em um espetáculo distante que Cleo via apenas como manchas coloridas e incertas contra a escuridão.

Ela nunca vai morar aqui de novo, pensou Humberto, girando a taça de champanhe entre os dedos. E é melhor assim. Quanto mais longe dela, menos perguntas.

Mas ele sorriu quando a esposa voltou à sala.

"Ela está cansada, coitada", falou Dona Fátima, sentando-se ao lado do marido. "Aquela viagem desgasta qualquer um."

"Claro, meu bem. Ela precisa de tempo."

Humberto beijou a testa da esposa, e o gesto pareceu ternura.

ℍ𝕠𝕤𝕡𝕚𝕥𝕒𝕝 𝕊𝕒̃𝕠 𝕃𝕦𝕔𝕒𝕤 - ℝ𝕚𝕠 𝕕𝕖 𝕁𝕒𝕟𝕖𝕚𝕣𝕠, 𝔹𝕣𝕒𝕤𝕚𝕝 - 𝟙𝟜 𝕕𝕖 𝕗𝕖𝕧𝕖𝕣𝕖𝕚𝕣𝕠, 𝟙𝟝:𝟚𝟘 𝕕𝕒 𝕥𝕒𝕣𝕕𝕖

A cirurgia era a última esperança.

Não para o olho esquerdo - esse estava morto, enterrado, perdido para sempre. Mas para o direito, que ainda carregava cerca de oitenta por cento da visão original.

''Podemos tentar uma vitrectomia com reparo da retina'', explicou o cirurgião brasileiro, um homem de óculos de aro fino e mãos que gesticulavam como se desenhassem no ar. ''Há risco de piora. Sempre há. Mas sem a cirurgia, existe a chance de descolamento espontâneo nos próximos meses.''

''E com a cirurgia?'', perguntou Cleo.

''Com a cirurgia... talvez estabilize. Talvez recupere um pouco da visão periférica. Talvez.''

Aquele talvez custou mais dinheiro do que Cleo gostaria de admitir. Ela assinou os papéis com a mão trêmula, pensando na comida no quarto do hotel, nas contas de hospital, na aposentadoria que se aproximava como um trem sem freio.

''Você não precisa fazer isso sozinha, filha'', dissera a mãe na véspera. ''Deixa eu ir com você.''

''Eu preciso, mãe. Eu preciso.''

A cirurgia durou quatro horas.

Quando Cleo acordou, o mundo era uma névoa vermelha.

''Houve uma complicação'', disse o médico, a voz distante, submersa. ''Uma hemorragia intraocular durante o procedimento. Conseguimos controlar, mas...''

O silêncio era pior que o resto.

''Senhorita Vasconcellos, sinto muito. O olho direito perdeu aproximadamente setenta por cento da visão. Talvez recuperemos uma fração com o tempo, mas...''

A voz continuou, mas Cleo não ouvia mais.

Setenta por cento.

Do olho bom.

Significava que ela tinha agora, no total, cerca de trinta ou quarenta por cento de visão em um olho. O outro era escuridão total.

O mundo encolheu.

O mar de Copacabana tornou-se uma mancha cinza. Os rostos das pessoas viraram borrões sem traços. Os corredores do hospital eram túneis de luz e sombra, desprovidos de profundidade.

Cleo passou três dias sem falar.

A mãe sentava-se ao lado da cama, segurando-lhe a mão, rezando baixinho, sussurrando preces que Cleo nunca aprendera. Humberto aparecia na porta do quarto, um vulto escuro e imóvel, observando.

''Ela está assim desde ontem?'', indagou a mãe, a voz embargada.

''Desde a cirurgia'', replicou Humberto. ''O médico disse que é normal. Choque. Vai passar.''

Porém, a voz dele era fria. Distante. Como se descrevesse um objeto quebrado que em breve precisaria ser descartado.

Cleo não disse nada. Não podia. As palavras estavam presas em algum lugar entre o pânico e a escuridão, e nenhuma delas queria sair.

✦ ── 🥀 ── ✦

Ela se aposentou em silêncio.

A notícia correu os bastidores da moda como um boato mórbido. Cleo Vasconcellos volta ao Brasil. Cleo Vasconcellos perde a visão. Cleo Vasconcellos abandona as passarelas. Cleo Vasconcellos some.

Ninguém ligou para perguntar se ela estava bem.

Os agentes que antes a disputavam agora não retornavam emails. As modelos que dividiam camarins e champanhe em Paris sumiram como fumaça. Os homens que prometiam mundos e fundos - os sheiks, os milionários, os estilistas apaixonados - evaporaram-se com a notícia de que a nova Gisele não era mais a nova Gisele.

Ela era apenas uma mulher de vinte e dois anos, legalmente cega, vivendo em um hotel que custava mais do que podia pagar, com um futuro que encolhia a cada manhã.

''Estou falindo, mãe'', admitiu Cleo uma noite, ao telefone. ''O dinheiro da Europa está acabando. Os tratamentos comeram tudo.''

''Vem pra casa, filha. Eu já disse tantas vezes...''

''Eu não volto pra lá.''

''Ele não vai te incomodar. Eu prometo.''

Cleo riu, uma risada curta, amarga, que ecoou no quarto vazio.

''Mãe, a senhora nem sabe quem é aquele homem.''

''Humberto é meu marido há doze anos, Cleo. Eu sei quem ele é.''

''Então por que ele não tem emprego? Por que vive do MEU dinheiro? Por que...''

''Cleo, para!''

O silêncio era um abismo entre as duas.

Depois de um longo minuto, a voz da mãe voltou, suave, quebrada:

''Filha, eu sei que você nunca gostou dele. Mas ele me faz companhia. Ele cuida de mim. E você... você vive longe, vive no seu mundo. Eu fico sozinha aqui.''

A culpa pesou nos ombros da menina.

Cleo fechou os olhos - o esquerdo não precisava, o direito via apenas borrões - e deixou o telefone escorregar entre os dedos.

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Ela se mudou para a mansão exatamente sete meses depois do retorno ao Brasil.

A razão foi brutal, definitiva, esculpida em um exame de sangue que Dona Fátima fizera por insistência da filha.

''Câncer'', dissera o médico, a voz neutra, ensaiada. ''Pâncreas. Estágio três. Vou ser franco: as chances são baixas.''

Cleo segurou a mão da mãe quando o veredito afundou.

Dona Fátima não chorou.

''Eu já desconfiava'', murmurou, os olhos fixos em um ponto distante. ''Há meses sinto uma pontada aqui...''

''Mãe, por que a senhora não me disse?!''

''Você já sofria demais, filha. Não queria te dar mais um peso.''

Cleo usou o que restava do dinheiro da Europa para pagar os melhores oncologistas do Rio, depois de São Paulo, depois de uma clínica em Houston que oferecia esperança a preços impossíveis. Nada deteve o avanço da doença.

Ela se mudou para a mansão porque precisava ficar perto. Porque a mãe estava definhando, e o medo de perdê-la superava o medo do homem que vivia sob o mesmo teto.

O quarto de Cleo ficava no fim do corredor, distante da suíte principal onde a mãe e Humberto dormiam. Ela raramente saía de lá. Quando saía, era para acompanhar a mãe às sessões de quimioterapia, para cozinhar quando a mãe não conseguia, para segurar-lhe o cabelo quando os fios caíam em tufos sobre o travesseiro.

Humberto observava de longe.

Sempre de longe.

Eles mal trocavam palavras.

''Bom dia, Cleo.''

''Humberto.''

Era só isso. Dias inteiros se passavam com um cumprimento seco e um olhar que a fazia encolher-se por dentro.

Na frente da esposa, ele era perfeito. Solícito. Carinhoso. Preparava chás, arrumava cobertores, segurava a mão da esposa durante as consultas. Um anjo, diziam as enfermeiras. Que marido dedicado.

Porém, Cleo via o que ninguém via.

Via quando ele saía do quarto da mãe e o sorriso morria antes de a porta fechar. Via quando ele contava o dinheiro que a mãe guardava na gaveta - o dinheiro que Cleo mandava, o dinheiro que deveria ir para os remédios, mas que desaparecia em suas mãos. Via quando ele voltava tarde da noite, cheirando a cigarro barato e algo mais, algo adocicado e químico que a fazia trancar a porta do quarto.

''Aquele homem é perigoso, mãe.''

Dona Fátima suspirava, cada vez mais fraca, cada vez mais cansada.

''Ele é tudo o que eu tenho, filha. Além de você.''

''Eu estou aqui, mãe. Eu estou aqui.''

Mas a mãe já estava longe, em algum lugar entre a dor e os analgésicos, entre a vida que fora e a morte que se aproximava.

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A morte chegou sem alarde.

Cleo estava sentada ao lado da cama, como fazia todas as noites, segurando a mão da mãe. A mão estava fria, mas ainda tinha pulso, um fio de vida teimoso que se recusava a partir.

Humberto estava no quarto ao lado, dormindo. Ou fingindo dormir. Cleo nunca soube ao certo.

A mansão estava em silêncio, exceto pelo suave sibilar do ventilador de teto e pelo canto distante de um sabiá nos jardins. O cheiro era de remédio e lavanda, a lavanda que a mãe sempre usava, agora misturada ao odor adocicado da doença.

''Filha...'', A voz da mãe era um fio, quase inaudível.

''Estou aqui, mãe. Estou aqui.''

Dona Fátima virou o rosto no travesseiro, os olhos encontrando o borrão que era a filha.

''Promete... que vai ficar bem.''

''Eu prometo, mãe.''

''Ele...'', A mãe hesitou, os lábios secos tentando formar as palavras. ''Ele tem... dívidas. Muitas dívidas. Eu não sabia... não queria...''

''Mãe, não fala. Descansa.''

''Preciso te contar... sobre o Humberto. Ele não é...''

A voz se perdeu.

Cleo apertou a mão da mãe, sentindo os dedos frágeis, os ossos, a pele fina como papel.

''Mãe?''

O silêncio era uma resposta.

Cleo olhou para o rosto da mãe, para a boca entreaberta, para os olhos que já não viam mais. A presença que preenchia o quarto, que preenchia o mundo, que preenchia todos os vazios da vida de Cleo... se foi.

No instante seguinte, o som que saiu de Cleo não era humano.

Era um uivo, um lamento, um grito que parecia vir de um lugar muito mais profundo que a garganta. Ela se atirou sobre o corpo da mãe, as lágrimas escorrendo, as mãos agarrando o lençol, o rosto afundando na curva do pescoço que ainda estava morno.

''Não! Mãe, não! Não me deixa! MÃE!''

Humberto apareceu na porta, o rosto uma máscara de choque perfeitamente coreografado.

''Ela se foi?'', perguntou, a voz embargada de forma convincente.

Cleo não respondeu. Não conseguiu. O mundo encolhera a um único ponto de dor, e tudo o mais era borrão - o quarto, o homem parado na porta, o sabiá que cantava lá fora, indiferente.

Finalmente, pensou Humberto, os olhos fixos na mulher curvada sobre o corpo da esposa. Finalmente posso cuidar dos meus negócios sem essa velha atrapalhando.

Mas ele se aproximou, tocou o ombro de Cleo com a leveza de quem consola, e disse:

''Sinto muito, Cleo. Eu a amava também.''

Ela se encolheu sob aquele toque, como se a mão fosse feita de serpentes.

A mãe estava fria agora.

O funeral foi uma manhã cinzenta no Cemitério São João Batista, com um céu baixo e um calor abafado que prometia chuva.

Cleo usou óculos escuros, não por vaidade, mas para esconder o olho morto e o que restava do outro, vermelho de tanto chorar.

Poucas pessoas apareceram. Algumas amigas antigas de Dona Fátima, vizinhas com flores e palavras de conforto vazio. Nenhum amigo de Cleo. Ninguém da moda. Ninguém do mundo que ela dominara.

Humberto ficou ao lado dela o tempo todo, mão em seu ombro, cumprimentando os presentes com a dignidade de um viúvo exemplar.

''Sua mãe era uma santa'', disseram várias pessoas.

''Era'', concordava Humberto, enxugando um olho seco.

Cleo não disse nada.

Quando a chuva finalmente caiu, fina e insistente, ela permaneceu imóvel diante da sepultura, observando a terra molhada engolir o caixão.

O cheiro de terra molhada e flores podres subiu até ela, misturando-se ao perfume de lavanda que insistia em permanecer em suas roupas.

''Vamos, Cleo'', chamou Humberto, segurando-a pelo braço. ''Você vai pegar chuva.''

Ela se soltou.

''Não me toca.''

A voz saiu fria, cortante, a primeira frase completa que ela dirigia a ele em semanas.

Humberto não insistiu. Apenas sorriu, o sorriso que Cleo conhecia bem demais, o sorriso de quem estava esperando.

''Como quiser.''

E voltou para o carro, deixando-a sozinha na chuva.

Cleo ficou ali até os coveiros terminarem o trabalho. Até a última pá de terra. Até o mundo inteiro parecer uma sepultura aberta e silenciosa.

Então, sem rumo, sem dinheiro, sem carreira, sem a única pessoa que a amara incondicionalmente, Cleo Vasconcellos percebeu que estava verdadeiramente sozinha.

E que o homem que a observava da janela do carro, aquele maldito sorriso nos lábios, agora era o único senhor de sua vida.

A escuridão nunca fora tão completa.

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